Episódios de Duas e Tanto

Michelle Bolsonaro joga Flávio na fogueira: "Ele me humilhou"

25 de junho de 202625min
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Neste episódio de Duas e Tanto, Carol Pires e Marina Dias analisam o vídeo em que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro acusa o enteado, Flávio Bolsonaro, de tê-la humilhado e maltratado ao telefone após uma divergência política sobre a eleição no Ceará. O empurrão da madrasta desestabiliza Flávio, que é pré-candidato à Presidência da República e já andava na corda bamba desde que foram reveladas suas relações com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

#MichelleBolsonaro #FlavioBolsonaro #Eleições2026 #Lula #DuasETanto

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Participantes neste episódio3
C

Carol Pires

Host
M

Marina Dias

Host
S

Speaker E

Convidado
Assuntos7
  • Impacto do vídeo de Michelle na campanha de FlávioFlávio Bolsonaro · Mulheres conservadoras · Eleitorado feminino evangélico · Rejeição eleitoral
  • Michelle Bolsonaro acusa Flávio BolsonaroMichelle Bolsonaro · Flávio Bolsonaro · Vídeo de acusação · Humilhação e maus-tratos · Divergência política · Eleição no Ceará
  • Saúde de Bolsonaro e pressão políticaPL Mulher · Formação política de mulheres · Eleições municipais · Discurso espiritualizado · Subordinação a Jair Bolsonaro
  • Crise na campanha de Flávio BolsonaroFlávio Bolsonaro · Escândalo do Banco Master · Daniel Vorcaro · Pedido de R$134 milhões · Queda nas pesquisas
  • Resposta de Flávio Bolsonaro à acusaçãoFlávio Bolsonaro · Michelle Bolsonaro · Nota de desculpas · Respaldo de Jair Bolsonaro · Evento com mulheres
  • Disputa pelo espólio eleitoral de Jair BolsonaroJair Bolsonaro · Michelle Bolsonaro · Filhos do Bolsonaro · Herança política · Disputa familiar
  • Crise na família BolsonaroJair Bolsonaro · Michelle Bolsonaro · Flávio Bolsonaro · Estratégia de liderança · Casos de família
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?Voz A

Tô te ligando para a gente falar da Michele Bolsonaro, que publicou ontem um vídeo longo contando por que que ela rompeu com Flávio Bolsonaro, enteado dela, né, pré-candidata à presidência. Ela disse que foi desrespeitada, maltratada. E esse vídeo sai logo quando o Flávio já tá sangrando, né, com escândalo do Banco Master, porque ficou provado que ele trocava áudios, mensagens com o Vôr Caro, dono do Master, e pediu nada menos que R$134 milhões, supostamente para fazer um filme.

Ele desde então tá caindo nas pesquisas. Então esse vídeo da Michelle foi um babado na família, um babado no mundo evangélico, no PL, no xadrez eleitoral. Bora falar disso?

CPCarol Pires

Bora! Eu sou Carol Pires, eu sou Marina Dias, e esse é o Duas e Tanto. Todas as terças e quintas eu e a Carol a gente se liga para falar de um tema da política que tá bombando de um jeito fácil, acessível, rápido, para que todo mundo consiga entender e participar do debate. Esse é um podcast rapidinho, 15, 20 minutos, o tempo de você passar um café. Sigam a gente no canal da Carol no YouTube, @piriscarol. Sigam a gente no Instagram, @duasetanto, e em todas as plataformas de áudio.

?Voz A

Duas e Tanto é uma produção da Zarabatana Studio, com distribuição do Estúdio Novelo. Amiga, antes de começar, olha meu brinco!

CPCarol Pires

Que lindo!

?Voz A

Ganhou de presente! Ganhou! Enquanto você não pega os seus, eu tô usando todos. Esse é da Bertaga e elas mandaram 4.

CPCarol Pires

Ai, que lindos!

?Voz A

É que eu já usei, não te contei. Maravilhoso! E depois a gente vai usar outros que a gente ganhou. É também da Dri Trivelato. E aí são vários.

CPCarol Pires

Maravilha! Quando eu for aí na semana que vem, a gente vai fazer essa divisão de bens lindíssimos, todos a nossa cara, coloridos.

?Voz A

Depois a gente vai usar todos. É a divisão de bens, eu já escolhi, né, amiga?

CPCarol Pires

Mas tudo bem, tudo bem, não tem problema. Todos são lindos, então eu vou ficar feliz, amiga.

?Voz A

Vamos lá, porque tem muita coisa para falar do vídeo. E aí eu acho que você pode, vamos dividir, você pode começar contando o que que ela diz, né? Acho que é legal também a gente analisar meio que a ordem dos fatos, como ela encadeou esse vídeo, analisar a escolha das palavras também, que são muito bem escolhidas para falar com um público específico ali onde o Flávio já ia mal, e analisar acho que também as motivações desse vídeo, que ela fala ali muito da briga no cenário eleitoral do Ceará, onde ela criticou uma possível aliança do PL com o Ciro Gomes, mas A gente não é só sobre o Ceará, né? Vamos começar pelo vídeo?

CPCarol Pires

Vamos, amiga. Mas só um contexto rapidinho de que a gente sempre fala aqui, né, no Duas e Tanto, que os filhos do Bolsonaro e a mulher do Bolsonaro, a Michele, brigam muito entre eles pelo espólio eleitoral do Jair Bolsonaro, que tá preso e não pode ser candidato. Mas esse episódio, amiga, na minha avaliação, é o mais grave até agora, porque leva essa disputa a outro patamar e mostra que a Michele Bolsonaro ainda tem fome para ser ela a herdeira política de fato do marido, né?

Então esse bapho de agora é a Michele expondo publicamente pela primeira vez de maneira premeditada, como você disse, é um vídeo longo de quase meia hora, né, com escolha de palavras, ordem do que dizer. Ela pensou, ela sentou, ela estudou, e aí ela fez.. E esses elementos que a gente vai analisar do vídeo podem ter um impacto muito forte na campanha do Flávio à presidência da República. Mas vamos aos fatos para a gente entender esse embrólio todo.

Esse vídeo de quase meia hora, a Michele Bolsonaro diz que o Flávio a desrespeitou, a maltratou, e deu a entender que ele não quer o apoio dela para candidatura dele à presidência da República. Guardem essa informação, né, porque a gente vai entender a partir daí porque que essa está muito além das disputas pontuais. Mas antes, vamos dar esse passinho atrás para explicar o contexto dos fatos narrados pela Michelle. Ela diz, amiga, que essa briga começou lá atrás, no ano passado, quando o PL, o partido dela, do Bolsonaro e dos filhos do Bolsonaro, fez aliança com Ciro Gomes no Ceará.

O Ciro Gomes, a gente lembra, era um político mais à esquerda. Lembra quando era assim? Ele foi ministro do Lula no primeiro mandato do Lula.

?Voz A

Quando a gente levava o Ciro Gomes a sério, que ele era ministro, ouvia ele como fonte, ele parecia coerente.

CPCarol Pires

Pois é, mas ele deu uma guinada, né, à direita, e agora vai sair candidato ao governo do Ceará apoiado pelos Bolsonaro. Pois bem, a Michele não gosta desse apoio, diz que o Ciro já xingou Bolsonaro de, aspas, ladrão de galinhas, corrupto e jumento. E que eu não lembrava disso.

?Voz E

Ele chamou o meu marido de ladrão de galinhas, de corrupto, de burro, de jumento. Diz que Bolsonaro roubava gasolina, disse que as esposas de Bolsonaro seriam todas ladras, disse que os filhos do meu marido, os meus enteados, eram corruptos, que eram ladrões. E deu a eles um apelido: ovos de serpentes nas estoides.

CPCarol Pires

E que não faz sentido, segundo a Michele, se aliar a alguém que já falou tudo isso, do Jair Bolsonaro. Então ela defende no Ceará a candidatura do senador Eduardo Girão, que é do partido Novo, um nome que a Michele diz ser o único da direita para o governo no Ceará. Bom, no ano passado, quando essa costura tava sendo feita, o Flávio e a Michele discutiram pelas redes sociais. Muito mais. Só que a Michelle disse que essas críticas do Flávio a ela foram feitas sem que ele fosse falar pessoalmente com ela antes, e que na época ela até tentou ligar para ele para que eles conversassem, mas que ele não teria atendido a ligação de primeira.

Bom, aí no vídeo publicado nessa semana, ela diz que quando ele retornou a ligação foi para humilhá-la. Dizer que ela não entendia nada de política, que tinha chegado ontem na vida pública e que ela tinha que ficar de fora dessas decisões do partido.

?Voz E

Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou ao telefone, e eu não tinha feito nada contra ele. Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido, disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política.

CPCarol Pires

E aí, no vídeo, ela completa, aspas da Michelle, porque eu acho que a chave está aí, né? Aspas dela: "Diante dessa humilhação, eu disse a ele que estava tudo bem, entendi que ele não queria o meu apoio e que este era insignificante. Então, me recolhi, fiquei na minha e assim permaneço." E aí vocês me perguntam: "Nossa, por que ela está falando agora de uma coisa que aconteceu no ano passado?" Bom, tem a versão dos aliados da Michele de que já tem muito tempo que ela tá aguentando os ataques dos filhos do Bolsonaro calada, e que os dois, ela e o Flávio, iriam para um evento no mês que vem, amiga, no Ceará, e que os aliados do Ciro Gomes estavam planejando que ela fosse vaiada no evento, criando um constrangimento para ela.

Então que ela teria se antecipado a isso e feito o vídeo. Mas o fato é que a Michele escolheu fazer isso como Como você disse, no momento em que a campanha do Flávio Bolsonaro tá fragilizada com as revelações que ele pediu dinheiro para o Daniel Vorcaro, dono do Master. Então é um momento difícil para o Flávio, que é quando ele tá buscando fôlego, amiga, quando ele tá buscando apoio, porque muitos aliados dele, apoiadores, gente do mercado financeiro, gente do centrão, acha que a candidatura do Flávio pode não decolar, né?

?Voz A

Vamos até dar um passo atrás, né? Quando ainda estavam fazendo as pesquisas para entender quem da direita era mais competitivo, né, contra o Lula, teve um momento ali que a Michele era a mais competitiva. O Centrão queria que fosse o Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, mas que não se descompatibilizou do cargo, então não pode mais disputar a presidência. E aí em algum momento surge o Flávio dizendo que o pai dele tinha mandado ele vir a público dizer que ele era o candidato, pegou um monte de gente de surpresa.

E naquele momento, a gente até fez um episódio sobre isso, o mercado financeiro não queria o Flávio, o próprio Centrão não queria o Flávio. Então, se tava muito difícil achar que essa candidatura ia ser viável, mas por W.O. ela virou.

CPCarol Pires

E aí, por escolha do Jair Bolsonaro, que não queria que ela fosse a candidata, né, achava que era o Flávio ali quem brigaria por ele até o fim. Então, tirá-lo da prisão.

?Voz A

Essa crise também foi um momento que a gente viu ali, né, o Zema pulando fora do— Zema, governador de Minas, pulando fora do barco do Flávio. O Caiado fez ali uma crítica dura, não chegou a anunciar, né, a criticar tão diretamente. Mas então é isso, é o momento que se alguém dessa turma, dessa coalizão, quisesse livrar do Flávio Esse é o momento, né?

CPCarol Pires

Mas os dois pilares que eu queria analisar desse vídeo é, primeiro, timing, que é isso que a gente tá falando, né? Sair neste momento trazendo debates, discussões e desavenças do ano passado. Porque nesse momento, por ser esse momento, momento de fragilidade, e também porque a Michelle sabe disso, né? Ela tem muita força entre as mulheres conservadoras Mulheres, que é um flanco em que o Flávio precisa e tenta crescer. As mulheres, amigas, são maioria no Brasil e nas igrejas, e como a gente sabe, influenciam o voto de quem elas cuidam, de muitos ao redor delas.

Ou seja, podem e devem ser a chave numa eleição tão disputada como a eleição presidencial desse ano. Só para a gente ter uma ideia, as pesquisas mostram que o Lula tem 41% das intenções de voto entre as mulheres entre as mulheres, enquanto Flávio Bolsonaro tem 24%. Mas 13% das mulheres dizem que ainda não sabem em quem vão votar. Então tem aí espaço para disputa. E o Flávio Bolsonaro tava ancorando uma das principais estratégias da campanha dele em trazer essas mulheres, em tentar conquistar essas mulheres.

Só que a Michelle é um símbolo para muitas delas, né, para muitas dessas mulheres. E ter esse símbolo dizendo que um candidato a maltratou, a desrespeitou, e parece não querer o apoio dela e não levar a opinião dela em consideração, pode ser mortal para candidatura dele, né?

?Voz A

Exato, amiga. Eu acho que eu vou fazer uma análise do discurso, né, analisando assim o que que ela falou, as palavras que ela escolheu, e como que o público dela entende essa mensagem, né, como o discurso dela foi construído para esse público, um público específico. Então, como é que ela monta a história? Ela começa falando que em 2023 ela recebeu um convite do Valdemar da Costa Neto, que é presidente do PL, um dos maiores partidos do Brasil.

Valdemar, um dos maiores e mais antigos operadores políticos do Brasil, é um cara muito safo. E então ela foi convidada pelo Valdemar para assumir o PL Mulher, ou seja, ela recebeu uma missão Né, o que que a Michele faz? Ela pega o PL, o Valdemar dá para ela um orçamento ali de quase de R$1 milhão por mês para ela trabalhar. Isso faz parte ali de um fundo, por lei os partidos têm que colocar pelo menos 5% do orçamento para a formação política de mulheres.

Então é esse dinheiro que ela tá usando. Para não dizer que é só obrigação, os partidos não cumprem. Hoje o que acontece é que se você não usa esse dinheiro esse ano, você vai ter que usar o que não usou esse ano no próximo ano. Então eles vão empurrando com a barriga e é isso. Então não é pouca coisa que eles têm realmente dando esse 1 milhão, em volta de 1 milhão para Michele, para o PL Mulher. E ela realmente está usando esse dinheiro para a formação política de mulheres conservadoras, informar novas candidatas lá nos municípios, lá na ponta, para crescer.

Porque assim, no Brasil, a força municipal, os municípios são uma força nacional. Talvez a maior. E aí, o que que ela fala depois disso? Que teve resultado.

?Voz E

Nós pintamos o Brasil de rosa e os resultados vieram. Nas eleições de 2024, elegemos 45,8% mais mulheres do que em 2020. Com pouco mais de um ano de trabalho, foram 1.005 mulheres eleitas. A semente que plantamos começou a frutos. E fico feliz quando vejo esse fruto chegando a todos, incluindo ao pré-candidato Flávio, que hoje é bem recebido e apoiado por nossas meninas do PL Mulher nos estados.

?Voz A

E aí, que que ela fala depois disso? Recebi essa missão política, entreguei resultados, mas aí veio, ela fala, agravamento das medidas contra o galego, que é como ela chama o Jair Bolsonaro. E aí fala que mesmo com travamento das medidas, né, da prisão domiciliar e da tornozeleira e tudo isso, o Jair pediu para ela continuar viajando, levando a mensagem. Então ela faz aí um contraste entre: sou uma esposa muito atenta ao meu marido que tá passando por dificuldade, mas nem por isso estou deixando de fazer política a pedido dele.

Isso é muito importante, que ela o tempo todo ela tá colocando que é um pedido do Jair. Então ela tá sempre numa missão. Não é um projeto pessoal. As palavras que ela escolhe são para dar a entender isso. E aí ela fala de novo, né, o Jair vai transferido para PF. Segundo ela, ele tem reação a uma medicação e mexe na tornozeleira.

CPCarol Pires

Tentou soldar, né, com uma solda, ele tentou soldar a tornozeleira.

?Voz A

E aí é quando acontece essa situação, Ceará, que você contou com Ciro Gomes. E aí, quando ela volta à Brasília, ela fala que essas postagens coordenadas dos filhos e essa ligação ríspida aí do Flávio, né, ela chama isso de punhalada. E ela fala que o que que o Flávio disse aí? Que ela não entende nada de política. Então, veja bem, por que que ela começou se apresentando como essa mulher que foi convidada para o PL e que conseguiu esse resultado de mulheres eleitas.

Para depois, quando ela chegar na parte que é essa ligação ríspida do Flávio falando que ela não entende de política, ela já falou lá em cima: meu bem, se eu não entendo de política, como é que eu fiz isso aqui, né? Então vê como ela foi encadeando, como você falou, ela estudou para fazer esse discurso, né? Ele foi muito bem planejado por ela, por um marqueteiro, enfim, isso aqui é um movimento político planejado. Então ela fala que voltou, se recolheu, né, que a prioridade dela é a família, que ela nunca quis ser candidata.

Então de novo, o que que ela tá querendo dizer aqui? Que não é um projeto pessoal. Isso casa muito com que a antropóloga Jaqueline Teixeira disse para gente no episódio que a gente fez semana passada sobre a Michele Bolsonaro e o voto das mulheres conservadoras, porque é esse eleitorado, apesar dele não ser monolítico, não vota todo mundo igual, mas tem pontos em comum entre todos. E é um eleitorado que tá crescendo, é cada vez mais importante no xadrez político.

E aí a tese da Jaqueline, que é exatamente a chave da leitura do vídeo da Michelle, que essa aparente contradição entre ser uma leoa, como ela no palanque, e ser a esposa submissa, essa aparente contradição para esse público ela é falsa, porque é uma mulher que sim se sacrifica pela família, mas ela não esvazia a potência política, ao contrário. A Jaqueline até fala para gente assim, é que o slogan dela é mulheres comuns fazem grandes coisas.

CPCarol Pires

Então é isso, podem fazer coisas extraordinárias, né?

?Voz A

É isso, podem fazer coisas extraordinárias. Então isso é uma imagem política de muita força e representatividade junto ao público feminino evangélico, que temos que prestar atenção porque é um público que pode definir a eleição. E aí fazer até um parênteses, né, amiga, porque assim, o índice de rejeição do Flávio é muito grande O índice de rejeição do Lula é muito grande. Então, num eventual segundo turno entre os dois, se fosse hoje, quem ganhar vai ser por uma margem pequena, porque os candidatos não têm espaço para crescer, né?

E a Michele não tem rejeição, então ela tem muito espaço para crescer. Então esse voto, esse público feminino evangélico, tá ali nessa meioquinha, nesse meio que tá sendo disputado para quem vai ganhar por pouquinho. Ou perder por pouquinho. E aí, dentro dessa, do jeito que ela concatenou ali o discurso, eu quero frisar também a escolha muito específica do vocabulário, que ele parece propositalmente despolitizado e ele é bem espiritualizado.

Você pode ver que ela fala em missão, chamado, ela fala em propósito, ela fala em perdão, aí ela fala em libertação, em servir, em Deus.

?Voz E

É o meu Deus Deus, que essas pessoas prestarão contas. Perdão é libertação, não é obrigação. Minha prioridade agora é cuidar da minha família, do meu marido que está precisando de mim. Meu futuro político está nas mãos de Deus, ele providenciará tudo. As dificuldades nos fortalecem e a esperança tudo vence. Eu amo a vida de cada uma de vocês, mulheres alicerçadas.

?Voz A

Aí ela faz toda essa construção de ser uma esposa fiel, mãe, antes de ser líder política, né? Ela fala que ela é mãe, mãe, esposa. Então ela se coloca ali não como alguém que tá disputando o poder, e ela neutraliza a acusação de que ela tá atropelando o Jair. Eu acho que isso aqui é o eixo de tudo, que ela é uma subordinação declarada ao Jair Bolsonaro, né? Ela fala explicitamente: em matéria de política eu faço somente o que ele e eu combinamos.

Ou bom, então a pergunta, né, o Jair combinou com ela de jogar o Flávio ao mar? Então assim, o efeito é: ela tá se blindando, então ela não tá agindo sozinha, logo ela não tá desautorizando ninguém, e ao mesmo tempo ela se coloca ali como uma verdadeira intérprete da vontade do Bolsonaro. E essa autoridade dela vem justamente da subordinação, da submissão que ela se coloca. Olha que discurso para o público dela é muito bem amarrado, né?

E aí acho que a última coisa que eu colocaria, amiga, acho que eu fechei aqui minha análise de discurso e de uso das palavras, mas assim, o nome da Michelle tava sendo testado nas pesquisas eleitorais, mas já tinha aí uns 5 meses que não aparecia mais, porque o Flávio tava se consolidando e os institutos de pesquisa pararam de medir a intenção de voto na Michelle, mas agora voltaram. Então acho que isso é um sinal, uma leitura de quem analisa eleição a partir de dados eleitorais, de pesquisa quantitativa, de que o nome dela volta a ser viável.

CPCarol Pires

Perfeito, amiga. Eu acho que para fechar, a gente pode dizer o que o Flávio disse, né? Porque teve a resposta do Flávio. Primeiro, amiga, o Flávio divulgou um vídeo de camiseta da Seleção Brasileira de futebol sorrindo dizendo que era dia de jogo, porque o Brasil jogou ontem com a Escócia. Vamos, Brasil! Foi 3 a 0. Então ele disse: hoje é dia de jogo, nada nem ninguém vai me aborrecer. Esse foi o primeiro vídeo dele, mas depois ele mudou de tom e soltou uma nota negando que tenha humilhado a Michelle, disse que nunca teve a intenção de ofendê-la mas que se ele a ofendeu, então ele pede desculpa.

E ele falou que entende a angústia da Michelle, né, que ela, como se ela tivesse então colocando todas essas situações pela angústia dela em ver o marido dela na situação que ele tá. Ele disse que desavenças acontecem em todas as famílias, mas que todas as decisões dele— e aí ele repete essa estratégia da Michelle— o Flávio diz que todas as decisões dele tem o respaldo do Jair, do Jair Bolsonaro. E por fim, ele falou que tá de coração aberto e que é um evento, fazer um evento com mulheres, com a presença dela, Michele, porque o Flávio obviamente entende a importância desse eleitorado para campanha dele e para disputa presidencial, e entende a importância da madrasta, da Michele, para esse eleitorado. Então assim estamos nesse momento.

?Voz A

Bom, então, se os dois estão respondendo ao Jair Bolsonaro, se os dois estão tomando todas as decisões com a anuência dele, será que ele tá colocando os dois para brigar de propósito? Porque daí eu diria vai Jair, porque tá animado, né? Animado, ele animou o noticiário.

CPCarol Pires

É, exato, amiga. Isso acontece com os grandes líderes, né? A gente sabe, por exemplo, que o Lula sempre colocou ali os aliados dele que que disputavam um lugar para serem o sucessor dele, para brigar. Quando em algum momento, né, especulava-se que depois desse Lula 3, a Simone Tebet e o Fernando Haddad eram nomes para substituir o Lula, ele colocou os dois para serem ministros praticamente da mesma área, para os dois ficarem brigando. Então é um costume, mas fica mais interessante quando vira casos de família.

?Voz A

Cristina, né?

CPCarol Pires

Porque aí, no caso dos Bolsonaro, é a mulher dele, o filho dele, né? Enfim, essa é a pergunta de 1 milhão de dólares, né? Jair Bolsonaro autorizou Michele, como ela disse que só segue autorizações dele, né? Por isso tô dizendo assim: Jair Bolsonaro autorizou Michele a soltar esse vídeo?

?Voz A

Brincadeiras à parte, amiga, é muito importante a gente ficar de olho em todas as movimentações, em todos os partidos, em todas as correntes, mesmo os extremistas de direita. Porque entender todos os lados, entender os fenômenos, entender por que que essas pessoas conquistam tantos votos e têm tanto apoio, é entender política.

?Voz B

Claro.

?Voz A

Então, até a próxima, amiga.

CPCarol Pires

Até semana que vem.

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