As mulheres evangélicas podem decidir 2026? | Jaqueline Moraes Teixeira responde
Neste episódio de Duas e Tanto, Carol Pires e Marina Dias recebem a antropóloga e teóloga Jaqueline Moraes Teixeira para entender qual o perfil das eleitoras evangélicas e por que o voto delas pode ser decisivo nas eleições de 2026, e como Michele Bolsonaro se tornou um fenômeno político compreendendo o que quer esse segmento do eleitorado.
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- Papel da mulher em religiõesPerfil demográfico (idade, raça, etnia) · Diferenças entre igrejas pentecostais e neopentecostais · Importância das igrejas garagem · Preocupações com família e métodos contraceptivos
- Voto evangélico em eleições brasileirasInfluência do voto evangélico nas eleições · Diferenças de voto entre homens e mulheres evangélicas · Frente Parlamentar Evangélica no Congresso · Bolsonarismo e o eleitorado evangélico
- Lideranca PoliticaMichele Bolsonaro como fenômeno político · A imagem de 'mulher comum' de Michele Bolsonaro · A comunicação de Michele Bolsonaro · Diferenças entre Michele Bolsonaro e Damares Alves
- Participação política das mulheresA disputa entre as palavras 'feminismo' e 'feminino' · Movimento Feminino Conservador Brasileiro · Pautas históricas do feminismo adotadas pela direita · A oposição ao aborto como definidor do 'feminismo'
- Afeto na políticaA importância da imagem na representação política · A relação entre políticas sociais e voto · A percepção da esquerda como anti-religiosa · A ideia de família como bem e direito
- Damaris Alves· SociedadeDamares Alves como liderança política · O papel do PL Mulher · Formação política para mulheres conservadoras
- Masculinidade Contemporânea e Silêncio PolíticoA crise da masculinidade · A masculinidade de Flávio Bolsonaro · A relação entre masculinidade e cuidado · A imagem de Flávio Bolsonaro como 'Bolsonaro do Senado'
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Oi amiga, oi amiga, tô te ligando para a gente fazer mais um episódio especial de entrevista. Então hoje é 3 de junho, mas a gente vai colocar o episódio mais para frente porque você tá saindo de férias. E hoje nossa entrevista vai ser com a Jaqueline Moraes Teixeira, uma pesquisadora que todo mundo que se interessa por política no Brasil devia estar acompanhando de perto. Então ela é cientista social, cientista política, ela é teóloga, e ela tá olhando para um fenômeno, amiga, que é dos mais decisivos da política brasileira hoje, que é como as mulheres evangélicas pensam, votam, como elas constroem suas vidas.
Porque não tem como entender o Brasil sem entender as igrejas, não tem como entender as eleições sem entender as igrejas, e não tem como entender as igrejas sem entender as mulheres nas igrejas. Bora! Eu sou Carol Pires.
Eu sou Marina Dias. E esse é o Duas e Tanto. Todas as terças e quintas eu e a Carol a gente se liga para falar sobre um tema da política que tá bombando, de um jeito fácil, rápido, acessível, como um papo entre amigas que somos. Sigam a gente no canal da Carol no YouTube, @pirescarol. Sigam a gente no Instagram, @duasetanto, em todas as plataformas de áudio.
O Duas e Tanto é uma produção da Zarabatana Estúdio com distribuição do Estúdio Novelo.
Jaqueline, bem-vinda! Oi, gente, muito bom estar aqui com vocês, estou muito feliz.
Antes de começar, eu queria meio que abrir um mapa assim para quem tá ouvindo entender o contexto maior do que a gente vai falar, para a partir daqui ficar tudo mais claro. Então assim, segundo o último censo do IBGE, que foi em 2022, o Brasil tinha 47 milhões de evangélicos, então um em cada 4 brasileiros, né? Isso deve ter crescido porque é de 2022 e deve ter crescido porque vem crescendo há décadas, né? Então, na geração passada dos meus pais, eram 7% do Brasil, então menos de um a cada 10.
Hoje são um entre 4. Então essa é uma grande transformação religiosa no país. E enquanto a população católica tá envelhecendo a maior proporção de evangélicos são jovensíssimos. Então eles vão continuar crescendo em número, né? Agora, os evangélicos obviamente não são um bloco monolítico. Eles não pensam igual em tudo, eles não têm o mesmo nível de engajamento na igreja, eles não votam todos em quem o pastor manda. Você fala, né, Jaqueline, que não gosta dessa formulação voto evangélico porque ele apaga essas diferenças, mas acho que quando a gente acaba falando, né, eleitor evangélico, é porque tem alguns temas em comum entre a maioria, como família, sexualidade, e acho que acabou se convencionando, né, falar eleitor evangélico.
Bom, e quem se aproveita muito bem desses temas em comum entre eles é o Congresso. Então ali, a frente parlamentar evangélica hoje é quase metade da Câmara de Deputados. Eles estão em 15 partidos e eles são bem maiores do que todos os partidos de esquerda juntos, né? E dessa bancada evangélica, pouquíssimos são da base de apoio do Lula, né? E aí eu chego nas eleições, que na eleição de 2022, a última, né, 65% dos evangélicos votaram no Bolsonaro, 31% no Lula.
Mas sem o voto evangélico, então, né, sem o voto evangélico, a esquerda simplesmente não fecha a conta eleitoral. Mas tem aí uma fissura interessante nessa votação, porque em 2022 a maioria das mulheres evangélicas votou no Lula. Então quem pesa esse voto evangélico, entre aspas, para o lado do bolsonarismo são os homens. Então aí que a gente chega na sua pesquisa sobre o voto da mulher evangélica. Então acho que eu começaria por aí: quem é essa mulher evangélica do Brasil de 2026?
Ai, ótimo, porque eu acho que é muito importante quando a gente está falando dessas pessoas, a gente conseguir de alguma maneira ter um entendimento melhor da imagem delas, né? E como vocês mesmos disseram, na nossa história, por uma série de questões, até por um certo, um quesinho assim de um certo preconceito com as pessoas evangélicas no geral, se convencionou essa imagem, né, de uma senhorinha com coquezinho, com uma saia bem compridona, né, e uma camiseta de mangas, cores não muito combinantes, uma espécie de uma estética que representa muito pouco quem são as mulheres evangélicas hoje no Brasil.
Então estamos falando de mulheres, na maioria, porque elas são a maioria, e quando a gente tira essa palavra "evangélico" e a gente vai para o que a gente costuma chamar de denominação, Porque dentro desse grupo tem várias igrejas diferentes. Então, quando a gente divide por igreja, sei lá, Assembleia de Deus, Universal, Batista, ou por aí vai, esse número de mulheres pode crescer ainda mais. Então, quando a gente está falando das igrejas pentecostais e neopentecostais, a gente está falando, por exemplo, de igrejas que nacionalmente vão ter mais ou menos 68%, 70% do seu público como mulheres.
Outra coisa importante: O perfil étnico-racial. Então, também, na maioria dessas mulheres se reconhecem como mulheres negras, pretas e pardas. Dentro desse grupo, a gente vai ter um número maior de mulheres pardas do que de mulheres pretas, mas esse perfil, ele é um perfil nacionalizado. Ele se concentra mais em algumas regiões do país, mas nacionalmente, em todas as regiões, vai ter um percentual sempre maior de mulheres negras do que mulheres brancas no público evangélico.
Outra característica importante: o perfil geracional, a idade dessas pessoas. Essas mulheres, elas estão concentradas entre 15 e 45 anos.
Jovens, são jovens.
Além de serem jovens, está falando de mulheres que estão no mercado de trabalho, que têm uma vida produtiva, que estão preocupadas, por exemplo, né, com modelo de família, métodos contraceptivos, casamento. Consequentemente, a violência doméstica. E mais, também é importante a gente pensar, porque quando a gente está falando evangélicos, a gente imagina também uma igreja gigantesca, como essas igrejas que a gente vê na TV, que a gente apelida de mega churches, que são igrejas muito grandes, com lideranças muito conhecidas, essas lideranças bafônicas que ficam dizendo um monte de coisa, que estão sempre aparecendo em algumas tretas, né?
Silas Malafaia, Edir Macedo. E aí a gente fica mais ou menos com a impressão também que esse público está completamente dentro dessas igrejas e que segue apenas essas lideranças. Mas é importante a gente entender que grande parte do público evangélico brasileiro se encontra no que a gente chama de igrejas garagem. Que são essas igrejas pequenininhas que às vezes funcionam na garagem de alguém, na laje de alguém, porque são essas igrejas, né, que conseguem de alguma maneira existir em qualquer espaço, né, em espaços mais periféricos e por aí vai.
Jaqueline, queria aproveitar todo esse perfil que você traçou, né, dessa mulher evangélica que, pelo que a gente tá entendendo, muitas vezes, ou até na maioria das vezes, elas também são chefes de família, né? Então elas são jovens, elas são chefes de família, elas são cuidadoras muitas vezes da geração para trás delas, né, dos filhos, e da geração para frente delas, dos pais, né, delas, e geralmente de classe social mais pobre, né, ou seja, que defenderiam ou precisariam de políticas sociais importantes que estão geralmente também ligados a governos de esquerda.
Mas mesmo assim, muitas vezes elas acabam se identificando com candidatos votos e nomes de direita. Então eu queria entender qual é a razão disso, né? Por que que essas mulheres que têm um perfil de periferia, que se preocupam com políticas sociais, elas se identificam mais com nomes de direita do que com nomes de esquerda?
Bom, primeiro, para a maioria das pessoas, elas não se ligam muito se aquela pessoa em que elas se identificaram e que elas querem votar "É de um partido de direita ou de um partido de esquerda?" Elas não estão, então, muito ligadas nesse senso meio polarizador da política, né? Que você vai ser ou de um lado ou vai ser de outro. Em várias pesquisas que eu fiz, era muito comum a gente ver, por exemplo, que no primeiro turno a pessoa votava em alguém que a gente entenderia como alguém de, sei lá, de uma extremidade, e na outra eleição em outro, ou que para deputado vota em alguém que não combinaria jamais com o voto para presidente ou alguma coisa assim.
Como que é que essas mulheres se identificam? Elas se identificam necessariamente com alguém que possa ser capaz de representá-las, e aí a gente vai, e de representar basicamente as necessidades mais gerais de subsistência. E aí a gente tá falando, né, dessa capacidade de representação, que eu acho que a gente tá vivendo uma mudança desse senso e dessa identificação representativa. Não significa que essas mulheres, porque elas são maioria negras, elas vão escolher candidatas negras, e nem que necessariamente elas vão fechar mais com mulheres, dando votos a mulheres.
Mas a imagem é muito importante para elas. Então, mesmo que elas votem num homem, é fundamental elas se identificarem com esse homem a partir de uma mulher. Então, a ideia dessa imagem feminina que, de alguma maneira, estabelece uma relação de confiança, ela é fundamental. E acho que isso tem feito cada vez mais que no Brasil os partidos de direita apostem mais em candidaturas femininas, né? Se a gente vê, por exemplo, as eleições que a gente teve para as prefeituras no ano de 2024, foi o primeiro pleito em que a gente vai ter uma quantidade mais significativa de mulheres.
Os partidos de centro e de direita são os partidos que concentram essas mulheres que foram eleitas. Outro elemento: a gente costuma achar que essas mulheres vão votar em alguém por conta da religião delas. Então, elas são evangélicas, então elas vão querer votar em outra evangélica, como a gente fala carinhosamente "evangê". Não, não necessariamente elas vão fechar com uma imagem "evangê" para que elas definam esse voto. Mas essa imagem precisa, de alguma maneira, dar conta das suas necessidades principais.
E quais são elas? Primeiro, a gente está falando de um público que, como a gente sabe, no nosso contexto histórico, a gente vem de um contexto de colonização, de escravização. Então, a gente está falando de um público que vem de uma ascendência que passou por muitas violências e por escravização, um público que de alguma maneira esteve sempre à margem de coisas importantes que o Estado de alguma maneira pode garantir, né? Então, escola, hospitais, boas moradias, qualidade de vida, e uma rede minimamente que pudesse garantir inclusive até uma maior facilidade de conquistar um trabalho.
As igrejas conseguem fazer isso. Uma mulher que muitas vezes é chefe da sua família, essa família que muitas vezes é estendida, porque ela dá conta dos sobrinhos, ela dá conta de primos e filhos de irmãos e por aí vai, ela encontra na igreja, então, uma rede significativa de solidariedade. Nessa rede significativa de solidariedade, Ela tem, de alguma maneira, muitas vezes, onde deixar os filhos. Em vários espaços, inclusive de favelas brasileiras, as primeiras creches, por projetos conveniados de prefeituras, são creches confessionais, são espaços que são coordenados por igrejas.
Elas vão, de alguma maneira, muitas vezes, a partir daí, ter uma rede para elas conseguirem trabalho, para elas conseguirem proteção. Tem toda uma dimensão voltada minimamente para que essa mulher consiga dar conta das suas responsabilidades familiares. Família e essa solidariedade de fé se tornam, então, elementos importantes para ela. Logo, qualquer proposta política que coloque em risco a sua capacity de cuidar da família e a sua possibilidade de pertencer a uma rede de solidariedade, ela vai olhar com desconfiança.
Então, toda vez que aparecer uma fake news ou que aparecer qualquer coisa que de alguma maneira traga essa sensação de que eu posso perder as possibilidades mínimas de cuidar dos meus e eu posso perder o único espaço que me reconhece, esse grupo de alguma maneira vai se tornar refratário a essa possibilidade política. O que a gente vai vendo então, até por uma série de questões históricas, é um desenho histórico que compreende esquerda como algo ligado ao comunismo, como algo que de alguma maneira seria contra as religiosidades, seria contra a fé.
E até, e principalmente, quando a gente volta para as eleições de 2022, dois temas apareciam ali como super importantes: a ideia de cristofobia, de que pessoas evangélicas sofriam uma espécie de perseguição. E isso, pelas pesquisas que eu desenvolvi na época, Não colava muito assim, não era uma coisa que colava tanto. Colava a ideia de que se o PT e se o Lula vencesse, ele fecharia igrejas, né? Então isso traz de alguma maneira uma sensação de fragilidade, porque você pode perder o único espaço que minimamente te oferece uma rede de reconhecimento.
Olhar para família e pensar a família não é necessariamente uma condição moral, né? Elas não estão necessariamente pensando que a família é pai, mãe, filhinho, filhinha, né? Isso que a gente entende como família nuclear. Família para esses grupos, e não só mulheres evangélicas, mas para outros grupos, A família, ela representa de fato um lugar mínimo de reconhecimento de si. Porque quem é que tinha direito a pertencer ou a ter família no Brasil no início do século 20?
Só pessoas brancas que não tinham passado por processos de escravização. Então, família, ela é um bem, ela é um direito. Toda vez que houver uma possibilidade ou uma ideia de que politicamente a família está em risco, vai ser muito comum que essas pessoas de alguma maneira tornem-se refratárias, tenham medo dessa ideia, e que passem a apoiar espaços políticos que de alguma maneira estão oferecendo mais garantias nesse sentido.
Inclusive existe essa disputa interessante, não sei se disputa é a melhor palavra, entre as duas expressões feminismo e feminino. Então as mulheres evangélicas, quando a gente vai ver, tem um estudo do Instituto Update que fala muito bem sobre isso, sobre a divisão das mulheres brasileiras entre feministas, as que se consideram não feministas, e existe um meio ali em disputa, né. Quando a gente olha para as mulheres evangélicas, as mulheres no Brasil em geral aí não precisa ter esse recorte de orientação religiosa, elas abraçam várias pautas que historicamente são feministas.
Então, o combate à violência doméstica, a questão da segurança pública, equiparação salarial, direitos iguais em geral, né? Mas o progressismo, o movimento feminista, não consegue conversar nem sempre com essas mulheres. Existe ali uma divisão. E aí acho que eu cairia num outro lugar, que é uma pessoa tava me contando que o Valdemar Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, partido do Bolsonaro, onde tá filiada também a Michele Bolsonaro, que depois a gente vai falar um pouco porque ela é o grande fenômeno das mulheres de direita.
Então, Valdemar da Costa Neto tava falando num evento privado para o mercado financeiro que esse ano ele vai investir 320 milhões em candidaturas de mulheres conservadoras, e isso é um valor muito maior do que toda a esquerda tem para investir em candidaturas de mulheres. Então eu queria um pouco entender isso, como ele partes da direita, e o Valdemar, que é conhecido como, né, um operador político conservador, conseguiu entender esse fenômeno das mulheres.
E a esquerda, que vem dessa, desse movimento antigo pro direito das mulheres, não tá conseguindo. Esquerda inclusive se afasta das pautas das mulheres achando que é isso que radicaliza, que é isso que faz a gente não conversar com centro, que eles chamam de pautas identitárias. E a gente vê que não, que são essas pautas que unem todas as mulheres, né? Então, curioso A gente tá nessa, realmente nessa disputa assim de uma, de propostas que são historicamente feministas estarem sendo usadas para eleger mulheres de direita, que a gente é conservadoras, e que a gente muitas vezes fala que não tem consciência de gênero, né? Como você entende isso?
Acho que a ideia de feminino, ela de alguma maneira consegue fazer, né, com que as mulheres defendam as suas particularidades sem que necessariamente elas possam se assumir feministas. A palavra feminino é uma palavra que no nosso cenário ela sempre foi meio importante, né? Quando a gente está falando nas primeiras, nos primeiros arranjos de mulheres para pensar voto, para pensar, por exemplo, a possibilidade de trabalho e um trabalho regularizado, né?
Porque no Brasil as mulheres sempre trabalharam sem nenhuma regularização, colonização, né, inclusive no contexto de escravização, a palavra que chega no Brasil para abraçar esses movimentos não é a palavra feminista, é a palavra feminino. Então a gente vai ter as ligas femininas de voto e por aí vai. Quando as mulheres começam a entrar com um pouquinho mais de representatividade na Câmara, a partir do final dos anos 80, da nossa redemocratização, a bancada que se constitui também usa a ideia de feminino, né?
Então é como se de alguma maneira essa ideia de feminino ela fosse importante para dar conta das especificidades dessa sensação, né, dessa humanidade que estaria em todas as mulheres. Então é basicamente assim que funciona na cabeça de várias dessas mulheres evangélicas. Toda mulher é feminina, mas nem toda mulher é feminista. Então, é como se usar o feminino alcançasse todas as mulheres e usar o feminismo, não. Essa diferença vai ficando cada vez mais evidente e ela vai sendo cada vez mais usada nesse cenário político.
Hoje, a gente está falando, por exemplo, da produção de cada vez mais um movimento organizado que se denomina Movimento Feminino Conservador Brasileiro. E praticamente tudo que esse Movimento Feminino Conservador Brasileiro faz é treinar mulheres com formação política para que elas de alguma maneira possam defender politicamente o direito das mulheres. Quais direitos seriam esses? Uma remuneração mais equalitária, vem a questão da violência, do combate às violências específicas, doméstica, feminicídio, outras formas de violência de gênero, as pautas relacionadas também específicas à saúde da mulher.
Então cada vez mais nesse contexto do movimento conservador feminino se discute, por exemplo, o reconhecimento de violência obstétrica, abuso de crianças e estupro de vulnerável e uma série de outros elementos. O interessante é que essa agenda sempre foi uma agenda histórica do movimento feminista, mas para a maioria dessas mulheres, o que chega para elas sobre o que seria o feminismo, o feminismo seria apenas a legalização do aborto, Então a ideia de que o feminismo ele teria apenas a pauta do aborto.
E a outra questão que também é reconhecido por elas como feminismo, quase como uma espécie de morte aos homens, né? Os homens não são nada, que é o que inclusive vai ser usado como fundamento inclusive desses movimentos red pill, E por aí vai. Então, como é que se desenha essa mulher feminina que se opõe ao que seria uma mulher feminista? Ela luta pelos direitos dela, ela quer trabalhar, ela não quer sofrer violência, ela quer ter direitos específicos, quer ter um atendimento qualificado de saúde, Mas elas vão dizer que a diferença é que elas são contrárias ao aborto e elas também não constroem com os homens o que nessa linguagem do movimento feminino é entendido como uma espécie de disputa.
É como se a ideia de que entre o feminino e o masculino seria preciso criar uma espécie de uma colaboração. Ideias como aliança, colaboração, amor, todas essas coisas são muito presentes, né, presentes na construção, né, da imagem de uma mulher que vai defender a coisa da importância do que é bom ser casada, é bom ser mãe. Mas eu gosto sempre de Também, né, é pautar o quanto esse segmento da direita vai também cada vez mais ficando heterogêneo, né, e vai produzindo perfis distintos de mulheres.
Porque, por exemplo, quando a gente vê algumas ativistas de direita, né, que se autorreconhecem como conservadoras, principalmente católicas, elas trazem mais, por enquadramento de quem elas são, a questão da maternidade. As evangélicas, menos. Michele Bolsonaro, por exemplo, dificilmente a gente vai ver uma imagem de Michele com filha, Michele cozinhando para filha ou qualquer coisa assim. Então, tem uma diferença entre a importância da conjugalidade, de ser parceira de um homem, mas de ter a sua autonomia, sua liderança e o lugar da maternidade, né?
Esse lugar da maternidade, ele não é igual para todas essas mulheres da direita conservadora. E eu acho que isso traz uma aproximação significativa com as mulheres no geral, que também de alguma maneira reconhecem a importância da maternidade, mas tem um conjunto de dificuldades em relação a ela. Então fica um pouco o entendimento equivocado de que para as feministas a maternidade ela seria rejeitada o tempo todo, o que faz com que as nossas candidatas feministas tenham que trazer mais os filhos.
Interessante isso, Jaqueline, muito interessante, que a gente vê muita candidata progressista sempre com o filho no colo, né, para mostrar eu tô aqui, eu sou mãe.
E a gente não vê tanto essa questão nesse perfil das mulheres de direita, né? É como se elas tivessem, pelo lugar político que elas começam a ocupar, é como se elas tivessem conquistado um pouquinho mais de abertura para inclusive problematizar esse enquadramento da mulher que só pode se tornar pública com filho no braço. Elas não precisam necessariamente desse filho no braço, porque a questão da maternidade não passa necessariamente como uma questão fundamental para qualificá-las como mulheres da política, porque a família está entendida como um lugar fundamental delas.
É a gente, eu falo a gente porque eu me reconheço como uma mulher feminista, é a gente que tem aí que o tempo todo é ficar de alguma maneira é trazendo a questão da maternidade como uma questão de construção da nossa própria humanidade e até de defesa de alguma espécie de feminilidade no nosso, enfim, né, no nosso caso.
Jaqueline, eu queria fazer só uma linha do tempo dessas últimas duas eleições e para eleição agora desse voto do público evangélico. Eu como jornalista vim tentando mapear um pouquinho como eles estavam votando. Em 2022 eu fiz uma reportagem mais profunda para conseguir entender como eles estavam se dividindo naquela eleição. E em 2018 a gente lembra que os evangélicos, e aí a gente fala de homens e mulheres, apoiaram o Jair Bolsonaro na sua maioria mesmo absoluta, né, e ajudaram a dar a vitória a ele contra o Fernando Haddad, que era o candidato do PT enquanto Lula tava preso.
Em 2020 2022, e você me corrija se eu tiver errada, mas eu notei uma diferença que foi: muitas mulheres evangélicas se desgarraram do Bolsonaro por causa da má condução do governo dele durante a pandemia, por causa da defesa das armas, e também pelo jeito grosseiro e agressivo dele de se comunicar, né? Muitas mulheres evangélicas me relatavam: ai, não vou votar mais nele por causa desses 3 motivos. Mas eu queria entender, nessa eleição de 2026, 6, essas mulheres evangélicas estão em disputa novamente este ano.
De que maneira? Já que o Bolsonaro tá fora do baralho porque ele tá inelegível e preso, mas o candidato da direita é o filho mais velho dele, que se apresenta e tenta se vender como um homem que não grita, não xinga, é um cara mais moderado. A imagem que ele quer se vender.
Agora, em 2026, esse público segue sendo um público muito importante. Isso porque quando a gente está falando das mulheres, né, no geral, e especificamente das mulheres evangélicas, a gente está falando de alguma forma de um público que consegue incidir no modo como outras pessoas da família enxergam determinadas questões. Mulheres. Então, por exemplo, né, se a gente vai para consumo, marcas, jeito de pensar coisas, as mulheres são fundamentais.
São elas que de alguma maneira levam determinadas marcas para casa, são elas que informam o modo de usar, o que seria melhor, o que não seria melhor. Então, a perspectiva de uma mulher, por trás da perspectiva de uma mulher, pode estar a perspectiva de pelo menos mais 3 ou 4 pessoas que de alguma maneira podem ali ser convencidas ou fechadas, né? Então acho que tem um exercício importante para a gente pensar, e que a cada eleição, 2018, 2022, à medida em que esse público feminino religioso ou não se torna o público mais significativo, né, para para definição dos quadros eleitorais, a gente tá falando exatamente disso, porque as mulheres elas têm um lugar de incidência, elas incidem sobre quem elas cuidam, né?
E então não são as mulheres que são convencidas a votar de determinada maneira ou a votar em alguém, elas são instrumentos de convencimento. E é por isso que saber conversar com elas, saber exatamente se conectar, né, construir uma relação entre política e afeto é uma dimensão muito importante para conseguir a confiança desse público. Nesse sentido, então, é o que a gente tá vendo agora em 2026. Primeiro são o que a gente pode chamar de algumas fraturas da imagem do bolsonarismo e da imagem do O Bolsonaro, ele está com a imagem completamente desgastada e isso já estava acontecendo em 2022.
Não é à toa que principalmente no segundo turno a estratégia política usada foi usar completamente a imagem da Michele e aliança dela com a Damares para conseguir levar para frente uma espécie de vira-voto de mulheres relacionadas ao Bolsonaro. Então toda essa ideia, né, do que é dos incômodos com o jeito do Bolsonaro, a sua forma é meio agressiva, o jeito como ele falava as coisas, nesse público feminino aparecia, quando aparecia com uma certa aceitação, aparecia muito mediado pelo nome da Michelle.
E a gente viu muito isso em 2022. O que a gente tem então com a construção do Flávio é exatamente alguém performando uma masculinidade mais dócil. E essa masculinidade dócil, ela realmente traz uma possibilidade de conexão com o modo como as mulheres, de alguma maneira, percebem a crise do que é a masculinidade, a crise do que é o masculino. E isso não é uma exclusividade mais apenas de mulheres que se reconhecem como feministas.
Esse público que se pensa como feminino é um público que também percebe a decadência da masculinidade, porque é um público vítima de violência, né? É um público que sabe que mas ter uma casa ou ter uma família não é mais ter segurança ou possibilidade de seguir vivendo sem nenhum problema. Então a masculinidade é dócil, mais docilizada, é mais voltada para determinadas preocupações, é uma masculinidade que de alguma maneira consegue despertar um pouco mais essa possibilidade de confiança.
Porque é alguém que necessariamente está se distanciando cada vez mais de uma dinâmica de violência e se aproximando cada vez mais de uma possibilidade de cuidado. Então, a relação entre masculinidade e cuidado é um interesse desse público também. Não necessariamente da mesma forma como a gente talvez consegue pensar quando a gente está acionando uma dimensão mais feminista, mas uma sensação de que esse cara, ele tem que ser pai, ele tem que assumir esses filhos, ele não pode abandonar sua família, ele não pode trair, ele não pode ter vício, ele tem que trabalhar, e quando ele trabalha, o dinheiro dele tem que ser totalmente direcionado para o sustento dos seus, né?
Então, a relação entre masculinidade e cuidado É importante. Logo, a imagem do Flávio vem trabalhando nesse sentido, né? Então a gente vê alguém que de alguma maneira performa uma leveza, né? Então as danças, né, que traz essa ideia também um pouco mais carismática, né, desse homem um pouco mais carismático, que não é muito duro, né? Porque ele consegue de alguma maneira até brincar com o corpo, né? De tanto que ele tá seguro nessa dimensão de uma masculinidade mais cuidadosa.
É um ponto muito importante para dar conta desse público. Eu não tenho dúvida que dos filhos, dos Bolsonaro filhos, o Flávio era o único que de alguma maneira poderia estar mais, ser colocado mais nesse lugar, exatamente pelo modo como a própria relação e a própria defesa pública do pai, nunca foi feita diretamente por ele, né? Então eu brinco que na verdade a masculinidade mais agressiva, mais violenta, ela é a do, a da Câmara, né? E a masculinidade mais dócil é a do Senado. O Flávio é o Bolsonaro do Senado.
A gente sempre falou que ele é o mais centrão, ele sempre foi o mais de articulação política. Ele realmente, ele até radicalizou ali no final de falar de anistia, mas é uma radicalização de quem entende a proposta política, né? Ele não é como Eduardo e o Carlos, que vão para o pau no verbal assim, né? Eu acho até que eu fecharia nossa conversa com isso, Jaqueline, sobre o Flávio. Mas é porque para 2026, você tá falando que o Flávio tá com essa imagem amaciada, mas ele não tem uma Michele do lado dele, né? Ele não tem uma Michele e ele não tem a Michele.
Pelo menos ele tem uma Michele contra ele, porque eles não se dão bem, né? A Michele não apoia dele em público e faz muitos movimentos que no fim das contas atrapalham ele, né?
Sim. E aí eu acho que eu fecharia assim: eu, desde que o bolsonarismo ganhou toda essa força, né, lá atrás, 2016, 17, 18, eu presto muita atenção na Damares. E não é Michele Bolsonaro, que a gente sempre viu como uma figura talvez nas sombras, né, aquele lugar bem da primeira-dama, que tá ali acompanhando, sendo gentil. Ela tinha ali o trabalho dela, levava sempre ali alguém da linguagem de sinais. Isso foi uma marca dos discursos do Bolsonaro.
E de repente ela tá despontando como uma liderança política, a grande aposta do Valdemar da Costa Neto. Ela ficou ali no PL Mulher recebendo um orçamento de R$1 milhão por mês, rodando o Brasil, fazendo essas esses cursos que você falou, nessas formações políticas. E aí eu acho que eu encerraria. A gente já é o dobro do que a gente faz no Duas e Tanto, mas eu achei hoje valeu. Tomara que vocês estejam gostando. Mas acho que eu fecharia falando da Michelle.
A gente pode ver a Michelle aí entre, circulando nos grandes corredores do poder. A gente vai ver a Michelle eleita e talvez sendo uma candidata competitiva.
Gente, a Michelle realmente é um fenômeno, e por várias questões, né? Eu também, Carol, fico me perguntando, né? Porque eu também ali, ó, há muito tempo pesquisando a Damares, acompanhando a Damares, e eu nunca tinha dado muita trela para Michelle. Eu comecei a fazer isso, na verdade, mais ou menos ali no contexto da pandemia, quando ela começou a aparecer mais com a Damares. Em alguns programas do Ministério, né, extinto Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, que ela ia com a Damares, faziam coisas, elas faziam coisas juntas.
E eu percebi inclusive o quanto isso não tinha um certo interesse da mídia, mas eu via o quanto ela tinha uma capacidade significativa de comunicação e saía um pouco dessa imagem, dessa figura comum que a gente tem histórica da primeira-dama. No mínimo, tem uma frase que nesses cursos todos, nessa campanha, porque Michele está em campanha há quase 4 anos, no mínimo, que ela diz, que eu acho que ajuda a gente a entender porque é que ela vai ocupando esse lugar e porque é que a Damares de alguma maneira se desloca, ela vai sendo deslocada, ela também é importante, mas vai sendo deslocada para outro lugar.
Tem uma espécie de frase, de motto assim, que ela fala sempre, que é assim, né? Mulheres comuns fazem coisas incríveis. E aí, pensando a trajetória da Damares, teve a oportunidade de estudar direito, de se tornar há muito tempo, já ter trabalhos com prefeitura, trabalhou no interior de São Paulo com prefeitura, depois vai ser assessora parlamentar em Brasília ainda no final dos anos 90, A Michele não. A Michele era uma moça, uma adolescente de Ceilândia, extrema periferia do Distrito Federal, família nordestina.
E diferente da Damares, que é uma pessoa que já nasceu num ambiente evangélico, os pais da Damares foram fundadores da Igreja Quadrangular e tal, a Michele não. A Michele é essa pessoa que ela vai pra igreja com os irmãozinhos dela, pai e mãe, pai preso, mãe não sei o quê, mãe trabalhava de um monte de coisa, ela começa a trabalhar muito cedo. Aí tem toda essa, essa, né, uma gravidez ainda meio adolescente, início da juventude, né.
Então tem vários elementos que colocam a trajetória da Michelle nessa trajetória de uma pessoa muito comum e que consequentemente é têm assim uma capacidade gigantesca de identificação e de possibilidade mesmo de pensar, né, o quanto seria possível fazer a mesma coisa que ela, né. Então eu venho percebendo inclusive, né, como nos últimos anos, à medida em que ela muda o corte de cabelo, né, então ela faz um corte mais curtinho, o cabelo escurece, né, ela de usar o loiro.
E aí vem essa ideia um pouco: agora estou usando a cor natural do meu cabelo. Então isso também coloca ela num outro lugar racial, né? É de, claro, ela ainda é entendida pela maioria das pessoas como uma pessoa branca, mas ela não é uma branca ostentação como a gente tem nesse bolsonarismo de primeira ordem, né? Zambelli é uma, eu brinco que é uma branquitude de contato, né? Aquela branquitude que todo mundo tem uma prima uma amiga, uma professora, uma assistente social.
Então ela tem realmente uma capacidade muito grande de gerar confiabilidade. Eu vejo a Michele hoje e penso que a Michele é a legibilidade do que é o bolsonarismo e do que é essa direita, porque as pessoas olham para ela e pensam assim: "Ah, isso aqui eu entendo, isso aqui parece comigo, eu tenho uma história muito parecida." E como a gente está falando de mulheres, A gente tá falando consequentemente hoje é de quem de fato é, consegue construir é uma, uma imagem e construir um público que realmente pode é votar nessas pessoas sem tá preocupado em se sentir de direita.
Não é sobre isso, não é sobre ser de direita, mas é sobre se reconhecer em alguém que se mostra, né, como tão comum como eu. E esse comum não é ser desleixada, não é ser feia, não é ser nada. Esse comum é ser jovem, é ser bonita, é estar com a skincare em dia, é viajar para tudo quanto é canto e ainda não perder o rebolado, é quebrar, por exemplo, né. Eu lembro de uma cena ainda em 2023 que ela, que ela tá andando andando, tem uma agenda, e quebra o salto, né?
E aí fica todo mundo: meu Deus, o que que você vai fazer agora? E ela pega, quebra o outro salto, fica com sapato baixinho e vai andando falando com todo mundo. Então, mais ou menos essa, esse jogo, né, de um feminino que tem muita dificuldade cotidiana, né, mas que tá lá, tá no jogo de cintura, e com isso consegue fazer coisas incríveis. Então eu acho que esse ponto da Michelle, eu não tenho dúvida, obviamente ela não vai disputar eleições presidenciais, mas acho que esse ponto é um ponto realmente—
A família não vai deixar, né, só para começar a falar.
Exatamente, mas esse ponto eu acho que é um ponto substancial para a gente pensá-la como uma liderança, e uma liderança política que vem cada vez mais produzindo uma outra ideia e uma outra imagem do que é ser de direita e do que é ser uma mulher conservadora no Brasil.
Ótimo, obrigada, Jaqueline! Foi incrível essa conversa.
Obrigada, Jaqueline! Agora entendemos tudo, entendemos tudo, hein?
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