Por que os bons índices econômicos de Lula não viram popularidade? — Laura Carvalho responde
O governo Lula 3 entregou o menor desemprego da série histórica, um PIB acima da média do G20 e tirou quase 9 milhões de pessoas da pobreza. Mesmo assim, 42% dos brasileiros acham que a economia está pior do que há seis meses.
Neste episódio de Duas e Tanto, Carol Pires e Marina Dias convidam a economista Laura Carvalho — professora da USP e autora de Valsa Brasileira, para entender esse descompasso.
#Lula #Economia #Política #Brasil #LauraCarvalho
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- Popularidade de LulaBaixo desemprego e crescimento do PIB · Redução da pobreza · Percepção negativa da economia · Endividamento das famílias · Novos padrões de consumo e redes sociais · Comparação com os anos 2000 · Laura Carvalho
- Mudanças de Hábitos de ConsumoGlobalização e homogeneização do consumo · Acesso a padrões de vida confortáveis via redes sociais · Diferença entre consumo dos anos 2000 e atual · Pobreza do tempo e aspiração por serviços · Comparação com a estratégia de Mandani
- Servicos PublicosReforma tributária e imposto de renda · Jornada de 40 horas e fim da escala 6 por 1 · Prosperidade como tempo além do trabalho · Melhores serviços públicos (saúde, educação, transporte) · Restrições fiscais e orçamentárias · Agenda redistributiva vs. agendas horizontais
- Polarização PolíticaDeterioração da percepção econômica entre eleitores de Lula · Problema de comunicação vs. bem-estar das pessoas · Necessidade de empregos melhores e projeto de país · Qualidade dos serviços públicos e gastos
- Trabalho InformalDependência da economia formal · Volatilidade da renda de trabalhadores informais · Percepção de responsabilidade sobre ganhos e perdas · Entregadores por aplicativo
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Carol Pires:Oi amiga, oi amiga, tô te ligando para a gente fazer um episódio especial com a Laura Carvalho, economista, professora da USP, que a gente tem uma pergunta objetiva para ela, que é: por que o desempenho econômico do governo Lula 3 não se converte em popularidade? Bora, bora! Eu sou Carol Pires, eu sou Marina Dias, e esse é o Duas e Tanto.
Marina Dias:Todas as terças e quintas eu e a Carol a gente se liga para conversar sobre um tema da política que tá bombando, de um jeito rápido, fácil, acessível, como um papo entre amigas que somos. Sigam a gente no canal da Carol, @piriscarol. Sigam a gente no Instagram, @duasetanto, e em todas as plataformas de áudio.
Carol Pires:Duas e Tanto é uma produção da Zarabatana Estúdio com distribuição da Rádio Novelo. Amiga, a Laura Carvalho é professora da USP, ela é diretora de prosperidade econômica e climática na Open Society, ela é autora do livro Valsa Brasileira, do boom ao caos econômico, e ela também é nossa amiga. Oi, amiga Laura!
Laura Carvalho:Oi, Carol, Marina, que legal estar aqui com vocês.
Carol Pires:Laura, o governo está se fazendo essa pergunta há bastante tempo, né? Por que que o desempenho econômico não está se convertendo em popularidade? E você escreveu um artigo que justamente leva esse título, coloca essa pergunta no título, um artigo que você assinou com o Guilherme Klein, que é professor da UFRJ, E lá você argumenta que o terceiro mandato tem bons números, né? São dados, fatos. O desemprego tá no menor nível da série histórica, o PIB cresceu acima da expectativa do mercado, né, e acima da média do G20, que são os países mais ricos do mundo. Então a gente tem outros dados de quase 9 milhões de pessoas saíram da pobreza, 3 milhões saíram da extrema pobreza. Então o governo conseguiu reverter um estrago do Bolsonaro, né, que tinha empurrado 14 milhões para baixo da linha pobreza. Mas você mesma cita uma pesquisa Ipsos/IPEC de março que mostrou que 42% dos brasileiros, quase metade, né, achavam que a situação econômica tava pior do que há 6 meses. Então, entre as hipóteses do seu artigo, você fala inflação, endividamento das famílias, e também esse novo padrão de consumo que tá atrelado às redes sociais, ao que a gente vê e aspira nas redes sociais. Então eu queria que você começasse, Laura, especialmente a partir da questão do endividamento. Que virou meio que um fenômeno forte nas famílias de classe média e classe baixa no Brasil, né? Então eram quase 77% das famílias endividadas em 2024. Que que aconteceu?
Laura Carvalho:Não há dúvida, Carol, de que o endividamento das famílias é um problema que tem agravado a sensação nas famílias brasileiras de que o salário não chega até o final do mês, né? Esse problema eu acho que ele já vem sendo tratado no debate público como o principal fator a explicar esse mal-estar econômico. O governo já tem tentado endereçar isso com diferentes programas, como Desenrola, mas o que a gente argumenta é que esse problema ele é mais a consequência de um conjunto de outros elementos do que propriamente a origem, né, do problema que estamos vivendo. Então, o que a gente Dera é que ele é a consequência de um descompasso entre a renda das famílias, né, o quanto elas estão ganhando, que claro, com o crescimento econômico que o país vem vivendo, né, essa renda tem se expandido, não é que ela tá em queda, né. Então as famílias têm ganhado mais, mas elas também têm aspirações cada vez maiores de consumo, elas também querem mais coisa. E elas almejam um padrão de vida acima, superior do que aquele que os salários delas têm permitido. Então, o endividamento é um pouco a causa desse descompasso. E aí, se a renda tivesse crescendo mais aceleradamente, talvez o endividamento não fosse um problema. Mas claro, ele exacerba esse descompasso ao longo do tempo, porque quanto mais as famílias vão se endividando, mais elas vão comprometendo da sua renda com o pagamento de dívidas anteriores e com juros que nós temos. Isso, claro, agrava o problema e é um pouco uma espiral, né, uma bola de neve.
Marina Dias:E Laura, isso também tem um pouco a ver com esse novo padrão de consumo, né? Porque antes bastavam uma TV nova, uma geladeira, e até a faculdade do filho, né, o primeiro filho da família se formar, né, que vinham com essa melhora de renda junto com a valorização do salário mínimo e também desses programas médias sociais que foram marca dos dois governos Lula, né, dos dois primeiros governos Lula ali entre 2002 e 2010. Mas agora, a TV nova, geladeira nova e até o filho na faculdade, isso não é mais suficiente. Então eu queria que você explicasse um pouquinho por que isso não é mais suficiente para o brasileiro médio e do que esse eleitor precisa hoje para ele entender que a vida tá melhorando. Porque no fim das contas é isso, né, esse brasileiro médio Acha que a vida não tá melhorando, do que que ele precisa agora?
Laura Carvalho:Olha, eu acho que o mundo inteiro tá vivendo uma transformação na forma como esses padrões de consumo são criados, né? Isso não é algo exclusivo ao Brasil. Você tem uma série de estudos, de evidências de que as pessoas cada vez mais elas têm referência, né, em não só no seu vizinho, né, naquilo que o seu familiar conseguiu consumir, que antes era muito como eram moldadas essas aspirações, né. E cada vez mais as redes sociais globalizam e homogeneizam esses padrões de consumo, né. Então, o que que isso quer dizer, né? Hoje a gente tem uma vitrine nas redes sociais que te dá a noção exata do que que é um padrão de vida confortável, né. E eu não tô falando tá falando aqui de um luxo. Claro, também temos nas redes sociais muita exposição hoje ao que é a vida de uma pessoa muito rica, mas eu nem tô querendo entrar aí numa ideia de ostentação de riqueza. Eu acho que de maneira assim, dentro de um padrão razoável mesmo do que é confortável, hoje você tem acesso ao que é, o que que uma casa confortável tem, né, o que que um, o que que é o consumo de roupas que são, vamos dizer, elegantes, né? Então assim, esse padrão ele já não é mais local, ele agora é global, e ele é muito acessível, de maneira que é muito mais difícil, né, se chegar a ele, porque a gente tá saindo de uma sociedade, é, de uma economia extremamente desigual, né, em que as pessoas, por mais que elas estejam ganhando renda E aí, nos anos 2000, né, esse ganho ele foi ainda mais expressivo, né? Teve uma mobilidade social bastante significativa, né, com a chamada nova classe média, né? Se falava muito nos anos 2000 dessa nova classe média que passou a ter acesso a andar de avião, a fazer as coisas pela primeira vez. Isso foi muito significativo, mas essas pessoas, né, as mesmas e os seus filhos e as outras gerações Hoje elas desejam outras coisas, né? E elas passaram 10 anos, isso é bom a gente ressaltar, é sem ganho de renda, né? Então não é que a gente saiu dos anos 2000 para agora, a gente teve aí um buraco de uma década, né, desde a recessão de 2015/2016, né, iniciada na verdade em outubro de 2014, que depois foi sucedida de um período de estagnação, de uma recuperação muito lenta da renda média no Brasil, em que não houve ganho nenhum, em que as pessoas ficaram essencialmente estagnadas. E agora que esse ganho começou a vir, né, as aspirações de consumo, elas não ficaram paradas lá nos anos 2000, elas continuaram subindo, elas estão cada vez mais globalizadas. Hoje você entende o que que é esse padrão de vida, e a renda não cresceu em linha com isso. Eu acho que isso é parte da insatisfação que a gente tem vivido, né.
Marina Dias:Então é quase como— desculpa te interromper, amiga, não, mas é quase como agora não não precisa mais só a TV e a geladeira. Agora eu também quero uma roupa legal, eu também quero o iPhone da moda, essas outras—
Laura Carvalho:eu quero poder viajar, né? Eu quero ter— então tem parte aí que são serviços, né, que entram numa cesta de consumo que não é mais eu vou alimentar minha família, mas assim, novas coisas, né? O próprio tempo, se a gente olha para esse debate da 6 por 1, né, tem um jeito de olhar para ele que também tem a ver com uma inspiração de padrão de vida, né? É É uma inspiração de sair da chamada pobreza do tempo, né? Que que é pobreza do tempo? Você só ter tempo para trabalhar e não sobra o tempo para usar a renda, usufruindo de alguma maneira do tempo com as suas famílias, de uma viagem, de um momento de lazer. Então essas aspirações, elas estão mudando. Então, e nem tudo também é monetário, né? O tempo é uma forma de você dar vazão essas aspirações, que não é exatamente dinheiro, né? Serviços, o transporte público, né? Coisas como um serviço público de qualidade, uma menor fila do SUS, né, também entram nisso. Não se trata só de um consumo de coisas que estão ali nas redes sociais, é também a aspiração a você não gastar todo o seu tempo numa fila, você ter um tratamento de saúde de qualidade, você consegue oferecer essa sensação de bem-estar também por provisão melhor de serviços, né, do governo. Então acho que tem que separar, tem uma parte que só vem com ganho de renda mesmo, tem uma parte que tem a ver com um conjunto de medidas que dão essa sensação de qualidade de vida melhor, né.
Carol Pires:Eu lembrei de uns dados que você fala no artigo, que eu acho importante para contextualizar isso que você falou, que as aspirações não ficaram paradas lá nos anos 2000, né, mas tem esse problema anterior a esse aumento de expectativa de renda e de questões que você fala, né? No Lula 1 e 2, o salário mínimo teve um aumento real de mais de 50%, né? Tinha ali emprego formal explodindo, e principalmente a redução da desigualdade foi mais rápida. Então, a renda dos 50% mais pobres cresceu 5% ao ano e dos ricos 2,3%, né? E agora no Lula 3, a desigualdade cai, mas muito mais lentamente, né? Então os pobres estão crescendo a 30— desculpa, a por ano, mas é quase igual ao resto. E aí você também fala que tem esse problema de base, que é a metade mais pobre ainda ganha 20% menos do que em 2014. Então você tá tendo uma expectativa de ser tão bom como nos anos 2000, e ainda você hoje continua ganhando menos que nos anos 2010. Então é uma pororoca de expectativas não realizadas aí, né? Em cima disso, essa vontade de ter mas de ter não só televisão, mas toda aquela casa bonita que você vê no Instagram, e aí você quer comprar, você quer comprar importado da Shein, que seja, né? Mas tem essas novas ambições somadas a esse contexto econômico ainda em recuperação.
Laura Carvalho:Exatamente isso, Carol. Assim, acho que tem vários problemas que se sobrepõem, né? Você tem uma renda que não tá crescendo tanto assim, que claro, para padrões mundiais, então não há dúvida de que o governo entregou resultados macroeconômicos robustos, acima das projeções. Então o Brasil cresceu mais do que todo mundo projetava, o Brasil cresceu mais do que a média dos países do G20. Então se você olha para esse momento atual no mundo, com todas as restrições que os países têm enfrentado, né, externas restrições, assim, orçamento público hoje é muito mais restrito do que foi nos anos 2000. Restrições políticas, né? Você tem muitas restrições. Mesmo assim você entregou, não é que você não tenha entregue, né? Só que isso que você entregou, você entregou num ritmo menor do que o dos anos 2000. Então estamos crescendo menos, né? A desigualdade ela também cai mais devagar, embora tem um avanço que é pela primeira vez com essa reforma tributária que foi feita, você vai ter uma redução de desigualdade entre o topo e o meio. Porque nos anos 2000 você teve uma redução entre o meio e a base, né? Mas onde tem mais concentração de renda realmente no Brasil é no topo. Então você vai conquistar, ainda não veio o resultado disso porque a reforma passou agora, então é só nesse imposto que ela tá se fazendo valer. Então talvez isso até mude um pouquinho, né, esses números. Mas ainda assim, né, não é um ganho de renda tão expressivo para base, né? E a gente tá sobre um nível muito baixo, né, que ficou deprimido por muito tempo nessa chamada década perdida, né. Já tivemos uma nos anos 80 e agora tivemos outra. Então isso não se traduz numa percepção de uma grande melhora como aquela que tivemos nos anos 2000, em que era consensual que havia uma experiência, né, coletiva de um país que, né, do Cristo Redentor decolando. Não é esse o cenário. É um cenário de um alívio, um alívio insuficiente para dar conta de também uma sociedade que mudou e que deseja mais. E a gente consegue até relacionar um pouquinho isso com 2013. Se a gente olha lá para trás, né, o que que aconteceu ali em 2013, né? Tem muitas interpretações e polêmicas, e acho que também tem dinâmicas distintas que se deram ali, mas Tinha uma ideia, pelo menos inicialmente, quando começaram os protestos, de que os protestos eram um pouco quase que o sintoma do sucesso da mobilidade social dos anos 2000, em que as pessoas estavam ganhando mais, mas que agora elas queriam serviços públicos melhores, porque não era suficiente ganhar mais e essa inclusão pelo consumo. Agora queriam saúde padrão FIFA, né? Eu lembro, já que estamos em período de Copa do Mundo, eu lembro que isso era uma coisa que surgia ali: saúde, educação padrão FIFA. Né, porque estávamos num período também de pré-Copa do Mundo. Veja, isso é parte de uma mesma situação. Às vezes um ciclo de melhora, ele traz consigo demandas por mais melhoras, né? E esse ciclo, ele foi interrompido por 10 anos. Agora retomamos essa melhora, mas com uma demanda reprimida muito grande de qualidade de vida, né, e de melhora real, concreta para as pessoas. E ainda com os filhos dessa geração que foram educados por conta dessa expansão da educação que acontece nesse período e que agora também, além disso, esperam não só ir melhor do que ano passado, mas ir melhor do que os seus pais, esperam que esse diploma dê resultado, que é outra parte da história.
Marina Dias:Laura, aproveitando essa deixa sua sobre essa geração que quer ser melhor do que geração dos pais, mas que às vezes esse diploma não tá parecendo mais suficiente. Eu queria que você desmentisse um pouco a ideia que aparece toda hora no debate público, que é a de que o trabalhador informal, como os entregadores por aplicativos, por exemplo, eles dependem menos da economia formal, né, do crescimento do PIB, dos estímulos do governo, e portanto muito do que o governo faz não importa e não atinge esse trabalhador informal. Queria que você falasse um pouco dessa ideia para gente.
Laura Carvalho:Tá, é, eu acho que isso tem muito a ver com esse debate, porque muita gente olha para esses indicadores, né, a economia, o PIB cresceu, mas olha, as pessoas continuam indo mal, e falam, ah, tá vendo, é porque o PIB não importa, então a política econômica não importa, então nada, a macroeconomia não importa, né. Então são indicadores que não se traduzem de nenhuma forma concreta, e acho que isso é muito perigoso, porque que se uma economia vai mal, né, quando a gente tem uma crise como a que tivemos em 2014-16, ou mesmo um período ruim como dos últimos 10 anos, né, quem sofre mais são justamente os trabalhadores informais, os mais precarizados, os mais vulneráveis, que estão totalmente com a sua renda respondendo a oferta e demanda, né. Um entregador de aplicativo, ele tem a sua renda determinada por um algoritmo algoritmo. E esse algoritmo tá olhando para quê? Quantas pessoas estão pedindo a comida no aplicativo, né? E a partir daí você cria o preço, né? Então assim, ou entregador, um motorista de Uber, enfim, todos estão muito sujeitos ao quão aquecida a economia está, né? Então se a gente tivesse num momento de economia piorando de fato, essas pessoas estariam sentindo muito mais do que os trabalhadores CLT. Não há dúvida, isso você tem muitas evidências empíricas estudos que mostram que a volatilidade, né, o quanto varia a vulnerabilidade daqueles trabalhadores que não são formais, ela é muito superior. Então são os primeiros a perder renda, né. Então se a economia tivesse indo mal, eu brinco assim, estaria todo mundo falando de PIB, né, ninguém estaria preocupado que, ah, o PIB deixou de importar, né. Seria um consenso na sociedade brasileira de que a economia está indo mal porque o governo é responsável por políticas que não estão funcionando, e o governo seria, claro, o culpado, né? Mas quando a economia vai bem, ou vai relativamente bem, essa associação ela é menos trivial de se fazer, porque a pessoa pensa que foi ela que, claro, ela atribui o ganho de renda dela ao esforço que ela tem, ao corre, né? Ao conseguir fazer girar o seu, né, não a economia como um todo que tá Isso é algo que é muito evidenciado, inclusive nesse debate de inflação, viu? Você tem evidências muito claras de que quando preços sobem, mesmo se a renda tá subindo mais que os preços, salário da pessoa cresceu mais do que a inflação. Ou seja, tudo bem, você tá pagando mais no mercado, mas o teu salário também cresceu mais. Só que isso é percebido pelas pessoas de que os preços subindo é culpa do governo, né? Mas o salário que cresceu é o mérito seu. Então, ainda assim Você tem uma certa simetria na forma como as pessoas vão perceber os indicadores, né, e de quem é a responsabilidade do quê. Então não acho que a solução seja: então vamos deixar de olhar para PIB. Eu acho que continua sendo muito relevante o resultado favorável. Se é algo, acho até que deveria estar crescendo mais. Acho que o problema é que não estamos crescendo e redistribuindo rápido o suficiente para dar essa sensação de melhora. Neste ambiente, né?
Carol Pires:Porque é uma sensação horrível mesmo, né? Acho que, não sei vocês, mas eu tenho a sensação de que você tá correndo um pouco atrás do próprio rabo. Nossa, eu ganhando um pouco mais, mas aí você vai no mercado e é inacreditável o valor de uma comprinha dessa de semana ali, do, né, do lanche da criança e tal. Então a sensação é tipo, tá, tô melhorando, tô melhorando, mas ao mesmo tempo tô gastando mais. E essa sensação, bom, o governo que tem que explicar, né? Não é a pessoa que tem que ir atrás de estudar e pensar: "Não, deixa eu encontrar uma explicação para eu me sentir menos frustrada." Não é papel do cidadão. Tem uma última pergunta, Laura, que eu acho que é assim: o governo tem uma agenda aí, né, de reforma do Imposto de Renda, uma reforma tributária, apostando, fazendo melhor uma política industrial, tem esse debate da jornada de 40 horas, né, e o fim da escala 6 por 1, que enfim avançou no Congresso. E eu tô entendendo que é uma aposta, né, em trocar a ideia de prosperidade equivalente a consumo privado, que foram os dois primeiros anos Lula, né, na ideia de prosperidade como mais tempo para viver além do trabalho, ter melhores serviços públicos, melhores, que foi a estratégia muito bem-sucedida do Mandani, eleito socialista, eleito prefeito de Nova York, né, que assim, vida real, você precisa de um ônibus mais barato, você precisa de moradia, conseguir pagar seu próprio aluguel. E aí isso seria aí uma ideia Lula sair dessa sombra dos anos 2000, né, e criar um novo ciclo de expectativas que não seja a repetição do que ele já fez. E aí acho que isso entra numa, numa outra parede, que acho que foi inclusive uma crítica que você ouviu, né, depois do seu artigo. A gente tava falando aqui um pouco antes que é, bom, na verdade essa explicação toda aí não é nada perto do que é a polarização polarização. Tudo que explica o Lula não conseguir crescer na aprovação do governo, nas intenções de voto, é porque na verdade o Brasil está polarizado e não tem para onde correr. Como é que você responde isso?
Laura Carvalho:Olha, eu acho que não há dúvidas que o país está polarizado. Não sou cientista político, então assim, para mim, eu tomo quase que como um dado que temos várias outras camadas de explicações culturais, ideológicas, políticas, religiosas, que vão estar explicando o voto, né? Então é longe de mim tentar afetar no agregado comportamento do eleitor brasileiro, né? Acho que nem tenho esse conhecimento e muito menos a ambição. Mas o que me parece assim é que ainda que você tenha vários outros fatores que inclusive se conectam, porque às vezes a economia não tá sozinha, né, no seu campo, às vezes ela é permeada, a percepção que as pessoas têm de economia ela também é permeada por ideologia, por outros elementos, também tem bastante evidência, né? Mas o fato é que assim, você começou o governo com uma inflação relativamente alta e com uma percepção de economia melhorando, né? Essa percepção, ela se deteriorou muitíssimo. E isso não se resume aos eleitores do Bolsonaro, pelo contrário. Na verdade, a maior queda que você tem na percepção da economia, que ela acontece, você tem dois ciclos de queda. Você tem um no início, em 2024 para 25, o pico de percepção negativa inclusive acho que em março 25, e depois você tem uma melhora seguida de uma piora de novo, de 25 para 26, né. Esse, essa deterioração, ela não, ela se dá também entre eleitores do Lula, né. E aí você pode dizer, ah, é um problema de comunicação. Então tem muita gente que acha que é um problema só de comunicar as políticas. Então você teve uma série de tentativas de melhora de comunicação, sem dúvida melhorou a comunicação inclusive do governo nas políticos. Mas acho que não se trata apenas disso, acho que tem que olhar para o bem-estar das pessoas e para como a gente consegue endereçar as demandas que as pessoas têm no século 21 dentro da sociedade brasileira de hoje, né? Porque a experiência dos anos 2000, ela, ela fez todo sentido e ela tem que ser preservada, né? A gente não tá dizendo vamos abandonar os programas de transferência de renda, o crescimento do salário mínimo, as coisas que marcaram geraram, né, esse, essa melhora dos anos 2000 na distribuição da renda, nos índices de pobreza, no crescimento. Mas a sociedade muda em decorrência dessas melhores e também decorrência de outros fatores globais, como influência das redes, outras coisas. Então, qual é a agenda para essa sociedade de hoje, que é muito mais escolarizada, que tem, né, diplomas, né, e que hoje as pessoas conseguem emprego empregos? Conseguem, mas os empregos não condizem com o nível de educação que elas têm, né? Quantas pessoas não têm empregos que na verdade nem demandam a qualificação da faculdade que ela fez, seja com FIES, com ProUni, com a expansão das universidades federais, né, que ocorreu nesse primeiro ciclo? Então você precisa gerar empregos melhores, o que demanda um projeto de país, porque não é fácil gerar empregos melhores. É o quê? É se posicionar. Aonde o Brasil vai se posicionar? Quais são os setores que a gente vai produzir? Onde temos competitividade? São questões que são de natureza, assim, de projeto de país estrutural de longo prazo. Então tem isso. Aí tem a parte dos serviços públicos. Claro, melhoramos, expandimos, sim, mas a população também cresce. Ainda estamos com gasto por aluno no sistema de educação ou por pessoa atendida no SUS muito abaixo do que gasta um país da OCDE com essas coisas. Então é difícil a gente estar com uma qualidade enorme desse serviço, a gente gasta 3, 4 vezes menos. Então, e por que que não se gasta mais? Porque a gente tem restrições também fiscais, né, de orçamento. Então não é, não tô dizendo que é fácil essa agenda, mas eu acho que a gente precisa ter uma ambição que entenda que as aspirações e que é preciso dar sequência a um plano de entrega de prosperidade de maneira mais clara. A 6 por 1, ela ajudou muito nisso, porque foi uma coisa muito assim que veio de fora, na verdade, mas que o governo entendeu a importância, e que ela ataca diretamente a questão que tá, eu acho, mais no centro disso tudo, que é o bem-estar, bem-estar econômico das pessoas.
Carol Pires:A gente sempre fala que, eu sempre trago isso de volta, que desses 2 primeiros anos Lula era uma ideia muito aspiracional e bonita e fácil de colocar as pessoas ao redor. Quando você dizia fome zero, luz para todos, ninguém pode ser contra algo assim, né? E tava demorando muito a encontrarem o que que é essa nova aspiração que ninguém vai ser contra, né? E acho que isso de você ter vida além do trabalho é difícil difícil você argumentar contra eles. Até tentaram, mas sempre tentam. Mas eu digo como slogan, falando quase como o slogan, é difícil de você—
Laura Carvalho:e tem, e mostra uma coisa muito importante também para gente, como eles são. Porque se você fosse pensar, né, a desigualdade no Brasil, como ela influencia o sistema político, quão conservador é o Congresso, quem diria lá atrás que uma agenda como obteria uma aprovação tão ampla, né? Assim, agendas que a sociedade, né, procurar essas agendas que estão realmente nos anseios da sociedade, que tem esse apoio que perpassa partidos políticos, que, que, né, em que realmente você não tem como, essa que você tá falando, não tem como ser contra. Eu acho Acho que é parte da solução até para que a gente consiga ir ultrapassando essas barreiras, né? E eu acho que isso vale para saúde, para educação, para transporte, para várias dessas agendas que eu acho que elas não são tão polarizadas quanto agendas, por exemplo, de redistribuição de renda, que eu acho fundamentais. Assim, a gente não vai resolver o problema de desigualdade no Brasil se não tiver, por exemplo, tributação do topo, que é um dos componentes da reforma tributária que foi aprovada, Mas essa agenda, ela é de muito mais difícil adesão da sociedade, essa de taxar aqui para redistribuir ali, né? Isso não só no Brasil, é no mundo inteiro. É evidência e sugerem que essas agendas redistributivas, elas são menos aceitas do que as agendas chamadas horizontais, que é salário mínimo, jornada de trabalho, saúde, educação, essas coisas que de criar um certo nível mínimo de dignidade, né? E não necessariamente tirar daqui para colocar ali. Então acho que tem que saber jogar com essa combinação mesmo, né?
Carol Pires:Ótimo, eu adorei! Você entendeu tudo, amiga?
Laura Carvalho:Tudo, entendi tudo.
Marina Dias:Tô pronto o quê? Para debater economia nas mesas! Ninguém me segura, ninguém me segura! Muito obrigada, Laura!
Laura Carvalho:Gente, beijo, obrigada a vocês, um prazer, um beijão!
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