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Metade+1: Como mulheres sem direito a voto defenderam 600 mil vidas na COVID?

27 de setembro de 202617min
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No 4º episódio do Metade+1, Carol Pires e Eduardo Branco te explicam como mesmo sem cadeira e sem direito a voto, as senadoras encontraram uma brecha para entrar no jogo na CPI da Covid. Essa mobilização acabou tendo um papel importante nos rumos da investigação.

Metade+1 é um videocast que te conta como um voto ou uma votação podem mudar os rumos do Brasil. Te contamos como, no Senado, cada voto importa.

Assista a este e aos primeiros 4 episódios completos aqui no Spotify, pelo Instagram ou pelo YouTube.

#Senado #MetadeMais1

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Participantes neste episódio2
C

Carol Pires

Host
E

Eduardo Branco

Co-hostRoteirista
Assuntos5
  • A participação das senadoras na CPI da COVID sem direito a votomulheres excluídas da comissão·senadoras decidem participar·rodízio para garantir presença feminina
  • A atuação de Simone Tebet na CPI da COVID e a denúncia da CovaxinSimone Tebet na política·pressões para compra da Covaxin·denúncia de prevaricação do presidente
  • A CPI da COVID e a omissão do governo Bolsonaro na pandemiaabertura da CPI·tentativa de barrar a CPI·investigação de estados e municípios
  • As contribuições das senadoras para o relatório final da CPILeila Barros e a falha de Pazuello·Cátia Abreu e a diplomacia com a China·Zenaide Maia e a cloroquina·Mara Gabrilli e a vacinação prioritária
  • O papel de Renan Calheiros como relator da CPI da COVIDhistórico político de Renan Calheiros·importância do relator na CPI·relatório final da CPI
Transcrição77 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Teens share everything. That may include the bacteria that can cause meningococcal disease known as meningitis. Even if your teen's been vaccinated in the past, they could still be missing meningitis vaccinations. Ask your teen's doctor or visit meningitis.com today. Sponsored by GSK.

CPCarol Pires

Oi pessoal, Carol Pires aqui. Passando para avisar que você vai ouvir em seguida o Metade Mais Um, que é o meu novo videocast que eu apresento com o roteirista Eduardo Branco. São seis episódios. Em cada um deles a gente conta uma história. Em que um voto, um senador ou uma senadora conseguiram mudar os rumos do país. A gente tá mostrando como no Senado cada voto importa. E você sabe, as eleições estão aí, então é super importante.

São 6 episódios e esse já é o quinto. Então se você não assistiu os outros, volta aqui no feed do Duas e Tanto. Como já é de praxe, é um videocast curtinho e a experiência é bem melhor em vídeo. Gente, eu confesso que eu não queria voltar a falar nessa história, que é uma história sobre a pandemia de COVID, mas aqui no Metade Um a gente tá histórias que aconteceram no Senado em que um senador, ou nesse caso uma senadora, pode mudar os rumos de uma investigação que interessa ao país.

E essa aconteceu no meio da pandemia. Edu, vamos voltar para 2021. Do que que você se lembra?

EBEduardo Branco

Muita coisa. Hospital lotado, falta de oxigênio em Manaus, de um jumento oferecendo cloroquina para uma ema.

CPCarol Pires

Quando o Brasil já tava chegando a 400 mil mortos por COVID, o Senado abriu uma CPI e a primeira reunião foi em 27 de abril de 2021. 6 meses depois, quando essa CPI terminou, já tinham sido registradas 600 mil muitas mortes.

EBEduardo Branco

Entre a primeira reunião e a última morreram 200 mil pessoas. Enquanto o Senado tentava entender o que tinha dado errado, ainda tava dando muito errado.

CPCarol Pires

Foi o senador Randolph Rodrigues que pediu a abertura da CPI para investigar a omissão do governo Bolsonaro. O governo ficou tentando barrar a CPI, claro, mas quando viu que era inevitável, mandou um emissário, o senador Eduardo Girão, para ele apresentar um novo pedido de CPI, mas essa para investigar como estados e municípios estavam usando o dinheiro enviado pelo governo federal para combater a pandemia.

EBEduardo Branco

Eu lembro desse argumento A galera falava, ah, vocês só querem investigar o governo federal ou todo mundo? Parece uma pergunta razoável, não?

CPCarol Pires

E pode ser, mas quando você perde o foco e amplia muito o campo da investigação, às vezes você acaba não investigando nada direito.

EBEduardo Branco

Então, na prática, eles só queriam bagunçar as cartas.

CPCarol Pires

Exato. E aí o jeito foi juntar as CPIs. As protagonistas dessa história são mulheres, e eu já já chego nelas. Mas antes eu preciso explicar quem eram alguns dos homens da CPI. A presidência da comissão ficou com o senador Omar Aziz, do PSD do Amazonas, que tava no centro do absurdo todo naquela época. Dezenas de pessoas já tinham morrido sufocadas dentro dos leitos dos hospitais porque não tinha mais oxigênio medicinal no estoque.

Foi total falta de planejamento do governo. E para relatar a CPI escolheram o senador Renan Calheiros. E é importante fazer um parênteses aqui, porque o papel do relator é bem importante, porque é ele quem apresenta a narrativa final do que foi investigado e para onde levar o resultado. E dizem no Senado, se você vê o Renan Calheiros pulando do 7º andar, pode pular atrás, porque lá embaixo tem água. Ele é meio que o Flash Gump da nossa política, quer ver?

Movimento estudantil contra a ditadura? Renan tava lá. A ditadura permitiu a criação de um partido, o MDB? Renan se filiou e foi eleito. Constituinte? Renan foi eleito e ajudou a escrever a Constituição de 88.

EBEduardo Branco

E começou a contagem regressiva, em novembro é a partida pra alegria geral. Em novembro é a partida, caramba, 40 anos e o homem não partiu até hoje. E nunca passou pela minha cabeça que antigamente lançavam jingle em disco compacto, né? E esse eu fui ver, tem o lado A, tem o jingle, e o lado B é só instrumental para quem gosta mais de um som diferente.

CPCarol Pires

Governo Collor, Renan tava muito lá, ele foi o líder do governo na Câmara.

EBEduardo Branco

Queda do Collor, deixa eu adivinhar, tava lá.

CPCarol Pires

Não só tava, como foi quem jogou o Collor do 7º andar e lá embaixo não tinha água.

EBEduardo Branco

A gente que sabia que o Collor sabia, então ele também sabia.

CPCarol Pires

Daí veio o governo Fernando Henrique Cardoso, tava lá e chegou sentando na janelinha, foi ministro da Justiça. Daí governo Lula, Renan tava lá, era presidente do Senado.

EBEduardo Branco

Caramba, não lembrava de nada disso. Eu só lembro de quando todo mundo ficou sabendo que ele tinha filho com uma amante e a amante pousou na capa da Playboy. Disso eu lembro.

CPCarol Pires

Curioso você só lembrar disso, né? É, teve isso mesmo, mas ele foi absolvido pela acusação de quebra de decoro e tocou a vida como senador. Os 180 manifestantes se concentraram em frente à FAESP, levavam os cartazes e faixas com mensagens como ética já, Vergonha e Fora Renan! Aí veio o governo Dilma. E aí, você lembra, teve aquelas manifestações de 2013. E o Renan tinha voltado a ser presidente do Senado. E olha só que vintage, os protestos da época eram contra ele.

EBEduardo Branco

Fora Renan é o cartaz mais reaproveitável do Brasil. Você faz uma vez e usa por 4 décadas. É um custo-benefício lá em cima.

CPCarol Pires

Aí veio o impeachment da Dilma. Renan tava lá de presidente do Senado pela terceira vez. A gente até falou disso no episódio passado. Volta lá.

EBEduardo Branco

Isso eu lembro, que ele conduziu a saída da Dilma e deu posse pro Temer. Mas o Renan também tava lá na Lava Jato, né? Na Transpetro, no quadrilhão do PMDB, tava lá?

CPCarol Pires

Renan tava lá, mas citado em investigações.

EBEduardo Branco

Tava lá na lista dos condenados?

CPCarol Pires

Aí o Renan não tava não, nunca teve, ficha limpa. Foi esse personagem que ficou de relator da CPI da Covid.

?Voz E

Capricha, Renan, vai, capricha, capricha.

CPCarol Pires

E essa CPI virou um bapho. Tava todo mundo em casa, trancado, os depoimentos sendo transmitidos ao vivo.

EBEduardo Branco

Nessa época, o brasileiro tava acompanhando a Juliette 24 horas por dia. BBB acabou, começou a CPI pra suprir a nossa abstinência de ver barraco transmitido ao vivo.

CPCarol Pires

Foi isso. E aí a CPI da COVID virou a novela nacional, só que uma novela em que todos os personagens eram homens. Na hora dos partidos indicarem os 11 titulares e os 7 suplentes só escolheram homens.

EBEduardo Branco

Caramba, 18 nomes para chegar em zero mulheres, alguém precisou errar aí umas 18 vezes.

CPCarol Pires

Aqui que as mulheres começam a fazer toda a diferença. Olha só o que aconteceu: as senadoras decidiram o seguinte: vamos participar assim mesmo.

?Voz F

Não tinha uma mulher numa CPI que fala de vida, de vacina, de criança, de idosos, né? Aí eu fui para dentro da CPI.

CPCarol Pires

O regimento tava do lado delas. Qualquer senador ou senadora pode participar das reuniões de qualquer comissão, mesmo que não faça parte, para poder fazer perguntas e discutir os assuntos. Só não pode votar. Então algumas senadoras decidiram inclusive organizar um rodízio para garantir que sempre teria pelo menos uma mulher na CPI. Vamos, galera, mulheres!

EBEduardo Branco

Aí não tinha um voto, mas pelo menos tinha um microfone.

CPCarol Pires

Em tese, o primeiro a ser ouvido na CPI foi o Luiz Henrique Mandetta, que foi o primeiro ministro da Saúde do Bolsonaro, demitido logo no começo da pandemia por querer combater a pandemia. Entre o poder e a coerência, eu fiquei com a coerência. O segundo depoimento foi do Nelson Taixi, que foi o homem que o Bolsonaro colocou no lugar do Mandetta. Mas esse só durou 29 dias no cargo. Ele pediu demissão porque o Bolsonaro ficou pressionando o Ministério da Saúde a recomendar cloroquina como remédio pra COVID.

EBEduardo Branco

Loucura que a gente viveu, né? Ele demitiu o primeiro-ministro por discordar, aí o segundo pediu demissão só pra não ter que concordar.

CPCarol Pires

Daí, a senadora Elisiane Gama, que fez carreira como jornalista antes de entrar pra política, pediu a palavra. Mas o senador Ciro Nogueira, do PP, esse que apareceu agora todo enrolado com o Daniel Boccaro no rolo-mato, Acer foi lá reclamar.

EBEduardo Branco

Agora, se foi um erro das lideranças não indicarem as mulheres, a culpa não é nossa.

CPCarol Pires

Só não entendo por que tanto medo das vozes femininas aqui, Ciro.

EBEduardo Branco

Importante lembrar que ele era líder do PP. Ele tá basicamente falando: se foi um erro meu não indicar mulheres, a culpa não é minha.

CPCarol Pires

E foi aí que a senadora Simone Tebet entrou na roda.

?Voz F

Há uma grande diferença de privilégio e prerrogativa.

CPCarol Pires

A Simone Tebet meio que nasceu na política, porque ela é filha do Rames Tebet, que foi governador do Mato Grosso do Sul e presidente do Senado. E ele era bem poderoso, desses políticos muito respeitados entre os outros políticos, meio voz da sobriedade. Mas a Simone Tebet não queria entrar na política.

EBEduardo Branco

Entendo, né? Também com um pai desse, eu imagino como ele contava histórias para ela dormir. Era uma vez, nos termos do artigo 1º, parágrafo 4º, uma menor doravante denominada Chapeuzinho Vermelho adentrou a floresta e aí traumatizou a criança.

CPCarol Pires

É, mas depois que ela entrou para política, ela disparou. Ela foi eleita deputada estadual, foi a primeira prefeita de Três Lagoas, foi a primeira vice-governadora do Mato Grosso do Sul, senadora. E no Senado, logo no primeiro mandato, ela foi eleita para presidir a CCJ, que é a rainha da coroa das comissões, que a Comissão de Constituição e Justiça é a última fronteira antes de um projeto ir para o plenário. Então ela comandava na CCJ 27 senadores debatendo reforma da Previdência, pacote anticrime, arma, corrupção, tudo isso com ela comandando a pauta, apartando briga, negociando.

Quando começa uma briga no meu show, primeiramente eu falo: ei, ei, ei, DJ, para o som! DJ, para o som! Segurança, E tô dando essa volta para explicar quem é Simone Tebet porque ela é um ótimo exemplo do metade mais um, que é quando um voto, uma articulação, uma pergunta bem feita pode mudar os rumos de um projeto, de uma votação ou de uma CPI. Então, voltando à CPI da COVID, era junho de 2021 e dois irmãos estavam prestando depoimento.

Um era o servidor de carreira do Ministério da Saúde, Luiz Ricardo Miranda, e o irmão dele, o deputado federal Luiz Cláudio Miranda, mais conhecido como Luiz Miranda. Para facilitar, eu vou chamar um de Luiz Servidor e o outro de Luiz Deputado. O Luiz Servidor tava lá no trabalhinho dele no Ministério da Saúde quando ele precisou aprovar um processo de compra de uma vacina para COVID. Enfim, estavam saindo as vacinas e essa vacina era a Covaxin, mas tava tudo esquisito ali.

O contrato falava em 20 milhões de doses, mas o pedido de pagamento falava em 3 milhões. Aí na folha seguinte tinha 5 milhões e esse contrato dizia que o pagamento só seria feito depois da entrega, mas já tinha um boleto ali pedindo 100% do pagamento adiantado.

EBEduardo Branco

100% de 20 milhões, 3 milhões ou 5 milhões? Podcast sobre política é ruim porque você sai sabendo menos sobre matemática.

CPCarol Pires

O total ia ser de 45 milhões de dólares, ou seja, 230 milhões de reais. E esse dinheiro era para ser pago para farmacêutica da Covaxin, que era essa indiana Bará Biotech. Só que no contrato tava dizendo que era para mandar todo esse dinheiro para outra empresa em Singapura.

EBEduardo Branco

Tem focinho de porco, rabo de porco, orelha de porco. Então era malandragem com dinheiro público.

CPCarol Pires

Mas o Luiz servidor disse que mesmo apontando lá, que tava tudo muito esquisito, ele tava sofrendo pressões atípicas de superiores para acelerar a compra das vacinas.

?Voz F

Eu já havia identificado o primeiro item, o nome do ministério estava errado. Havia, aliás, havia muito erro de grafia na invoice.

CPCarol Pires

Aí o Luiz Servidor ligou para o irmão Luiz Deputado e falou assim, ó, isso aqui tá cheirando mal. Daí o Luiz Deputado levou o irmão Luiz Servidor para falar com o presidente Jair Bolsonaro no dia 20 de março. Segundo eles, quando eles contaram o problema, o Bolsonaro soltou um comentário assim, de novo fulano?

?Voz C

Mas de novo então?

EBEduardo Branco

Já tinha acontecido outra vez, mas quem era?

CPCarol Pires

Pois é, eles não queriam dizer o nome do fulano pra CPI. Aí o senador Randolfe Rodrigues perguntou quem era, o senador Alessandro Vieira insistiu, aí o Renan Calheiros tava lá e também perguntou quem era. Aí a Simone Tebet mudou a chave da pergunta. O Luiz Deputado tava dizendo: eu não quero falar porque tô com medo das consequências políticas e pessoais de falar.

?Voz F

Nós já temos indícios, nós já temos documentos e nós temos como rastrear.

?Voz E

Pode falar o nome, deputado, Porque nós já sabemos. A senhora sabe que se eu fizer isso eu vou ser perseguido, já perdi todos os espaços, já perdi tudo que eu tenho, já acabaram com a minha política. O que mais vocês querem que eu faça?

?Voz F

Entendo a posição de Vossa Excelência, mas Vossa Excelência só confirma que sabe qual é o nome do deputado e nós vamos buscar a verdade a favor do país.

CPCarol Pires

Em vez de ficar insistindo pelo nome, a Simone Tebet incorporou lá seu papel de advogada e ofereceu pros Luizes uma saída institucional. A CPI investiga e não te deixa à própria sorte.

?Voz E

A senhora também sabe que é o Ricardo Barros que o presidente falou?

CPCarol Pires

Aí eles admitiram, o tal fulano era o deputado Ricardo Barros. Não qualquer deputado, era o líder do governo Bolsonaro na Câmara. E o Ricardo Barros já tinha sido ele mesmo o ministro da Saúde. Historicamente, a Saúde é um feudo do partido dele, o PP.

EBEduardo Branco

Pro PP, Saúde nunca foi pasta, tá mais pra capitania hereditária, né? Muda o ministro, mas o brasão continua lá na porta.

CPCarol Pires

Então, se os Luizes tinham avisado o Bolsonaro do contrato suspeito de vacina, o problema já não era mais só o contrato. Agora era sobre o presidente da República ter dado a entender que seu aliado tava fazendo esse rolo com vacina no meio da pandemia e não ter feito nada para parar.

EBEduardo Branco

Também conhecido em juridiquês como prevaricação.

CPCarol Pires

E um detalhe que não deveria ter ficado na história como detalhe é que meses antes da Covaxin virar esse escândalo, o senador Flávio Bolsonaro tinha aberto as portas do BNDES, que é o Banco Nacional de Desenvolvimento, ao dono da empresa que fez a mediação da compra da Covaxin pelo governo Bolsonaro. Em juridiquês, tráfico de Na CPI, o Flávio confirmou a reunião, mas disse que o assunto era outro, era levar a internet ao Norte e Nordeste.

EBEduardo Branco

Se era internet, pra que chamar o cara da vacina? Parece que ele se complicou mais, ele deu um álibi que precisa de um outro álibi.

CPCarol Pires

É, mas ficou por isso mesmo. Daí, em outubro de 2021, o Renan Calheiros apresentou o relatório final.

?Voz A

Era um calhamaço de mais de 1000 páginas propondo o indiciamento do Bolsonaro por 9 crimes: epidemia com resultado de morte, infração de medida sanitária preventiva, incitação ao crime, falsificação de documento particular, emprego irregular de verbas públicas, prevaricação, crime contra a humanidade, crime de responsabilidade e charlatanismo.

CPCarol Pires

No total, o relatório propunha o indiciamento de 80 pessoas envolvidas em todos esses crimes que a CPI tinha investigado: desinformação sobre tratamento precoce, atraso na compra das vacinas, omissão das autoridades na crise de falta de oxigênio em Manaus, o gabinete do ódio que espalhava mentiras sobre a pandemia e as suspeitas de irregularidades em contratos como o da Covaxin. O relatório foi enviado para Polícia Federal, Ministério Público, a PGR, ao TCU e todos os os órgãos para que eles tomassem alguma providência, porque a CPI investiga e propõe soluções, mas não tem o poder de processar criminalmente ninguém.

EBEduardo Branco

Na prática, CPI então é um boletim de ocorrência superfaturado. E a CPI, como a maioria dos boletins de ocorrência, não deu em nada.

CPCarol Pires

Não deu em nada até que o governo mudou. A Polícia Federal pediu para transformar as conclusões da CPI em uma investigação policial, e o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, autorizou. Então, mesmo que não tenham tido cadeira e voto na CPI, a participação das senadoras tá lá anotado como prova. A primeira senadora eleita pelo Distrito Federal, a Leila Barros, que é a nossa ex-medalhista olímpica, conseguiu arrancar do General Pazuello, que tinha sido o terceiro ministro da Saúde do Bolsonaro, a admissão de que ele tinha falhado na condução da pandemia. Quem mais o senhor considera responsável?

?Voz E

Todos os gestores em todos os níveis são responsáveis. Cada um no seu nível de responsabilidade.

CPCarol Pires

A senadora Cátia Abreu, do Tocantins, cobrou do chanceler Ernesto Araújo o porquê da diplomacia brasileira não ter negociado com a China acesso às vacinas e aos insumos que poderiam ter sido vendidos ao Brasil pra salvar vidas. Já a senadora Zenaide Maia, que é médica infectologista, desmontou aquela conversa da autonomia médica, que era um salvo-conduto pra sair prescrevendo cloroquina, que trata malária e lúpus, e ivermectina, que é um remédio antiverme, como kit COVID, enquanto tava faltando kit intubação pra quem tava internado.

Já a senadora Mara Gabrilli vinha desde antes da CPI brigando pra colocar as pessoas com deficiência e doenças raras na prioridade da vacinação.

EBEduardo Branco

E ela conseguiu.

CPCarol Pires

Com que o 4º ministro da Saúde do Bolsonaro, Marcelo Queiroga, incluísse isso no plano de imunização. Juntas, as mulheres propuseram no relatório final um fundo para os órfãos da COVID, proteção para quem ficou com sequelas, fortalecimento do SUS, políticas para grupos vulneráveis e uma regra para que as mulheres não fossem mais excluídas das comissões do Senado.

EBEduardo Branco

E tudo isso sem que qualquer uma delas tivesse uma cadeira de titular na CPI e nem direito Porque no Senado tem isso, cada voto conta, mas cada pergunta conta também.

CPCarol Pires

A produção do Metade+ Um é da Zarabatana Estúdio, com produção executiva do Eduardo Gomes. Eu assino o roteiro com Eduardo Branco, que também apresenta o videocast comigo. A edição é do Guilherme Yuki e do Fabiano Silva, com assistência do Vinícius Porfírio. A identidade visual é da Câmbia Estúdio, com a Isadora Moema, Felipe Pirapitanga, Marcos Ribeiro, Laura de las Casas e Nanda Miranda. A estratégia de divulgação é é da Ana Silva, pesquisa do Marlos Ápios e memes com a contribuição do João Vinícius Saraiva e Gabriel Melo Franco.

A coordenação é da Juliana Jaeger e fazem parte da Zarabatana a Aline Oliveira e a Iara Guzmão.

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