Duas e Tanto AO VIVO na Flip com Anielle Franco
Neste episódio de Duas e Tanto, gravado ao vivo no dia 24 de julho, na Festa Literária Internacional de Paraty, Carol Pires e Marina Dias entrevistam a ex-ministra da Igualdade Racial Anielle Franco sobre sua trajetória na política após o assassinato da sua única irmã, Marielle Franco. O episódio teve apoio do Estúdio Clarice com produção da Casa Buca.
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- Casos políticos de violênciaAmeaças após assassinato de Marielle · Colaboracao Premiada · Superação do medo e da raiva · Legado de Marielle Franco
- A importância da presença e do diálogoViolência contra a mulher como ponto comum · Renovação da Lei de Cotas · Transversalização da igualdade racial · Defesa do legado de Marielle Franco · Caso Gisele Alves
- Participação política das mulheresLiderança feminina na direita vs. esquerda · Bolsonaro · Reunião de Vorcaro com Lula no Planalto · PL Mulher · Valdemar Costa Neto
- Futuro político e possível vingançaNecessidade de diálogo para desradicalizar · O preço da desradicalização · Onde estaria Marielle Franco hoje · Formação política e liderança · Mulheres negras no STF
Oi amiga!
Oi amiga!
Hoje eu não tô te ligando, a gente tá fazendo esse ao vivo na Flip, na casa delas. A gente tá muito feliz de ter uma casa na Flip. Até pedir desculpas para quem tá aí fora. A gente fez essa casa, a gente teve essa ideia tem 2 meses, foi um pouco loucura nossa fazer, e tá sendo muito legal ver que funcionou e que tá vindo muita gente. Agradecer a Casa Buca, que foi quem montou tudo isso. Essa foi a casa mais legal que a gente achou.
Mas a gente tá aqui no segundo dia de casa já pensando, ano que vem tem que ser uma casa muito maior para caber todo mundo, porque funcionou funcionou. A gente tava, né, a gente fica sempre receoso se as pessoas vão aparecer, se vai ser legal, se a gente vai dar conta de fazer, se vão gostar, e deu certo. Então obrigada a todo mundo que veio, desculpa quem não conseguiu entrar, prometemos fazer uma casa maior. Depois que a mesa terminar, a Aniele vai estar ali no jardim assinando o livro dela, e aí todo mundo vai levantar.
Vocês, por favor, entrem. E antes de começar, só agradecer também o Estúdio Clarice, que é quem tá apoiando essa mesa. Eu vou chamar aqui a Mari Ribeiro. Amiga nossa também, para falar um pouco com vocês.
Gente, eu sou a Mari Ribeiro, do Estúdio Clarice, parceira dessa mesa. Quando o convite chegou para gente, absolutamente recusável da gente fazer essa conversa, apoiar essa conversa. Clarice esse ano lançou uma pesquisa sobre imaginário de poder das mulheres brasileiras, e é uma organização que nasce ancorada num diagnóstico: para uma mulher estar no poder não significa necessariamente ter poder. Isso é realidade na política, e a Anne vai falar sobre a experiência dela, né, muito verdadeira, muito real, a partir desse espaço.
Mas também é verdade em todos os setores da nossa sociedade. A gente foi entrevistar 60 mulheres em 11 setores diferentes, da política ao esporte, passando por cultura, passando pelo entretenimento, passando pelo mundo corporativo. E o que a gente aprendeu é que falar sobre representação e representatividade é uma condição totalmente urgente, mas ela também é insuficiente. A gente precisa falar sobre a experiência vivida das mulheres nos espaços de poder, a gente precisa denunciar, por um lado, o que as mulheres vivem e os motivos pelos quais a gente não consegue ou não tem as condicionantes colocadas para o exercício pleno de poder, e ao mesmo tempo em que a gente denuncia, a gente precisa anunciar.
As coisas maravilhosas que as mulheres estão propondo, a revolução de paradigmas de poder que as mulheres estão trazendo, poderes que são ancorados em distribuição de recurso, em modelos equitativos, em sociedades que são pautadas pelo bem viver. E é só a partir disso que a gente vai conseguir resolver os problemas mais urgentes dos nossos tempos. É isso que o Estúdio Clarice acredita, e é por isso que a gente topou muito o convite de estar aqui hoje de certa maneira co-anfitriando esse momento, essa conversa com vocês.
Então fiquem com essas maravilhosas Marina Dias, Aniele Franco, Carol Pires, que eu sou fã de todas elas e amiga também. Obrigada.
Então bora, bora!
Eu sou Carol Pires, eu sou Marina Dias, e esse é o Duas e Tanto, todas as terças e quintas, e às vezes na Flip também. Eu e a e a Carol, a gente se liga. Obrigada, gente, vou voltar. Eu e a Carol, a gente se liga para falar de política de um jeito rápido, fácil, acessível, para que todo mundo consiga participar do debate. Sigam a gente no canal da Carol no YouTube, @piriscarol. Sigam a gente no Instagram, @duasetanto, e em todas as plataformas de áudio.
Duas e Tanto é uma produção das Arabatana Estúdio com distribuição do Estúdio Novelo. Sigam também, gente, somos nemtodamulher.news, é onde tá saindo toda a programação da casa, os cortes. Acompanhem já para saber da casa do ano que vem, que vai caber mil pessoas. Anne, bem-vinda! Aniele Franco, bem-vinda!
Obrigada, amiga, uma honra estar aqui. Amigas, ai, adoro!
Eu vou começar a conversa puxando pelo que a Mari, por um acaso, a gente tinha organizado já falando desse estudo da Clarice, porque hoje a gente vive num momento em que nunca tantas mulheres ocuparam o poder, são ministras, deputadas, a gente tá avançando cada vez mais, mas tem esse estudo que a Clarice fez que 4 em cada 10 brasileiros não conseguem nomear uma mulher no poder, uma mulher poderosa. Como é isso, né? E se a gente tem tantas mulheres?
No seu caso, Anne, você foi ministra da Igualdade Racial. Antes de você, esse ministério nem existia. Você entra na política porque assassinam a Marielle, a sua irmã. Então você vai para um lugar de ser uma mulher de poder na política entendendo que ser uma mulher poderosa é se tornar um alvo. Como você tira a força para ir para isso e o que que você conseguiu fazer com esse lugar de poder?
Pergunta da gente ficar aqui umas 2 horas, né, respondendo. Mas primeiro, de novo, obrigada pelo convite. Uma honra tá aqui com essas mulheres incríveis, com essa casa lotada majoritariamente por mulheres também. Um salve para os homens, óbvio, mas a gente sabe o quanto é difícil a gente se provar todos os dias e dizer que é capaz de dar conta, de ficar, de permanecer. Eu divido a minha resposta em duas partes, Carol. No primeiro momento, eu queria falar sobre esse fenômeno que acontece quando a Marielle é assassinada, né?
Porque desde 2018, a minha família tem sido alvo de muitas ameaças. E ameaças essas assim que às vezes eu tô olhando aqui agora, Rafa, né, com Martin ali no colo, esposo de Bela Reis, querida família de Flávia Oliveira aqui também. Olha lá que lindo que esse menino é, gente. Só uma salva de palmas pra esse gentleman. Tô olhando pra ele e lembrando, né, porque eu tenho Eloá na mesma época mais ou menos que Martin. E a gente passava na rua grávida, a gente passava na rua depois que eu elou a bebê e era cuspida na cara e ameaçada, tudo por ser irmã de Marielle.
E eles faziam questão de falar isso. E aí o Instituto Marielle Franco, quando a gente ainda tava à frente, né, antes de eu ser ministra, nós fizemos uma pesquisa sobre isso. E em toda a pesquisa, todo mundo que respondeu, toda vez que a pessoa recebia algum tipo de ameaça, tinha o nome de Marielle. E 2024 era assim: você vai acabar como Marielle. Em 2022, quando o Lula me anunciou: você vai acabar como a sua irmã. Eu me lembro de um dia de madrugada que eu recebi um que ficou apitando muito, porque ele mandou várias vezes, que era assim: eu tinha postado alguma coisa da praia, assim, de manhã cedo, tipo 6 da manhã, uma foto.
E aí ele falava: você tá procurando a sua irmã? Mas pode deixar que eu te ajudo a chegar lá. E isso assim repetidamente, tipo 500 vezes a mesma mensagem. E você fala na sua pergunta, né, como que a gente vira esse alvo. Então, a primeira parte é isso, 2018 para cá, e depois esse anúncio de ministério. Ser uma mulher negra de favela, irmã de Marielle, né, filha de Dona Marinete, que ensina tudo para gente, e não esquecer de onde a gente vem, Mari, faz com que a gente não abaixe a cabeça.
Eu tinha duas escolhas quando eu chego naquele 14 de março. E vejo a Marielle, desculpa falar dessa maneira, desconfigurada, né? Assim, com a cabeça aberta, daquela, da maneira que foi no 14 de março. Depois, no 15, ali procurando o melhor turbante que ela gostava para colocar e para minha mãe poder se despedir dela. E eu tinha duas escolhas. E Abdi do Nascimento tem um poema que ele fala, né, que quando o ancestral nosso tem um sangue derramado, a gente honra esse sangue até o final.
A gente conversava muito sobre isso. E é daí que vem a força também, né? Para além da fé, para além da família, para além de entender que sem nós não haverá mudança, né? A gente tá muito cansada de dormir e acordar com medo, né? A gente tá muito cansada de ter que falar o óbvio, de que as mulheres precisam chegar e permanecer vivas, inclusive sem serem assediadas, violentadas, né? Então o que a gente consegue fazer dentro do ministério, né, que é assim o primeiro Ministério da Igualdade Racial, Também passa muito, Carol, pela minha formação, pela minha criação.
Eu adoro uma frase que diz que a cabeça pensa e o coração sente onde os nossos pés já pisaram. Então, óbvio, qualquer pessoa teria feito algo tão bom quanto, mas é diferente quando você sabe o que é a fome, quando você sabe o que é a perda de uma pessoa que você ama da maneira que foi, quando você sabe que estar do lado certo das pessoas pode custar inclusive a sua vida. Como aconteceu com a minha irmã.
E é por isso que a gente não desiste e vai adiante.
Ministra, eu ainda tenho essa liturgia, tá? Não chamo de Anne não, eu chamo de ministra.
Eu ia falar que a gente tem uma intimidade.
Ministra, como a Carol falou, esse poder feminino no Brasil ele ainda não tem um rosto, mas quando tem, quem tem aparecido em primeiro lugar é Michele Bolsonaro. E aí eu vou trazer dados aqui na minha colinha. Tem uma pesquisa do Meio enquête Ibreia, que foi feita agora em junho ou julho, divulgada. E quando você pergunta, né, quem é a mulher mais poderosa do Brasil, 15,4% dizem Michele Bolsonaro e 9% dizem Janja. Essa pergunta tinha sido feita em novembro e a Michele só tinha 4,8%, ela tava aparecendo em terceiro lugar.
Então ela deu esse boom num momento em que ela tem trabalhado muito nessa política com as mulheres do movimento que ela chama mulheres, movimento feminino, né? E ela faz isso com as mulheres conservadoras, evangélicas, mas não só, criando esse movimento feminino conservador. Então a minha pergunta, ministra, é: por que a direita conseguiu criar uma liderança mulher tão reconhecível e a esquerda ainda parece discutir qual é o lugar da mulher na política?
É bom, vamos lá, vou começar falando, né, porque Michele tem ali um papel, fez o vídeo, a recatada bonita, linda do lar. E aí muita gente fala assim, nossa, que importante a gente ter mulheres nesses espaços, vamos votar em mulheres, vamos trazer mais mulheres. Mas meu amor, se for para trazer mulher que luta contra direito das mulheres, ela pode ficar lá onde ela tá mesmo, cuidando do presidiário. Numa sociedade que é misógina, racista, que muitas vezes apaga e silencia as mulheres desse lugar, a mulher que se posiciona de uma maneira um um pouco mais firme, porque também tem isso, né, mas claro, eu não tô desmerecendo quem votou na Michelle, quem acredita nisso, mas todas as vezes que a gente se coloca um pouco mais firme ou denuncia alguma coisa, a gente é questionada.
Ah, mas por quê? E eu me lembro muito, né, todos os ataques que eu sofro, que eu sofria enquanto ministra, mas que ainda sofro hoje, e o que Janja passa ainda, que passava quando tava ali no dia a dia mais próximo e tudo, era muito da maneira e do posicionamento dela. Claro que a gente tem aqui opinião diferente. Você pode, né, achar uma coisa, Mari outra, eu, Joyce, Maria, todo mundo. Mas a gente também precisa entender isso: nem toda mulher que tá ali nos representa.
Queria falar uma coisa muito rápida assim. Eu sentei com a Damares pra falar da renovação das cotas raciais. E a Damares é uma lady, gente. É uma queridona, fofinha. Uma pena que vá contra o direito das mulheres, entendeu? Ela ia ser melhor se ela não fosse. Mas ela sentou comigo e ela olhou e falou assim: Não, mas cotas raciais? E a gente sentou com todo mundo pra debater aquilo, pra falar o óbvio, né? Por que cotas raciais é importante nas universidades públicas?
Ah, porque sai de 3,2 pra 5, depois 10, depois 15, depois 50 e pouco. E ela olha pra mim e fala assim: Poxa, Aniele, mas esses dados aqui eu não sei se estão corretos. Por que eu tô trazendo isso? Porque existe uma disputa, óbvio. E aí a política também é cruel nesse ponto, né? Se eu tenho mais visibilidade do que você, não importa se eu sou direita ou esquerda, Por isso que Sueli Carneiro fala: entre direita e esquerda eu continuo preta.
E é verdade, é a nossa maior realidade, porque quem tá não quer ceder o lugar. Para que a gente ocupe tudo, alguém tem que sair, e ninguém quer sair, né? Quando assassinam a Marielle, ele fala: é mais fácil assassinar uma mulher negra do que um cara que anda com escolta e com carro blindado. Ele fala isso dentro do julgamento, na frente da minha mãe, do meu pai, inclusive. Eu não sei, Mari, quando que vai ser a virada de chave Pra que se entenda que essa política, pra ser mais diversa, tanto de um lado quanto de outro, tem que ter mais mulheres.
Eu não sei. Mas o que eu sei é que desde que minha irmã não está mais aqui, eu prometi a mim mesma honrar esse legado. Eles querendo ou não, gostando ou não, eu vou continuar apontando o dedo, denunciando, falando e dizendo que as mulheres precisam chegar, mas permanecer. A gente tá muito cansada de ter um monte de macho hétero branco decidindo, por exemplo, sobre aborto no nosso país. É uma pauta que poucas pessoas decidem falar sobre isso, mas é uma pauta que tem agora crianças menores de 14 anos parindo e que nem o que tá na lei as pessoas aceitam aquilo.
Não, não pode. E aí, por outro lado, é um país que mais tem o consumo de pornografia infantil e LGBTQIA+. Então é muita hipocrisia, né? Eu não desmereço o trabalho que Michele faz, mas acho que cada um tem o seu lado. Eu convivi com Janja e sei e entendo o quanto que ela se esforça e tá ali para lutar por um país melhor. Mas o que eu sei de verdade é que a gente tem que ter muito cuidado, principalmente nesses anos, né, anos pares, de quem de fato representa e que vai lutar pelos nossos direitos, ou quem vai fazer com que eles continuem escassos como tá agora.
Eu vou insistir um pouco nessa pergunta, mas um pouco de outro ângulo. A gente ontem aqui na casa delas fez uma edição do Nem Toda Mulher minha com a Vera, é, com a Jaqueline Teixeira.
Vera gata, né?
Vera linda. E a Luciana Petersen. Então, é, uma estudando essa, esse encontro de mulheres conservadoras e política, a Lulu uma pastora de uma comunidade evangélica LGBT. E a gente conversou muito sobre esse assunto, foi uma mesa muito legal, e a conversa passou muito por como nós lemos as mulheres conservadoras, como muitas vezes colocamos todas elas dentro de uma única caixinha que acaba perdendo, né, profundidade, nuance. E a gente falou da Michelle muito porque assim, aí vou fazer um pequeno contexto jornalístico, né.
Todos os partidos precisam aplicar 5% do fundo partidário em formação de mulheres na política. Porque depois vai chegar a eleição, eles são obrigados a lançar pelo menos 30% de candidaturas de mulheres, financiar essas candidaturas. Mas antes das candidaturas vem essa formação política. E a gente sabe que os partidos em geral não aplicam esse dinheiro. E existem sanções do TSE. Mas o que eles fazem? De eleição em eleição, eles votam uma anistia aos partidos que não cumpriram.
Então eles não cumprem. Depois, os mesmos que se mantêm no poder porque não cumpriram se anistiam. E nisso vai, vai, vai, e vemos o que acontece. O que o Valdemar da Costa Neto, que é esse um dos maiores operadores políticos do Brasil, né, dono do PL, partido dos Bolsonaro, o que que ele fez? Ele viu alguma coisa na Michele, ele viu como ela tem abertura para acessar mulheres conservadoras nas igrejas e falar com elas, e ele deu, ele realmente aplicou esse fundo, esses 5%, no PL Mulher e deu para Michele gerir.
Só que isso é R$1 milhão por mês, e ela usou esse dinheiro nos últimos 4 anos para sair viajando o país fazendo filiações, formação de candidaturas de mulheres. E por isso ela diz agora que vem com esse movimento Imparáveis, movimento de mulheres, movimento feminino brasileiro que não é feminista, né? E ela Provavelmente vai chegar chegando.
E ela chega em 24, na verdade, né? Porque ela fala, a gente chega quase 3 mil pessoas, 3 mulheres, 3 mil mulheres filiadas. E teve um movimento que onde você ia tinha mulheres com camisa do PL Mulher.
Então a sensação, a minha análise é assim, é por, pelas razões dele, Valdemar viu o poder que a Michele tinha para falar com mulheres, porque o eleitorado feminino é muito importante, somos a maioria da população. Somos a maioria dos eleitores e somos a maioria na meiuca dos votos que realmente vai decidir a eleição, que são aquelas mulheres que não se identificam nem como direita nem como esquerda, não têm filiação política e elas votam pela sensação de vida.
Minha vida tá boa, minha vida não tá boa. E essa meiuca que vai decidir a eleição é de maioria mulheres. E para perpetuar seu projeto político autoritário de direita, o Valdemar viu na Michele um alguém E poderia seguir. Eu não vejo os partidos de esquerda apostando nas mulheres dessa forma, falando: as pessoas querem mulheres na política, as pessoas querem outras ideias, querem alguém que tenha um olhar mais panorâmico sobre os problemas, querem— a gente quer desradicalizar a política.
E talvez seja por isso, mas eu não tô vendo os partidos de esquerda fazendo essa formação, tendo essa conversa de base durante 4 anos, e na base do eleitorado conversar. Então acho que A pergunta seria um pouco por aí. O que que você tem ouvido?
Eu concordo com vocês, gente, eu não discordo não. Assim, se eu não consegui me fazer muito escurecida na minha pergunta anterior, eu repito assim, eu acho que tem isso mesmo. Eu acho que a gente tem umas disputas às vezes internas que também dificultam que isso aconteça, sabe? Eu não vou ser aqui nem hipócrita nem leviana, porque eu falo e tenho falado isso abertamente, falei isso para o presidente, falo isso em qualquer lugar, tem pautas que para mim são inegociáveis.
As mulheres negras, quando tentam chegar em espaços políticos institucionais, não são vistas como mulheres capazes de exercer as suas funções. Isso tá dado, isso tá claro assim, tipo, não tem nenhuma fala que possa fazer isso diferente, amiga. Não tem, não existe. Até porque é isso, né? A Mari tem uma fala que é a marcação perfeita disso. A Marielle assassinada no 14 de março, e ela faz uma fala 8 e pouco da noite, uma hora antes dela ser morta, que ela diz: vocês viram Benedita da Silva entrar, 10 anos depois, foi um pouquinho mais de 10, 10 anos depois a gente vê Jurema Batista, e 10 anos depois, também foi um pouquinho mais de 10, Marielle Franco.
E ela fala isso, 8 horas da noite: não esperem que eu esteja aqui por mais 10 anos. E ela é morta naquele dia. Assim, vamos lembrar aqui que em 2018 a Marielle queria ter sido candidata a outras coisas. E o próprio partido, que é um partido progressista, diz que não. Assim, a Aniele, quando é ministra e quando é anunciada, é anunciada porque é somente irmã de Marielle. E às vezes isso vinha da própria esquerda. A gente não precisa ser hipócrita, que a gente sabe disso.
A disputa, ela é fora e dentro. O que eu tenho falado e tenho dito muitas vezes é que assim, o meu maior sonho era conseguir dialogar com quem pensa diferente de mim, da minha irmã. Por quê? Porque a gente perdeu o senso de empatia, a gente perdeu o senso do diálogo de uma democracia que tá falida. Porque se um cara mata um jovem negro na favela da Maré com um tiro de fuzil no peito e a sociedade aplaude, se uma mulher é assassinada com 5 tiros na cabeça, 13 no corpo, e no dia seguinte tinha uma desembargadora e um deputado federal dizendo bem feito, já morreu tarde?
Onde que a gente falhou? E isso também é visto dentro dos partidos, todos eles. É óbvio, Carol, é assim, eu tô falando da minha experiência de vida enquanto uma mulher negra na política, né? Óbvio que talvez tenham outras pessoas, mas aqui não, não é assim. Mas desde sempre as mulheres negras, principalmente nesses espaços, precisam se inventar e se reinventar, porque nunca alguém quer falar assim: não, vamos lá, vamos pegar aqui a mão dela, né, e vamos levar para que a gente possa fazer mais mulheres.
As mulheres fazem política há muito tempo, estão organizadas há muito tempo, mas esse cuidado, né, da fala do tipo: o partido de direita faz, o de esquerda não faz, Porque também fazer do jeito que eles fazem fosse melhor talvez nem fazer, porque não faz olhando por um bem comum, né? Porque se a gente chega aqui pra perguntar assim, não, tudo bem, vamos lá, mulheres no poder. Aí alguém ia falar assim, não, vamos pensar, vamos repensar isso daqui.
Seja direita ou seja esquerda. E a minha visão assim desse lugar, dessa disputa de espaço que a gente tem também tentado entrar, é de botar o dedo na cara mesmo e falar assim, Por que que não pode? Tudo bem, tem a cota, tem que cumprir, tem que fazer. Mas por que anistia? A gente sempre falou e se posicionou. Por isso talvez a gente em alguns lugares não seja pessoas queridas ali. Mas de novo eu repito, tem pautas que são inegociáveis.
E pra gente estar aqui nesse espaço e assumir, vai ter crítica, óbvio que vai. Mas tem que ter coragem pra estar nesse lugar. Tem que ter muita coragem pra você ver uma irmã morta, tem que ter muita coragem pra você ser assediado, tem que ter muita coragem pra você ver que os próprios partidos às vezes ignoram a sua existência. Mas tá batendo o peito, falar assim: não, eu vou ficar e vou fazer por mim, por vocês, porque a próxima geração precisa ter políticas, mas que olhem de verdade para os nossos direitos, não para tirá-los.
Ministra, você falou sobre conversar com quem pensa diferente e também falou sobre pautas inegociáveis. A gente conversa bastante no Duas e Tanto sobre como comunicar melhor algumas pautas que, para a esquerda, para as mulheres progressistas, são inegociáveis, como o aborto, para algumas. E eu queria entender de você quais são as pautas inegociáveis que você acha possível negociar com quem pensa diferente. Quais seriam os campos em comum que você conseguiria trazer esse debate para dentro do Congresso ou para a sociedade civil com pessoas que pensam diferente de você, o que dá para fazer sobre quais temas?
A gente deveria poder fazer sobre todos os temas, né, se fossem pessoas ali racionais, né, principalmente no campo da direita. Ia ser ótimo, mas tá difícil. Mas eu me orgulho muito, Marina, de conseguir falar que eu consegui a renovação da lei de cotas, por exemplo, no serviço público e nas universidades federais. E assim, dialoguei com todo mundo, inclusive um dos deputados mais votados de direita do estado do Rio de Janeiro falou para mim assim, poxa, Aniele, você é até bonitinha, pena que você defende preto, né?
Essa fala no Congresso Nacional. E você olha para aquilo, você não acredita. Mas enfim, naquele momento eu vi muitas coisas piores. Mas eu sentei e expliquei porque não era só a Aniele que é cotista de faculdade, mestrado e doutorado, né? Era a Aniele que precisava fazer com que os jovens também tivessem acesso àquilo. São outras gerações que vão estar entrando em universidades e precisam ter acesso. Então eu sentei, dialoguei, falei sobre uma outra coisa.
Vamos ser aqui, vamos ser justas e honestas, né? Quando Damares fala comigo sobre isso, pouco depois tem, né, o escândalo do assédio que eu vivi. E ela foi uma que ali chegou e falou para mim, olha, sinto muito, tô aqui com você. Então eu acho que tem pautas que a gente, óbvio, ela tinha um interesse para fazer aquilo ali, mas ao mesmo tempo tem pautas comuns que são inegociáveis para mim, que é transversalizar a igualdade racial no governo federal.
Foi uma pauta inegociável. A gente consegue colocar desde a saúde, educação, cultura, esporte, lazer, para que as pessoas entendessem que quanto mais diverso, mais acesso. Isso era o básico, assim, isso era primordial. E quando eu falo que para mim tem pautas inegociáveis, são essas pautas, né? Eu não abro mão de defender o legado de Marielle, a memória de Marielle. Eu não abro mão de defender as mulheres em todos e qualquer espaço que eu esteja.
Não tem como não negociar sobre isso. Eu me lembro que logo no começo do governo eu cheguei para uma reunião várias pessoas e alguém falou assim, poxa, você pega um cafezinho para mim? Eu era a única mulher que tava entrando. E aí logo depois chegou uma outra pessoa, que era uma outra ministra branca. E aí, ah não, senta aqui, a gente tá esperando a ministra chegar. Não pega um cafezinho para mim? Aí eu falei, você pode levantar e pegar, você tem duas pernas.
Não, é que eu tô esperando a ministra. Falei, pois é, ela chegou. Então assim, esse tipo de coisa que a gente tinha que estar o tempo inteiro, mesmo num governo progressista democrático, falando Não, eu também tenho condições de ser ministra. Não é porque eu sou uma mulher negra que eu não posso. Então essa defesa para mim é inegociável. Defender um jovem negro vivo de favela de periferia, defender a cultura, defender que todo mundo tenha mais acesso à cultura, o esporte, lazer, porque foi o que salvou a minha vida.
Se eu não tivesse o esporte e a educação, talvez hoje eu não estivesse preparada para estar aqui falando com vocês. Mas eu sei que eu sou uma exceção da favela da Maré que consigo uma bolsa de estudo para jogar fora 12 anos nos Estados Unidos. Então isso para mim é inegociável. Quando a gente chega nesses espaços políticos, né, institucionais, onde as pessoas falam assim, nossa, você morou fora, é como se fosse um avatar, sabe?
Aquela coisa, meu Deus, ela fala inglês! Meu Deus, ela morou— A primeira vez que falaram, a família da Marielle, ah, vai chegar, e a gente conseguiu se comunicar, eu ouvi de uma jornalista no Rio de Janeiro falando, nossa, eu achei que a família da Marielle era um bando de ignorante, né? Favela da Maré. É disso que a gente tá falando. É por isso que tem pautas que a gente não negocia. É por isso que a gente insiste em dizer que nós mulheres estamos mais do que prontas para chegarmos, permanecermos cada vez mais.
O que a gente precisa é de uma oportunidade e que a gente não morra no meio do caminho, nem desista, nem seja assediada ou violentada como tantas de nós têm sido.
Só quero fazer um comentário para passar para Carol para última pergunta, porque esse é um podcast para você ouvir tomando um cafezinho. É rápido, né? Hoje deu para fazer bolo, de lasanha, mas um, você falou sobre a violência que a Damares foi falar com você depois do seu assédio. E a gente viu um aceno também da primeira-dama Janja para Michele Bolsonaro durante uma entrevista recentemente, porque a Michele Bolsonaro sendo atacada pelo Flávio e outros enteados dela também por conta dessa disputa por poder e por espaço, e também pelo espólio, por que não, de votos do Bolsonaro.
Então Queria rapidamente saber se você acha que a violência contra a mulher é um lugar comum para dialogar com mulheres conservadoras, progressistas e conservadoras, olhando contra a violência contra a mulher.
Eu acho super, mas eu acho super. Eu acho que enquanto a gente às vezes tem essas disputas menores assim, pequenas, né, a gente perde muito tempo e não tá unida falando sobre aquilo. Eu tava panfletando outro dia no Rio, e aí uma mesa cheia de mulheres, né? E elas tomaram uma caipirinha de morango que eu amo. Eu falei, ai, gente, que delícia essa caipirinha, bebam por mim e tal. Aí umas fizeram uma cara feia, né? Aí outra, ai, NL, olha, eu voto no Bolsonaro, mas esse ano pode ser que eu dê ali um voto para as mulheres progressistas, não sei o quê.
Aí eu fiquei curiosa de falar com ela, eu falei, me explica como é isso, que eu acho que você tem estudado, né? Eu falei, me explica. Ela pegou e falou assim, não, eu senti muito o que aconteceu com a sua família. E eu fui procurar sobre a sua história. E eu queria me solidarizar com você e te dar um abraço, posso? E a mesa inteira parou pra olhar aquilo. E eu falei, caramba, é disso que a gente tá falando, sabe? Eu acho que super tem a ver.
Eu acho que é um assunto que quanto mais a gente puder ficar unidas pra isso, melhor seria, né? Eu sinto muito ver o que o país tem se tornado, assim. A falta de empatia, a falta de diálogo, né? A falta de sonhos pra juventude. Tem muita coisa que a gente ainda precisa caminhar demais. E que às vezes a política institucional não dá conta, mas outras políticas dão conta, porque o nosso corpo, ele é político, onde quer que a gente vá.
Então, sem dúvida nenhuma, eu vi a manifestação da Janja que ela fez, assim como ela fez na época da minha situação, que ela vai e bota a foto dando um beijo na minha testa. E tantas outras. Eu mesma, na hora que vi aquilo, eu falei assim, caramba, É muito parecido, né? Porque mesmo quando você tem uma ascensão social, o racismo não te livra disso. Vini Júnior tá aí para provar, né? E ainda ela que tá no lugar conservador passou também por um tipo de violência.
E a gente que passa todos os dias no enfrentamento de dizer por que estamos aqui. Então, sem dúvida nenhuma, é um assunto em comum que a gente tem cada vez mais fortalecer.
E um pouco que você tava falando antes, né? Se a gente vai conseguir— não vai ser a melhor expressão se a gente tivesse gravando, depois a Marina dizia, amiga, não dá.
E aí eu corto.
Então não fala. Ela é elevada, né? Eu conheço bem.
A pergunta é assim: a gente vai ser capaz de tapar o nariz para tudo que aconteceu, né, no governo anterior e nas pautas desse outro projeto político para conversar com essas mulheres sobre temas comuns? Porque é o que você tá falando, a Damares faz um aceno, agora a Janja fez um aceno à Michelle, a Michelle não acenou de volta, mas saiu uma nota na Folha de São Paulo em que mulheres conservadoras aliadas da Michele falaram para o Zanini, né, na Folha, que gostaram do aceno e de que é sinal de que dá para baixar a guarda em alguns assuntos.
Mas baixar a guarda para negociar alguns assuntos é tapar o nariz para muita coisa que aconteceu. Mas talvez seja o preço a se pagar para desradicalizar a política. Não é despolarizar, não é chamar, não é trabalhar no mesmo campo, não é ser amigo, Mas é desradicalizar a forma como a política tá sendo feita, né?
Por que que a gente teria que tapar o nariz, né?
O COVID, tentativa de golpe de Estado.
Eu sei, amiga, mas assim, é claro, tô brincando nessa parte, mas eu acho que sim, se for esse o preço que a gente tenha que pagar para termos cada vez mais mulheres unidas E lutando por direitos. Porque também eu não vou tapar meu nariz nem minha boca nem nada pra sentar com uma mulher que vai falar assim: Ah não, esse direito aí eu não quero não. Aí a gente nem vai. Mas eu acho que o diálogo sempre— eu vou ser sempre a favor.
Eu não vou ser aqui hipócrita, que a gente tá nesse podcast que eu amo, de falar assim: Ah, mas você nunca teve vontade de xingar elas e mandar ela pra p— Claro que já tive, muita. Ainda mais quando a gente entra, aquela bonitinha da tiara. Quando eu entrava no congresso, que ela olhava, falava assim: nem vem, nem vem que eu te mando tomar lá naquele lugar, não vem não, pode passar direto. Porque é isso também, tem limite, né?
Algumas coisas que ela falava ali que eram surreais. Mas eu acredito sempre, eu vou sempre ser a favor do diálogo, amiga, porque a gente precisa mesmo, sabe? É isso, tem gerações e gerações chegando do Martin, da Eloá, de um monte de gente que tá aí que olha e fala: meu Deus, né? Por onde nós vamos? Para onde nós vamos caminhar? Se tivesse respeito e empatia e fosse uma conversa de igual para igual, para que a gente pudesse ali de fato falar: esse direito aqui é inegociável, não, isso aqui, amiga, não tem como tu defender essa merda, vamos falar sobre isso. Eu faria tranquilamente.
Vou chegar no final.
Tirou um lead, amiga, gostei!
A gente, depois de tudo isso, né, só teve um lead.
Foi muito importante você, você sinalizar o diálogo nessas pautas em comum, porque falta isso, está faltando isso.
Você pode fazer isso ano que vem, amiga. Faz uma mesa babado, bota Michelle, Janja, Niele, Damares. A Júlia tu deixa de fora, que eu não tenho paciência com ela não.
Eu fiz uma maravilhosa, mas a gente chama outras. Eu produzi um podcast para Manuela Dávila e a gente juntou Kátia Abreu com Joyce Hasselmann. Foi babado, foi babado. Mas a gente teve que colocar uma regra no começo, que era assim: não vamos falar de impeachment, a gente vai falar sobre ser mulher na política. Porque assim, né, uma de direita, Kátia Abreu, direita clássica, que depois apoiou a Dilma, a Joyce Hasselmann, que era uma das caras ali daquele movimento do bolsonarismo terrível, e que depois justamente foi atacada pelos próprios bolsonaristas e falou: Opa, como é aí que vocês feministas estão falando?
Entendi. Mas que de qualquer forma as duas se unem contra o Bolsonaro, mas continuam de lados opostos, porque enfim. Mas foi muito interessante, elas tentavam em algum momento ali se alfinetar, mas quando você fala vamos deixar esse assunto para fora, vamos falar, vamos delimitar o quadrado aqui, a gente vai falar desse assunto, e é isso, é muito legal.
Mas vocês não acham, vocês duas como essas maravilhosas que são, vocês não acham também que o trabalho dos partidos às vezes sozinhos é insuficiente, porque na minha opinião ele é insuficiente. E é por isso que é tão maneiro quando a gente fala assim, vamos dialogar com todo mundo, porque tem que ser. A política institucional não vai dar conta de tudo, óbvio que não, mas quem construiu a base dos partidos foram as mulheres progressistas, democráticas, de esquerda, e sem dúvida nenhuma de movimentos.
Então a gente precisa também reconhecer isso e fazer, por exemplo, quem tem mais condições financeiras pra ajudar uma mulher a se eleger e a chegar nesses espaços. Quem tem mais conhecimento, seja num podcast, numa televisão, seja onde for, pra que a gente consiga, de fato, ter esse diálogo, óbvio, direita e esquerda, mas sendo no geral, amiga. Porque as mulheres estão morrendo. A gente tá numa epidemia lascada, gente, de mulher sendo assassinada por ex-companheiro, sendo violentada.
Os dados que tem de meninas parindo, de gente sendo obrigada, né? Ah, não, não pode. Ah, isso pode, isso não pode. E com adolescentes ainda. Assim, quando que a gente vai de fato tirar a mão da hipocrisia? Como sociedade, eu digo, não a gente que tá nesse campo mais progressista. E falar assim: não, vamos conversar, vamos sentar aqui. O que que você fala da família do bem? Ah, a família do cidadão de bem é o quê? Uma criança de 12, 13 anos sendo mãe?
E aí você pega lá os índices do aborto, você vê os números alarmantes, como é que é aquilo. Então eu vou ser sempre a favor do diálogo, mas que esse diálogo consiga, sem dúvida nenhuma, virar política pública de qualidade para as meninas e mulheres do nosso país.
Acho que o final é o seguinte: você tava falando, né, das mulheres mortas, e a gente sempre volta nesse assunto da Marielle. Hoje a gente nunca teve uma mulher negra no STF. Essa é uma demanda antiga. A gente sabe que o Lula nunca sequer considerou nem de longe ter essa mulher. A sociedade civil que acha que isso foi uma possibilidade em algum momento Sinto dizer que não foi, muito porque ele também diz que, ah, eu não conheço, não tenho intimidade, não tem ninguém da minha confiança.
Bom, para ter você tem que procurar e abrir espaços, né, para que mulheres se aproximem. A gente nunca teve uma mulher presidindo o Senado nem presidindo a Câmara. A gente teve uma mulher presidente que sofreu impeachment, e a gente sabe que, por exemplo, nesse caso da ministra negra, é Política é formação, você precisa ter formação. Ai, perdão. Você precisa ter formação política. Então você às vezes começa num movimento estudantil, aí você se elege vereadora, você vai trabalhar na sociedade civil.
Você foi trabalhar na sociedade civil criando o Instituto Marielle Franco. É difícil formar uma figura política, demora, leva tempo, leva anos para alguém tá formado como um bom político e não um aventureiro. Aqui é o livro da Aniele e ali tem o Feminismo em Disputa. Me dá aqui para mostrar também. Do Instituto Update, que também apoia a nossa casa, Parceronas. E a Anne faz aqui o prefácio e eu faço— é tudo esquema de pirâmide— e eu faço o prefácio da Anne.
Mas o que eu digo aqui nesse prefácio do livro da Aniele é que quando mataram a Mari, quando mataram a Marielle, Eu sinto que roubaram da gente uma possibilidade de futuro, porque ela era essa pessoa sendo formada na base, conversando, se formando, conhecendo gente, fazendo networking. Ela falava bem, ela estudava, ela era linda, ela tinha um sorrisão, ela tinha presença, ela sabia fazer embate. Então eles roubaram da gente uma possibilidade de futuro.
E hoje, eu sempre fico assim, onde você imagina o rosto da Mari hoje? Onde ela estaria hoje?
Eu não sei, Carol. Eu acho que ela iria muito longe, né? Eu confesso para vocês que Eu tive muita raiva quando eu perdi minha irmã. E eu fui obrigada a organizar a raiva também como esse sentimento impulsionador. Mas eu tive raiva, eu tive raiva do uso indevido, eu tive raiva da maneira com que colocavam ela em um monte de fake news, eu tive raiva dos memes que criaram a Marielle, né, desconfigurada. Eu não sei onde ela estaria.
Mas o que eu posso te garantir é que seja lá onde eu vá, ela vai chegar comigo. Seja lá onde eu for, ela tá comigo. Tinha uma frase da minha irmã que ela falava quando eu ia jogar e estudar fora. Ela falava assim: eu não sei para que que eu tô te preparando. E eu dava a minha vida para ela tá aqui no meu lugar, porque Acho que não tem dor maior do que você se inspirar em alguém a sua vida inteira. Eu era irmã caçula, né? E você perder alguém como a gente perdeu.
E ela falava para mim, ai, eu não sei para que que a gente tá se preparando, mas vai, só vai e conquista o mundo. E ela vendeu roupa na feira, ela vendeu sacolé na maré, ela fez rifa com o tênis da Headley, que ela conseguiu comprar, a camiseta dela, para que eu fosse jogar isso, dar fora. E tudo isso que tem dentro de mim, assim, quando as pessoas falam, ah, você é muito parecida com a Marielle, você é continuidade, você é legado dela, eu sempre brinco e falo, não, ela era muito mais bonita, muito mais maneira.
E aí tem uma amiga nossa em comum que fala assim, é, mas ela não ia dialogar não, ela ia para porrada. Aí eu falo, será que não era isso que a gente tinha que fazer, sabe? Mas eu acho que a Mari ia muito longe, muito, muito longe. E eu prometi para mim mesma que eu ia honrar. Eu sei que a gente tem defeitos, a gente tem qualidades, a gente tem sonhos, a gente tem medo. Eu não vou dizer para vocês que eu não tenho medo de estar hoje pré-candidata, que eu não tenho medo de estar na política.
Eu não vou dizer para vocês, mas eu sei que todos os dias que eu saio de casa, eu olho para o meu marido, que é um parceiraço, fica com as minhas duas filhas, Muitas vezes eu falo, cara, se acontecer qualquer coisa comigo, fala pra elas de quem elas são sobrinhas e de quem elas são filhas. Porque mesmo com medo, a gente tem coragem pra ir adiante, sabe? Você sabe, você é minha amiga há muito tempo. E graças a Deus e ao orixá, eu nunca dei na cara de ninguém que falou mal dela.
Ou eu nunca fui pra cima de ninguém que usa indevidamente, assim. E eu precisei entender isso. Eu precisei organizar essa raiva em escrita, precisei organizar essa raiva nas amizades pra dizer que onde quer que a gente vá, seja lá o espaço que a gente conquistar, a Maria, ela vai estar na frente sempre me guiando. E eu honro a memória, o sangue, o legado, mas eu sinto muita, muita falta dela. E tem vezes que eu olho assim, penso, mas por que eu, né?
Por que essa missão? E aí vem essa frase que eu lembrei há pouco tempo dela falando. E eu daria de tudo para estar dando aula, né? Eu dava aula em 5 escolas, tava de boa sonhando em ser professora universitária, você sabe. E do nada me vejo jogada assim nesse lugar. E quando o Lula faz o convite, eu olho para ele e falo, mas por que eu, né, presidente?
Por quê?
Por que que o senhor quer que eu entre nesse lugar e ele fala, olha, pelo simbolismo da sua família, mas ao mesmo tempo pelo seu currículo, pelo seu trabalho e coração bom, gosta de brigar e tem caráter e valor, tá em falta. Vem pra esquerda. E fala isso. E aí eu venho como uma leoa, porque não tem como ser diferente. Mas ela seria senadora, presidenta, o que ela quisesse ser, porque ela era demais mesmo, ela era foda, desculpa o palavrão.
Tá para nascer alguém que faça política igual a minha irmã. E eu acho que de fato, com muita humildade, muita legitimidade, o que se assemelha e que chega mais perto, sim, hoje sou eu, minha família. Mas ao mesmo tempo, com esse respeito que tem que ter, que quem não é da família às vezes não entende, usa indevidamente. Mas com a força da família de Marielle, com o sangue e com essa ancestralidade, a gente vai seguir adiante.
É isso.
Obrigada, obrigada, ministra. Gente, com o alto astral lá em cima, eu falo no Duas e Tanto que a gente acaba sempre baixo astral lá em cima, mas hoje vai ser alto astral essa fala emocionante da ministra Aniele Franco. Queria agradecer a presença de todo mundo. A ministra Aniele Franco vai assinar o livro dela aqui no jardim, o livro Minha Irmã e Eu. Aqui, comprem na Bíblia e vão para o jardim, e o caixa lá no fundo. E a gente, quem tá aí fora, se tem alguém aí fora, entra aqui para dentro.
Não entra não, eu vou aí fora falar com as minhas amigas. Beijos, obrigada, até semana que vem!
Casa Buca
Estúdio Clarice
Instituto Update