Brasil barra visto a funcionários do governo Trump por suspeita de interferência eleitoral
Neste episódio do Duas e Tanto, Carol Pires e Marina Dias conversam sobre a reportagem exclusiva da Marina no Washington Post que revelou que o governo Trump planejava enviar uma delegação ao Brasil para questionar a credibilidade das eleições por aqui. A missão foi interrompida depois que o governo brasileiro negou os vistos da comitiva. Marina conta como chegou à história, o que descobriu durante a investigação e por que esse episódio representa um dos momentos mais graves da relação entre Brasil e Estados Unidos desde a redemocratização.
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Tô te ligando porque você deu um furambaço esse final de semana revelando no seu jornal Washington Post que o governo Trump queria enviar uma turminha para se meter nas eleições brasileiras. Você vai explicar direitinho, então vamos embora!
Bora!
Eu sou Carol Pires.
Eu sou Marina Dias.
E esse é o Duas e Tanto.
Todas as terças e quintas eu e a Carol a gente se liga para falar de um tema da política política que tá bombando de um jeito rápido, fácil, acessível, para que todo mundo consiga participar do debate. Esse é um podcast rapidinho, é o tempo de você passar um café. Sigam a gente no canal da Carol no YouTube, @piriscarol. Sigam a gente no Instagram, @duasetanto, e em todas as plataformas de áudio.
O Duas e Tanto é uma produção da Zarabatana Estúdio, com distribuição do Estúdio Novelo. Amiga, a gente tinha dito que hoje ia entrar no ar um episódio que a gente fez ao vivo na Flip, em Paraty, com a ex-ministra da Igualdade Racial, Aniele Franco, lá na nossa casa, a Casa Delas, vulgo Cadelas. Mas você salvou a democracia no final de semana, então a gente decidiu gravar esse episódio antes. Um recado para quem foi à Flip e não conseguiu ver o Duas e Tanto no Casa Delas: gente, esse ano a Flip teve 40 mil visitantes, isso é meio que o dobro do normal.
Todas as casas, né, no centro histórico de Paraty são pequenas. É isso, são casas históricas, elas têm lotação ali de 30, 40, 50 pessoas no máximo. Então só se coubessem 1000 pessoas em cada casa, né, daria para atender todo mundo. Porque quem não conhece a Flip tem uma programação principal que é a Feira do Livro de Paraty, é Festa Literária Internacional de Paraty, mas tem essas casas associadas, que foi o nosso caso, né. A gente entra numa programação paralela.
Então todas essas casas da programação paralela foram pegas de surpresa, tiveram superlotação, inclusive a nossa. Então a gente pede desculpa para quem não conseguiu entrar. Foi nossa primeira vez, putz, fazendo uma casa independente, né, só mulheres, sem editora por trás. A gente não imaginou que seria esse sucesso todo. A gente promete ano que vem uma casa maior. E bom, enquanto a gente tava lá montando uma casa com 11 mesas, 30 convidados, você recebeu uma dica Começou a apurar no meio das pedras, andando, pulando lama, num barco, se é que dá para chamar aquilo que a gente andou de barco.
A gente te viu apurando em festa, no intervalo de uma mesa e da outra. E aí você deu um furo mundial, Brasil. Conta tudo, amiga.
É bom demais ser sua amiga, né? Com essa propaganda, que maravilha! Mas vamos lá. Os Estados Unidos estavam organizando uma comitiva de oficiais americanos para virem ao Brasil questionar o sistema eleitoral brasileiro, lançar dúvidas, né, sobre a integridade das urnas eletrônicas. Tudo isso faltando 2 meses para eleição. O governo brasileiro negou o visto desses oficiais americanos, então essa comitiva não vai chegar aqui no Brasil.
Mas eu vou explicar tudo desde o começo para a gente entender a gravidade e o impacto desse episódio. Como você falou, amiga, nós do Washington Post fomos dos primeiros a noticiar o fato. Na sexta-feira, dia 24 de julho, a gente publicou que os Estados Unidos estavam organizando essa comitiva que era composta por dois funcionários do Departamento de Estado americano que eram indicados políticos do presidente Donald Trump. Quem eram esses dois caras?
Era o Riley Barnes, que é o secretário assistente do Departamento de Estado, e o Samuel Samson, que é um secretário adjunto ali que viajado da África à Europa, esse Samson, que tem 27 anos, e ele tem viajado para promover ideias de extrema-direita e fazer esses laços dos Estados Unidos com movimentos de extrema-direita nos países que ele visita. Bom, qual era a linha do tempo para a gente entender o que aconteceu na semana passada?
Na segunda-feira, dia 20 de julho, esses dois funcionários do Departamento de Estado americano aplicaram o pedido para os vistos do Brasil via consulado brasileiro em Washington. E isso é praxe, viu, gente? Tipo, as missões oficiais de um país para o outro precisam pedir visto quando há necessidade de visto, como é o caso, e justificar a visita. Então os americanos viajariam com mais 2 assessores, eram 4 pessoas, e nessa justificativa para os vistos eles diziam de maneira genérica que iam se encontrar com, aspas, autoridades envolvidas no processo eleitoral do Brasil.
Nossa amiga, então assim, que bom que o governo brasileiro voltou a pedir visto dos estadunidenses para entrarem no Brasil, né? Porque não sei se todo mundo lembra, mas ali em 2019, governo Bolsonaro, o governo dispensou o visto para cidadãos americanos, cidadãos estadunidenses, sendo que a gente precisa de visto para entrar nos Estados Unidos e eles não precisavam. E aí agora no governo Lula voltou a ter essa igualdade no tratamento de fronteiras.
Exato, exato. E aí, amiga, eles tentaram um pulo do gato. Você se lembra que em março desse ano teve um assessor do governo Trump que tentou vir para o Brasil para se encontrar com Bolsonaro e o Itamaraty acabou revogando o visto dele, dizendo que ele tinha aplicado para o visto falando que era uma visita oficial ao Brasil, mas no fim das contas não tinha nenhuma visita oficial marcada, nenhuma reunião oficial. Ou seja, não tinha nenhuma reunião com ninguém do governo, nenhuma autoridade de instituições brasileiras.
Ele só queria vir para cá visitar o Bolsonaro. E aí o Itamaraty cancelou esse visto. Chegou a dar o visto, mas depois, apurando a agenda e os verdadeiros intuitos dele, caçou o visto. Pois bem, dessa vez, vacinados por esse episódio de março, esses funcionários do Departamento de Estado sondaram a possibilidade de fazer reuniões com integrantes do TSE, o Tribunal Superior Eleitoral, e até com assessores importantes do presidente Lula no Palácio do Planalto.
Eles sondaram: será que vocês recebem a gente? E aí, amiga, no dia seguinte à aplicação do visto, ou seja, na terça-feira, 21 de julho, o Flávio Bolsonaro participou de uma reunião com embaixadores estrangeiros e colocou dúvidas sobre o sistema de urnas eletrônicas do Brasil. Ele saiu dizendo que parte das urnas brasileiras eram produzidas por uma empresa da Venezuela e que eram passíveis de fraude. Mas isso não é verdade. As urnas brasileiras não vêm dessa empresa.
As urnas brasileiras são consideradas das mais eficientes do mundo e o sistema eleitoral brasileiro é considerado por organismos internacionais como a Organização dos Estados Americanos, ONU, entre outras, como mais robusto, mais seguro da América Latina. Não há fraude eleitoral registrada no Brasil desde que as urnas eletrônicas foram instituídas aqui na década de 90.
Eles não têm nem criatividade para criar fake news mais, porque é sempre Venezuela e é sempre fraude nas urnas. O Bolsonaro tá condenado à tentativa de golpe de Estado, ele e seu círculo íntimo. E tudo começa com eles divulgando essa mentira de que as urnas são fraudadas, porque isso faz com que a população não confie no sistema eleitoral e, a partir disso, fique iluminados e comecem a comprar essas teorias da conspiração, até chegar no que aconteceu, que foi invadir a sede dos Três Poderes, as sedes, né, dos Três Poderes, querendo impedir que o presidente eleito tomasse posse, achando que a eleição tinha sido fraudada. Então nem a prisão do pai serviu de lição.
E em 2022, vamos lembrar, o Bolsonaro começou com essa reunião diante de embaixadores falando das urnas eletrônicas, colocando dúvidas sobre as urnas eletrônicas, falando que poderia ter fraude, o que a gente sabe que não é verdade. Eles sabem que não é verdade. Durante a investigação do golpe, a Polícia Federal trouxe algumas mensagens dos militares se comunicando com gente do governo, inclusive com Mauro Cid, dizendo: não achamos nada aqui que dá para falar que era possível de fraudar, né?
E o Bolsonaro ficou inelegível por causa dessa reunião com embaixadores estrangeiros. E aí o Flávio vai e faz a mesma coisa. Pois bem, dessa vez o governo brasileiro estranhou a movimentação, né? Então a gente tem dois americanos pedindo visto para o Brasil na segunda-feira. Na terça, o Flávio se reúne com autoridades estrangeiras e coloca dúvidas sobre as urnas eletrônicas. Esses americanos começam a sondar a possibilidade de serem recebidos no Planalto.
Os diplomatas brasileiros começaram a levantar a capivara desses funcionários do Departamento de Estado, ou seja, investigar quem são essas pessoas, e viram que o deles é justamente esse: viajar para os países, fazer contato com a extrema-direita, muitas vezes alienando o governo de fato, né, não se reúne com ninguém do governo de verdade. E aí esses diplomatas brasileiros recomendaram ao consulado que o visto fosse negado. Eu conversei com esses diplomatas que disseram que a viagem dessa comitiva dos Estados Unidos tinha cara de uma manobra para minar as eleições do Brasil.
Ah, mas como eles fariam isso? Explico o que os diplomatas brasileiros, né, achavam que eles iam fazer. Os americanos viriam para cá, fariam reuniões com gente ligada à família Bolsonaro, com o próprio Flávio Bolsonaro, e depois voltariam, produziriam um relatório colocando dúvidas sobre o sistema de votação brasileiro. Porque assim, se o Flávio perdesse a eleição, por exemplo, para o Lula em outubro, o Trump poderia questionar a eleição por aqui, falar, ó, Gente aqui do meu governo foi lá e falou que esse sistema eleitoral não é seguro não, né?
E aí, no dia, na sexta-feira, no dia em que a gente publica a nossa reportagem no Washington Post dizendo que essa comitiva tava pronta para ir para o Brasil, o Itamaraty nega o visto dos americanos e eles não vêm mais à Brasília.
Amiga, você ajudou a salvar a democracia! Amei!
Fiz meu trabalho de jornalista.
É, o Trump não quer que nenhum tenha mais um governo de centro, de centro-esquerda na América Latina, porque, né, agora tem essa onda de extremistas, Milei na Argentina, o Kast no Chile e por aí vai, e quer se meter na eleição brasileira. Então os diplomatas foram diplomatas ao dizer que tem cara, né, fica meio óbvio. Aí nessa tentativa de dominar a política latino-americana, o Trump se sujeita a ser fantoche dos Bolsonaro. Mas e aí, amiga, termina de contar.
Quando a gente tá fazendo a reportagem, a gente questiona oficialmente o Departamento de Estado ainda antes da sexta-feira, né, antes dos vistos negados, do tipo: vocês estão preparando uma comitiva? E eles confirmam a viagem da comitiva, mas eles não esclareciam o propósito da viagem. Mas eles falaram: sim, estaremos mandando essas pessoas para o Brasil nos próximos dias. A expectativa é que eles ficassem aqui de 27 a 30 de julho, ou seja, agora, né, nessa semana.
E aí, depois que os vistos foram negados, aí o Departamento de Estado disse que a delegação não tinha o objetivo de colocar em dúvida o sistema eleitoral do Brasil. Bom, mas só para a gente lembrar que esse movimento seria exatamente o contrário do que aconteceu em 2022 na eleição Lula versus Jair Bolsonaro, né, porque naquela época o Bolsonaro já mentia que o eleitoral brasileiro poderia ser fraudado. E o governo Biden mandou oficiais americanos para cá.
O Bolsonaro ainda era o presidente do Brasil, então o Bolsonaro estava no Palácio do Planalto e recebeu esses oficiais americanos que disseram para o Bolsonaro que não apoiariam qualquer tentativa de ruptura democrática no Brasil. E agora o que tá acontecendo é o oposto: governo Lula no poder e o governo Trump nos Estados Unidos tentando mandar gente aqui para ajudar a questionar a eleição caso a direita não vença em outubro. É muito grave, é muito preocupante.
Foi uma tentativa de intervenção direta dos Estados Unidos no Brasil. E essa, como você falou, é uma política recorrente do governo Trump, né, de interferir em favor de candidatos alinhados a ele na América Latina. Isso rompe com todas as regras da diplomacia internacional de não interferência, né, no assunto dos outros países.
Amiga, parabéns pela apuração, por ser essa repórter que não dorme em serviço, eficiente, ainda gata, com esse brinco azul que sua mãe te deu. Então eu ganhei um também da sua mãe, eu vou usar na próxima. Então na quinta-feira vai ao ar a íntegra do nosso Duas e Tanto ao vivo na Flip, combinado?
Combinado, e até semana que vem.