A regra criada para eleger mulheres está cassando mulheres? Marilda Silveira explica
Neste episódio de Duas e Tanto, Carol Pires e Marina Dias recebem Marilda Silveira, uma das maiores especialistas em direito eleitoral do país, para entender como as punições à fraude da cota de gênero — a regra que obriga os partidos a lançar no mínimo 30% de candidaturas femininas — têm causado a cassação de mulheres legitimamente eleitas.
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- Fraude Processual de Gilmar MendesPerda de mandato · Mulheres eleitas · Recálculo de votos · Mulheres não envolvidas na fraude
- Fraude e desonestidade em herançaCota de gênero · Fraude eleitoral · Candidaturas fictícias · Mascote da Justiça Eleitoral
- Participação política das mulheresDever de cuidado feminino · Acesso a dinheiro · Networking político · Violência política de gênero · Mudança cultural
- Punição de deputadosPreservação de mandato · Anulação de votos do partido · Inelegibilidade dos responsáveis · Mudança de jurisprudência
- Financiamento bélico de candidatosCota de investimento em formação · Fundo partidário · PL Mulher · Anistia de multas
Oi, amiga! Oi, amiga! Tô te ligando porque a gente tem falado muito aqui sobre o papel das mulheres nas eleições, especialmente das mulheres eleitoras, mas a gente ainda não começou a debater as candidatas. Hoje os partidos têm que lançar um mínimo de 30% de mulheres candidatas e eles precisam financiar essas candidatas, mas nem sempre é o que acontece. E a gente tá aí a menos de um mês do início da campanha eleitoral Então a gente chamou aqui uma especialista no assunto para a gente chegar na campanha de olhos bem abertos.
É a Marilda Silveira, advogada, professora, uma das maiores especialistas em direito eleitoral do país.
Bora, bora!
Eu sou Carol Pires, eu sou Marina Dias, e esse é o Gostei Tanto.
Todas as terças e quintas eu e a Carol, a gente se liga para falar de um tema que tá bombando na política de um jeito rápido, fácil, acessível para que todo mundo consiga participar do debate. O Duas e Tanto é um podcast rapidinho, 15 a 20 minutos, é um tempo de você passar um café. Então sigam a gente no canal da Carol no YouTube, @piriscarol, sigam a gente no Instagram, @duasetanto, em todas as plataformas de áudio.
O Duas e Tanto é uma produção da Zarabatana Estúdio com distribuição do Estúdio Novelo. Marilda, bom dia!
Bom dia, gente, obrigada pelo convite, é uma alegria enorme estar aqui.
Obrigada a você por ter vindo. Começa, amiga.
Vou já começar. Doutora, a cota de gênero é uma regra que existe no Brasil há 30 anos e, como a Carol já falou, obriga os partidos políticos a lançar um número mínimo de candidatas mulheres nas eleições que a gente chama de proporcionais, ou seja, para cargos de vereadoras e cotadas. Na prática, essa cota é de 30%, mas pode ser mais. Eu queria começar perguntando para a senhora por que que essa cota foi criada, e olhando para esses 30 anos, perguntar se essa regra funciona.
Bom, a cota foi criada porque no Brasil, assim como na maior parte dos países do mundo, as mulheres foram deixadas nos espaços privados. Isso não significa que a gente é ruim, é da condição humana, embora não seja humano, é desumano, né, a gente transformar a regra que a gente cria na melhor para a gente mesmo. E quem criou as regras foram os homens que sempre ocuparam os espaços públicos. Então, durante a história do Brasil, isso não é só no Brasil, como eu disse, é no mundo, as mulheres ocupavam um pedacinho muito pequeno dos parlamentos, era Menos que 10%.
E os parlamentos, seja de vereadores, deputados, eles são feitos para espelhar a sociedade como ela é. Então, se a gente olha para o parlamento e não vê a sociedade como ela é, ou seja, não tem mulheres, não tem negros, não tem indígenas, então aquele parlamento não espelha a sociedade, ele não serve para o que ele foi criado. A cota, então, ela é uma ferramenta que é para ser de transição, para ajustar isso, para colocar mais mulheres aonde não tem.
E a forma que no Brasil a gente adotou, porque foi possível aprovar no parlamento, foi uma cota de candidaturas, que é uma forma de dar mais espaço para as mulheres concorrerem. Ela solucionou o problema? Solucionou. Que é de ter candidatas suficientes para ter disputa. Mas ela não solucionou outro problema, que é fazer as mulheres ganharem as eleições. Então a gente atirou num lugar, mas não acertou em todos os lugares. Ao longo desse tempo, então, a gente vem ajustando isso.
Primeiro a gente teve cota só de candidata, aí depois essa cota foi conectada com o dinheiro, aí depois essa cota foi conectada com dinheiro e com os negros e as negras, depois com dinheiro, com os negros, com as negras e com os indígenas. Eu brinco que na democracia o que tem de diferente é que a gente tem a oportunidade, que é a oportunidade da ciência, de transformar o erro em resiliência. A gente olha para o caminho, vê que tá deixando alguém no meio do caminho, vai lá e busca essa pessoa.
É isso que a cota faz, é tentar resgatar quem tá ficando no meio do caminho. Resolveu, melhorou. Então a gente hoje tem mais ou menos 20%, 19%, 18% de mulheres no Parlamento Federal. No âmbito municipal ainda é muito ruim. A gente teve quase 1.500, 1.600 municípios que nunca elegeram nenhuma vereadora, nunca na história do Brasil. Sempre teve só homem. Então vem melhorando, mas não resolveu. Então é por isso que esse debate permanece, a tentativa de melhorar a ferramenta.
Até porque primeiro tiveram que aprovar a cota de gênero e depois a obrigatoriedade de passar, de financiar essas campanhas. Então a sensação também é que sempre tem que fazer uma emenda para ir tapando os buracos por onde os partidos burlam, né, essa cota. Eu acho que vale até a próxima pergunta a partir disso, porque é isso, a gente sempre tem notícias partidos tentando burlar essa cota de gênero, muitas vezes lançando candidaturas que na verdade não fazem campanha, né, não recebem o dinheiro do fundo do partido, não tem, não recebem votos, são meio que candidaturas virtuais, né, fantasmas, só para preencher essa cota e abrir espaço para mais candidatos homens.
A questão é que hoje, quando esses partidos são descobertos e punidos, uma das punições é a perda de mandato de pessoas que foram eleitas por esse partido que fraudou a cota. Então você fralda a cota de gênero e mulheres eleitas também podem perder o mandato. E a senhora fala que isso é injusto. Você pode explicar um pouco melhor como tá funcionando esse contrassenso?
Sim, claro. É, a Justiça Eleitoral, então, diante da cota de gênero, tinha que dar uma penalidade para quando essa cota é descumprida, né? Que como você disse, Eu costumo dizer para os meus alunos que a gente tem espaços limitados, são cadeiras, cadeira de deputado, e para uma mulher sentar, um homem vai ter que levantar. Esses espaços já estão ocupados e a reeleição no Brasil é em média 60%. Então é uma questão de matemática, é só fazer conta.
Se a gente reelege 60% e 80% são homens, isso quer dizer que os homens vão se reeleger eternamente. E segundo os estudos, vai demorar mais ou menos de 200 a 300 anos para que se continuar como está, sem regra para que eles se mantenham, para que a gente consiga ocupar mais ou menos igual. Então descumprimento existe. Diante disso, a Justiça Eleitoral falou: tem que dar uma consequência. Qual é a consequência? A consequência é: toda vez que nós identificamos uma candidata fictícia, ou seja, aquela mulher que só foi colocada lá para fingir que é candidata, nós vamos anular todos os votos daquela eleição para aquele cargo.
Então significa que eu vou pegar todos os votos do Partido A para vereador e vou anular todos os votos do Partido A para vereador. Parece ótimo, né, que a gente tá dando uma sanção muito dura. É verdade, mas a ação afirmativa ela tem o objetivo de colocar mais mulher na política. Então eu vou partir de um exemplo para entender como essa consequência acabou se tornando perversa. A gente teve casos aqui e a gente levantou isso inclusive numa pesquisa que vamos publicar agora no Observatório de Violência Política contra a Mulher, que mulheres que tentaram se eleger, às vezes da periferia, tem um caso aqui da mulher que mora numa comunidade, tentou a primeira, não se elegeu, tentou a segunda, não se elegeu, tentou a terceira, não se elegeu, na quarta se elegeu, com muita peleja, sem dinheiro, daquele jeito, mulher fazendo muito com pouco.
E aí o que aconteceu? Alguns homens foram acusados de fraudar a cota de gênero e identificaram uma mulher fictícia, que não era ela, claro, porque ela se elegeu, E ela não foi acusada de participar, nem se cogitou disso. Quando a ação foi julgada procedente e os votos anulados, o que aconteceu com o mandato dela? Ela perdeu, recalculou e colocaram um homem no lugar. Então, ação afirmativa não pode servir para finalidade diferente.
Como que uma mulher que tenta se eleger 4 vezes consegue uma peleja e na hora que julgam a ação para descumprimento da cota ela é revitimizada? Então o que eu digo é que na verdade, em alguns casos, e nós identificamos no ciclo de 2020 a 2024, 56 mulheres que perderam seus mandatos por causa do recálculo do resultado da eleição sem sequer serem acusadas de envolvimento na fraude. Também é muito comum dizer, ah, mas tem mulher que se envolve.
Claro, praticar ilícito não é prerrogativa de gênero, mas acontece que nesses casos elas não são nem acusadas disso. E elas se tornam, na minha perspectiva, um efeito colateral.
E aí, doutora, só queria acrescentar uma pergunta, amiga, é qual seria a punição ideal nesses casos, na sua avaliação? Que se a senhora falou, né, ah, parece muito bom porque parece uma punição super dura, super efetiva para uma fraude de uma política afirmativa, então a gente deveria comemorar, mas aparentemente tá prejudicando muito a mulher que não tem nada a ver com a paçoca. Então qual é a repressão que a justiça eleitoral poderia fazer de maneira mais efetiva?
Bom, é por etapas. Primeira etapa é identificar se há uma mulher eleita. Se houver uma mulher eleita, a ação afirmativa atingiu a sua finalidade. Então a gente vai passar para a segunda pergunta: essa mulher eleita tem envolvimento na fraude? Se a resposta for não, em nenhuma hipótese essa mulher pode perder o mandato. Então, esse mandato da mulher eleita não envolvida na fraude tem que ser preservado. E aí, depois disso, o que que a gente faz?
A gente anula os votos do partido. E depois, porque o partido é o responsável pelas candidaturas, então o partido sofre consequências das candidaturas fictícias que ele lançou. Em terceiro lugar, no terceiro momento, há homens eleitos, os homens perdem os seus mandatos. Porque os homens, eles não são revitimizados. Eles têm a obrigação de cuidar, porque eles são os beneficiários desse sistema ao longo de muito tempo, de cuidar que o processo eleitoral seja legítimo.
É o melhor cenário? Não, não é o melhor cenário, porque o melhor cenário numa sanção é que a gente só penalize quem é responsável pela fraude. Mas nesse caso, nós não temos sanção prevista na lei, então o parlamento pode escolher outra. É direito deles, eles são 80%, é só mudar a lei. Tem homem eleito, então perdem o mandato. Tem uma quarta etapa que é identificar os responsáveis pela fraude. Aqui entram as mulheres fictícias, porque elas foram fictícias sabendo que elas eram fictícias.
Essas e os outros responsáveis, sejam eles candidatos, participantes de convenção, presidente de partido, eles ficam inelegíveis. Porque os responsáveis pela fraude ficam inelegíveis. E aí, feita essa ação de 4 etapas, a gente chega no final, vê quantos votos sobraram para o futuro. E aí, se alguém morrer, renunciar, se mudar alguma coisa no curso do mandato, recalcula o resultado. E aí a gente dá posse para suplente em caso de morte, renúncia, etc., com esse montante de votos, mas tem que recalcular tirando as mulheres que legitimamente foram eleitas.
Então me parece que o erro tá aí, sabe, em colocar todo mundo dentro da mesma sacola e fazer lamentavelmente o que a gente sempre fez, e a Justiça Eleitoral errou tentando acertar, que é tratar as mulheres do mesmo jeito que a gente trata quem tá em posição de vantagem. E acontece que não tá todo mundo na mesma situação, né? A gente tem que colocar um olhar diferente para quem tá em desvantagem.
E como a gente corrige isso? Precisa ser uma nova lei? É um entendimento jurídico? No TSE dá para ter uma decisão vinculante? Como que a gente resolve essa situação?
Com a mudança da jurisprudência. Eu costumo dizer, Carol, que isso para mim virou uma cruzada. Eu fui advogada da primeira mulher cassada nessa condição, que é o precedente que foi comemorado e que para mim foi uma grande derrota de Valença do Piauí. E aí, a partir daí, foi que eu publiquei esse artigo que eu chamo isso de contrassenso democrático, publiquei outro, fiz uma primeira pesquisa e agora uma última que mostra que dos inelegíveis, 89% são mulheres.
Dos cassados, 56%, 15% dos casos tiveram mulheres eleitas sem envolvimento na fraude cassadas. É, de todos esses casos, as obrigações recaem sobre as mulheres. Então a gente criou um mecanismo, a máquina de revitimização, querendo acertar, sabe? Então a mudança tem que vir da jurisprudência. E o primeiro impulso do TSE foi dizer: vou preservar o voto das mulheres. Isso mais uma vez é colocar as mulheres na posição de desigualdade, porque elas não têm voto para se eleger sozinhas, elas precisam do quociente eleitoral.
Então a única solução é preservar o mandato. Alguns respondem que isso vai distorcer o resultado da eleição. Veja, ação afirmativa por definição distorce resultado de concurso e de eleição. A Constituição parte desse pressuposto. Então quando eu coloco na faculdade de medicina alguém que tirou uma nota metade de quem passou em primeiro lugar, isso é uma distorção da isonomia, mas é o pressuposto da ação afirmativa. Eu acho que é isso que a justiça eleitoral precisa aceitar, que às vezes a gente erra tentando acertar, produzir o efeito positivo, mas a gente agora precisa identificar os erros que praticou no meio do caminho e colocar ajuste, né?
Sim, distorcer no sentido de corrigir uma desvantagem histórica, né?
Então, exatamente, é isso. Aí, a isonomia, ela é diferente da igualdade. A gente fala como professor, né, que a igualdade é sempre inimiga, a liberdade é sempre inimiga da igualdade, que a liberdade ela dá vantagem para quem tá em posição melhor, ou porque tem mais dinheiro, ou que tem mais força, ou que tem mais poder. E para poder colocar as pessoas numa posição que elas consigam competir minimamente, a gente tem que ter uma coisa diferente da igualdade, que é isonomia.
E a isonomia é tratar diferente quem é diferente. É isso que a ação afirmativa faz, para dar para mulher o mínimo de possibilidade de concorrer quem já tá se reelegendo há muitos anos. Como eu disse, no Brasil, em 60% dos casos, é por isso que em 1.500 municípios nunca teve uma vereadora.
Marilda, e além dessa fraude na cota de candidaturas mínimas de mulheres nas eleições, tem um momento anterior que é uma cota mínima de investimento em formação política de mulheres, que os partidos têm que aplicar pelo menos 5% do fundo partidário na formação de mulheres. E a gente sabe que isso também não é cumprido pelos partidos. A gente inclusive tem discutido aqui no Duas e Tanto como o PL dos Bolsonaro aplicaram esse valor no PL Mulher.
E esse orçamento foi dado a Michele Bolsonaro, que com esse dinheiro ela conseguiu passar esses últimos 4 anos viajando o país e fazendo formação de mulheres conservadoras. Então a gente tá vendo aí agora, né, esse movimento que ela chama de movimento feminino brasileiro. Então a gente vê que tem resultado quando esse dinheiro é dado às mulheres, né? E por outro lado, a gente vê a maioria dos partidos não cumpre, inclusive partidos ditos progressistas.
E a gente sabe que sem essa formação também não tem competitividade, né? Ficam falando, ah, não votam em mulheres. Ah, mas a estrutura toda tá feita para elas não se formarem, não participarem, não serem candidatas. São candidatas, não são financiadas e tal. Mas essa é uma cota que também não tem uma punição que funcione, né? Porque hoje, me corrija se eu tô errada, mas você precisa fazer o investimento no ano seguinte. Se você não fez esse ano, você faz no seguinte, né, o que faltou. Mas aí você vai empurrando isso com a barriga até quando?
Pois é, esse é um problema. A gente tem dois problemas, na verdade. Primeiro é de conteúdo, é aonde os partidos podem aplicar esse dinheiro. Como você disse, quando ele é bem aplicado, ele produz efeito multiplicativo, né? A gente sabe numa empresa o que faz a multiplicação acontecer, e muitas vezes os partidos gastam esse dinheiro em cursos, eventos apenas. Não que cursos e eventos não sejam importantes, mas precisa de uma ação estratégica.
E nesse ponto, o TSE tem sido um pouco mais incisivo de olhar o mérito da aplicação para saber se o partido tá gastando mesmo. Mas aí, quando o TSE é incisivo e o partido não gasta ou gasta mal, o que acontece? A lei é alterada pelo parlamento, que é majoritariamente masculino, para poder dizer que eles vão ter mais um tempo para gastar ou para dar uma anistia, para dizer que Neste ano não, mas pode gastar também na eleição, esse dinheiro pode ir para outro lugar.
E lamentavelmente esse ano, que me pareceu um grande erro, o Supremo declarou essa anistia constitucional. Então é preciso encontrar o momento em que a gente vai colocar um freio nesse ciclo, que não tem o partido— até o partido que é honesto, que aplica, ele passa a não ter incentivo para fazer isso, porque ele sabe que no próximo ciclo vai vir uma nova anistia. Que a gente já teve 3 ou 4 anistias para o novo ciclo, ou para quem não gastou não ter sanção.
Sanção existe, eles têm que pagar uma multa de 12,5% no outro ano, essa multa dobra. Acontece é que todas essas sanções previstas na lei, inclusive devolver o dinheiro, elas foram anistiadas por emendas constitucionais. Veja bem, não foi nem por uma nova lei, foi por emenda constitucional, que é a coisa mais difícil de alterar, que precisa do maior quórum, que é a Constituição. E ainda assim os partidos conseguem porque eles são os beneficiários da alteração que fazem.
Claro, eles não cumprem, mas são eleitos e depois eles se anistiam, né?
É um conjunto da obra para manter quem está. Cada pedacinho que se mexe dá maior possibilidade de alguém ter que levantar dessa cadeira. E quando esse parafuso aperta e alguém tem que levantar, essa pessoa tem nome e sobrenome. Ela não quer levantar para alguém sentar. Então aí vão lá e mexem na regra para o conjunto da obra favorecer a permanência de quem está.
E, doutora, nessa esteira desse mesmo raciocínio, né, pelo que a gente tá discutindo aqui, pelo que a senhora tá explicando, mesmo com a cota e outras leis de proteção, a gente entende que é muito difícil uma mulher entrar e permanecer na política, mesmo com uma legislação aí de 3 décadas. Queria ouvir um pouquinho da senhora se o principal obstáculo tá então no eleitorado, que não vota em mulher teoricamente, ou pelo que parece está nas próprias regras do jogo, né? O que impede a mulher de entrar e ficar na política?
São vários fatores que dificultam, acho impedimento é uma palavra forte. Elas têm essa entrada e permanência dificultadas por diversos fatores, é multifatorial. Um primeiro fator é o dever de cuidado. A mulher tem tarefas e uma vida imposta pela sociedade, porque é preciso que as pessoas compreendam que isso é uma decisão, não é da natureza, não é igual a árvore que nasce, é uma decisão da sociedade. Que impôs para mulher deveres que não impôs para os homens.
Então, quando eu chego na minha casa, eu tenho uma série de tarefas que o meu marido não tem. Ele tem a tarefa trabalhar, eu tenho a tarefa de equilibrar 450 pratos. Eu, se eu colocar mais um prato aqui na minha mão, que é ser candidata, é como se eu dissesse para mulher: suba essa escada carregando pedra. Então, isto é um fator dificultador. E o homem tá subindo a escada também, é difícil para ele, é, mas ele tá só subindo a escada, ele não tá carregando pedra.
Tem algumas pesquisas que mostram em grupos pequenos, em países em que um lugar onde há creche para todos favorece a participação da mulher nos espaços públicos, porque a política é um espaço público igual é a reunião do colégio, condomínio, né? Se há um lugar onde há uma cozinha comunitária que a mulher se desincumbe dessa tarefa de produzir alimentos, manter a família, isso também favorece a participação em espaços públicos.
Se tem grupos de cuidado para pessoas doentes, pessoas idosas, também favorece. Isso tudo é um fator cultural. Então, diante deste cenário, outros fatores se tornam ainda mais pesados. Quais são eles? Dificuldade de acesso a dinheiro. Não existe campanha eleitoral sem dinheiro. E agora, no universo de inteligência artificial, isso se facilitou. O fator é formação. Então, alguns partidos estão dando formação e criando grupos de mentoria para que as mulheres consigam fazer o que elas fazem de melhor, que é muito com pouco.
Então, se elas têm ali uma ferramenta e conseguem produzir o seu próprio conteúdo, elas se desenvolvem mais na política. E além de tudo, que é o principal, Networking político. O espaço da política não é um concurso público. Eu já vi presidente da Câmara dos Deputados falar: pô, que eleição é um concurso, a gente fez o concurso e passou. Vai me desculpar, concurso você senta, estuda e passa. Não é à toa que as mulheres são mais aprovadas na OAB, são mais aprovadas na faculdade de medicina, porque é só você sentar, só entre aspas, né, sentar e estudar carregando pedra.
Mas o da política é networking. E essa rede, o homem tá formando tem 500 anos, a mulher tem 60, porque até 1962, se eu tivesse marido, ele podia me bater com autorização legal. Então, enquanto ele tava lá formando seu network, a gente tava apanhando em casa. Isso está se formando agora. Foi isso que a Michele Bolsonaro fez muito com pouco dinheiro. Essa formação é um caminhão descendo morro abaixo, desinvestido, que não se freia.
Daqui para frente, as redes vão se ampliando. E para isso não tem solução. Aí vai ser a hora que as regras vão tentar ser alteradas para que aquele que tem que levantar da cadeira não se levante. A regra vai ser criada para tentar trabalhar contra. Por enquanto, sim, ela é só para permanecer.
É que esse pacto da masculinidade, né, é isso. Eles vão tentando trabalhar entre eles, ficar entre eles. A gente viu agora, inclusive, usando o caso da Michelle, né, Que apesar da direita tá ali parecendo unida, na hora que uma mulher levanta e fala o que pensa, eles todos foram para cima dela. E essa história dela revela também como é difícil permanecer na política, né? Porque, Marilda, você tava falando de toda essa dificuldade.
Você tem a dificuldade dentro de casa, que a gente precisa passar por uma mudança cultural, né, dentro das próprias famílias, das relações de igualdade de gêneros. Tem essa dimensão estrutural da sociedade, como você falou, né? A gente precisa de creche, a gente precisa de escolas, a gente precisa de segurança no caminho para casa, porque também tem isso, né? Você vai fazer uma formação política, você tem que pegar um ônibus, mas você vai voltar tarde para casa.
Política é feita até tarde, né? O Congresso vai até de noite. Como é que você volta para casa sendo mulher sozinha para casa? Então vai somando. E aí vem você com as leis eleitorais e todo esse debate jurídico. E ainda tem esse momento em que a mulher passou por tudo isso e é eleita e chega lá e sofre ameaças e sofre, né, é desprezada, é xingada ou é assediada ou recebe ameaça de morte, ameaça de estupro. Então a gente também vê como é difícil para as mulheres permanecer na política, né.
Então a gente precisa ir olhando de todos os lados, ficar atento de todos os lados, que como exatamente você falou brilhantemente, a gente cada vez que entra um pouco mais no debate, tem que ir mudando as regras para a gente mudar o poder. Não é chegar só nesse poder que existe aí, né? A gente precisa mudar o poder para a gente caber, porque ele tá feito de um jeito que a gente não cabe ainda, mas estamos cada vez mais cabendo. Tô quase fazendo um manifesto político aqui no final, então chega.
É, mas é isso. Eu costumo dizer que não é uma disputa dos bons contra os maus, É uma disputa de quem está contra quem não está, e quem está quer permanecer. E quem quer permanecer fará de tudo para permanecer, inclusive usar a arma que tem, que é jogar com a regra, mudar a regra, interpretar a regra. É uma questão de matemática, de lógica, de conta. É só a gente fazer conta. Se eu tenho no parlamento 80% de homens, eles têm quórum para mudar a regra que eles quiserem.
Se eu tenho no parlamento 80% de homens, 60% de reeleição, eles conseguem se reeleger e manter as suas redes. Se dentro dos partidos 95% são presidentes homens, eles dentro do seu grupo político, no seu networking, também conseguem formar redes para expulsar as mulheres dos espaços que eles querem para si. Isso não é uma questão de bons contra ruins, maus contra o bem, homem contra mulher, é uma questão de espaço de poder, de briga para permanecer no espaço de poder.
E esse grupo masculino, ele já tá formado ao longo de muitos e muitos anos, inclusive dentro das famílias. E é uma questão cultural também, né? Os homens querem formar os grupos de homens das suas famílias para se manter dentro dos espaços de poder, que também repercute no espaço do dinheiro. No final das contas, é uma disputa por poder, é como o poder se movimenta e como o poder se forma. Não é uma questão de gênero, ela se transformou em uma questão de gênero porque a nossa história e a nossa cultura colocou o gênero para fora do poder.
Perfeito, perfeito. Doutora, só para acabar, tentar acabar com, como a gente brinca aqui no Doze e Tanto, com o baixo astral lá em cima, queria saber se a senhora, né, diante de tanta pesquisa, professora, então ensinando próximas gerações a pensar e a elaborar como deveria ser esse sistema. A senhora é uma otimista? A senhora acha que com essas legislações, com essa mudança, em algum momento a mulher no Brasil vai ter menos dificultadores para chegar e permanecer no poder?
Sou super otimista porque o efeito das redes é multiplicativo e multiplicação geométrica, e contra isso não há lei que vença. E é visível o poder da multiplicação do network e das redes femininas, independentemente de viés partidário. A gente deu um caso aqui, um exemplo de um caso de uma determinada precandidata ou presidente de união de mulheres em um partido, mas isso acontece em todos os partidos. E as novas tecnologias favorecem o ambiente para que as mulheres consigam fazer esse networking se multiplicar.
Não será, portanto, pela lei e pela ação afirmativa que o maior efeito virá, será pela geometria da formação de redes. E as mulheres já se aperceberam disso. E isso é que tem produzido resultados multiplicadores nas eleições, que transformaram aqueles 7, 8, 13, 17, e agora espera-se que até 2030 a gente tenha 30% de mulheres no parlamento, independentemente da cota. O que produziu um efeito um pouquinho maior foi o dinheiro, não foi a cota de candidatura, mas o dinheiro fez com que a rede acontecesse, e essa rede é definitiva.
É mais ou menos, eu não tenho filhos, mas isso acontece com quem tem filho na escola dos filhos. A mãe forma rede ali na escola do filho e isso vai se tornando definitivo e é uma pirâmide, né? E essa pirâmide funciona na política. Eu sou uma otimista porque eu acredito nisso e tô vendo isso acontecer.
Viu, amiga? Eu sou a otimista da dupla. Pode não parecer, mas eu sou a otimista.
Mas eu gostei, eu gostei de ouvir essa coisa de é a rede, porque aí se a gente tá dependendo da gente mesma, Aí eu consigo, aí eu consigo ter ânimo, né? Que aí a mulher se vira, né? Obrigada, doutora.
Os benefícios sociais são gerenciados pelas mulheres, a família gerenciada, pátrio-poder. As mulheres é que sempre fizeram isso, não vai ser diferente agora. É só falta para a gente espaço público. Perfeita.
Obrigada, Marilda, foi incrível.
Obrigada.