Episódios de A Vida numa Estante

Uma estreia literária com funerais em streaming

06 de maio de 20267min
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"Morte aparente", o primeiro romance de Carolina Fulcher, fala de solidão, de perda e de não pertença. Joa Vítor sugere Osamu Dazai.

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Participantes neste episódio4
R

Raquel Moron Lopes

Host
C

Carolina Fulcher

ConvidadoEscritora
C

Cláudia Godinho

Convidado
J

João Vítor

Convidado
Assuntos2
  • Estreia literária: Morte AparenteSolidão · Perda · Não pertença · Carolina Fulcher · Funerais em streaming · Síndrome do coração partido · Ocitocina · Mitologia grega · Persephone
  • Recomendação literária: Um Homem em DeclínioAlienação social · Identidade pós-guerra · Osamu Dazai · Literatura japonesa · A Campainha de Vidro · O Estrangeiro
Transcrição20 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

A vida numa estante. Hoje vamos falar de uma estreia na escrita. Sempre escrevi crónicas, escrevo desde sempre para perceber coisas que estranho, como acontecem, por exemplo, estou num jantar de amigos e alguém fala de um tema...

polémico, por exemplo, e eu levo aquilo comigo para casa e fico não sei, a matutar naquilo e preciso de escrever para perceber o que é que eu penso o que é que são as opiniões dos outros e normalmente depois acaba sempre por ser

De um ponto de vista cómico. Carolina Fulcher publicou já este ano o primeiro romance. Antes do livro, vieram as tais crónicas, como ouvimos, mas está tudo interligado, porque a escrita, para a Carolina, tem sido sempre uma espécie de expiação. Como estávamos a falar há bocadinho, a questão das crónicas...

Eu assisti ao funeral do meu avô em streaming e estranhei tanto, tanto, tanto aquilo, porque pareceu-me o oposto do que deve ser uma despedida, não é? E tive que escrever, como sempre fiz com as coisas que eu estranhava. Só que aquilo não ficou...

Por ali não ficou com o tamanho de uma crónica. Foi continuando, continuando. E a história do protagonista deste morte aparente acabou por se impor. Porque normalmente o que eu faço é arranjo uma personagem para viver as minhas dores. Nas crónicas eu faço isso. E esta personagem, que estranhava os funerais, mas ao mesmo tempo sentia-se atraído por eles,

Tinha uma história para me contar. Continuava ali a contar-me alguma coisa, a querer contar-me alguma coisa. E então aceitei isso e fui todos os dias. Ia-me sentar à frente do computador e perceber o que é que ia acontecer na história. Neste processo de descoberta, morte aparente transformou-se na história de um rapaz que é viciado em assistir a funerais em streaming. E ele faz isso para refletir.

sobre ideias que ele tem sobre esse sentido de

se sentir deslocado quando está perto das outras pessoas. E ele usa isso, usa esse voyeurismo da dor dos outros para refletir sobre tudo isso. Depois, há um dia em que ele está a assistir a um funeral e vê que está lá alguém que também é um intruso. É uma mulher que não pertence àquele cenário. Não é alguém da família, porque ele começa a ver esta pessoa repetidas vezes.

na câmara, só que esta pessoa está lá está lá a assistir presencialmente e a partir deste momento teremos o ponto de vista dele e o dela e a solidão que ambos partilham nesta história que reflete sobre como se lida com a perda e a não pertença este livro é sobre quando nós nos mostramos vulneráveis é quando podemos ser feridos

Mas também é quando podemos ser curados. E então é essa a escolha de tu estares vulnerável ou não. Carolina Fulcher começou por estudar economia e gestão de marcas de moda. Trabalhou em Florença, Londres e São Paulo. Talvez nada fizesse prever que viesse a ser escritora, publicada. Mas quando aconteceu, quando morte aparente chegou às livrarias... Eu fui visitar várias livrarias, tipo mãe.

à procura do seu bebê e falar com os livreiros e isso é espetacular e agora tem sido uma recompensa tão grande ouvir as pessoas a falar do livro e de que forma é que a história as tocou

E qual é a interpretação que fazem do livro? O que é que a história significa para elas? Porque as pessoas têm-me dado interpretações tão diferentes. E é espetacular. Às vezes tenho pessoas que me dizem coisas sobre o livro que nem a própria sabia. E isso é incrível. E morte aparente é já certo?

não será caso único. Tenho uma história na cabeça e tenho escrito, mas é muito engraçado porque, sei lá, muitas vezes sento-me para escrever, não sai uma linha, então vir-me para a pesquisa. Porque eu gosto sempre de trazer, por exemplo, no Morte Aparente, trago muitos termos científicos.

Por exemplo, síndrome do coração partido, ou esta questão da ocitocina entre mulheres, por exemplo. E, por outro lado, também adoro mitologia. Então, por exemplo, no Morte Aparente surge a figura da Persephone. E eu acho que na mitologia nós encontramos...

pontinhas de histórias por onde pegar e desenvolver e no fundo é isso que eu estou a fazer agora é partir de uma ideia e desenvolver para refletir sobre os dias de hoje A vida numa estante E agora? Conhecemos isto, certo? É quem?

Sou eu. João Vitor trouxe um calhamaço para as manhãs de três e falou só para nós aqui na estante. Olá, ouvintes da Vida Numa Estante. Sou eu, João Vitor. E o livro que eu trago aqui hoje chama-se Um Homem em Declínio, do Osamu Dazai, que é um livro super triste. Não há bem volta a dar. Isto aqui é tipo a Champions League dos livros depressivos. É mau. É mau, mas é bom. É muito bom. É um clássico de...

literatura japonesa do pós-guerra, que fala sobre este homem que se sente um bocadinho alienado da sociedade e um bocadinho desqualificado em viver como ser humano e também aborda os temas de como o Japão se sentiu depois da Grande Guerra em um país sem identidade e sem rumo. É super interessante. Se vocês gostam de livros como A Campanela de Vidro da Silvia Plata ou O Estrangeiro do Alberto Camus, então este livro é mesmo a vossa vibe. Eu juro que sou feliz.

Eu juro que tenho recomendações de livros contentes também É só porque calhou este ser triste Mas é um dos meus livros favoritos Portanto vão lá espreitar Um grande beijinho

Há um tema hoje aqui na estante, de facto. A alienação da sociedade em Um Homem em Declínio, de Osamu Dazai, recomendado pelo João Vítor, e em Morte Aparente, a estreia literária de Carolina Fulcher. Obrigada a Cláudia Godinho por ter trazido a Carolina ao podcast Conversas para Ler. Obrigada também ao Fábio Vieira Fernandes pela ajuda à produção. Eu sou a Raquel Moron Lopes. Esta é a Vida Numa Estante. Até ao próximo capítulo.

A vida numa estante.

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