Episódios de Mano a Mano

GOG: Brasília na raiz do rap brasileiro

23 de abril de 20262h10min
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Mano Brown e Semayat Oliveira recebem GOG, voz fundamental do rap nacional, direto de Brasília.
Ao longo do episódio, GOG revisita memórias do passado, compartilha sua trajetória de resistência ao longo das décadas e reflete sobre as transformações do rap, inclusive nas expectativas do público e na forma como a cultura se relaciona com o mercado, além de abordar questões sociais que atravessam gerações.
Um encontro que documenta a história viva do rap brasileiro.
Dá o play agora e mergulhe nessa conversa que é memória, reflexão e legado.

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Participantes neste episódio3
M

Mano Brown

Hostartista
S

Semayat Oliveira

Co-hostjornalista
G

GOG

ConvidadoRapper
Assuntos5
  • Questões raciais e interseccionalidadeEvasão escolar de jovens negros · Feminicídio e violência contra mulheres · Racismo estrutural
  • Cenário underground de rap Brasil anos 2000GOG e sua trajetória · Cultura hip hop em Brasília · Evolução do rap · Impacto social do rap
  • Questões de raça e representatividade no rapFormação política no rap · Desafios da política atual · Papel do rap na sociedade
  • Análise do rap contemporâneoIdentidade cultural em Brasília · Influência do hip hop na juventude · A importância da ancestralidade
  • Mudancas Consumo MusicalComercialização do rap · Mudanças nas expectativas do público · O papel do DJ no rap
Transcrição326 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Eu acho que nós temos o hip hop mais importante do planeta. Com todo respeito a todos os balbás do hip hop, a todos que criaram a engenharia primeira. Mas o hip hop brasileiro, ele é muito emergente, né? Quase saúde pública. Ele é política pública. Na segunda ida à Brasília, tinha acabado de sair um disco seu que falava o nome de todos os bairros, né? De grande parte dos bairros. E a gente tava de carro andando. E aquilo pra mim foi o cartão de visita. Eu conheci Brasília ouvindo GOG.

E quando eu fiz um disco abordando questões sentimentais profundas do ser humano, ali eu perdi a utilidade. Não, não é hora de falar de amor, foi o recado que me mandaram.

Forte, leal, sincero, de primordial. Abraça esse ao Mano a Mano. Como é que é, Semaia Oliveira? Como é que é, Mano Brau? Minha meia esquerda, camisa 10. O que temos pra hoje? Dia maravilhoso. Dia maravilhoso. Temos mais uma relíquia sentada com a gente na mesa hoje. Legal, com certeza.

Um do Scout do Mano. Pode mandar? Bom, ele nasceu em 65, em Sobradinho. É uma região administrativa, que a gente pode chamar de cidade também, do Distrito Federal. Em 73, ele se mudou pra uma outra região administrativa do Distrito Federal, que se chama Guará, onde ele construiu sua vida.

Ele começou a se aproximar do hip hop na década de 80. E o break foi a porta de entrada pra ele na cultura hip hop. A primeira gravação dele oficial veio na década de 90. Na 90 mesmo, né? Nos anos 90, na coletânea Happy Attack do selo Cascatas. Com a música A Vida. Em 92, ele lançou um compilado Peso Pesado, um álbum.

No ano seguinte, ele fundou o próprio selo dele, Independente. Que se chamava Só Balanço. Não só pra gravar os seus próprios trabalhos. Mas pra conseguir apoiar e diversificar um pouco a gravação ali da sua região. E aí, a partir daí, vieram mais dez álbuns. Vou citar alguns deles aqui. Dia a Dia da Periferia, de 94. Prepare-se, de 96. Tarde à Preta, de 2004. Aviso às Gerações, de 2006. E Munhá High-Tech, de 2017. São dez. Vamos levantar todos.

Então, eu tenho aqui mais também. Todos. Vamos apagá-los com o nosso raciocínio de 93, Das Trevas à Luz de 98, Cartão Postal Bomba, que também foi um DVD em 2009, e Genival de Oliveira Gonçalves de 2015. Tem aquele outro trabalho que você me mostrou agora, de 2017. É uma música muito massa que a gente ouviu aqui antes de começar. Ela é mais recente. Ela saiu com vídeo há seis meses atrás. Se chama Robô Latrô.

Tem uma rapaziada com ele aí, não tem? Tem. Tem o Afro Raga, Luan Almeida e a Tabata Lorena. É um marco isso. É. Traz um tema bastante contemporâneo, de um jeito massa, né? E com a rapaziada nova. Quem nasceu pra ser Iá nunca será Iáia. Me marcou. Iáia é autoridade, né? Tá ligado? Pra quem não sabe, né? O bem-vindo, GOG, cê é louco. Ô, nego.

Que bom estar aqui. Que bom estar aqui. Que bom estar aqui. Prazer. Muito pedido. Satisfação. Muito pedido faz tempo. É mesmo, bro? Sim. Os rappers são muito pedidos. Vamos deixar assim, né? Então, eu por ser um rapper, às vezes eu tenho também que controlar, trazer pessoas de outros.

Aspectos da vida, de outras... Mas eu, lógico, faria um programa só com rappers que com audiência seria muito alta. As pessoas pedem rappers. E pelo fato de ser o Brown, eles acham que seria naturalmente eu faria isso. Eu recebo rappers também, mas não com tanta frequência. Recebo certos caras.

em determinado momento, estratégicos também, como você está sendo aqui hoje. Sim. Uma honra, Abraão. Uma honra de estar aqui. Uma honra para nós também. Eu compartilho também do seu pensamento, dessa estratégia. Há três anos atrás eu lancei um podcast chamado Podgog e nós entrevistamos lá algumas das pessoas que vieram até aqui, como Eduardo Moreira, nós entrevistamos esse Brandão e outras personalidades, o Galo, o Chavoso da USP.

um time de peso já nessa intenção de romper o território. A vida, a ideia, né? Isso inaugura uma fase nossa que é a discussão do antirracismo, né? Então a gente precisa dos aliados de outros setores, de outros temas, de outros estilos musicais, de outros movimentos. Super importante. É, temos trazido pessoas até que pensam coisas diferentes da gente também.

No começo do programa a gente fala não precisa ter sintonia nenhuma com nós aqui e o que é responsabilidade total de quem tá falando, não é minha. Então pra nós aqui é tranquilo.

Ô, Gogi, eu sempre cito a sua música quando eu vou falar sobre originalidade. Ao país que nasceu, a cidade que cresceu, e ao que canta e ao que vive. Uma coisa ligada a sotaque e ao cheiro e a... Por quê? Porque quando eu cheguei em Brasília no começo da carreira, e por incrível que pareça, eu comecei antes de você, pelo jeito.

Acho que eu gravei primeiro Acho que na segunda Na segunda ida à Brasília Tinha acabado de sair um disco seu Que falava o nome de todos os bairros Dependendo de grande parte dos bairros E a gente tava de carro andando E aquilo pra mim foi o cartão de visita Eu conheci Brasília ouvindo GOG

Racionais tudo na perua E só tinha essa fita do gobe E tocava Brasília, Periferia E tocava todas as músicas E a gente ouviu toda Isso é muito importante no No rap O que você pensa, cara Manter originalidade Ou Se manter São perguntas embaraçosas Se manter Sacanou

relevância, seja lá qual for. Seja lá qual for relevância.

O que a gente pensa que tem é se manter vivo nesse movimento, às vezes sangrando em praça pública, como diz o Sérgio Vaz. Como é para você viver esse momento agora, 2027, 2026? Brau, a caminhada é uma construção e uma desconstrução também. Eu queria falar um pouquinho, como eu falei, eu nasci em 65, então sou filho de professora, fui alfabetizado muito cedo, aos 5 anos de idade.

E começa uma história muito bacana, porque meu pai me levava para a feira, virava caixinha de banana e ali ele começava a me perguntar a cidade, as capitais. Eu sabia capitais do Brasil, capitais do mundo, as pessoas aplaudiam. Então foi meu primeiro palco. E aí você vê o que é um lar simples, mas onde a formação primeira, a alfabetização, ela está presente e o incentivo da oportunidade e daquelas palmas que eu recebia. Então eu falei, pô, é por aqui que eu vou.

Paralelo a isso, meu pai, que tinha pouco estudo Ele pegava um dicionário chamado Caldas Aulete, que era uma série De dicionários, né Com os alfabetos E papai

Eu falava assim, escreve aí necessidade. Eu tinha sete, oito anos. X, até hoje. Necessário. É com C, com dois S. Então, quer dizer, começou a ter aquele... Eu tinha que buscar a palavra, né? Saca? O dicionário tinha que ser folheado pra saber das palavras. E aí comecei a me destacar. Então, tudo isso veio...

Aos 16 anos, comecei a trabalhar como office boy. Aos 17, eu entro na faculdade e venho a primeira fita. Porque um office boy na faculdade, mano. E era... Não tinha cotas, né? A gente não tinha o avanço das ações afirmativas ainda. Então, era um oceano que não tinha água minha. Tá ligado? Posso interagir? Pode. Tô ligado que nós temos muita ideia pra trocar. Nós é velha guarda. Muita história, né? Muita água já passou. Ser um bom aluno...

Sempre fui um bom aluno, velho. Eu sempre... O que que acontece? Sete e meio rolava, Brau. Sete e meio? Não, eu tô falando. Sete e meio rolava. Sete e meio. Mas era daí pra cima. Era daí pra cima. Então você era um bom aluno. Bom aluno. E... Eu era problemático na relação do questionamento, das perguntas, né? Qual era a matéria que você ia mal? Você tinha dificuldade? Não tinha matéria que ia mal, não, Brau. Eu era mediano nas matérias. Em todas?

Em todas, em todas. Matemática, isso era bom? Matemática era bom. Eu cheguei a cursar economia, né? Que é um curso difícil, né? Isso, como eu falei, aos 16 anos, eu, office boy, na faculdade, fazendo uma faculdade de economia. Que eu canto lá já, o rap trazendo a minha história. E é mesmo incrível, eu falo que, aos 20 e poucos de idade, larguei a faculdade. Já era aquela fita de você... Eu sei...

experimentar um desconhecido, algo muito diferente, era muito violento. Porque eu frequentava, a minha cultura, a minha arte era o quê? Eu passei pelo soul, passei pelo funk, passei pelo break. Então, a geração que eu tava me incluindo já não era uma geração minha ali dentro. O ecossistema era distante do meu pensamento. E eu saí da faculdade e contei pra muita gente, mano, faz um curso técnico, se formem alguma coisa. Na quebrada, por exemplo, quem é padeiro, mano, não vai pro crime, saca?

A gente não vê quem tem uma formação de algo muito cedo debandar, porque é aquela palavra que a gente estava falando há pouco, a necessidade muitas vezes faz a urgência dos atos. E eu tive essa oportunidade, essa caminhada, mas a faculdade foi muito importante porque lá...

Até por um processo construtivo da letra. Eu fiz uma matéria chamada Metodologia Científica, em que ela conta o processo científico da criação das coisas, do entendimento da ciência. Então, você observa e relata o observado. Planeja e conclui o plano. Então, as minhas letras, elas sempre tiveram...

Um cunho assim de começo, meio e fim, história. Eu passo pelos cantos, pelas vielas, pelos becos, até chegar no final. Tem um enredo, né? Isso foi na faculdade que eu busquei. Talvez seja a maior contribuição que a faculdade me deu. Uma de falar que não era o que eu queria, mas, segundo, de me dar um conhecimento, uma vivência de como trabalhar com o texto, que eu lidava só com palavras, né? Palavras soltas. Para juntar as palavras, é preciso técnica, né?

Não só amor e verdade. Por que ele te afastou da faculdade? Eu sei que você já falou, eu preciso entender. Fala mais um pouco. Mano, a gente queria, no intervalo, a gente queria dançar break, mano. Certo. Da faculdade. Da faculdade. Eu tinha um parceiro, um leal, o Freire, que foi dos magrelos, né? Era dos magrelos até hoje. O Freire também passou na faculdade, era meu refúgio. A gente treinava, colava ali de canto, mas não tinha. E aí eu, na aula já não interessava tanto também, eu queria sair dali, foi isso que aconteceu.

Saca? De forma simples, objetiva, não era um lugar pra mim. Agora, eu tenho que falar isso com muito cuidado, porque o conhecimento, né? A faculdade é algo praticamente assim, uma fábrica em série do que é o ser humano, né? Estudar.

ir pra faculdade, ter um curso superior, ser doutorado. Eu tenho uma amiga chamada professora Denise Botelho, ela fala, Gog, quando eu era, minha mãe empregada doméstica, na barra da saia dela, ela falava, filha, estuda pra sair daqui. E ela estudou. Doutora, pós-graduada, renomada, e ela falou, Gog, cada vez mais que eu avançava, eu me sentia mais solitária. Eu não tinha gente parecida comigo, não tinha nada que se aliava à minha vivência. Então a faculdade também, mano, tem esse sofrimento também.

tá ligado? eu acho que intuitivamente eu saí disso antes dela me contar mas agora, quem aguenta o Rojão e quem quer, a gente não pode matar sonho né, Brau? acho que a nossa geração, a evasão negra ela é muito, apesar que você é um cara que cursou faculdade certo? você nem tá nessa estatística da evasão negra, mas de alguma maneira você também invadiu da faculdade, algum desconforto tinha lá pra você sair eu também, eu tive esse desconforto eu também tentei fazer um curso técnico num colégio eu também

Curso técnico de eletrônica. Eu péssime matemática. Eu fui fazer isso pra me mostrar não sei pra quem. Talvez pra minha mãe, pra alguém. Pra mostrar que eu tinha interesse em ser alguma coisa. Terminei a oitava, não sabia pra onde ia. Não sabia nem por que eu tinha estudado até a oitava. Não aprendi nada. Nada que me serviu assim muito. Fora aprender a ler e escrever.

Do que eu aprendi na escola, pouco eu uso hoje em dia, isso é perigoso falar, mas é a verdade. O rap me ensinou muito mais ouvindo pessoas do que na escola mesmo. É muito louco.

Eu lembro que eu estudava num colégio, eu fazia o curso técnico e não havia negros. Tinha quatro negros, ficavam em cada canto. E tinha festa de temporada e tocava muito rock. E as festas dos caras, eram só os caras. E a gente ficava assim, não tinha... Não tinha identificação. E eu também pedi pra sair. Lá eu não aguento mais. Vou à luta. Isso aqui não é pra mim. Eu não me identifico com nada aqui. Não tô aprendendo.

Escolhi a matéria errada. Pois é, escolhi a matéria errada. Escolhi a matéria errada. Agora, qual que era a matéria certa pra um cara...

A sétima série você ia fazer Físico-química, né, mano? Aí você fala, mano, é físico-químico. Péssimo em tudo que se relacionava a conta era péssimo. Física, química, eletrônica só mexe com isso. Então, péssimo. Péssimo aluno. O rap é um milagre, cara. Você é um cara inteligente, dá pra ver. Desde o começo da sua carreira, você já começou no nível alto de intelectualidade. Eu acho.

Diferente de mim e do Blue, do Ed Rock, do Taíde. Foram uns caras que estudaram pouco, mesmo. Porque a gente faz parte da evasão, né? A evasão negra, né? A tal da evasão negra. Que fazia a gente sentir no território... Inimigo mesmo. Que você poderia ser humilhado ali a qualquer momento por alguém. Por você não saber das coisas mesmo. Não saber é humilhante, né, mano?

Você falou do... Você dançou break, mano? Dançou break. Era mediano. Mediano. Nos magrelos, não era? É dos magrelos. O que era isso? Ah, 83, 84, nós já estávamos... Porque, na realidade, depois que a gente entende que é uma sequência da renovação black, né? Veio o soul, funk, disco, tudo. Você pegou essa parte do funk também, né? Doze anos, soul. Você começou a curtir com quantos anos? Doze anos.

78 77 O que rolava? Então, rolava, ainda não tinha Para o DF a gente não tinha condição de ir para baile Então tinha os sons Nas casas Era muito diferente o DF, mano? 77 Eu venho do Guará A região que eu morei, que eu cresci Rua de terra Então só depois que veio as manilhas, o asfalto A gente viu crescer aquilo ali A gente era feliz, mano A gente vivia um estado, né?

Se você fosse ver de cima, era um estado opressor, mas que a gente tinha... O desconhecimento, muitas vezes, é um alívio, né, mano? Saca? A gente tem que ver também nessa cena. Tem isso. E aí, a dona Zefinha era a senhora da minha rua, que ela sempre fazia festa, o Carlinho, a Dila, o Ilinha, e era o ponto de encontro da gente. Então, dali, dessas pessoas que se encontravam lá, que surgiu o nosso grupo de danças Magrelas. O que levou essa cultura lá pra Brasília? Você tem noção, assim?

Mano, eu vou brincar com você pra falar que Nelson Triunfo passou por lá, mano. Ele tava nessa época por lá. Antes de vir pra São Paulo, Nelson passa por Brasília. Ele era topógrafo, né, mano? Então ele ajudou a planar a Ceilândia. O Nelson Triunfo. Então, nessa época, Clube dos 200, a gente devia falar das histórias.

O Nelson passou antes de 77 lá Olha aí, cara Vindo pra cá, na saga nordestina Ele foi o Abraão Do funk O Abraão que levou pra Brasília É porque Brasília é um lugar neutro Que vem de gente do Brasil inteiro Mas quem levou essa cultura norte-americana negra pra lá?

Foi ele. Então, Brau, todo mundo caminha, né, mano? Então, quer dizer, a gente bebia já um pouco de São Paulo, eu não tinha essa consciência do Rio, porque a gente foi muito mais afetado pelo Rio do que por São Paulo. Isso naturalmente porque a capital vem do Rio de Janeiro, de Niterói, e se instala em 60 e no Brasil.

Os cariocas. Essa cultura black. Os carioca. Carioca, né? Meu pai vinil ali, Gerson Gigicom, papai tinha, Tony Tornado, Miguel de Deus. Seu pai já curtia essa onda? Já, meu pai era black. Ele curtia essa onda? Seu genésio. Seu genésio era o bom malandro, né? Aquele coroa que...

que conhecia Gerson, mas também mostrava pra gente o que mais marcou dele que tem pra mim é Nelson Gonçalves. Então, naquela mesa... Você curte o Nelson Gonçalves? Naquela mesa... Às vezes as lágrimas caem, porque passa, né, mano? Agora, Paulo Sérgio, a gente falou um pouquinho dele também. Na vida passa, tudo passa, e nada fica, nada fica. Saiu o nosso grande intérprete Nelson Ed. Pois é.

Nelson Nerd, né? Aham, é, Nelson Nerd. Nelson Nerd. E aí o que que acontece? A gente vai caminhando e vê que os cara tava certo e parecia que não tava, que era uma coisa que a gente não tava preparado pra ouvir, na realidade. E papai foi esse elo, né? Então mamãe com...

Com a educação, com a palavra, papai no ditado e nos discos. E foi o que gerou a gente. E Brasília, nessa época, a gente passou pelo Soul. Quando veio o funk, veio meio protesto, porque os caras do Soul, né? O funk dá a diferenciada, né? Qual funk você fala?

James Brown o soul é uma transição você pegou essa fada dos caras do disco, e o break, mano quando chegou a época do break era protesto os caras, pô mano, vocês rolando no chão né mano, dançando no chão aqui não sei se teve esses protestos da quebrada mas a gente tinha, porque acabou a música lenta ali, tinha a música lenta no final dos bailes, acabou a música lenta e era break só, então aquela geração, então lá acabou a lenta antes de estar aqui ah

Acabou, acabou a letra Foi o rap Eu acho que foi o rap Foi, né? Foi, foi ficando uma coisa assim Foi, a palavra do momento Foi entrando em desuso Dançar música romântica Coladinha, arrochada Era a melhor parte do baile Foi deixando, foi entrando Assim, era como se É Estranho até, né? Por que que aconteceu isso?

É porque era uma fita de... Comportamental, né? Comportamento, postura, né? Ninguém quer ser fraco, né? Parece que a dança, o carinho, o abraço, o romantismo, parece que enfraquece, né? Eu lembro de uns caras bravos, cara. É por causa do... Pô, quando era jovenzinho, que a gente ia pros baile black, né? A hora da música romântica era o auge. Era o auge. Tudo que você fazia era pra aquele momento ali. E eu vi isso, essa tradição também sumir.

Foi desaparecendo. Aí os DJs também pararam de tocar aquela música romântica mais devagar e foi substituindo por outras músicas. E o entretenimento mudou, porque o ser humano mudou também, né? É louco. O baile não deixa de ser um termômetro, não. Mas a gente tá falando de um momento que foi uma transição um pouco demorada, né? Por exemplo, eu conheço minha esposa no baile, 87, 88. Eu ainda dançava o passinho, né? Do funk.

E já iniciando no break. Então ainda tinha, não foi do momento pra outro, né? Foi todo um processo. É, ali quando chegou em 95 já não rolava mais. Não, não, aí já tinha. Já tinha ido, né? Uma década já quase que já tinha ido. E hoje, isso tem um revival, né?

Brasília, por exemplo, está vivendo muito essa cena da nostalgia dos anos 80. A gente está embarcando nessa. Muito, muito, muito bacana, eu acho. Quando eu ia em Brasília, eu notava que os compositores de lá, eles tinham uma forma de compor. O ponto de partida dos caras era diferente do paulista. Era uma coisa, às vezes, mais espiritual, uma coisa mais ligada ao sobrenatural. Era a impressão que me dava. A forma que os caras de lá escreviam.

Tudo assim, evocavam assim, era Deus e o Diabo. Certo. Era o que me passava. Tinha uma espiritualidade diferente o rap de Brasília ali. Da forma que era diferente do jeito que os caras escreviam aqui em São Paulo. Você notava isso ou não? Brasília e São Paulo foram assim os polos emergentes do hip hop.

E do rap nos anos 90, né? E Brasília se caracterizou primeiramente pelo boom, pela caixa pesada, né? O grave, isso, a música, o texto forte. Quando você pega câmbio negro, quando você pega cirurgia moral, quando você pega voz sem medo. Quem são os primeiros, mano? Os primeiros de Brasília? Os rappers. Ah, mano, nós surgimos tudo ao mesmo tempo ali. Tem algum ancestral esquecido assim? Um ancestral? Aqui tem em São Paulo, tem alguns, mano. Black Junior.

Certo. Black Junior era rap, já. E aí, conversando com a Tula... Com a Tula, sim. Ela falou, Brau, muito se fala quem é a pioneira, nem é a Tula. Tem um grupo de meninas brancas do ano de 83 que gravaram uma música no coletânea e era um estilo rap. Elas são as primeiras.

infelizmente tem uma que já é afinada é falecida e tal mas não sou eu e existe então parece que tem sempre descobrindo alguém que gravou primeiro o Black Zoom era uma pessoa? Black Zoom era um grupo mas que lindo, Stasi você estourou né mano, era programa de TV

E foi um momento muito importante, impactante. Em Brasília nós temos, por exemplo, Oswaldão. Oswaldão cantava O Pato. Ele hoje está em outro ramo. Tem também o Batata, National Rap, que era um grupo muito avançado para a época. Mas se a gente... Mano, o rap é muito perseverança, né, Brau? Quando você falando, eu pensando, mano, ninguém desistiu. Todo mundo tem uma reverberação diferente, né? Alguns se destacaram mais, mas na base...

os grupos de rap de Brasília estão todos atuando, todos em peso a gente não vê assim desistência, a não ser o parceiro que já partiu mas que Brasília criou uma independência sim uma autossuficiência a gente tem uma história de superação em Brasília as equipes de som nós tivemos produtores de musicais muito fortes como Jay Leandrônico e Jay Rafa na primeira geração sem que

lançou muita gente, colocou muita gente na estrada por exemplo, um grupo que eu acho que deve ser bem mais lembrado, baseado nas ruas o Marcão, Marcão tá nativo, escrevendo parceiraço então só quando você começa a pensar, tem alguns que ficaram, né por exemplo, DF Movimento também, outro grupo importante do rap de Brasília, que chegou a gravar pela TNT Records dois discos

também produzido pelo DJ Rafa. Nós temos a gravadora Discovery, que lançou uma centena de grupos. A Marola Discos, que lançou também vários grupos. Então, Brasília tem uma identidade, tem uma força própria muito grande dentro do hip-hop. É até um milagre, não? É. Pelo tamanho da cidade. Parece o Santos. Brasília hoje tem praticamente 4 milhões de habitantes, Brau.

entre Brasília e toda a grande Brasília. Só que Brasília foi uma cidade criada pra não ter tensão social. Então quem mora na Ceilândia já não ouve o choro de quem mora ali em Planaltina, no Recanto. E como é que isso é isolado? Como é que... Eu acho que é uma estratégia, né? Porque, por exemplo, você pega cidades como o Rio de Janeiro, por que sai de Niterói a capital? É porque era tudo muito junto, né, mano? Você imagina hoje a capital do Brasil no Rio de Janeiro.

Seria outro ecossistema cultural, político, econômico no Brasil. E Brasília é uma cidade. Eles colocam a discussão de interiorizar o país, de fazer integração nacional. Nessa época também as rodovias são construídas, mas na realidade, do ponto de vista da segurança nacional, o plano é afastar e criar uma cidade em que as cidades satélites não cheguem até o plano piloto com tanta facilidade.

e aí a gente discute hoje atualmente, esse é um processo que culminou na discussão do direito à cidade, né a minha estrada dentro do hip hop ela é pautada por uma decisão sair do meu território

Quando eu venho para São Paulo, eu acelerei o meu amadurecimento musical, profissional. Eu vi coisas, né? E aprendi coisas que não tinha na minha cidade. Levei para a minha cidade. E eram coisas que foram importantes, tanto na minha carreira, como na sequência de ajudar o hip hop de Brasília a se desenvolver.

Quando a gente fala de grandes shows, de grandes espetáculos, de coisa bem montada, de coisa trabalhada, isso é o que se vê pelo mundo. Então, quanto mais se viaja, quanto mais se anda, mais você conhece. E tirar isso do ser humano, né? Quando você tira o direito à cidade, você tira tudo dele. Quando a passagem está cara, mesmo com o subsídio enorme do Estado, é uma violência. É uma forma de nos amordaçar também. A gente pensa que a violência só é a física, mas a mental, ela...

ela supera, no meu entender. Quando você percebe a violência física, é porque a mental já está num estágio muito avançado, metastático praticamente. A minha experiência na cidade e no Distrito Federal ali é uma cidade de uma grandiosidade, uma cidade muito poderosa.

Eu tiro pelo próprio Racionais. O número de pessoas que mobilizavam em Brasília pra assistir um show nosso era muito maior do que todas as outras capitais. As capitais maiores. A mobilização da cidade. E a união em torno de um movimento que tava chegando ali, pegando força ali. Que era o Racionais juntamente com o rap do...

Brasileiro todo. Inclusive o local. Estarão todo mundo começando. Sempre foi assim uma força.

que parecesse independente, mas ao mesmo tempo não se parece muito preocupado em dialogar com o restante, porque talvez entenda que o restante não esteja muito interessado. Você acha que para o rap de Brasília seria importante globalizar ou manter a tradição? É o caminho, ou existe o meio termo? O meu divã sempre foi pensar o seguinte, eu canto rap nacional e não regional.

Então, em língua portuguesa, nós temos aí países lusófonos, temos espaços primeiros e primários para conquistar.

Brasília, isso que você está falando parece e gera as contradições, né? Eu acho que o crescimento gera as contradições. Então, de tanto não crescer para fora, cresceu para dentro, cresceu dentro. Então, você pega grupos como Alibi. O Alibi foi um estouro impressionante no DF. Cirurgia moral. Então, foram grupos, o próprio Guindarte 121, também que é um grupo que atua muito localmente. A gente precisou de ser forte na nossa casa primeiro.

Porque as dificuldades, elas existem e sempre existiram. E a gente não era... Na realidade, uma das discussões que eu vejo da primeira geração é que a gente sempre foi meio que inquilino. A gente morou muito na casa dos outros. Nós nunca trouxemos o empreendedorismo, o crescimento nosso, e investi a nossa grana e a nossa estrutura dentro de nós mesmos. O interno ali. O interno. Para criar, por exemplo, as lojas de discos.

Elas não eram nossas, né? Eram de pessoas que lucravam dentro do hip hop com lojas de disco, com várias exceções. Então isso, quando essas pessoas saem do negócio, o negócio fica sem recursos. Então nós enfrentamos várias secas, né? Vamos colocar-se dentro do hip hop, exatamente por falta de investimento próprio. Então é preciso, eu acho que os grupos de ponta, desde o início...

entender a responsabilidade e falar, mano, eu vou ter que investir. A Só Balança, eu criei, quando eu criei a Só Balança em 93, na realidade foi porque eu não tinha quem me gravasse. Mas na mesma hora, eu possibilitei o lançamento de muita gente. Com gravadoras em Brasília, nós tínhamos gravadoras da Discovery, a que mais se destacou.

Em 99, o GOG lança a primeira coletânea de répte do DF, onde, como destaque, nós temos o grupo Ideologia e tal. E era necessário lançar uma coletânea. Dali surgiu o Voz Sem Medo, mais uma vez citado. E quando a gente não toma essa iniciativa, a gente que está à frente, no volante da cena, a gente atrapalha a carruagem da história, mano.

Saca? Então eu acho que se você for ver em questão dos povos, né, mundialmente aqueles povos que mais se uniram, que mais se ajudaram, foram os que mais cresceram muitas vezes nem com toda a sabedoria só pra dominar mas eu acho que a autogestão ainda é uma caminhada pro hip hop e que a gente aprende isso, a gente vai ver isso com

com mais evidência nessa geração nova. As pessoas criticam a geração nova do rap, mas eu acredito que eles abraçaram o empreender de uma forma inteligente, saca? E aí, por isso, consequentemente, como eu consegui, como eu fiz, como essa geração, ela fala, mano, isso não tem nada a ver com política, então eu não quero mais resolver política. Ou seja...

O resumo da matéria do que eu estou colocando é que se você não prepara politicamente o parceiro para crescer, vai dar um problema lá na frente. Tem que ter formação política, tem que ter consciência de classe.

Onde eu estou, onde eu nasci, a culpa é da cegonha. Eu vou defender esse espaço. E a gente se confunde muito disso, né? Quem nasce do outro lado, Brau, não confunde. Mas a gente tem esse problema. A gente confunde. A gente quer sempre o sonho é ir pra lá, ir pra lá, ir pra lá, se isolar, se isolar. E aqui fica carente. E a gente tem que transformar carência em querência. Entender que é querência, não é carência. Eu quero. Eu quero.

Essa estrada é uma estrada que o hip hop ainda precisa de trilhar com mais maturidade no Brasil. Eu acho que nós temos o hip hop mais importante do planeta. Com todo respeito a todos os baobás do hip hop, a todos que criaram a engenharia primeira. Mas o hip hop brasileiro, ele é muito emergente, né? Ele é quase saúde pública, tá ligado? Ele é política pública, ele é reflorestamento.

Ele é reescritura, ele é desconstrução, é desmontar e não desviar na reta do fim das vozes do início. Com base nisso pode ser tudo, Brau. Qualquer um pode ser tudo. Não desviar no fim das vozes do início. É super importante e precioso para nós. Existem prioridades que não se deve desviar. É lógico que a gente sabe de onde a gente veio e a gente espera. Eu não sei o nome, mas eu...

Quando eu me sinto confuso, eu olho pro passado e eu encontro a minha estrela, o porquê das coisas. Muitas vezes as coisas ficam confusas, Gogue. E o nosso movimento não é tão lógico. E não é tão heróico também. Eu sinto você um herói. Herói da resistência mesmo. Um herói. Por isso é tão admirado. Mas ser herói custa muito caro. Custa.

A coisa está muito clara. A ideologia é pura. Tudo que você fala é tudo muito puro. É quase sólido. Eu fico pensando, e às vezes eu penso coisas que eu não deveria pensar, se... vale a pena você se cercear de tanta coisa que a vida pode te oferecer por pessoas que você nem sabe se realmente estão te ouvindo.

Ou eu te respeito. Isso eu não tô falando de você, tá? Tô falando, eu me... Fazendo um paralelo entre nós dois. Eu me enxergando em você. Pensando dessa forma. Às vezes eu me sinto um vilão. Eu tô meio... Desacreditado de algumas coisas. Tô ressignificando outras. Pra não me tornar um trouxa.

Na mão de manipuladores. Porque a partir do momento que eles descobriram os pontos fracos do coração do Mano Brau, é lá que eles vão atuar. Então eu não tenho exposto muito certas coisas que eu... Entendeu? Diferente daquela época que a gente começou a carreira, quando era necessário panfletar o beabá das coisas. Era o beabá mesmo. Você sabe disso.

Era o beabá do orgulho negro, era o beabá do orgulho da periferia, era o beabá do orgulho da favela. A gente tava recomeçando tudo. Tudo era muito feio e lameado. Tudo era de baixa qualidade. A gente era macaqueado. A gente era tirado. Ignorado.

A gente não via um semelhante em lugar nenhum, em foto nenhuma, em outdoor nenhum, programa nenhum, nada. Só em matérias policiais. Isso era o começo do rap lá. A nossa autoestima era no chão. A gente falava de comer. Prioridade, comer. Comer mesmo. E às vezes eu acho que o meu senso de urgência e prioridade não serve mais para o hoje. Porque a geração moderna não entende.

Esse nível de pobreza que a gente conheceu, que já não é ref, não é referência. As prioridades hoje são outras. Às vezes eu me sinto bobo por sonhar com certas justiças que as pessoas não estão nem aí. E aí, enquanto o Brau tá poético e as pessoas estão no modo sobrevivência, malado.

É por isso que eu falei, coloquei, que a formação política, ela cria uma estrutura em você que independente da leitura que você tem, do que te cerca, você tem uma caminhada a seguir. Olha, essa geração, a escola nunca teve tão triste. Diante de tanta informação, se gera um vazio. Olha o espaço que o rap tem que trabalhar como transformação das pessoas. Está ali, continua.

agora talvez seja um estágio mais elevado outra geração que vai discutir isso mas é um tema do rap não é do ser humano Gog nem do Pedro Paulo mas é dos que estão por aí, do Gustavo eu me sinto mais aliviado quando eu olho esse ecossistema cultural brasileiro relacionado ao rap, a música preta eu falo, mano, tem ancestralidade eu deixei legado E aí

Dá pra descansar um pouco, mas ainda não tá nessa fase. Tá nessa fase do descanso ainda. Não tá nessa fase do descanso. É preciso falar mais. A gente falou muito pouco de amor, Brau. E hoje, nessa carência do amor, surgiu alguns problemas que foram naturais da nossa postura. Por exemplo, quanto tempo que nós paramos pra sorrir? As capas dos discos, as cenas. Então nós criamos uma geração que não chora, que não se emociona.

E aí veio a máquina, transformando essa máquina humana, mais máquina ainda. Endurecido. Gorg, você falou falar de amor. Eu usei a palavra há pouco tempo, macaquearam a gente. Eu fiz um disco falando de amor. Eu sei que não existe só o amor de homem e mulher. Sim. Existe igual a música do Eddie Rock, que fala do pai e filho. É como se um homem negro...

falando de amor não tem utilidade. Eu provei dessa tentativa que você tá falando. Eu falei de amor a vida toda, talvez. Disfarçado de... Disfarçado de... Palavrão, às vezes, e tal. Mas sempre querendo que alguém vivesse. E foi confundido com violência. E quando eu fiz... Nós fizemos... Por exemplo...

Um disco abordando questões sentimentais profundas do ser humano. Não só do preto, ou do branco, ou do rico, ou do pobre. Ali eu perdi a utilidade. Não, não é hora de falar de amor. Tipo, foi o recado que me mandaram. Tipo assim, a leitura. Não, Brau, cadê o revólver? A gente quer assistir um filme de bang-bang. Tamo com controle remoto na mão e o Brau não veio.

Tá todo mundo esperando, tiroteia aqui. E o Brauby vem com essa conversa de amor. Cadê as ideias de assassinatos em série que você cantava nos anos 90? Queremos assassinatos em séries em cima de rima. Virou mercado, Goblin? Virou mercado. Eles querem me pôr numa caixa e fazer eu virar mercado produto.

O Brau é obrigado a falar de violência. É um produto da militância. Brau, eu particularmente vi o seu trabalho, né? É o trabalho que você fala de amor e tá assustando. Eu vi como... Eu conheci um pouco mais o Pedro Paulo.

O Mano Bró se permitiu e eu vi maturidade ali E dizer que Na comunidade, diante do sofrimento Você lembra que eu falei lá da alegria Mesmo em plena ditadura Se o ser humano não fala que ele também é feliz Que ele tem um momento de felicidade Ele tá mentindo, ele é um personagem

E exatamente tirar essa máscara é a grande transformação. A revolução, elas são feitas de vários estágios evolutivos. E as pessoas acreditam que um dia a gente vai se... A palavra mais colocada no rap dos anos 90, 2010, era a palavra revolucionário. Humildade. Humildade. E o Sérgio Vaz falava, mano, arranca o R, faz o chaveirinho, coloca aí, depois a gente solda esse bagulho, porque primeiro precisa de evolução.

O que que Sérgio Vaz traz ali a leitura dele? Formação política, cara. Porque uma revolução, um todo, só se... Ele tem um tempo pra se... Pra se apresentar como mudança. A história do rap, do hip-hop, não tá escrita.

A história está em constante andamento. Está escrevendo. Está escrevendo. Então, quer dizer, nós, naquele momento, nós fizemos uma reprografia do que era a nossa situação e colocamos o nosso texto lá e foi muito importante. Mas como nós continuamos vivos e atuantes, é preciso a gente ter, aí sim, a humildade de falar, mano, é preciso continuar trazendo a mesma fotografia.

atualizada, o mesmo trabalho. E as pessoas acham muitas vezes, mano, você fala da mesma coisa. E eu canso muitas vezes, porque as pessoas querem conversar comigo mais de textos do que de música. Posso fazer uma pergunta filosófica? Pode. Você acha que o pessoal que ouve o nosso som, eles querem mudança ou eles querem mais uma dose da mesma bebida? Tudo de novo, igualzinha. Brau.

O ser humano, ele quer mudança, nem que seja mudança de caminhão, saca? Mudar de um lugar pra outro. Agora, não é fácil você viver a mudança se você está com suas roupas e suas estruturas velhas amarradas ao seu corpo e à sua mente.

A mudança, ela prevê uma vontade de falar, mano, eu quero estar lá. E isso é uma caminhada que eu quero alcançar de verdade. Porque as pessoas pegam e falam, mano, é bumbo e caixa. Mano, tem que ter o chimbal também. A música social brasileira, se você fosse colocar, tem o bumbo, tem o chimbal, tem a caixa, tem o baixo. Quando você fala em equalizar ela em termos de construção de classe, quem é o bumbo fala, mano, mexe comigo. A caixa fala, mano, eu já estou num volume bacana. Quando você...

Equaliza o chimbal. O chimbal está sendo ouvido demais. Eu estou te colocando isso para falar que a mudança não é algo fácil. Diante de uma música orquestrada e colocada na cabeça da gente por coisas que a gente não se identifica, mas que são colocadas como realidades que não são passageiras. Por isso que o conceito de realidade, para nós, a gente tem que entender que realidade é o que se cria, não é o que se tem. Então...

A realidade não é a realidade que o sistema coloca. Aquilo que está pronto para você. O centro da cidade pode ser modificado, basta implodir o centro. É lógico que é um processo histórico caminhando até essa discussão. Mas quem vê o novo centro construído nem vai acreditar que um dia foi o que era.

Posso fazer uma pergunta? Pode, Guilherme. Tem duas perguntas que eu quero muito te fazer. Uma delas é, você falou formação política algumas vezes. Eu queria que você destrinchasse um pouco mais pra gente. O que você acha que a gente… Olhando pro jovem que a gente tem hoje no Brasil. O que a gente pode destrinchar como formação política? O que você acha que tá faltando? E qual é essa diretriz?

Porque eu tenho 37 anos. Então, a formação… Vocês me formaram, né? Eu fui e sou ouvinte de vocês. E tudo mudou muito. Politicamente, musicalmente. Para os jovens de hoje, o que você destrincharia como formação política?

Então, existe esse pensamento, e a gente parece que é verdade, que as coisas mudaram muito. Na realidade, a casa, a mesma casa, ela está pintada com outras cores, na realidade. A estrutura, quem tem condições, boas condições, continua tendo as mesmas boas condições, e com a sua estrutura ele trabalha para que as coisas continuem da mesma forma.

A era da tecnologia, ela chega pra dar, ela te dá uma falsa impressão de que você pode estar indo a outro lugar. Isso começa com o neoliberalismo lá, né, depois da queda do muro de Berlim, da queda do muro, do surgimento do neoliberalismo, que as coisas, né, quanto menos Estado, mais você tá bem. E a gente não consegue andar com as próprias pernas.

E como é que você começa a andar com as próprias pernas, Sibaiá? É sabendo assim que você nasceu no seu berço de ouro, mesmo sendo um berço que para os outros é um berço sem nada. Formação política começa com falar, eu amo isso aqui, isso aqui está difícil, mas é o que eu tenho por enquanto. E trabalhando aos poucos para que aquilo mude, nunca...

Dispensar como formação política, porque a formação política se dá na estrada, na caminhada, na percepção. Política, o primeiro gesto político que a gente teve foi gritar e chorar quando nasceu da barriga de mamãe. Isso é um ato político. E continuar gritando é importante, mas não sair, sabe, e não abandonar o seu espaço é um ato político.

sair do seu espaço, mas lembrar, né, você sai do gueto, mas o gueto não sai de você, é o manifesto. E essa é a nossa carência. Porque todo mundo confunde, e só quer a querência. Querer é super importante, mas ser o que você é é mais importante ainda. O Gog, eu sinto que a política hoje é muito mais delicada e sensível e perigosa mesmo.

Muito mais do que quando a gente começou. Muito mais. A nossa geração era aquela que pedia pra que as pessoas votassem. Lembra que teve uma época que o nosso povo não votava. Os jovens negros não votavam. Nem tiravam o título de eleitor. Você lembra dessa fase? Existia assim... Acreditava-se que... Sei lá. Alguns candidatos não ganhavam porque o povo que tinha que votar não ia.

Isso, lá atrás. Então, eu lembro que o rap tinha um movimento que falava, pô, ensinava a votar, pô, você tem que tirar o título, pô, você tem que ter seus documentos, tem que tirar o lance da cidadania, pertencimento. O rap pregava isso, veja a bicha, é quase um bagulho de direita, né? Jovem, dirija-se ao serviço militar.

Era quase isso, vai lá, tira seu documento, sai da marginalidade, sai do anonimato, né? Você é um homem negro, um jovem negro, tem que ter seus documentos, os caras vão te enquadrar. Tinha esse trabalho de base, mano, de falar, tira os documentos, vá votar. E hoje, você falar de política é tão delicado que nem parece que a gente tá falando do mesmo assunto. Política.

Falar de política no começo dos anos 90 era tipo assim, era a cesta básica. Do básico mesmo. O mínimo da dignidade. É o mínimo da dignidade. Tem a documento, o cara, a polícia bateu com o adasso. Básico. E a gente foi muito útil nessa fase. Fomos muito úteis. Passados quase 40 anos, 50% das pessoas que nos ouvem Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou F

talvez pouco mais, pouco menos, não concordam com as coisas que a gente canta. É muito louco isso, ver essa mudança. A visão ficou muito mais sensível. Existe um tratamento, às vezes eu acho que a gente, nós, a forma que a gente quer transmitir esse senso político e a gente quer transmitir esse senso.

não vou dizer ultrapassado, mas talvez seja ideológico demais. Os jovens estão mais céticos em relação a políticos. E às vezes eu penso, artistas como o Gobe, o Brau, pessoas como esses caras, não deveriam estar do lado de político nenhum.

sinceramente eu penso isso ao mesmo tempo eu não vou me isentar de escolher um lado são coisas diferentes mas eu não sei se eu quero necessariamente estar convencendo pessoas

a votar no candidato que eu vou votar. Entendeu? Brau, tem alguns dados para a gente buscar respostas, né? 1988, 100 anos da abolição da escravatura. Eu já estava com 20 e poucos anos. Então, ainda existia no planeta Terra. Naquela minha época, eu convivi com pessoas escravizadas que foram com 90 anos, 95 anos. A escravidão, ela permeou o Brasil, a escravização, por 380 anos.

Então, o resultado de tudo isso, historicamente, é muito próximo. Parece que foi anteontem. Nos anos 70, Brau, o governo federal, ainda sobre a ditadura militar, criou um movimento chamado Mobral, movimento brasileiro de alfabetização, porque mais de 70% da população do Brasil não era alfabetizada.

O cara, quando queria te chamar de analfabeto, te chamava de Mobral. Mobral, e aí Mobral? E aí Mobral? Pá. Então, foi muito pouco tempo para descobertas e passos que seriam importantes. Então, a formação política, o movimento negro, ele nasce ali politicamente. Nós temos toda uma estrada que vem lá de Abdias, todo o experimentalismo negro, o teatro negro, a frente negra brasileira.

mais os cadernos negros dos anos 70, mais nós temos um movimento negro politicamente fundado. Em 1978, nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, o Milton estava lá, a Adão estava lá, a Regina estava lá, estão com a gente até hoje. Inclusive, ontem estiveram comigo, num momento muito importante, que foi a criação da Escola Nacional de Hip Hop.

Na mesma hora, existe a contradição de que o hip hop não quer fazer parte disso, mas a escola, Brau, ela ainda não é escolha. E o hip hop, se ele traduziu em dia a dia um texto que foi vitorioso pra nós, e vem sendo vitórias pra nós, ele pode ajudar a escola a ser escolha. Mas, então...

Só que as pessoas que pegaram e chegaram, os novos alfabetizados, eles não foram afrobetizados, Brau. O processo de afrobetização é a evolução da alfabetização. É o conhecimento... O que é educação? Ele é conhecimento, mas é conhecimento focado. Quando o território total, o celeiro do conhecimento, não nos é aberto. É como você falou, valorizam as coisas, não valorizam outras. Então, eu quero colocar que é um processo, nós estamos avançando.

Mas não dá pra enxergar. E a política é como visitar... A política é como entender a política de forma diferente. A política é um direito do ser humano. Do protesto, do se alinhar a determinado pensamento. Agora, a visão política ampliada está muito pra além do político. Aí sim que está a discussão. Eu concordo com a política, mas não abraço a ideia do político.

Mas onde é formado o político, Brau? O político ele é eleito por quem? Então. Aí tá a questão, Semaiá. Por nós.

Por nós. Então, por que que isso acontece? É porque quando você fala volta pra base, é porque a crise política dentro, agora eu vou colocar crise política não partidária, mas dentro do hip hop é exatamente o quê? Dentro do movimento negro. É o quê? Porque os nossos melhores quadros, porque primeiramente, antes, nossos quadros estavam na parede de Andara, Cotirene, né? Nós passamos a ter quadros perambulantes, pessoas, né?

é como sou professora Soeli Carneiro e como outras que são muito importantes pra nós mas o que que acontece esses quadros foram ocupar cargos políticos e eu comecei a perceber que os passeios falaram Gogue, mano, eu recebi um não do político só o político era aquele cara que tava com nós na manifestação, ele agora é chefe de gabinete, ele é diretor, é secretário

mas, é... Mano, é ele que tá dando o não pra nós agora. E é muito triste a gente constatar, né, Brau, que ocupar cargos políticos ainda não é a principal caminhada nossa, mas mudar a forma de se fazer política nesse país. Eu ia falar sobre isso. A importância está... E nós criamos um partido nosso. Parece que... Olha, parece que é o pecado original. Mano, vamos criar um partido nosso, partido de preso, partido de periférico, e revolucionar tudo isso aí. A gente consegue. Você acha que esse é o caminho?

Posso só trazer um adendo? Por exemplo, os mandatos compartilhados, né? Eles são uma novidade. Então, o Brau ganhou, mas quem vai comandar, o Rogo e o Brau é um coletivo. Mas o que eu queria trazer é exatamente esse ponto que você traz, essa decepção. Porque eu acho que se a gente for pensar na juventude, a minha geração, eu nasci em 88. Então, eu vi um outro Brasil acontecendo. Eu acho que a política, o entendimento da política passa muito pelo que a gente sente e o que a gente vive.

E a juventude, os mais jovens, principalmente quem vai começar a votar esse ano ou começou a votar há pouco tempo, eles viram um Brasil e colocam muitas vezes nós que defendemos um lado específico numa posição que é, você não tá sendo contra o sistema porque parece que o que tá no poder agora é o sistema que eu quero combater. Então, ser contra o sistema hoje, muitas vezes é ser contra quem quando chega a eleição, que não é só a política que importa e não é só a política que eu quero combater.

pra eles é exatamente o que é o sistema. E aí, eu acho que esse debate é importante, porque independente do lado que a gente apoia ou vai votar lá nas eleições, o lance é que é uma contradição real.

Então, qual é a revolução possível? Você até disse que as músicas, na década de 90, falavam muito de revolução. Qual é a revolução possível hoje? Parece que a revolução possível hoje é a de segurar o castelo pra ele não desabar. O que não é uma revolução pra muito das juventudes, né? Então, eu tenho visto muitos jovens criando uma ideia de contra-sistema que é, não, desaba tudo isso daí. E aí, qual que é o caminho pra gente? Por isso que eu perguntei pra você da formação política, porque é uma encruzilhada, entende?

no meu ponto de vista. É complicado, a gente chega assim e fala porque é preciso ter muita responsabilidade com o que a gente coloca aqui, tá? Primeiramente, a gente fala possuente sistema. Quem tá fora do sistema? O sistema é uma máquina que é uma engrenagem, Brau, que ele abraça todo mundo.

Quer dizer, a minha questão é que ponto, onde eu me encontro territorialmente dentro do sistema. É uma máquina que gira. Nesse exato momento... Estamos dentro do sistema. Estamos dentro. Sistema 1.

E a máquina. Então existe o poder econômico, os bancos, tudo que estrutura financeiramente e gera recursos, gera renda, porque o poder econômico é o motriz primeiro, é o cérebro do sistema. Tá ligado? Então o que acontece? Hoje a gente vive um fenômeno da micropolítica. São pequenos aglomerados que se fortalecem, os evangélicos, os cristãos.

pessoas que se fortalecem e que tem uma força política e que consegue interferir nas decisões mas não é no sistema, na máquina

trabalham de uma forma que a gente tem que aprender que, se a gente não tiver união entre movimento negro, movimento hip hop como um todo, poesia periférica, marginal, divergente, samba, reggae, se a gente não se juntar, falar, mano, vamos comprar mais de nós mesmos, vamos consumir de nós mesmos e vamos eleger alguém nosso... Entrou na pauta, bravo. Então, o que acontece? O sistema máquina continua sendo a mesma.

O processo de transformação de revolução é algo que depende de várias revoluções, mas a gente dá um passo importante nessa caminhada. Só que a todo momento a gente é sabotado por isso e muitas vezes vem de nós mesmos. Fogo amigo. Por isso que a formação política, mais uma vez, é super importante. A gente discute até hoje, muitos pretos não entendem que não existe o racismo reverso, por exemplo. Não, mas você está tendo racismo, pessoas de pele clara.

Não entenda, por exemplo, o privilégio branco. Mano, pelo fato de você nascer com a pele clara no Brasil, você já tem um privilégio, você já caminha mais fácil. Você já tem menos trauma. Eu tirava, Brau, os óculos há pouco tempo, mas eu tirava, passava a mão no rosto e olhava assim no espelho. Porra, é com essa cara mesmo hoje que eu vou pra escola?

Quando você era mais novinho? Moleque. Pensava essas fitas aí? Pensava. Caralho. Eu não tinha cara. Pô, e mais louco ainda que só depois que eu descobri que meu nome era bonito. Porque, pô, Pedro Paulo estreia, né, mano? Agora, Genival... Mano, não era bonito não, Pedro Paulo, não. Genival, você só. Pedro não era bonito, não. Era não. Mas Pedro vinha pelo menos de pedra, que já tem uma história, pá. Tanto que eu falava Paulo.

Você falava Paulo? Como é seu nome? Paulo. Sério? Sério. Mas não é tão importante. Ô, Gog, eu sinto assim, mano. Você é um dos caras, assim, resolveu sinceridade nas suas palavras. E da ocasião da morte do WD, eu estava no velório, participei. São assuntos polêmicos. A gente tem um...

E ali eu notei o quê? Que, embora houvesse muitas condições realmente dos caras estarem fortes e gravando e acontecendo as coisas, existe uma pressão externa muito forte para que o grupo permaneça preso ou...

um voto de lealdade máxima àquelas coisas que, às vezes, já não estão mais funcionando. Regras de um jogo que não existe mais. Esse jogo não existe mais. Vocês estão pedindo para os caras jogar regras de um jogo que não existe mais. Então, você acaba vendo pessoas que tiveram a visão diferente do todo.

que conseguiram um fôlego a mais. Entendeu? Isso não é se desligar da política, mas talvez...

Ficar independente dela. Tenho percebido também que a política tem se apoderado da arte e da liberdade e da... É involuntariedade? Voluntariedade? É involuntário ou voluntário? Involuntário é quando você não está. Voluntário é quando você vai. Involuntário. O intuitivo. O puro. Do puro da arte, entendeu? O puro.

O primeiro que ele é, aquele quando a gente tinha 16 anos, 17, sabe? Por que eu usei o Consciência Humana e o WDU como exemplo? Eu lembro do Consciência Humana começando. Eles tinham 14 anos.

Racionações e Racionais Zona Leste, lá em 89, eles eram mais jovens do que nós. Ele era um garotinho. Sonhador. Passado um ano, um ano e meio, eles tinham um grupo. Uma dupla. E passado mais um ano, eles eram um sucesso. Eu vi tudo começar. Moraram lá em casa, Brau. Moraram 40 dias pra gravar o primeiro disco. Era um grupo que tinha uma marca de uma região.

De você, como a sua música, como a minha também. Que quando ouviu, lembrava do Capão. Quando ouviu o Gobi, lembrava da periferia de Brasília. Quando ouviu Consciência, lembrava de São Mateus, aquele lado da Zona Leste, que é um outro lado. Coisas nostálgicas, porque a gente perdeu isso para uma modernidade, para uma mudança de regra que teve. Eu percebo assim.

Um cara que tem um som original hoje, a gente tá de assuntos variados, né? Mas é assim que ia ser mesmo. Você é um cara original, você tem um som original, características da sua região, você vai pro final da fila do rap, porque na frente existem cem

cópias do Travis Scott na frente. Porque o Travis Scott é a nova ordem. Já não é o maior artista, mas é essa estética. Vou usar o Travis Scott, essa nova geração de som norte-americano que puxa o bonde no mundo. E é no mundo.

É no mundo. É uma locomotiva. É um movimento mundial que o cara que ele é o original, ele é o som orgânico, ele vai pro final da fila e vai ter que observar o trem passar, sei lá, durante quanto tempo. Isso é uma coisa mundial. É muito forte isso. Já aconteceu outras vezes com outros gêneros musicais. Por que eu tô falando isso? É um momento de transição que a nossa geração que abriu esse espaço no Machado.

tá sendo obrigado a esperar o trem passar pra poder atravessar pro outro lado, que a gente, uma hora a gente vai atravessar, porque a caminhada continua. Mas é um momento do mundo que a gente vai ter que saber ler. Tem que saber ler o momento. Não pode ser vítima dele. Eu sei que é um papo de rappers, né? É o mínimo que esperam de nós. É louco, é louco. É assim, tem, eu percebo.

Caminhos aí. Você vai pegar o trem, a locomotiva, ou você vai morar por aqui mesmo? Você vai ficar por aqui mesmo? Esperar passar, vou atravessar pro outro lado, tenho que caminhar. Pois é, pois é. Então, porque um dos fatores que eu acho que atrapalhou a nossa geração, e que tá vivendo muitas vezes isso hoje no bolso, economicamente, no desconhecimento por gente que tá aí e que gosta de rap.

É exatamente a ausência do espetáculo. Nós não fizemos... Sabe, eu sou da geração que se o microfone tava chiando, tava dando microfone, e o cara fala, mano, nós é favela, mano. Se você quer um microfone bom, aqui não tem. E a fita é da humildade. Então você não era humilde se você reclamasse exatamente pela parte técnica. E quem tá assistindo o show, ele não quer saber. Ele fala, mano, o Gorg, eu pensava que no disco é bacana, ao vivo é...

É um desastre, é um problema. Então nós sabotamos nós mesmos nessa engenharia, porque quanto vale o show, né? Quanto vale o show? Quanto vale o show. Você acha que nós sabotamos, Gaudinho? Você iria... Aí a gente vai botar naquele papo. Política demais. Que a gente não conseguiu se mexer.

Mas a política em que ponto? A tal da sabotagem seria o que se não fosse isso? Eu acho que, como eu falei, nós precisamos comprar de nós mesmos, consumirmos nós mesmos. Por exemplo, eu vou usar o exemplo do seu grupo, Racionais.

O Racionais, ele vendeu um milhão de cópias, pelo que eu tenho conhecimento. No momento em que não tinha internet, não tinha nada. A gente conseguiu dialogar e fazer... São números lendários, né, Góvel? A gente não tem... Esses números não partilham do Racionais, tá? Mas o que que acontece? Nós conseguimos destaque e chegamos ao nosso estilo musical nesse ponto. Mesmo com um pouco que... Nenhum espaço. Nenhum espaço.

Então, eu acho que a nossa autogestão, mesmo desorganizada, ela gerou um fenômeno. E não era só Racionais. Racionais era o topo de um grande... Se você fosse buscar, tinha todo mundo. Eu tenho a história de um parceiro que falava assim, mano, Racionais, quando chega...

Ele arrebata, ele traz. E a importância do hip hop é porque tem o GOG que já educa. Então um traz, outro educa, outro prepara, outro conta a história. E quantos não vieram inspirados no GOG? Pois é. Quantas formações de grupo de rap não vieram. Eu tenho vários filhos e filhas de parceiros que tem o nome das minhas crianças. Dos meus jovens e adultos hoje, né? Então tem Mayara, tem Vitor, tem Guilherme.

Isso é mexer na vida das pessoas, né? Olha, Gorg, já conheci várias maiaras, abraço as maiaras com 17, 18 anos, que são felizes por ter o nome. Voltei, eu só lembrei que meu nome era lindo, Brau, e recebi quando eu descobri que Genival é Genival Cassiano.

Então a leitura, sabe, a leitura, como a gente não leu as capas do disco direitinho, a gente passou pra outra aula, a gente não descobriu. Aí o processo de afrobetização é esse processo de conscientização do nós por nós.

do nós por nós. É um desafio, Brau, eu sei que parece contraditório, mas talvez desse vagão, desse trem da modernidade, da caminhada do mercado que marca todo mundo, que obriga quem vai no trem bebe o que quiser e quem fica atrás toma Rivotril, tá ligado? Eu prefiro mais falar assim, olha, Brasil com P saiu da necessidade de falar que mais que...

P de polícia na quebrada, nós precisamos de P de psicólogo. E não queremos psiquiatra, queremos tomar remédio, Brau. Precisamos de psicólogo, de gente que ouça a gente. No país da bola, o que vai decidir o jogo é a bolinha do zói. É um consenso que o país da bola é o Brasil, mas vamos ser craques na bolinha do zói? E é impressionante. Quando você olha, eu vejo, Brau, tem umas fitas, eu consigo enxergar a coisa.

Mas é preciso ter esse trabalho, ter esse cuidado, ter esse respeito. E quando você olha, você vê. Só que aí o cientista social, a maquinaria e a engenharia da formação política junto com o tal do amor, da querência ao invés da carência, vai falar assim, mano, eu tenho alguma coisa para você, posso te ajudar. Eu não vou seguir no vagão lá, naquela locomotiva.

vem comigo. Então, é um trabalho de desconstrução dessa coisa que a gente tem da gente. Que vamos levantar a parede, vamos fazer, vamos colocar a telha, vamos fazer fita ou não. Mano, vamos derrubar tudo isso. Vamos ver o sol pra ver se a gente consegue se alimentar pro outro dia de coisa natural, de coisa pura.

E eu ainda consigo ver isso no hip hop. Faltou show, mas não faltou soul. Esse cara fala que você é algo poeta do rap. O Bob, você usou duas palavras, e eu também cheguei a usar aqui, que são palavras no rap que são perigosíssimas. Consumo. Consumir as nossas próprias coisas. Você deve acompanhar a internet com certeza. A narrativa que se criou no rap, aonde de... Qualquer tipo de...

comercialização ou negociação ou transação, seja lá qual for a palavra usada, o verbo usado, para determinar um negócio bem feito, é visto com muita desconfiança do nosso movimento. É o tipo de política natural maior do que nós.

política natural. Aonde eu penso, se o WD estivesse entre nós agora com eu vou dizer uma Ferrari, mas eu vou dizer, sei lá, um carro desses bons aí agora, com um puto estúdio, vários grupos gravados, duas casas, como seria a reação do próprio público Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou F

Será que o público do rap tá preparado pra isso? Então, Brau, falar do WD pra mim é super impactante, super importante também a gente tá trocando essa ideia porque eu conheci o WD do sonho, tá ligado? Trabalhando ele na loja do Negudari, de atendente mostrando o sample, fazendo pesquisa ele é um dos maiores conhecedores de música saca? E num determinado momento a gente vê ele perder a vida ali num momento... Jovem Jovem ainda Ficou

Um filho que ele colocou dentro do hip hop também, que é a herança, o legado do WD, seu filho, seu DNA. Mas é, sabe, mais combustível no tanque, mas também mais lancheira no lanche. Mais munição, o motor mais veloz, mais elegância, amor, menos recalque. Completa a frase. Ô, Gorg, eu ouvi um áudio.

no velório, teve um amigo nosso que botou um áudio, sei lá, de alguns dias antes, claro, do WD falando, ele sendo bem obediente, falando claramente no áudio, que tava faltando investimento, tava faltando dinheiro, tava faltando um estúdio bom, tava faltando parcerias boas.

Dinheiro. Não faltava ideologia, não faltava fé, não faltava heroísmo, não faltava caminhada, não faltava folha corrida de caminhada da Blue Dinu. Não faltava nada disso. Todos os... Como se diz, todos os requisitos de um MC de rua verdadeiro, ele tinha. Era pra ser da forma que foi.

O Eli também. Da mesma forma. E outros. Qual que é a lealdade que tem que ser demonstrado? Que tipo de lealdade tem que ser demonstrado? Esse é o tipo de barreira que a política não ultrapalha. Acho que a política até criou essa barreira.

entre nós e as pessoas que nos ouvem. Brau, é porque é pela sobrevivência, mas também é sobrevivência. Também. Como se vive também. A gente, a nossa geração, ela buscou muito a sobrevivência falando sobrevivências, né? Tá ligado? Mas eu volto a colocar que a gente tem que criar algo nosso.

Olha, Brau, a nossa geração está com 60 anos, 50 e poucos. A aposentadoria chega aos 65, um BPC. E a gente está caminhando para essa colisão. Estamos envelhecendo porque estamos contrariando a estatística.

Por isso que eu falei que a gente estuda muito as questões, mas hoje a locomotiva continua caminhando. Vai piorar nesse conceito. Eu tive, por exemplo, discussão política. Eu estive com o ministro Marinho do Ministério do Trabalho, falando, olha, nós temos que trabalhar uma linha de aposentadorias para os rappers. E não só para os rappers, para a classe cultural brasileira.

Porque geralmente, ninguém tem carteira assinada. Ninguém paga um plano privado de previdência. Se a gente não tomar providência, então que WD, um gigante, que Eli e outro gigante, sirvam também de memórias, mas também de uma cena que fale assim, mano.

A cada dia que vai, só vai complicar mais. E é o que eu tô vendo. Isso é formação política, Abraão. Mas você traz aqui a importância... O ser coletivo, o ser... É porque, olha, eu tô bem. Eu tô bem, me basta. Só que os problemas vão bater na minha porta. O coração, a saúde emocional não tá bem. Então a gente tem que investir também em algo. A gente tem que... É uma responsabilidade nossa. Eu sou do hip-hop, H-O-P.

Sabe, o hip hop não é só... Não são só quatro elementos. São bilhões de elementos. Sim. São bilhões de elementos.

Mas você traz um elemento nessa sua fala agora que é a importância de pensar a política pública também a partir da necessidade e da perspectiva do hip hop e de quem faz essa cultura se fortalecer. E está colocando no papel agora na discussão de uma frente negra do hip hop para que, olha, você tem uma expectativa de votar em tal pessoa, de um espectro da política, mas você não tem só quem entregar seu voto. Você vai falar, mano, meu voto...

Ele vai ter que mexer nessa estrutura aqui. Ele vai ter que balançar alguma coisa aqui. Vai ter que vir alguma coisa pra nós. E aí que tem...

O impasse, né, Brau? As pessoas não querem se envolver com política. Não, o rap não pode se envolver com política. Posso provocar? Pode, Brau. Eu discordo e concordo com essa coisa que fala que o rap não pode falar de política. Aí eu fico pensando, tá o Brau e o Gog, os caras são compositores, ritmistas, rimadores. Por que que eles tão falando de voto e política, política, política? Por que que eles não tão procurando no meio de ganhar um dinheiro?

e fazer uma grande estratégia para eles vencerem, porque, afinal de contas, o povo brasileiro escolheu o liberalismo como disciplina e o empreendedorismo, e está lançado a sorte e tudo mais.

Não é isso que o brasileiro escolheu? Pois é. Escolheu. Não foi o Brau. Se você perguntar o que o Gog escolheu, foi isso? Não foi. O Brau escolheu, não foi. Só que a sorte está lançada. E agora? Para quem que serve as leis de apoio, as leis de ações afirmativas? Para quem serve? Para as pessoas que estão em vulnerabilidade. Não é para o Gog.

Por que o Gorg está lá falando de política e se ele tinha que estar falando de ganhar um dinheiro? De investir, de pegar o dinheiro, multiplicar, ganhar em juros? Não estou dizendo que você vai fazer, não. Estou dizendo que seria o ritmo natural de um empresário. Multiplicar o dinheiro, investir, trabalhar, investir, ganhar. Por que o Gorg não fala disso? Ele e o Bró estão lá falando de política, eleger cara corrupto, eleger cara que pode ser que roube, eleger cara que pode ser que arraste o nome deles pra merda.

Pois é. Olha, Samaya, eu vou votar mais uma vez num ponto muito importante, que é a Escola Nacional de Hip Hop. São 50 milhões que foram colocados lá, Brau. Muito pouco. Você divide pelos estados, dá 2 milhões para o estado. Se foi esse o valor realmente colocado. Mas a política, a estrutura da escola está montada. Então, é algo que precisa de combustível no tanque, Brau.

Nesse momento, eu acredito, eu fui o coordenador político dessa cena, reunimos, trabalhamos material, colocamos propostas e o documento está pronto. Agora...

Tem que ter força política pra implementar isso nas escolas, pra que o hip hop possa ser parte do calendário de leitura dos meninos, de estudo pedagógico, desculpe. Isso é uma... Depende de mim e de você, Brau. Sabe? A gente tem essa responsabilidade. Você pode falar assim, Gog, eu não me envolvo com isso, mas é essa caminhada que vai poder colocar que, olha, mano, nós estamos...

Está todo mundo numa dignidade mais planificada a cena. A gente não está se envolvendo, mas a gente tem uma política que a gente batalhou por ela por um ponto que a gente acredita e que está funcionando. São 132 milhões de alunos e alunas no Brasil em 45 mil escolas espalhadas pelo Brasil. Nós temos que ocupar esse espaço. É um espaço de pensamento, de estruturalização do Brasil e de mudança da realidade que a gente não está contente. E aí, vamos abrir mão, deixar? Esvaziar?

A credibilidade? Ou vamos em frente? Eu tô caminhando.

Você não tem medo de ter seu nome associado a políticos? O meu nome não está associado a um político, isso é uma política. Mas você tem medo de ser associado? Não, eu não tenho esse medo, porque geralmente essas discussões passam longe da gente. As pessoas apontam, o GOG está ligado ali com tal presidente, o GOG está ligado com tal governador.

E na realidade eu estou atrás, na determinação, de usufruir da política, do espaço político de diálogo que eu tenho com aquele espectro, para que aquela política seja implantada em prol da minha comunidade. Então, enquanto estão... Os caras muitas vezes falam, pô, o GOG, pá, pá, eu falo, mano, tem alguma conta no débito aí, alguma coisa aí? Não tem, não tem. Não estou devendo, Brau, financeiramente. Então, o restante é posição e entendimento. E a gente tem que respeitar dentro da linguagem política quem é divergente a você.

respeitar o contraditório, porque o contraditório muitas vezes pode trazer algo novo que possa agregar e melhorar a sua conduta dentro do seu pensamento. Tem uma parte à direita do nosso movimento, tem uma parte ao centro, que acha que o nosso movimento não deveria estar atrelado a espectro político nenhum. Por exemplo, como se fosse...

O Estado laico que não fosse da religião, certo? Então, tomar uma coisa absurda. Por exemplo, assim, o rap teria que ser laico. Não poderia direcionar para o lado político nenhum. Tem essa parte grande, crescente no rap. Que acha que o rap, a mentalidade é independente.

Eu discordo, tem gente que usa isso com uma fé em momentos que não deveria falar isso. Mas em alguns momentos eu entendo. Entendo. Que talvez não deveriam ter tantos compositores em bloco falando pela boca dos outros. E deixando outros falar pela boca deles.

Tem uma coisa que eu acho que muitas vezes cai em desinformação de qualquer pessoa no Brasil hoje. E que aí eu entendo que os dois estão trazendo. Por exemplo, o SUS é a maior política pública que a gente tem no nosso país hoje. O SUS é uma política pública.

E o SUS, independente de quem estiver sentado na cadeira do presidente ou em outras cadeiras executivas, continua sendo importante para todo mundo. Então, a gente entende que construir políticas públicas, né? Como facilitar a entrada na educação, encontrar uma pedagogia e fazer do hip hop uma pedagogia que ajude na formação e na construção de um currículo escolar que seja mais inclusivo.

São coisas que quando a gente trabalha, a ideia é que elas sejam perenes. Independente de quem estiver na cadeira, é uma coisa que precisa ser importante pro povo. Muitas vezes, a gente acaba se esquecendo disso. Que as políticas públicas, elas não são os políticos. Elas são as ferramentas que parte da necessidade do povo.

Teoricamente, sim. Teoricamente, não. E que tem que partir do que a gente precisa. Ao mesmo tempo que eu vejo como espectadora e como uma pessoa que é formada pelo movimento hip hop e que faz parte dele de outras formas, que muitas vezes o público hoje, que tá bem diferente de quando eu era jovem, muitas vezes associa, diz assim, a...

Agora fulano tá sendo beneficiado pela política tal, não sei o que, não sei o que lá. Ao mesmo tempo que se faz dinheiro de outro jeito, também não pode. Se vendeu. Aí vive como? Então. Aí parece que existe um limbo. Aí faz o quê? A gente consegue discutir política de forma fria? É difícil. Uhum. Eu não consigo ser frio discutindo política. Eu acabo afetando e ficando afetado. Tipo segurança pública. Que é uma coisa que, entre aspas, a esquerda...

tem dificuldade de falar. O Gog não é um cara punitivo, o Brau também não é. Você não vai ver um rap do Brau pedindo punição pra ninguém. Como a gente não espera isso do Gog. Um Gog punitivo. O Gog é aquele cara que ele perdoa. O Brau também. Ele é o cara que ele vai tentar humanizar o o preso.

E resgatar o ser humano que foi, que tá ali. Mas o nosso povo não pensa assim, igual a gente. O brasileiro, ele tá com sede de punição, cara. Então, às vezes parece que esse discurso de paz nosso, às vezes ele não fala a língua dos que a gente pensa que tá falando.

É complexo. É complexo. Porque a vida pra eles não tá fácil. Não tem poesia, não tem motivo de fazer uma letra, ele não tem motivo de fazer, de comprar um boné, ele não tem motivo de tá pensando nessas coisas de preto. Ele vai ganhar o que com isso? Ele vai ter que se submeter a um branco. Se submeter a um branco, ele vai ter que viver a vida real.

Em outras palavras, já perguntei isso pro Djonga. Às vezes não parece que o rap tá vendendo terreno na Lua, não, ô Gole? Eita, que louco, hein? Agora a responsabilidade em colocar isso aí, eu acho que não. Eu perguntei pro Djonga, isso aí tem que perguntar pra cara inteligente. Eu vou falar primeiro um pouquinho sobre o que a Semayá falou. Semayá, na realidade, aí já é colocando do lado da política. A política, depois que você elege, você elege semideus, parece, né? Então, quer dizer, você não consegue mais encontrar, você não consegue mais dialogar.

Então, os pactos feitos antes de eles serem eleitos são muito importantes. Inclusive contratos, papéis, alguma coisa que firme o compromisso. Qual que é a dificuldade dos políticos brasileiros?

Você não vê um falando que o outro fez algo que foi interessante. Olha, por exemplo, o movimento brasileiro de alfabetização naquela época, em plena ditadura, foi algo super importante. Meu pai foi um dos beneficiados. Terminou seu ginasial. Na época, era chamado de ginasial. Agora, as coisas boas, né? Você tem que pegar política de governo e transformar em política de Estado. O SUS é uma política de Estado, não é uma política de governo. Exatamente, é isso que eu estou dizendo. Sim.

Então, a vaidade e a ostentação política faz, olha, mano, vamos derrubar tudo isso, vamos fazer a mesma coisa com alguma coisa diferente e vamos colocar outro nome para falar que fomos nós quem criamos. Tá? Então, isso acontece. Agora, dentro dessa máquina sistêmica, Brau, todo mundo, quem sofre mais, está concentrado para...

sobreviver. Qualquer dissonância que há nesse ponto de caminhada, o cara fala, mano, eu tô aqui, saca, eu trabalho também oito horas no trampo, estudo de noite e não desandei pro crime. O cara desandou pau no gato. Ou seja, qualquer defeito de fabricação, mano, quem tá ali, mano, não me atrapalha. Então, a sobrevivência faz com que a frieza...

e a falta de formação política, porque não dá tempo para ter a formação política, não dá para ter o aprofundamento do que é o ser humano, e aí o certo e o errado vai ser cobrado, não é? É que quando fala de formação política também, ele não é necessariamente uma formação, né? Ele pode ser justamente a outra, né? Exatamente, é. Sim. Quando eu falo formação política é o conhecimento, mas nós já somos seres naturalmente políticos. Sim.

Então, Brau, mais uma vez, esse instinto nosso da sobrevivência que é natural faz, mano, não sai do meu caminho. E o sistema, a máquina sistêmica, ela se aproveita e diz, mano, segurança pública, vamos por outros interesses econômicos de manter-se, ele fala, vamos, diante desse problema aqui, vamos deixar o problema piorar um pouco, e a gente coloca um conceito de segurança pública para cuidar disso aqui, mas na realidade está protegendo o nosso bem-estar, a nossa caminhada.

Será que existe o bom policial? Eu tenho um conceito de que polícia é gente da gente que não entende a gente. O Brasil, Brau, é o único país do mundo que tem polícia militar. Nós temos os carabineiros no Chile, tem algumas outras formações que parecem, mas a polícia ostensiva que caça, que causa esse número de homicídios no Brasil, 32% dos homicídios são da polícia militar, eles são em nome de uma segurança.

de uma segurança que você falou, da sociedade, que visa melhorar o estágio dessas pessoas, para que elas possam estar mais tranquilas, mas estão matando elas mesmas. Então, quando você pega, por exemplo, Nina Rodrigues, isso é escrito há muito tempo, africanos no Brasil, ele cria, através do cientificismo, da eugenia e do materialismo.

materialismo histórico, ele pega do racismo materialista criado do cientificismo, a ciência for usada, ele cria um retrato falado que eu e você assimilam o nosso retrato como um retrato falado do bagulho, do problema. Então essa máquina em série que trabalha para sobreviver, instintivamente, está em todo lugar, está simbolicamente na imagem, na propaganda.

Vai no dicionário e pega o conceito de branco. O branco é o belo, é o transparente. Já o escuro já tem uma denominação pejorativa. Então existe toda uma estrutura para que a gente pense assim. Quando eu falo do conceito de realidade transformada em formação política, é para que a gente possa, sabe, em algum momento, por instinto de sobrevivência, entender como é o jogo. A gente só joga o jogo.

Só joga o jogo. Não domina as regras. E quem só joga o jogo, Brau, e não presta atenção, ele vai ser um mau jogador. Ele vai ser muito influenciado. Se a gente deixar de sonhar com as coisas, com as pessoas que ouvem a gente, a gente vai desconectar mesmo. Se a gente não entender o sonho deles. Talvez a gente está sonhando com coisas muito grandes, talvez. As pessoas sonham com pequenas soluções para o dia a dia, no individual, assim, no...

no fechado, sabe? Talvez eu acho que... Talvez eu acho. Não tem nada a ver, né? Eu acho que... Quando a mensagem é falada em termos de classe, em grande parte, nesse exato momento que a gente está vivendo, nesse momento, quando a gente fala de raça e classe, a gente está massificando pessoas que não têm nada a ver uma com a outra. Que não vão convergir numa coisa...

criativa ou produtiva, elas são diferentes, querem coisas diferentes. Periferia não é aquela periferia que a gente cantava. Eles querem coisas diferentes. As prioridades são outras. Os medos são outros. Os medos são outros. O medo é foda, o medo humilha.

O medo humilha. A fome humilhava, né? Às vezes eu vejo as pessoas falando pô, mas agora o rap canta a ostentação, canta as conquistas, né? E...

O novo momento que o mundo oferece é sonhar. A cadeia tá cheia de sonho, Brão. Sim. O sonho é o que nos trouxe até aqui. A responsabilidade é falar que tem sonho e que sonho vira pesadelo. Mas acaba sendo um cassino. Se eu falar do sonho em si, o sonho não é o foco. Eu sei que o sonho é dúbio também. A gente pode fracassar. Pode ser um sonho e acabar rápido. Como muitos sonhos acabaram rápido. Gente que sonhou igual nós.

Nem mais, nem menos. E por motivos práticos, motivo de sobrevivência, falta de dinheiro, falta de condição, falta de ser bem sucedido no que teria que ser feito, que é gerenciar a própria vida e os próprios negócios, gerenciar seu próprio grupo de rap.

É que nem gerenciar a sua vida. Gerenciar a saúde do seu grupo, a saúde do seu negócio, do seu empreendimento, da sua loja, do seu negócio. É gerenciar a vida. É que nem gerenciar seu corpo. Você se alimenta de água ou de óleo. É gerenciamento.

Em algum momento, no nosso movimento, qualquer tipo de êxito é demonizado. E é ligado diretamente ao caráter. Não se questiona ritmo, não se questiona qualidade.

gramatical, qualidade de rima, se hoje, principalmente no nosso movimento, o que se analisa é caráter. Como se todo o resto não valesse. É lógico que tudo isso sem caráter não vale nada. Mas eu vejo uma análise racista aonde todo negro que ousa é lógico que tudo isso sem caráter.

Sai do... Da caixa. Ele é denunciado. Isso eu já falei em alguns momentos. E o critério é caráter. Sempre. Se isso não é racismo estrutural, é o quê? Nosso movimento pratica racismo estrutural. Com força. Com força.

Tá nos posts, tá nos comentários, tá na cabeça dos fãs. Então, Brau, eu já percebi essa dicotomia, você quer todo mundo bem, o rap quer todo mundo bem, mas quando alguém fica bem, parece que ficou mal.

Agora, se você for perceber, e é polêmico também o que eu coloco, a maioria dessas pessoas que criticam dessa forma são pessoas brancas, mano. Não são pessoas negras. E eu tô te falando, tô te falando porque é objeto de pesquisa da gente. Certo. Tá? É. Então, sabe aquela fita que você falou lá? Mas no rolê com nós, vocês não vai? Muita gente entrou no bonde, Brau. Muita gente foi no rolê.

E depois que você vai no rolê e percebe só que é o rolê, você muitas vezes tem uma habilidade melhor para executar suas cenas dentro do rolê. E você acaba tomando o rolê para... Então, a gente tem que entender que quando a gente abre a porta para todo mundo diante da democracia, do princípio democrático, a gente vem fuligem também.

Então, se você for perceber, e essa leitura é super importante de ser colocada, não são pessoas negras, na sua maioria, que estão criticando. E agora, o rap, eu não quero colocar um rap só de preto, mas de mais gente consciente. E aí a gente já vai pra outro tema que é super importante, que é o do antirracismo, né? Nós precisamos de pessoas brancas.

Até se for ver percentualmente o número de negros no Brasil, nós não faz um, principalmente dos retintos, né? Porque por uma estratégia política, os pardos são colocados como negros, né? Não pode falar, esse eles cancelam a nós. Mas, pô... Tô zoando.

A gente... É uma discussão nossa e a estratégia. Então, por isso que um senso da população negra é muito importante. A gente, por exemplo, as pessoas familiares, a maioria dos pardos que morrem, né? Vítima de violência policial ou de homicídios por vários motivos, eles são cadastrados como pessoas brancas, pessoas pardas, mas com cabelo liso. E aí não vem política pública.

Porque Preto não tá morrendo tanto de acordo com as estatísticas dos hospitais, dos meios de segurança e da saúde. Então, você vê a importância, porque o rap nacional nesse ponto, ele se torna saúde pública, mano. Uma ferramenta pra que a saúde pública seja trabalhada. Então, eu acredito que assim, ainda bem que lua rima com rua, né, mano? Eu acho que a gente tá mais no mundo da rua do que no mundo da lua.

E quando a gente fala de avanços, de tecnologia, o ser humano, a tecnologia é nosso, é nosso dialeto, nossa frase, nossas emergências, nossas situações, nossas máquinas humanas sendo trabalhadas para nós mesmos. Nós temos que entender e colocar, sabe, acho que é um momento muito importante de colocar que não existe uma inteligência artificial, como também não existe uma burrice natural.

Esses dois pontos têm que ser colocados. Porque o que é inteligência artificial, Rau? Ela é um monte, é um acúmulo de... O ser humano que organizou todos esses bancos de dados aí. Aí você vai pegar e vai falar, mano... Então quer dizer, é acesso às nossas tecnologias. Então somos nós. O ser humano continua importante.

E a gente tem que fazer essa leitura pela nossa saúde mental, pela nossa espiritualidade, nessa questão de estar bem. Porque existe uma diferença muito grande, Brau, entre serviço e trabalho. O serviço é o que cuida, o trabalho é o que constrói. E nós somos trabalhadores, não servidores. Eu não estou sem serviço, eu estou sem trabalho.

Porque o cara que tá ali desmorecido, preto, favelado, de quebrada, pele clara, pele amarela que tá ali desempregado, ele se sente uma peça inútil, né? Mano, mas você não tá cuidando da sua filha enquanto sua esposa vai trabalhar? Isso é trabalho, mano. Isso modifica.

Só que trabalho, né? Já vem outro tema. Educação sem cultura, Brau, é adestramento. Forma vigilante, forma empregado. A gente precisa formar trabalhadores. Mas ó, trabalhador, trabalhador, trabalhador. Até a dor parar de doer, tá ligado?

Essa é a caminhada do que a gente chama de revolução. É trabalhador. É sermos nós mesmos em transformar esse verbo em caminhada. Trabalhador, trabalhador, trabalhador. Se alguém falasse para você que isso é um discurso de esquerda, você aceitaria? É um discurso meu, colhido.

Na minha vivência. Não é justo, né? Quando você vai ver a origem histórica de esquerda e direita era simplesmente um lado que sentava de um lado e outro do outro. Durante a Revolução Industrial, a Revolução Francesa. Então, quer dizer, a gente vive crises hoje porque esquerda e direita está se resumindo a Congresso Nacional.

a disputas políticas. Então, eles estão levando o foco e a questão para eles. Cabe a nós tirarmos e falarmos, mano, eu sou o que sou. E se eu sou o povo, eu posso ser o que quero.

É acima disso. Como você lida com isso nas redes sociais? Eu tenho muita paciência, Brau. Isso eu percebi. Mas te afeta muito pouco o quanto? Eu entendo as pessoas. Eu entendo. Eu tenho paciência. Já conquistei várias dessas pessoas pra... Pô, Gog, você é um cara que respeita, que troca ideia. Eu me acho muito perigoso, sabe? Porque as pessoas falam, pô, o Gog é um cara inteligente. Por isso que eu gosto das letras do Gog.

Pô, não gosta daquela letra com palavrão? Eu falo, mano, eu sou mais perigoso do que quem tá colocando palavrão. O que eu vou colocar na sua mente é muito mais louco. Tá? Então, é preciso uma paciência, uma calma, mas... Não sei se é um dom, Brau, ou da formação. Esperar. Bora. Fica aí um pouquinho, eu tô te esperando ali na frente.

Pô, Gugog, você me colocou no palco e eu não fiquei atrás no palco, mano. Mano, você pode ir na frente também, você pode trocar. Não tem uma linha divisória pros artistas, pros caras do disco que aparecem na capa e pra aquele da quebrada que você leva. Eu vi. E aí, é formação política, Brau? Quando você pega e leva todo mundo, quando você vai fazer um show nos Estados Unidos.

Pô, o Big tá lá, mano, poxa, saca, pô, que massa. Tá lá forçando a família racional. Família é isso. Porque o conceito de família criada economicamente é pra defender a propriedade, é ligado ao cartório. Nós reescrevemos o conceito de família, tá ligado? Pelo amor e pelas entranhas. Mas o conceito de família que eles colocaram é família com sobrenome, não tem nada a ver com sobrenome. Olha a família que a gente criou. Olha a caminhada.

Saca? Então, se você não se emocionar, se prepara mais.

Se não for por amor, e é por isso que o Tchê fala lá, é por amor mesmo na hora dos problemas. Porque se você não acredita... Essa é a fé que eu tenho. Não desviar na reta do fim das horas do início. Então, quando o dia escurece, só quem é de lá sabe o que acontece. Ao que me parece prevalecer, não é assim nós, estamos sós, ninguém quer ouvir a nossa voz. Cheios de razões, calibris e empunho, dificilmente o testemunho vai acarcer e pode crer, a verdade se omite. Porque quem garante o meu dia seguinte? Pô, você falou comigo lá na minha casa, bro. E sabe o cara louco, mais louco ainda?

é que a formação política que eu tanto insisto e quero colocar e deixar brifado aqui, foi o que falou pra mim e pegou e falou assim mano, quem é o Brau aqui nessa capa? Quem é o Ice Blue? Quem é o Eddie Rock? A gente confundia. Não sabia quem era. Não sabia quem era, mas a gente tava querendo saber quem são aqueles caras que contam dos problemas da gente. E depois eu complementei e falei, mano, sabe por que que parece com a gente? É porque periferia é periferia em qualquer lugar. Os problemas de lá, os problemas daqui são problemas nossos. Só acontece lá porque chove aqui também. E esse entendimento tão pouco, tão bom.

Natural é formação política. Só que a formação política não é só ter o conhecimento do problema, é se emocionar e abraçar a solução do problema. É ser matemáticos na prática. Um mais um, Brau, não é dois. Um mais um, mais dois, mais três, mais quatro, foram os quatro pretos mais perigosos do Brasil.

Na matemática, na prática, eles querem nos reduzir a um zero à esquerda, mais nada. Mas a matemática nos coloca outra fita. Um preto de direita continua sendo um zero à esquerda. E um preto de esquerda não é um zero à direita. Professor Sueli Carneiro completa. Entre a esquerda e a direita, sigo negra. Negra. Sendo de negra. É um ponto de discórdia dentro da raça. Vambora.

Não, eu acho que o que você trouxe agora, e você cantou um trecho do Pânico na Zona Sul, que já me arrepia, e você falou de emoção. O que que te emociona? O que que tem te emocionado pra escrever? Porque essa emoção que você trouxe, é uma emoção que não só nas letras do Racionais, mas nas suas letras, conectou lá atrás, e ainda conecta todo um povo, toda uma comunidade. E essa é a função de vocês como poetas, né?

é essa tradução do que tá na vivência, na sobrevivência que é sobrevivência, que você trouxe também que conecta o povo e que nos leva adiante, então o que tem emocionado você como compositor, como letrista como poeta, que pode traduzir um pouco do que a gente tem sentido como povo posso falar como poesia?

Claro. Outro dia num show, o moleque chegou e falou que adorou, que queria ser cantor. Perguntou, ei, Gorg, como você escreve? Qual a inspiração? Você cria a primeira rima, a base ou o refrão? Olhei, chamei, sentei, conversei. Toda atenção eu dei. Foi aí que ele me sacou e mostrou uma letra, Brau. Só a primeira letra perfeita e cantou, cantou com estilo e alegria. Euforia era essa caça de euforia. Vindo seus brilhos, ó o brilho de Adilho, o jogador que driblou o martírio.

Então é isso que emociona. No país da bola, não é o olhinho. É aquele cara marrento, que chega de canto e fala Pô, grava, tira uma foto comigo, mano.

Porque, mano, tirou uma foto com você, os caras já olham, os caras querem tirar foto com o Gog, pá, apagando. Então, o cientista social, ele tem que perceber essas células, esses átomos e formar o grande corpo de transformação. É preciso ter paciência, né? E o que me conquista, eu e meus pensamentos, é pegar as palavras, o substantivo, e transformar em verbo. Fazer a palavra andar.

Três palavras. Polícia, mais uma vez. Pacificador, é uma pessoa pacífica. E pacificação, que é um ato, né? Se pacificar. Polícia... Polícia pacificador. Polícia pacificador! Polícia pacificação. É isso que me emociona. É achar os achados, sabe?

O Nelson Maka, meu professor, ele fala assim, meu ego, o Black incorpora. Pô, cara, meu ego, o Black. Já pedi umas três vezes pra ele, Brau. Pra ele, Brau. Pô, deixa eu usar isso aí num disco. Fala, não, Brau, que tô guardando. Vou patentear, vou patentear. Vou patentear. Então, é louco, saca? Então, é emocionado. Tô emocionado, mano. Porque eu recebi, né? Música é manifesto, Brau. Manifestação. Manifestação.

Música Manifesto. Tá escrevendo bastante, Vogue? Eu tenho muita coisa guardada. Já tá pronto. Preparado. Tem um disco pronto que não saiu porque o meu TDAH é muito louco. Eu penso em muitas coisas ao mesmo tempo agora. A gente tá trabalhando há três anos, Braul, num projeto que eu quero que você conheça. Quando for a Brasília, você vai visitar. Você vai se maiar.

que é a Casa GOG, uma casa com ideias. Então, a Casa GOG você tem várias salas, são salas-aula, então nós temos capoeira, nós temos musicalização infantil, nós temos alfabetização de adultos.

Nós temos a capoeira, que eu já falei. Mas, acima de tudo, é um processo de afrobetização, de reescrever. É na Q38 do Guará 2. Guará. Do Guará. Então, é um processo de afrobetização, que é de releituras, de reincursões.

Por exemplo, nós pegamos Conceição Evaristo, nós pegamos pílulas delas, dos textos, das poesias, dos livros de Conceição e servimos em pílulas para as crianças aprenderem as primeiras palavras lendo Conceição Evaristo. A gente acredita muito nessa mediunidade da palavra, sabe? Nessas reminiscências, nessas lembranças corporais. E está acontecendo. Nós temos a sala Lélia Gonzalez lá, Semaiá.

Lélia, maravilhosa, uma feminista negra, e queria lembrar que o feminismo negro é necessário. A misoginia hoje foi enquadrada como crime, Baral. Então é preciso lembrar que precisamos dialogar na escola, na quebrada, mas acima de tudo tem que ter lei.

Tem que ter lei, tem que ter regra, porque enquanto a gente não aprende, a gente é punido, infelizmente. Nesse ponto, a punição é necessária, de alguma forma. O Brasil hoje, o número de feminicídios é algo inaceitável, sendo que um não é aceitável. E a gente tem que trabalhar de todas as formas, em todas as frentes, para que mulheres, principalmente as mulheres negras, que são quase 70% das vítimas dos homicídios, elas possam... Sacanouso Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou Ficou

elas possam ter direito primário, direito à vida e um direito secundário, que é viver. Viver, porque tem muita gente que tem vida, mas não vive, né, Brown? São coisas diferentes, não? Você foi num podcast recentemente que você até tinha citado que você, depois daquele dia, naquela entrevista, você encontraria outros rappers, se não me engano, pra pensar sobre feminicídio. Não sei se foi no campo da letra, se foi no campo. Mas isso aconteceu mesmo?

Então, por coincidência, a Laís Cecília, que é uma parceira de Brasília, ela nos convocou, convocou um time de frente do Rap Nacional do DF, alguns deles, para a primeira entrevista sobre o feminicídio. Foi muito duro, assim, viu, Laís? Foi muito louco e muito interessante, porque ela conversou primeiramente como é que a gente pensava e todo mundo realmente pensa de uma forma muito parecida, é contrário e desaprova.

Mas ela fez uma segunda pergunta. O que você tem feito efetivamente para isso, no sentido das suas letras, da sua fala no show? Você tem se apresentado? E vem, na sequência, Maia, parece que a energia vem no sentido de mulheres falando olha, os homens precisam se posicionar. Nós precisamos de vocês. Nós precisamos da fala de vocês. Nós estamos aquados, nós estamos machucados. Nada recua, tá?

Então, essa voz das mulheres, das nossas parceiras, das nossas irmãs, das nossas aliadas, né, mano? Elas merecem nosso apoio, nossa solidariedade e nosso compromisso como corpos, extensão de corpos nossos. Quero declarar aqui, nacionalmente, que eu sou um cara feminino, porque eu mamãeira teta de mamãe durante nove meses, Brau, foi guloso, morei mais nove meses lá, dois anos. Não sou afeminado, porque não tenho identidade pra isso. Mas sou feminino.

E tem muita gente que vira pra mim e fala, Gog, aí eu não fecho com você. Eu falei, é, sinto muito por você. Pelo ser humano que você ainda tá. Mas vem pro QG da revolução, da evolução, que um dia você vai estar preparado pra mudar sua resposta. É preciso paciência política também. Tem mulheres em volta de você te cobrando posicionamento, mudanças diárias, assim? Olha, é...

Não, diretamente não. A minha filha, Mayara, um beijo pra você. Você lembra lá de Brasília, periferia? Ela tá com 38 anos. Nossa, Mayara. Minha idade. Você é de 80 aí? Você é de 88, só um ano mais... Tá, não, 37. Ela completa 38 agora, dia 16 de maio. É, mesmo ano. E aí, o que que acontece? A Mayara, ela passou por dificuldades, né? Em relação... E aí, o que que acontece?

pessoal, e a gente viveu isso, mano. Eu falei, mano, estamos vivendo isso, mas só que a gente deu, né, a gente tomou as regras da cena e as coisas mudaram de curso, mas o machismo, né, Brau, ele é um... A doença é de onda, uma doença é de onda, mano. Quem habita nesses corpos aí, né, o que habita nesses corpos, a gente...

É difícil ainda o que vai tirar isso, né? Porque...

Lembra da máquina sistêmica? Ela gerou isso, ela calcificou isso em corações e mentes, né? Você consegue identificar quando você tem um ato machista assim? Você consegue de imediato se ligar? Lembra do último? Eu acho que a todo momento, Brau. Lembra? Eu falava um aí, que falava, puta, eu fui machista aqui, fui filha da puta. É difícil, fala aí. Deixa eu lembrar aqui. Se vai haver algum alguém, se vai haver? Não, hoje não.

Pois é, eu não sei, eu acho que... Ó, por exemplo, eu... A gente se reuniu esses dias, a menina, pô, clube do Bolinha, né? Só tinha uma. Eu falei, não, mas foi por acaso, pai. Falou, Gog, pô, admite, vai, te peguei.

São essas cenas, né? Mas, conscientemente, assim, Brau, já tá... Essa cena da observação, de se cuidar em relação... Pra não comentar essas cenas, eu acho que... Eu já tô ligado. Como eu acho que você vem sinalizando nesse ponto também. Já há algum tempo eu tenho observado. A gente vive um do outro, né, Brau? É difícil também. A gente é muito orgânico, é difícil. Agora, a origem, Brau, do Brasil, ela vem...

Do homem branco se relacionando com mulheres negras e com indígenas. Se relacionando não. Se relacionando sexualmente, mas através do estupro.

Do abuso de autoridade. Exercer no poder. Quer dizer, esse homem branco que chega, que geracionalmente ele vai se empoderando, a cultura dele é violenta. Então aquele corpo é um corpo que ele pode possuir e que, diante da negativa, é um corpo que ele pode descartar. E se mulheres pretas e indígenas são a maioria, eu não estou dizendo aqui que as mulheres brancas também não são vítimas, mas é quase 70% de mulheres negras.

a gente tem que pensar que esse Brasil que não nos respeita é por vários motivos. São em várias, quer dizer, em várias frentes. Em várias frentes. Não é só na falta de escola, na falta de acesso, na falta de trabalho. Na violência doméstica. Então, o homem negro, ele mais uma vez está recebendo uma carga de alguns setores que não é para ele carregar. Ninguém vê sair, ninguém escuta chegar. É nós na fita.

Lá desestruturado é diferente de lá violento, Brau. Sim, claro. Né? Porque meu pai mesmo, ele chegava ali do trampo, ele falava, cadê os cadernos, cadê tudo? Ele exercia aquela... E aí a função de pai, a função masculina, né?

Mas só que também quando um pai se vai, outro vem. Então as mães ainda são pais na ausência, os tios. Estamos ouvindo essa letra, inclusive. E desses destroços que já nos geraram dos nossos corpos, ainda querem fazer resíduos. Reduzir ao máximo.

E é uma consequência sistêmica, gente. Essa máquina, nós temos que trabalhar politicamente dentro dela para transformá-la. E o hip hop é um dos caminhos. Nós apertamos a tecla SAP. Nós traduzimos em dia a dia uma dinâmica muito complexa e complicada. Nós estamos falando de Clóvis Moura, né? Estamos falando de mestres, de mestrandas. Sueli Carneiro.

Nós estamos falando de Beatriz Nascimento. Nós estamos falando de todas essas heroínas que nos alertam há muito tempo sobre isso. E parece que é coisa tão do passado, né? Parece que é coisa tão do passado. Os textos, bro, parece que é coisa do passado. Mas ela é... Se repetem, não? Oi? Se repetem, então? Se repetem. Se repetem. A história se repete, bro. E a gente acaba parecendo monotemático devido a isso.

Exatamente. Mas só que é batendo nessa teclinha que a gente vai escrever a letra que a máquina não quer digitar. Simbólico. Na mente, colocado. Subconsciente trabalhado. Trazer pra mente. Tem muita gente que atrapalha a gente que faz isso, trabalha essa máquina da mente muito bem. Conhece tudo da mente. Altas ideias. Você vai terminar, você fez o movimento, você parou.

Quando você fez o movimento, achei que você ia continuar. Eu entendo, Gobi. Eu entendo. Nosso papel é se manter útil, se manter relevante. Obrigar as pessoas a nos ouvir, não temos condições. O que a gente pode é ouvir as ruas, antecipar o cheiro, que é o que eu faço. Eu tento antecipar.

O que vai rolar na rua. A rua me dá tudo o que eu preciso. O cheiro vem antes. A necessidade vem antes. Que nem a chuva, né, Brau? O perfume das pessoas vem antes. Se a comida tá bem temperada, o cheiro chega antes. Se não tem comida, a gente também sabe antes. Que lindo, Brau. É, a rua... Por isso que eu sempre toco no ponto da mudança, da vida, do dinheiro, na interferência, na mesa, na roupa, no relógio.

Na vida prática, na vida sórida. No hoje, nessa vida que a gente tem aqui e agora. Não numa vida depois da morte, que também tem que acreditar muito nisso. Eu digo agora, viveu agora. Uma vida que viveu que o mundo moderno nos oferece. O que o mundo... O Brau tem que admitir que o celular é útil, Brau. Eu nem falo que celular não é, mas tipo assim... É...

As novas ambições. O que é prioridade hoje? O que é supérfluo? Quem pode definir o que é supérfluo? A minha geração, a prioridade era comer. Eu insisto em tentar ser útil. E tentar ser útil.

Verdadeiro eu sou, polêmico eu sou. As minhas verdades incomodam muito mais do que as lendas. Se eu deixasse as lendas tomarem conta, tava todo mundo amando, me amando, adorando. Mas eu fui a caça das lendas. É uma coisa de desconstruir. Eu também fui desconstruir certas lendas que tinham em volta da figura.

Cantor, Mano Brown. Coisas que não tinham nada a ver com uma pessoa. E que não me... Não... Não chegava a ser um serviço pra revolução. Tava mais pra desserviço. Tá vendo? Sim. Lógico, temos nossas qualidades, temos nossos méritos, mas não somos pessoas especiais. São pessoas. Como aquela pessoa que nos ouve. Que tá nos assistindo.

Quando acaba o show, a gente é um mano qualquer, né? Vai lidar com a música do Héctor Lavoy. Vai lidar com a tristeza, com a solidão. Se tiver alguém pra te esperar depois do show, bem se não tiver, é isso mesmo. Amém. Ô, Brau, tem uma fita que eu já vi, assim, você colocando algumas oportunidades, que existe o Pedro Paulo e o Mano Brau. Não sei até que ponto que é essa distância, né? Mas no meu caso, o Genival é o Gog. Saca?

eu tento desconstruir e falar gente, eu não sou cantor de rap, eu sou pescador de gente. E isso me traz a longevidade. A questão de saber que aos 60 um idoso eu continuo útil. E valioso. Você se acha idoso?

Não, não me acho, mas tô falando etariamente. O etarismo traz essa questão. Eu completei 61 agora. Nossa, tá bonitão, tá amargo, tá com o chapeuzão vermelho. Deixa eu doir. A mensagem chegou.

Eu sigo me envolvendo com polêmica Numa linguagem nada acadêmica Jim Crow, Black Coats, Blackface Conheça pra saber que país é esse No início era de busão, hoje de avião O rap viajando por outra da nação Transmitindo e pegando a visão Sobrevivo como um porta-voz

Não como magnata, negão, sou do tempo das cartas. Hotel só veio adiante. Hóspede na goma dos contratantes. Comida caseira, nada de restaurante. Café da manhã na mesa farta. União é confusão que ninguém aparta. A melhor parte, nega, a noite chegou. Fiziança e família no show. Lembranças boas de um tempo que passou e me colocou na trincheira.

hip hop versão brasileira, equilíbrio no DNA do mais avançado flow, tem o código genético do gênio que tudo iniciou isso é sou, e se eu sou eu posso, não é mais seu nem meu Brau, é nosso então talvez esses textos é os resumos da matéria genial eu escrevi isso Brau numa ocasião que um parceiro me chamou pra colocar uma voz num som

E ele mandou o beat, eu gravei a voz, ele nunca mais me procurou. Essa letra tá guardada. Eu mandei pra ele, mas ele não gostou. Não gravou. Não gravou. É muito louco, né? Porque foi tão importante pra mim. Você é um patrimônio, tá com um patrimônio guardado aí. Eu tô com um patrimônio guardado. Tá na bolsa dos valores.

Tem uma coisa que Uma vez eu escutei o Brau dizer Em algumas das nossas reuniões Ele falou que ele era um funileiro da palavra Isso me marcou muito E você disse aqui Trabalhador, né? Um trabalhador da palavra O que significa ser um trabalhador da palavra? Ou um funileiro da palavra?

Então, trabalhador, o trabalho é persistência, né? É esse entendimento das pessoas, é saber entender os traumas, é olhar pra dentro, é entender que saída é pra dentro. As pessoas estão procurando saída pra fora, essa é a nossa crise. Na era da tecnologia, todo mundo quer estar na frente, quer estar na frente, quem não chega?

E as pessoas com a deficiência física, naturalmente, ou então por um acidente, não chega? Não vai? Não vai fazer parte da história? Então, trabalhar a dor é sofrer, mas entender que esse sofrimento, quando entendido, faz parte do que você vai trazer como criação, como superação, para que aquilo seja sanado. Cientificamente, racionalmente às vezes, mas poeticamente muitas vezes. Sabe? A vaidade, Brau.

o cantor de rap praticamente rima com vaidade, né? Só que é o 61, vaidade, vaidade, vaidade, vaidade, vaidade. E tá indo. E tá indo. Tá indo. Eu já contrariei a estatística quatro vezes, vezes quatro, Bruno. Acredito. Vez três já foi. Acredito. E, então, são essas leituras, sabe, o...

Sim. Minha querida, pra que a gente possa entender que nós somos coletivos, mano. Talvez o resumo da matéria, a palavra final do hip hop seria coletividade. Eu vi um conceito de hip hop numa conferência que ele falou assim mano, sabe por que o hip hop eu amo hip hop? Porque ele não é bom só pra mim.

Ele foi bom pra mim a quebrada inteira, mano. Modificou. Falar mais uma vez da Casa Gorg, a gente tá com coordenações maravilhosas, com cenas maravilhosas, nós mudamos a quebrada, Abraão. A quebrada é o inteiro agora. A quebrada é o inteiro, ela se completou. Pra você ter uma ideia, teve um problema, porque o nível do aluguel...

Aumentou na quebrada porque melhorou a condição da região. Tem teatro. Tem teatro lá, tem peça. Especulação imobiliária. Especulação imobiliária se aproveitou da nossa revolução cultural. Até você foi vítima deles. Pois é, Brau.

Você melhorou a quebrada e causou inflacionamento e mobigada no bairro. Ou chega lá, os moleques vão cobrar, bro. Pô, Gogue, pô, bora com isso. Então, teve uma vez, uma menina veio me entrevistar lá no bairro mesmo, né? Uma jovem jornalista. Ela falou assim, mano, o que você acha desses artistas que moram no bairro, crescem no bairro?

ganham dinheiro e continuam morando no bairro fazendo assim a desigualdade social crescer no bairro é sério? sério eu falei, nossa o que você acha de quem não ganhou nada e já saiu do bairro você que gosta de futebol tem um jogador um jogador africano que ele trabalhou um jogador african

e trouxe toda a sua riqueza e transformou o bairro dele, fez posto de saúde fez um monte de fita na leitura dela tem uma psicanálise aí pra gente fazer a distribuição de renda e aí vem o debate não é nem distribuição, é destruição

Destrói sua renda aí Você falou do Adílio, mano Adílio O que time você torce, o Gol? Sou botafoguense, bro O Adílio era Flamengo, né? É Flamengo, é Mas você lembra do Adílio, cara? Legal Eu lembro, lembro, lembro

E a história do Adílio é muito louca, né? Ele tem uma história, eu não lembro, não recordo agora bem, mas é uma história de sofrimento, de superação, né? Que na época me tocou muito, Adílio. Aí a rapaziada que vai acessar aí as redes sociais aí, os veículos, para procurar Adílio, né? Era um jogador negão do Flamengo, jogava com o Zico, né?

E o Botafogo, tá bem, ô, Gobi? Botafogo, nós somos campeões da Libertadores. É, eu vi, foi bonito. Foi bonito. A gente não vai ver tão cedo, não, mas... Será? A minha geração, pô, mas aí é muita fé, né, Brau? Até eu que sou santista, eu tenho mais fé com você. Tem uma similaridade, não tem? Tem, mano. Não é só as cores das camisetas, não. Caramba, né, meu.

é foda, sensacional nosso papo, eu acredito que é o seguinte mano, que com o Gorg não a gente tá falando de passado a ideia é pra frente é futuro, é construção é tá junto acredito que o que a gente queria tirar de você hoje aqui, a gente conseguiu porque muito se diz que hoje E aí

sobre conservar ou sobre tradição. Eu acho que a tradição, ela tem que servir o povo, não ser contra o povo. Ela tem que servir, ela tem que ser, acolher, e não ser uma barreira.

para sobreviver. Então, você é um cara que eu percebo que mantém a sua tradição, mas você está olhando para frente. Certo? E para nós é ótimo, porque você é um dos nossos griots. Certo? Cabeça ativa, mente pensante, muito importante para todos nós, para mim e para quem vai estar ouvindo o nosso programa.

Obrigado, Semaiá. Isso aí foi um mano a mano, bom demais. Com o Gobe, o poeta do rap. Obrigada, Eduardo. Obrigado, Semaiá. Quero fazer só minhas considerações finais, no sentido de dizer que foi muito importante durante décadas, né? A gente pensava e aquele rap do sonhado, querer, querem muito, pô, Gobe, Brau, cadê? Como é que seria uma letra? Como é que seria um diálogo? E hoje a gente tá realizando um sonho que também era meu.

Saca? O menino Genival, que é o GOG também, falava, mano, essa luta...

ao qual eu fui convocado. Como eu falei para você, a gente tem uma idade mais avançada, mas somos da mesma geração X, né? Mas você me trouxe, você me trouxe de coração e alma para esse texto. O seu texto me convocou, né? A convocação foi geral. A gente fala, falando de política aqui, foi o primeiro chamamento público de verdade que eu recebi. Chamamentos públicos são colocados pelo Estado.

E você, no seu estado poético, lírico e mais principalmente da necessidade de superação e de sobrevivência, você me convocou. Certo? O poeta do rap nacional foi consequência de uma oportunidade que eu tive, Brown. Ser alfabetizado cedo.

de ser filho de uma professora, de um cara que me apresentou um dicionário complicado, em várias edições. Então o que a gente pede é que esse Brasil, que diz que nos ama, mas nos machuca, nos respeite, mas acima de tudo nos dê oportunidades. Não queremos mais que isso, oportunidade e possibilidades.

E que o rap nacional possa continuar, mesmo avançando, mas percebendo que a ancestralidade, o que se colhe lá atrás, o que se planta lá atrás, tem que ser respeitado. Até porque depois você olha a sua floresta, está totalmente devastada. Uma consciência, uma música, um trabalho sem memória, ele não tem história. É por isso que os toca-discos são os tambores africanos renovados. São nossos atabaques. Cantem, vocês grupos de rap. Não esqueçam do toca-discos no palco, DJ.

É super importante, é o mentor intelectual dessa fita. Então, sem o DJ não tem crime do raciocínio, porque ele é o mentor intelectual da fita. Muito obrigado, quero agradecer a minha esposa, Rogéria Pereira Gonçalves, meu amor, que me colocou aqui juntamente com essa...

essa memória tão importante como os meus filhos, mas quero romper também esse conceito de família, porque família só de casa é o que gera o muro, a parede, e que os vizinhos possam ser família também, que as pessoas que são próximas, que são parte da sua história, possam ser acolhidas nos seus problemas e nas suas soluções, nos seus sorrisos, mas principalmente nos seus sussurros de sofrimento.

Esse é o mundo do Hip Hop 4G, Brau. Obrigado. Eu acredito também. Obrigado, Samaya. Esse foi o Gog, sensacional. Forte abraço.

Esse foi o Manamano, um podcast do Spotify. Apresentação, Mano Brau. Co-apresentação, roteiro e consultoria jornalística, Semayá Oliveira. Produção, Zamunda Estúdio, Bugnaip e Spotify. Pela Zamunda Estúdio, a produção executiva é de Ana Guerra. Direção, Fábio Ismeili.

Coordenação de produção, Ingrid Mabelli. Coordenação editorial, Renata Hilário. Captação, Careca Tulli, 2G, Morasta e Mude Rodrigues. Edição, Júlia Gemelli, Murilo Ruivo, Giovana Costa e Mude Rodrigues.

Cenografia, Ana Guerra. Música original, Fábio Ismeili. Motion graphics, Miguel Bezenbruck. Artista 3D, Gustavo Pedrosa. Maquiagem, Jade Benitez. Figurino, Semayá, Cidat Souza. Assistente de produção, Júlia Magalhães. Fotos, Petalalopes. Pela Bugnaip, a produção executiva é de Caire Jorge e Eliane Dias. Assistente de produção, Carol Castro.

Pelo Spotify, a produção executiva é de Camila Justo. Assistente de produção, Luísa Migueires. Marketing, Karina Morena, do Spotify. Yaru Macedo, da agência Droga5. Comunicação, Nicole Azevedo, do Spotify. Babi Ferreira e Ana Maxud, da agência Edelman. Jurídico, Janet Vasquez. Gestão de negócios, Jack Black. Vendas, Manuela Costa. Concepção Criativa, Gana.