Duquesa: visão criativa, música e business
No novo episódio do Mano a Mano, Duquesa conversa com Mano Brown e Semayat Oliveira sobre sua trajetória da Bahia para São Paulo e os caminhos que a consolidaram como um dos principais nomes do rap da nova geração.
Entre visão de negócio, influência da publicidade na sua carreira e os desafios de ser mulher no rap, Duquesa compartilha reflexões sobre identidade, família, ambição e a responsabilidade de se tornar referência para jovens artistas.
Um papo sobre maturidade, estratégia e o futuro da música preta no Brasil.
Learn more about your ad choices. Visit podcastchoices.com/adchoices
Mano Brown
Semayat Oliveira
Duquesa
- Trajetória de DuquesaCaminho da Bahia a São Paulo · Influência da publicidade · Desafios de ser mulher no rap
- Identidade e RepresentatividadeIdentidade negra · Responsabilidade como referência · Empoderamento feminino
- Música e CulturaEstratégia na carreira musical · Produção musical independente · Impacto do rap na sociedade
- Indústria MusicalMachismo na música · Comparação entre artistas · Expectativas da indústria
- Feminismo e MachismoRelação entre homens e mulheres · Masculinidade tóxica · Empoderamento masculino
Quando eu escrevo enquanto duquesa, existe uma geisa que tá precisando ouvir isso. Então, é o que eu falaria pra uma amiga. É o que eu falaria pra mim mesma, de frente pro espelho. Porque eu acho também que é complicado a gente assumir essa postura de aconselhar e não andar certo com a gente mesmo, sabe? Eu sempre tive esse receio de... Eu falo, não, então é isso. Acho que eu vou elevar minha autoestima, fazer alguma coisa, movimentar, sair dessa cama, parar de chorar, vir pra terapia, entrar na academia, fazer qualquer coisa. Aí, mano, vamos escrever isso agora.
Mas você acabou nascido esse cara inteiro agora. Eu sempre vou falar coisas boas sobre mim mesma. É uma promessa que eu fiz pra mim. Nunca vou falar aqui, nossa, eu sou burra, nossa, eu sou feia. Não, não vou falar. Eu não vou falar. Eu não vou jogar essa energia pra mim. Eu sou genial mesmo. Eu gosto de estudar, gosto de desafiar.
Quando alguém coloca no título que a duquesa é o futuro, na minha cabeça, essa pessoa tá atrasando minha bênção. É mesmo? Porque eu já sou agora. Você já é a... Eu já sou agora, então... O presente. Então, me colocar como promessa de algo que eu já tô fazendo hoje é atrasar o que eu posso ter hoje. Tipo, as minas vão dominar tudo. Tipo, vai? Tipo assim, futuro? E as minhas estão fazendo tudo isso agora. Então, acho que atrasa um pouco o processo.
Salve, rapa. Salve, massa. Chegou o dia. Esse é o seu Mano Amano. Forte, leal de primordial. Abraço da parte. Mano bravo. E a minha camisa dessa é Maia Oliveira. E aí, Maia? E aí, MV? Vamos aqui de novo. Pra mais uma troca de ideia. Como é que tá o Taiezinho? Tá lindo. Ia colar hoje. Queria uma foto dele com o do Q, mas não vai rolar. Quantos aninhos ele tem? Dois aninhos.
Já que você anunciou quem é a nossa convidada. Como se eles já não tivessem vendo, né. Porque eu peço o que eu tenho em áudio ainda. É, então a gente tem saudades, assim, né. De querer não falar quem é. Mas a câmera já tá mostrando quem é. Então vamos no Skype. Bom, diretamente de Feira de Santana, na Bahia. Salve! Ela é do dia 1º de maio dos anos 2000. Taurina!
Ano 2000. É, 25 anos. Caramba. Tá pra completar 26, certo? Em 2015, ela surgiu nas redes sociais cantando de forma informal. E esse vídeo alcançou mais de 600 mil visualizações. E eu já vi em algumas entrevistas ela dizendo que nem era ela que falava, tipo, pá!
Você cantou, os amigos começaram a dizer, tipo Cara, é pra você cantar, hein, essa voz aí… É pra cantar. É, sabe? Acho que esse vídeo já apontou pra isso. Sua carreira artística começou participando da faixa Só Aguardei Pra Mim, do grupo Sincronia Primordial que é também de Feira de Santana.
Aí em 2019, vou pular pra lá, porque é um ano importante Ela solta alguns singles Um deles é da música Giz, com videoclipe E essa música hoje já tem mais de 5 milhões de visualizações Então foi uma música e um trabalho que já deu uma brilhadinha dos olhos, assim De mais gente E um dos encontros que ela tem em 2019 é com Caíra Jorge
vulgo seu filho, diretor executivo na Bugnaip que é uma das maiores produtoras de música e cultura no Brasil e aí, a partir daí, começa uma série de trabalhos, né em 2022 ela lança o EP Sinto Muito em 2023 vem Taurus, que é um trabalho super importante na sua carreira em 2024, Taurus, volume 2 e o último EP, o Six, de 2025КакКак
E em 2021, teve um encontro de vocês dois muito legal no Afropunk também, né que foi importante naquele início. Ela já é hoje, assim, uma das vozes mais ouvidas e muita representatividade pra muita gente principalmente pras mulheres e meninas negras e eu vejo isso em loco.
Em 2024, ela foi indicada como a melhor artista internacional revelação no BT Awards. Pega-se em inglês. E esteve já em grandes festivais, como Rock in Rio, The Town, Afropunk. Que ela botou em 2025. E ela fará o Rock in Rio esse ano, mais uma vez. São mais de 750 milhões de streams nas plataformas. E ela já tem mais de um milhão de seguidores nas redes sociais. Mais de 1,3 milhões.
E aí, a gente tá muito pertinho. A gravação tá acontecendo em março. Recentemente, ela esteve no Tiny Desk Brasil. E ela fez uma apresentação histórica com uma banda formada só com mulheres negras. E foi uma apresentação muito simbólica, assim, e muito histórica. Então, estamos na mesa com Geisa Ribeiro, a nossa duquesa. Oi! Eu já falei, né, gente? É, então… Ei, ei! É isso? Duquesa. Forte abraço, duquesa. Valeu por ter vindo.
E aí, muito obrigada pelo convite Você era pra estar aqui já faz um tempo Mas pode chamar de nepotismo, né? No seu caso, superou Não há qualquer nível de acusação cabível Pelo fato de você ser artista do Caíra Jorge Exato E como é que você conheceu esse cara?
Mano, então, eu fui chamada pra um lançamento de um livro que é da Monique Evely. E aí, ela falou… Aí falaram comigo, olha, a gente tá procurando alguns artistas pra poder cantar no lançamento e tal. E falaram de você, falaram de outro artista também da minha cidade. E aí, fomos nós dois.
E aí, chegando lá, eu conheci a Monique. A gente trocou uma ideia, me apresentei num evento. E aí, a Monique falou, olha, você conhece a Eliane Dias? Aí eu falei, não, não conheço e tal. Você conhece o Caire Jorge? Eu falei, não, não conheço. Ela falou, você conhece… E foi falando vários nomes, assim e tal.
E aí, ela já conhecia o Kairé, né. Ela já tinha uma certa amizade. Então, ela falou, olha, tem um artista aqui da Bahia que eu acho que você poderia escutar. E aí, me fala o que você acha.
E aí, ela me mandou mensagem, assim, falou olha, me manda todas as guias que você tem de músicas que você já lançou, músicas que você ainda não lançou músicas que você quer lançar me fala o que você tá pensando aí eu mandei tudo que eu tinha e aí, logo na sequência, o Jorge mandou mensagem pra mim falou, olha, eu gostei das guias e tal você topa trocar uma ideia e tudo mais mas tem que ser aqui em São Paulo e aí eu vim pra São Paulo a primeira vez com uma grande amiga minha, Maíra
Que era minha produtora na época, né. A gente se ajudava muito, assim, profissionalmente. Ela me ajudava muito também. E a gente era da mesma cidade. E foi assim que começou. E aí, quando eu cheguei aqui, o Jorge falou assim. Ah, você vai fazer uma música, vai conhecer uns produtores. Aí, no mesmo dia, eu canetei no estúdio. No mesmo dia, eu gravei. No mesmo dia, tava com a guia pronta. Aí, eu acho que ele falou, é… E aí, eu acho que ele falou, é…
Tá rolando. Essa menina tem algo. Certo. E aí, você voltou pra… Você ficou em São Paulo, voltou pra feira… Eu voltei pra feira. Eu voltei pra feira porque eu ainda tava fazendo faculdade. E aí, na minha cabeça, eu sempre tinha que começar e terminar a faculdade. Nunca foi…
Uma falta de opção, assim, pra mim não estudar em alguma faculdade fazer ou ter alguma coisa como formação porque a minha família sempre foi muito dessa regra terminou a escola ter que estudar, terminou a escola nem que seja pra um concurso pra um curso técnico qualquer coisa
Tem que estudar, tem que ter alguma formação, tem que aprender alguma coisa. Minha mãe, por exemplo, ela era técnica de enfermagem, agora ela é enfermeira. Ela se formou na faculdade há 52 anos. Minha prima conseguiu se formar em pedagogia, outras primas fizeram enfermagem. Então, uma fez direito, então…
A gente sempre teve essa regra. Terminou da escola, faz o Enem. Vai atrás e faz uma faculdade, um concurso, um curso. E é isso. Então, era prioridade pra mim. Aí, eu já tava também perto de acabar. Eu terminei a faculdade com 21. Faculdade de que você fez? Eu fiz publicidade e propaganda.
Publicidade, propaganda. Porque eu gostava muito de vender, né? Isso ajuda muito, não ajuda? Muito, muito. Pra trabalhar assim com você, pra você… Acredito que você tem muitas ideias. Muito. Hoje em dia, tipo, eu me vejo como… Alguém dentro da minha empresa, assim, tipo, que… Embora eu tenha muitos braços pra estar ali auxiliando de como é que vai ser feito, como que vai ser investido. Eu já chego com a ideia muito pronta, né?
Então, tipo, eu já chego com a paleta de cor, já chego com a tipografia que eu quero na música, na capa da música, com o estilo do clipe, o mood board do clipe, o figurino do clipe. Eu já chego com a ideia pronta, assim. Eu falo, gente, é isso aqui que eu pensei. E aí, toma um mood board de seis, sete páginas. Completo. E aí, a galera digere, assim. E essa informação, você acessava de onde? Lá em Unifeira.
Como chegava em feira essas informações pra você? Sendo que tem uma cultura própria, o lugar tem uma cultura própria, né? Quais informações exatamente? Essas que você traz pro seu rap mesmo. O que você trouxe a São Paulo, quando você veio encontrar com ele. Então, eu sabia que eu queria fazer música.
Não sabia qual, especificamente. Eu sabia que eu queria fazer rap, eu já fazia rap. Tá, aí que eu quero chegar. É, então. O rap chegou na minha vida com meu pai. Meu pai era muito eclético. Meu pai, ele escutava a Luke Dub, ele escutava Edson Gomes, ele escutava Calcinha Preta, ele escutava Pabllo, ele escutava Silvano Salles e ele também escutava Racionais.
Eu escutava racional. E aí foi quando ele chegou na minha vida, assim. E aí, ele comprou um DVD pirata de… Sem hip-hop e um, sabe? Aqueles que são vários clipes, vários clipes. Isso aí adiantou o maior lado do movimento. E eu adorava a batida, assim, tal. Você gostava já? Gostava. Gostava muito da batida. Eu gostava muito de como…
A música tinha aqueles sintetizadores, aquele heroente, aquela coisa. Então, tipo, eu não sabia o que era exatamente. Porque até então, a cultura hip-hop não é uma cultura que a gente tem como… Como é que eu posso dizer?
Não é tão prioridade na parte nordeste do país, sabe? É, sim. Então, tipo, a gente sabe que o arrocha é rocha. Mas a gente não consegue chegar lá de cara e falar que isso aqui é trap, isso aqui é… sei lá.
A cultura local é muito forte, né? É, a gente não tem esse sedimento de berço, sabe? Necessidade, né? É, nossos pais não foram pra um baile black. Nossos pais foram pra um paredão, pra um seresta, pra uma rocha. Como é que o Racionais conseguiu achar esse espaço, né? Então, mas eu acho que o Racionais, ele chega, tipo, numa comunicação periférica que é fácil identificar. Então, acho que é muito por isso. Meu pai era um homem preto, mecânico, do gueto, e é isso.
Não tem como não se identificar. Não era tão simples assim. Não. Fazer o gosto musical do cara. Tipo assim, tinha aquela rapaziada que já ouvia Zeca Pagodinho, por exemplo. Já era aquela coisa clássica, consagrada e... Sagrado. Sagrado e consagrado, né? Inclusive admirado por nós. Tipo assim, como você ia chegar e dividir a tensão do mesmo ouvinte com Zeca Pagodinho? Tá ligado? Era muito difícil.
É isso que eu quero chegar. A Bahia já tinha a sua cultura própria, a sua raiz, os seus costumes, né? Mas, por exemplo, na época, quando eu era bem criança, ali no meu sete, oito, tinha muita música que era pagodão e protesto ao mesmo tempo. O Edcite, o Fantasmão.
Tinha essa parada. Então, tipo, o Robson em, sei lá, dois mil e sei lá quantos lançou a Escola da Vida, que fala Na escola da vida, randi, como chorei, sofri o sonho Não desisti, não desisti de lutar E muita gente subir, eu mesmo caí, entendeu? Tipo, então, tinha uma escrita política ainda no pagodão. Esses caras foram estratégicos, então. É, então, mas é isso. Mas eu acho que a Bahia é eclética. Como era muitos caras?
O Robson, o Ed City. Ed City, já ouvi falar. Então, acho que até o próprio Igor Canário, ele traz um ato político ali. Qual era aquele grupo que cantava com o rosto maquiado? É, então, Fantasmão. Fantasmão. O Ed City era a participante do Fantasmão. Achava louco, Fantasmão. Então. Cheguei a assistir o show. Isso é puro afrofuturismo, sabe? Mas eu acho que é essa a parada. Hoje, estando em São Paulo...
Eu sinto que o Sulista, ele consegue nomear com muita facilidade algumas coisas que já existem. Mas eles conseguem traduzir, porque parece que é muito mais abrangente as coisas que as pessoas acessam aqui. Então, pra mim, o que é de City, saindo de Feira de Santana, chegando aqui em São Paulo, eu venderia o estilo do Ed City, do Fantasmão, como afrofuturismo. Certo.
E aí, eu acho que se tivesse essa nomenclatura, se tivesse todo esse estudo, se tivesse toda essa… Na questão de rótulo, você acha que o pessoal ainda vai no rótulo? Eu acho que é porque é muito normal. Tipo assim, eles… Tem um nome novo. Aqui em São Paulo, vira um grande conceito, né? Vira. As coisas viram muito conceituais quando são nomeadas e etc. Na Bahia é menos complexo, você acha?
Ou as coisas são mais naturais? É, eu acho que a galera é mais natural. Tipo assim, eu acho que em algum momento os caras viram que, tipo… Pintar a cara e vestir metade preto, metade branco teria algum significado que eu não sei. Nunca vi nenhum deles falando sobre o porquê que pintavam o rosto. Mas eu acho que é porque, sei lá, a banda era fantasmão. Então, tinha essa parada do fantasma, só que… Do rosto branco.
É, o estilo de roupa que, sei lá, o Edson usava um vestidão, sabe? Meio que saia. E tinha uma batida pesadona, assim, meio… Muito pesada, entendeu? Meio… com todo respeito, era uma feitiçaria, aquela batida, né, mano? É, então. Tipo, assim, era uma coisa que você não tinha nem força pra dizer não, né? É, então. Você só deixava o corpo ir, né? É, e parece que você já vai dançando assim, tá, tá, tá, tá, tá, tá. A batida não deixa você parar, né? Não deixa, não deixa. E eu acho que é isso, eu acho que…
A Bahia, a gente não tem essa ambição de nomear pra vender.
Sabe? Então, as pessoas fazem coisas naturalmente, né? Querendo ou não, a gente tá no mais preto fora de África. Então, é muito ancestral. É a percussão que tá no terreiro, é a percussão que tá no holodum. É a percussão que tá no pagodão. Aí vem a seresta, que tipo, porra, a rocha. E aquela coisa toda.
E aí, agora, esses dias, eu vi o vídeo do Bruno Mars. E as pessoas associaram um pouco com o Pablo da Rocha, né? No último lançamento dele. E eu fiquei pensando, cara… Por que que precisou o Bruno Mars querer fazer algo meio latino pra as pessoas entenderem que a gente é latino, a gente é original, tá ligado? O Arrocha, o Pablo sempre existiu, sempre tava aqui. Sabe? Então, acho que é isso, assim. Talvez.
A gente tivesse um pouco mais de ambição de vender a nossa ideia. E ter realmente um conceito, um título e etc. Eu acho que alcançaria outros espaços. Som da Bahia. É. Mas acho que a gente tá chegando lá. Acho que tá. A gente tá aprendendo a vender nosso peixe e monetizar isso também. Porque é isso, é importante monetizar algumas coisas, né? Pra…
Eu até acho que a Bahia, naturalmente, é mais globalizada que São Paulo, até porque sempre foi um porto e sempre foi uma cidade turística. E ela começou muito antes de São Paulo, Salvador já existia como uma cidade já grande, rica e influente. E com grande circulação de gente de todo o mundo, de todos os lugares do mundo. A Bahia sempre foi até mais cosmopolita do que São Paulo.
Artistas muito populares. Então, Bahia sempre teve uma cultura mais global, se quisesse. Mas ela não precisa. Ela nem precisa, tipo assim, se inspirar em outros lugares. Ela por si só é autossuficiente. Culturalmente é muito forte, né? Autossuficiente, talvez. Eu acho que não tem muitas junções, por exemplo, tipo…
Eu acho que é isso, a gente tá falando de gêneros um pouco mais alternativos fora do que é regra na Bahia, por exemplo. Do que já é mais distribuído. É, do que é mais, tipo, porque é isso. Eu canto rap, sou de feira e…
Existe uma escassez desse público. Uma falta de atenção pra esse público alternativo que existe na cidade. Mas em contrapartida, o pagodão continua vivo. O revende alternativo. E como era essa cena? Ainda é alternativo.
Mas eu queria que você voltasse um pouco. Porque a gente chegou nesse estágio da conversa com a pergunta do estilo musical do seu pai, né. A gente tava falando um pouco do estilo musical do seu pai que te levou ao rap. E como que era, então, a cena que você encontrou em Feira de Santana quando você falou, tá, o rap é minha parada, é isso que eu quero fazer. Como era essa cena? Então, até os meus 12 anos, tinha a batalha de b-boy.
Tinha tributo em homenagem a vários artistas. No meu bairro, por exemplo, no Feira 7. Tomba ali. Tinha tributo a sabotagens. Quem fazia esses trabalhos? Tinha uma equipe chamada H2F. Que era uma equipe super underground. Que era um coletivo mesmo. A galera, um levava a caixa de som. O outro levava o microfone. O pessoal da cidade. É, o pessoal da cidade mesmo. E aí, tipo, eles se apresentavam. Aí tinha...
Grafite, b-boy, DJ E tinha batalha de rima Esses caras estão lá? Então, alguns estão e outros Sei lá, não deram continuidade Eu soube muito pouco Qual foi o que rolou Até porque, sei lá Vai fazer cinco anos que eu tô aqui
Você frequentava esses ambientes? Eu frequentava. Então foi essencial pra você? Muito, eu gostava. Tipo assim, com 12 anos já queria entrar no grupo das meninas lá de cantar, assim. Você fez parte de um grupo? Eu queria. Não, só que eu tinha 12 anos. E as meninas tinham, sei lá, 17, 18. As meninas já eram de maior e tal. Já fez parte de algum grupo? Não, não. Eu acho que entendi algum momento da Bill, não? Não, eu fiz uma participação com sincronia primordial. Você conseguia trabalhar em grupo? Não.
A pergunta é direta. Porque eu sei que é difícil. É muito difícil. Imagina, você é formado em... Publicidade. Aí você vai trazer uma pessoa que não sabe nada. E vai querer bater de igual com ela. Não tem como. Não, e também eu acho que eu sou muito irredutível, assim. Eu sou uma pessoa muito difícil de lidar. Se eu tenho uma ideia, eu fico... Por que não? Eu sou taurina, eu sei o que. É, por que não? Ah lá, os taurinos. Eu vou defender minha ideia. Eu também. Mas eu abro pra debate a ideia.
É, mas o debate tem que… Eu gosto de ouvir o contra. É, tem que me ganhar no debate. Não ganhar que é foda.
Esse critério que tem que ter uma pessoa neutra. Nós não temos essa pessoa. É, eu não tenho essa… Quem se disser sou eu, aí é foda. É, então. Às vezes nem a pessoa neutra consegue. Mano, e eu disparo, eu disparo assim. Tipo, se me dá uns 20 minutos em casa, eu mando mensagem pra todo mundo. Eu falo, véi, pensei nisso aqui, nisso aqui, nisso aqui. Em agosto, a gente tem que… Acorda. É, isso aqui. Em agosto, a gente tem que fazer isso aqui. A gente tem que estar em tal lugar, nesse momento. A gente tem que fazer tal coisa nesse momento que não sei o quê. Deixa eu chegar com a programação, compara. É um tubilhão de coisa. E a galera fica tipo assim, calma.
Hoje nem era pra você estar trabalhando. Segunda-feira, você tinha que estar de boa. E aí, eu sou a mil por hora. Então, eu sou meio difícil de escutar também. Mas eu tenho aprendido um pouco a escutar. E chamar pra colaborar também. Eu tenho aprendido a pedir mais ajuda. Eu acho que é isso. Meu mal é não assumir que eu não dou conta de muita coisa, assim. Mas agora eu tô começando a aprender. Principalmente porque, por exemplo, eu me formei em publicidade em 2021.
Eu sei que a publicidade mexe muito com tecnologias, coisas que são inovadoras. Quantos anos? 21. Não tá com quantos anos de... Curso? Curso. São quatro. São quatro anos. Quatro. Quatro anos. E aí, tipo...
A publicidade que eu estudei, sei lá, comportamento do consumidor, técnicas de, sei lá, Philip Kotler e etc. Em 2021 é totalmente diferente de agora, em 2026. Então, é mais fácil eu colaborar com o publicitário que tá aqui, fazendo o agora. Sabendo o que tá acontecendo no momento agora. Do que eu ficar pensando, não, mas eu sou formada em publicidade. Eu sei do que eu tô falando. E aí, tipo, não sei mais o que eu tô falando.
Porque eu não tô estudando. O cara tá estudando. A mina tá estudando até agora. E tá movimentando, fazendo coisa nova. Foi como você escolheu esse curso? Porque eu acho que abrange tudo. Eu acho que eu sou boa de me comunicar. E eu não teria medo se falasse assim. Ah, você vai ser, sei lá, apresentadora de algum programa. Eu ia tirar de letra, eu ia adorar, sei lá, fazer viagem pra apresentar o mundo. E coisas legais, assim. Tem mais artista na família? Não.
Pelo menos eu não conheci Esse seu lado vem de onde? Meu pai era muito comunicativo, minha mãe também Meu pai era muito comunicativo Minha mãe também é muito comunicativa Mas é mais um pouco na dela ali Mas meu pai era mais sem vergonha Ele chegava, ele conversava Ele fazia amigo Qual geração que ele é? Meu pai, ele partiu quando ele tinha uns 37 Bem novo
Teria quanto? Trinta e sete. Ele estaria... Minha mãe tem cinquenta e dois. Meu pai estaria com uns quarenta e nove, cinquenta. Cinquenta e nove. Meu pai estaria com cinquenta. Jovem. Bem jovem. É. E aí eu acho que eu sou meio cara de pó, assim que nem ele. Eu chego, converso. Eu também quero ouvir racionais com ele. Parecia o quê? Um conto de terror, assim, um filme de terror. Parecia o quê? Parecia que a palavra encaixava. Isso que era muito legal. Eu gostava muito da batida.
Foi Vida Louca. Inclusive, foi a música que eu cantei com você. Foi louco pra mim. Vida Louca, parte 2. Cantou bem. Em 2021. É. E aí, tipo, era muito legal, porque parecia que eu tava mais atuando ali. Não sabia do que eu tava falando, sete anos de idade. Não sabia do contexto, mas eu tava lá. Porque a palavra se encaixava. Deus amado, é ativo. Você com sete anos. Você com sete anos. Nem pra mim, amor. E a dessa você saber.
Vida louca. Sabe? Tipo, pra mim era ótimo. Pra mim era ótimo. Eu ficava me sentindo gangster. Meu pai tinha um... Causa isso? Muito. Meu pai tinha um gol quadrado, azul. Não, parecia óbvia a pergunta boa, mas... Era muito chique. Meu pai chamava o carro de trovão azul. Ele ficava empoderado, ele? É, meu pai se orgulhava que tinha uma menina. Uma filha menina. Mas que era do mesmo personalidade dele, então...
Ele fazia de propósito. Ele não vinha racionais. Ele falava o quê pra você? Ele gostava de andar, de carro, com os carros. Ele falava o quê? Daquelas músicas? Ele falava o quê? O que você falava a respeito?
Não, acho que eu não me recordo dele ter abordado muito sobre a música, não. Ele só fazia eu ouvir, porque eu cantava, sabia a letra? Eles só sentiam juntos. É, tinha um pendrive vermelho. Ele colocava esse pendrive e botava a música muito alta. Todo mundo sabia o horário que meu pai tava chegando em casa, porque meu pai escutava a música muito alta. Era tipo assim, astronomicamente alto no carro. E meu pai era mecânico, né? Então ele mexia no carro inteiro. Ele fazia muitas modificações no carro. Então esse lado artístico veio grande parte dele, então.
Essa sensibilidade pra som, pra música. É. Tocou, gostei e tô dançando. É meio que isso. Em algum lugar, a gente sabe, né? Você já falou em algumas entrevistas que o seu pai, né? Como você falou agora, ele não tá mais aqui. Em algum lugar, você acha que a artista que você é hoje como você tá dizendo aqui, você tá trazendo ele muitas vezes tá ali de alguma forma no seu caminho essa menina que tava sempre com seu pai, ouvindo a música a artista que você é hoje tem um pouco do que ele gostaria de ver você hoje ou não?
Eu acho que minha avó me incentivava… A mãe dele me incentivava um pouco mais, assim, artisticamente. Ah, legal. Eu acho que ela percebia que eu era um pouco mais desinibida. E aí, tinha meio que um repórter por um dia, assim, na minha cidade da rádio e tal.
E aí, minha avó queria sempre me escrever pra eu ir lá. Porque ela achava ótimo o que eu falava. E eu gesticulava. E eu… Era tão desinibida. E eu… Ah, gente, eu adoro. Adoro me mostrar, adoro ser exibida. Adoro… Adoro. E como foi o seu encontro com a Rima? Eu gostava de poesia. Quando eu comecei a estudar, tipo, gramática na escola. Eu gostava muito de poesia. E aí, eu percebi que eu tinha uma facilidade de fazer combinações de palavras, assim, sabe?
E fora também que chegou numa parte da minha adolescência que eu não verbalizava muito o que eu pensava. Porque eu acho que é isso. Eu acho que eu não sei medir um pouco as palavras. E às vezes eu posso ser muito grossa com coisas que é tão boba, sabe? Tão mínima. Não sei se é mal de taurino, mas não sei se você é isso também. Mas eu não sei dosar muito a palavra. Acho que eu tô falando uma coisa super simples e eu tô falando uma atrocidade, assim. De forma muito tranquila. E aí eu parei de falar.
E aí quando eu parei de falar, eu começava a escrever. E é inclusive aquela música do Tiny Desk. Tipo, era uma rima que eu tinha guardado assim, em muito tempo. Que era uma época que eu via muita coisa no meu bairro.
E eu sempre tive muito medo, né? Eu tive muito medo de parecer que eu estava envolvida em coisa errada. Eu tinha medo de… Sei lá. Você tinha esse medo? Eu tinha muito medo. Envolvido com o quê? Eu tinha muito medo, porque assim… Minha mãe sempre… Teve uma época que a gente não podia usar algumas marcas.
Algumas marcas, lá na Bahia, a gente não podia usar algumas marcas. A gente não podia usar tais vestimentas. Tinha uma época que era muito taxada, assim. E aí, eu tinha muito medo. Minha mãe também me tinha muito medo. Eu sempre fui uma mulher com o corpo avantajado. Esse movimento começou quando lá, né?
Mano, pra mim sempre existiu. Desde que eu me entendo por gente, sempre existiu. Certas marcas não podiam usar. Certas marcas não podiam. Desde quando? Eu que eu me recordo, desde os meus 10 anos. Tipo, algumas marcas assim não podia usar e tal. E essa lei vale até hoje, tá na rua lá.
algumas coisas ainda não podem, sabe? Tipo, ou é melhor você não usar. Meio que isso, tipo, não poder é muito forte, mas é melhor… Sugestão. É, melhor não. Porque é isso, tipo, aí vai, meu corpo sempre foi avantajado. Eu de sainha e tal, tipo, se parecia muito com as minas que eram, sei lá, namorada dos caras, ou eram as minas que andavam com os caras. Então, tipo, eu já morava num bairro.
Que não era muito assim… Aí se eu usasse as vestimentas, tivesse os trejeitos minha mãe se preocupava muito, assim, sabe? Eu acho que é a mesma coisa de uma mãe de menino ter medo do filho fazer muita tatuagem, pra não ser confundido pra não ter nenhum tipo de coisa minha mãe teve essa preocupação comigo então, eu era totalmente assim…
Tranquilo, eu botava minha calça jeans, no máximo um short jeans, uma roupinha ali. Aí quando eu comecei a 17, 18, eu comecei a ir pra algumas festas. Aí eu comecei a usar umas blusinhas mais justas, meu cabelo solto de prancha. As pessoas perguntam muito sobre o seu pai? Não muito, não muito. Você tem problema em falar sobre? Não. Ele era valente?
Ele era. Ele era valente? Ele era. Ele levava desaforo? É, então. A bebida meio que deixava ele um pouco alterado. A bebida… É, então. O alcoolismo foi… Potencializava esse lado dele. Potencializava, mas assim, de segunda a sexta ele era incrível, assim. De verdade, ele falava com todo mundo. Era um pai ótimo, um pai super presente. Foi um pai que, sei lá, do nada ele falava comigo com a minha mãe. Vamos pra praia? Vamos viajar? Vamos fazer qualquer coisa?
Então, nunca me deixou faltar nada, assim. Nada. Então, tipo, eu tive roupa, eu tive calçado, eu tive comida, eu tive lanche. Quantos anos você tinha? Quanto aconteceu isso? Treze. Tinha treze anos. Idade, né? É, já tava… Em que proporção isso te afetou?
Ah, eu comecei a assumir uma responsabilidade, assim, em casa e com a minha mãe, assim, de verdade. E emocionalmente? É. Como você recebeu isso? Ah, foi bem pesado. Se eu não me enxergar. Foi pesado porque…
Eu me senti muito desprotegida. E aí, eu comecei a ter uma outra dinâmica de me relacionar com pessoas. Você é uma mulher forte. Eu fui uma adolescente meio agressiva também. Você é forte. Eu sou forte. Sou forte pra caramba. Agressiva em que lugar?
Então, eu brigava um pouco na escola. Eu tinha a resposta também afiada, então… Eu era muito poucas ideias de falar mesmo, não pensar muito falar. Então, não ter tido meu pai, eu fiquei muito… Assim, minha mãe trabalhando pra caramba, minha mãe sempre trabalhou muito. Então, eu ficava muito sozinha. Minha mãe não chegou a ter filhos, né? Tipo, ela teve ali uma gestação, infelizmente ela perdeu e depois a gente perdeu. Então, não tenho irmão, sou filha única.
Então pra mim é isso, não mexe comigo, não mexe com a minha mãe E é isso, sangue no olho E eu sou muito Eu tenho muito essa personalidade dele Minha mãe falava que ele também era assim Ele botava uma coisa na cabeça Tipo, sei lá, vou trocar de carro Porque eu quero uma moto, então vou fazer uma coisa Então ele trabalhava o suficiente Pra juntar e pra comprar E pra fazer e pra trocar
E minha mãe, ela sempre foi mais calma, mais tranquila. Minha mãe era tipo assim, deixa lá, fica calma. Minha mãe é muito tranquila, muito tranquila. Minha mãe é um doce, eu acho que se eu fosse criada a vida toda pelo meu pai, eu ficaria mais… Poucas ideias. Mais poucas ideias, mas minha mãe me adoçou um pouco.
Minha mãe me deixou um pouco mais mansa. E aí, você tava falando antes, só pra gente tentar conectar as coisas. Você traz esse acontecimento que o Brau acabou de cavar com você de 13 anos. E aí, você tava falando de um certo silenciamento. Você começa a ficar mais pra dentro e aí começa a escrever. Sim. Né? E aí, a rima chega no seu mundo nesse momento. Dois mundos, né, que você abriu o Tiny Desk. Quando que você escreve essa letra?
Eu penso muito sozinha, assim. Tem coisas que eu realmente sou muito difícil de verbalizar. Tipo…
E tem coisas também que eu não sei se o mundo iria concordar comigo. E aí, eu ficava com muito medo de falar. Quando eu comecei a lançar a música, de fato, assim. Que eu comecei a entender que outras pessoas passavam pelo mesmo que eu. Ou se identificava com o que eu tava falando, com o que eu tava pensando. Eu comecei a ficar um pouco mais tranquila, de botar pra fora. Mas tem debate mesmo que eu não participo. Eu não sou uma pessoa de debater. Não sou uma pessoa de brigar.
Mas aí eu recolho. Aí eu vou digerindo aquilo aos poucos. Aí eu vou digerindo, digerindo, e aí eu vou escrevendo. E aí eu acho que esse é meu processo criativo. Eu olho a situação e falo, tá. Deixa eu ver como é que me bate. Eu prefiro dar minha opinião depois. Porque também eu não vou ter paciência. Eu vou xingar, eu vou perder um pouco o controle. Eu vou perder a razão, vou perder o debate. Então eu prefiro digerir, refletir um pouco e depois escrever.
Eu tô pensando, você falando, e voltando um pouco do que a gente tava falando, a importância do trabalho desses caras que fizeram esse trabalho de hip hop na tua cidade, onde te recebeu lá e dali te abriu um portal de possibilidades na sua cabeça. Olha o que virou, mano. Exato. Olha o trabalho dos caras. Exato. Olha o que virou, mano.
Inclusive, vou mandar um abraço. H2F.
Muito obrigada a todo mundo que estava envolvido na H2F naquela época e até hoje. Muitas vezes os caras que estão desenvolvendo esse trabalho, homens e mulheres, né? E voluntários pelo Brasil afora, né? Eles estão agora, em algum momento, em alguma favela, em algum beco, procurando criança pra ensinar hip-hop. Exato. Porque é um fio condutor mesmo que o jovem veio e isso me trouxe, trouxe você e tem trazido outros jovens.
E dado uma oportunidade, uma vida diferente. Veja bem, a Duquesa passou pelo ISO 9000 do sofrimento, mano. Não é nem o histórico de vida. O que, meu Romano, é assim, você é absoluta. Isso é muito cristão. Coisa do mártir, né? O que você teve que passar pra ser o que você é e pra poder ajudar outras meninas negras. Exato. Em condição de vulnerabilidade que você já viveu.
Esse medo que você fala, esse medo existe? Homens também sentem medo. E sem contar que na minha cabeça, a partir daquele momento, eu podia proteger minha mãe, né? Você assumiu a responsa pra você. Exato. Então, tipo, sei lá, atividade boba em casa, sei lá. Trocar lâmpada, trocar resistência, trocar não sei o quê. Perfurar parede, colocar cortina. Você que fazia. Eu fazia. E aí, isso também foi me endurecendo, assim. Mas também me preparou. Porque também, quando eu comecei a morar sozinha, eu sabia fazer tudo.
Se eu deixasse um feijão, arroz, eu faria milagre ali. Com feijão, arroz e já era.
Me alimentava, sabia como gestar o meu próprio dinheiro, já sabia como me equilibrar em casa, de tipo, fazer tudo. Lavar roupa, fazer comida, estudar, fazer tudo certo. Tipo assim, pô, não deu pra comprar tal coisa esse mês, aí eu juntava um pouquinho, deixava de comprar tal coisa, juntava mais um pouquinho, aí comprava televisão, comprava não sei o quê. Então, acho que isso foi importante pra mim também. Eu não costumo... MenКак MenКак
Ver a minha realidade, tipo... Ver a minha história, na verdade, como algo que... Foi só tristeza, assim, sabe? Porque hoje, com 25, eu tô mobiliando minha casa pela primeira vez, entendeu? Então, esses dias eu tava refletindo que foi muito... Que é muito doido, que quando eu nasci, que eu abri o olho, eu já tinha uma casa pra morar. Já tinha um sofá, já tinha uma cama, já tinha um berço.
Então, fui muito abençoada. Tipo assim, eu perdi meu pai numa fase da vida que foi importante pra mim, que me deu algumas sequelas e que eu sinto muita falta. E que minha mãe também sente muita falta, que foi o primeiro companheiro dela, o companheiro de vida de muitos anos. Foi tirado de nós uma pessoa que era muito importante, era o Pilar da nossa casa.
Mas deu tudo certo, porque é isso. Ela não soltou a rédea. Minha mãe sempre me cobrou mesmo estudar. Me cobrou fazer coisas assim. Estudar, trabalhar, ser alguém.
Minha mãe proibia muito de sair também. E aí depois eu entendi que não era legal sair tanto como eu queria. E muito da disciplina da sua mãe e você então? Muito. Muito? Muito. Minha mãe era muito decidida, assim. Se ela coloca na cabeça, assim, que ela vai fazer tal coisa, ela faz.
Ela pode ficar, sei lá, com medo do processo, mas ela faz. Minha mãe se formou com 52 anos, depois de me formar. Então, primeiro, ela me formou, aí eu saio da casa dela. E ela entra na faculdade e se forma. Agora eu vou, eu. Tipo, certas forças que a gente adquire só vêm do sofrimento mesmo. Não tem como as pessoas compartilharem isso igual a você. Eu acho que são muitas realidades diferentes. Eu acho que...
Minha mãe, por exemplo, ela trabalhou muito. Então, ela me deixou ser muito autônoma de algumas coisas. Então, minha mãe foi muito do tipo... Sua escola é em tal bairro. Você vai pegar o ônibus que tem o nome X.
E vai descer no ponto de ônibus, que é de frente ao correio. Você vai andando até a esquina, dobra direita, é a sua escola. Então, tipo... E esse é o caminho que você pode fazer. Esse é o caminho que eu posso fazer. Então, tem a questão de que...
Eu tive um pai rígido também, que meu pai era muito rígido. Então, tipo assim, a palavra do meu pai era vai, vai, agora. Não era depois. Tem a coisa também, tipo, do cultural. Porque, por exemplo, hoje, até hoje, todas as pessoas da minha família, a gente chega, bença tio, bença tia, bença mãe, bença avó, pra sair, pra chegar. Então, minha mãe, ela teve essa...
Essa ajuda que colaborou, por exemplo. A minha família, culturalmente, tem essa dinâmica. Eu acho que o que me formou mesmo foi o colaborativo de todo mundo. Foi da minha mãe, do meu pai, da minha avó, da minha madrinha, do meu padrinho. Então, tipo, eu tive uma rede de apoio suficiente pra eu ser desse jeito. Meu padrinho, ele fazia eu ler todos os dias antes de dormir o mesmo versículo. Que é o Rai, pai e mãe, pra que prolongue os seus dias na Terra.
Uau. Então, eu cresci com esse versículo na cabeça. Então, tipo, eu precisava honrar minha mãe e meu pai. E acabou. Meu padrinho era tipo assim, você chegou... Oi, meu padrinho, não sei o quê, não sei o quê. Abença. Não importa o que eu tô falando. Abença. Aí eu volto. Abença, meu padrinho. Tudo bem. Aí beijo na mão. Beijo na mão dele.
E é exatamente assim. Você tava cercada de uma disciplina, na verdade. Você tem sido tuota hoje. Sigo. Sigo. Pra mim, alguma coisa muito ruim vai acontecer se eu não der benção à minha mãe. Eu preciso dar benção à minha mãe. Tipo, benção à minha mãe. Aí depois eu falo com ela. Outra coisa também, tipo... Eu nunca chamei minha mãe pelo nome. Nunca foi permitido isso na minha casa. Você fala você ou senhora? Senhora. Mãe, a senhora, não sei o quê. Nunca chamei ela de você. E meu padrinho, minha madrinha corrigia muito.
E é tipo assim, você tá achando que tá falando com quem? É. Eu não sou suas parceiras não, filha. Sou suas coleguinhas não. É, eu não sou suas parceiras não.
Cadê? Senhora. Dessa mãe, a senhora, não sei o quê. Então, tipo, tinha tudo isso, sabe? Eu acho que eu não culpo… Eu vou dar o crédito da minha educação e da minha formação do todo. Minha mãe fez a parte dela, minha madrinha fez a parte dela, meu padrinho fez a parte dele, meu pai fez a parte dele. E isso me formou.
Sabe? Mas eu, por exemplo, acho um pouco estranho quando eu chego aqui e eu vejo, tipo que as crianças não pedem benção aqui sei lá, tipo, é muito… Eu tô pensando nisso agora. Não, ela… Tô ensinando meu a pedir. É, meus primos, sei lá, de 38 anos pedem benção. Pede benção. Eu pedi benção pra minha mãe até o último dia. É. Enquanto ela pode responder, eu pedi.
Eu falo com o meu companheiro que meus filhos vão ser criados dessa forma. Tem que pedir bênção ao mais velho. Bênção. Até pra não ficar excomungado, né? Que fala que não fica excomungado se não pedir bênção. É uma cultura profunda do nosso povo, né? É. Você teve seu pai até os 13 anos, que é uma idade crucial. Então, ele tava muito lá nessa criação dessa personalidade e dessa disciplina que a sua mãe continuou seguindo, né?
E tem muitas mulheres que não têm essa parceria. Que não têm essa rede de apoio. Exatamente. Porque, de verdade, eu acho que a minha época, quando eu era criança… Que embora não faça muito tempo… A minha época ainda era outro mundo, sabe? Ainda a gente… São João mesmo, a gente ia. A gente fazia bolo, comprava laranja, fazia amendoim. Abria a porta da casa, fazia fogueira na frente da casa. E aí, eu ia comer na casa da dona Raimunda.
Na casa da minha madrinha, dona Raimunda também parava, comia lá. O Alas, meu amigo de infância, parava todo mundo na frente. A gente dividia a mesma bombinha pra jogar, pra poder se divertir. Então, tipo, hoje em dia não tem mais isso, sabe? A criança, tipo, os adolescentes, eles têm uma outra mentalidade. Sei lá, eu vejo umas minas de 13…
Querendo se passar como 20. Tipo, naquela época com 13, a gente nem queria ser ninguém. Só ter isso. Acabou. Criança. Deixa eu voltar naquela ideia que você tava dando. A gente acabou passando rápido. Você acha que o rap ainda é uma música alternativa lá na Bahia ainda? Eu acho. Alternativa? Eu acho. Mesmo com o Baco, com todos esses artistas que tem lá agora? Eu acho, porque… Nova Era. Não é majoritário. Existe um público…
Existe o público que é muito forte, de pessoas que consomem o rap. Mas culturalmente não existe a possibilidade da gente competir com uma rocha. Não é a mesma coisa.
O Arrocha, ele… E tem ainda essa parte que é marginalizada. Embora a gente seja preto, esteja num estado preto. A gente ainda tem umas coisas que precisam mudar, assim. De parar de marginalizar o rap e tal. O Arrocha não é marginalizado? Não, Arrocha é o romântico, é o nosso R&B, né?
É. O Arrocha é o Airbnb do Brasil, gente. É verdade. Vocês não concordam? Não parece o Airbnb do Brasil? Pra mim, o Arrocha é o Airbnb do Brasil. É o que os românticos cantam. É pra quem tá sofrendo, é pra quem quer tomar uma. Entendeu? O Arrocha é pra isso, é pra dançar junto. Qual que é o som da rua lá? O pagodão. Bloquinho pra lá, bloquinho pra cá. O pagodão é discriminado? O pagodão ainda também tem os seus desafios.
Porque também é isso. Ou você faz um pagodão que seja comercial ou também se você falar bastante putaria também é taxado como... Não, isso aí só fica na favela e acabou. Aí a pessoa faz paredão, paredão, paredão, paredão, paredão e não consegue sair dali. Atualmente, do pagodão, quem conseguiu furar a bolha atualmente foi o canalha. Que a gente entende que ele tem um discurso que é... É uma putaria mais...
Light, né? Soft. É. É uma putaria mais light. Só que tem outras pessoas que cantam um pagodão mais sujeiro ainda. Que é quase igual o funk de carioca ou paulistano. E é isso. E fica ali. É muito difícil furar um pouco a bolha, sabe? Só que existe um público que adora isso. E os caras não vão mudar. Os caras querem realmente fazer fluxo e fazer paredão. Lotar paredão. E também tá ótimo.
Eu queria muito entender, você falou agora que o Arrocha é o R&B do Brasil. E aí, o seu início, pelo menos ali no singles e o seu primeiro EP, que eu sinto muito. Ele tá bem no R&B, né. Que tá na família ali, né. Rap, então enfim, mas R&B. O que você queria entregar naquele momento? Pra gente chegar em Taurus, assim. Que eu acho que é uma virada importante pra gente falar.
Mas o que você queria entregar e entregou naquele momento pro seu público? Porque tem cartas pra… Aquela música que você faz uma carta pra você mesma. Parecia que tinha muita coisa que você tava querendo desaguar ali. Pra de repente, né, você depois ir pra um outro lugar.
Eu acho que eu me encontrei no R&B porque eu conseguia desabafar algumas coisas, sabe? Então, tipo, às vezes era um relacionamento falido. Às vezes era um corno que eu tinha tomado, que eu ficava muito mal. E aí, eu via pelo lado mais poético da coisa, sabe? Então, eu parti muito nisso. Quando eu comecei a namorar, comecei a me decepcionar, assim. Aí, eu comecei a escrever um pouco mais. Porque é isso, eu acho que eu não criei muito essa dinâmica de verbalizar pros parceiros.
Que eu tive, assim, tipo, estou sofrendo, não estou gostando disso. Então, disso foi um pouco isso, assim. Diz que tava louco, aquilo tudo foi um erro. Pra mim, eu escrevi aquilo ali, ele escutou e entendeu. Mas não entendeu nada, foi só uma música. Então, pra mim, era isso. Eu passava por tal coisa, falava na música. Passava por tal coisa, falava na música. Com a expectativa daquilo mudar alguma coisa.
E aí, eu comecei a ver que, tipo, outras mulheres também passavam pelo mesmo. E eu não me senti mais sozinha. Então, eu fiquei mais tranquila pra falar sobre essas coisas, sabe? Eu acho que o Sinto Muito é literalmente isso. Sinto Muito foi um EP que eu desabei, falei várias coisas que eu pensava que tava no meu coração, que eu passei em relacionamentos falidos. E eu consegui traduzir isso como música.
E aí, quando veio o Taurus, eu já tava curada. Já tava tipo assim… Vamos falar sobre outras coisas. Passei, agora quero falar de outras coisas. Mas eu acho que esse momento de catarse mesmo, né. De você dizer, eu não me senti mais sozinha, né. Depois de Sinto Muito, eu não me senti mais sozinha.
Eu vejo muitas meninas mais jovens, assim, eu tenho 37 anos. Então, acho que a gente tá vivendo um momento do rap nacional, das mulheres que é muito especial, assim, né. Nós temos muitas vozes alcançando muita gente. E eu vejo alcançar principalmente as meninas mais jovens, assim. As meninas que trabalham próximas a mim, ou pessoas do meu bairro que estão realmente consumindo. Como foi pra você sentir esse eco, assim?
Porque eu não sei se é um eco que, sei lá, na minha juventude a gente conseguiria verbalizar. Esse silêncio que de repente tá se quebrando agora é um silêncio bastante antigo, né. Então, como é pra você fazer parte dessa quebra mesmo, desse silêncio de falar dos relacionamentos falidos, aquilo que machucou? Como é que você vê isso ressoar nas meninas? E por que isso é tão importante? Eu acho que primeiro eu fiz o processo de me terapeutizar. Ficar bem comigo.
E depois conseguir dar um pouco de conselho, assim. Hoje, minha música, eu penso mais como um conselho. Que às vezes é pra mim, às vezes é pra quem tá me ouvindo. Então, quando eu escrevo enquanto duquesa, existe uma geisa que tá precisando ouvir isso.
Então, é o que eu falaria pra uma amiga. É o que eu falaria pra mim mesma, de frente pro espelho. Porque eu acho também que é complicado a gente assumir essa postura de aconselhar e não andar certo com a gente mesmo, sabe? Tipo, eu sempre tive esse receio de… Caramba, eu tô com autoestima baixa e tô falando de autoestima.
Eu falo, não, então é isso. Acho que eu vou elevar minha autoestima, fazer alguma coisa. Movimentar, sair dessa cama, parar de chorar. Ir pra terapia, entrar na academia, fazer qualquer coisa. Aí, mano, como escrever isso agora? Mas você tá sendo aí. Mas você acabou nas duas vezes inteiro agora. E aí, tipo… Pra conseguir ser a autoridade de falar assim… Mano, vai nisso que dá certo. E aí, quando eu comecei a ver que as minas estavam se identificando…
Eu comecei a fazer mais por elas, assim, sabe? Várias vezes que eu fiz, foi mais por elas. Porque eu precisava de alguém também. Eu precisava de alguém me falando o que eu gostaria de ouvir. E aí, ter essa grande parada que… Eu me senti muito sozinha aqui em São Paulo. Eu nunca tinha enfrentado uma solidão nesse nível, assim. De morar sozinha. E foi muito louco que… Quando eu cheguei aqui, era feriado de alguma coisa, assim, e tal.
E aí, eu ligava pra uma amiga e falava, não, eu tô aqui com a minha família. Ah, eu tô aqui com a minha família. Eu ficava, caralho, eu não tô com a minha família. E aí, eu comecei a pirar, assim. Eu fiquei, caramba, é isso. E aí, aquilo foi me dando fome, assim. Fome de fazer, mano, eu vou fazer tudo que eu tiver que fazer.
Vai dar certo. E aí, eu conheci outro lado, assim. Então, parou de ser um problema, tipo... Não era um relacionamento que era meu problema. Era falta de dinheiro, era estabilidade financeira. Era saudade da família. Coisas mais práticas. Entendeu? Coisas que eram outra coisa, assim, pra mim. E aí, relacionamento passou a não ser mais uma prioridade. So about money.
só isso não pode falar, só lá que dinheiro não pode, tem que falar que são coisas é abstrato mas então, começou a ser outra eu comecei a falar também pra essas minas que tava também no corre que aí eu comecei a perceber que porra, eu tô meio adolescente tipo, as coisas acontecendo dinheiro faltando e eu aqui falando, ai que ele me traiu tipo, porra aí
Ele me traiu e eu tô dura. O que é mais preocupante? Eu tô dura. Entendeu? Isso era preocupante pra mim. Isso era irritante, era frustrante.
Porque se eu tivesse, tipo assim, pô, eu fui traída, mas eu tenho uma grana pra tomar uma cerveja ali. Eu vou tomar uma cerveja, mas não tem grana pra sair de casa. Não tem grana pra tomar uma cerveja, não tem grana pra se mimar. Falei, não, gente. Então, peraí, calma aí, outras coisas. Aí surgiu o 99 Problema. Surgiu outras músicas, né? Você te perguntou um lance. É lógico que cada rapper tem o seu direito de... MenКак MenКак Men Men Men
De assinar a sua obra com a sua própria vida, suas próprias experiências. Eu ouço muitas pessoas falando sobre a mudança de comportamento do rap da nova geração, que não seria tão comprometida. É o que eu ouço, né? O que acabou cedendo para o...
O sistema acabou cedendo pra indústria e os valores principais se perderam. O que você pensa sobre isso? Eu penso que existe o você se vender, que eu acho que é. Você fazer coisas que ferem sua integridade, ferem o que você prega, ferem o seu caráter, a moral e prejudicam os outros. E existe o você ocupar espaços.
Eu nunca me senti desconfortável de ir pra televisão. Nunca me senti desconfortável de dar entrevista, de aparecer em capa de revista, em fazer publicidade, em pousar pra marca. Nunca me senti desconfortável, porque eu não via um corpo igual o meu, um rosto igual o meu, um estilo igual o meu, uma pessoa como eu nesse lugar.
Então, eu preciso ocupar esse lugar. Porque existe uma pessoa dentro de mim que se sente realizada com isso. E que precisava disso também pra reafirmar muita coisa dentro de mim. Então, até ontem, as pessoas falavam coisas tipo... Você precisa emagrecer pra fazer sucesso. Porque artistas não pesam esse tanto. E aí, eu falava, caramba, eu vou ter que emagrecer. Eu vou ter que ser padrão. Eu vou ter que fazer coisas. E aí, eu fiz sucesso com 90 quilos.
Vestindo roupa curta e fazendo meus figurinos e dançando e cantando e sendo eu. E aí, se não eu, quem vai estar nesse lugar? Uma pessoa que desanima quando ouve o primeiro comentário? Porque é isso. As pessoas vão falar, eu vou ignorar, eu vou fazer.
E pra mim é isso. Então, eu nunca me senti limitada. Pra mim, tem coisas que eu nem sei exatamente o que vai acontecer, mas vai acontecer coisas muito gigantes na minha carreira, na minha vida. Porque eu não me sinto limitada. Eu me sinto muito grande, eu acho que eu tenho potencial. Ou então, sei lá, me dá três meses pra eu estudar. Pra eu dar conta, tá ligado? Tipo, se eu não tô preparada agora, me dá só um tempo que eu vou estudar, eu vou fazer algo, vou me preparar e vou dar o melhor de mim.
Entendeu? Então, eu acho que o meu comprometimento é em ser porta-voz, em abrir aulas, em ser essa representatividade. Mostrar que é possível.
E eu vou onde tem que ir. E um… Foda, né? Porque é um comprometimento num lugar de eu vir pra ocupar exatamente o tamanho que eu sei que eu posso ter. Exatamente. Fiquem aí, entendeu? Quem tiver algum BO com isso, tá, beleza. Mas eu vou ocupar exatamente… Você sabe que é muito grande. E você tá aqui pra ser cada vez maior, e é isso. Tem uma diferença fundamental. Quando a pessoa tem família…
Ela falou da rede de apoio Eu concentrei muito a qualidade na mãe dela Mas eu entendi Durante um tempo, você foi contando a mesma história que a minha Você é mulher, homem Você é bem mais nova, eu mais velho Pô, a gente é a mesma coisa, filha única E tal, cheia de som, taurina Controladora Centralizadora, eu sou tudo isso Centralizador, controlador Eu já vejo tudo pronto
Chega alguém com a ideia nada a ver, eu falo, não tenho como, parceiro. Muita coisa. Aí chega no ponto que você fala da sua rede de apoio, que não tinha só sua mãe. Então eu vejo a diferença que tem entrando nessa coisa das meninas negras. Que a duquesa é um combo de representatividade. Além dela ser uma ótima artista. A gente não tá aqui pra idolatrar pessoas, mas a gente reconhece.
Que a duquesa hoje talvez seja um dos maiores nomes. Sim. Não só entre mulheres. Entre homens e mulheres. Representatividade e arte. E o que é apresentado para o grande público. Em números. Tudo associado. Fora que a duquesa é uma mulher bonita. É de Feira de Santana. É baiana. É negra. E tem um histórico de vida que... MenКак MenКак MenКак Men Men Men Men
que palavra que se usa quando você perde um pai com 13 anos de idade nunca nem falava pra isso então, por que que eu tô falando isso? como resgatar outras duquesas que não tiveram essa rede na maioria das vezes não vai ter essa rede e as vezes se você me permitir dar uma emenda
independente da rede que se teve, assim, a gente sabe dos desafios, sei lá, né. Cada pessoa que tá assistindo a gente vai ter um desafio familiar. Mas você traz uma coisa que é não ter medo do tamanho que você tem. Eu acho que todo mundo, todos nós carregamos isso em alguma medida, assim, tipo, caralho.
Acho que eu sei fazer muito… Acho que eu sou muito boa nisso, mas… E no Paulinho, você falou isso um pouco, né. Que a gente aqui no Brasil, a gente tem essa cultura meio cristã de ser humilde demais. E às vezes, humilde demais a ponto de se esvaziar, né, pra não…
Como incomodar. É, e tipo, a coragem de não ter medo, assim, de tipo… Cara, eu vim aqui, eu sou boa nisso, eu vou fazer isso. Eu vou ocupar. Qual que é a importância disso, assim, de fazer essa escolha todos os dias? Mas eu acho que… Eu comecei a ter muitos acessos. E foi muito importante eu ter acessos. Porque eu comecei a entender que… Eu tenho um propósito com o meu dinheiro.
Eu tenho um propósito com a minha vida. Eu tenho um propósito com a minha carreira. Tem gente que tem um triplo de dinheiro e não tem propósito. Então é melhor que esse dinheiro e essa visibilidade esteja com a gente.
Pra mim é isso. Porque se você tem algo e você não sabe usar, você vai fazer besteira, é melhor deixar com quem sabe o que tá fazendo. E pra mim é isso. Então, tipo, eu deixar que outra pessoa, e a maioria das vezes são pessoas que são totalmente diferentes, diferentes de mim, por exemplo. Deixar isso tudo de novo na mão deles, é meio que…
eu anular a minha existência, assim, sabe? Porque eu sei o que eu posso fazer com isso. E eu posso mudar outras pessoas e outras pessoas e outras pessoas. E aí, quando esses acessos e essa condição chega nessas pessoas, estagna ali. E é muita burrice a gente deixar estagnar uma coisa que pode beneficiar várias outras pessoas, entendeu? Então, tipo...
Quando eu penso em como eu vou me projetar pra essas meninas, por exemplo. Eu fico pensando que eu não gosto de ser uma referência de coisa luxuosa. De coisa… Mas eu entendo o meu lugar ali e o acesso que eu tenho. Só que eu nunca vou ter esse discurso de extrema luxúria.
Mas isso não é questão de, ai, você vai... Tem que ser humilde e tal. Eu não acho que é isso. Eu acho que é... Que eu não sei, nunca tive contato com isso. Até meus 19 anos, eu não sabia o que era uma Prada. Não sei o nome disso. Tipo, vim conhecer com os 19 anos. Depois que eu fui num shopping aqui em São Paulo, eu vi uma loja da Prada. Mas até os 19, eu fiquei tipo, tá, o que é isso? Nunca foi uma ambição pra mim.
Nunca quis ser essa pessoa de saber marcas e… Nunca fui essa pessoa. Mas eu acho que tá num lugar, assim… Nem relacionado às marcas. Por exemplo, você deu uma entrevista em 2022 pro Nós Mulheres da Periferia, pra jornalista Beatriz Oliveira.
E aí, você contou a história de quando você encontrou a Monique Velli. E aí, você acabou depois começando a trabalhar com o Caire. E aí, ela colocou no texto que você disse pra Monique que eu quero ser a maior artista joem-bê do Brasil. Então, não é nem as marcas, assim. É a certeza do que se quer, no sentido… Olha, eu quero ser a maior artista joem-bê do Brasil. Ou eu quero ser a maior… Sabe? Essa grandeza, assim, de se apropriar do seu próprio potencial. É, eu me sinto genial. Amo.
Eu me sinto genial. Eu acho que eu penso coisas que são muito boas, muito legais. Eu tenho certeza do resultado que eu trago pro meu trabalho. Porque eu tô envolvida em tudo. A cor que vai pro palco, a cor que vai pro LED do palco. O figurino, o desenho do figurino, a formação da banda. O que a banda vai vestir, o que a banda vai tocar. O que as pessoas vão fazer. Tipo, eu tenho um pitaco em tudo.
Então, tipo, eu me sinto genial nesse ponto, assim, de reconhecer que eu… E eu sempre vou falar coisas boas sobre mim mesma. É uma promessa que eu fiz pra mim. Eu nunca vou falar aqui, nossa, eu sou burra, nossa, eu sou feia. Não, não vou falar. Eu não vou falar, eu não vou jogar essa energia pra mim. Eu sou genial mesmo, eu gosto de estudar, gosto de desafiar. Eu gosto de fazer coisas que eu não fiz antes. Não tenho medo de arriscar.
E é isso, seria muito desperdício, sabe? Tipo, pra mim, na minha cabeça é isso, é muito desperdício. Daqui a um tempo, sei lá, daqui a um tempo eu vou ter uma família, eu vou maternar, e eu vou sentir saudade de ter o gás que eu tenho hoje.
Então, eu quero fazer hoje, assim, sabe? Porque daqui a pouco eu vou fazer… Tá, tô caminhando pros 30, que não é o fim do mundo. Mas é uma idade significativa. Que é outra responsabilidade, outra coisa, outra dinâmica. Tô com 37, posso te dizer que é maravilhoso.
E aí, eu não sei se eu vou estar querendo cantar a mesma coisa que eu cantei com 22. Claro, sim. Tá ligado? Então, eu quero fazer outras coisas e outras coisas e outras coisas. E eu preciso me empoderar disso. De, tipo assim, fazer um som e gostar. O Lino Cris, esses dias, tava falando comigo nisso. Eu tava pedindo conselho ao Lino. Eu converso muito com o Lino Cris, né? Eu tava desabafando um pouco com ele, que eu… Falei, caramba, eu tô fazendo uns negócios que eu não gosto muito, que…
Que eu queria fazer uma música assim e tal. Mas eu não sei por onde começar. E tipo, ele não me deu... Eu penso que você não tá gostando. Eu acho que... Qual som você tá falando que você não tá gostando? Não tá gostando por quê? Não é interessante. Eu fiz muito som que eu não gostei. Que tipo, sei lá, eu falo de... Falo de dinheiro, eu falo de... Fala um, por exemplo, que você não gostou.
No One eu não gostei, por exemplo. Foi a música que todo mundo gostou, mas eu não gostei. Tá, seu direito, tá bom. Não gostei. Todo mundo gostou e tal. Eu falei, é, tá, vou lançar e tudo mais. Mas aí, tipo, tá, eu tava falando sobre uns assuntos meio repetitivos, assim e tal. Conscientemente ou essa consciência é bem agora? Conscientemente. Você sabia que tava repetindo e que era isso mesmo? Eu sabia. Mas também eu não tinha o que falar também. Eu tava sem repertório.
Mas a galera gosta de álbum como gosta de, sei lá, comer fast food, tá ligado? Nós estamos falando com a publicitária, não? É, então… Não se esquece disso, antes de mais nada. Porque é isso, eu sentia que todo mundo tava me pedindo música nova. Ai, eu quero lançamento, eu quero um álbum novo, eu quero EP, eu quero não sei o quê. E eu falava tipo, tá, então eu vou dar um EP aqui pra vocês, eu vou dar umas músicas. E aí depois eu pensei que eu falei, caralho, eu podia simplesmente não lançar isso.
Tem coisa que você não falou? De tema? De música? Tem. Tem. Eu acho que agora eu tô pensando exatamente em quais mulheres eu não tô conseguindo acessar. Quais mulheres que eu não tô conseguindo passar mensagem.
Eu sinto que às vezes eu me deparo com muita pauta vazia, assim. Que eu fico... Não, tem coisas acontecendo agora. Sabe? Fala uma pauta vazia. Uma pauta que eu acho vazia. Que eu acho que as pessoas não vão concordar muito comigo. Mas eu acho que existem coisas mais preocupantes agora. Eu me deparei na internet de uma mina falando. De uma mina branca que colocou trança.
E eu entendo Eu entendo sobre a apropriação cultural Eu compreendo a revolta Eu compreendo todo o contexto Mas nesse mesmo momento Uma ex-vizinha minha Teve depressão pós-parto aos 17 anos Ela deixou o filho dela Na primeira casa que viu Isso é preocupante
Isso é preocupante, porque a avó dela ficou preocupada, a mãe dela ficou preocupada. Todo mundo ficou preocupado. Onde é que a menina tá? A menina tá vulnerável. Tinha oito dias que ela tinha tido o bebê. Isso é preocupante pra mim. Como essa criança vai crescer? Qual vai ser a rede de apoio dela? É tudo importante. Vários jovens morrendo enganado. Sim. Uma médica acabou de morrer. Ser assassinada pela polícia.
Isso é importante pra mim. Na minha cabeça, eu realmente fico pensando o que exatamente não estamos vendo, não estamos falando sobre. É muito importante eu falar sobre a mina branca que tá usando trança? Tem uma militância também, filha. É, não. Olha, eu… Não. É, então, é realmente… Tem militância esvaziada também. É, então, é realmente importante, tipo assim…
A questão de cabelo pra mulher negra... Olha o que vai falar de cabelo. Um homem negro. Eu não sou nem mulher, certo? Eu entendo que eu vi minha mãe... Mas você tem cabelo. Cabelo. Tenho cabelo, tá? Entendi. Tenho cabelo. É...
É, questão de cabelo, eu entendo. Todo questionamento do cabelo da mulher negra e tal, tal, tal, tal. São lutas e lutas. Lembro da minha mãe colocando o pente em cima do fogão assim, fritando, a fumaça subia pro cabelo ficar liso. Exato. Pra poder arrumar emprego. Porque jamais seria aceito uma trança. Uma negra de trança não arrumava emprego. É. Como um homem de trança também não.
Quando você viu um homem negro de trança, você já podia... É um desempregado. Jamais ele estaria trabalhando usando trança. Era questão de... No RH, né? Recursos humanos. Aparência, cabelo cortado, barba, cabelo cortado e raspado. Esquece. Trança. Entendeu? Então, era uma coisa extremamente marginal. Quando a gente... É lógico que a gente entende as prioridades. Eu também sou crítico à militância, Paulo.
Eles puxam a minha orelha, eu puxam a deles também. Porque a gente tá vendo as coisas. Tem hora que as pessoas militam da forma errada. É. Não esvaziando pauta de ninguém. E nem querendo pôr uma... Que a minha pauta é mais importante que a de ninguém. Eu nem tô falando muito. Tem muita gente falando. E muita gente falando coisas importantes. Mas eu vejo também gente fazendo cena.
Exato. E fazendo cartaz, às vezes… Não que não seja uma dor coletiva. Óbvio que o cabelo e tudo mais, a propriedade cultural tá no lugar das dores coletivas. Mas fazendo cartaz das nossas próprias dores, né. E às vezes nem tá ligado a movimento nenhum. Não tem uma linha, assim, política pra seguir. Não, tô aqui falando do que me incomodou. Mas eu acho que você, por exemplo, em Tauros tem uma rima sua que diz ela quer comprar tudo que já nasceu com a gente.
em Big D você começa eu já estaria milionária se eu fosse mais clarinha isso é polêmico tá dito, né mas clarinha como? talvez mais clara, talvez mais magra talvez tem, tem cara mas é isso, tipo eu entendo que eu preciso criticar também comportamentos que eu não gosto de gente se passando perto de mim
Não é pra se passar. Pessoal, não se passa. Não se passa. Tipo, mas é isso. Porque até ontem, a minha boca era, assim, esse nome de piada. Hoje em dia, todo mundo tem um preenchimento, uma coisa. E tudo bem, sabe? Tipo, tudo bem, só que…
Com tantas outras coisas acontecendo, eu não vou me concentrar só nisso. Até porque não vai parar. Exatamente. Não vai parar, sabe? Tipo, querendo ou não, lá no Pelourinho tem várias gringas que pagam pra poder fazer uma trancinha.
E deve ter uma galera pra ele estar ganhando um dinheiro com isso aí. Dinheiro com isso. Então… Então, tipo assim… E vamos lá, cada um fazer seu pão. Exato. Então, é isso. As minas, elas… Eu fico preocupada nessa questão de elas concentrarem em uma coisa só pra criticar e esquecer do todo que tá acontecendo, sabe?
E esse todo que tá acontecendo, que você já falou de várias… Você tá preparando alguma coisa nesse sentido? Como é que isso tá te tomando? Eu tô indo pra Bahia com muito mais frequência agora, né? Eu tô tentando ficar mais próxima de casa. Tô tentando entender quem eu sou, o que me forma enquanto duquesa. O meu bairro, as coisas que eu vejo, as coisas que eu analiso. Precoce essa análise já, hein?
Porque… Decipado, né? É, então. Mas é porque também eu me senti muito estranha aqui em São Paulo. Deixa eu te perguntar um negócio. São Paulo é musical ou não é? Eu acho musical. Ah. Eu acho. Qual que é a aura? Qual que você sentiu quando você vem morar aqui? Ah, então, a galera que tem… Qual que é o som que… Não, mas a galera tem facilidade de gostar de coisas. Então, às vezes pode ser um som experimental e a galera curte. Curte, sim.
Entendeu? Ou então, tem um teatro que eu fui que era um espetáculo, que era único e era artista totalmente underground e era coisas só experimentais, sabe? Tipo, aquilo de você colocar um vocal, tipo, e fazer vários reverbs e um teclado. E eu falei, caralho! Tipo, eu nunca vi isso na vida. Nunca vi isso na vida, mas eu gostei.
E aí, eu fiquei pensando, porra, esse delay é muito, muito bom. Esse delay é muito bom, esse reverb é muito bom, esse teclado é muito bom, esse sintetizador é muito bom. Mas eu acho que aqui as pessoas têm a facilidade de gostar do que é diferente com muito mais facilidade, tá muito mais aberto a ouvir. Tipo, na minha cidade, eu tinha cabelo laranja, era terrível, sabe? Mas aqui ia ser ótimo eu ter cabelo laranja, porque a galera ia gostar com mais facilidade. Na minha cidade, era meio difícil, assim, né?
Entendeu? Eu também passei pela fase do escovar o cabelo pra poder ir pra um trampo de recepcionista. Me candidatar. Mas eu me sentia muito estranha aqui em São Paulo por não ter a mesma, sei lá, ideologia, não sei. Eu parei de me sentir estranha de uns tempos pra cá.
Que eu chego, eu falo alto, converso com todo mundo. Oi, fulano, não sei o quê, não sei o quê. Se a pessoa trabalha comigo mais de uma vez, eu encontro de novo, eu falo, e aí, menina, como é que tá? Não sei o quê, não sei o quê. Começa a conversar com tranquilidade. E as pessoas daqui, principalmente os artistas, eram, tipo, mais elegantes. Falam baixo. Mais recatados. Você não foi na Sabinha ainda. Eu do Big falar aqui.
Lá na Heitor Penteado, você vai ouvir. Forte abraço, Big, te amo. Duquesa, eu tava pensando, vendo você falar e pensando aqui, uma conversa de duas mulheres inteligentes, o certo é eu ficar ouvindo, certo? Eu vou tentar trazer o elemento do sexo masculino pra dentro da ideia.
O que que a mulher, sei lá, a duquesa e a ser maiada das mulheres negras jovens, da vanguarda, pensando, atuando e roteando, né? Online e roteando. O que que falta pro homem negro ser, pra você fazer uma música elogiando?
Um homem negro. Porque eu tô vendo que as músicas tão vindo como? Daquele jeito. E as compositoras não tão dando boi, né, mano? Tipo assim, não tá dando boi. Eu tenho dó dos caras, eu não tô nem aí pra eles, né? Eu já tô velho mesmo. Eles têm que mostrar futebol. É. Já mostrei meu futebol, tá aí. Certo? E aí, o que que falta? Existe esse homem negro idealizado? Seria como?
Mano, eu acho, tipo assim, se eu fosse um cara nessa cena, eu acho que eu não teria medo. Eu acho que os caras têm medo. De? De ser zoado pelo amigo, de usar um cabelo diferente. Ah, você já falou isso. É, então. É isso que você acha? Eu acho, eu acho, tipo assim, cara, de verdade. Porque é isso também, eu acho que as mina…
Não tem tanta facilidade de transitar em... Pra gente acessar o pop foi um pouco difícil. Mobilidade. Mas os caras têm muita facilidade. Tipo, você vê o Cabelinho fazendo música com o artista pop, e a Nita, e etc. Que tipo de facilidade você acha que tem? Os caras têm facilidade de transitar no meio do sertanejo, no meio do funk, no meio do pagode, no meio do pop, no meio do reggae.
Tem nome essa faculdade? Acho que fama. Eu acho que aceitação do público. Mas eu acho que nesse momento atual, as mina tá começando a transitar e furar essa bolha. Tem muito mais artistas homens no nosso meio. Exato. Proporcionalmente. É, proporcionalmente. As mina tá chegando agora nesse espaço.
Mas sei lá, eu arriscaria, sei lá, mano, um solo de guitarra. Eu aprenderia guitarra. No meio do palco, várias rimas. Você tá certo. Não, não, não, não, não. Eu pegava a guitarra e tocava. Fico pensando, cara, é só gritar? Então por que eu tô me martilizando num salto 19 aqui no palco e dançando e com fôlego? Meu diafragma igual uma pedra pra eu conseguir... Você queria ver quem, vai. Fala agora um show que você queria ver agora.
Eu gostaria de ver o show, pode ser todos os artistas ou homens? De todos os tempos. Mano, eu assistiria um bilhão de vezes o show da Cisa. Cisa. Eu, eu... Mil bilhões de vezes também. Você é muito inspirado nela ou não? Eu me inspiro muito nela. Qual outras? Eu assistiria várias vezes o show... Até mesmo nas minas da cena agora. Assistiria muito o show da Buda. O show da Buda é muito bom. O show da Luana é muito bom. Luana.
Então, a gente já dividiu o palco. Eu pude ver, tipo assim, atrás do palco, na frente do palco. Tipo, todos os shows delas. E eu falava, caramba. E das artistas globais? Das globais. Do geral, digo, o mundo. Não o Rede Globo. Global? Gosto muito do Doja Cat. A Doja Cat é um tipo de performance que eu me inspiro muito.
Ela realmente é muito sagaz no palco. Parece que ela tá se divertindo. Ela se joga, ela levanta, ela dança, ela brinca, ela conversa com o público. A banda se comunica. É uma coisa muito doida, assim. Você fica totalmente preso. O Rema também tem um show muito bom. E eu acho que esses artistas, assim, fariam o que eu assistiria mais de uma vez o show. Michael Jackson, não?
Como eu vou assistir o show do Michael Jackson? Não, tipo assim, se você pudesse. De todos os tempos. Ah, de todos os tempos? De todos os tempos. Lascou. Ah, sim. Pô. Pode parecer ridículo ver o show do morto, mas é isso que eu falei. Se pudesse, entendeu? Suposição mesmo.
Ai, eu acho que eu assistiria o da Whitney Houston. Tá. Whitney. Eu adoraria ver o show da Whitney Houston. Se fosse, tipo assim, artista de todos os tempos. Whitney Houston. Eu falei todos os tempos, ela poderia dizer aquela que é Billie Holiday. Billie Holiday. Billie Holiday. Certo, que as meninas em Delza, né? Sim. As rebeldes em Delza, Billie Holiday. Billie Holiday. Isso que eu falei de todos os tempos. Inclui vivos e mortos, lógico. É, então…
Mas eu queria resgatar um outro aspecto da pergunta do MB. Que eu acho muito importante, né. Que ele também perguntou num sentido de… O que falta pras mulheres, de repente, fazerem composições. Se eu tiver entendido errado, você me diz. Que tragam um aspecto positivo dos homens, os homens negros, a masculinidade. Porque eu acho que a gente tem vivido um momento que eu considero muito importante e especial, Brau. E aí, eu vou trazer a minha opinião. De ter muitas mulheres compondo, falando sobre como os homens MenКак MenКак MenКак Men Men Men
estão sendo insuficientes em muitas camadas. Exato. Eu acho que tem muitas dores reprimidas das mulheres mesmo. De anos, de séculos, assim. E muitas vezes, talvez não teve espaço na indústria, o que você disse, né. As mulheres têm mais dificuldade pra alcançar o pop. Eu acho que talvez seja um momento importante em que no Brasil a gente tem conseguido músicas que são populares e que falam…
De sofrimentos e de raiva em relação aos homens pela perspectiva das mulheres, assim. E eu acho que isso é novo, isso pode assustar os homens. Mas faz parte de uma repressão que a gente sofreu também, né? Eu fiz uma pergunta, tá? O que a gente pode fazer pra ajudar, pra melhorar? Eu já fiz, né? A gente tem umas músicas que falam merda no passado, gente. Já falamos merda no passado. Sim. Continua aí.
Tipo, hoje isso. Eu acho que assim, pelo menos ao meu ver, o público acha que todas as músicas é pra indireta dos homens da cena. Ah, é? Não, nem… E nem sempre são os homens da cena. Às vezes é o homem que é público, que é escroto pra caramba quando a gente sobe no palco. Às vezes é um…
Um homem que tem poder dentro do mercado de dizer um não, de, tipo, essa mina não vai, essa aqui vai, essa aqui eu não gosto, essa aqui eu gosto. Tipo assim, tem isso também, sabe? Tipo, existem homens em vários setores da indústria que atrapalham o processo de crescimento de um artista.
e é isso, a crítica é realmente pro comportamento masculino de como tem esse poder de decidir as coisas, de quem que é a melhor, de quem que é a pior, de quem vai fazer sucesso, de quem não vai fazer sucesso ainda esse poder fica na mão de alguns homens e aí em contrapartida existe um público que aí aí
Não entende exatamente, como é que eu posso dizer? Eu não sou a favor de forçar os homens a me ouvir. Eu não tenho essa ideia de, tipo, o homem tem que ouvir as meninas, que não sei o quê. Eu não sou a favor, tipo, não me escute. Simplesmente não me escute, não te agrega, não me escute. E tudo bem. Mas eles atrapalham o processo.
Porque eles comentam, eles falam besteira, eles fomentam, eles se unem de forma negativa. Eu fico, cara, você não escuta, você não gosta, porque você só não ignora esse fato. Só segue sua vida. Só segue sua vida. E tudo bem, tá ligado? Tudo bem. Mas eu acho que assim, por exemplo, voltando à pergunta. Eu acho que os homens poderiam colaborar com as mulheres de uma forma mais… Ali no tete a tete.
Eu sou chamada majoritariamente pra fazer feats românticos. Os caras só querem me ver falando coisa romântica. Assim, um beijo pra todos os caras que eu já fiz música. É isso. Muito obrigada pela oportunidade. Mas eu gostaria de rimar.
Eu gostaria de falar coisas. Seria pela sua voz, não? Pela sua afinação? Pela sua facilidade de... Não, sinceramente, eu acho que... Você não acredita nisso? É, já teve situação de querer regravar a música. Porque eu fiz algo. Sabe? Então, tipo assim... Cara, se você tá inseguro com sua rima... Você nunca fica frustrado de perder pro seu amigo. Mas se eu tiver na mesma faixa, tipo...
Bate sem segurança, porque, tipo, é inaceitável perder pra uma mina. Eu acho que o grande ponto é esse. Em uma cipher com cinco homens, se destacam dois versos, mas eles não se importam. Eles veem aquela cipher como um grande hit deles. E é deles, no plural. Mas aí, se uma mina rouba a faixa, acabou.
Acabou. Por que chamaram essa mina? Por que não sei o quê? Então, tipo, o cara fica tratando com banho-maria. Dentro do rap, da própria mídia do rap, você acha que é desigual? A própria mídia é machista? Eu acho que os títulos são... A mídia do rap, eu tô dizendo. Então, acho que as mídias são um pouco... Eu não sei se elas têm essa noção, as pessoas que administram páginas e etc. Se tem essa noção. Mas quando alguém coloca no título que a duquesa é o futuro.
Na minha cabeça, essa pessoa tá atrasando minha bênção. É mesmo? Porque eu já sou agora. Você já é a... Eu já sou agora, então... O presente. Então, me colocar como promessa de algo que eu já tô fazendo hoje é atrasar o que eu posso ter hoje. Porque as pessoas vão entender que, tipo, olha, a duquesa vai fazer algo. E não, tipo, não é que eu vou fazer algo, eu estou fazendo algo. Tipo, as minas vão dominar tudo. Tipo, vai.
Tipo assim, futuro. E as minhas estão fazendo tudo isso agora. Então acho que atrasa um pouco o processo. Essa coisa de colocar rap feminino também. Embora seja um debate um pouco cansativo. É verdade, sabe? Denominações, mas é importante. São nomenclaturas que atrapalham. Mas a falta de nome também atrapalha de nome. Falta do lugar, não.
É, mas eu acho que se unir isso e falar que somos pertencentes ao mesmo cenário, eu acho que já facilita. Entendeu? Eu acho que vocês criaram um cenário novo. Eu acho também. O cenário antigo não era seguro pra vocês, não?
Teve que criar um outro. E por que eu pergunto sobre os homens, não? Porque você acredita que há possibilidade de conviverem bem? Homens e mulheres e... Acredito que você terá filhos, né? Você pode vir a ter filhos homens. Ensinar homem a ser homem, homem negro.
Tem grande possibilidade de ter um filho negro também. Sim. Talvez você entenda algumas dificuldades, algumas coisas do homem mesmo, que só a mãe consegue... Exato. Captar. E talvez o silêncio dos homens negros e essa máscara que foi vestida desses três personagens centrais, malandro...
engraçado ou bonitão vamos dizer, o bonitão é a nova categoria do preto agora o bonitão tá tendo, né? é, e tem o malandre, tem o engraçado e tal, você tem que ficar dentro desse desses estereótipos desses estereótipos, porque é agradável o olho do, do, de todos não só do branco, como do brasileiro no geral, certo?
tô insistindo na coisa da figura do homem você é uma mulher inteligente então eu tô forçando um pouco pra cima de você essa questão o que fazer? como tirar de você o que eu quero ouvir? eu não tô conseguindo, cara mas existe utilidade para um homem no século 21 2027 tem utilidade pra um homem? dentro do hip hop? dentro da sociedade? tem utilidade? claro
Eu acho que os homens, quando eles acendem, eles têm uma tendência de se afastar exatamente de onde saíram e quem eram, sabe? Eu acho que sai do limbo e cria repulsa pelo que vivia. Os caras, eles têm uma sede de vencer. E aí, quando vencem, eles se afastam muito do que eles veem na própria quebrada deles, sabe?
E aí perde o senso de política. Você tá falando do homem preto, certo? Perde o senso político. Perde o senso do que realmente tem que ser feito. Perde também o senso de que ele é representante de algo.
E aí quando esse senso vai perdendo, perdendo, perdendo, perdendo. Porque a gente sabe que a grana é muito confortável. A música que vende é muito confortável. O interesse da mídia é muito confortável. Edita a moda, mulher ou homem? Eu acho que ainda tem um dedo masculino de tal como as coisas têm que ser. Mas isso não quer dizer que está acontecendo e a gente está obedecendo.
Eu acho que o de estar e obedecer são coisas opostas. Eu acho que o olhar masculino pra algumas coisas do tipo... O tipo de corpo que eu preciso ter pra tal objetivo. Parte de um olhar masculino. Aham. Que as próprias mulheres acabam internalizando. Exato. Tipo, como é que você vai querer um cara se você não tem cabelo longo?
Se você não se baqueia. Ou vestida assim. Ou vestida assim. Isso é muito uma coisa que a gente absorve de um olhar masculino.
tradicional brasileiro, da mulher que é criada pra casar com o homem X e com o Paulo Gachim. E agradar o homem também. Ainda tá nesse projeto, né? Mas eu acho que a gente não percebe quando a gente replica. Eu acho que o grande problema é isso. A gente não percebe enquanto replica algumas coisas, sabe? É que nem, por exemplo, algumas minas criticam mulheres por fazer lipo.
Ai, que ódio, ela fez lipo, que não sei o quê. Emagreceu, parou, não sei o quê. Eu prefiro você natural, que não sei o quê. Mas tipo, gente, eu não quero um homem ditando o que eu tenho que fazer com o meu corpo. Ou não. E também não quero uma mulher ditando o que eu tenho que fazer com o meu corpo. Porque se eu odeio essa atitude vinda de homens, eu vou odiar igual vinda de mulheres. A gente não pode replicar o que a gente odeia no outro. Essa relação de poder independente.
Em relação, seja ela entre homem com mulher ou mulher com mulher. Relação de poder ou queda de braço de quem manda, quem obedece. É perversa. É porque as pessoas acham que só existe isso no universo homem e mulher. Onde o homem existe...
Ele executa o que ele aprendeu desde a infância. Ele exerce a força e tal. Mas isso não se resume apenas às relações de homem e mulher. Só que os homens, eles se favorecem quando as mulheres entram nessa picuinha, assim, de falar do cabelo da outra, falar do corpo da outra, falar da roupa da outra. Tipo, os homens se favorecem com isso, sabe? Eu acho que na cabeça masculina, tipo assim…
Elas brigam, elas fofocam delas mesmo, sabe? Elas se odeiam, no fundo elas se odeiam. Então, tipo, a gente colabora com coisas que são impostas por homens. Mas eu acho que tem um lance que é os homens… Por exemplo, eu tenho um filho de dois anos. Eu já consigo ver nele com dois anos, como ele mimetiza meu marido.
Eu sou, óbvio, eu sou a mãe dele, eu sou uma referência. E pretendo continuar sendo uma mãe que guia o meu filho pra ser um homem massa no futuro. Mas ele vai mimetizar os homens que estão ao redor dele. E aí, eu acho que aí tem uma responsabilidade muito importante. E aí, é o que eu falo um pouco da insuficiência no sentido de repensar o que a gente precisa mudar um pouco dessa masculinidade. Então, quando eu ouço…
você e outras rappers, eu fico feliz de saber que existem dores femininas que eram silenciadas e que hoje encontram voz. De saber que tem meninas de 12, 13, 14, 15, 16 anos que vão saber identificar um pouco o que é uma relação abusiva. O que é o controle dos nossos corpos. Porque a gente tem uma sociedade que é…
Guiada por parâmetros patriarcais, assim. A gente vai mimetizando isso. Então, os meninos, as crianças… O meu filho, por exemplo, eu vejo ele fazer isso todos os dias. Ele mimetiza o pai dele. O meu filho, ele fala assim… O papai é muito grande. O papai é o mais grande. Tudo…
que é muito grande, ele chama de papai. Os ursos e os brinquedos maiores que ele tem, ele chama de papai. É lindo isso? É lindo. E olha a responsabilidade do meu marido em ser um homem massa. Grande. Grande, que respeite as mulheres, que respeite a mulher que ele tem, que sou eu, que respeite a mãe dele. Porque eu acho que muitas vezes a gente coloca na figura da mãe duas responsabilidades.
A de ser a que vai construir um grande homem. E de ser aonde esse homem vai buscar o apoio, o amor, o colo, tudo. E a culpada do resultado desse homem, né. É, e isso é muito pesado. Então, eu fico pensando muito em como os homens precisam sair dessa insuficiência de conseguir olhar pra essa condição que a gente tem vivido. Porque a gente não tá falando de uma condição, assim, trivial. A gente tem visto notícias de assassinato…
banais todos os dias. É muito violento. Os meninos estão aprendendo com outros homens. Exato. E é fora de casa, porque você vai investigar essa mãe e essa mãe criou com educação, com amor. Inclusive, saiu um estudo de que a maioria desses casos de assassinato, de violências praticadas por adolescentes são de adolescentes de colégio particular. De dinheiro.
Então, tipo, realmente falta alguma coisa em casa? Porque não falta, cara. Entendeu? O tipo de crime... Talvez uma sensação de impunidade, não? Talvez, eu acho que o ego de achar que nunca vai acontecer nada. O poder de ter uma família... O poder de ter uma família...
como é que eu posso estruturada com pai, mãe, com dinheiro protegendo com a possibilidade de você, tipo, sei lá férias, Disney e dinheiro e acesso e celular do ano e tudo então, tipo, nada vai acontecer pra ele na cabeça dele nada vai acontecer e acabou então esses caras, eles procuram caras que eles querem se espelhar que nem sempre é o pai deleКак MenКак Men
Às vezes é um coach que tá falando que ele tem que parar de ser otário, de ser CLT e começar a mandar na mulher dele. Você precisa ter uma mulher gata do lado. Então, tipo, são outros acessos. A gente cria... A gente cria... Eu nem... Mas eu acho que nesse momento, as mulheres criam e o mundo estraga.
Cria e o mundo estraga. O tempo todo. Porque vai pra internet, tem acesso a um conteúdo que muda a química do cérebro e acabou. Aquilo vira uma verdade. Esses dias, por curiosidade, eu fui assistir o documentário dos Red Pills. Ah, você assistiu? Eu assisti. E aí o repórter foi muito provocador, assim, no sentido de entender como esse cara que tava falando bobagem na internet se comporta com a esposa dele. Como ele se comporta?
A esposa dele falou que ele é outra coisa em casa. Um dos caras falou que ele era outra coisa em casa. Mas ele tem um personagem onde faz tudo que ele tem vontade, mas não tem coragem. Exato, porque é exatamente isso. Tem uma coisa chamada ragebite na internet. Que o ragebite é exatamente isso. É uma onda de ódio em troca de like. Então você vai abrir a sua rede social...
E vai ver um cara falando Nossa, Mano Brown é vendido Mano Brown não sei o que Mano Brown não sei o que E nem ele concorda com isso Mas traz comentário Traz visualização e traz dinheiro Porque é monetizado esse conteúdo Então essa onda de ragebyte É real assim E aí esse menino que a mãe Cria tão bem Com tanta educação Ele obedece a mãe MeninoКакКак MeninoКак Menino
Mas ele não sabe reagir no mundo, porque no mundo tá mostrando que é uma possibilidade você ser um escroto. E que tá tudo bem. O cara que é escroto, ele tá ganhando dinheiro, ele tá saindo com várias mulheres. Ele tem carro, ele tem iate, ele tem possibilidades, ele tem fama. Tem vários amigos. Então ele não precisa de ninguém, ele não precisa nem do pai dele. Ele é capaz de falar assim, não, meu pai é um bobão, sai pra trabalhar todo dia.
Eu só fico na internet, eu vendo na internet, eu faço dinheiro na internet, em casa, entendeu? Tem essa parada. E que eu acho que o ambiente familiar, ele é muito corrompido com a internet, porque a internet dá um leque de possibilidades que é muito difícil um pai ou uma mãe controlar firmemente isso, sabe?
As opções que o mundo oferece. É. Tem gente que experimentou droga a primeira vez na escola. Total. Você paga em colégio, você leva no colégio. Seu filho tem horas e horas dentro da escola. Vai chegar em casa, vai te obedecer, vai lavar prato, vai fazer comida, vai fazer tudo que você mandar. Mas ele é outra pessoa fora de casa. E isso acontece com mais frequência do que as pessoas imaginam, entendeu?
Eu percebo isso até, por exemplo, da… Eu tenho algumas fãs que… Eu geralmente falo que não gosto de fazer música pra menor de idade. Menor de idade não deveria me ouvir. Porque não tem cabeça ainda pra saber o que eu tô falando. Em 99 Problemas, quando eu falo… E que não tá na lista? E que não tá na lista? Eu não tô falando sobre aquilo.
Eu estou falando com a vivência de uma mulher maior de idade e falando que se você tem conta pra pagar, se tem cartão pra pagar, aluguel pra pagar, tem coisa pra comprar pra comer, você não tem que ter isso na sua lista de prioridade, entendeu? E uma mulher adulta consegue compreender o que eu tô falando. Mas a mina de menor, ela vai achar que eu só tô botando o dedo da cara de homem.
Ah, eu gosto da duquesa quando ela humilha o homem. Tipo assim… É essa ideia. É essa ideia de, tipo… Eu não tô humilhando o homem, eu tô falando sobre a minha vivência.
É óbvio que também eu tô falando aqui sobre homens, mas sem ignorar que o patriarcado existe, que a grande maioria das mãos que decidem as coisas são mãos de homens. Sim, sim. Eles ainda controlam, a grande maioria das coisas, eles têm o poder na mão, né? O poder da comunicação e tal. A ideia é entender esse movimento que tá vindo também, que eu apoio, tá ligado?
Lógico, eu sou de uma geração mais antiga que a gente veio de um mundo que era totalmente homofóbico e exógeno. Dei a minha contribuição desinteligente em épocas de escuridão total também. Falta de conhecimento mesmo, eu digo até assim, da ignorância mesmo. E coisas que hoje eu abominam.
Certo, coisa que eu abomino. Acho esse movimento Red Pill ridículo. Absurdo. Só pode ser realmente um alter ego com um filme de mau gosto. Eu acho ridículo esses movimentos. Acho que também a internet alimenta certas coisas ridículas e elas o acabam materializando.
Certo. Vontades mórbidas e curiosidades mórbidas e vontades não declaradas, não? Sim. Eu não sei se a internet é um mundo real que a gente não vê. Porque dá a impressão que quando você está sozinho com o seu celular é quando você é mais sincero, né?
É, encostar em casa… Você entrega tudo. E ignorar aquilo é um perigo, não. O que tá sendo dito ali. É um perigo ignorar o que tá sendo escrito ali. Total. Mano, a partir do momento que criança fica falando como ganhar dinheiro…
Eu falo, o que isso aqui virou? Virou uma vase aqui? Mas até o que se pensa e o que se escreve. Se escreve muita sujeira. Muita. Muita maldade. Muita maldade. Muita. Muita ódio, muito ressentimento. E eu entendo todo tipo de sentimento humano que existe. A gente sabe que existe porque a gente sente também. Sentimento, mágoa, raiva. Eu não preciso de muita coisa. Todo domingo à tarde o Santos me faz ter sentimentos.
É que realmente eu não gostaria... Se eu fosse pra internet. Eu me sinto espiritualmente rebaixado às coisas que eu penso. O Santos me faz pensar. As palavras que eu emano para o ar. A cada lance que o Santos...
Porque eu fui falar besteira e perdi o foco. Eu acho que tudo é energia. Tudo é energia. E eu apoio. Eu acho que o homem tem que colaborar. Mesmo quando ele é ignorante. E quando ele é...
arcaico e tá quase caindo em desuso igual foi o termo usado lá, né? caindo em desuso é foda? eu perguntei pra que o homem serve no dia de hoje, né? pra que serve? você é casada, tem um filho casada com o homem então você pensa como ela? em que sentido? ou você pensa diferente? porque ela não tem filho ainda como você vê? a questão do homem criar o homem como é que...
A gente até conversou no bastidor algumas vezes, né. O como ter tido um filho menino foi fundamental pra mim. E fez com que eu olhasse pra várias questões em relação a gênero de um jeito bastante diferente. Eu acho que eu já tive uma fase na minha trajetória que eu já fui muito mais combativa e ferrenha. Eu acho que as mulheres têm uma tendência hoje…
Pra resumir, eu acho que a gente se acostumou ao longo da história a ouvir falar mal de mulher. A gente se acostumou a ouvir falar mal de mulher. Ah, sim? Em todos os lugares, tá? Música, cinema, tudo na arte, na vida. Se você não tiver esse assunto, você não consegue conviver com outras mulheres.
E com homens também, a gente se acostumou Eu acho que a gente tá vivendo um momento agora Em que a gente tá falando um pouco do que tá incomodando na masculinidade Não tá dando, não tá rolando, tem que mudar E eu acho que isso tem causado uma sensação de perda de poder e tudo mais Mas assim, os homens têm um papel fundamental
Na sociedade. Sim. Um deles é de realmente se organizarem e se repensarem. E verem pra onde a gente pode ir. Se tem muitas mulheres dizendo assim, não tá da hora. A gente precisa fazer ficar da hora. Porque a convivência, pra mim, é fundamental.
Eu falo como uma mulher que tem um marido, que é um homem preto. Uma mulher que tem um filho, mas uma mulher que tem um pai também. Uma mulher que tem tios. E que vê como essa masculinidade mata e tira muito de todos eles, todos os dias. Quando eu falo do machismo e do patriarcado, eu tô falando do meu corpo com uma mulher preta. E que tem uma sobrinha que é uma menina preta. E eu olho pras notícias que estão aí fora e eu fico horrorizada.
Porque são violências muito macabras. E eu tenho medo de pra onde isso vai. Então, eu acho que, por exemplo, o Joel Pavioti, que sentou aqui, tá fazendo um trabalho espetacular em dar visibilidade pra vários casos. E falando sobre isso, pensando sobre isso. Agora, o meu filho tem no pai dele uma referência primordial. Eu tenho no meu companheiro um parceiro fundamental por equilíbrio da minha própria vida.
Sim. Entendeu? Então, a minha casa, que eu falo que é o meu primeiro quilombo ela é formada pelo meu marido, que é um homem hétero por uma mulher, que é uma mulher hétera, cis, né como a gente diz hoje, e por um menino que tá se formando tá se crescendo, e vai descobrir como é que ele vai se colocar no mundo e eu quero que ele se coloque no mundo como um homem bom generoso com o outro, com um homem que colabore pra sociedade porque os homens racionais, ou racionais, ó, Brau MenКак MenКак
Tem tudo pra colaborar. É isso mesmo que vocês ouviram. Porque a contribuição do Racionais é fundamental, cara. Fala Racionais! Pra construção dos homens, sabe? Os nossos homens aqui, falando de periferia, de negritude, de Brasil. Então, é uma contribuição maravilhosa. Acho que é por isso que saiu tão naturalmente, entendeu? Tipo, você e o trabalho do Racionais tá no homem que dorme e acorda comigo todos os dias. Olha a importância disso, entendeu? E eu tenho...
a possibilidade e a sorte de ter um cara que é um ótimo parceiro, um ótimo aliado. Um cara que tá tentando… que tá buscando se repensar, que dialoga com outros homens. E que é um pai espetacular, não só do meu filho, mas de um filho que ele tem de 16 anos também. Então, os homens são fundamentais. Eu acho que, em contrapartida, nesse novo espaço… Vamos dar uma pensada. Nesse novo espaço de, tipo, mulheres terem destaque nesse cenário atual, principalmente do rap.
Eu acho porque, voltando ao ponto do Racionais, por exemplo, tem o Negro Drama. Eu chamo de Racionais. Negro Drama. É uma música que muitos homens se identificam, que é meio que tipo assim, o pobre louco. O cara que tem algo ferido, que ele quer estar na moda, que ele quer ter acesso, que ele quer ter, que ele quer ser, e ele ainda não é. E aí, ele se martiliza naquilo do que ele ainda não é. E tipo, ele consegue traduzir o que um homem preto sente.
E em contrapartida, eu acho que o que está acontecendo agora é que a gente normaliza ouvir o negrodrama, compreender a música, compreender a mensagem.
E o público ainda não consegue entender que mulheres também se identificam. Porque mulheres também se sentem impactadas com aquela mensagem. Embora não seja a negra drama. Ou, tipo, botaram totalmente feminino o discurso. Mas é um sentimento que não é… Não é exclusivo masculino. Só que uma mulher, quando verbaliza isso, tipo… O que você tá reclamando?
Tá se sentindo de quê? Tá com frescura de quê? E a mulher também tem essa coisa do tipo do não ser, não ter, não poder, querer, não conseguir. Tem essa identificação. Só que eu acho que é isso. O público anula a possibilidade de uma mulher ter uma vivência tão... tão próxima de um verso do Racionais.
Existem mulheres no carcerário, tipo? Existem mulheres presas? Existem as minas que estão gestando, presas na cadeia. Existem as minas que estão fazendo um corre. Existem as minas que estão trabalhando de coisas que nem elas mesmas querem pelo dinheiro. Um por amor, dois por dinheiro. E é isso. Existem mulheres com essa vivência. Só que eu acho que é isso. Agora, a gente está conseguindo traduzir e falar, tipo, o meu discurso também é importante, tanto quanto. Entendeu?
Negro drama, ela é feita por duas pessoas, ela é feita sobre duas análises. Uma racial, sobre a raça no geral. O Ed Rock fala da raça no geral. E a minha parte, eu falo da minha mãe. Uma negra e uma criança nos braços, solitária na floresta de concreto e aço. Eu nasci na liberdade.
Que é centro de São Paulo. Então ali eu tô falando de mim. E a minha mãe como personagem central. Eu não sei em qual momento eu viro o personagem central da narrativa. Eu nem sei se eu viro. Mas de cara eu falo dela. E do abandono. E aí... E ela também é baiana. E aí eu tenho uma vivência que se aproxima muito da sua. Então. E é isso. E aí eu tento traduzir. Mas eu acho que as pessoas escutam. Acatam a sua parte.
E talvez não abraçam tanto quando eu verbalizo que, tipo, eu já passei por isso, eu sei como é isso e, tipo...
Tá, tá bom, tá bom. Já é. Mas um cara, quando ele fala, tipo... Mano, darem o filme e tal... Os cara se emociona, os cara... E eu falo assim... É que isso faz tempo também. Não é de agora. Não, mas eu tô trazendo pro contexto geral. Entendeu? Tipo, existem mulheres com vivências tão... Tão avassaladoras quanto, sabe?
Eu acho que agora a gente tá começando a verbalizar e tocar também um pouco no sentimental de alguns caras que conseguem compactuar com a gente, né? De falar do que a gente passou. Porque também existe um público de homens que escutam as mulheres. E que é tão importante quanto. Mas na minha cabeça não é uma prioridade. Tipo assim, eu não tenho a necessidade de ter um homem ali escutando. Os gays me adoram. Eu adoro eles, adoro as minas.
E pra mim é isso, eu tô confortável. Eu consigo lotar uma casa de show só com gay e mulher. Pra mim tá ótimo. Porque gays também são homens. Que conseguem ouvir, se identificar, dançar, curtir e de quebra criar um ambiente seguro no show.
Que esse é o grande ponto. Não vai ter ninguém tocando nas minas, tentando agarrar as minas. Então, pra mim, tá ótimo, tá confortável. Mas também tem uns caras que escutam, compreendem. Os caras ali que concordam. E não anula essa existência, entendeu? Essa mensagem que é passada nas letras. Acho que é meio que isso. A pergunta que eu não fiz, qual que é a maior dificuldade hoje? Pra uma mulher negra, uma rapper.
Porque canta esse gênero. Qual que é a maior dificuldade? Eu acho que a gente ainda… A gente ainda tá num pensamento de que só pode uma. Eu acho que essa ideia é meio colonizada. Parte de quem esse pensamento?
Tudo das circunstâncias, eu acho que, sei lá, a gente tem essa… É um pouco esse pensamento de que… Não vou falar, tipo, que tem, porque… Mas acho que é um medo, sabe? Tipo, de só ter uma, de só vencer uma e…
E aí, a própria indústria, tipo, quer falar, olha, você é melhor do que tal pessoa. E tal pessoa é melhor do que você. E aí, tipo, vira uma grande coisa que cria um ambiente desconfortável. Acho que essa é a maior dificuldade. As mulheres começaram a ser comerciais. E aí, essa coisa de comercializar música e tal, deixou tudo tão engessado.
que eu acho que a gente só poderia fazer. Eu acho que a maior dificuldade é não absorver essa disputa que injetam na gente, sabe? O público é um pouco perverso. Quer falar, por exemplo, que uma dança, a outra não dança. Uma canta, a outra não canta. E o gostoso do cenário é o plural, né?
É que, tipo, essa não dança, rima assim, essa canta, essa dança, essa só dança. Essa aqui faz isso e, tipo, tudo bem, tá ligado? Eu acho que esse comparativo não é feito com homens. É por isso que homens colaboram tanto juntos, fazer música juntos e etc, tá? Ocupando esses espaços. Eu acho que falta um pouco essa... Esse tato do público de entender que... As minas é diferente mesmo uma da outra.
E tudo bem. E tudo bem. Sabe? Eu acho que essa... Pra mim, na minha cabeça, essa é a maior dificuldade. Tipo assim, eu falo com todas as meninas que eu conheço, assim, do underground ainda. Eu falo, tipo, ó, se prepara. Porque depois que dá certo, ninguém te avisa. Ninguém te avisa que é uma injeção de expectativa e você fica meio pirada. Na minha cabeça, todo mundo quer que todas as artistas morram no primeiro álbum.
Tipo, na minha cabeça quer que a gente acenda e apaga a gente tipo assim, porque... Na mesma velocidade. Na mesma velocidade. Isso é muito perverso. Como é que os caras conseguem fazer 30 anos de carreira e as minas somem no primeiro álbum? Quantos álbuns a Negrali tem?
Você tocou num ponto chave Que foi pra gente aqui, né? Muitos homens sumiram também No primeiro ano também Teve Tem genocídios culturais também Ao longo dos anos Muita gente sumiu Nos primeiros cinco anos de carreira Grande maioria Chega a dizer 100% hoje em dia Determinadas fases Hoje os que sobraram
Talvez a palavra sobrar não seja a palavra certa. Os que sobreviveram são dinossauros. A gente carrega medos que são idiotas demais. Tem mina que tem medo de gestar, com medo que vai acabar com a carreira uma gestação. Já teve mina que foi proibida de subir no palco por estar grávida. Isso acontece. Uma amiga minha dividiu comigo uma vez. Ela falou assim, amiga, eu fui cantar e eu tive que mentir.
Falei que eu não tava grávida, não. Porque senão eles não iam me deixar subir no palco. Quem não ia deixar? O contratante. O contratante, quando soube, falou assim… Porque o contrato proíbe? O que proíbe? Não, eu acho que foi um formato, uma tratativa. Tipo, foi uma coisa assim que ela comentou comigo. Tipo assim, eu fui e fiz o show grávida. Não contei pra ninguém e fiz o show grávida. Porque é isso. Ou eu fazia o show e mentia que eu não tava grávida. Ou eu não ia fazer o show. Foi uma condição do contratante.
Não conheço, ela só comentou comigo. Então, tipo assim, a gente tem medo de ganhar peso, de perder peso, de ficar de cabelo longo, de ficar de cabelo curto, de... Usar o black, usar a trança. Usar o black, usar a trança, usar a lace. É um turbilhão de coisa, assim, tipo... Sabe? Qualquer coisa eu posso perder o holofote? Sim. Qualquer coisa me faz cair? O risco é iminente.
Entendeu? Tipo, não posso engravidar. Não posso fazer isso. Não posso fazer aquilo. Não posso fazer isso. E vai uma série de coisas de não posso, não posso, não posso, não posso, não posso. Que tudo parece um grande... Parece que tá no campo minado, assim. Preciso só viver pra minha carreira e fazer e ser um pote de autoestima inacabável, tá ligado? E não, cara. Sabe?
Até os caras quando faz música romântica é mais compreendido do que as mulheres quando tá fazendo R&B. Será? Eu acho. Os caras é sexy falando de amor. Você viu a mina falando que eu tinha virado viado porque eu tava cantando música romântica? Eu vi. Tá vendo que eu sou a própria contradição em pessoa. Você tá vivendo com o cara. Sim. Tá vivendo o oposto disso aí. É, então. Porque quando eu lancei uma música, um disco romântico falaram que eu ia perder respeito. Aham. Onde já se viu. Aham.
Que eu ia largar o revólver pra pegar rosas agora. Entendeu? Que eu ia perder meu posto, ia perder meu respeito. Aí hoje em dia, o homem negro cantar romântica é a coisa mais linda do mundo. Mas aí também... É o homem negro desconstruído. Mas foi... Porque venderam o fetichismo do homem preto ser o brabão, o bandidão, né? Isso que era o sexy.
Isso é sexy? Eu não acho. Eu adoro os bonzinhos, os bons moços. Adoro viver tranquila. Eu gosto dessas coisas, assim. Eu gosto dessas coisas, viver tranquila. Você precisa de tranquilidade. Não, é.
E a compreensão. Não tenho muito esse fetiche de homem… Ah, sabe? Tipo, essa coisa toda. Mas uma época foi vendido. Os caras tinham que ser… Era o preto tatuado, meio bandido, cara de bandido. Tinha essa parada. Tupac. É, então. Pô, mas o Tupac era, mano, um modelo. Pra mim, o Tupac era um modelo. Entendeu?
O cara atuava, o cara pousava, sei lá, botava uma cuequinha, pousava e tal. Tipo, ali ainda era tudo bem. A gente tá falando dos caras da atualidade, assim. Que tem que ter cara de bandido, tem que ser agressivo, tem que ser bruto. Entendeu? Isso é o sexo. Mas isso é papo com outro programa.
Isso foi o Manamano. Sabia que com você era muita ideia. Sempre haverá possibilidade pra um novo programa. Porque isso aqui, infelizmente, acabou. Muito obrigado, Duquesa. É isso. Muito obrigada. Muito obrigada. Sem você não sou ninguém. Muito obrigado. Esse foi o Manamano. Valeu.
Esse foi o Manamano, um podcast do Spotify. Apresentação, Mano Brau. Co-apresentação, roteiro e consultoria jornalística, Semayá Oliveira. Produção, Zamunda Estúdio, Bugnaip e Spotify. Pela Zamunda Estúdio, a produção executiva é de Ana Guerra.
Direção, Fábio Ismeili. Coordenação de produção, Ingrid Mabelli. Coordenação editorial, Renata Hilário. Captação, Careca Tulli, 2G, Morasta e Mude Rodrigues. Edição, Júlia Gemelli, Murilo Ruivo, Giovana Costa e Mude Rodrigues.
Cenografia, Ana Guerra. Música original, Fábio Ismeili. Motion graphics, Miguel Bezenbruck. Artista 3D, Gustavo Pedrosa. Maquiagem, Jade Benitez. Figurino, Semayá, Cida de Souza. Assistente de produção, Júlia Magalhães. Fotos, Petalalops. Pela Bugnaip, a produção executiva é de Caire Jorge e Eliane Dias. Assistente de produção, Carol Castro.
Pelo Spotify, a produção executiva é de Camila Justo. Assistente de produção, Luísa Migueires. Marketing, Karina Morena, do Spotify. Yaru Macedo, da agência Droga5. Comunicação, Nicole Azevedo, do Spotify. Babi Ferreira e Ana Maxud, da agência Edelman. Jurídico, Janet Vasquez. Gestão de negócios, Jack Black. Vendas, Manuela Costa. Concepção Criativa, Gana.