Episódios de Mano a Mano

Astrid Fontenelle: A cara de uma geração que mudou a TV

09 de abril de 20261h55min
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No episódio de hoje do Mano a Mano, Mano Brown e Semayat Oliveira recebem a jornalista e apresentadora Astrid Fontenelle. Em uma conversa que mistura memórias da época da MTV, reflexões sobre as mudanças na mídia e na sociedade, Astrid fala sobre maternidade, luta antirracista, jornalismo, leitura e temas urgentes como feminicídio e educação dos jovens. Dê o play e não perca esse episódio potente e cheio de reflexões.

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Participantes neste episódio3
M

Mano Brown

Hostartista
S

Semayat Oliveira

Co-hostjornalista
A

Astrid Fontenelle

ConvidadoJornalista e apresentadora
Assuntos5
  • Racismo EstruturalExperiências de Racismo · Educação Antirracista
  • Jornalismo e MídiaEvolução da MTV · Impacto da Internet · Jornalismo Atual
  • Violência contra MulheresCultura Misógina · Denúncia de Violência
  • Política Educação Escola AdolescênciaImportância da Leitura · Curiosidade da Juventude
  • Paternidade e MaternidadeDesafios da Maternidade · Equilíbrio entre Trabalho e Família
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O que você tem ouvido? O que você tá percebendo desse novo mundo que a gente tá vivendo? Esse mundo que a gente tá na idade que a gente tá vendo essa revolução acontecer. O que você vê de bom? A insistência de muitas pessoas acreditarem no amor. Eu sou uma delas.

Olha só, a entrevista é dela, mas tá só falando do Racionais, né? Porque foi um não tão importante. Porque ela é repórter. Isso é foda. Nos invertem rápido, né, cara? Mas é uma história maravilhosa que faz parte da minha vida. Gente perigosa, repórter, advogado.

Beyoncé é sistema ou é antissistema? Várias curtinhas. Eu acho que ela é antissistema, porque ainda é uma mulher preta, tá no palco, com aquela atitude, com aquela postura, e ela sente charuto. Ela bebe copo de uísque, tá ganhando uma grana enorme com aquilo. Mas o uísque é dela. O charuto é dela. Gostei da resposta, né? Isso que eu queria ouvir, por isso eu perguntei. Sim, ótimo.

Salve, rapa. Salve, massa. Forte, leal de primordial. Abraço, esse é o seu Mano a Mano. MB na voz. Como é que ia ser, Mano? E aí, MB. Vamos pra mais um. A habilidosa com a perna esquerda. Como é que tá o dia de hoje? Hoje tá bom demais, hein? Tá, tá bonito. Pra mim, inclusive, né, que sou jornalista, tá um dia bastante especial. Que a gente vai ter aqui uma mestre do jornalismo. Pra mim, que sou músico também, né. Um dia especial, uma especialista em música. Ela une todas as coisas.

Então vamos. Vamos de scout? Vamos de scout. Bom, ela nasceu em 1961, lá no Rio de Janeiro. E cresceu no bairro Engende Dentro, que fica na zona norte daquela cidade. Ela é filha da Maria Luísa Coutinho. E eu acho bonito trazer o nome da mãe dela, porque tem muitos aprendizados que ela teve com a mãe. Inclusive, a importância de investir no próprio talento dela. E o talento dela, como a gente já disse aqui, é a comunicação.

Ela se formou em jornalismo na Universidade Pontifícia Católica, a PUC, aqui em São Paulo. E logo no início de carreira, ela já passou por grandes emissoras. Então, ela fez estágios na Rede Globo, passou pela TV Gazeta, passou pela TV Manchete. E em 1990, ela se tornou a primeira VJ e a primeira pessoa a anunciar a chegada da MTV Brasil. Então, foi o primeiro rosto que a gente viu quando a MTV nasceu.

Lá, ela liderou programas como Disque MTV, que eu amava, Barraco MTV e Pé na Cozinha. E ela também não era só VJ e apresentadora. Ela foi gerente de jornalismo na MTV. Então, ela também foi, assim, uma das mentes pensantes. Uma das fundadoras daquele momento da MTV aqui no Brasil.

O seu ciclo nessa emissora encerrou em 2007. E aí, depois dessa saída, ela passou pela Band, mas foi na Globo que ela afincou o pé mesmo. Então, na GNT, ela apresentou o programa Happy Hour e o Chegadas e Partidas, com o qual, inclusive, né, o Chegadas e Partidas, ela recebeu o prêmio APCA, que é da Associação Paulista de Críticos de Arte, sendo o melhor programa de televisão da televisão brasileira em 2012.

Também ela começou a comandar o Saia Justa, lá em 2013. E foi até 2023, bem recente. Dez anos. É, e um programa bastante conhecido, trazendo sempre a bancada feminina. Em 2024, ela volta a comandar o Chegadas e Partidas no Fantástico. E o seu último lançamento foi o programa Admiráveis Conselheiras. Um programa que eu gosto muito, inclusive. Que tem um foco de conversar com mulheres 60 a mais, assim. Tá muito bonito, tá disponível na Copoplay.

E antecipou, foi uma vanguarda também, não? Antecipou esse movimento, né? Sim, sim. E além de jornalista e apresentadora, ela é mãe do Gabriel Fontenelle. Que tem 17 anos e já tá seguindo os passos da mãe. Inclusive na comunicação, tá aqui nos bastidores. E isso fica pra gente. A gente tá com Astrid Fontenelle. Com satisfação, bem-vinda demais, Astrid Fontenelle. Tava te devendo essa.

Já dá a mãozinha, vai. Já dá a mãozinha. Ai, a gente tem muita história. Temos história. Na verdade, histórias marcantes. Não são tantas histórias. Mas...

Marcando-se pra minha carreira, né? Pra minha também. Ter vivido aquele sucesso dos Racionais e ter querido tanto que os Racionais tivessem na MTV era uma missão pra gente. A gente não podia não ter vocês. E você era marrento, né? Demais. Precisava, foi preciso, foi necessário. Não era por vaidade, nem por ego, não era por ignorância também, assim.

E necessidade também do posicionamento, sabe? Eu acho que poucas vezes a gente pode usar a palavra marra negativamente. Eu acho que a marra é boa. Era bom, era o teu jeito que você chegou. Você chegou daquela forma. Mas a gente não tava muito acostumado a dizer não, a ouvir não, né? A MTV. A gente também se achava demais. Mas sabia que eu falei poucos não pra MTV?

Não, depois que tu falou uns bem importantes, você começou a falar uns sims mais importantes ainda. Porque a MTV era como uma televisão estritamente musical, lógico que ela acionava Racionais com mais vezes. Mas as vezes que eu fui, que nós fomos, foram muito relevantes na carreira.

A gente tinha certeza que isso seria bom pra ambas as partes. Mas a gente não tinha. E foi um risco. É. As duas aparições do Racionais na MTV e as duas clássicas. Teve outras no MTV Web. Você tinha consciência do tamanho que vocês eram? Não tinha, não.

Não tinha. Vocês eram gigantes, cara. Vocês eram muito gigantes. E a gente precisava estar junto, mostrando mais. A audiência pedia aquilo. Vocês tocavam. Eu falei, eu tava contando pra Sá que...

O som da cidade, eu percebi duas vezes o som da cidade mudar. Uma quando a MTV chegou, que a gente começava a andar nesses bairros mais residenciais, Perdizes, Pupé, Pietro, que era o lado da cidade que eu andava mais, a MTV era aqui no Sumaré, e eu morava aqui em Perdizes. Você ouvia a casa, no apartamento, o baixo.

Instrumentos musicais, mais do que a música. Instrumentos musicais. Um baixo, uma guitarra, uma bateria, a cidade tocando, né? Movimento, um sonho. Sim, a garotada via aquela tela, falava, meu, então, o que eu quero fazer não é coisa de vagabundo. Isso é um trabalho. Aconteceu com nós também. Não é? E a outra vez que eu vi o som da cidade mudar eram os carros.

da cidade inteira, qualquer lado que eu andasse na cidade. Eu sou uma pessoa que eu transito muito bem em muitos cantos de São Paulo. A minha história de chegar em São Paulo, quando eu começo a trabalhar aqui, eu sou repórter de TV Gazeta, de cobrir murados de rua. Então, eu estava em todos os cantos. Eu tenho muita noção do que é a cidade de São Paulo. Então, eu fazia desde Movimento Sem Teto, começando a surgir, até Palácio do Governo.

fazer coletivo do governador todo dia, né? Eu tenho... Pena que eu não tenho tantas imagens. Os gêmeos estão implorando por mim. Gêmeos, os artistas plásticos. Por uma imagem da gente ali na Rua 13, fazendo matéria com a galera, começando o movimento hip hop. Que ano isso? Ah, rapaz, sei lá. A memória que você tem não é a memória que eu tenho. Oito e meio, de sete. Por aí.

Porque eu lembro o começo desses caras É ali, 8, 5 É isso aí Começando a trabalhar também Então aí eu começo a ouvir Quando vocês lançam o Diário do Detento Os carros ouvindo o Diário do Detento No talo

Então, meu amor, a gente só queria ter Racionais na MTV. E aí vocês acontecem, estouram, só dava, apresentei muitas vezes, em primeiro lugar no dia de esquema de TV, Racionais com o Diário do Detento, e a gente tocava aquela música. Isso era uma vitória sua. Quantos minutos tem aquela música?

Diário, acho que sete. Sete, oito. Era das menorzinhas. É, das menorzinhas. Mas isso, pra uma emissora cujos clipes demoravam três? É. É, sim. Homem na estrada tinha onze. É. Tô ouvindo alguém me chamar, tinha doze. Chegou a tocar? Não. Não, né? Então. Tocava. Tocava em lugares também que não deveria tocar, mas tocava. Tocava, é. Na rádio, tocava. Tocava no baile, na música longa. Aí, claro. Não, não é claro. Nos bailes? Porque o baile é dinâmico que nem rádio.

o baile era dinâmico também tem que movimentar tem que trocar o DJ tem que fazer uma performance ali em cinco minutos ele rola três

Sim, com certeza. E a gente queria vocês porque vocês acabaram naquele ano ganhando aquele prêmio que se chamava Escolha da Audiência. E essa Escolha da Audiência levava esse artista pra premiação americana. Eu não lembro se no seu ano foi Los Angeles ou Nova York. Los Angeles. Nova York? Fato é que Los Angeles ou Nova York você tinha que ir e você não queria ir.

E aí, o meu primeiro não, assim, na cara, assim, que eu ganhei seu, assim, olho no olho, foi porque a gente chegou à conclusão de que alguém tinha que te convencer a ir, como eu era diretora de jornalismo lá, fui eu, junto com o Primo Preto. Sim. Por onde anda, Primo Preto?

Ah, o primo tá no meio, tá trabalhando aí. Adoro ele. Adoro ele, adoro ele. Esse menino me ajudou muito. Ele era um menino. Sim. E aí a gente combinou de ir te encontrar num lugar ali no centrão da cidade. Certo. De onde o ônibus saía. Ali na Praça da Bandeira. Praça da Bandeira. Tinha um bar ali. Eu tentava falar pra ele que ele tinha que ir lá. Não.

Para estar dentro de uma festa do MTV. Ele nem ia subir no palco. É um negócio que a gente ficava na plateia. Assistindo a performance. Mas eu queria que ele visse o comportamento do preto americano. Naquela época, todos de grife. Que não era comum para o... Para aqui. Para ele. Para o universo dele. Mas era a minha leitura, tá? O tempo todo de jornalista. É...

Muita joia, carrão. E a gente tá falando de 98, tá, gente? 98. E não consegui. Eu consegui, assim. Que ele tivesse me recebido, que ele tivesse ouvido.

Que seria bacana. Mas aí depois teve um outro encontro da gente. Que aí o Jorge lembra e eu não lembro. Porque o Blue teve na MTV. E a gente conversou muito com ele. Da importância que seria ir receber o prêmio. Tocar na festa da MTV. Aí você falou primeiro sim. Grandioso. Ali tava no momento de falar o sim. Mas vou te falar a verdade. Eu sempre quis. Eu fiz uma música falando disso. Eu comecei nisso pra ir na MTV.

Eu comecei a fazer música pra um dia brilhar na MTV. Porque eu vi o Run de MC fazer isso.

Então, era um posicionamento político eu controlar o meu querer individual. A sua vaidade. Pelo coletivo, que era melhor não ir. O coletivo ia junto. O coletivo não tinha condições de ir junto. Não estava nem sendo reconhecido ainda. Era embrião. A sonar estava muito à frente do que estava vindo. Não era o momento ainda. Para ir. Era bom quando outros pudessem ir junto.

Naquele momento os outros não poderiam ir A gente ia estar sozinho lá Mas você me entende Mas quando a gente chegou Tem gente que fala Olha só a entrevista é dela, mas tá só falando do Racionais É porque foi um não tão importante Porque ela é repórter Nos invertem rápido Mas é uma história maravilhosa Que faz parte da minha vida Gente perigosa, repórter, advogado Ela tá me entrevistando A história é nossa É nossa

O lance é o que eu sempre quis, meu. É. Eu acho que todos nós ali, todo moleque que cresceu nos anos 80, que quando chegou nos anos 90 viu a MTV, você sabe que antes era bem raro. Era aquele programa da TV Cultura, o Som Pop. Som Pop. Fábrica do Som. É, a gente via, pô, quando anunciava que ia passar Earth Wind & Fire na semana que vem, a gente cancelava qualquer compromisso. Faço ideia. Pra ver o clipe do Earth Wind & Fire, porque a gente sabia que ia demorar um ano pra ver de novo.

Steve Wonder vai passar você não ia fazer nada pra ver Steve Wonder, chegava na escola já tinha aquela molecadinha que curtia o Black que os irmãos davam baile então os molequinhos gostavam de ser entendidos você viu lá, Steve Wonder 14 anos com chinelo de dedo no pé já manjava que era Steve Wonder

por causa do programa, então quando chegou e veio essa geração da MTV que pra nós, porra, era a maior vitrine que tinha, a gente passou a sonhar mesmo, falei, porra já pensou nesse programa aí

com a roupa, um tênis, uma roupa, tá ligado? Era o sonho, o sonho de consumo que alimentou aquela geração. A MTV, ela trouxe um toque de modernidade pra juventude dos anos 80 e 90. Acho que entregou a vitrine, que vocês precisavam, é isso. Noção de roupa, noção de corte de cabelo.

Sim, MTV é moda também. E é isso que eu falava. Cara, vai, você vai ver os caras. Como era o nome daquele primeiro apresentador do MTV Rap, que era o Negão Carioca? Felipe. Como é que ele tá? Nunca mais eu vi Felipe.

Quem souber que manda um forte abraço. Foi o primeiro. Foi, Felipe. Você viu que eu fui rápida. Ele tinha um corte de cabelo... Quadrado, raspado do lado. Raspadinho do lado, Felipe. Depois a gente teve o Primo Preto. Teve uma menina também, não? Não, ela não... A menina preta da MTV. Não que apresentou o Yo. Teve uma menina que apresentou, não? Não. Felipe durou pouco tempo na MTV.

Mas depois teve o Primo Preto. E se não me engano… KLJ. KLJ também. O Rodrigo chegou a fazer? O Taíde fez também? É, a gente tinha um menino que mandava muito bem, Rodrigo. Um garoto branco, carioca. Ah, não. Rodrigo P. Funk.

Rodrigo Brandão. Rodrigo Brandão, é. Eu lembro do Rodrigo Brandão, nosso parceiro. Rodrigo Pifarque. A parte de Jesus já é 2010 pra caramba. Eu fiquei menos tempo do que isso na MTV. No final da história, eu fiquei lá nove anos. Ah, então só foi antes de 2007 que foi o que eu encontrei. É, no ano 2000 foi o ano que eu fui pra Band.

Na verdade, eu fiquei até 99. Só formação é jornalística. Lógico que você desempenhou trabalhos antes e depois da MTV. A minha ligação com você é forte, forte, forte. Eu ouvi o GNT, que era uma coisa vanguarda, eu falei aqui.

Que antecipou esse movimento. Mas muito que me pega da MTV mesmo. É. Porque essa coisa da juventude. Transformando o comportamento. Da roupa, do cabelo, da política, da gira. Me interessa muito. Como você veio do Rio. Sim.

Você entrou na MTV em 90 e… No início. 90. Que diferença você notou de São Paulo pro Rio, assim? Da juventude? Quando eu venho do Rio de Janeiro pra cá, eu vi uma menina que nunca fui menina da zona sul do Rio de Janeiro. Tá. Isso no Rio de Janeiro significa muita coisa. Você é de Irajá? Não, eu sou nascida, crescida no engenho de dentro. Olha o nome desse bairro. Ai, como eu queria hoje ter…

tido as minhas bisavós, as minhas avós, para me explicarem algumas coisas que eu vivi nesse tal bairro de Engenho de Débora. É de comunidade, o bairro é afro, comunidade lá, comunidade afro. Então, Brown, eu sou de uma família portuguesa.

Que quando chega, a minha bisavó vem pro Brasil substituir uma irmã num casamento, que a irmã, no parto do terceiro filho, morre. E aí chamaram a irmã mais nova pra ficar no lugar dela num casamento. Corta, essa família vira coisa de botequim, de padaria, mas sempre classe média baixa, sabe?

Numa casa, no engenho de dentro. Eu voltei há pouco tempo nessa casa que eu queria ver. Ela ainda tá lá? Tá, mas com um muro gigante na frente. Ninguém na rua brincando, como eu brinquei. E uma mulher que passou, olhou pra mim de cima, abaixo e falou…

O que você tá fazendo aqui? Ela nem me reconheceu. Ela te conheceu? Não. Ela reconheceu uma mulher muito arrumada. Porque eu tava... Foi na época que eu trabalhava. Teve um ano que eu gravei um programa. O Rap Hour lá no Rio de Janeiro. Eu tinha saído do programa e tinha ido pra lá. Sete da noite. Maquiada, toda arrumada, saindo da televisão. A mulher olhou pra mim e disse, uma baixa, o que você tá fazendo aqui? Eu falei, eu morei nessa casa. Rua Catulo Cearense, 117.

E eu queria vê-la. Era uma casa que tinha um jardim. E eu percebi que não tinha mais um jardim, que era uma garagem, que tinha carro, que era tudo cimento. E a mulher falou assim, ah, minha filha, isso aqui mudou muito. Essa rua subia numa ladeira. Ela falou, tá vendo aquele carro no meio da ladeira? Aquilo ali é o povo do movimento. Se você não quiser nada com eles, é melhor você sair daqui. Eu falei, não.

Não quero nada, então o Rio se transformou muito. Mas o que eu queria te falar é que nessa casa que eu morava, os fundos, essa minha bisavó alugava para algumas famílias. E tinha uma pessoa nesse lugar que não pagava o aluguel. E aí as pessoas comentavam e a minha avó falava, com ele ninguém faz nada. Era um preto velho, retinto, bem velho. É a imagem que eu tenho.

É evidente que esse homem era um escravizado, Brown. E que sobrou ali. Um homem sem família. Seu Sebastião. Um homem sem família. Com aquele barraquinho. Velho, velho, velho, velho. Eu era uma menina de uns oito, dez anos. E tenho essa lembrança de pele enrugada. Sabe? Já era bem velho. E que não podia deixar ele. A minha avó mandava um prato de comida. Ele pouco saía. Ele morava de favor lá?

Morava de favor. Com certeza era um escravizado que sobrou. E a sua avó acolhia ele.

Em respeito a isso. Eu não sei se… Em respeito, não sei. Eu não conheço a história. Não dá pra saber, né? Não conheço a história. E todo mundo da minha família morreu pra eu poder perguntar essa história. As pessoas que estão vivas são pessoas muito… Pessoas da minha idade que não viveram lá. Eu fui a única que viveu e que queria muito conhecer essa história. A gente tem muitas histórias. É tudo muito perto da gente. Quando a gente fala de layout, né…

É aqui do lado. Quando eu entrevisto no Admiráveis Conselheiras, aconteceu isso. Muitas mulheres de 70 anos falando porque a minha avó era escravizada e eu falava a primeira vez. Eu falei assim, como assim avó? Quantos anos ela tem? Aí quando a gente fez a conta, eu falei, claro que era mesmo. É muito recente. É muito recente. Isso é. E muito mal contada ainda. Porque as testemunhas dessa história e que poderiam contar com outra força, né?

Não tenho a história. Eu não tenho a minha história pra te contar. Então, quando eu saio desse Rio de Janeiro, de Zona Norte, que eu nunca morei na Zona Sul do Rio de Janeiro, e venho pra São Paulo, eu fiquei no... É outro Rio de Janeiro, né?

Não, completamente. Do outro lado do túnel. As pessoas falam isso, né? Você mora do outro lado do túnel. Não, fulano mora do outro lado do túnel. Então a sociedade era dividida do outro lado do túnel. Não tinha nada que fazer na zona. O máximo que eu chegava da zona norte, da zona sul do Rio de Janeiro, que nem é chamada de zona sul, Flamengo, porque eu ia à praia no aterro do Flamengo. Ali é considerado zona sul? O máximo. Se fui à Copacabana uma vez, a praia, fui muito.

Não ia mesmo. Então eu venho de lá pra cá, no início, muito marrenta, porque eu era muito carioca de ir à praia e ir ao Maracanã todo domingo, porque eu morava do lado do Maracanã. Eu morava no mesmo bairro. Então você pra quem? Flamengo. Flamengo? Não sei que você ia falar Vasco. Não, Flamengo.

Flamengo, mas mudei, agora eu sou corintiana porque eu tava, você é bom de futebol, você vai lembrar eu tava no Pacaembu no dia do Flamengo e Corinthians quando Romário entra em campo e a eu ia falar pra plateia a torcida inteira, Romário viado, eu falei, não vai prestar

o baixinho vai ficar virado na giraia aí ele foi pra cima naquele drible no Amaral histórico, o Amaral tá rodando até hoje no outro dia encontrei o Amaral, não aguentei olhei pra cara do Amaral, comecei a rir falei, Amaral, preciso escutar uma coisa graças a você eu sou corintina, porque ali eu mudei e aí eu fiquei com tanta pena você virou pro pena? foi

sentimento estranho. É, mas assim, sinto o coração, assim, sabe? Queria botar ele no colo, Amaral. Então, aqui você é corintiana, em São Paulo. Eu sou corintiana, em São Paulo, flamenguista no Rio. Quando jogam juntos, eu entrego pra Deus, né?

Diz uma coisa. Sobre o comportamento dos jovens, os jovens dos anos 80 para os 90, você vê semelhança em algum comportamento nos jovens de hoje? Alguma coisa que se repete? Ou mudou totalmente? Enfim, na linha de raciocínio, eu vim pra cá muito marrenta, mas logo descobri o jornalismo, foi aqui que eu me descobri como jornalista. Você veio na adolescência, sim. Vim na adolescência, muito marrenta.

Não gostava de nada. Não tinha praia. As pessoas falavam diferente de mim. Era a terra da garoa.

Era frio, era nublado, tinha aquela névoa o tempo todo. Não era. Eu sou uma pessoa muito solar, né? Então foi difícil a minha adaptação. Mas foi um difícil de... Três meses, assim. Mas São Paulo tem sol também, mano. Não, se hoje, então... Não, quer dizer, esse ano, o verão, esse ano, não... Não entregou. Poxa vida, não entregou. Três dias teve agora e hoje já... Olha o que aconteceu hoje. As águas de março fechando o verão. Elas começaram em fevereiro, mas enfim.

Brown, eu acho que a gente viveu ali...

com a MTV um sonho e que a gente não sabia que ele ia acabar. Inclusive nós que trabalhávamos na MTV, a gente hoje veio no carro conversando sobre isso. Como a gente pensava na MTV, eu gostaria muito. Eu detesto ficar ah, eu faria isso de novo. Tudo que eu fiz tá tudo certo. Valeu, sou o que sou. Graças a isso. Mas eu queria muito ter um canal um...

Para o jovem. A gente não podia ter perdido isso. Mas era pra jovem, não era? Então, era. Mas deixou de ser. Acabou. Não tem mais. Tá, deixou de existir pra todos. Pois é, mas eu queria que o jovem de hoje a gente tivesse programas como Barraco MTV, onde a gente sentava e debatia.

pensamentos diferentes. E estava tudo certo debater pensamentos diferentes. A gente teve temas importantíssimos sendo debatidos lá. Tudo a gente debateu. E a gente conseguia conversar. A gente fazia a cabeça do jovem para...

Todos os segmentos, não era só a causa de a música, ser artista, ser VJ da MTV. Que todo mundo queria ser também VJ da MTV, né? Como hoje querem ser influencer. Mas a gente dava conceito.

A gente teve campanhas na MTV com relação ao voto, importantíssimos. Com relação a... Na época falava AIDS, ao HIV, que ninguém falava. MTV falava. Chegou a fazer campanha pro governo. A gente fez campanha de desliga a televisão e vai ler um livro na MTV. Não lembro disso.

Esse eu já nem tava mais lá. Mas eu fiz uma… Quando eu saí da MTV, eu fiz uma camiseta. Desliguei a televisão e fui ler um livro. Porque eu queria ficar um tempo sem… Mentira, quando eu saí da MTV não, quando eu saí da Band. Porque eu queria ficar um tempo sem a televisão. Eu queria dar uma pausa ali, queria… Trabalhava com fofoca na Band, tava com a cabeça muito desordenada do que eu queria fazer, então eu precisava parar.

para começar de novo. Aí a MTV faz essa campanha. Desliga a televisão e vai ler um livro. Eu acho que as coisas... Acho que o jovem perdeu uma referência muito importante. Ele tem as referências da música, do cinema, da arte, mas trocando ideia de igual para igual, dando voz para ele, não tem mais.

Essa é uma coisa que a gente conversou, né, Bra, um pouco na nossa reunião de briefing. O quanto hoje faltam um pouco esses espaços de debate. E também um programa em que a música seja a grande estrela. A gente tem na TV Cultura alguns espaços, né. Tem o Cultura Livre, tem o Metrópolis, tem gente fazendo. O Metrópolis é um resistente. Um resistente, mas não com aquele impacto que a MTV trouxe, né. De ter a música ali como… Por que isso não dá certo? Porque era o canal que dava voz.

Os outros mostram, os outros exibem uma música aqui, um videoclipe ali, uma entrevista acular, mas tudo muito pequeno. Ontem eu estive com a Luísa Sonza, conversamos longamente sobre isso. Não tem espaço e não tem uma troca real. As perguntas são muito rasas. As pessoas não ouvem um álbum inteiro para entrevistar uma pessoa a mais.

Quando a gente fez o Pé na Cozinha, a gente conseguiu fazer com que, principalmente as editoras, porque com a música a gente não tinha questões. Com a música, nós éramos o número um. Ou seja, a divulgação ia dar o álbum pra gente no mesmo momento que tava dando pra todo mundo. Às vezes pra gente até antes, né? Nos casos dos videoclipes, muitos foram... A gente brigava muito com a Globo pra ver.

Esses grandes lançamentos, Madonna, U2, Michael Jackson, era quem ia lançar. Era o Fantástico ou era a MTV. A gente ganhou muitas, perdemos algumas, mas ganhamos muitas. Mas para livro, por exemplo, o livro não chegava para a gente.

Quando eu fui entrevistar pro Pé na Cozinha, o Caetano Veloso, sobre o livro que ele tava lançando, queriam que eu fizesse a entrevista sem ler o livro. Porque o livro, pra televisão, é o último veículo que recebe, você entende? Eles mandam primeiro pra revista. Porque a revista faz com um mês de antecedência. Aí depois é o jornal, que faz com dois dias de antecedência, três dias, uma semana. E depois é a televisão. Que muitas vezes o cara chega lá com o seu material de divulgação no dia que tu vai fazer a entrevista. Aí a gente na MTV falando, não.

A gente vai ler. Quando a gente lê o livro, aí sim. Quem fazia o papel de ler o livro? Quem fazia o papel de ler? Eu quis ler todos os livros do Paulo Poeira. Você leu? Lê. E nos outros livros, quem liu? Eu lia. Você lia? Eu e Jorge. Jorge dirigia o Pé na Cozinha. E a gente não tinha como. Então, o artista gostava mais de estar com a gente. Que era mais profundo, né? Claro. Porque ele ia... Era novo também.

Não era só... Era novo, profundo, confiável e ele tinha voz. E era novo. E era novo. O novo é foda. É. Repetir fórmulas é foda. É difícil acontecer e se manter. E até eu acho que a internet também interferiu muito.

Com certeza. Que esses debates, eles evoluíram. Eles não sumiram. Eles evoluíram. Eu vejo o número de podcasts que tem. Sim, isso sim. Amigos meus próximos têm podcast de debate. Sim. Onde eles já levaram convidados famosos.

Sim, mas tá tudo muito pulverizado, né? É, é. A gente hoje, falta... Sabe o que eu acho que falta hoje? Curadores. Curador. O que a gente pode falar? E as pessoas sentem falta disso. De curadores. O que eu ouço? O que eu falo, Astrid? O que eu leio? O que estava no jornal que eu não entendi direito? O que você não continua lendo o jornal? Porque teve um momento que eu ficava na...

Na internet. Lendo jornal. Toda sexta-feira eu fazia um resumão das notícias. E o que tinha de... Eu fico meio perdida com a agenda cultural da cidade. Eu não sei onde eu vou procurar. Tem que algum anúncio bater na minha testa. Às vezes tem coisa que eu queria tanto ver. E que eu... Porra, teve? Eu nem sabia que teve. Onde é que... Cadê essa agenda cultural da cidade?

É curador que falta. E as pessoas são carentes disso. Mas esse tipo de programa, esse tipo de trabalho não tem audiência suficiente pra se manter, por exemplo? Numa televisão, alguma coisa do tipo? Eles dizem que não, né? Eles dizem que não.

A gente percebe que os programas musicais sumiram da TV aberta. Tipo Globo de Ouro. Adorava, sabe? Então, eu lembro do Roberto Carlos indo no Globo de Ouro. Ah, eu gostava de uma coisa mais pra trás ainda. Cassino do Chacrinha, meu amor. Eu gostava da discoteca do Chacrinha.

Discoteca, primeiro cassino, depois discoteca Vocês querem o bacalhau da Maria Bethânia Cassino é primeiro Isso é inconcebível no dia de hoje Porque temos esse outro ingredientezinho aqui Acho que são muitos, se a gente estivesse desenhando aqui O programa do Chacrinha era politicamente incorreto pra caramba Imagina, vocês querem o bacalhau da Maria Bethânia, meu amor? Olha a cabeleira do Zezé, se ele se ligasse com o cara, era gay De repente, se e e e

Ele levantava o refrão e a massa havia. Vocês querem o Aipim do... Sei lá, do Cazuza. Ele falava loucuras. Mas, ao mesmo tempo, o mundo encaretou demais. Tá muito chato. Tá, isso é polêmico.

Tá chato. Detectado. Tá demais. Tem coisas que a gente não vai abrir mão. A cabeleira do Zezé não vai abrir mão, não. As questões raciais não vão abrir mão, não. Sou extremamente influenciada porque tenho um filho preto e tal. Mas tem tantas outras coisas que daria... Piadas homofóbicas como a do cabeleira do Zezé é foda porque hoje em dia, se você parar pra analisar, é que a gente não pensava.

As pessoas simplesmente não pensavam. Eu sou daquela geração, pô, que os moleques, sei lá, tinha 10 piadas pra cabelo duro. Não. 30 piadas pra pretão. Piada pra gordo. Piada pra japonês. Sim, sim, sim. Mas a gente pode viver num mundo…

aonde não tenha piada, mas que também a gente não esteja dentro de caixas com medo o tempo todo. Olha só, o lance do... O que eu vejo dessa luta, do que pode ser falado ou não, que eu sempre fui a parte que foi mais agredida, que mais foi a mais agredida, que aproveitou dos bordões pra tirar sal, tá ligado? Sempre quando apareceu Sarara Crioulo, apontava pra mim, era eu e mais um na classe. Não tinha jeito, já sabia. Então esse tipo de bullying com todo tipo de gente, com nordestino,

isso a gente não pode abrir mão, Brau não é sobre isso é negociável, mas por exemplo é que você tocou num ponto chave também talvez não precise esticar muito mas a liberdade de expressão que foi cerceada é muito em cima de bullying mas quanto a isso, vamos nessa

Mas as pessoas estão lutando por esse tipo de direito, né? Não, esse com certeza. Direito ao não bullying. Direito à vida, no caso. Nós estamos falando de vida. Porque as coisas tomaram um patamar...

onde não há a intenção de machucar. Mas e esse programa Pé na Cozinha? Quando a gente coloca esse nome, Pé na Cozinha, a gente coloca... Fernando Henrique tinha falado que ele tinha... Não foi. Aí é que estão as diferenças. Fernando Henrique tinha falado que ele tinha um pezinho na cozinha. E era comum a pessoa...

dizer que tem sangue negro branca, é, eu tenho lá a minha porcentagem de preto com a LED mas o Fernando Henrique ele era bem bronzeado é, eu tenho, eu sou da onde?

Eu tenho 0,3%, 2% do Benin. Aí essa cidadã aqui se achava no direito de falar que tinha o pezinho na cozinha. O pezinho na cozinha. Não vai falar que eu tenho o pé na cozinha. Mas o objetivo não era esse. Mas o objetivo do programa... Mas as pessoas falavam isso e falavam como se fosse uma coisa legal. Eu também sou preta.

Sabe? A intenção era boa. Não, isso era legal. A intenção era boa. E a nossa intenção era de todo mundo pode ter o pé na cozinha. Era o novo. Vem todo mundo pra essa cozinha. Você não precisava cozinhar pra estar lá. Porque o programa acontecia na cozinha. Eu esqueci a lógica. Sim, é um programa de entrevistas que acontecia na cozinha, porque Jorge um dia na minha casa, viu eu cozinhando e batendo papo, que eu sempre gostei disso. E falou, dá um programa.

Hoje tem um clube do livro, que chama Clube do Livre das Panelas. Por quê? Porque a gente adora ficar cozinhando e conversando. Sim. Trocando ideia. Sim. Bebendo, cozinhando, trocando ideia. E aí, um dia ele olhou e falou assim, porra, isso aqui dá um programa. A gente faz três perguntinhas aí, boba, sobre comida.

O que você gosta de comer? Eu lembro muito de falar com o Caetano sobre o sorvete que a gente tem em Salvador ainda, chamado Dust Miller. Que era um sorvete que tem em um lugar específico, uma sorveteria de lá muito tradicional, chamada Cubana. E eu falei, você ainda toma Dust Miller? Aí ele olhou pra minha cara, tipo assim, quem sabe que existe um sorvete chamado Dust Miller? Só ela, né?

Então você quebrava o cara pra depois jogar uma pergunta bem séria, pesada, e era o... séria, pesada, que eu digo assim, não pesada... não era pra ofender, não era pra polarizar nada, era pra ter uma entrevista bem servida, sabe? Então a nossa ideia era...

Caetano não cozinhou pra mim. Carlinhos Brown não cozinhou pra mim, porque não sabia. Sim. Então, eu cozinhava muito as receitas favoritas dessas pessoas. Então, era esse o sentido. Todo mundo pode estar naquela cozinha da Astrid. Sim. Mas eu tô entendendo que hoje esse nome teria questões, né? Não, eu…

Aprei esse nome da Abril há um tempão, porque eu falei, vou fazer esse programa, porque nunca mais ninguém fez desse formato que eu tô falando. O Ronivon tentou fazer, mas aí era um chefe cozinhando, entendeu? Angélica agora começou a fazer, mas a gente cozinhando, eu cozinhando, o artista cozinhando, dando errado. A comida dava errado, a beça. Porque falando, falando, falando, que dava errado. Pode errar, né? Não!

Calma, não me ofenda, porque tinha coisa que saía boa. Certo. Eu e Daniela, pense eu. Você conhece Daniela Mercury? Só de televisão. Aquilo fala. Mas aquilo fala. E quando não tá falando, canta.

Ela mete música no meio. Aí, batata frita ao forno. Foi a primeira vez que eu vi fazer batata congelada no forno. Ninguém fazia isso. Ela foi fazer. O que aconteceu com a batata? Queimou. Não teve janta naquele dia. Queimou toda. Acontece bastante na cozinha também. Era um programa fiel. Sim, super. Então, como eu acho esse formato sensacional. E eu sei que se eu fizesse hoje, te convidasse, você iria. É um pré-combinado. O que eu posso fazer?

Quando eu trabalhava no pão de queijo, eu fazia um arroz vermelho que os caras me efetivaram pra fazer o caiduro, que era o nome do prato caiduro. Arroz vermelho? Arroz vermelho. Como é que é arroz vermelho? Eu colocava o pimentão, vermelho. Tomate? O tomate e misturava primeiro, queimava ele. Depois que ele ficava bem da cor, vermelho, eu jogava água. Água depois. Ele ficava vermelho, a rapaziada gostava do cheiro e da cor.

Aí me efetivaram como barraqueiro do... Foi na época que eu tive uma sensação de ser um bom cozinheiro, entendeu? Aí depois não pratiquei mais. Mas levava a gente. Mas ó, então se eu um dia arrumar um nome pra esse programa, tu vai lá fazer o arroz Caiduro. É, o Caiduro. O Caiduro. Jesus me chama, tinha vários nomes. Não, o Caiduro é muito bom. Jesus me chama, eu já ouvi, assim. Falou, Pedrinho, vai fazer o Caiduro hoje? Tá aí parado? Eu faria ele hoje, mas esse nome não dá.

Eu comprei, eu paguei por esse nome. Mas esse nome não mais, né. Não dá, não dá. E isso não dá. Mas isso não é… Isso tá certo não dar. É, só pra dar um arremate aqui. Que a gente falou muitas coisas diferentes. Que acho que não… A gente tá dizendo que faltam programas musicais aí. Pra gente consumir. E dá pra fazer uma coisa que seja moderna, que seja mais legal. Sem beirar, né, em pautas que são sensíveis. E que o público está pensando no mesmo respeito. Sim.

E uma outra coisa que eu queria ouvir lá muito… Você falou rapidamente sobre como, sendo repórter na MTV você ouvia os álbuns inteiros, era uma outra dinâmica. O que você acha do consumo da música hoje, né? Como a gente consome música hoje? Eu nasci em 88, então eu tenho 37 anos. Mas eu consumi muito MTV, e era muito importante pra mim o momento do disco MTV, os luaus, coisas do tipo. Então a gente…

Costumava fazer uma imersão mais profunda, acredito, né? Nesse lance de ouvir, consumir música Entender qual era a tendência da parada e tal O que você acha de como a gente consome música hoje em dia? Tô ótima pra responder isso Porque ontem eu fui convidada pra estar na casa da Luísa Sonza Pra ouvir um álbum que ela vai lançar no final do mês

E a experiência, foi uma experiência inédita, porque eu já fui muitas vezes convidada pra audição do novo álbum do Fulano Ciclano. Você chega lá na gravadora, normalmente é numa sala na gravadora, bota lá pra tocar o álbum, fica todo mundo quieto, ouvindo o álbum inteiro e ouvi o álbum inteiro.

Ela fez uma coisa diferente pra gente. Na verdade, ela fez uma coisa, hoje em dia, diferente para todos nós. Ela vai lançar um álbum com 24 faixas. Uau. Uau. Aí eu falei, álbum triplo, né? Há anos eu não vejo um álbum triplo. A música que fecha o álbum tem oito minutos. E a gente conversou sobre isso. Eu sou uma privilegiada, porque eu convivo com um adolescente de 17 anos, apaixonado por música, e que tem este tipo de consumo.

Ele ouve e ainda fala. Alguns álbuns a gente precisa ouvir e reouvir e reouvir para ir maturando dentro da gente e aí ter uma opinião e aí falar alguma coisa. Um artista novo que chega na vida dele, ele não fala gosto ou não gosto. Ele ouve, reouve e reouve.

E hoje, quem tá na roubada é o artista. Porque ele tem que produzir uma música. É quase que como se tirou aquela amarração que eles tinham com as gravadoras, né? A obrigação de lançar um disco por ano. O disco, antigamente, as músicas eram maiores. Antigamente, aí já estamos falando dos 70. As músicas podiam ser maiores, salvo Legião Urbana. Irracionais.

mas aí a música depois começou a ter que ter três minutos, dois minutos e hoje ela tem que ter um refrão de um minuto primeiro minuto, essas lendas aí um minuto a música que ela lançou hoje tem um minuto e trinta e nove, trinta e seis segundos, porque fez de propósito pra ser a música que foi lançada no TikTok, vem junto com a dancinha e é um refrão é um refrão, ah vocês querem refrão? vou dar um refrão pra vocês, não preciso nem ficar enrolando é um refrão pra vocês

Mas agora eu quero te mostrar o meu álbum. Porque ela vai lutar e investir num segmento desse daí. Eles não podem desistir. Porque o consumo hoje é esse. O cara ouve um, um, um, um. É tudo single, né? Single, single, single, single. Você não junta pra fazer um álbum, né? Vai lançando um single, outro single, outro single. Você não tem uma história completa. E com isso você também não agarra. A pessoa...

As pessoas reclamam de legenda longa. Quando você posta uma foto, um vídeo, qualquer, não querem ler legenda. Em contrapartida, eu acredito numa juventude que ainda quer viver essa experiência. Por isso, eu vou aplaudir.

todo e qualquer artista que nos entreguem essa experiência. Um álbum inteiro com uma história para contar, com começo, meio e fim, e um futuro. Você sabe, primeira vez que eu comprei uma picape, alguns anos.

parruda boa. E ela fica na cara do gol na sala com destaque. Certo. Aí o primeiro álbum, né? Vinilzão que botei lá pra tocar, botou, fui até a mesa, sentei, aí deu figura de linguagem, tá? Dois minutos, acabou. Falei, ué, já acabou?

Aí eu levantei, fui lá, virei o lado B pra ouvir. A gente hoje… A gente nem ouve música, eu acho. Porque a gente põe ali num streaming, num Spotify… E vai fazer outra coisa. Menino, o negócio não acaba nunca mais. Você chega… Eu tenho um homepad em casa que você vai embora e ele continua tocando.

Ele vai te indicando música, o algoritmo vai te indicando. E quando você vai, você vai pro mundo muito doido. Graças a isso também, o meu filho tem um repertório musical maravilhoso. Porque ele, criancinha, eu dei pra ele ver Preta Gil. E ele chegou na Beyoncé e nunca mais saiu.

Vem a preta, minha amiga, preta, vem a preta. Vem, vem, vamos dançar a música da preta. E aí, larguei a criança lá com a música. Quando eu voltei, ele já tava na Beyoncé e já foi embora. E já chegou na Destiny's Child e já... Pronto, encontrou. Encontrou as deuses. A juventude dá o recado pra gente. A gente tem que aprender a ler o recado. Tanto através da audiência, como através do que eles estão cantando. Mesmo quando parece alienado, tem um recado.

Mesmo quando parece pornográfico, tem um recado. Mesmo quando o app realmente pornográfico, ou muito pornográfico, existe um recado. Qual seria? Fuck the world. Não acredito em vocês. Vocês nunca me deram porra nenhuma.

É quase que Eu vejo mesmo como isso Como uma agressão Sabe o filho que fala palavrão pra mãe Pro pai Você nunca prestou atenção Você nunca prestou atenção em mim Agora você vai prestar atenção O mundo vive do dinheiro do sexo Há muito tempo Uma música de funk É três minutos concentrado E todo mundo consome o tempo todo diluído De repente e repente

É verdade. Mas como mãe de um menino...

Que cresceu, impactado também por isso. Antigamente, o menino... Letras pornográficas. Letras pornográficas. Você pode ter como um remédio de bula preta, né? Se você... Pra você ter acesso a essas letras, você tem que procurar ele. Não. Tem que ter... Tem que saber o nome, tem que acessar. Sabe o que eu falei pra ele? Quando eu vi... Ele tava fazendo catequese.

E aí, a parada lá do padre era divertida, porque tinha um furão, uns bichinhos, pingue-pongue, totó, mesa de totó. Eu ficava lá jogando totó com os caras, com os caras, né? Com as crianças e tal. E um dia, eu peguei no celular, uma mãe pegou e falou pra mim que estavam vendo coisa pornográfica na catequese.

Estavam vendo. Vendo vídeo. Não, eu fui criada num tempo que os meninos roubavam, assim, a revista Playboy na banca de jornal. E ia lê-la no pátio do prédio. Foi ler a revista Playboy. Delícia. O que eu vi que ele estava vendo com oito anos de idade era pornografia pesada, Brown.

Aí eu tive que ter essa conversa. Mas eu tive a sorte de ver ele consumindo. E chegar e falar, ó, papai e mamãe não trazem desse jeito, não. Isso não é de uma geração só, sempre foi assim.

Mas eu acho que o acesso a essa deep web... E eu tô falando de coisas muito pesadas. Eu não tô falando de uma mulher nua. Eu não tô falando de um casal transano. Não sei, gente. Mas o lance, essa procura por pornografia... Eu passei por um colégio interno em 76. Dentro do colégio interno, onde havia crianças de 6 a 12 anos, o tráfico de revista pornográfica... Mas que revista que era, amor? Revistas de época.

É, café com leite. Não, tinha umas pesadas. Eu vi uma vez, caiu uma na minha mão com um bicho que eu fiquei chocada. Revista dos anos 40. Não, então, revista de crianças, assim, de crianças de 6 a 12 anos, onde a procura, o tráfico de revistas pornográficas era alto. Não vi de criançada. Eu paro pra pensar e falo, nossa, eu tinha só 6 anos. O moleque que trazia tinha 8.

Sempre teve isso. Isso sempre foi vendido de alguma maneira. Eu acho que isso escalou. Isso foi vendido sempre de alguma maneira. Sim, mas... Toda a proibição que tinha na época, e beija bem, era um colégio de perfil religioso. Com certeza. E tinha essa procura por bituca de cigarro e revista pornográfica. Com certeza. Só que eu acho que as coisas escalaram. Sim.

A gente tem um acesso muito maior. Não se compara. Tá aqui. Tá na mão deles. A gente deu o celular pra essas crianças. Essas crianças todas estão com o celular. E não existe bloqueio parental. Porque o bloqueio parental, o vídeo que é bloqueado, pergunta em inglês. Você tem certeza que você não quer ver esse vídeo?

Aí ele fala, não. Não, eu quero ver. Óbvio. É óbvio. Óbvio, é esse o bloqueio. Eu falei, ah, vocês estão de brincadeira. Então eu cheguei muito junto. Vivi essa adolescência muito colada para orientar. E eu acho que você tem toda razão quando fala que essa música agressiva até...

é pra chamar atenção mesmo. Mas eu vejo também o lado que alimenta isso e a demanda. Claro. E quem é que consome isso? Meu amor, na festa que eu fui ontem era a única que não sabia cantar. Nós não estamos na Suécia, na Dinamarca, nós estamos no Brasil, né? Aí uma música dessa atinge o primeiro lugar da parada. Quem é que tá consumindo? É japonês? Não, somos nós. É brasileiro, né?

Não é isso? É onde nós tá, né? São os nossos vizinhos, nossos parentes São os nossos filhos, é E vou te falar mais, eu convivo com uma classe média alta e são as princesinhas de mamãe que tão ouvindo e cantando

É que a mamãe não tá chegando junto e não tá vendo o que tá acontecendo. Existe, assim, esse tipo… Músicas com pornografia e músicas que muitas vezes colocam as mulheres em condições extremamente subservientes e deploráveis muitas vezes. Existem vários gêneros musicais, né? Em muitos gêneros musicais. A gente vai encontrar esse comportamento em praticamente todos os gêneros musicais que a gente tem. Não, longe de mim criminalizar o fone que tá… Eu amo! Só pra gente reforçar isso.

Nós estamos justamente falando isso aqui pra descriminalizar o funk. Sim, eu só queria trazer um outro contexto que é eu acho que você também é uma jornalista e uma mulher que vem de uma família matriarcal que sempre falou e abordou questões de gênero e de dar visibilidade pras mulheres. E eu acho que eu faço parte de uma geração de mulheres também que investiu muito e aí tirando a música de cena. Eu falei isso só pra tirar a música de cena do que eu vou falar agora.

A gente é de uma geração que acreditou que os meninos jovens dessa geração seriam menos agressivos e violentos, né. E a gente teve recentemente, há dias atrás, uma juíza que se chama Vanessa Cavalieri, né. Que ela disse que a adolescência hoje é a faixa etária com mais homens misóginos na leitura dela.

Aquela loura, né, que tá no caso das meninas. É uma juíza que tá cuidando do caso de estupro coletivo. E aí, ela traz alguns estudos. Eu não vou trazer aqui agora, porque eu seria imprecisa. Mas ela fala muito como a pornografia é um elemento fundamental também na construção dessa misoginia. E aí, a gente pode falar de deep web e tudo bem. A depreciar? É, que colabora muito pra construção dessa cultura. Eu tô entendendo que você tá trazendo. É, que é outro rolê, assim. Brau, esse caso dessa menina…

pra mim ele é muito enigmático porque eu fui uma menina de 15 anos que fui num apartamento de um cara lá no Largo da Segunda-feira no Rio de Janeiro, porque eu quis eu queria realmente ficar com ele eu não queria transar com ele mas eu queria ficar com ele

Quando eu cheguei no prédio, junto com ele, o porteiro riu muito e falou qualquer coisa pra ele que eu não lembro. Muito provavelmente, hoje, eu imagino que ele tenha falado mais uma, hein? Fulano. E aquilo me incomodou, o cara rindo. Me envergonhou, tá? Quando eu entrei, o cara já foi muito agressivo na largada.

Que foi o que me salvou, na verdade. Porque ele foi tão agressivo na largada que eu tava muito perto da porta. E como eu vi aquela risada do porteiro, eu falei... E ele me machucou lá na largada. Me pegando à força. Querendo já rasgar a minha roupa. Eu gritei muito. Porque era o primeiro andar. Gritei muito. Um bairro residencial. Isso é no ano de anos 80?

Não, 15 anos, final dos anos 70 e 8. Na época que a violência contra a mulher era naturalizada. Não, pouco depois, o Rio de Janeiro era toda hora uma menina sendo jogada do Vips Motel pela Playboisada. Cláudia Alessim Rodrigues é uma famosa. Teve aquele caso do Doca Street. Esse aí já era uma mulher mais velha.

É, casada, rica. Mas também. A Cláudia era uma menina que tava numa... Tinha muita suruba, muita festinha e tal. Uma menina que tava com um cara. Os caras amarram pedra no corpo dela pra afundar. Mas enfim, eu consegui fugir. Você fugiu. Eu consegui fugir. O que mudou de lá pra cá? É... Eu não consegui contar pra ninguém.

Eu não contei pra nenhuma amiga, eu não contei muito menos pra minha mãe, nada. Não contei pra ninguém, eu guardei isso pra mim, durante uma vida. Quando eu vi essa menina...

que sai, vai pra casa, conta pra mãe. E eu vejo essa mãe levando essa menina na delegacia valeu cada minuto que nos saia justas da vida. E não só nos saia justa. Eu tive conversas com mulheres sobre o que é estupro.

que condição que uma mulher faz aborto. E incentivando, muito antes até do Saia Justa, eu tive na inauguração da primeira delegacia feminina em São Paulo. Então hoje a mulher denuncia.

Mas eu tenho a sensação, porque todo mundo fala que hoje a mulher denuncia e essa seria a diferença, porque sempre aconteceu. A gente acabou de falar, né? Aconteceu, Cláudia Alessia Rodrigues, Doc Sweet, não sei o que a gente vai falar. N casos. N casos. Há pouco tempo teve uma menina no subúrbio do Rio de Janeiro. Os meninos doparam ela e vários transaram com ela. Uma dezena de caras transando com a menina. Isso foi algum pré-pandemia, pouco antes da pandemia. Então...

Eu acho que hoje a mulher tá mais fortalecida pra denunciar. Mas eu acho que existe. E aí essa juíza fala muito bem isso. Que em todas as classes sociais, e numa crescente muito grande nas classes mais altas, os meninos estão se sentindo autorizados a violentar as meninas. Você tem um... Palpite? É, um palpite.

Eu acho que é um misto de tudo isso. A gente tem uma música que fala muito disso. Eu acho que aí a gente tem que ter uma discussão sobre isso. E eu acho que a gente teve uma permissividade da violência contra a mulher, o gay, o negro, vinda de um governo nefasto, que autorizou esses caras a se vangloriarem de estar fazendo isso.

Mas vamos deixar claro que não começou no governo dos caras. Isso vem de antes, né? Isso vem de antes, né? A gente tem uma cultura misógina, mas eu... Muito misógina. Te digo que na hora que um cara, um presidente da república... Fala o que falou. Fala o que falou sobre uma menina de 12 anos. E ganha a eleição, com aprovação de muitas mulheres. Mas a sociedade é hipócrita demais. Com aprovação de uma grande parte de mulheres.

A sociedade é hipócrita, meu querido. Da igreja. A gente não pode dizer isso. Da igreja. A sociedade é hipócrita e é difícil falar isso porque brigar contra a maioria é difícil. A gente fala uma coisa dessa e depois passa a ser perseguido. Mas vamos dizer que a palavra é hipocrisia mesmo. Estamos falando de parte da sociedade. E a demanda? Olha nós voltando na demanda aqui. Quem é que banca?

o lixo que é consumido. Quem é que garante que vai ser comprado? Eu tenho um exemplo na minha família. Maravilhoso. Eu tinha um tio que era caretérrimo. Teve um momento da minha vida que eu fui morar com uma tia-avó. A minha mãe não tinha condição financeira de continuar comigo. Porque a minha mãe se separa do meu pai que eu não tinha seis meses. Ela era professora na zona rural do Rio de Janeiro. Aí eu vou morar. Aí eu moro com essa minha tia-avó, minha bisavó, até os 12 anos de idade. Saí do engenho de dentro, fui morar no centro da cidade do Rio de Janeiro.

e esse tio era careta a gente não podia sentar a mesa pro jantar, pro almoço rio 40 graus eu criança, de calcinha e camiseta não podia meu primo, tinha um primo no rolê de camiseta regata, os homens usavam muito camiseta regata por baixo da camisa social tinha que botar camisa social abutuada minha tia e e e e

Aí vai. Não podia pintar unha de esmalte vermelho. Que era chamativo demais. Porque era coisa de mulher da Praça Amauá. Era muito perto da Praça Amauá que eu morava. Que era a zona... Porto do Rio de Janeiro. Era a zona do baixo meretrício, como falavam naquela época, né? Então não podia nada. Tudo era proibido. Falar palavrão era pimenta na boca.

Uhum. Acho que é porque eu falo tanto palavrão hoje. Não falei nenhum. Mas era feio falar palavrão. Eu lembro quando era feio falar. Era. Não, hoje em dia é, mas naturalizou. Bom, corta. Minha tia faleceu. Esse homem fez uma viagem. Sofreu um acidente de carro. Faleceu. E a gente descobre que a mulher que estava com ele era uma mulher...

do baixo meretrício, do Rio de Janeiro, que era amante dele há muitos anos. Ele era um caretão, moralista. Bem Brasil, né? Bem Brasil. É essa figura que existe em muitas casas. É o falso moralista. É o cara que lá dentro é pátria, família, poder, sei lá, aquele triunvirato lá que eles pregam, mas na rua ele é um outro homem.

É, já é coisa que os caras têm que estar vendo, né? Eu já acho que os homens estão perdendo espaço em muitos aspectos, né? Principalmente no profissional. E ficando mesmo assim, ocupando um lugar que ele não está acostumado. Eu vejo uma juventude de homens. Já que estão falando de jovens misóginos. Sim, sim, sim. Eu vejo jovens, os homens.

completamente perdido. Com certeza. Mas a ideia não era essa, porque você falou em perdendo espaço. A ideia não era essa. A ideia era que nós tivéssemos direitos iguais. A minha mãe, a gente tá falando de uma coisa muito recente, né? Eu tenho 65 anos. A minha mãe morreu com 60 no ano 2000. Mas a minha mãe foi uma mulher que não tinha CPF. Ela era separada e não tinha CPF. Ela era dependente do CPF do marido dela.

São conquistas femininas muito importantes e a isso dá-se o nome de feminismo. Uma batalha pra gente ter direitos igual. Ninguém quer tirar ninguém do rolê. A gente só quer, a minha mãe também. Ela teve o mesmo cargo quando a gente vê isso no mercado

corporativo, você percebe mais, né? Ela era gerente de uma companhia de seguros de um grupo A e um outro camarada lá era do grupo B. Mesmo seguro. Os dois vendiam seguros de vida. E ela ganhava menos que o outro cara. Não era justo.

trabalhava igual. E tem uma passagem que eu vi numa entrevista que você deu recentemente que você disse na entrevista que a sua primeira aparição pública foi ainda na adolescência. Foi. Porque você deu a sua experiência de ser filha de uma mulher desquitada. Primeira, a minha mãe foi uma das primeiras mulheres que conseguiu, que entrou na lei do divórcio. Ela se divorcia. Porque até então ela era desquitada. Desquitada. E aí ela consegue o divórcio. Eu fui dar uma entrevista no Globo.

participar de uma mesa redonda sobre ser filha de uma mulher desquitada, porque esta menina aqui, quando tinha uns 12 anos, a minha mãe foi tentar me matricular num colégio de freira, no Rio de Janeiro, e a freira não aceitou porque eu era filha de mulher desquitada.

Aí minha mãe falou, a senhora vai falar isso pra ela. Aí me levou lá no colégio. Falei, agora a senhora pode falar isso pra ela? Aí a freira lá foi falar. Repetiu. Ah, não pode estudar porque filha de esquitada que a gente precisa da presença do pai e da mãe. Aí minha mãe interrompiu a freira e falou, ó, vou falar uma parada.

Ela não falou parada. Vou falar uma coisa. Não é ela que não quer que você estude aqui. Sou eu que não quero que você estude num colégio com esse tipo de conceito. Sim.

Mas eu concordo com você que os homens estão perdidos. Porque não entenderam a mensagem. Não é pra excluir. E foi nem repassada a mensagem, talvez. A gente tenta, né? Mas precisa ter um pouco de atenção na escuta, né? A gente anda em tempos que as pessoas escutam muito pouco.

Podemos voltar a falar sobre a música que não ouve, mas não lê a manchete do jornal, quer cada vez textos mais curtos, acredita na mensagem de WhatsApp. Com uma máquina de desinformação também muito grande. Hoje o jornalismo gasta mais dinheiro com equipes de desinformação, checagem de fatos. Antigamente, a checagem de fato era uma pessoa fazendo.

Uma pessoa, tinha? Uma pessoa dentro das redações? Tinha aqui no TV Mix, eu tinha. Uma pessoa na redação falando, é isso? É mesmo? Confirma fulano, você ligava, confirma fulano. Agora não, primeiro manda ver, depois a gente desmente. Só que o desmentido não é lido da mesma forma, não é ouvido da mesma forma.

E é massivo, né? É difícil. Sabe o que eu acho louco? Apesar que você é uma geração um pouco anterior à minha, mas a gente pegou grande parte da transformação, a gente pegou o tempo real junto. Você viu um pouco antes. A gente pegou muitas transformações na sociedade dos anos 70 até hoje.

Eu já vejo algumas que já me parecem um segundo ciclo da mesma coisa. Mesma coisa que eu digo, comportamentos antagônicos de 7 em 7 anos, ou de 8 em 8, agora tá diminuindo. Então essa juventude mais careta...

que em 98, ela era 10% da molecada jovem, 5% era muito. Porque ser careta, nos anos 90, era ser o cara mais sem estilo. O que era o careta? O cara que não entende nada, é o preconceituoso, é o cara que usa a roupa que a mãe que dá, que não corre atrás, é o cara que depende da família pra tudo. Esse era o careta. Era o que não conhecia a malandragem da vida, é o cara que não sofreu nada.

Era o careta. Então era o que ninguém queria ser. Passado um tempo, o careta, o malandro, foi ficando careta. E ele vai entendendo certas coisas. Ele vai ficando mazel, os que vão vivendo vão ficando careta, porque ele vai eliminando, morou? E de tempos em tempos, os excessos.

eles causam o nascimento dessa... o excesso de uma geração anterior, causam uma imediata geração oposta a essa. É, no lugar comum se fala muito isso, né? Que você é uma pessoa muito doida, bebe, fuma, cheira, o seu filho vai ser o maior caretão. No lugar comum se fala muito isso. Mas na sociedade eu vejo isso. Eu vejo hoje uma sociedade bem reprimida. Por quem?

Por si mesmo. Pelas próprias sociedades. Por si mesmo. E por si mesmo. Pela própria cobrança. E também vejo uma sociedade muito... Agora eu falei carente, né? Eu falei curador, no sentido do selecionar uma agenda cultural, talvez política. Eu vejo também hoje uma sociedade muito...

Cara, você já falou isso com relação à política bem. E aí a gente pode expandir para a igreja e tal. Acho que grupos societários aí acharam que estavam ganhando. E aí não vai mais lá atrás do seu rebanho. Você fala muito bem isso na política. Eu concordo total com você.

A política de base foi abandonada. E não sabem nem mais o caminho pra chegar lá. Porque a base também não quer a mesma política, mas também a base mudou. E vou te falar, a própria base também não sabia o que queria. A gente vai entendendo agora.

Porque a gente se acostumou a viver de uma forma nos dois governos anteriores. Eu não quero fazer propaganda. O mundo mudou. A economia mudou. E já não se tem condições de viver daquela forma. Total. Mudou. O Brasil mudou. E era necessário que a economia acompanhasse. E acompanhou mais lentamente. É isso aí. O brasileiro está vivendo um padrão de vida maior do que o bolso dele. Sim. Permite. Permite.

Isso aí é o quê? É falha de quem? Difícil dizer. Mas o que eu tô querendo dizer é que não há esse diálogo, não há esse link. E a igreja também, a igreja católica, na sua soberba, na sua empáfia, de que estavam todos aqui, teve esse rebanho abandonado.

Fecha suas portas. Isso é uma crítica que eu converso isso com... Eu sou católica, simpatizante do Canomblé e uma apaixonada pela história das religiões. Eu converso isso com um padre, que eu tenho mais diálogo. Acho que a religião tem... E já conversei. Tem... Dose. Importância relevante na construção da sociedade. Super tem. Tá. Acontece que a igreja católica tá com a porta da igreja toda hora fechada.

Vai ver se a igreja evangélica não tá com a porta aberta. É importante o quanto. Vai ver se a igreja evangélica não tá recebendo. Vem cá, minha filha. Você que é mulher de prostituição. Não. Vamos aqui conversar. Aceita. Já viu televisão evangélica de madrugada? Já vi. Você se converte se você bobear.

curtir até um dia pegar o cara falando mal do Racionais. Recebe, recebe, recebe. Eu só saio fora quando começa a pedir dinheiro. Aí eu volto pra real. Tava assistindo o cara passando uma caminhada, um conselho. Aí do nada ele começou a falar mal do Racionais. Eu assistindo. Eu curti na onda, cara.

Não, eu sou um cara de fé. É? Tá ligado? Eu sou um cara de fé. Sim. Se eu parar pra ver um cara pregar na praça... Se pescou, você vai ouvir. Durante cinco, vou entregar cinco minutos do meu coração pra ele.

Ele tem cinco minutos pra me convencer. Porque eu tô que nem esponja. Eu tô ali pra absorver a mensagem daquele cara. Eu não tenho problema se ele é crente, se ele é católico, se ele é do Cadomblé, se ele é uma cartomante. Você tem uma audição ativa, né? Aí eu vou assistir o programa do cara. O cara, do nada, ele me fala que... Racionais, não sei o quê. Tudo a mesma coisa. Se os caras é maconheira, é irracionais, D2. Tudo igual aí, maconheira.

Meu Deus do céu. Incentivando a juventude, usar a droga. Nossa, eu tô curtindo a onda do cara, mano. O cara desceu a lenda. E não é a primeira vez que eu vejo isso. Sensacional. Tinha que ter gravado essa cena.

Não, do nada, isso é cômico. Tinha que ter aquela televisão que volta. Se não fosse trágico, né? Pra poder gravar, é um bom recorte. Mas você entende o que eu tô falando? Eu acho que as pessoas estão muito à sua própria sorte. Sabe que a religião tem... E aí quando aparece o cara lá que tem uma ideia, te recebendo, sem te julgar, você vai. Aí sim, não. Você vai, que você tá fragilizado, você vai.

A religião tem importância, ela continua tendo importância no caráter do jovem? Eu acho. Do brasileiro, continua, Dênia? Desculpa, eu quis até responder antes. Eu sou muito conhecida por ter um mantra. Fé, foco e família. Certo. Eu já me livrei de muitas coisas, da doença. Não te acusaram de ser de direita, não, por causa desse...

Não, porque não existe essa triadinha Esse monta meio Mussolino Não, fé pra Pra gente

Tem uma esperança, né? Eu gosto muito do verbo esperançar. Eu tô zoando, tô zoando, tô bagunçando. Tô te bagunçando. Eu gosto muito do verbo esperançar. Então acho que sem fé, seja ela qual for a sua crença, né? Sem fé, a gente não aguenta. Eu penso isso também. Você sabe que grande parte do, sei lá, você se julga uma progressista?

Uma parte é meio antirreligião e tal, eles acham careta o cara que é religioso, o cara que é apegado no invisível, porque é só o prático e o que é sólido, e é o que é realmente tocável, é o que se tem e o que o resto é lenda e é fé, e aí você é bobo porque você acredita no que não vê, tá bom. Eu acho assim, se a vida já é difícil,

Com fé. Imagina esse povo sem fé. Fé pra quem não foge à luta. Eu também estudo religião. Eu gosto. Agora, eu penso comigo. Vale a pena reorganizar isso na mente do povo e no coração do povo? Redefinir como era Jesus? Onde que ele nasceu? Não sei se vale mais a pena. É tanta coisa que criaram em cima do cristianismo que não sei se vale a pena mexer nisso. Eu tenho que acreditar que vale a pena.

surgiram um livro chamado Zelota pra começar, que era um dos nomes de Jesus. Jesus foi um cara maneiro demais, gente. Não, sim. Ele é bem falado em todo o continente africano, inclusive. É. Se fala muito bem de Jesus. Respeito também. É, se for contar a história de novo, é muita coisa. É porque tem muita gente contando a história sem ter conhecimento da história.

Ou sustentando uma história que serve a alguma coisa A gente vive também uma questão Um problema de interpretação de texto Que é outra doença na gente Você escreve, a pessoa não tá entendendo O que você tá escrevendo Não entendem Então o que fará

Lê a Bíblia. Mas você sabe onde eu identifico isso? Num dia a dia, sabe? As pessoas sem empatia pelo outro. É comum a gente hoje perceber que uma pessoa que se diz extremamente religiosa, principalmente os que se dizem, precisam se dizer extremamente religiosos, são os primeiros a... Apoiar. Apoiar. Ou consentir. A... A...

permitir não acreditar debochar que força tem a religião pra evitar isso quem é a grande autoridade uma coisa é fé, outra coisa é religião eu falo muito de fé

e eu acho que a gente precisa, as pessoas precisam entender, conhecer muito, os que criticam, precisam conhecer muito o Brasil e suas periferias. Eu hoje vivo muito e morro de São Paulo, uma ilha na Bahia, e fora o centrinho, o entorno é muito pobre. Tem uma comunidade lá chamada Zimbo, é muito pobre.

quantidade de portinha de igreja evangélica, sempre aberta, é enorme. Não fosse aqueles... E aí eu vejo, né? As ações sociais.

A dona Astrid. A fulana de tal tá precisando de uma cadeira de roda. Ah, não, sim, vamos aí. O que vocês já estão fazendo? A própria comunidade já está fazendo uma vaquinha. Ou a própria igreja já abastou a causa. E ninguém tá dependente de mim pra aquela cadeira. Eu só sou mais uma naquele rolê a contribuir à humanidade. A igreja evangélica tá sempre presente. Tá fazendo o papel social da comunidade. Tá fazendo o papel do Estado.

Em muitas comunidades pobres. E aí, meu amor? E ao mesmo tempo, pra colaborar nessa conversa, Abra, eu acho que quando você pergunta até que ponto a religião pode evitar, né? Esse tipo de sensação de consentimento ou de falta total de solidariedade e empatia com a perda dos outros, né? Com a morte dos outros. Ou essa sede de sangue, né?

É, então, é porque eu vejo muito uma individualização massiva em que eu tenho uma religião, eu tenho uma fé, mas o que eu quero é o bem da minha comunidade, do meu povo. E isso pode acontecer. Se tiver falando no bem da minha comunidade, do meu povo, já estamos no lucro. Porque, na verdade, a pessoa quer o seu bem. A gente tá vivendo uma sociedade extremamente individualista. Então, mas aí o que eu ia chegar é… Quando eu falo empatia, só ver isso.

Que grupo é esse, né? Que povo é esse? Quem você reconhece como seu povo? A gente tem um Brasil com uma ideia de nação extremamente quebrada ainda. Nem todo mundo que tá nesse país é considerado, de fato, um cidadão, uma cidadã. Ou parte do povo. Então, muitas vezes, esse desejo de proteger o seu povo exclui uma parcela considerável de população, né? De pessoas.

Qual povo? Ah, e se você quiser que eu seja mais explícita, eu acho que muitas vezes a ideia de supremacia branca tá muito intrínseca em muitas dessas linhas. No que não é falado. E não precisa ser dito, muitas vezes não tá explícito, não tá verbalizado, mas tá ali no dia a dia. Tá em como, muitas vezes, lideranças religiosas autorizam, parabenizam quando esse tipo de violência acontece.

Então, você não precisa necessariamente dar o nome de um conceito ou de coisas que a gente vai reconhecer diretamente e muitas vezes, ou até não, rechaçar. Mas vai se criando uma narrativa de que existe um povo que precisa ser protegido e um outro que não, que precisa ser combatido. É pior do que isso, esse povo nem é visto. Então, eu acho que… E aí, a religião pincela.

coisas, né? A religião, ela pincela, ela contorna. Não estou criminalizando religiões, sou muito religiosa, sou uma pessoa extremamente religiosa. Inclusive, sou de candomblé e é uma religião que exige bastante, sou muito religiosa e respeito todas as religiões. Mas existem essas pinceladas, esses contornos que levam a gente a agir de determinadas formas. E eu acho que o que você tá falando mesmo são das grandes presenças da igreja.

Ou da religião. A gente tá falando da religião. O que eu tô falando, o que eu falei antes, foi uma das pequenas religiões. Das pequenas igrejas evangélicas. Que só crescem nesse país. Sim. Só crescem. E como você disse, cumprem papéis muito importantes. Que o Estado não tá cumprindo. Exatamente. E abraçando esse rebanho todo. Exatamente. Porque a porta tá aberta pra todo mundo. Exatamente.

Eles querem mais um. Querem mais um, aí também, se a gente for falar do master, não quero me meter nessa confusão. Mas querem mais um porque é mais um dízimo ali entrando, né? Sim. E você disse a sua tríade. Eu só não embarco nas madrugadas na televisão porque tem uma hora que vai passar a sacola. E essa passada da sacola, que é obrigatória, aquilo não me interessa. A passada da sacola na Igreja Católica não é obrigatória. Ela é passada.

Mas você não é obrigado a contribuir ali com aquela oferenda. Mas que leva a culpa nos ombros, leva. O cara vai embora, o cara não podia ter dado. Mas se você podia ter dado e não deu, por que não dá também, né? Tocou a nota de 50, dei só 10, mano. Deus tá vendo que eu não dei 50. E Deus tá vendo. Já saí com esse peso. Já tem essa coisa da culpa, né? Mas já, pô, a gente tá com 60 reais, mas dá os 50 e levar só 10 também. Ah, mas isso é outra coisa que controla a sociedade, né? A culpa, né?

Não me vem com essa culpa pra cima de mim, não.

E aí, eu gostaria muito de ouvi-la. A gente falou muito sobre tudo que a gente poderia falar hoje. E um dos assuntos, a gente falou do Gabriel no começo, né, na sua mini bio. Que é uma figura muito importante na sua vida. E aí, a gente falou um pouquinho dessa sua luta desde muito cedo. Trazendo a questão das mulheres e tal. Quando o Gabriel chega, você já era uma pessoa que tava ali nesse movimento, nessa luta antirracista? Ou como que o Gabriel transforma isso? Não, eu era uma brasileira que eu falava.

que eu não era racista. Como se você sair daqui agora, for pra Avenida Paulista, ou pra Avenida Atlântica, presidente Vargas no Rio de Janeiro, ou pra Rochile, em Salvador, e fizer um povo fala, uma reportagem lá. Você é uma pessoa racista? Quem vai responder que é? Né?

primeiro que nem identifica fala que não é fala com coração eu falava com coração claro que não sou mas eu fui uma menina criada em escola pública no Rio de Janeiro filha da professora então a minha fotografia da escola é multicolorida e aí

muitas meninas e meninos pretos mesmo comigo. Depois, com 12 anos, quando eu volto a morar com a minha mãe, que aí eu vou para um prédio, um edifício de apartamentos, assim, tipo 10 por andar, e a minha mãe virou... Ó, se liga aqui. Ela não falou se liga. Olha esse prédio. Grande, né? Mora muita gente aí, né? Mora. Então, tudo que acontecer de errado sempre será...

do preto do primeiro andar, da bicha do segundo andar ou da desquitada do terceiro, que é você. Então se liga. Então já entendi ali, muito nova pra aquele momento, hoje uma criança de 12 anos tem mais ferramentas, porque seus pais também têm mais. Por isso eu acho imperdoável casos de racismo dentro da escola que o Gabriel também já sofreu.

Então, já pá. Mas, falava, então, que eu não era racista. Com a chegada do Gabriel, eu fiquei mais atenta. E no primeiro caso de racismo que ele sofreu, eu saí telefonando para todos os meus amigos pretos que eu podia. Sabe? Publicitários, artista.

Todos me contaram histórias terríveis. Você foi o primeiro, Astrid. E aí, porra, tô falando com, né, duas pessoas pretas na minha frente. Aí você chega um pouco perto do que uma mulher ou um homem preto sentem. Um pouco. E com o Gabriel...

eu me tornei mais atenta. E aí eu aprendi a palavra, a frase, né? Não adianta você falar que não é racista. Você tem que ser antirracista, é atitude. E aí eu descobri que, entre Malcom X e Martin Luther King, eu me esforço muito para ser Martin Luther King, mas eu sou Malcom X.

Eu não deixo passar. Eu vou pra luta. Nesse primeiro caso, a escola falou pra mim nós vamos trabalhar em sala de aula com um livrinho. Eu vou falar meu primeiro palavrão aqui, se me permitem. Livrinho caralho! Eu quero falar com a mãe desta criança. É uma criança. Essa criança tem cinco, seis anos de idade. Eu quero encontrar com esses pais. Isso é crime.

Vão falar, eles vão encontrar comigo, vocês vão me dar esse contato. Demoraram alguns dias, a mãe me liga e a mãe começa a conversa falando Nossa, soube que você até chorou. Meu Deus. Eu falei, olha, eu até não chorei, porque a minha raiva é tanta. Foi tanta que eu vi uma outra mulher em mim.

O que aconteceu é muito grave. E o seu filho está correndo perigo, porque ele está convivendo com pessoas racistas. Porque eu não acredito que o ser humano nasça com algum critério de seleção para olhar para o outro. Eu odeio quando falam a criança está chorando para aquela pessoa, porque aquela pessoa deve ser má. Porque criança, de vez em quando, encarna com alguém, né?

Aconteceu muito com o Gabriel. Ele encarnava com dois amigos meus. Um é o padrinho dele. Olhava, chorava. A gente falava, que diabo tá acontecendo?

Era a barba ou o bigode. A gente sacou isso com o tempo. Quando começou a variar. Um era preto, outro era branco. Então, não era não. Então, nenhuma criança nasce. Essa mulher começou assim a conversa e terminou me pedindo desculpas porque ela não estava dando conta de criar os seus três filhos. Então, eles saíam da escola, a babá pegava, o motorista levava a babá e as crianças para o clube. E no clube eles ficavam e eles só montavam para casa à noite.

Eu fiquei com muita pena do filho dela, porque do meu, não. O meu eu criei pra ser um garoto forte, autoestima bem trabalhada.

E soberano. Aconteceu um outro caso. Um leque na escola, já agora ele mais velho. Devia estar com uns 15 anos. Rasgou uma página do livro da Djamila. Eles estavam estudando o livro da Djamila. O pão motivação? Racista, né, querido? Verbalizou? Na página, pegou o livro, olhou pra cara do Gabriel e rasgou a página. Uma provocação direta. Você não precisa ver a barizar. E o Gabriel chegou em casa, sabe o que ele fez? Aconteceu isso, isso e isso. Mas será que dá pra gente enquadrar esse livro?

E aí eu dei para um amigo meu, artista plástico, que faz um trabalho com livros maravilhosos. Ele fez um recorte, ele fez uma colagem da página com ouro, com pó de ouro, como os japoneses fazem, uma técnica chamada Shintsuki, acho que é isso. Colou e ele está enquadrado lá em casa.

Então acho que o Gabriel tá pronto. Nunca estarão. Porque é sempre uma agressão. A dor é sempre muito violenta. Isso machuca, magoa, dói. Mas tá pronto pra reagir como eu tô. Então eu sou a que vai na passeata. Fui lá pra aquele prédio da Barra Funda. Pegar aquela mãe, aquele filho. O Gabriel tem um pouco receio da porrada. Ele é mais Martin Luther King. Eu não. Eu sou fogo nos racistas.

Então, isso eu aprendi com ele. Porque até então eu era uma brasileira comum. Que, né? Que li aquele livro O Brasil Não é um País Racista.

Do Alicama. Então, isso foi um... Acho que a gente, em outros momentos da literatura, a gente vê isso, né? Uma perda e um retrocesso, né? Ou um freio, né? Pra gente encarar esse Brasil racista que é. Porque quando você reconhece o problema...

você consegue sair dele, né? Você precisa detectar. Qualquer assunto da nossa vida, né? Se você detecta o problema, você vai conseguir trocar uma ideia com alguém, pensar um pouco mais e sair do problema. Enquanto não reconhecermos ficar nesse carinho...

Passos lentos daremos. Você pode não declarar qual lado você está. As pessoas vão tentar fazer uma leitura de você. Até pela roupa que você veste. E dizer, eu lembro...

com certeza você lembra também, de uma época que o brasileiro era chamado de alienado, apolítico. O brasileiro não entende nada, só tinha dois partidos políticos e mesmo assim não entendia. Era Arena e MDB. E não se... Mal se sabia ler.

E também entender o que era um e o que era o outro. Um era a situação, que era o final da ditadura. MDB é o que depois veio a ser a esquerda. Que hoje tem gente que tá lá de...

hoje é centrão a direita também cada coisa que a gente vê que é surreal eu vi a transformação da mentalidade do jovem de apolítico que realmente era careta saber de política era brega eu acho que os livros de história nos fizeram achar que era careta, que não era pra gente qual foi a frase do Pelé, meu amor?

Brasileiro não sabe votar, não foi ideia. Essa foi uma parecida. Eles foram coisas boas também. Não, também. Ele jogou muito melhor do que falou. Ele é o rei do futebol, ponto final. Mas, na hora que você tem o maior ídolo do Brasil...

deixando a política de lado. É difícil, mas não é o Pelé. É a escola. Os livros. Era obrigatório cantar o hino da bandeira, decorar. Era o governo, as musiquinhas da ditadura, lembra? O país que vai pra frente. Posso defender o rei? Não, o rei eu vou defender também. Eu sou santista.

Não, como pessoa física e cidadão. Ih, vai entrar no futebol. Não, não, o futebol... Neymar não foi convocado, né? Falar de Pelé e futebol é covardia. Neymar não foi convocado. Não foi. É chapa dele. Sabe quando começou essa perseguição ao Pelé, que eu julgo perseguição? Quando o Pelé declarou num programa, não sei se... Programa de entrevistas, que o preto tinha que aprender a votar no outro preto.

Sim. Pelé falou isso. E ele foi... Isso foi assim, numa época que o Pelé dava poucas declarações mesmo e usaram isso da pior forma. Concordo. Concordo. Eu não vou discutir a figura do Pelé jamais, porque pra mim ele é um rei. Não temos essa passagem. Tem uma camisa autografada. Você tem? Não conheci ele pessoalmente. Eu tenho a camisa autografada. Não é a camisa da seleção. Mas você não acha uma declaração sem precedente do Pelé? Excelente.

E sem precedente. Mas não apaga outras. Não, e o que fizeram com essa informação? Uma coisa é uma coisa... Ser humano é muito complexo. A gente não pode julgar ninguém por uma frase. Sim, é. O contexto é todo muito grande. As épocas são diferentes. Olha o peso da frase. Essa frase é incrível. Essa frase é atualíssima. Não é? Aí quando ele falou o brasileiro tem que aprender a votar, talvez ele quisesse falar o preto tem que aprender a votar. E ele não pôde falar isso. Porque quando ele falou o preto, ele passou a ser percebido.

Eu trouxe as duas frases aqui. O Pelé era o rei de todos. Do branco, do preto, do rico, do pobre. Ele era o rei do... Ele apresentou o Brasil pro mundo. Não teve outro, gente. Não, para. Não teve outro. Mas eu vou trazer as frases, então. Pra gente não ficar com...

Foi numa entrevista pra Folha de São Paulo em novembro de 77, que ele disse o povo brasileiro ainda não está em condições de votar por falta de prática, por falta de educação e ainda mais porque se vota, em geral, mais por amizade nos candidatos. Ele disse isso em 77.

Lembrando que estávamos vivendo um período de ditadura. Aí, em 95, ele era ministro. Ele disse, o sinônimo de político no Brasil é de corrupto. E o negro não carrega essa marca. E aí, ele também disse, não sei se nessa ordem tá gente, mas ele também disse. De uma maneira geral, o negro também deveria votar no negro.

A frase inteira é mais forte ainda, você percebe? Melhor ainda. Porque ele antes fala que o político é corrupto. Essa frase não foi... Ela não foi... E bem recente. Tampalmente divulgada, essa frase. E olha, bem recente. A gente teve que puxar a sua... Ele ainda disse, no Brasil, um país mulato, como dizem, você vê que os negros não têm uma boa representatividade no Congresso. E ele falou isso? Isso, na mesma fala. Isso é de 95 a outra de 77. E outra coisa boa que a gente ainda não falou,

Quer dizer, eu tava falando aqui porque a gente não aprendeu, né? A gente não aprendeu, não deixaram a gente aprender, governos não queriam. A educação é muito boicotada no Brasil. E isso ele tem razão. Ainda é boicotada. Eu tenho uma mágoa gigante de Fernando Henrique Cardoso porque eu achei que quando ele chegasse no poder, a gente ia viver uma revolução na educação. A gente teve excelentes ministros da educação. Nunca me aprofundei pra saber por que que não conseguimos.

fazer uma grande revolução onde todos estivessem numa escola. Eu estudei em escola pública, Brown. Eu não. Eu estudei ótimas escolas públicas. Depois, mais tarde, fui estudar em escolas particulares. Mas acho que eu vivi a escola pública boa. Lembro da minha mãe como professora, fazendo ações sociais dentro da escola pública. Hoje a escola pública patina.

Parece que... parece que não, não querem que a educação dê certo. Por que um povo instruído, educado, ele conhece os seus direitos? Isso não é interessante. E tem também um sentimento de apreciativo em relação à escola comum, porque a escola pouco se modernizou, né? O discurso e o que é ensinado, né, mano? Super. Então você vê hoje, através da internet, coisas que a escola não ensina, e as crianças estão muito mais ligadas à internet do que à escola.

Entendeu? Então elas aprendem muito mais... Muitas devem estar mais espertas do que a professora. Sim. E então, como já era cantado lá em 90, a educação do governo, cedida pelo governo, ela... Como é que é a palavra? Deteriorou. Com certeza. E o interesse demonstra isso. Com certeza. Aí entra o evento da internet de novo, como um instrumento de educação.

É, mas ela precisa... Sozinha ela não vai educar ninguém. Não, não vai. É incrível, é maravilhoso. De novo, o Gabriel tem ótimas referências vindas da internet, de um conhecimento geral muito bom, e que aí ele aprofunda de outras formas e tal, mas precisa de uma curadoria. Aliás, se a gente for falar em periferias e desse Brasilzão, quem é que tem acesso à internet, né, querido?

Hoje a internet virou artigo de primeira necessidade. Necessidade. Então hoje o cara tem ali um banco de dados do telefone com um certo... Ah, mas assim, a gente ainda tem muito que trabalhar. E todos os dias lá na praia, Morro de São Paulo, parece um vendedor de queijo coalho.

Aí, porra, nunca vi um vendedor, não passa ninguém na praia. Ah, vendedor de cascoalho, eu amo cascoalho. Quanto é? Não, não, não, tantos reais, não lembro, tá? Ah, a gente vai querer quatro, vem cá. Tu aceita Pix, né? Porque eu, naquele momento, eu não tinha o cartão dentro do celular, tá? Eu só tinha o Pix.

Deus me livre. Pix foi uma invenção do Bolsonaro pra gente ser assaltado. Olha a frase que o cara fez. Eu, ah, me vi ali, né? Falei, não, para. Me vi ali defendendo esse Bolsonaro. Primeiro, não foi uma invenção do Bolsonaro. Foi ver no Temer. Segundo, que é pra facilitar a tua vida, cara. Eu agora não tenho dinheiro. Agora não vou poder comer. Como é que a gente vai fazer?

Como é que a gente vai fazer? Aí tinha um casal do lado que o rapaz... Não, eu vou lá no quarto pegar. A gente tava hospedado num hotel, eu tava...

No hotel. Aí o cara foi lá pegar e pegou o cartão e aí pagamos. E o cara raivoso na minha orelha, que era um absurdo o Pix, porque aí ele foi assaltado. Mas assim, como é que ele foi assaltado? Eu não entendia o que ele queria dizer. O que tinha acontecido com ele e que tinha a ver com o Pix. Ele foi assaltado. Ok. Mas e o Pix? Mas e o Pix? E o dinheiro? Tava no bolso? Tava no celular? Tirado da conta dele? E o cartão não vai entrar na conta dele? Eu não entendi.

Bom, cinco dias, apareceu de novo o cara. Pô, que bom que a senhora tá aqui, dona. As pessoas... Ele não me conhecia, tá? Que bom que a senhora tá aqui, dona. Vim lhe agradecer que a senhora conversou comigo, me explicou e eu botei o pix. Falei, então, o que aconteceu com você quando você botou o pix? Falei, vim demais. Então, amor, o Brasil é muito grande. As pessoas são carentes.

Aí já não é nem informação. É de tradução do que o Jornal Nacional tá dizendo. Porque a gente pensa que tá sendo claro. Acho que eu construí muito a minha carreira, querendo sempre ser muito clara. Querendo sempre falar fácil. Pop, sabe? Sem ficar cagando regra, conhecimento, citando orelha de livro. Tem gente que cita orelha de livro, né? Nem leu o livro.

Não é? Vocês sacam isso muito rápido. Pra que as pessoas entendam. Então, o Brasil não tem esse acesso todo à internet. E a informação que vos chega não é claramente. Talvez por isso, isso eu tô pensando aqui agora, tá? O que chega do bilhete da tia do WhatsApp lá, seja mais fácil do cara entender. Ah, com certeza. E acreditar.

Porque o que eu tô falando Olha, né, o que o Jornal Nacional Tá falando E tem todos os estereótipos, né, as adesivos que vão Colocando na gente nos jornais Não lê um jornal bom, não lê um colégio de estrangeiro Não! Não tem acesso a isso não, gente Eles têm acesso ao cara do rádio Que tá ali falando

Né? O cara da televisão do programa popular batendo na mesa, marreta na mesa. Esse cara tá vivo? Morreu o alborguete? Batia o alborguete na mesa? Ele era de Curitiba, morreu. Você lembra desse cara? Mas o ratinho tá vivo, né?

Não, o ratinho deve estar vivo. Tá vivo, gente. Tá vivo, and... É, então. O que eu tô falando? Você bater porrete, falar besteira. Não, porque eu lembro desse cara que chamava Alborguete. Alborguete. Ele era o cara que criou esse estilo. Ele morreu, ele. Deve ter se corruído por dentro. Porque uma pessoa que fala tão mal, que só gera o mal, que só quer porrada, vingança, sangue, que ficam mostrando o noticiário. Uma época que eu vi o noticiário lá na Bahia, menino, na hora do almoço, não dá.

é tipo notícias populares lá em 1500 sangue na capa

Então esse homem deve ter morrido por dentro, né? Sensacionalismo. Com todo respeito à família dele. Você é essa pessoa que tá no aeroporto, né? Ali, observando as pessoas pescando histórias. Uma pessoa que sentou durante muito tempo ali ouvindo mulheres, dialogando. Em vários momentos diferentes. Como que você foi aprendendo essa sensibilidade de identificar? A gente tá aqui numa entrevista hoje. Você é uma pessoa que faz isso há muito tempo, né? Você é uma mediadora.

A mediadora do Brasil. Então, como é que é essa sensibilidade de saber a hora de só ouvir, né? Essa sensibilidade de identificar uma boa história. Como é que você foi desenvolvendo isso? Vou resumir e usar e falar de vários temas. É tão bom envelhecer, mesmo porque o contrário é um horror, né? Eu não tô preparada ainda pra isso. Foi com a maturidade. Eu, garota, eu queria falar muito.

Eu sou um bicho falante, né? E eu achava que a televisão, né? Que foi o meu trabalho, foi pra televisão. A televisão não permitia silêncios, eu achava. Hoje eu dou maior valor pro silêncio. A gente teve alguns pequenos aqui. De sabe? Falou, aí você...

Mas a sua marca era falar bem e falar fácil. Sim, falo. Te trouxe onde você chegou. Não, que é tipo falsa modéstia. Sim, falo bem e falo fácil. Mas na hora que me entregaram um programa como esse, Chegadas e Partidas, vai pro aeroporto.

Ouvir histórias das pessoas, muitas pessoas chegavam pra mim, e falavam assim, tem história pra contar? Não. Ou, minha história é tão desinteressante. Ou, minha história é muito longa, você não vai ter tempo pra me ouvir. Olha que triste. Sabe qual era a minha resposta? Todo mundo tem uma história pra contar.

menina, saí de casa para te ouvir. Vamos sentar então, já que a história é longa. E sentava e ouvia. Então isso foi uma bênção na minha vida. Me fez aprender a escutar. No momento que o mundo estava clamando por escuta. O que a gente está clamando no mundo é por escuta. As pessoas não estão se escutando mais. Você fala, você entra numa conversa.

Principalmente sobre política, costumes. Você entra numa conversa, as duas pessoas que entraram querem ganhar. Não quero mudar minha opinião, porque não quero mudar sua opinião. Por isso que eu te falei lá atrás, como é bonito ver um homem como você mudar de opinião, mudar de postura com relação à vida.

Naquele aspecto... Ah, não, você mudou muito, graças a Deus, pra melhor. Melhor? Muito. Você já me deu três sorrisos hoje. Não, é assim, por esse aspecto. Você percebeu que eu usei aparelho, né? Eu dei uma melhorada aqui. Não, você... Eu escondia meu sorriso porque era muito torto.

Não precisa nem mais fazer assim. Foi sonho de consumo, arrumar meus dentes. Eu usei aparelho por sete longos anos, entendeu? É? Então, tipo assim, essa coisa do sorriso, pra mim, sempre foi um tabu. Não, são tantas coisas, são tantas camadas. É isso, são tantas camadas pra cada um. Exatamente. Muitas camadas. Né? Muitas, porque até você entender que esse sorriso não perfeito era uma barreira pra você, você com você mesmo. Não demora.

Mas demora. Tu faz terapia? Não. Nunca fez? Não. Não? Não. Ia ser bom, né? Então, dizem, né? Não, quer dizer, pro terapeuta, porque ia ser uma troca ótima. Não é não? Eu não confio. Porque não confia, cara. Trocar ideia com uma pessoa que entende, né, da...

da alma, no sentido das camadas. Eu acho que esses caras quando entrevistam um famoso assim, ele usa de cartão de visita pro resto da vida. E esse barato que você tá passando aí, mano, o Brau tá passando pra mesma coisa. Não. Tava aqui ontem. Não, não. Não. Eu acho que o metrô brasileiro é meio sacana, tá ligado? O brasileiro é sacana. Igualzinho. Por isso que eu tô te falando. Se até o Mano Brau...

bem também, se ele falou naquele ciclo dele um ciclo de três, quatro pessoas ou pra uma pessoa pra ajudar se falar pra uma pessoa estratégica esse seu argumento só não foi pior do que o do meu marido quando eu botei ele pra fazer terapia botei ele, ele é ótimo, quando eu sugeri que ele fizesse uma terapia e ele aceitou ele falou assim, ah, não conheço nenhum psiquiatra, psicólogo, era psicólogo que eu queria, eu não conheço nenhum psicólogo e então

Eu falei, tudo bem, eu também não conheço nenhum astronauta. E eu acredito que o homem pisou na Lua. Aham. Não é? Bom, mas não era sobre isso que eu ia falar. A escuta, aí naquele momento, a escuta me transformou em outra pessoa. Eu fiquei menos ansiosa. Eu não me incomodei mais com o silêncio. E eu fui fazer um saia justa, onde eu não precisava trabalhar a minha vaidade. Eu tava ali só pra levantar a bola daquelas outras três.

Portanto, eu precisava ouvi-las. Porque se ficasse todo mundo falando ao mesmo tempo, eu só precisava reger aquela, né? Eram muitas mulheres querendo muito. A gente quer muito falar. A gente quer muito ser ouvida, principalmente nessas questões do feminino, né? Então eu, né? Eu fui aprendendo. Mas eu só consegui fazer isso porque eu era uma mulher mais velha. Quando me apresentaram os Chegadas e Partidas pra fazer, a primeira coisa que eu falei, eu falei, eu não vou conseguir. Eu vou chorar.

Aí a diretora que me chamou pra fazer falou assim, eu sei, você é filha de Oxum. Então, como é que eu vou chorar? Porque eu vi um programa holandês e um alemão com histórias tristíssimas de separação, de abandono e o entrevistador lá, né? Firmão. Firmão.

Segura! Falei, eu não vou conseguir. Chamei você por causa disso. E aí teve mais isso. Foi um programa que eu aprendi a escutar e aprendi a abraçar. Eu tinha muita dificuldade com abraço. Eu ainda tenho. Eu sou daquele tipo que se eu vier aqui amanhã de novo, eu não vou chegar beijando todo mundo. Aliás, eu não cheguei beijando todo mundo. Eu dei um oi geral pra todo mundo. Né? Não foi? Foi. Eu te dei um abraço ali. Tudo bem, né?

Tudo bem, não sou agressivo, nada. Não, não foi invasivo. Minha mãe também não gostava. Ela ia abraçar, ela dava o ombro. Não, você reparou o que eu fiz? Eu botei só a mão no seu ombro. Pra não sujar a sua roupa branca de maquiagem. Ah, foi isso? Obrigado, hein.

Foi, eu faço isso com todos os homens. Ou mulheres também, de roupa clara. Eu boto a mão na frente. Pra não manchar. Na hora que vai beijar. Isso é de grande sensibilidade. Mas tem muito homem… Inclusive, eu vejo os garotos, né? Os garotos da idade do Gabriel. Que eles dão a testa, tipo um chifre, uma chifrada assim. Meu Deus. Cara, me dá aí o rosto. Pode reparar. Quantos anos tem, seu filho ou filha? Meu filho tem dois só. Eu tenho um afilhado de 16. Pode reparar. Você vai reparar.

Astrid, planos futuros. Eu tô numa fase muito interessante da minha vida, porque a Globo rompeu o contrato, tanto do Saia... Não, do Saia Justa, não, que eu já tinha rompido, do Admiráveis Conselheiras, quanto do Chegadas e Partidas. Me ofereceram um projeto, se eu tiver, pra 2027. 2027 tá muito longe. É o que vem. E eu tô tomando gosto pra ser dona do meu próprio...

Sistema de comunicação que pode estar dentro de uma plataforma, que pode estar num palco de um teatro. Eu sei que eu tenho história pra contar. Acredito que tenha muito. Faz um prelúdio pra mim? Pra essa peça? Você me ensina? Como é que faz prelúdio? Aquelas vinhetas musicais. Musical? É, música. Tá. Tá.

Tá, é sim, tá, gente? Eu preciso entender como faz. O que você tem ouvido? O que você tem... O que você tá percebendo desse novo mundo que a gente tá vivendo, esse mundo que a gente tá na idade que a gente tá vendo essa revolução acontecer? O que você vê de bom? A insistência de muitas pessoas acreditarem no amor. Eu sou uma delas. E os jovens?

O que você vê de bom nos jovens? Que a gente não conseguiu atingir. E eles já desenvolvem, já fazem. Eles têm uma rapidez que muito me interessa. Eles têm uma rapidez. Uma rapidez pra captar.

Pra mexer com essas coisas aí. Mas não é só tecnicamente. É pra captar. Captar. Captar. Mantendo. Então, essa curiosidade da juventude por N questões, isso eu acho que é uma coisa que a gente tem que fomentar. As famílias precisam fomentar isso. Alimentar essa curiosidade.

A curiosidade, ela pode ser desperta num simples andar pela cidade. Sim. Sabe? A gente... Não gosto de criança dentro de carro com um celular. Olha pra rua.

Sim, eu falava isso com meus filhos quando era pequeno, olha pra fora Olha pra rua, olha aquela pessoa olha aquele prédio, eu sou assim até hoje então eu fazia mil coisas com ele pequenininho, porque criar filho dá trabalho já sacou, né? Então quando começa a ter que educar mais você educa desde que tá na barriga, né meu amor? Sim Mas quando começa a tá no carro começa a perceber mais, eu brincava quem tá vendo um carro vermelho?

Um, dois, quem tá vendo um carro amarelo? Nunca ia passar o carro amarelo. Mas tinha que ficar olhando pra fora. Hoje, vindo pra cá, olha lá aquele poste. Tira essa foto, Gabriel. Ele próprio, olha aquele homem. Era um homem.

Deitado, estava chovendo já, na porta de um colégio de classe alta, aqui em Pinheiros, eu acho que é aquilo dali. Bem debaixo da porta, onde tinham quatro pombas da paz. E ele deitado ali, assim, tipo de boa. Dentro do que a gente pode achar que é de boa estar numa condição de rua. Mas ele estava confortável e tranquilo, olhando aquilo. Aí o Gabriel tirou a foto.

Aí depois, olha aquele prédio como é magro, né? Como é que as pessoas estão morando agora no apartamento? E dali já vem uma conversa. Então, se você não estiver junto, despertando essa curiosidade, eu acho que não é todo que nasce assim. Ninguém nasce pronto, né? Então, eu acho que a qualidade da curiosidade dessa antena parabólica virada para um mundo muito maior, sem fronteiras, mas temos muito que trabalhar ainda.

Deixa eu te perguntar, o jornalismo que você conheceu e o de hoje, ele melhorou ou piorou? Piorou. Eu brinco muito que eu falo, porra, não estão dando folga pro estagiário. Os grandes nomes do jornalismo desapareceram. Perderam espaço. Eu tô falando...

Comecei a falar pensando bem em jornal. Eu vi um jornal escrevendo figurinos do Oscar. Me interessei, eu ia ler a matéria. Queria, né? Figurino. Na hora que eu tava vendo o Oscar, não távamos pensando nisso. Távamos pensando mais em filme, falando dos filmes. Eu, mais uma vez, junto com o Gabriel. E aí eu falei, ah, quero ver de quem é aquela roupa. Que roupa que tava o Wagner Moura, que roupa que tava... Aí a pessoa começou a descrever as roupas. Não, eu sei que o chamelete lá tava de terno branco, porra.

Não precisa me dizer que ele tava de terno branco. Entendeu? Eu quero saber de onde é. Eu consigo ver. Qual foi o stylist. O que tinha ali de mensagem. O que tinha naquele bottom do... Ice... Out. Mas não, era uma coisa... Eu falei, gente, cadê? Ainda brinquei com o Zeca Camargo. Falei, Zeca, pelo amor de Deus, assume lá a ilustrada.

A gente quer profundo Jornal é profundo Jornal não pode ser raso Aliás, ninguém pode ser raso Porque também se botar no feed Que o cara tava de terno branco, eu tô vendo Tua foto E a gente tem poucos São poucos O que é uma linguagem rápida ou é um desinteresse Por detalhes?

Acho que é uma coisa que tá junto com a outra, sabe? Você tem que ser rápido porque ninguém mais tá lendo a legenda. Então, eu vou escrever um texto curto. Tenho muita presença hoje nas redes sociais, né? Então, eu faço o possível pra pegar aquela pessoa. Então, ah, carrossel de foto dá certo. Então, eu foto um. Mas dando informação. O que complementa, né? Complementando com a foto que eu tô dizendo. Mas querendo que ele leia um pouco mais.

Porque sem ler... Bom, eu tenho um clube do livro, né, gente? Se eu não acreditasse na leitura e no conhecimento, eu não tava acreditando no clube do livro. Também como um negócio. É um negócio também. Que eu hoje tenho tempo pra também fazer isso. E aí, o que eu vejo é isso. Nossa, graças a Deus. Graças a vocês, eu tô conseguindo ler um livro. Aí outra. Há anos eu não li um livro.

Meu Deus, eu vou falar a verdade pra vocês. Eu não li os 10, mas li 5. Tá ótimo, meu amor. Se tá lendo, tá valendo. É a hashtag que a gente usa. E se tá lendo mais do que lia, tá melhor ainda. Voltamos pro conhecimento, pra educação, pra informação de qualidade. Se você tá ouvindo o quê? Qual que é o som que tá fazendo sua cabeça agora?

com a Luísa Sonza na cabeça não, é que eu ouvi ontem um álbum inteiro tá recente tá recente, tá tocando na minha cabeça que som te inspira pra sair pra trabalhar eu gosto pra sair pra trabalhar no carro eu ainda ouço rádio porque eu quero ver o que a rádio tá me oferecendo então eu ouço entre Eldorado a 89 e a 89.7 e a 90.7

A 89 Rock e tal. Eu gosto, pra mim, o que me centra é música popular brasileira. Eu gosto de letra. Eu gosto de ouvir as letras. E gosto de música preta do mundo. Black music. É. Eu voltei aos Estados Unidos agora, porque eu jurei que nunca mais ia, só pra ver o show da Beyoncé. Ainda dei a sorte do Jay-Z aparecer nesse show. Foi uma loucura.

Que nota de 0 a 10? 10. Puxou da Beyoncé. Sabe qual foi a primeira coisa que eu falei? A primeira percepção minha? O som. É uma porrada sonora que especula-se que ela vai vir aí, né? Com um de rock, seguindo a trilogia e passando a limpo. A história da música preta, né? Rock and roll negro. Se ela vier com rock and roll negro, meu amor, compra essa passagem. Eu vou até pros Estados Unidos de novo.

Com aquele som pesado. Mas um som pesado era, sabe? Eu falei, sabe quando bate assim? E poucas vezes bate assim, né? Bem, eu sei. É sistema ou é antissistema? Várias curtinhas agora ali. Eu acho que ela é antissistema. Porque ainda é uma mulher preta. Tá no palco com aquela atitude, com aquela postura. E ela sente charuto. Ela bebe copo de uísque. Tá ganhando uma grana enorme com aquilo.

Mas eu acho que é dela. O charuto é dela. Gostei da resposta. Isso que eu queria ouvir, por isso eu perguntei. Sim, ótimo. E essa arrogância ainda agride, então ela é antissistema. Gostei, fechou. Essa foi a Astrid Fontenelle. Forte e leal, sincero abraço.

Esse foi o Mano a Mano, um podcast do Spotify. Apresentação, Mano Brau. Co-apresentação, roteiro e consultoria jornalística, Semayá Oliveira. Produção, Zamunda Estúdio, Bugnaip e Spotify. Pela Zamunda Estúdio, a produção executiva é de Ana Guerra. Direção, Fábio Ismeili. Coordenação de produção, Ingrid Mabelli. Coordenação editorial, Renata Hilário.

Captação, Careca Tully, 2G, Morasta e Mude Rodrigues. Edição, Júlia Gemelli, Murilo Ruivo, Giovanna Costa e Mude Rodrigues.

Cenografia, Ana Guerra. Música original, Fábio Ismeili. Motion graphics, Miguel Bezenbruck. Artista 3D, Gustavo Pedrosa. Maquiagem, Jade Benitez. Figurino, Semayá, Cidat Souza. Assistente de produção, Júlia Magalhães. Fotos, Petalalops. Pela Bugnaip, a produção executiva é de Caire Jorge e Eliane Dias. Assistente de produção, Carol Castro.

Pelo Spotify, a produção executiva é de Camila Justo. Assistente de produção, Luísa Migueires. Marketing, Karina Morena do Spotify. Iaru Macedo, da agência Droga5. Comunicação, Nicole Azevedo, do Spotify. Babi Ferreira e Ana Maxud, da agência Edelman. Jurídico, Janet Vasquez. Gestão de negócios, Jack Black. Vendas, Manuela Costa. Concepção Criativa, Gana.