Episódios de Os Herdeiros

E o Resto é Ciência. Como se mede a altura do Kilimanjaro? Não é assim tão fácil

27 de abril de 202640min
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Miguel Miranda esteve numa missão científica que mediu a altura do Kilimanjaro, a montanha mas alta de África, e explica como é que isso se faz. Não encontrou foi a carcaça do leopardo de Hemingway.

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Participantes neste episódio2
J

José Manuel Fernandes

HostJornalista
M

Miguel Miranda

ConvidadoGeofísico
Assuntos4
  • Medição da altura do KilimanjaroTecnologia GPS · Geodesia · Nível do mar
  • Mudanças climáticas e glaciaresDesaparecimento de glaciares · Alterações climáticas
  • História do KilimanjaroExploração e mitologia · Evolução geológica
  • Mistério do leopardo no KilimanjaroRestos de leopardo · História de Hemingway
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Bem-vindos de regresso ao E o Resto é Ciência e hoje, tal como foi prometido a semana passada, vamos viajar até África. Em África vamos viajar até o ponto culminante do continente, portanto a montanha mais elevada que é o Kilimanjaro.

Não é apenas a montanha mais elevada de África, é uma montanha que é também, em termos de montanha isolada, a maior montanha isolada do planeta e que tem uma origem muito interessante e tem muitas histórias para contar. Tem histórias de exploração, histórias de evolução, histórias de...

literatura, histórias de, enfim, até inclusivamente etnografia e etnologia. Mas hoje vamos, sobretudo, centrar-nos naquela montanha, na sua origem e numa coisa muito particular, que é como é que se mede uma montanha, como é que se mede a altura de uma montanha, até porque...

Eu sou o José Manuel Fernandes, comigo está o Miguel Miranda. O Miguel Miranda é geofísico, é membro da Academia das Ciências e, além disso, já subiu ao Kilimanjaro, precisamente numa missão para medir com maior rigor a altura dessa montanha. É uma missão de colaboração entre a Comunidade Científica da Tanzânia e a Comunidade Científica Portuguesa, em particular a Universidade da Bairro Interior. Bem...

Mas antes de ir aí, se calhar vamos começar por aquilo que é um pouco a nossa mitologia, que é um conto pequenino, mas muito conhecido, do Iminguei, não é? Eu vou dar o texto, que penso que muitos de vocês já leram.

mas que é sempre bom de ouvir e que diz que Ilemanjar é uma montanha coberta de neve, a 6 mil metros de altitude, e diz-se que é a montanha mais alta de África. O seu pico ocidental chama-se Negag-a-Negai, a casa de Deus. Junto a este pico encontra-se a carcaça de um leopardo. Ninguém ainda conseguiu explicar o que procurava o leopardo naquela altitude.

Bem, nós temos aqui um mistério para resolver, vamos tentar resolvê-lo neste programa, que é o mistério do leopardo, mas antes de irmos ao mistério do leopardo, vamos começar pela mitologia do próprio Quilimanjaro, que é uma montanha que desde, podemos falar, milénios... Sim, o Ptolomeu, que é, digamos, eu poderia dizer o pai, não é o pai nem o avô, é o tetra-avô dos geógrafos, descreve...

a existência do relevo importante no norte da África a que chama os Montes da Lua perto do local que esse sim também mítico que seria a nascente do Nilo porque a nascente do Nilo foi uma questão discutida durante muito tempo e procurada durante muito tempo e procurada durante muito tempo por muitas razões e ainda hoje não se sabe o que é que se referia aos Montes da Lua então

Mas das montanhas que existem em África nesta latitude, nós temos três, não é? Que é o Quénia, a Ruenzori, no Uganda, e temos o Kilimanjaro. E provavelmente o Kilimanjaro é que deveria dar esta ideia.

de uma montanha muito alta, porque ele é visto de uma distância muito grande. E tem o decumo coberto de neve. É interessante pensar que em 1848, não é assim há tanto tempo, existe um missionário alemão.

que avista no dia 11 de maio desse ano uma grande montanha cuja parte superior lhe parece branca e que o seu guia local lhe descreve que aquilo é frio.

Ele reconhece de imediato que se trata de gelo, mas não identifica nenhuma palavra local que sirva para gelo, porque o gelo não era propriamente uma substância que fosse comum naquela região. Estamos a falar de uma montanha que fica muito perto do Equador, não é? E, pai, quando chega à Royal Geographic Society, ele é...

recebido com incredulidade, porque a ideia de que pode haver gel tão perto do Equador estava fora de consideração naquela altura. Enfim, percebe-se porquê. Bem, para termos uma ideia, eu estive aqui a fazer uma conta. Esta montanha tem cerca de 4 mil quilómetros quadrados, não é? 4 mil quilómetros quadrados é como se nós fizéssemos, se isso fosse um círculo, portanto fosse um círculo, era um círculo com 70 quilómetros de diâmetro.

Ora, em termos de área, estamos a falar de uma área equivalente ao distrito de Coimbra, uma área maior que o distrito de Lisboa. Portanto, quando falamos da montanha...

do Climajaro, estamos a falar, enfim, chamamos-me montanha isolada, ela em rigor, rigor, não é completamente isolada, porque são três montanhas. Três picos. Três picos, mas o pico principal é, de facto... Ou seja, aquilo é um grande conde vulcânico, que quando se chega a Mochi, que é a povoação mais perto,

para onde se consegue viajar quando se quer subir o Kilimanjaro, de repente, da savana, ergue-se um cone cujo impacto eu diria que só é comparável e mesmo assim não é bem igual ao Fuji. Eu fujo, eu estava lembrando disso. Mas o Fuji é mais certinho, não é? É, mas também tem um grande impacto visual. E...

Existem três picos, não é? Existe Xira, que é o mais antigo, Mauense e Quibo é o mais recente, e é em Quibo que se situa um pico ainda mais alto, um picozinho, um piquinho, como seria nos Açores, o Uru, que significa em Suai Li, liberdade. E, portanto, nós estamos na terra do Rei Leão, em que as pessoas ainda sabem o que quer dizer a Kuna Matata.

O quê? Repete lá. A Kuna Matata, toda a gente sabe, pelo menos, quem teve filhos da idade dos meus e virou um rei leão muitas vezes. E porquê que aparece esta grande montanha do ponto de vista geológico? Portanto...

Há cerca de duas vezes de milhões de anos, 20 a 25 milhões de anos, a África começou a dividir-se ao meio. Na Etiópia nasce aquilo que se chama um rift, uma separação. Aquilo que se chamava antigamente África para os geólogos e geofísicos começa a chamar-se Núbia.

para o lado do Ocidente e Somália para o lado do Oriente. Digamos, a parte da Somália é pequenina, apanha basicamente ali o chamado corno de África. Não, mas apanha tudo para o sul, apanha metade de Moçambique ainda. Apanha até Moçambique. E extenso um bocadinho para este. E depois todo o resto da África, portanto o Sahara, toda a África Ocidental, tudo isso é Anubia. Para os portugueses isto é um sentido geofísico, porque...

É devido a isto que provavelmente a placa africana começa a afastar-se mais lentamente da América do que a placa euroasiática e esta diferença de velocidades é que faz aparecer os Açores. E se cá vamos falar com mais detalhes noutra altura, falaremos com mais detalhes noutra altura, mas já vamos tentar perceber... Mas é interessante pensar que ao longo deste rift...

aparece uma sequência grande de lagos, que muitos conhecem, que é o Neas, o Vitório, o Tanganyika, que se prolonga até Moçambique, cujo território aumenta todos os anos alguns milímetros. Esse movimento, de resto, alguns milímetros, nós achamos que é muito pouco, mas isto vai acumulando, acumulando, acumulando, e isto vai gerando, como tu disseste, processos vulcânicos. Enfim, neste momento os vulcões não estão ativos como noutras regiões do mundo, não quer dizer que não possa acontecer alguma coisa, mas neste momento não estão.

e estamos a falar de uma região que foi nascendo e foi sendo modificada muitas vezes ao longo deste período. Por que é que eu estou a falar disto? Porque nós, se temos aqui uma montanha de lua, ou como quiser chamar com esta dimensão, um pouco para norte, portanto, numa altura em que ainda não existia o Quilemanjar, o Quilemanjar é mais recente, portanto, há 3,2 milhões de anos.

no extremo norte deste rift, ainda nascente, apareceu aquilo que nós consideramos o nosso mais antigo antepassado, ou melhor, antepassada, porque há uma senhora, a Lucy, que é o fóssil de, digamos, omnídeo mais antigo.

E uma das possíveis hipóteses, estamos a falar de algo que não está de forma nenhuma comprovada, uma das hipóteses para a evolução dos omnírios, designadamente para nós sermos bípedes, isto é, andarmos de pé...

é estar-se num ambiente que estava a sofrer uma mutação relativamente rápida. É evidente que quando falamos em mutações rápidas, ou falamos em evolução das espécies, não falamos em dezenas de anos, falamos em centenas ou milhares de anos mesmo.

mas uma evolução mais rápida, com ambientes a serem transformados com bastante rapidez. Alacos que aparecem e desaparecem, planaltos que sobem e descem, são erudidos, abrem-se vales de rios e surgem grandes montanhas. Isso é uma hipótese. Enfim, se é verdadeiro ou não, talvez um dia destes minutos a saber. A vida é muito simples. Os biólogos...

sempre consideraram que era a biologia que terminava a geologia. Ah, não, não. Os jogos, em contrapartida, têm uma opinião que é parecida, mas é inversa, achando que é a geologia que termina a biologia. Na verdade, hoje em dia, preciso dizer que existe uma área em grande expansão que se chama biogeodinâmica e que tem a ver exatamente com esta interação entre os processos biológicos e os processos geológicos, que parece ser muito complexo e muito importante para a história da Terra.

porque falámos ainda há pouco tempo da questão da Lua, da Lua ser apenas um planeta que tinha uma única capa, e é preciso dizer que a Terra também já foi assim. E o que é que permitiu que a Terra passasse de uma...

capa uma tampa estagnada em português. Como a Lua. Que poderia estar cheia de carateras como a Lua, mas não está. Exatamente. Mas estagnada, mas sem dinâmica. Para uma situação de tectónica de placas há o papel da água, seguramente, e há o papel da vida. E ambos são discutidos, como muito fortemente, porque, como é evidente, hoje em dia estamos no tempo em que estamos a pensar como é que saímos da Terra, porque, como sabe, já praticamente temos cabo deste planeta e estamos a precisar de uma nova caça. Sim.

Vamos precisar, portanto, disso. Apesar de termos, enfim, a nossa atmosfera não era assim originalmente, a vida também contribuiu para ela. Daí a tal dinâmica, a tal geodinâmica, como tu disseste. Bem, de geobiodinâmica.

Bem, mas voltando ao nosso Quilimanjaro, tu estavas a falar que ele nasceu no Rio de Janeiro, ele fica numa zona que é, portanto, estamos a falar em termos físicos, ele fica ainda na Tanzânia, mas já perto do Quénia e a Etiópia fica mais para o norte.

E este processo, do ponto de vista da história geológica e volcanológica, está muito estudado. Não é hoje nenhum motivo de polémica, mas há uma coisa que é motivo de polémica, que é a altura do Climajar. Mas antes de irmos à altura do Climajar, tem que se perceber que quando se chega ao aeroporto,

se pode comprar as várias t-shirts que indicam que o Kilimanjaro tem uma altura, que eu não me quero enganar, 5.895 metros. 5.895 metros. E, portanto, o objetivo da missão que foi organizada pelo Rui Fernandes, da UBI, aliás com financiamento público...

um bocadinho de financiamento público da EFCT e um bocadinho de financiamento privado do Licorbeirão, que foi transportado até ao ponto mais alto, até ao topo da África. E esta missão tinha o objetivo exatamente de calcular a altura da montanha.

Houve uma outra missão, que também pela mesma equipa, que teve a ver com calcular exatamente as novas marcas geodésicas de Moçambique, porque isto é o mesmo processo geofísico. Nós temos o rift a abrir e ele tem um efeito a norte, que teve a ver inicialmente com a formação destas grandes montanhas. Ele cria uma enorme...

trincheira, que atravessa todo o continente, até praticamente Moçambique, mas isso significa que as coordenadas que foram atribuídas no princípio do século XX pelos geodesistas portugueses, na altura só havia portugueses, hoje em dia já não são válidas e, portanto, com os colegas de Moçambique, teve-se a fazer a preocupação. Quando falas, só para as pessoas terem uma ideia, se falamos de milímetros, quanto é que nesse espaço de tempo...

Mas em 100 anos, 5 milímetros ainda faz um bocadinho. Faz 50 centímetros, mais ou menos. E, portanto, para se corrigir todas essas medições e, de certa forma, melhorar a própria observação, foi feita a reocupação. E é preciso dizer, porque isto é experiência pessoal e, portanto, vale como uma fotografia, que muitas das marcas geodésicas de primeira importância estavam íntegras.

lindas, erguentes do chão, com todas as condições para serem observadas e que, portanto, significa que há coisas que se mantêm. Às vezes nós pensamos que não, mas às vezes as pessoas dão mais importância a certas coisas. Nós deixamos muita coisa em África e algumas delas, estas estarão há 100 anos, outras estão há 500 ou 600, alguns padrões, alguns pontos da costa.

porque a ciência e a geografia não são assim tão influenciadas pela política como se pensa.

E para todos os efeitos, nós sempre precisamos de pontos de referência. E porque sem pontos de referência a orientação torna-se mais complicada, se não impossível. E daí a necessidade do rigor absoluto, não é? Porque estamos a falar de coisas que são, neste caso, rigor absoluto. Agora, o que é que é interessante quando se sobe o Climajaro? É ver-se que temos uma sucessão de climas totalmente diferentes uns dos outros. E eu aconselho a todos a viagem.

Não a fazer com a pressa que nós fizemos, depois explicarei porque é que tive que ser com pressa, mas com um bocadinho mais de calma. Não é nenhum drama do ponto de vista físico. A parte final é dura, mas o piquinho dos Açores também é muito duro, porque é gravilha, e portanto a gravilha é sempre difícil de subir.

Em contrapartida, a capacidade de ver desde uma paisagem que é de savana até à floresta quase tropical, até ao deserto no Planalto Superior, é uma lição de geografia. Até, por enquanto, à neve e ao glaciar. Até a neve e ao glaciar, que já é muito pequeno.

têm estado sempre... Mas já vamos à história de relaxar um bocadinho mais daqui a bocadinho, quando voltámos ao nosso leopardo. Antes, conta lá melhor, essa tua despedida, disseste que teve que ser rápida, mas ser rápida, o que é que você estava a fazer? Pois é, sim. Isso, entramos no problema de como é que se mede uma montanha.

e quando foi preciso fazer a observação da altura do Relimanjaro já tínhamos tecnologia GPS. Aliás, participou também na operação um colega do Departamento Financeiro da Trimbal.

Aliás, grande montanhista, porque ele vive no Colorado e, portanto, para ele, 5 mil metros é o que para nós saberemos. Sim, sim, sim. Amendovites. Amendovites. Na verdade, o GPS trouxe uma grande alteração à forma como nós trabalhamos para medir a terra, mas...

Mas antes de ir isso, vamos lá só, para quem não tem bem presente, o GPS basicamente o que faz é, nós, portanto, temos um aparelho que está ligado a satélites e através da triangulação com os satélites nos dá a nossa posição exata. Agora, estamos a falar de que podemos chegar ao nível de precisão, enfim, metros já percebemos, todos nós andamos com o telemóvel no bolso e percebemos que ele nos dá a precisão de metros, mas de centímetros e de milímetros.

Com um tempo de ocupação suficiente pode-se melhorar muito a precisão e, por exemplo, a observação que foi feita no topo do Climajar, penso que durou 45 minutos, 45 minutos é medir as posições. Só que o GPS tem uma grande vantagem e um grande problema. A grande vantagem é que ele mede a posição num referencial inercial relativo ao centro da Terra. Mede a distância ao centro da Terra, vamos por uma questão assim. E, portanto, mede uma distância geométrica.

Ele mede geometria. E o problema é que a vida não é só geometria. Ou seja, na verdade, o que se passa é que vamos imaginar que nós queremos construir um terraço, coisa que é vulgar, e precisamos ter uma pendente, que também não pode ser grande, porque se ela for grande é desagradável. Mas se ela for pequena demais, a água não escorre.

Então infiltra-se os nossos criatos. Infiltra-se, dá cabo de tudo, tem que ser recuperado pouco tempo depois. E nós precisamos de garantir que ela tenha uma certa pendente. Quem diz isso diz também um sistema de abastecimento de águas, ou um sistema de águas residuais. Nós precisamos de saber o que é que está acima e o que é que está abaixo. Isto não é como o Hermos Trimos, isto. Se é o que está abaixo, é o que está em cima e vice-versa. É preciso mesmo saber como é que...

Estamos ou não numa horizontal. Quando nós dizemos, ah, a Serra da Estela tem, olha lá, quase 2 mil metros, aliás, 1.992 metros. Nós, na verdade, estamos a falar da distância ao nível do mar. As pessoas dizem ao nível do mar, e está sempre escrito em todo lado, o que significa que eu que tenho o GPS, ele mede muito bem a distância ao centro da Terra, mas ele também tem que medir onde é que está o nível do mar naquele sítio.

Nós sabemos que o nível do mar coloca mais do que um problema. Muitos problemas. Muitos problemas. Um deles é que nós temos, no nível do mar, não é sempre igual porque temos marés. E além de termos marés, às vezes, como vimos naquele episódio que fizemos sobre o Pacífico, nem sempre está tudo exatamente ao mesmo nível. Mas nós vamos já entrar em mais detalhe na segunda parte de O Resto da Ciência. Fazemos agora um pequeno intervalo.

Estamos de regresso ao resto da ciência, estamos aqui no Kilimanjaro, já nos ligamos ao satélite, mas o satélite dá-nos a distância lá do pico do Kilimanjaro ao centro da Terra, mas nós queremos saber a distância ao nível do mar. Exatamente, é aquilo que importa, não é? E portanto, temos que saber onde está o nível do mar sem ter que fazer um buraco grande, um poço que liga ao nível do mar para saber onde é que está. Com isso aqui, devo-vos dizer, o Leonardo da Vinci pensou.

isto tem a ver com o teorema de Clero, mas falaremos disto noutra altura. É só para dizer que é preciso saber onde está o nível do mar e a única forma de o fazer é medir o campo da gravidade. Portanto, o que nós precisamos de saber é se eu colocar um berlindo neste sítio que ele não se mova nem para um lado nem para o outro. E isso não é um plano. Isso não é um plano. É horizontal. Isso é que é a verdade horizontal. E o que se passa é que quando nós temos uma grande montanha é que nós temos uma grande montanha.

Como o Kilimanjaro, a horizontal está muito torcida. E está torcida porquê? Porque o que é que mantém a montanha lá em cima? Nunca pensaram nisso. O que é que mantém? Porquê ela não se desfaz? Não desce-se? Sabes que há um limite para o tamanho de uma montanha. Nós não podemos ter montanhas de qualquer tamanho. Porque nós só podemos ter montanhas que a litosfera seja capaz de aguentar.

A litosfera é a crosta. É a parte mais dura. É a parte mais dura que está por cima de um... Por isso é que não temos montanhas de 30 km, nem de 40. Porque essas não são possíveis, essas afundam-se dentro do planeta. E, portanto, para ser possível fazer isto, nós temos que ter aquilo que se chama uma raiz. E então, isto é um problema básico de geofísica, percebeu-se que quando nós temos uma montanha e temos uma raiz, ou seja, temos material menos denso mergulhado em material mais denso,

E quando nós temos um oceano, temos uma antirraiz, quer dizer que são oceanos muito fininhos, porque a densidade do basal dos oceanos é muito elevada. E, portanto, o que isto quer dizer é que ela tem que ser compensada por uma antirraiz, enquanto quando nós temos uma montanha, o que é que está a aguentá-la? É a rolha, é a madeira que mantém.

Um barco ao fundo da terra. No fundo, é aquilo que flutua sobre... Aquilo flutua de certa forma. Portanto, em princípio, há uma coisa mais espessa, não é? Mais espessa. Para baixo e para cima. Epá, mas ao termos essa rolha, essa raiz, o campo gravítico é alterado. E é alterado de tal forma que nós podemos ter uma... Para termos o mesmo potencial gravítico, temos de estar um bocadinho mais acima.

Isso faz com que a distância entre o nível do mar, que é o potencial de gravite, que é médio igual ao nível dos oceanos, médio, lembre-se do Pacífico, daí até ao topo da montanha é que é a verdadeira altura da montanha. E posso-te perguntar, mas que raio? Porquê que isso é que é a altura?

porque todos os processos que nós conhecemos dependem da gravidade. Por isso é que se fazem tantas experiências de não gravidade. Agora, por exemplo, na viagem à lua que foi feita, ou à lua não, quer dizer, à volta da lua, e a água corre.

de onde está o potencial mais alto, de onde está o potencial mais baixo, ponto. E todos os processos são assim, biológicos, inclusive. Nós também sabemos, como costumo dizer, para baixo todos os chantes se ajudam, não se pode dizer mesmo quando subimos uma montanha. Mas é o Newton que ajuda para baixo. E, portanto, quando estamos a falar de medir uma montanha, nós temos que reconstruir as duas coisas. E, portanto, ao mesmo tempo que...

a equipa de geodesia media a distâncias ao centro da Terra, tinha que haver uma outra equipa a calcular onde é que estava o geóide. O geóide é o nível do mar. É a palavra fina para falar em nível do mar, é o geóide.

E tem graça porque... E tu fazias parte dessa equipa? Eu fiz, não, eu tive com a primeira. A segunda foi o Joaquim Luís e foi o Maquiel, um jovem também que estava, não sei se em Coimbra, na beira interior, holandês, mas que viveu em Portugal há muitos anos, e a restou com o gravímetro, iam medindo o valor da gravidade. O gravímetro é um aparelho estranho. É uma coisa que nós não usamos exatamente.

Não é um aparelho que não andamos com ele no bolso. Não andamos com ele no bolso, se bem que agora andamos com o acelerómetro do bolso sem saber. Mas o gravímetro não andamos. E não andamos porque ele é um aparelho muito rigoroso, mas que se baseia num princípio físico.

que é razoavelmente simples. Mas como é que nós podemos medir a gravidade? A gravidade influencia duas coisas. Influencia o peso dos corpos e influencia a queda dos corpos. São coisas diferentes. Aliás, um dos grandes problemas da física é exatamente a equivalência entre as duas massas. Mas também são areia, são contas, doutor Rosário. Mas para perceber, temos uma mola como se fosse um dinamómetro.

E vamos ver como é que a mola estica e encolhe para sabermos a gravidade, ou então temos uma bola que deixamos cair. E existem gravímetros dos dois tipos. Os gravímetros da bola que deixam cair, são dificilmente transportáveis, são transportáveis mas no limite, medem realmente a gravidade absoluta.

existem hoje vários mas não são muito confortáveis para levar para cima do Colimanjaro e depois existem gravímetros que têm uma espécie de mola em quartzo que são capazes de medir 10 levantada menos 9 do guê que é uma medida muito precisa desde que estejam com uma temperatura controlada e em vácuo

E foi com um desses gravímetros que foi utilizado. Mas ele mede diferenças. O que é que significa ele medir a diferença? Ele não sabe quanto é que é a gravidade absoluta, mas se tiver dois pontos, ele sabe qual é a diferença de gravidade entre esses dois pontos. E ao medir a diferença de gravidade, mede a diferença de altura onde é bom do mar?

Exatamente. Ao ver a medência de gravidade, ele vai somando e vai calcular a gravidade. Porque existe uma rede mundial que tem valores absolutos de gravidade calculados, em todo o lado. Porque isto usou-se muito em prospeção, em determinação do que realizou. Mas há diferenças grandes?

A gravidade varia com a altura, mas pode variar também com o colo? Varia com a altura e com a posição. Com a posição. Varia muito com a altura. Ainda sei que são 10,30, 36 miligrados. Quer dizer, no fundo, o que estás a dizer é que tu pesas um bocadinho menos no topo da Clamajá. O meu sonho, o meu sonho.

para já ir a ir à lua, não é que não sabem? Porque era uma redução radical. Depois já subir o clima, já retirar 5g. E, portanto, é sempre saudável. Agora, a equipa que vai fazer medições de diferenças tem um problema, é que ela tem que voltar ao mesmo ponto com muita frequência. Tem que andar a subir e a descer. Tem que andar a subir e a descer. E, portanto, esses circuitos não podem ser lentos. Porque...

Nós temos as marés terrestres que falamos, quando falamos das marés do oceano, e como temos as marés terrestres, também temos a influência do sol e da lua, e temos que compensar todas essas diferenças. Apesar de ser...

suficientemente de plástico é para se mexer um bocadinho. E portanto nós temos que compensar isso tudo e ao compensar isso tudo é que se consegue saber o valor absoluto da gravidade para nós dizermos daquela que é 9,80, 65, 32, etc. E o que é interessante perceber-se é quando nós vamos fazer a medição da altura do que ele imaginar o nosso valor a ser ligeiramente diferente a tudo o que estava escrito nas t-shirts.

Aliás, 3 metros abaixo. Portanto, temos um quilombo... Roubaram 3 metros ao quilombo de manjar e as autoridades de Tanzânia não ficaram muito satisfeitas. E fica bastante abaixo do que dizia o Mingue, que falava em 6 mil metros. Sim, mas era mais ou menos. É um escritor, não é um físico.

E este valor ainda pode ser, obviamente, refinado, mas o problema não é, mais uma vez, a distância do centro da Terra. Essa calcula-se bem. O problema é onde é que está o nível do mar. Porque o nível do mar é influenciado, como já percebemos, por muitas coisas, porque nós queremos saber o nível do mar mesmo onde não há mar. E esse é que é o principal problema.

E então, vocês acabaram por conseguir fazer isso, e se é tal razão, então explicaste que os últimos, não sei, 1800 metros, 1200 metros de escalada foram um bocadinho duros, não é? Porque andavam para baixo e para cima, não basta não.

Eles andavam para baixo e para cima, um bocadinho de rabaz em baixo, mas nós tínhamos que se descer sincronamente com eles e, portanto, acabou por... Quanto mais curto é a viagem, mais dura é para as pessoas, mas é preciso dizer que a maioria dos instrumentos foram transportados pelos guias locais.

Sim, mas outra coisa também é preciso dizer, porque quem nunca se põe uma montanha não tem às vezes noção disto, é que nós quando estamos lá em cima temos menos oxigênio à disposição, portanto nós quando estamos lá em cima a pressão do ar é muito mais baixa, o que significa que nós, cada expiração e inspiração tem mais dificuldade em pôr-nos oxigênio no sangue.

que é uma coisa que muitos de nós não têm consciência, quem não teve em 4 mil, 5 mil metros, já se nota se tivermos nos 2 mil metros da Serra da Estrela, mas só se começa verdadeiramente a notar acima dos 3 mil metros. Mas é muito simples, com falta de oxigênio, respira-se tipo um cão. Um cão. Há um exemplo que uma vez me contaram que eu acho maravilhoso, que é alguém que uma vez visitou aquele observatório que está nos Andes, que também é aquele grande telescópio dos Andes.

e à noite vieram então vamos lá fora vamos lá até lá fora, saímos aqui dentro deste ambiente controlado, climatizado vamos até lá fora e olhem para o céu à noite, e o céu era um céu estrelado bonito, e eles disseram mas apesar de tudo não é assim tão diferente do céu que eu conheço lá da minha terra e depois agora tomem lá um bocadinho uma máscara de oxigênio

e é como se o céu se iluminasse porque de repente com mais oxigênio o nosso cérebro e os nossos sensores oculares ganham uma capacidade que não tinham antes. Agora, quando estamos a subir e é um trabalho físico isso ainda fica mais aflitivo muitas vezes. Porque tens sorte porque o oxigênio não tem que passar pelo estreitor bus. Teríamos mais dificuldade. Apesar de não ser assim tão longe dali, não é?

E, portanto, do ponto de vista geofísico, como é evidente, não é muito importante nós sabemos se o clima de char tem mais ou menos um metro. Em contrapartida, é bastante importante sabermos onde é que está o geóide.

porque existem, hoje em dia, uma grande preocupação com a água e com a água doce, e é preciso perceber-se que, na grande escala, nós monitorizamos a água que existe no planeta, a água no chão, a água subterrânea, com os satélites gravimétricos.

o sistema que eu diria que é mais fantástico que se pode imaginar, e que é o sistema GRACE, os dois satélites GRACE, que medem essencialmente a distância entre os dois, satélites que são colegados ao mesmo tempo, e que quando a gravidade é mais alta ou é mais baixa, um aproxima-se ou afastam-se, e isso mede diretamente a gravidade. Portanto, reparem bem, nós tínhamos primeiro uma medição da gravidade, que era uma mola,

como aprendemos na escola. A segunda temos um berlinde, uma daquelas bolas de látex que atiremos ao chão, também está a medir a gravidade. E temos agora uma terceira, que é dois satélites que são síncronos e cuja distância entre eles é também uma medida indireta da gravidade. E isso é um feito tecnológico fantástico.

E, desculpa, não corno, isso tem alguma relação com a medição da água à superfície? Tem, tem, tem, porque a variação da água à superfície, desculpe, da água subterrânea é muito grande. Isso é outra ideia de dinamismo que é importante perceber-se. Quando apareceram os primeiros satélites capazes de fazer interferometria radar,

que eu tentei explicar muito mal da última vez, mas que mede exatamente os movimentos do sol, uma das coisas que apareceu logo clara é que, para além dos movimentos que tinham a ver com escorregamentos ou com vulcões, também apareciam movimentos que tinham a ver apenas com a dinâmica da água subterrânea. Em cidades, quando a água baixa, quando a água sobe, o chão muda de sítio. Centímetros!

É precisamente perceber, porque, mais uma vez, a nossa ideia da estabilidade é bastante errónia, que quando nós temos aqueles silos de cereais e eles estão cheios até cima, que o chão mexe centímetros. E, portanto, que todo este nosso sistema, que nós vemos sempre como parado e imutável, na verdade é bastante dinâmico para quem tem precisão suficiente nas observações.

Bem, mas entretanto, por falar de água, nós no topo do Guilherme Jaro já tivemos muito mais água, só a forma de gelo, naturalmente, do que temos hoje. Voltamos atrás, voltamos àquilo que me provocou o ceticismo da Academia das Ciências Britânica, a dizer, enfim, não, não é possível ter glaciares no Equador, ou perto do Equador, mas tínhamos um glaciares e tínhamos um glaciares que nessa altura...

era um glaciano com uma dimensão bastante razoável. E hoje em dia já está muito, muito reduzido, não é? É, mas a redução... Mas tu ainda viste, não é? Tu não visitaste. A temperatura no topo do Uru é de, digamos, 10 graus abaixo de zero, uma coisa parecida com isso, o que significa que nós não temos água no estado líquido. Nós temos apenas água no estado sólido e água no estado gasoso. Portanto, temos aquilo que se chama sublimação.

Mas tu, então, porque é que, se a temperatura é negativa, porque é que aquilo está a perder gelo, ou a perder água? A escura do ar, essencialmente, é um processo de longo termo, tem a ver, essencialmente, com a sublimação do gelo em vapor de água, tem muito a ver com a variação da umidade relativa na zona do Kilimanjaro. Que tem diminuído, isso é que tem a ver com as alterações climáticas, não é?

Eu não sei se terá diretamente a ver com o funcionamento das regiões tropicais. Mas a redução de 1912 e 2002, que é a que está mais bem calculada, foi de cerca de 50%. Ou seja, isto é um processo de longo... Quer dizer, os glaciares estavam há 10 mil anos que estão a recuar, não é? Isto é a redução do glaciares, provavelmente histórica, e tem a ver com a sublimação do gelo. Claro que para quem vai...

É muito, vá lá, impactante e emocionante verificar que o glaciairo está a desaparecer. Claro que um outro fenómeno mais diretamente ligado com o aquecimento, que é o aumento da precipitação noutras alturas da subida, é assim de origem meteorológica e que tem a ver com o aquecimento, também é bastante impactante para quem visita.

E, portanto, a verdade é que, quando se olha para a montanha, com essa sensação um bocadinho de fim de época, de algo está a acabar, e vemos que ainda se mantém a frase do personagem do Hemingway, que eu também trouxe aqui, e que diz à frente tudo o que podia ver, imenso como o mundo.

Grande, alto e incrivelmente branco ao sol, estava ao topo quadrado do Climajaro. Isto é que está a reduzir-se de uma forma, neste momento, praticamente inexorável. Já terá só 4 km², mais ou menos. Exatamente, mas que não quer dizer que não mereça seguramente a visita. Nem que seja uma visita de despedida. De despedida do mundo que nós sabemos que está a acabar.

Por causa disso, enfim, é hora de perguntar se há, mas numa altura em que havia muito mais gelo e uma placa naquela zona e um glaciar muito maior, o que faria lá, então, o tal leopardo do início, da primeira frase, do primeiro parágrafo das neves do Clamajaro? Ora bem, é possível lá não ter um leopardo naquela altitude? Estamos a falar em algo que fica 5.600, 5.700 metros de altitude.

aparentemente é uma realidade histórica. Portanto, nós temos alguns registros. Temos um registro de 1889, um opinista, um opinista chamado Hans Meyer, que referiu, ele apenas referiu ter encontrado restos de um leopardo numa zona alta entre o Kiko e o Mavenzi.

Depois, bastantes anos depois, foi um pastor letrano, o Richard Roche, que descobriu, esse sim, um leopardo mumificado. Não sei se seria até algo de semelhante àquele homem dos Alpes, que tem sido tão estudado e que foi descoberto aqui há uns anos atrás, com precisamente um fenómeno semelhante, o recuo dos gelos.

Esse estava, esse sabemos, estava a 5.640 metros. Estava na borda da cratera, portanto, exatamente onde é que estava. Ele terá-lo-á mudado de sítio, terá-lo-á tirado de onde estava, nós temos fotografias, e terá colocado numa zona mais à vista. E depois, numa visita posterior, desapareceu. Portanto, alguém levou a múmia do leopardo.

Mas nós temos alguns, apesar de tudo, foram feitas amostras. Agora a pergunta é, faz isto sentido? Os leopardos iam até ali? Habitualmente não, apesar de haver indicações que noutras altas montanhas de África, os leopardos podem chegar lá acima. Porquê? Bem, porventura, a perseguir um antílope.

ou perseguir uma presa, o que não é impossível, porque também foram encontrados restos de antílopes naquela altitude. Agora, portanto, não é biologicamente impossível chegar lá, é difícil, pode-se lá ficar, como terá ficado esse leopardo, tanto como terá ficado o nosso Homem dos Alpes. Ora, porque na história de Amingué.

tem a ver com o conto, não é? Tem a ver com a moral do conto de Emílio, se quiser. Tem a ver com a moral do conto de Emílio, tem a ver com, por vezes, a inexistência de razões objetivas para muitas das nossas decisões.

Tem a ver com isso e tem a ver com aquela ideia de que é chegar sempre mais alto e às vezes o chegar mais alto leva-nos para além dos limites possíveis. O conto em Miguel é a história de alguém que vai morrer, não é? Eu sei, eu sei. Não vamos contar o fim, não é? Mas se há um objetivo desta nossa conversa hoje é que se continue a olhar com emoção para a natureza

Se aprecia estes excessos, o que eu lhe dizer é um excesso, é um exagero, é aquilo que foge da normalidade, tal como o Leopardo fugiu da normalidade. E nós não podemos viver toda a vida só com normalidade. Exatamente.

E não podemos achar que, porque é difícil, porque fica muito bauto, porque é muito frio, não se vai lá. Há sempre aquele desafio, porque é que sobes o Evaresto ou porque é que sobes o Clamajar, e a resposta é porque está lá. E assim ficamos. Para a semana temos mais um e o resto é ciência.