Bom dia Ghia 56 - Bancos Centrais no mundo todo reagem ao conflito no Sudoeste Asiático
A semana foi abundante em eventos e indicadores econômicos, com saldo positivo para as bolsas globais. Os principais bancos centrais do mundo mantiveram suas taxas básicas de juros estáveis em um contexto de elevada incerteza causada pela alta expressiva do preço de commodities dependentes do estreito de Ormuz, sendo a principal delas o petróleo, que chegou a atingir USD 126/bbl na semana. Nos EUA, o Fed apresentou viés mais conservador ao ressaltar que a economia avança em ritmo sólido.
No Brasil, tanto a performance dos ativos de risco quanto a decisão de juros do Banco Central fugiram à regra. O Ibov e as small caps brasileiras fecharam negativos com a abertura da curva de juros e saída de capitais. O Copom cortou os juros em 25 bps, mas ressaltou que o espaço para cortes adicionais parece ter se reduzido. O IPCA-15 apresentou pressões disseminadas entre os diferentes grupos do índice e o mercado de trabalho permaneceu robusto no fim do primeiro trimestre.
Nesta semana, nos atentaremos à Ata do Copom e dados de mercado de trabalho dos EUA, além dos desdobramentos do conflito entre EUA e Irã.
- Conflito no Oriente MédioTensão entre Irã e Estados Unidos · Impacto no preço do petróleo · Estreito de Ormuz
- Mercados InternacionaisPerformance de ativos de risco global · Bolsas americanas e europeias · Temporada de resultados corporativos
- Performance de Ativos BrasileirosRenda fixa negativa · Bolsa (Ibovespa e Small Caps) negativa · Saída de capital estrangeiro · Fundos Imobiliários (IFIX) negativos · Fundos de papel com performance positiva
- História econômica do BrasilCriação de empregos formais (Caged) · Taxa de desocupação (Penad) · Pressões no IPCA-15
- IPO da CompassTentativas anteriores de IPO · Potencial reab
A semana passada foi carregada para os mercados internacionais. Por um lado, a agenda de indicadores econômicos foi recheada de dados importantes de inflação e atividade econômica tanto nos Estados Unidos quanto aqui no Brasil, ao mesmo tempo em que a gente acompanhou desenvolvimentos importantes nas políticas monetárias dos bancos centrais no mundo inteiro. Além disso, os mercados foram ainda pautados pela dinâmica tensa que rege os conflitos no Oriente Médio até então.
Para falar sobre isso e outros temas, eu tenho comigo o Pedro Niclaus, analista de renda variável aqui da guia Multifamily Office, e eu sou o Gabriel Gonçalves, analista de alocação. Sejam muito bem-vindos ao Bom Dia, Guia!
Bom, começando pelos mercados internacionais, pela performance dos ativos de risco global, nós tivemos uma semana mais ou menos mista, com performances positivas em bolsas de emergentes, o ACWI capturou essa performance benigna das bolsas globais ao redor do mundo, e uma performance também bastante benigna para Estados Unidos, que na semana, por mais que a gente ainda esteja sob as tensões,
ligadas ao Oriente Médio, a gente observa já a segunda semana de ativos, de performance muito benigna para os ativos de risco norte-americanos. Na verdade, o mês de abril tem sido muito positivo para as bolsas americanas. Na semana passada, o S&P 500 subiu mais de 0,6%, que é uma performance robusta para a semana. Isso contraria, de certo modo, algo que a gente tem observado ao longo do ano como um todo, desde o começo do ano para cá.
que era a performance de outras geografias em detrimento dos Estados Unidos. Agora, já pela segunda semana seguida, nós temos a performance dos Estados Unidos muito positiva também, dessa vez acompanhando a performance de outras bolsas globais. A bolsa europeia também performou muito bem, especialmente no contexto da temporada de resultados corporativos que começou tanto lá na Europa quanto nos Estados Unidos e já tem animado os investidores nessas duas geografias.
Então, isso fez com que os fundamentos geopolíticos talvez tivessem uma importância um pouco menor do que a gente se acostumou desde que o conflito começou lá no comecinho de março. Então, por outro lado, a gente teve ainda uma performance negativa das curvas de juros, da renda fixa internacional, dos Estados Unidos especialmente. A gente observou uma abertura dos juros no mundo inteiro por conta, aí sim, das tensões envolvidas no conflito do Oriente Médio.
Então, o petróleo chegou a bater na semana passada a marca de 120 dólares por barril após as tensões entre Irã e Estados Unidos permanecerem elevadas, após o Estreito de Hormuz continuar fechado e os portos iranianos continuarem, de certo modo, interditados pela Marinha dos Estados Unidos. Essas tensões continuaram vigentes, o que levou ao petróleo a atingir máximas...
nos últimos anos, e isso tem batido bastante na expectativa de inflação dos investidores no mundo inteiro, certo? E isso, consequentemente, faz com que a renda fixa tenha uma certa dificuldade de performar bem. Nesse contexto, houve ainda algumas divulgações importantes que ajudam a gente a contextualizar a importância desse conflito geopolítico nas expectativas de juros e na trajetória das decisões de política monetária dos principais bancos centrais do mundo a partir desse ano.
Bom, houve algumas decisões importantes de política monetária, o FED se reuniu para decidir a trajetória dos juros norte-americanos e foi mantida estável a Fed Funds com o diagnóstico da economia de que a inflação, ela...
permanece uma preocupação relevante, tanto por conta dos efeitos das tarifas do governo Trump que ainda batem sobre os preços de bens, de bens de consumo, bens industriais, e agora também com essa pressão adicional significativa sobre os preços de energia, sobre os preços de combustíveis, de petróleo, que acomete a economia global nesse contexto do conflito no Oriente Médio. Bom, a comunicação da política monetária ressaltou...
E para que o Banco Central consiga olhar através dessas pressões de preços de energia causados pelo conflito, seria necessário que as pressões causadas pelas tarifas cedessem. E isso ainda não é algo que a gente observa olhando os dados de inflação. Na verdade, a gente observou pelo dado mais recente que foi divulgado também na semana passada, o dado do PCI, que houve uma pressão significativa não só sobre os preços de energia,
mas também sobre os preços de bens no mês de março. Então, é algo que faz com que o Banco Central americano tenha baixa confiança na possibilidade de baixar os juros ao longo desse ano. Na verdade, esse não é o cenário base de ninguém dentro do Comitê de Política Monetária nesse momento, pelo menos até o momento da comunicação pública do presidente do Banco Central, na coletiva de imprensa.
Na verdade, até alguns membros do Comitê de Política Monetária gostariam de remover o viés um pouco mais doido, um pouco mais baixista para a taxa de juros que está incluído também na comunicação do Banco Central. Na visão de alguns dos membros do Comitê, já é o momento de sinalizar probabilidades iguais do Banco Central americano subir ou baixar os juros ao longo dos 2026, o que é uma postura muito mais conservadora e diminui a...
possibilidade, o otimismo de qualquer chance de corte de juros nos Estados Unidos ao longo desse ano. Isso, claro, ajudou a elevar a curva de juros, que é o que levou àquela performance ruim da renda fixa que eu acabei de comentar com vocês. Além disso, ainda no cenário macroeconômico, a gente teve outro dado que corrobora para esse cenário de estabilidade dos juros norte-americanos.
que é o dado do PIB, o dado do PIB do primeiro trimestre desse ano, que apontou uma economia ainda sólida, ainda muito robusta, com um avanço da variação trimestral do PIB de 2%, quando a gente anualiza. As métricas mais ligadas ao consumo doméstico, ao investimento das empresas dentro dos Estados Unidos, avançaram bastante também, que é uma métrica que o Fed acompanha de perto também, avançou 2,5%, acima do dado do PIB mesmo.
Então, o saldo é que a gente tem uma economia norte-americana sólida, com o mercado de trabalho que não está em crise, a gente não vê a taxa de desemprego aumentando substancialmente, então o Fed não tem que se preocupar com o mandato do emprego por enquanto. Isso significa que, provavelmente, a gente deve ver, de fato, a Fed Funds estável ao longo desse ano.
Essa estabilidade dos juros nessa decisão de abril também foi compartilhada por outros bancos centrais no mundo inteiro. Então a gente viu a mesma decisão de manter os juros estáveis no Banco Central da Inglaterra, o BOE, o Banco Central Europeu, no Banco Central do Japão também. A gente observou o mesmo movimento, as mesmas preocupações com os preços de energia muito elevados, com a incerteza que ronda o conflito geopolítico no Oriente Médio. Tudo isso é algo que entra na conta dos bancos centrais. Eu fiz... E aí
traz muita, muita incerteza para o cenário. A exceção a essa regra que a gente observou nos bancos centrais na semana passada foi justamente o COPOM. O Banco Central brasileiro se reuniu na semana passada para também decidir a trajetória da Selic e a gente observou um corte de 0,25 pontos percentuais, 25 BIPs, trazendo a Selic para 14,5%.
Essa decisão já era esperada, ela vem num contexto em que o Banco Central havia anunciado um plano de voo para conduzir esse ciclo de corte de juros, então havia a expectativa de um ciclo de calibragem dos juros, contra acionistas no patamar que estão, mas essa era a palavra que o Banco Central vinha utilizando, a calibragem dos juros.
E, ao mesmo tempo, essa decisão, por mais que ela tenha trazido essa queda nos juros, ela não reflete um Banco Central muito disposto a continuar nessa trajetória e, muito menos, um Banco Central otimista com a trajetória da inflação ou com a certeza a respeito do cenário. Então, aqui, no nosso caso também...
A gente observa muita incerteza ligada à trajetória dos preços de energia, à trajetória dos impactos da alta do petróleo sobre os preços industriais, sobre as cadeias de produção. Tudo isso também está presente no cenário brasileiro. Mas, no nosso caso, a gente ainda tem algum espaço para cortar os juros por conta do nível muito contracionista da Selic, que começou esse ciclo de cortes a 15%. Então, ainda há algum espaço, sim, para cortar.
mas um espaço muito menor do que se esperava quando o Banco Central começou, de fato, a cortar os juros ali no começo desse ano. Então, nesse contexto, nós tivemos ainda alguns dados econômicos no Brasil para corroborar essa visão também de maior cautela, de menor espaço para cortar os juros, numa linha parecida com o que a gente observou nos Estados Unidos. E esses dados foram principalmente os dados de emprego e de inflação. No caso do emprego, nós tivemos divulgação...
do caged e da penad o primeiro trouxe o dado de criação de empregos formais e a segunda trouxe a taxa de desocupação em ambos os casos a gente vê uma economia brasileira muito forte em geração de empregos houve mais de 200 mil empregos gerados no mês de março
muito acima do que o mercado esperava, e a taxa de desemprego também permanece nas mínimas históricas. No headline hoje ela está perto de 6%, mas quando a gente pega o dado ajustado por sazonalidade, levando em conta defeitos temporários de começo de ano, de fim de ano, a gente ainda tem uma taxa perto do low histórico desde 2012, em torno de 5,4%, com o crescimento da renda ainda acima da inflação, quando a gente pega a variação.
ano a ano. Então é um cenário que favorece uma inflação de serviços mais pressionada, favorece ainda um crescimento da renda, favorece ainda um mercado de trabalho muito dinâmico. E o dado do IPCA 15 também foi divulgado, com uma abertura negativa, uma abertura bastante ruim, com muitas pressões sobre alimentação, muitas pressões sobre combustíveis, sobre bens industriais especialmente.
o que reforça que não é só as pressões ligadas ao Oriente Médio que estão impactando o nosso índice de preços. Há uma piora mais fundamental também nessas últimas divulgações de inflação, que também devem diminuir um pouco a confiança do Banco Central em cortar os juros de forma muito profunda ao longo desse ano. E é basicamente isso em termos de macroeconomia, viu, Pedro? Agora, falando da performance dos indicadores brasileiros, você tem algo para comentar com a gente?
Bom, Gabriel, sobre a performance dos ativos brasileiros. Como de costume, tivemos uma semana bastante volátil. Os índices de renda fixa tiveram a performance negativa, muito por conta da abertura da curva de juros. E os ativos de risco, mais especificamente bolsa, também apresentaram a performance bastante negativa.
Tanto por conta da abertura da curva de juros, que penalizou bastante empresas ligadas à economia doméstica, quanto pela saída de capital estrangeiro num movimento de rotação que é diferente do que a gente viu no último ano. No último ano a gente viu um movimento de rotação de capital dos Estados Unidos para outros mercados e dessa vez...
nas últimas duas semanas, três semanas, vimos um movimento de rotação para o mercado norte-americano, muito por conta do segmento de tecnologia que tem apresentado bons resultados. Nisso, o Ibovespa apresentou uma performance negativa, com queda de 1,8% na semana. Como eu mencionei, a abertura da curva de juros impacta negativamente empresas ligadas à economia doméstica, então a gente vê o Small Caps com uma performance ainda pior do que o Ibovespa, com queda de mais de 3% no período.
Nesse caso, a gente vê um custo de oportunidade muito elevado para o investidor local.
Como já foi mencionado, é esperado que o ciclo de afrouxamento monetário seja mais tímido do que era esperado anteriormente e isso consequentemente gera um custo de oportunidade muito alto para o investidor local que continua retirando seus recursos da renda variável. Quando a gente fala de fundos imobiliários, a performance também não foi positiva, o IFIX ficou no campo negativo com queda de 0,15%, que é uma categoria muito sensível aos movimentos da curva.
Então sempre que a gente tem uma abertura, é comum a gente ver essa cesta de ativos performando negativamente.
Nesse caso, acho que vale destacar, abrindo um pouco essa performance, vale destacar os fundos de papel, que são basicamente os fundos de crédito imobiliário, que tiveram a performance positiva, especialmente aqueles indexados à inflação, que têm títulos indexados ao IPCA, que apresentaram a performance marginalmente positiva, muito porque a gente vê esse cenário de inflação ainda desancorada, longe da meta, e esses fundos tendem a ser beneficiados com maiores rendimentos, por conta da correção do IPCA.
Eu acho que antes de encerrarmos aqui, vale comentar sobre o IPO de Compass, que é uma empresa do grupo Cozã, é basicamente o braço de gás natural do grupo. A Cozã já tentou realizar o IPO da Compass algumas vezes nos últimos anos, mais notavelmente durante a pandemia, mas como a gente já sabe, a janela de IPO ficou fechada desde então, e agora a gente tem, depois de muitos anos, uma companhia buscando fazer o seu IPO na Bolsa Brasileira.
Isso pode ser importante porque pode ser uma reabertura da janela de IPOs para os próximos anos, mas vamos ter que acompanhar de perto para ver se realmente esse IPO vai se concretizar. No geral é isso. Gabriel, sobre a agenda da semana.
Nessa semana, a gente acompanha com muita atenção a ata do Copom, que vai ser divulgada amanhã, na terça-feira. E ao longo da semana, começando também amanhã, na terça, a gente tem, até sexta-feira, uma sequência de dados importantes de mercado de trabalho nos Estados Unidos. Então, semana que vem, a gente tem menos indicadores, mas ainda assim, muito assunto para comentar aqui no nosso podcast. Então é isso, pessoal. Até a próxima semana. Um abraço. Até a próxima semana, pessoal.