Episódios de Podcast de Psicologia

WELLNESS — Por que buscar a perfeição te adoece

01 de julho de 202613min
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Já imaginou o que acontece dentro da sua cabeça? Aqui explicamos isso e muito mais. 🤓🤯 Enxergue além do óbvio — Ciência, história, cultura, saúde, curiosidades, muito autoconhecimento e psicologia na prática. Podcast de Psicologia — Semelhante a Flow e Inteligência Ltda.

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A explicação que você daria pra alguém que "se cuida demais" provavelmente está incompleta.

Neste episódio: a linha de chegada que foge a cada passo, a blogueira de wellness que vivia a vida perfeita por fora enquanto se afundava por dentro, e uma virada que vale a pena ouvir. Se cuidar é uma das coisas mais saudáveis que existem — mas tem um ponto em que vira, e a busca pela saúde perfeita começa a deixar a pessoa mais ansiosa, mais sozinha e menos saudável. A resposta passa pela forma como o cérebro nunca acha que "está bom o bastante", pela comparação com gente cuja vida inteira é a preparação, e por uma descoberta importante: o problema nunca foi você se importar com o seu corpo. É uma cultura que te roubou a palavra "suficiente".

Fontes e referências deste episódio:

Adaptação hedônica — por que "o suficiente" sempre recua

Tiggemann & Zaccardo (2015), Body Image — imagens "fitspiration" pioram a imagem corporal e o humor de quem vê

Jordan Younger, Breaking Vegan (2015) — relato em primeira pessoa da vida perfeita que virou obsessão

Se você ou alguém que você conhece está sofrendo com a relação com comida, exercício ou imagem corporal — quando o cuidado vira culpa, rigidez e angústia — saiba que isso tem nome, tem tratamento, e não é falta de disciplina. No Brasil, o AMBULIM (Programa de Transtornos Alimentares do IPq-USP) é uma referência em tratamento; e o CVV (ligue 188) atende quem está em sofrimento emocional, de graça e 24 horas. Pedir ajuda é a forma mais corajosa de se cuidar.

Capítulos:

00:00 — A linha de chegada que foge de você

01:28 — "Por fora eu tô no meu melhor; por dentro, exausto"

02:28 — Por que se cuidar pode virar o que adoece?

03:12 — A vida perfeita vista de dentro

05:07 — Por que "o suficiente" nunca chega

08:24 — O problema não é você — é "o suficiente" roubado

10:22 — Você está se cuidando, ou correndo atrás de uma linha?

Participantes neste episódio1
S

Speaker A

Host
Assuntos3
  • Fazer tudo com excelênciaBusca pela saúde perfeita · Adaptação hedônica · Comparação com 'fitspiration' · Ortorexia · Jordan Younger
  • Cultura de Graça e AcolhimentoCultura que impõe perfeição · Noção de 'suficiente' · Autocuidado vs. rigidez
  • Práticas para Manter o EquilíbrioOuvir o corpo · Pedir ajuda profissional · Flexibilidade e prazer
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-pro-async
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Imagina uma pessoa que fez tudo certo. Ela começou a se cuidar, comeu melhor, se mexeu, dormiu melhor e organizou a sua rotina. E funcionou. Ela se sentiu ótima. Então ela pensou: se um pouco me fez tão bem, mais vai me fazer melhor ainda. Então ela apertou. Mais regras, mais disciplina, mais controle e foi ficando boa nisso. Cada meta que ela batia virava um novo normal. E do novo normal dava sempre pra apertar mais um pouco.

Só que, em algum ponto que ninguém consegue identificar direito, uma coisa estranha aconteceu. A busca pela saúde começou a deixar ela menos saudável, mais ansiosa, mais sozinha, Com medo de burlar as regras e com culpa quando burlava, pensando naquilo o tempo todo. E aqui está o detalhe cruel: ela nunca alcançava. Por mais que ela apertasse, esse "suficiente" estava sempre um passo à frente, escorregando pra longe na exata velocidade em que ela corria atrás.

Com uma linha de chegada que anda junto com você. Mas como uma coisa feita pra te deixar bem pode te levar exatamente pra esse lugar? E mais gente conhece esse lugar do que admite. Eu me sinto culpado quando perco um dia na academia. Culpado mesmo. Eu já não saio mais com os meus amigos pra não furar a rotina. "Por fora todo mundo acha que eu tô no melhor momento, por dentro eu tô exausto. Nunca tá bom o bastante, sempre tem alguém mais regrado, mais disciplinado e mais perfeito do que eu." Repara que ninguém ali está reclamando de preguiça, é o contrário, são pessoas que cuidam demais e que em algum momento pararam de se sentir se sente bem com isso.

A gente costuma olhar para essas pessoas e pensar: "Que disciplina, que força de vontade, queria ser assim!" Mas e se às vezes o que parece o auge do cuidado for o começo de uma armadilha letal? Então fica a pergunta: por que se cuidar, uma das coisas mais saudáveis que existem, pode se levado longe demais, virar exatamente o que adoece uma pessoa. E uma outra, embaixo dessa, porque o suficiente nunca chega. A gente trata o wellness como saúde, como cuidado e como bem-estar.

E na maioria das vezes é. Mas tem um ponto que a coisa vira, e para entender esse esse ponto, vale conhecer alguém que viveu de dentro a vitrine de uma vida perfeita. Jordan Younger tinha, para quem via de fora, a vida saudável dos sonhos. Ela era uma blogueira de wellness com uma legião de seguidores, construiu uma marca inteira em cima da vida limpa, perfeita e radiante. As pessoas olhavam pra ela como parâmetro, a prova que dava pra ser saudável e feliz.

E ela levava aquilo a sério. Cada regra, cada escolha, cada foto, o cuidado dela com a própria saúde foi ficando cada vez mais rígido, mais estreito, mais cheio de "não pode". O que começou como se sentir bem, virou um conjunto de regras que não parava de apertar. Só que por dentro estava acontecendo o contrário do que a foto mostrava. A cabeça dela passou a ser ocupada por aquilo quase o tempo inteiro. A vida dela foi encolhendo em volta dessas regras.

Os convites recusados, A angústia de sair do controle, a culpa, o corpo começou a dar sinais de que não estava bem. Aquilo tinha um nome que ela só descobriu depois: ortorexia. Uma obsessão com alimentação perfeita que vira um transtorno. A solução que ela tinha encontrado tinha virado um problema. E o detalhe mais estranho da história vem agora. Guarda a Jordan. E principalmente o que aconteceu no dia em que ela resolveu contar a verdade.

Porque a gente vai voltar nela. Por que isso acontece? Por que se cuidar pode virar essa corrida que não termina? A ciência tem 3 teorias. A primeira é a razão de o suficiente nunca chegar. O cérebro humano se acostuma com tudo, inclusive com as coisas boas. Os psicólogos chamam isso de adaptação. Aquela primeira melhora que te deixou radiante vira, com o tempo, o seu novo normal. E o novo normal não emociona mais ninguém. Então, pra sentir aquele mesmo "estou indo bem", você precisa de um pouco mais.

Mais regra, mais disciplina, mais forma. A meta não está parada esperando você chegar, ela anda junto sempre um passo à frente. É a esteira, você corre, corre, corre e a linha de chegada corre com você. A segunda teoria é com quem você se compara. As redes estão cheias do que chamam de Fitpiration. Imagens de gente em forma embrulhadas em palavras de saúde e motivação. Inicialmente parece inofensivo, parece até inspirador. Mas duas pesquisadoras, a Marika Tigerman e a Maria Zaccardo, testaram isso.

Mostraram essas imagens motivacionais para um grupo de pessoas e mediram o efeito. O resultado foi: quem via ficava com a imagem do próprio corpo pior e com o humor pior também. Mesmo vindo embrulhado em saúde, o "Isso te inspira?" estava na verdade deixando as pessoas piores consigo mesmas. E aqui entra a terceira teoria, que é a virada de chave pra entender a história da Jordan. Quando você se compara com influenciador de vida perfeita, você está se medindo contra uma régua quebrada, porque pra aquela pessoa aquilo não é um hobby, é o trabalho dela em tempo integral, a vida inteira organizada em torno de manter aquela imagem.

Você compara sua vida real— com trabalhos, contas, cansaço, com a vida de alguém cuja profissão é parecer perfeita. É um jogo que você já começa sabendo que vai perder. E tem a parte que quase ninguém enxerga: aquele parâmetro inatingível lá no palco muitas vezes também está sofrendo. A Jordan era, pros seguidores dela, a prova viva de que dava pra ser perfeito. E era exatamente ela quem estava se afundando por dentro enquanto servia de meta inalcançável para os outros.

A esteira não pega só quem está atrás, pega também quem parece já ter chegado. Então parece que a conclusão é simples: o problema é se cuidar demais, é só relaxar, fazer menos. Mas não é isso, e confundir as duas pode ser perigoso. Porque o impulso de se cuidar não é defeito nenhum. Querer se movimentar, comer bem, ter energia, se sentir forte— Isso é saudável, é antigo e é bom. O problema nunca foi se importar com o corpo. O problema é uma cultura que pegou uma coisa que tinha fim e prazer, cuidar de si, e transformou em uma corrida sem linha de chegada, transmitida ao vivo pros outros e medindo o tempo o tempo todo contra uma imagem inexistente de perfeição.

E o sinal que a pessoa cruzou essa linha não é o quanto ela faz. Gente saudável também treina, também come bem, também tem rotina. O sinal é outro, e é por dentro, é a rigidez de não furar um dia. É a culpa de quando "for um dia". É o pensamento que não para de pensar nisso. É a vida encolhendo os amigos, o prazer, a espontaneidade pra caber dentro de regras. Não é a quantidade, é o sofrimento e o tamanho do espaço que sobra pra viver.

O defeito nunca esteve na sua disciplina. Está em uma cultura que te roubou a parte mais importante de qualquer cuidado: a noção da palavra "suficiente". Então, repara no que isso muda. Saúde, de verdade, não é a ausência total de imperfeição. É o contrário. Ela inclui o descanso, o prazer, a flexibilidade, o jantar com os amigos, o dia em que você não faz nada e está tudo bem. Inclui um corpo no qual você consegue em algum momento parar de otimizar e simplesmente viver dentro dele.

Talvez a coisa mais saudável do mundo seja conseguir furar um dia da academia e se sentir em paz com isso. E a Jordan? Aqui está a parte que ela mandou guardar. Quando ela finalmente teve coragem de contar a verdade, de admitir publicamente que a vida perfeita que ela vendia tinha virado uma doença, aconteceu uma coisa brutal. Ela foi atacada por estranhos e até por gente próxima. No momento mais frágil da vida dela, A internet puniu ela por ter largado a perfeição, porque a cultura que vende a vida perfeita não perdoa fácil quem desiste desse objetivo.

Mas ela desceu mesmo assim, trocou a busca pela perfeição pela busca pelo equilíbrio, sabendo o preço e pagando ele até hoje. Hoje, o recado dela é quase o oposto do que ela vendia antes. É mais ou menos assim: "Se você quer ser saudável de verdade, escute o seu corpo. Ele não vai te enganar." Ela não ficou curada da noite pro dia, nem sequer virou uma outra pessoa. Ela só parou de correr atrás de uma linha que andava pra longe e começou a viver nesse meio do caminho.

E se isso soou como você ou com alguém que você ama, fica com uma coisa: quando o autocuidado começa a doer, a encolher a sua vida e tirar o seu sono, isso não é falta de disciplina, é um sinal, e existe gente preparada para te ajudar a lidar com isso. Pedir ajuda não é fraqueza, é a forma mais corajosa de se cuidar. Então, da próxima vez que você se pegar correndo atrás desse suficiente que não existe, talvez vale uma pergunta antes de apertar mais um pouco.

Eu ainda estou cuidando de mim ou só estou correndo atrás de uma linha que alguém pintou pra eu nunca chegar? Pensa nisso. Muitíssimo obrigado e até o próximo episódio.