INSTAGRAM — Por que a vida dos outros parece melhor
Já imaginou o que acontece dentro da sua cabeça? Aqui explicamos isso e muito mais. 🤓🤯 Enxergue além do óbvio — Ciência, história, cultura, saúde, curiosidades, muito autoconhecimento e psicologia na prática. Podcast de Psicologia — Semelhante a Flow e Inteligência Ltda.
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A explicação que você daria pro aperto de rolar o feed provavelmente está errada.
Neste episódio: uma foto perfeita que escondia cem tentativas, uma estrela do Instagram que apagou tudo e contou a verdade, e uma virada que a ciência leva a sério. Por que um coraçãozinho na tela mexe tanto com a gente — e por que a vida dos outros parece sempre melhor? A resposta passa pela forma como o cérebro mede o seu valor por comparação, por um experimento de ressonância com adolescentes, e por uma descoberta incômoda: a parte de você que implora por aprovação não é vaidade. É um órgão de sobrevivência, apontado pra escala errada.
Fontes deste episódio:
Festinger (1954), Human Relations — teoria da comparação social
Chou & Edge (2012), Cyberpsychology, Behavior, and Social Networking — "eles parecem mais felizes e com vidas melhores que a minha"
Sherman et al. (2016), Psychological Science (UCLA) — "The power of the like": curtidas e o circuito de recompensa do cérebro adolescente
Dunbar (1992) — o "número de Dunbar" (~150 relações)
Essena O'Neill (2015) — "Social Media Is Not Real Life" (registro de imprensa)
Este é um conteúdo de divulgação científica e reflexão — não substitui acompanhamento psicológico profissional.
Capítulos:
00:00 — A foto perfeita que escondia cem tentativas
01:03 — "Abro só um segundo" e perco a noite
01:52 — Por que algo tão pequeno mexe tanto com você?
02:33 — A estrela que apagou tudo e contou a verdade
04:38 — Seu cérebro trata a curtida como comida
09:09 — Por que fomos feitos pra ligar tanto pra isso
10:49 — O órgão antigo apontado pra escala errada
Speaker A
- Neurociencia e CerebroO núcleo accumbens e o circuito de recompensa · Adolescentes e ressonância magnética · Recompensa imprevisível e máquina de caça-níquel · Seguir a manada
- Mentoria Social Media Além do InstagramA foto perfeita vs. a realidade · Essena O'Neill · Teoria da comparação social de Festinger · Percepção de felicidade alheia
- Teoria do apego e validaçãoSobrevivência em grupos pequenos · Número de Dunbar · Medidor de reputação social · Escala errada da aprovação
- Autossabotagem e PsicologiaA comparação com os outros · A busca por curtidas · A necessidade de pertencimento
Uma foto, uma garota em uma praia, pôr do sol dourado, sorrindo, o corpo perfeito, a vida perfeita. Você rola o feed, ela aparece, e por meio segundo a sua própria vida, o seu quarto e o seu dia comum fica um pouco mais cinza. Agora, a verdade daquela foto: foram mais de 100 tentativas, a barriga sugada em cada uma. Ela não tinha comido direito o dia inteiro. E no instante exato em que o dedo apertou o botão e a legenda dizia "dia perfeito", ela se sentia mais sozinha do que nunca.
Você não comparou a sua vida com a vida dela. Você comparou tudo o que se passa por dentro de você com os 3 melhores segundos. Encenados da vida de uma outra pessoa e naturalmente perdeu. Todo mundo perde esse jogo porque o jogo é armado e o seu cérebro não sabe disso. E você conhece isso por dentro. Abro só para ver uma coisa e quando vejo passou meia hora, todo mundo viajando, todo mundo em um restaurante e eu aqui parado. Posto uma foto e fico voltando pra ver quantas curtidas que deu.
Eu sei que é tudo encenado, sei, e mesmo assim me sinto pra baixo. Isso é quase universal, esse aperto pequeno e específico. A vida dos outros parece um pouco melhor e a curtida que vem, ou que não vem, mexe com você de um jeito que você tem até vergonha de admitir. A maioria das pessoas acha que isso é fraqueza ou vaidade. Não é nenhum dos dois. Então ficam aqui duas perguntas: por que uma coisa tão pequena, um coraçãozinho na tela, tem tanto poder sobre o que você sente?
E por que a vida dos outros machuca justamente quando ela parece tão boa. A gente trata o Instagram como um app: fotos, filtros, vaidade. Mas a ciência por trás dele não é sobre tecnologia, é sobre uma coisa muito mais antiga: como o seu cérebro mede o tempo todo quanto você vale dentro de um grupo. Essena O'Neill tinha uma vida que aquela foto promete. Australiana, 18 anos, mais de meio milhão de seguidores no Instagram. Marcas pagavam pra ela posar com produtos.
Ela era, pra centenas de milhares de pessoas, a garota que tinha tudo. E ela passava o dia inteiro construindo isso. Cada foto, horas de trabalho, a barriga sugada, a luz certa, a pose ensaiada, até parecer que não tinha sido ensaiada. Em 2015, ela fez uma coisa que quase ninguém esperava, ou melhor, ninguém. Apagou mais de 2 mil posts, renomeou a conta inteira pra uma frase só: "Rede social não é vida real". E aí veio o golpe de verdade, ela reescreveu as legendas das fotos que sobraram, contando o que estava acontecendo por trás de cada uma.
Essa aqui: "Mais de 100 tentativas pra minha barriga parecer boa." Nessa: "Eu não tinha comido o dia inteiro." Nessa: "Eu me sentia completamente sozinha." A foto lá na praia, no começo, era a típica foto dela. E o que ela disse depois é o que mais pega. Ela contou que estava cercada de fama, de dinheiro, de gente querendo ser ela e que nunca, em lugar nenhum, tinha estado tão infeliz. Recebia mensagens o dia todo com "queria ser você" e percebeu que aquilo era exatamente o contrário do que ela queria causar nas pessoas.
Guarda a cena. Principalmente o que aconteceu com ela depois de largar tudo. A gente vai voltar nesse tópico. Para entender por que que a foto das pessoas te pega e por que a curtida delas pega você, a gente precisa de duas peças: comparação e recompensa. Primeira peça: em 1954, um psicólogo chamado Leon Festinger propôs uma ideia simples e meio incômoda: a sua cabeça não tem uma régua absoluta para saber se você está indo bem.
Sou inteligente o suficiente? Bonito o suficiente? Bem-sucedido? Não existe um número certo gravado em um lugar. Então, o seu cérebro faz uma coisa que sabe fazer. Ele compara. Você se mede o tempo todo em relação às pessoas à sua volta. Sempre foi assim, muito antes de qualquer tela. Agora, junta isso com o Instagram e como ele funciona. Lá, ninguém posta um dia "comum". Ninguém posta a discussão, o tédio, a conta atrasada, a cara amassada de uma segunda de manhã.
Cada pessoa mostra só os melhores recortes. E você assiste centenas desses por dia. Em 2012, dois pesquisadores mediram isso e acharam uma ligação direta: quanto mais tempo a pessoa passava na rede, mais ela acreditava que os outros eram mais felizes que elas e menos acreditavam que a vida era justa. O efeito era mais forte justamente em relação às pessoas que elas mal conheciam ou não conheciam pessoalmente. Mas por quê? Porque quando você vê a foto feliz de um conhecido, o seu cérebro não pensa: "Ah, ele postou um bom momento." Ele pensa: "Ele é uma pessoa feliz." Você acredita na foto e acredita isso a vida inteira da pessoa.
É como comparar os seus bastidores, com erro, com tropeço, com trailer já editado da vida de todo mundo. Mas assim, em linhas gerais, esquece o nome técnico. O ponto é: nesse jogo você já começa perdendo. A segunda peça: a recompensa. Por que a curtida em si vicia? Pesquisadores da UCLA fizeram o seguinte: eles botaram adolescentes dentro de um aparelho de ressonância magnética e mostraram 148 fotos em 12 minutos, como se fosse o Instagram.
Embaixo de cada foto um número de curtidas. O detalhe: os números eram inventados pelos próprios cientistas, mas os cérebros dos adolescentes não sabiam disso. Quando o garoto via a própria foto com muitas curtidas, acendia uma região no fundo do cérebro, o núcleo accumbens, a mesma área que acende com dinheiro, com comida, com um abraço de quem a gente ama, pro seu cérebro "muita gente curtiu" entra pela mesma porta que comida e afeto.
Esquece aqui o nome difícil novamente. A curtida em si não é um número, é o cérebro registrando o grupo me aprova. E tinha mais: os adolescentes curtiam mais as fotos que já vinham com muitas curtidas, ou seja, seguiam a manada sem perceber. E aqui entra a parte mais esperta desse desenho. Você puxa o feed pra se atualizar e às vezes não vem nada, às vezes vem uma enxurrada de curtidas, imprevisível. É exatamente assim que funciona a máquina de caça-níquel e é exatamente a recompensa imprevisível que o cérebro acha mais difícil de largar.
Repara agora na pequena vontade de checar o celular que talvez tenha batido só de eu falar nisso. A escena tinha um caça-níquel pagando o prêmio máximo todos os dias e ficou cada vez mais vazia e mais sedenta por likes. Então o retrato até aqui é meio cruel, Você é uma máquina de se comparar, fisgada por um número, seguindo a manada, feito gado. Parece defeito puro. Vaidade, fraqueza, cérebro sequestrado. Mas por que o cérebro seria construído pra se importar tanto assim com a aprovação dos outros?
Por que dói tanto ficar de fora? Porque durante quase toda a história da nossa espécie, isso não era vaidade, era sobrevivência. A gente evoluiu em grupos pequenos. Tem um número que os cientistas citam pra isso: por volta de 50 pessoas. Esse é o tanto de relações que a nossa cabeça consegue acompanhar de verdade. E dentro desse grupo, ser querido era tudo. Quem o grupo aprovava, comia, era protegido, tinha filhos. Quem o grupo rejeitava era expulso e sozinho na natureza, expulso era praticamente uma sentença de morte.
Então, o seu cérebro construiu um instrumento finíssimo pra medir uma coisa só: como é que eu estou com o meu grupo. Esse instrumento não é um bug, é um dos mais importantes que você tem. O Instagram não inventou isso. Ele pegou esse medidor de reputação calibrado para 50 rostos conhecidos e plugou em um estádio com milhões de estranhos. Então, repara no que isso faz com a sua vontade de ser curtido. Essa parte de você que quer ser aprovada, que compara, que sente aperto quando fica de fora, Ela não é sua vaidade pra você ter vergonha.
É o mesmo sistema que te faz capaz de pertencer, de cooperar, de sentir vergonha quando magoou alguém e mudar por causa disso, de amar gente e se importar de verdade com o que as pessoas pensam. É o que faz de você o animal mais social do planeta. O problema nunca foi se importar com o que os outros pensam. Você não consegue desligar isso. Não é um hábito. É a forma que o seu corpo funciona. O problema é a escala, a quantidade de pessoas que você tá olhando pra se basear.
Mas e a Essena? Aqui está a parte que ela pediu pra guardar. Quando ela largou tudo denunciando a máquina, Aconteceu uma ironia quase perfeita: ela ganhou ainda mais seguidores, chegou perto de 1 milhão. A própria máquina recompensou até a pessoa que estava cuspindo nela. E ela não saiu curada. Falou depois do quanto foi difícil se reencontrar fora dos números, do quanto aquilo ainda mexia com ela. Ela Ele não consertou o instrumento.
Na verdade, ninguém conserta. Ela só está, até hoje, tentando apontar ele para um outro lugar, um lugar talvez mais correto, mais íntimo, menor. Então, talvez a pergunta não seja "como parar de se importar?" Você foi feito para se importar. A pergunta é mais incômoda: de todas as pessoas do mundo quem você está deixando dizer se você vale ou não. Pensa nisso. Muitíssimo obrigado e até o próximo episódio.
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