CORRIDA — Por que correr ajuda a sua mente
Já imaginou o que acontece dentro da sua cabeça? Aqui explicamos isso e muito mais. 🤓🤯 Enxergue além do óbvio — Ciência, história, cultura, saúde, curiosidades, muito autoconhecimento e psicologia na prática. Podcast de Psicologia — Semelhante a Flow e Inteligência Ltda.
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A explicação que quase todo mundo dá pro "barato do corredor" provavelmente está errada.
Neste episódio: uma caçada na savana, um fazendeiro de sessenta e um anos que riram na largada e venceu uma ultramaratona de 875 km, e uma virada que a ciência leva a sério. Por que uma coisa tão difícil quanto correr deixa a cabeça tão boa? A resposta passa pela droga que o seu próprio corpo fabrica, por um experimento com humanos, cachorros e furões, e por uma descoberta incômoda — você não é ruim de corrida; você é o que sobrou da espécie que corria as outras até elas caírem.
Fontes deste episódio:
Fuss et al. (2015), PNAS — o barato do corredor depende de receptores canabinoides (camundongos)
Siebers et al. (2021), Psychoneuroendocrinology — euforia e queda de ansiedade não dependem de opioides em humanos
Raichlen et al. (2012), Journal of Experimental Biology — "Wired to run": humanos, cães e furões na esteira
Bramble & Lieberman (2004), Nature — a corrida de resistência e a evolução do gênero Homo
Cliff Young / Westfield Sydney–Melbourne Ultramarathon (1983) — registro histórico
Este é um conteúdo de divulgação científica e reflexão — não substitui acompanhamento psicológico profissional.
Capítulos:
00:00 — Como a gente corre um animal até ele cair
01:23 — O barato que todo corredor sente e ninguém explica
02:10 — Se a gente é tão lento, por que correr conserta a mente?
02:38 — O fazendeiro de galocha de quem riram na largada
04:54 — Não é endorfina: a droga que seu corpo fabrica
09:02 — Por que a evolução pagaria pra você correr
11:03 — Você não é ruim de corrida. Você esqueceu.
Speaker A
- O "barato do corredor"Endorfina · Endocanabinoides · Anandamida · Euforia e queda de ansiedade
- Evolucao HumanaCaça de antílopes por resistência · Homo · Transpiração como mecanismo de resfriamento · Comparação com outros mamíferos
- Pressão competitiva e saúde mentalEsvaziamento mental · Redução da ansiedade · Sensação de leveza
- Experiência com maratona e triatloCliff Young · Sydney–Melbourne Ultramarathon (1983) · O Passo do Cliff
Uma savana, meio-dia, calor de 40 graus. Um homem persegue um antílope. E é uma perseguição ridícula, porque o antílope é mais rápido. Dispara, abre 100 metros e some no horizonte. Mas o homem não corre pra alcançar, ele corre pra não deixar o bicho descansar. Trota, acha o rastro, trota de novo. O antílope dispara mais uma vez. E mais uma. E cada disparo custa caro, porque ele não consegue suar. Cavalo, antílope, cachorro, todos ofegam pra se refrescar.
E nenhum consegue ofegar e galopar ao mesmo tempo. O homem não. O homem sua o corpo inteiro e segue. Duas, três, quatro horas depois, o antílope para. Não de medo, de calor. O corpo dele cozinhou por dentro e o caçador, ainda de pé, andando, chega cada vez mais perto. A gente se acha um péssimo atleta, sem garras, sem pressa, sem velocidade. Um gato ganha de você na corrida, um esquilo também ganha. Mas existe uma coisa que quase nenhum outro animal do planeta faz e você faz: corre de forma consciente.
E você conhece um pedaço disso por dentro. O primeiro quilômetro é uma negociação. Por que eu saí de casa? O segundo é pior. Aí, em algum ponto que ninguém marca direito, as pernas param de pedir pra parar. A cabeça que estava cheia esvazia. Saí ansioso e voltei leve. É o único lugar onde meu pensamento se cala. Começo achando que vou morrer e termino querendo mais um pouco. Não sei explicar, mas alguma coisa muda lá no meio. Quase todo mundo que corre um pouco já sentiu isso.
Esse troço sem nome que chega depois do esforço. E a maioria das pessoas tem certeza que sabe o que é. A maioria das pessoas está errada. Então fica a pergunta: por que uma coisa tão difícil, que dói, que cansa, que a gente literalmente se obriga a fazer, deixa a cabeça tão boa depois? E uma pergunta mais estranha embaixo dela: se a gente é um corpo tão capenga pra correr, por que correr com certa mente? A ciência levou as duas a sério e a resposta começa justamente derrubando a explicação que você provavelmente diria.
Cliff Young, Austrália, 1983. A primeira corrida de Sydney a Melbourne, 875 km, dias e dias correndo. Vêm ultramaratonistas profissionais do mundo inteiro, que calculam cada caloria, cada cochilo. E aparece um sujeito de 61 anos, fazendeiro de batata, de uma cidadezinha lá do interior. Chega de macacão e botas de borracha, galochas, sem a dentadura. Porque, ele explicou, a dentadura chacoalhava quando ele corria. O pessoal da inscrição achou que era um trote, riram dele.
Aí a corrida começou. E o jeito que o Cliff corre é quase constrangedor de assistir. Não é passada de atleta. É um arrasta de pés, um trote baixo, curto, meio capenga, ele fica pra trás no final do primeiro dia, está lá longe no final do pelotão. Mas tinha uma coisa que Cliff não sabia, ele não sabia que os outros paravam pra dormir e achou que era só continuar. Então enquanto os profissionais dormiam suas 6 horas, o velho seguia trotando no escuro noite após noite.
Antes da prova, ele tinha contado para a imprensa que já passara 2, 3 dias seguidos juntando ovelhas na fazenda a pé, de galocha, e disse depois que durante a corrida imaginava que estava atrás das ovelhas, tentando chegar antes da tempestade. 5 dias, 15 horas e 4 minutos depois, Cliff Young cruza a linha em primeiro, Quase 2 dias mais rápido que o recorde antigo, 10 horas na frente do segundo colocado. Guarda esse jeito de correr, o arrasta-pé do velho que junta ovelha, a gente vai voltar nisso.
Primeiro, a explicação que quase todo mundo dá. Pergunta pra qualquer pessoa por que correr dá aquela sensação boa e ela vai responder uma palavra: endorfina. Virou senso comum. Corrida libera endorfina, endorfina é o barato do corredor, fim. Mas tem um problema nisso. A endorfina é uma molécula grande. Grande demais para atravessar com facilidade a barreira que protege o seu cérebro. Ela sobe no sangue quando você corre, sim, mas chegar lá dentro em quantidade que mude o seu humor É muito mais difícil do que essa história conta.
Mas então, se não é bem a endorfina, o que é? Em 2015, um grupo na Alemanha liderado por um cientista chamado Johannes Fuchs foi atrás disso com camundongos. Deixaram os bichos correrem na rodinha e mediram o que acontecia. Depois bloquearam dois sistemas, um de cada vez. Bloquearam os receptores de endorfina e o efeito calmante da corrida continuou lá. E bloquearam um segundo sistema e o efeito sumiu. O bicho corria e não ficava mais calmo, nem mais resistente à dor.
Esse segundo sistema tem um nome esquisito: endocannabinoide. Mas para tudo. Pensa de novo. Canabinóide. Sim, é a mesma família de substâncias da maconha, só que essa o seu corpo fabrica sozinho. O principal delas se chama anandamida, de uma palavra sânscrita chamada ananda, que quer dizer alegria, êxtase. O seu corpo, quando você corre o suficiente, produz a própria felicidade caseira. Esquece o nome técnico, o que importa é que de verdade, o barato do corredor parece ser menos endorfina e mais um canabinoide que sai de dentro de você.
Em 2021, o mesmo grupo testou isso em gente. Eles bloquearam o sistema da endorfina em pessoas e elas correram. E a euforia leve, a queda de ansiedade continuaram acontecendo, ou seja, a endorfina não era a chave. Faz um teste mental agora: lembra da última vez que você se mexeu de verdade? Correu, subiu uma ladeira, pedalou forte, aquela leveza boba que vem depois, com o corpo ainda quente? Você sempre achou que era um "cansaço bom" ou orgulho?
E sim, talvez seja em parte, mas parte daquilo é, literalmente, o seu cérebro fabricando a própria droga e te pagando por seu esforço. E é aqui que a coisa fica mais linda. Em 2012, um antropólogo pôs 3 espécies pra correr na esteira: 10 pessoas, 8 cachorros e 8 furões. Mediu os canabinoides no de sangue antes e depois. Nos humanos, subiram para 2 vezes e meia o normal. Nos cachorros, que são corredores de longa distância na natureza, subiram mais de 3 vezes.
E nos furões, bichos que dormem 18 horas por dia e não foram feitos para correr longe, nada. Zero. Correr não pagava recompensa nenhuma pro furão. E tinha mais, andar não bastava, tinha que ser corrida sustentada. O prêmio só caía no animal desenhado pra correr distâncias longas. Que é exatamente o que Cliff estava fazendo sem fazer ideia naquela estrada à noite. O corpo dele pagava, quilômetro após quilômetro, pra ele não parar.
Então, vamos ser sinceros, o resultado até aqui é quase fofo. O seu cérebro te suborna com uma drogazinha caseira pra você correr. Tá, mas isso só empurra uma pergunta pra trás: por que a evolução se daria o trabalho de construir esse suborno? Por que pagar tão caro pra gente correr? Mas em 2004, dois cientistas responderam essa pergunta. Denis Brambley e Daniel Lieberman publicaram na Nature uma ideia que virou o jogo. A gente repete que é um corredor ruim porque se compara com um guepardo, com um cavalo na velocidade, e sim, perde feio.
Mas troca a régua de velocidade por distância e o ser humano deixa de ser o coitado da história, vira um dos melhores corredores de resistência a diferença do mundo animal. Bem treinado, em uma distância longa o bastante e no calor, um humano pode correr mais que um cavalo. Mas por quê? Porque a gente transpira. Quase todo mamífero se refresca ofegando, né? E não dá pra ofegar e galopar ao mesmo tempo. A gente transpira o corpo inteiro se move.
A gente não para de se esfriar. E não é um detalhe de bastidor. Segundo eles, há mais ou menos 2 milhões de anos, o nosso gênero, o Homo, foi moldado pra isso. Pernas, tendões, quadril, o jeito da cabeça se equilibrar no trote, um corpo construído peça por peça pra correr longe. A gente não é ruim de corrida. A gente é o que sobrou da espécie que corria até as outras caírem. Então, repara no que isso faz com a sua corrida de terça à noite.
Aquele desconforto no meio do caminho, as pernas pesando, o pulmão ardendo, a vontade de parar, você sempre leu como um sinal que o seu corpo não foi feito para aquilo. De que correr era um castigo que você se impõe. E é o contrário. Esse desconforto é o pedágio de entrada de um sistema de recompensa de 2 milhões de anos. O corpo que reclama nos quilômetros 2 e 3 é o mesmo que perseguia antílopes no calor e que, se você insistir mais um pouco, vai fazer o contrário, vai começar a te pagar pra continuar.
A corrida não é uma punição imposta a um bicho mal adaptado. É a coisa mais antiga que você sabe fazer e talvez a única que o seu corpo possa fazer melhor do que qualquer outro animal da natureza. Mas e o Cliff? O fazendeiro de galocha de quem riram na largada era o único ali correndo do jeito certo que o corpo não foi desenhado para correr devagar, teimoso e sem parar, como quem junta ovelha, como quem persegue caça. Aquele arrasta-pé que pareceu patético virou técnica.
Hoje chamam de O Passo do Cliff um treino de ultramaratona. Ele correu mais de 20 mil quilômetros depois daquilo, não porque tinha um corpo especial, Mas porque lembrou de uma coisa que o nosso corpo sabe, mas a gente esqueceu. A ciência ainda discute os detalhes. Quanto desse barato é canabinoide? O quanto da nossa história foi mesmo de caçada e resistência? Mas o desenho do nosso corpo não mente. Então, da próxima vez que você correr e ficar difícil e uma voz te mandar parar, vale uma pergunta: e se você nunca foi ruim nisso?
E se você só esqueceu que foi feito pra isso? Pensa nisso! Muitíssimo obrigado e até o próximo episódio!
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AUTOSSABOTAGEM: 23 regras para "vencer seu pior inimigo"