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MINIMALISMO — Por que ter mais nunca é o bastante

15 de junho de 202612min
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Já imaginou o que acontece dentro da sua cabeça? Aqui explicamos isso e muito mais. 🤓🤯 Enxergue além do óbvio — Ciência, história, cultura, saúde, curiosidades, muito autoconhecimento e psicologia na prática. Podcast de Psicologia — Semelhante a Flow e Inteligência Ltda.

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A gente trabalha pra comprar, compra pra guardar — e guarda até virar peso.

Neste episódio, a história de um roupão do século XVIII e de um homem que empacotou a vida inteira em caixas leva a uma pergunta que a ciência leva a sério: se ter mais deveria nos deixar mais felizes, por que nunca chega? A resposta passa pela esteira hedônica, pela conta que a desordem cobra do seu cérebro, e por uma virada — o mesmo mecanismo que faz as coisas novas perderem a graça é o que prova que você precisa de muito menos do que teme.

Fontes deste episódio:

Denis Diderot, Regrets sobre meu velho roupão (1769) — o "efeito Diderot"

Brickman, Coates & Janoff-Bulman (1978), Journal of Personality and Social Psychology — esteira hedônica

McMains & Kastner (2011), Journal of Neuroscience — competição por representação neural

Saxbe & Repetti (2010), Personality and Social Psychology Bulletin (CELF/UCLA) — desordem e cortisol

Ryan Nicodemus / The Minimalists, Everything That Remains e o documentário Minimalism (2016)

Este é um conteúdo de divulgação científica e reflexão — não substitui acompanhamento psicológico profissional.

Capítulos:

00:00 — Um roupão que escravizou um filósofo

01:17 — O peso que a gente acumula sem ver

01:56 — Se ter mais deveria bastar, por que não basta?

02:34 — A festa de mudança que virou experimento

04:22 — Por que as coisas param de fazer feliz

09:37 — Oitenta por cento ainda na caixa

10:46 — O que sobra quando o resto sai do caminho

Participantes neste episódio1
S

Speaker A

Host
Assuntos4
  • Volta ao analógico e minimalismoRyan Nicodemus · Joshua · festa da mudança · desordem e estresse
  • Impacto do DesenrolaDiderot · roupeiro · consumismo
  • Adaptação do organismo a turnosBrickman, Coates & Janoff-Bulman · ganhadores da loteria · pessoas com deficiência · esteira rolante
  • Neurociencia e CerebroMcMains & Kastner · Saxbe & Repetti · cortisol · competição por atenção
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Paris, 1769. Um filósofo ganha um presente: um roupão novo, de seda, vermelho, lindo. E ele faz o que parece óbvio: ele joga fora o velho, aquele, puído, encardido, moldado no corpo dele havia anos. E aí começa uma coisa estranha. Do lado do roupão magnífico, A velha cadeira de palha parece pobre demais. Então ele troca a cadeira. Aí a escrivaninha de Stoa. Troca a escrivaninha. As gravuras na parede, o tapete, a estante. Uma a uma, o cômodo inteiro vai sendo atualizado pra ficar à altura do roupão.

Meses depois, ele se senta em uma sala perfeita. Perfeitamente combinada, impecável, e percebe uma coisa que ele mesmo escreveria anos depois: "Do velho roupão ele era dono, do novo ele virou servo. Era mais feliz nos trapos." Comprar coisas boas deveria melhorar a vida da gente. Diderot descobriu o contrário, dentro de um roupão. E você conhece isso por dentro. O armário cheio e a sensação de que não tem nada pra vestir. A gaveta de cabos que os aparelhos nem existem mais.

O presente que você guardou por culpa. A segunda TV. O "eu vou ser feliz quando eu tiver" e a lista que começa assim que você tem. Tem gente que paga faz todo mês um depósito para guardar coisas que esqueceu que tem. A gente trabalha para comprar, compra para guardar e guarda até virar peso. Então fica a pergunta: se ter mais deveria nos deixar mais felizes, por que nunca é o bastante? E uma pergunta ainda mais incômoda: e se as coisas nunca tiverem têm sido o problema real.

A gente trata o minimalismo como estética: paredes brancas, prateleiras vazias, fotos bonitas. Mas a ciência por trás disso não tem nada a ver com decoração. Ela é sobre como a sua mente lida com o desejo, com a atenção e com a vida que cabe entre essas duas coisas. Ryan Nicodemus, Ele tinha tudo o que deveria bastar: 30 anos, salário alto, um apartamento de 3 quartos só para ele, e ele passava o tempo todo enchendo aquele espaço.

Trabalhava 70, 80 horas por semana para pagar coisas que mal usava, e não era feliz. Era exausto, endividado e com a sensação De que quanto mais perto chegava do sonho, mais longe a felicidade estava. Aí ele ouve falar de minimalismo, acha a ideia ótima e trava na pergunta mais boba de todas: "Tá, e começa por onde?" Então ele e o amigo, o Joshua, inventam uma coisa meio absurda. Uma festa da mudança. A regra é empacotar tudo, tudo mesmo, como se o Ryan estivesse de mudança no dia seguinte.

Pratos, roupas, lençóis, eletrônicos, quadros, escova de dente. Levou um dia, umas 9 horas e algumas pizzas. No fim, o apartamento dele era uma pilha de caixas até quase o teto. E aí vem a parte boa do experimento: pelos 21 dias seguintes, ele só ia desembrulhar o que precisasse, quando precisasse. Precisou de toalha? Tira da caixa. Da escova? Tira da caixa. Da camisa pro dia seguinte? Tira da caixa. Guarda esse número: 21 dias.

Porque a gente vai voltar nele. Primeiro, a pergunta que parece simples e não é: Por que as coisas param de fazer a gente feliz? Em 1978, 3 psicólogos, Brickman, Coates e Jenof Buhmann, foram atrás de um grupo improvável: ganhadores da loteria. Pessoas que tinham acabado de receber o atalho clássico pra felicidade. Compararam 22 ganhadores com um grupo "comum". O resultado virou um clássico desconfortável: os ganhadores não eram mais felizes que as pessoas comuns.

E tinha um detalhe ainda mais estranho: eles sentiam menos prazer em coisas pequenas do dia a dia, como um café, conversa ou até um elogio. Mas o estudo tinha um segundo grupo: E é ele que muda tudo. Os pesquisadores também ouviram pessoas que tinham ficado paraplégicas em acidentes. A intuição diz que elas deveriam estar arrasadas para sempre. Não estavam. Menos felizes que a média? Sim. Mas muito menos infelizes do que qualquer um chutaria.

Elas também tinham se acostumado. É o mesmo mecanismo rodando nos dois sentidos. A gente sobe pro pico e volta pra base. A gente cai pro fundo e volta de novo pra base. A mente não te prende na euforia nem te abandona no luto. Ela sempre te traz pra base. A explicação é um mecanismo que vive dentro de você. A mente se acostuma. Contudo, o carro novo é euforia por uma semana, e aí paisagem no outro mês. O tênis dos sonhos vira só um tênis.

Os cientistas chamam isso de adaptação hedônica. A esteira rolante, em linhas gerais, você corre, compra, sobe o pico, e aí a esteira, né, te traz de volta exatamente pro mesmo lugar. Esquece aqui o nome técnico. O que importa é: a novidade tem prazo de validade. E ele é curto. Mas tem um custo nas coisas que não são somente dinheiro. Em 2011, pesquisadores de Princeton mostraram uma coisa sobre o nosso cérebro. Quando você tem muitos objetos no seu campo de visão, eles competem entre si pela sua atenção.

O cérebro tem uma capacidade limitada e cada coisa parada na sua frente disputa um pedacinho dessa atenção limitada. Desordem, no final das contas, não é só feia, ela cobra processamento. É É como deixar 30 abas abertas no navegador da sua cabeça, e isso aparece no corpo. Em um estudo de 2010, a Saxby e o Hept, que são dois pesquisadores, acompanharam casais e mediram cortisol, o hormônio do estresse, pela saliva mesmo. As pessoas que descreviam a própria casa com palavras de bagunça, de inacabado, tinha um padrão de cortisol ligado a mais estresse.

O efeito era mais forte nas mulheres. É uma correlação, não uma sentença, mas é real, tá? Pra muita gente, a casa cheia é um estressor que nunca desliga. Faz um teste agora: Olhe em volta. Conta rapidamente quantos objetos estão no seu campo de visão. Cada um deles é uma aba meio aberta que seu cérebro mantém carregando, baixinho, o tempo todo. Você não sente uma a uma, mas sente o cansaço no final do dia e acha que é só você.

Não é. É a conta somada de mil pequenas coisas pedindo um pouco da sua atenção ao mesmo tempo. E é aqui que a história que eu contei do Ryan se encaixa. Dia após dia, ele desembrulhava menos. Aquilo que parecia essencial na loja ficava na caixa de derrote. Lá em 1769, já tinha caído nessa armadilha de cabeça. Um roupão puxa uma cadeira, que puxa uma mesa, que puxa uma sala inteira. Décadas depois deram um nome a isso: o efeito de Deroche.

Que é justamente a compra que exige a próxima compra. Essa espiral. Então, até agora, o retrato é meio sombrio. A sua mente é uma esteira que te condena a querer e nunca se satisfazer. Parece até maldição. Mas 21 dias depois, Ryan olha pro apartamento, lembra do Ryan? Das caixas? E 80% de tudo que ele possuía ainda estava nas caixas, intacto. Ele disse que olhava pras caixas e sequer lembrava o que tinha dentro da maioria delas.

E é aqui justamente que a chave vira. A mesma adaptação que estraga a graça das coisas novas, aquela vilã da história, é exatamente o que prova que você já estava bem sem elas. A gente se acostuma pra cima, com o que ganha, mas se acostuma pra baixo também, com o que perde. O Ryan nunca ia sentir falta do que ele já tinha esquecido. Conhecido que tinha. O defeito da mente que nunca se satisfaz é o mesmo mecanismo que te deixa precisar de muito menos do que você teme perder.

Então, o minimalismo nunca foi sobre coisas. As coisas eram disfarce para o recurso que é de verdade escasso: a sua atenção. Suas horas, o pedaço finito da sua cabeça que cada objeto, cada aba, cada compra que pede a próxima compra estava comendo sem você perceber. Diderot não errou ao gostar do roupão. Ele errou ao deixar o roupão decidir o padrão de todo o resto. E aquela inquietação, o querer mais que nunca para, Ela também não é um defeito pra você odiar.

É um motor antigo, o mesmo impulso que manteve os nossos ancestrais buscando, juntando e se garantindo contra a falta. Só que agora ele roda em um mundo inteiro projetado pra te vender a próxima coisa. O problema nunca foi querer, foi não escolher pra onde apontar isso. Minimalismo não é abrir mão, é apontar esse motor pro que você escolheria se as caixas estivessem vazias. O Ryan, ele vendeu e doou 80% de suas coisas após colocar tudo em caixas e disse que se sentiu rico pela primeira vez na vida, não por ter menos, Mas porque com o resto, né, fora do caminho, ele finalmente conseguiu enxergar o que ele realmente possuía, o que tinha ficado.

Então fica a pergunta para você levar daqui: se você empacotasse a sua vida inteira em caixas hoje à noite, o que você tiraria de volta nos primeiros 21 dias. Pensa nisso. E pratica. Muitíssimo obrigado e até o próximo episódio.

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