Episódios de Podcast de Psicologia

VÍNCULOS — Você não escolheu a paz. Você assinou uma trégua.

11 de agosto de 202631min
0:00 / 31:16

Agende um papo comigo: https://euterapeuta.com.br/renan.daniel

Compre agora o livro: https://www.amazon.com.br/dp/B0H3HFPNJB

🌐 podcastdepsicologia.com.br 🎧 Escute também em Spotify, Youtube Music, Apple Podcasts, Amazon Music e Deezer.

#paznosvínculos #relacionamentos #conflitosfamiliares #gestalt #autoconhecimento #podcastdepsicologia #renandaniel

Participantes neste episódio1
R

renandaniel

Host
Assuntos5
  • Paz vs Trégua em Vínculos· SociedadePaz nos relacionamentos·Trégua em conflitos·Cansaço emocional prévio
  • Aceitação do que não se pode controlar· SociedadeGestalt da psicologia·Conflitos não resolvidos·Mágoas não externalizadas
  • Guerra Interna vs. Externa· SociedadeEngolir conflitos·Explosão de raiva·Guerra virada para dentro
  • Julgamento e aparências· SociedadeProjeção psicológica·Autoconhecimento em relacionamentos·Aceitação de partes internas
  • Tendencia Atualizante· SociedadeTendência atualizante·Crescimento e cura natural·Diversidade de formatos de paz
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Você já reparou que existe um tipo de cansaço que começa antes mesmo de uma coisa acontecer? A Helena tá sentindo isso agora. Ela tá no carro, num domingo de manhã, indo pra um almoço na casa da mãe. Faltam uns 10 minutos pra ela chegar, mas o corpo dela de alguma forma já começou a se preparar. Os ombros ficaram mais rígidos, a mandíbula já começou a enrijecer, tem uma mão invisível que parece que tá apertando a nuca dela. Mas nada aconteceu ainda, ninguém falou nada, ela tá só dirigindo.

Mas por dentro, por dentro, alguma coisa já começou. Porque a Helena, sem perceber, ela já está no meio de uma discussão, uma discussão que ela tá tendo até o momento sozinha com a irmã Clara, que nesse momento nem lembra que a Helena existe. Deve estar lá pondo a mesa. A Helena já ensaiou a resposta, já imaginou o comentário que a irmã vai fazer, aquele de sempre, e já preparou uma forma de revidar. Ela chega no almoço de certa forma já armada, já chega em guerra.

E olha que estranho isso, né? Porque tem gente na vida da Helena com quem ela nunca chega dessa forma. Uma amiga, um colega. Com essas pessoas ela chega leve. Chega inteira. Mas tem uns vínculos, quase sempre os mais antigos, com mais história, muitas vezes os de dentro de casa, em que ela entra pela porta já com o punho fechado. Eu queria começar por aí hoje, por esse aperto que ela tá dentro do carro, porque tem uma frase que eu acho de verdade das mais bonitas que existem.

Talvez você já tenha ouvido ou até dito: nos meus vínculos eu escolho a paz, onde havia atrito eu trago a luz. Eu acredito nessa frase, ela aponta para um lugar real, um lugar para onde vale a pena a gente caminhar. E é justamente por levar essa frase a sério que eu reparei em uma coisa: a Helena também acredita nessa frase. Ela, de certa forma, quer viver ela, e mesmo assim continua chegando no almoço com os punhos fechados. Ela até escolhe a paz na segunda-feira de manhã com coração mesmo, mas na primeira frase da irmã, em um domingo no almoço, essa paz vai embora.

Não é que a frase de alguma forma falhe, é que ela é um destino, mas ninguém contou pra Helena qual é o caminho até esse destino. Por quê? Vamos pensar, se a paz é uma escolha, a Helena escolheria, ela quer. Ninguém gosta, né, de ficar tenso. Então, por que a escolha, né? Sozinha não basta ainda. Por que precisa de mais? Porque com algumas pessoas a paz simplesmente escorrega da mão da gente antes mesmo da gente conseguir chegar.

E é aqui que eu quero que você segure uma coisa comigo. A gente vai chegar nela, mas não agora. Primeiro eu queria dizer que tem uma diferença, e ela parece pequena, mas ela muda tudo, entre paz e trégua. São duas coisas diferentes, mas eu suspeito que a maioria das pessoas que jura que escolheu a paz com alguém Na verdade, só assinou um contrato ali de trégua. E trégua é uma coisa completamente diferente. A trégua, ela é uma guerra parada.

É a briga que existe no modo de pausa, esperando ali um próximo motivo para despausar. A Helena, no carro, Ela não tá indo até a irmã em paz, ela está indo em trégua. E trégua cansa antes mesmo da gente começar. E é por isso que ela já chega exausta, um copo prestes a transbordar. Mas calma, a gente vai chegar nos motivos. Por enquanto fica só com uma imagem, tá? Uma mulher no carro, em um domingo de sol, indo ver a família que ela ama, mas o corpo dela reagindo como se estivesse indo pra um campo de batalha, as mãos firmes no volante e uma discussão já rolando na cabeça dela com alguém que ela ainda nem encontrou.

Porque tem uma coisa que ninguém contou pra Helena, e talvez ninguém tenha contado pra você também. A paz que ela tanto quer nos vínculos dela não vai chegar da Clara, a irmã, finalmente mudar. Não vai chegar quando o outro parar de fazer o que faz. Ela vai chegar, isso se chegar, por um caminho que a Helena ainda nem olhou. Um caminho que passa por dentro. E não por fora. Deixa eu te explicar o que eu quero dizer com isso melhor, tá?

Vamos com calma, porque essa parte aqui, ela importa muito. Reparem uma coisa sobre o atrito da Helena com a Clara. Se você perguntar pra Helena por que que elas brigam, ela vai te dar um motivo. Ah, ela faz um comentário sobre como eu crio os meus filhos, ela sempre chega atrasada e não liga, Motivos concretos do presente. E eles existem, não são um tipo de invenção. Mas presta atenção no tamanho da reação. Um comentário pequeno e a Helena inflama como se fosse uma ofensa gigantesca.

A reação é grande demais pro que somente aconteceu. E quando a reação é maior que o fato, é quase sempre um sinal de uma coisa: o que tá acontecendo não é sobre hoje. A Gestalt da psicologia tem um nome para isso, e eu já usei aqui em outras conversas, mas é porque ela explica grande parte da vida da gente. Assunto inacabado é aquilo que ficou aberto lá atrás e que nunca teve um desfecho. Uma conversa que não aconteceu, uma mágoa que não foi externalizada, não foi dita, um eu precisava que você me visse que nunca saiu da boca da pessoa.

E aí sabe o que acontece? Esse assunto aberto, ele fica ali no fundo esperando, e cada novo encontro com aquela pessoa reabre aquele mesmo ponto. Então, quando a Clara faz um comentário de hoje, não é somente um comentário de hoje que a Helena responde, é o comentário de hoje de hoje, mas todos os 20 anos atrás. É a soma. A Helena está brigando com uma dívida antiga usando a fatura de hoje. Deixa eu te mostrar como isso acontece na prática, tá?

Domingo, mesa posta, a Clara olha pro prato da Helena e solta, de forma leve, quase distraída: Nossa, você só vai comer isso? Pra qualquer pessoa de fora, é assim, um comentário bobo, né, some no ar. Pra Helena não some. Aquilo aterrissa num lugar antigo, um lugar da menina que sempre se sentiu de certa forma observada, medida e avaliada pela irmã mais velha. O comentário durou 2 segundos, mas a ferida que ele tocou tem 30 anos.

E a Clara nem sabe que fez isso, porque a Clara Ela não está brigando com os 30 anos de nada, ela só comentou de um prato. E é aqui que eu preciso falar uma coisa com a Helena e com você, tá? Se você se reconheceu nisso, não tem nada de errado com você por sentir isso. Eu falo sério, tá? Porque a gente ouve muito que isso é imaturidade, que você já é adulto e deveria ter superado, que é só sua família, então engole, e, ou amigos, né?

E aí, além do atrito, você ainda carrega a vergonha de sentir aquilo, e você se julga por simplesmente não conseguir deixar pra lá. E fica pior, Então deixa eu primeiro tirar isso do caminho, e eu peço que você tire também. Você não briga com quem você ama por imaturidade, você briga porque tem uma gestalt, uma forma aberta ali dentro, uma coisa que ficou pela metade e que faz tempo está pedindo para ser fechada, uma situação, entendeu?

O atrito não é o problema. O atrito é o sintoma. É a coisa mais funda tentando chamar atenção do único jeito que ela aprendeu a chamar atenção. E é aqui que eu quero que a gente olhe de perto para o que a Helena faz com esse atrito, porque isso é extremamente importante. Ela faz duas coisas: E talvez você faça também. Ou ela explode, revida, levanta a voz e sai do almoço com o estômago em nó, se sentindo péssima pela reação. Ou ela faz o contrário, ela engole, fica quieta, muda de assunto e leva pra casa uma raiva que ela vira contra ela mesma, ruminando no carro de volta: eu deveria ter falado.

Por que que eu não falei? E olha só, aquela segunda opção, né, engolir, sorrir, mudar de assunto. Sabe como Helena chama isso? Ela acha que isso é escolher a paz. Ela acha que quando se cala, ela está sendo uma pessoa madura e que traz a paz para aquele ambiente. Mas isso não é paz. E esse é o primeiro clique, o primeiro insight que eu quero te dar hoje. Talvez você precise parar um segundo depois dele, tá? Engolir, engolir não é paz, é a guerra virada para dentro.

De novo: engolir não é paz é a guerra virada para dentro. Quando você cala para manter a paz, a briga não acabou, ela só trocou de endereço. Ela saiu de fora e foi para dentro, e lá dentro ela vai cobrando juros. Vira aquele cansaço, aquela ruminação, aquela mandíbula travada, A trégua que você assinou lá fora virou uma guerra silenciosa dentro de você. Agora, e isso é o que a gente vai desmontar na próxima parte, por que que a Helena prefere isso?

Por que que ela prefere engolir e se travar ou explodir e se sentir péssima? A fazer uma coisa que efetivamente poderia resolver a situação. Tem um motivo, e eu te garanto que não é nem fraqueza nem falta de coragem. O motivo é que o atrito, por pior que ele seja, está protegendo a Helena de uma coisa que dói ainda mais. Presta atenção nessa parte, tá? Porque é aqui que quase todo mundo entende a paz nos vínculos de uma forma errada.

A Gestalt diz que a gente é feito de partes, e dentro da Helena, nesse vínculo com a irmã, tem duas partes claras puxando para lados completamente opostos. Tem uma parte que quer paz. Essa parte está cansada, quer chegar no almoço e simplesmente rir com a irmã, que seja leve. E tem outra parte, uma parte mais barulhenta, que quer ter razão, que quer que a Clara finalmente reconheça, finalmente admita, finalmente diga: você tem razão, me desculpe.

Essa parte, ela não quer paz. Essa parte, ela quer ganhar. E a Helena vive sendo rasgada por essas duas partes que puxam ela pra cada um de um lado. Ela acha que a parte que quer ganhar é um tipo de vilã. Ela tenta calar essa parte, tenta ser aquela pessoa evoluída que não liga. E naturalmente não funciona. Porque você não cala uma parte sua na marra, ela normalmente só fica mais alta quando você tenta fazer isso. Então deixa eu te fazer uma pergunta que a Helena provavelmente nunca fez: em vez de como eu calo essa parte que quer brigar, e se a gente se perguntasse o que essa parte está protegendo?

Porque as partes da gente, mesmo as mais difíceis, quase, é quase sempre elas estão cuidando de alguma coisa para nós. E essa parte da Helena que quer ganhar, que quer o reconhecimento da irmã, ela está protegendo a Helena de sentir uma coisa extremamente específica: a mágoa. Que tem embaixo. Pensa comigo, tá? Enquanto Helena está lá brigando, ela está ativa, está forte, está no ataque. A briga tem adrenalina, tem energia. Agora, o que tem embaixo da briga?

Embaixo tem uma coisa mais difícil de sentir. Tem decepção, tem uma menina que queria que a irmã mais velha admirasse e que se sentiu que nunca foi admirada, tem uma saudade de um vínculo que talvez nunca tenha existido do jeito que ela sonhou, tem tristeza. E tristeza é mais difícil de sentir do que raiva. Então A briga, ela se torna um tipo de esconderijo. Enquanto a Helena briga, ela não precisa sentir a mágoa. A raiva, no final das contas, é o cobertor que ela joga por cima da tristeza pra não ter que olhar pra ela.

Por isso a paz assusta. Porque se a briga acabar de verdade, se a Helena largar a raiva, O que sobra embaixo? Sobra uma mágoa nua, e ela vai ter que sentir isso. E tem uma camada que é ainda mais desconfortável. A Gestalt fala de uma coisa chamada projeção. É aquilo que a gente não suporta em si mesmo e a gente enxerga muitas vezes ampliado no outro. E às vezes o que mais irrita a Helena na Clara é justamente uma coisa que a Helena não aceita nela mesma.

A Clara é controladora, pode ser que a Helena não suporte o quanto ela própria também controla. O atrito muitas vezes é um espelho do que a gente odeia olhar. E olha como isso pode ser traiçoeiro, né? A Helena jura que o problema é a Clara ser controladora, mandona, sempre achando que sabe o que é melhor para todo mundo. Só que se você perguntar para Helena qual o maior medo dela como mãe, por exemplo, ela vai responder sem perceber A ironia: ter virado controladora demais com os meus filhos.

O que mais irrita ela na irmã é o retrato do que ela mais teme nela mesma. Não é que a Clara não seja controladora, tá? Pode ser até que seja. É que a raiva tem um tamanho estranho porque parte dela não é sobre a Clara, É sobre a Helena refletida na Clara. Deixa eu juntar isso, tá? Porque é pesado e é importante. Quando Helena escolhe a paz engolindo, ela não está em paz, ela está anestesiada, mas a mágoa continua lá. Quando ela briga, ela está usando a raiva para não sentir a tristeza embaixo.

E às vezes ela está brigando com um pedaço dela mesma que ela projetou na irmã, sem— você percebe a armadilha? Porque qualquer um desses caminhos, a Helena nunca chega no que realmente está acontecendo. Ela fica ali, ó, na superfície do atrito, brigando ou engolindo, e nunca desce até a investigação do que é a coisa de verdade. E é por isso que a paz não vem. Não porque a Clara é difícil, talvez até seja, mas a paz não vai depender da Clara mudar.

A paz depende de a Helena descer até o que o atrito está escondendo, e ela não desce porque descer dói. Deixa eu te dizer de um jeito mais direto ainda: a paz que você quer no vínculo não está no outro lado da briga, ela está debaixo. É sobre descer até lá. E sobre o que muda quando você desce. E é isso que eu quero falar agora. Então chega mais perto agora, tá? Eu preciso que você baixe o volume do mundo um pouco e vem aqui comigo.

Tem uma ideia, e eu vou devagar porque ela é delicada, que talvez seja uma das coisas mais importantes que a psicologia entendeu sobre mudança. Ela vem da Gestalt de um ator chamado Beiser e é conhecido como paradoxo da mudança. Diz assim: a mudança acontece quando a gente para de tentar ser diferente do que é. A mudança acontece quando a gente para de tentar ser diferente do que é. Não quando a gente força, quando a gente aceita.

Agora, deixa eu trazer isso pro vínculo da Helena, porque o paradoxo vale pra ela e pra Clara. A Helena passou anos tentando mudar a Clara. Toda briga, no fundo, era isso, tá? Um pedido pra que a Clara fosse uma outra pessoa. Seja a irmã que eu queria. E não funcionou, nunca funcionou, porque você não muda ninguém à força, do mesmo jeito que ninguém te muda à força. Cada ano tentando mudar a Clara foi uma guerra. O paradoxo, né, ele aponta para o contrário de tudo que Helena tentou.

Ele diz que a paz nesse vínculo não começa quando a Clara muda. Começa no dia que a Helena para de exigir que a Clara seja diferente do que ela é. Então, aterrissa isso, tá? Não é desistir da Clara. Não é fingir que o comentário não dói. É outra coisa. É a Helena aqui olhar para irmã e enfim reconhecer: essa é a Clara que existe, não a que eu sonhei. Essa é talvez, e talvez ela, né, não consiga me dar o reconhecimento que eu esperei a vida toda, não porque eu não mereço, mas porque ela não tem isso pra me dar?

E enquanto eu exigir de uma pessoa uma coisa que ela não tem, eu vou viver em guerra. A paz começa quando eu paro de ir buscar água num poço seco. E repara, tá, que isso não é resignação, não é a Helena baixando a cabeça e aceitando ser maltratada. Na verdade, é o oposto. É ela parando de terceirizar a própria paz. Enquanto a paz dela dependia da Clara mudar, a Helena vivia refém. A vida emocional dela ficava na mão de uma pessoa que ela não controla e nunca vai controlar.

No instante em que ela para de exigir a mudança do outro e e pega a própria paz de volta pras próprias mãos, isso não é fraqueza, nem desistência. É a Helena reassumindo o comando do que sempre foi dela. E aí, talvez só aí, aquela frase lá do começo se cumpre inteira. Lembra dela? Onde havia atrito, eu trago a luz. Ela é exata. E ela pede mais coragem do que parece, porque trazer à luz é acender a consciência sobre o que estava no escuro.

E isso é uma escolha extremamente corajosa, não é um gesto automático. E o que estava no escuro esse tempo todo não era a Clara, era a mágoa da Helena. Era necessidade dela, nunca dita. Era o poço seco onde ela insistia em buscar água. A luz, ela não aponta para fora para iluminar o defeito do outro, ela vira para dentro primeiro, ilumina o que era para a gente cuidar de verdade. Quando Helena traz essa luz, quando ela ilumina o atrito enxerga que ele era dela, sobre um assunto dela, a briga com a Clara perde até o combustível.

Não porque a Clara mudou, mas porque a Helena parou de precisar que ela mudasse. Não é mais sobre a Clara. E agora a frase inteira se cumpre, né? Nos meus vínculos, eu escolho a paz. Não como engolir, não como sorrir e mudar de assunto. Escolher a paz vira isso: eu escolho parar de brigar por um reconhecimento que essa pessoa talvez não consiga me dar. Escolho dizer com calma o que eu nunca disse, não para ganhar, mas para fechar o que estava aberto em mim.

Eu escolho soltar o controle sobre a resposta dela. Repara que isso não é fraqueza, é justamente o contrário: engolir a fraqueza disfarçada de paz. Isso aqui, dizer a verdade e largar o controle, exige uma coragem que quase ninguém tem. E fica aqui comigo mais um segundo no silêncio depois dessa ideia, porque eu não quero que ela vire uma tarefa, tá? Não é uma técnica de reconciliação. É só um jeito diferente de olhar pro atrito que tá aí.

E às vezes olhar diferente já é o começo de tudo. Muitas vezes é. Deixa eu te contar uma última coisa e depois, olha, te deixo em paz. Tem uma ideia de Carl Rogers, o pai da abordagem centrada na pessoa, que eu acho das mais bonitas da psicologia. Ele diz que todo organismo vivo tem uma direção própria, um movimento natural em direção ao crescer, a se equilibrar, a se curar. Ele chamou isso de tendência atualizante. Uma semente, por exemplo, não precisa ser convencida a virar árvore, ela só precisa das condições adequadas.

E os vínculos, né, também são esses organismos vivos. Eles também têm um movimento próprio. E aqui eu preciso te dizer uma coisa que talvez você não esperasse de um episódio sobre paz nos vínculos. Às vezes a paz não é a reconciliação que você imagina. Às vezes o vínculo tem uma direção própria, que não é voltar a ser o que era. Às vezes escolher a paz é ter uma conversa difícil. Às vezes é o contrário, é amar de uma distância mais saudável, dar espaço.

Às vezes é aceitar que a pessoa mudou, ou que você mesmo mudou, e que o vínculo agora, que era uma coisa, virou uma outra coisa. Não existe um único formato de paz, e é por isso que eu não vou te dar um passo a passo, tá? Eu sei que você talvez esperasse, né, um: certo, Renan, então como eu faço as pazes? Me dá o roteiro da conversa. E sendo bem sincero, eu poderia inventar 3 passos, mas seria mentira, porque a paz de cada vínculo É diferente.

E só você lá de dentro sabe qual é a sua. A tendência atualizante já está em você nesse vínculo. E eu confio na sua capacidade de escolher o melhor caminho. Ela é a sua tendência, não precisa que eu te empurre de alguma forma. O que eu tentei fazer aqui o tempo todo foi só ajudar a tirar uma pedra de cima, a pedra do a paz depende do outro mudar. Eu tirando isso, eu já te dou uma nova perspectiva, ou espero te dar essa nova perspectiva.

Então eu não vou fechar com resposta, tá? Eu vou fechar com uma pergunta, e é uma pergunta para você levar para o seu próximo domingo pro seu próximo carro a caminho de quem te angustia só de você ir a caminho da pessoa? E se a paz não for o fim desse atrito lá fora? E se ela for o fim da guerra que você trava dentro sozinho antes mesmo de chegar lá? Talvez o segredo seja olhar mais pra dentro. Do que pra fora. Fica com isso. Muitíssimo obrigado e até o próximo episódio.

VÍNCULOS — Você não escolheu a paz. Você assinou uma trégua. | Castnews Index — Castnews Index