RECOMEÇAR — Você não quer recomeçar. Você quer desfazer.
São três da manhã e a sua cabeça está num lugar que já passou. De novo.
Tem uma diferença pequena entre recomeçar e desfazer — e quase todo mundo que acha que está tentando recomeçar está, na verdade, tentando desfazer. É por isso que não sai do lugar.
Neste episódio eu acompanho o Diego, 34 anos, preso numa decisão que não volta atrás. E, através dele, olho para o que a Gestalt chama de assunto inacabado: o que fica em aberto insiste em voltar até fechar. Falo sobre as partes da gente que travam o recomeço — e sobre o que elas estão protegendo. Chego no paradoxo da mudança, de Beisser: a gente não muda tentando ser outra pessoa, muda quando para de brigar com quem é. E fecho na tendência atualizante, de Carl Rogers — a ideia de que a direção do movimento já está dentro de você, e que ela não precisa ser criada, só precisa das condições.
Não tem passo a passo aqui. Tem uma pergunta.
E se recomeçar não for apagar a queda, mas carregar ela mais leve?
Qual foi a queda que, hoje, você entende que te tornou quem você é?
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renandaniel
- Paradoxos da vida· SociedadeAceitação do que se é·Parar de lutar contra a realidade·Mudança pela aceitação
- A armadilha de tentar desfazerEvitar o luto·Controle da dor·Recomeçar amanhã
- Recomeçar como assimilação da quedaNão apagar o passado·Compreender a queda·Próximos passos
- Desconstrução e reconstrução· SociedadeAssunto inacabado·Tentativa de desfazer o passado·Aceitação da queda
- O conceito de assunto inacabadoGestalt·Tendência a fechar ciclos·Dor da perda não elaborada
- Atualização interna e o novoDireção intrínseca de crescimento·Condições para o desenvolvimento·A semente que quer crescer
São 3 da manhã. Eu tenho certeza que você já se pegou nesse horário, não de quem vai dormir tarde, mas o de quem acordou e não consegue mais voltar a dormir. O corpo tá pesado, cansado assim de verdade, mas a cabeça não. A cabeça tá a milhão, mais do que nunca. E o pior, né, ela não tá aqui no quarto, no escuro, no travesseiro. Ela tá em um outro lugar que muitas vezes já passou. Deixa eu te apresentar o Diego. O Diego, ele tem 34 anos e nesse exato momento ele tá deitado de olho aberto, fazendo uma coisa que ele faz quase toda noite.
Ele tá remoendo, rebobinando. Tem uma cena, uma decisão, uma escolha que ele tomou há muito tempo e que ele daria tudo, mas tudo, pra ter feito diferente. E toda noite ele volta lá, ele rebobina a própria vida, né? Aperta o play de novo naquele momento, como se dessa vez fosse possível fazer algo diferente. Mas nunca dá. E olha que estranho isso, né? Porque quanto mais o Diego tenta voltar naquele ponto, mais ele fica preso ali.
É como uma areia movediça. Quanto mais ele se debate pra sair, mais fundo ele afunda. A mente dele quer resolver o passado, e o passado, pro bem ou pro mal, é a única coisa do universo inteiro que não tem como ser resolvida. Eu queria começar por aí hoje. Por essa hora da madrugada, porque tem uma frase que a gente ouve muito, e talvez você já tenha ouvido, talvez já tem até postado no Instagram: mesmo depois da queda eu me levanto.
Ou sei lá, né, voltar atrás no tempo eu não posso, mas recomeçar sempre. Realmente é uma frase bonita e é uma frase verdadeira. Mas eu reparei em uma coisa: a gente ama essa frase e mesmo assim a gente tem muita dificuldade para viver ela. Mas por quê? Se levantar é tão bonito dessa forma que a frase diz, se recomeçar tá ali disponível a qualquer hora, por que que a primeira coisa que a nossa cabeça faz Quando a gente cai, não é levantar, é voltar, rebobinar, é tentar desfazer.
E é aqui que eu quero te fazer segurar uma coisa comigo, porque a gente vai chegar nela, mas não agora. Tem uma diferença, uma diferença que ela parece pequena e que muda tudo. Entre recomeçar e desfazer. São duas coisas completamente diferentes e eu acho sinceramente que a maioria das pessoas está tentando recomeçar. Na verdade, sabe, tentando— aliás, não está tentando recomeçar. Na verdade, está tentando desfazer sem saber. Perceba, o Diego às 3 da manhã, ele não tá tentando recomeçar, ele tá tentando desfazer.
E é por isso que muitas vezes ele não sai do lugar. Mas calma, tá? A gente vai chegar lá. Por enquanto, fica só com uma imagem: um cara deitado no escuro, o corpo querendo seguir, a cabeça acorrentada em um ponto do tempo que não existe mais, querendo voltar, e sem perceber ficando cada vez mais preso justamente por causa disso. Porque tem uma coisa que ninguém contou pro Diego, e talvez assim ninguém tenha contado pra você também.
Para você levantar de verdade, não da boca para fora, primeiro você vai ter que parar de tentar não ter caído. Deixa eu te explicar o que eu quero dizer com isso, tá? Vamos com calma, porque essa parte aqui ela é extremamente importante. A Gestalt tem um nome para aquilo que tá acontecendo com o Diego às 3 da manhã. Um nome simples, quase óbvio depois que você escuta. Chama-se assunto inacabado, ou como às vezes traduzem, né, uma situação inacabada.
E a ideia é a seguinte: a gente tem uma tendência natural, natural mesmo, é porque faz parte de como a mente funciona, de fechar aquilo que ficou aberto. Sabe quando você escuta uma melodia e que tinha uma nota no fim e dá aquela incompletude física assim, quando o incômodo, quase que o incômodo no corpo mesmo? Você quer aquela última nota, a mente quer fechar o ciclo. Com as experiências da vida é igual. Quando alguma uma coisa fica aberta, uma conversa que não teve um adeus, algo que não foi dito, mas uma decisão que a gente sente que ficou de certa forma errada ou incompleta, a nossa mente não larga aquilo.
Ela fica ali voltando e voltando, não porque você é fraco, não porque você não superou, Mas porque uma parte de você ainda tá tratando aquilo como uma coisa em aberto, como se ainda desse pra resolver. E aqui eu preciso parar e dizer uma coisa pro Diego, e possivelmente pra você, se você se reconheceu: não tem nada de errado com você por fazer isso. Eu falo sério, tá? A gente vive em uma cultura que trata quem fica remoendo o passado como quem muitas vezes não consegue seguir em frente, como se fosse um defeito de caráter, uma falta de força de vontade.
Ah, vira essa página, olha para frente. E aí Além da dor, né, de estar preso naquela situação, você ainda ganha um bônus: a vergonha de estar preso. Você se julga por não conseguir parar de se julgar. É uma prisão dentro de uma prisão. Então deixa eu tirar isso do caminho logo, tá? Rebobinar não é fraqueza, é a mente tentando terminar uma frase que ficou pela metade, E até é, até na verdade, um movimento de cuidado no fundo. Desajeitado, doloroso, sim, mas cuidado.
Uma parte de você tá tentando dar conta de alguma coisa que importou. O problema não é que você volta, o problema é que você tá tentando, o que você está tentando fazer quando você volta. E é aqui que eu quero que a gente olhe de perto para o que o Diego faz nessas madrugadas, né? Porque quando você olha devagar, você percebe que ele não tá exatamente refletindo sobre o que aconteceu, somente voltando. Ele não tá tentando entender, Ele não está tentando mudar.
Ele volta naquela cena com uma missão quase secreta. Dessa vez vai ser diferente. Dessa vez ele fala a coisa certa. Dessa vez ele não toma aquela decisão. Dessa vez ele não cai. E aí ele acorda e não mudou nada. E a decepção é fresca, né? Novamente, como se tivesse acontecido ontem. Você percebe o que que tá acontecendo? O Diego não quer recomeçar. Recomeçar seria partir de onde ele está agora, com a queda já aceita, e construir a partir dali.
Isso não é o que ele quer. O que ele quer, ele nunca formulou isso com palavras, mas é isso, tá? É desfazer. Ele quer que a queda não tenha acontecido. Ele quer que o mundo anterior à queda, né, volte. E esse é o primeiro clique, o primeiro pensamento que eu queria que você guardasse hoje. Talvez você precise parar o episódio um segundo depois dessa frase, tá? Porque vai doer um pouquinho. Você não quer recomeçar. Você quer desfazer e não dá para desfazer.
Nunca deu para ninguém em nenhum momento da história. E é exatamente por estar gastando toda a energia em uma coisa impossível, que é o desfazer, que sobra zero energia para coisa possível. Que é recomeçar. O Diego, ele passa as noites tentando abrir uma porta que tá ali pintada na parede, mas não é uma porta e nunca foi. E do lado, o tempo inteiro, tem uma porta de verdade, só que ele não olha para ela porque a porta de verdade leva para frente.
Mas ele não quer ir pra frente, ele quer voltar. Agora, e é isso que a gente vai desmontar aqui nessa próxima parte, por que é que a gente insiste tanto em voltar, né? Por que o Diego prefere ficar batendo em uma porta pintada ao invés de atravessar essa porta que existe? Tem um motivo, e já te adianto que ele não é fraqueza, não é burrice, não é falta de superação. O motivo é que voltar protege ele de uma coisa que ele ainda não tá pronto pra sentir, e a gente precisa falar sobre o que é essa coisa.
E eu quero que você preste atenção nessa parte, porque é aqui que a maioria das conversas sobre recomeço erra o caminho. A Gestalt da psicologia tem uma ideia linda sobre a gente. Ela diz que a gente não é uma coisa só. A gente é feito de partes e dentro de qualquer pessoa existem partes que querem coisas opostas ao mesmo tempo. Ela vai chamar isso de polaridades. No Diego, essa noite, tem duas partes bem claras. Tem uma parte que quer seguir, essa parte tá cansada Ela sente o peso de carregar isso todo dia.
Ela olha pra frente e sabe que, racionalmente, a vida continua, que tem coisa boa possível ainda. Essa parte, ela quer levantar. E tem uma outra parte, uma parte que fica repetindo baixinho o tempo todo: se eu tivesse. Se eu tivesse falado, se eu tivesse esperado, se eu tivesse escolhido um outro caminho. Essa parte, ela tá acorrentada naquele ponto do passado, né, e ela não quer sair dali de jeito nenhum. E o Diego vive uma guerra entre essas duas partes.
E olha, ele acha que a parte do se eu tivesse é inimiga. Ele acha que se ele conseguisse calar de alguma forma essa parte, matar ela, ele estaria livre, né? Ele passa o dia tentando expulsar essa voz, né? Para de pensar nisso, Diego. Vira a página, Diego. E não funciona. Nunca funciona expulsar uma parte da gente na marra, ela só vai gritar mais alto. Então deixa eu te propor uma pergunta que o Diego nunca se fez. Em vez de perguntar como eu calo essa parte, e se a gente perguntasse o que essa parte está protegendo?
Porque as partes da gente, mesmo as mais chatas, mesmo as que mais atrapalham, elas quase sempre estão tentando cuidar de alguma coisa. Elas têm uma função. E essa parte do se eu tivesse, que fica ali rebobinando o passado do Diego, ela tá cuidando de uma coisa muito específica. Ela tá impedindo o Diego de sentir que perdeu. Pensa comigo: enquanto o passado parece que ainda dá para mudar, enquanto o Diego consegue rebobinar e imaginar um final diferente, a perda não é definitiva.
Se ainda dá para desfazer, Então nada foi perdido de verdade, entendeu? Tá tudo meio que suspenso, tá tudo em aberto. Em um lugar bem fundo, isso é confortável. Sim, doloroso, mas confortável, porque a alternativa é insuportável. A alternativa é o luto. Aceitar que aquilo aconteceu, que não tem jeito, que não volta. Isso é fazer o luto. E o luto dói de um jeito diferente do se eu tivesse. O se eu tivesse, ele dói como uma tortura que você controla.
O luto dói como uma coisa que te atravessa e você não controla nada. E entre uma dor que a gente controla e uma dor que a gente não controla, a mente quase sempre escolhe a que ela controla, mesmo que essa, né, seja aquela que Nunca termina. Você tá vendo o que o Diego montou pra ele mesmo? Ele construiu uma máquina perfeita de não sofrer o luto. E o nome dessa máquina é Recomeçar Amanhã. Porque enquanto o recomeço ele é sempre amanhã, ele nunca precisa encarar o hoje.
Enquanto ele tá ocupado tentando desfazer, ele não precisa sentir o que perdeu. O se eu tivesse não é o obstáculo para o recomeço do Diego. O se eu tivesse é a estratégia dele para não recomeçar, para não, na verdade, É... em uma linha mais geral, pra não ter que sentir. E olha que armadilha cruel, porque parece o contrário. Parece que ele quer muito recomeçar e não consegue. A história que ele conta pra si mesmo é: eu tô lutando pra seguir em frente, e não dou conta.
Quando na verdade, a verdade mais nua, né, é uma parte dele tá trabalhando duro todos os dias para não seguir. Porque seguir significa aceitar a queda, aceitar o erro, aceitar o arrependimento. E aceitar isso dói demais. Deixa eu te dizer de um jeito mais direto, porque eu acho que você precisa ouvir assim, tá? Recomeçar assusta, porque recomeçar é admitir que você caiu de verdade. Enquanto você não recomeça, a queda fica meio irreal.
Meio negociável, meio ainda dá para consertar. No momento em que você recomeça, você tá dizendo para o mundo e para si mesmo, tá? Caiu, acabou. Isso aqui é o meu novo chão, e o chão novo é mais baixo muitas vezes que o antigo. E ninguém quer olhar para baixo e ver que o chão desceu. Então a gente fica no escuro às 3 da manhã rebobinando, não porque a gente é fraco, mas porque recomeçar exige uma coragem que ninguém consegue nomear.
A coragem de fazer o luto de quem a gente foi antes de cair. E é sobre essa coragem, é sobre uma virada muito específica que muda a natureza dela que eu quero falar agora. Porque tem um jeito de olhar pra tudo isso que não deixa a coisa mais leve porque se resolve. Ela deixa mais leve porque inverte, e quando você vê essa inversão, é impossível desver. Agora chega mais perto, tá? Eu preciso que você abaixe o volume do mundo um pouco.
Tem uma ideia e eu vou com cuidado porque ela é delicada. Ela escapa se a gente for rápido demais. Que talvez seja a coisa mais, uma das mais importantes que a psicologia descobriu sobre mudança. Ela veio da Gestalt, de um ator chamado Beiser, e ficou conhecida como paradoxo da mudança. E o paradoxo é esse: Ele diz assim: a mudança acontece quando a pessoa se torna o que ela é, não quando ela tenta se tornar o que não é. Vem de novo, devagar, tá?
A gente muda quando para de tentar ser outra coisa e aceita ser o que a gente já é. Enquanto você luta para ser diferente de quem você é, você fica travado exatamente onde está. A mudança, ela só começa quando você para de guerrear com a sua própria realidade. Agora deixa eu trazer isso pro Die, pra aquela madrugada, talvez pra você. O Diego passou noites e noites tentando ser o Diego que não caiu. O tempo todo, no fundo, o projeto dele era ser esse, virar de novo aquela pessoa de antes.
Apagar uma queda, um erro, uma decisão errada e ser alguém pra quem aquilo não aconteceu. Todo o esforço dele era pra não ser quem ele é agora, uma pessoa que caiu, que errou, que se arrependeu. E é por isso que ele não se movia. Não porque faltava força, mas porque a força toda tava indo em uma direção impossível: virar quem ele não é mais. O paradoxo diz o contrário de tudo que o Diego tentou. Diz que o Diego só vai se levantar tentar, no dia em que ele parar de tentar, não ter caído.
Deixa eu assentar isso: o recomeço que o Diego tanto quer não está do outro lado da queda, como se ele precisasse apagar a queda para chegar lá. O recomeço começa no instante em que ele para de brigar de fato com o fato de ter caído. Recomeçar não é voltar a ser quem ele era, não é apagar nada, não é virar um Diego novo, reformado, sem passado. Recomeçar é uma coisa muito mais simples e muito mais difícil. É ele parar de tentar não ter caído.
É ele olhar para a queda e dizer, com todo o peso que essa frase carrega: aconteceu, fui eu, caí e tá aqui. Isso faz parte de mim agora. E aí, só aí, uma coisa curiosa acontece. Aquela frase, lembra? Voltar atrás no tempo não posso. A gente ouve essa frase como uma tristeza, né? Como uma limitação. Ah, que pena, né? Não dá para voltar. Como se fosse a má notícia da história. Mas quando você atravessa o paradoxo, né, essa frase ela vira uma outra coisa.
Ela deixa de ser uma prisão e vira uma chave. Porque enquanto o Diego achava que ele podia, poderia voltar, enquanto ele mantinha viva, né, a fantasia de desfazer, ele tinha que continuar tentando. A possibilidade o prendia. Era ela o que mantinha ele acordado às 3 da manhã, no dia, da noite, na verdade. No dia em que ele aceita de verdade, no corpo, que voltar não é possível, não como uma derrota, mas como um fato, como um chão firme.
Ele finalmente pode largar. Você não larga uma corda enquanto acha que ela ainda te segura. Você só larga ela quando entende que ela nunca vai te puxar para cima. Voltar atrás no tempo não posso. Essa frase não é a tristeza da história, ela é um alívio. Ela é a coisa no final que liberta o Diego de uma luta que ele não vai ganhar. E é engraçado porque é o oposto do que a gente imagina, né? A gente imagina que aceitar que caiu é se entregar.
É desistir, é afundar. E na verdade é o contrário. Aceitar que caiu é a única coisa que tira o Diego do chão. Enquanto ele nega a queda, ele fica deitado lá. No momento em que ele aceita, ele pode se levantar de cima dela. Mesmo depois de uma queda Eu me levanto. Agora essa frase faz sentido. Não como um grito de motivação, não como uma força de vontade que o Diego precisa arranjar de algum lugar, mas como uma consequência. O levantar não vem antes da aceitação, ele vem depois.
Vem inclusive por causa dela. Ele se levanta porque parou de tentar não ter caído. Fica aqui comigo mais um segundo no silêncio depois dessa ideia, porque eu não quero que ela vire ali só mais uma coisa para você fazer, tá? Ela não é uma técnica, é só uma maneira diferente de olhar. E às vezes só olhar diferente já é o começo de tudo, tá? Deixa eu te contar uma última coisa sobre o Diego e depois eu vou te deixar em paz com isso.
Tem um conceito na abordagem centrada na pessoa de Carl Rogers que eu acho um dos mais bonitos de toda a psicologia. Chama-se tendência atualizante. Essa ideia é meio radical, na verdade. O Rogers, ele dizia que todo organismo vivo tem dentro de si uma direção, um movimento natural em direção a crescer. A se desenvolver, a se tornar mais plenamente o que ele é. Veja bem, não plenamente o que as pessoas esperam, plenamente o que ele é.
Por exemplo, uma semente não precisa ser convencida a virar uma árvore. Se as condições estiverem lá, as condições adequadas— terra, água, luz— Ela vai, ela já quer, a direção já tá dentro dela. E o Rogers acreditava que a gente é igual, que você não precisa se forçar a crescer, que existe dentro de você agora um movimento que já te empurra para vida, para frente, pra cura, pra o equilíbrio. Ele não precisa ser criado, ele já tá lá.
Só precisa, assim como a planta, das condições. Eu quero que você pense no Diego à luz disso. Aquele cara às 3 da manhã rebobinando, sofrendo. A gente passou a hora inteira, né, a última quase os 30 minutos talvez que a gente tá até aqui, é olhando para ele como alguém travado, preso, parado. Mas e se ele nunca esteve parado? E se aquele sofrimento todo, aquele rebobinar insistente, aquela recusa em fazer o luto E se tudo isso já faz parte desse movimento?
E se a própria queda, por mais que doesse, fizesse parte de pra onde ele estivesse indo? Porque talvez, né, o Diego precisasse cair pra descobrir uma coisa que ele não descobriria se estivesse em pé. Talvez essa noite, né, às 3 da manhã, seja, sem ele saber, o começo do recomeço e não o oposto dele. A semente também fica um tempo no escuro, fica debaixo da terra parecendo que nada tá acontecendo. E tudo tá acontecendo. E é por isso, por esse motivo, que eu não vou te dar um passo a passo agora, igual muitas vezes eu já até dei aqui no podcast.
E eu sei que talvez você espere isso: ok, Renan, mas e como eu começo, né? Me dá 3 dicas. E eu poderia, tá? Seria mais fácil para mim Seria mais confortável pra você, mas seria mentira. E pior, seria trair tudo que a gente conversou, que eu considero isso aqui uma conversa hoje. Porque se tem uma coisa que a psicologia, a abordagem centrada na pessoa, a Gestalt terapia, que eu vou— duas matérias que eu venho estudando, me ensinaram É que a direção você já tem.
Você não precisa que eu te empurre. Você não é uma pessoa quebrada esperando um conserto de fora. Você é uma semente. O movimento já tá em você. O que eu posso fazer E o que eu tentei fazer nesse episódio é só ajudar a tirar uma pedra de cima, a pedra do hoje, do eu tenho que desfazer, a pedra do eu não deveria ter caído. O resto você faz sozinho, eu confio em você, não porque você tem que fazer sozinho, mas porque você consegue, você sempre conseguiu, só tava gastando a força ali, assim como Diego, provavelmente no lugar errado.
Então eu não vou fechar esse episódio com uma resposta, tá? Eu vou fechar com uma pergunta, e é uma pergunta para você levar para sua própria madrugada. Pro seu próprio ponto no passado onde você fica voltando. E se recomeçar não for apagar uma queda? E se for assimilar essa queda, compreender, interagir com isso de uma forma mais leve e pensar quais são os seus próximos passos. Fica com isso. Muitíssimo obrigado por ter ficado até aqui e até o próximo episódio.