EP08 - MATERNINDADES - T11
Entre colunas, reflexões e uma curadoria musical formada por artistas independentes da música brasileira, Sarah Mascarenhas atravessa temas como maternidade compulsória, redes de apoio, famílias não normativas, mulheres trans, mães solo e as muitas formas de cuidado que existem no mundo.
Com Alessandra Xavier, Miriam Dela Cruz, Ava Rocha, Anelis Assumpção, Josyara, Mãeana, Júlia Tizumba, Zeferina e outras vozes poderosas, esse episódio convida à reflexão: ser mãe pode fazer parte da experiência feminina, mas nunca deve definir o valor de uma mulher.
- Maternidade e feminilidade atacadasMaternidade compulsória · Redes de apoio · Famílias não normativas · Mulheres trans · Mães solo · Formas de cuidado · Valor da mulher
- Diário de uma Bruxa: Separação e LutoRedescobrir a identidade após o fim de um relacionamento · Desafios de recomeçar · Luto pela morte do marido · Importância das redes de apoio e amizade · Vulnerabilidade e amadurecimento
- Identidade Trans e a Definição de MulheridadeErika Hilton · Debate sobre mulheres trans · Capacidade de parir · Diversidade de experiências femininas · Feminilidade além da maternidade
- Música e Reflexões sobre MaternidadeCuradoria musical de artistas brasileiras · Canções sobre mães e maternidade · Mãe Ana - Pra Mãinha · Josiara - Mama · Gabi da Pele Preta - Vida Inteira · Colombiana, Fifo e Estúdio Usa - Mãe de Menina
- Let Me In Love: Relacionamentos e AutoconhecimentoRessignificando relacionamentos afetivos · Experiências de vida em comunidade · Conexões autênticas · Sabedoria de Ave Kondo · Expansão versus raiz · Confiança no próprio ritmo
- Paternidade Ausente e Pensão AlimentíciaPapai Panaca · Responsabilidade parental · Direito à pensão alimentícia · Ava Rocha ft. Yara Renói e Saskia - Papai Panacas
- Maternidade Solo na PandemiaImpacto da pandemia em mães solo · Dupla ou tripla jornada de trabalho
A roda gira, a ciranda se forma. É tempo de escuta, de fala, de conexão. Vozes femininas que reverberam resistência e criação. Espaço de expressão, visibilidade e conexão das mulheres arteiras e fazedoras. A única revista radiofônica colaborativa feminista do Brasil. O som é ancestral, o eco é nosso. Começa agora a Hora do Sabá.
Olá, olá, ouvintes da Hora do Sabá. Eu peço licença mais uma semana para entrar na casa de vocês, trazendo muita deidade, mulheridade e, por que não dizer, maternidade. Eu, Sara Mascarenhas, uma mulher, mãe, hétero, cis, branca, vivo em Santos. Hoje eu estou aqui com um fone de ouvido em volta da minha orelha, um óculos de armação redonda cinza.
Cabelo preso, camiseta preta. Tô sentada na minha mesa gravando esse programa pra vocês. O programa de hoje traz colunas Diário de uma Bruxa e Let Me In Love.
Mas o tema central da edição é a maternidade. Essa semana é a Semana das Mães e está todo mundo aí pensando em presente para celebrar essa mulher que pode nos dar a vida, cuidar de parte da nossa vida. Independente do tipo de mãe que seja ela, ela é, sim, sem dúvida alguma, uma figura central da vida.
da vida social, da vida familiar, da formação do indivíduo. E segundo os estudos psicológicos, psicanalíticos por aí, tem muito pensador que fala que ela é culpada de todos os problemas da nossa vida adulta.
Mas a sociedade não encara as mães apenas nesse lugar de cuidado. Se tornar mãe é definitivamente assumir a feminilidade para a sociedade patriarcal. Pois em muitas culturas, ser mãe é sinônimo de ser mulher. E aí que mora a grande armadilha. Pois é atribuída ao ser mulher a naturalidade de ser mãe.
E isso é agressivo, é invasivo, é opressor e extremamente ultrapassado. Hoje a gente sabe muito bem que as famílias não são ideais como naquelas antigas propagandas de margarina, sabe? Papai, mamãe, filhinhos, todo mundo feliz e sorridente.
Ainda bem que nessa sociedade a gente tem buscado novas versões da gente mesmo, porque antes de trazer polêmicas, é preciso lembrar que nos séculos passados, muitas mulheres morriam no parto e quantas crianças foram criadas pelo pai, tias, avós, orfanatos.
Nossa, são inúmeras as situações em que não contemplam o formato mamãe, papai e filhinhos. Mas agora a gente tem a diversidade e o preconceito. Eu quero explorar essa temática hoje com vocês.
Quero também saudar todas as participantes e dizer para vocês que a curadoria desse programa foi totalmente pautada em canções que falam sobre a mãe, a mulher-mãe, a mãe de mulher. A gente está trazendo todo esse contexto para...
poder discutir os diversos tipos de maternidade. Daqui a pouco eu vou voltar com vocês. A gente vai ter um bloco musical, uma coluna aí para vocês. A gente vai ouvir o Diário de uma Bruxa, da Alessandra Xavier, que também não vem mais sozinha.
Na coluna Diário de uma Bruxa de hoje, a Amanda reflete sobre a sua separação e os desafios de redescobrir quem ela é fora de um relacionamento que ela acreditava ser perene. Entre ressacas, risadas e confissões sinceras, ela tem uma conversa com a sua amiga Júlia e revela que quer recomeçar.
e que recomeçar nem sempre significa superar, mas aprender a caminhar no meio da confusão entre perdas e descobertas. E ao compartilhar sua própria experiência com o luto pela morte do marido, Júlia traz uma visão sensível sobre a dor.
a ausência e a importância das redes de apoio. Em um diálogo profundo e afetuoso, as duas percebem que amadurecer também é aceitar as vulnerabilidades e entender que nenhuma mulher precisa atravessar a vida sozinha. Elas trazem uma reflexão sobre amizade, acolhimento e a força silenciosa das alianças femininas. Bora de música!
Eu queria preservar seu mundo cor de rosa. Dizer que a vida lá fora é maravilhosa. Mas não te advertir é te despreparar pra realidade. Que lá fora você vai encontrar, minha filha. Os homens não são tão legais.
intenções não são tão leais e aquele que um dia prometeu estar aqui com a sua chegada foi o primeiro a partir mas fiquei, mesmo sabendo que ia sangrar, eu chorei achei que a dor nunca ia passar e eu lutei, contra a minha vontade de morrer, porque eu prometi pra mim que eu ia te ver crescer pra dizer, tudo o que você precisa escutar e aprender tudo o que você tiver pra ensinar só que antes, você vai precisar me ouvir, fazer tudo
E tudo que digo eu sei porque eu já vivi E sei bem que os caras Não são tão legais e as suas Intenções não são tão reais E nas ruas você vai ter Que se defender eu sei que ainda É criança mas tá na hora de crescer Entender
Que a mamãe nem sempre vai tá aqui Já já, vai chegar a minha hora de partir E agora por mais que doa eu vou ter que te contar E é pra levar pra vida tudo que você escutar Cuidado ao escolher sua roupa, ela pode te matar Cuidado ao sair de casa, você pode não voltar Não sorria demais, não acene demais Não quero ver sua cara estampada nos jornais E se acaso, um dia você decide casar, trabalhe
Faça grana até não poder contar, mas não fale Ser visionária pode te ferir Onde o ego é maior que amor, você não pode progredir E não esqueça, jamais Quem ama não bota a mão em você e não caia Nesse papo de que ele vai mudar Sempre tenha
Na bolsa uma peça com você Se a vida é uma batalha Você tem que improvisar E eu rezo Pra que mal nenhum nunca te aconteça E peço Pra mãe de Deus nunca te abandonar E aonde a minha mão não puder te proteger Você vai tá amparada Que ela nunca vai falhar Mas o colo da mãe tá aqui Pra sempre que você precisar Ainda não sei atirar Mas pode pagueir
que vou aprender Prometo pegar qualquer um quem você ama ou encostar não crie filha pra apanhar Por isso eu te ensino a bater Gente não tá mais sozinha nessa floresta de concreto e aço Mas você nasceu menina Então seja consciente Que na minha falta e do Davi pra proteger sua honra O segredo tá na gaveta com sete balas no pente Mamãe, fala aqui pro Davi que hoje é a semana dele de lava-vasilha Porque ontem eu já lavei e agora é a vez dele
Como é que eu tive essa mensagem sem vídeo? Começa agora Diário de uma Bruxa. Uma coluna por Alê Xavier. Hora do Sabá, ano 8, temporada 11. A única revista feminina colaborativa pelas ondas do rádio.
Olá, ouvintes da Hora do Sabá. Eu sou a Le Xavier, eu sou atriz, escritora e produtora e eu trago pra vocês o Diário de uma Bruxa, um quadro ficcional que fala dos casos e acasos da mulher. E a vida da Amanda, que já era super movimentada, agora tá ganhando novos elementos com a chegada da Júlia. Esse episódio tem a participação de Mirella Bianca.
Querido Diário, quando eu casei, eu tinha certeza que ia ser pra sempre. Eu amava o Lucas. Aliás, eu ainda amo. A gente tem uma relação de amizade, de confiança muito legal. E eu tenho profunda admiração e respeito por tudo que a gente construiu juntos. Mas eu acho que eu casei na hora errada. E isso começou a pesar na nossa relação. Eu tinha certeza que já estava na hora e que eu estava preparada pra essa outra fase da vida.
Só que não. Eu tinha idade, mas me faltava experiência, vivência, sabe? Pois é. Me separei já tem alguns meses. No começo foi estranho. Dormi sem ele, não ter ninguém pra conversar quando eu volto do trabalho. Mas, cá entre nós, já me acostumei. Não. Eu não sou contra casamento, relacionamento. Mas eu precisava de coisas que nem eu sabia o que era.
O que que eu fiz ontem? Eu não lembro de nada. Enviou o pé na jaca. Pelo menos eu acordei em casa. Mas me conta, como que foi a esticadinha com boy magia?
Como assim, boy magia? Julia, eu mal me lembro como eu vim parar em casa. Amanda, você entrou no modo tô livre, leve e perigosa depois da terceira taça de vinho. Meu Deus. Calma, calma. Você não fez nada demais.
Só dançou descalça no meio do bar, abraçou uma moça no banheiro que tava chorando por causa do ex e falou algumas, algumas não, muitas vezes pro garçom que ele parecia um poeta triste. Eu fiz isso? Fez. E ainda pediu o telefone dele pro caso de um dia você resolver escrever um livro. Ai, meu Deus!
Eu preciso parar de beber. Não. Você precisa parar de achar que todo mundo é um problema. Essa ressaca é um problema. Eu tô na merda. Daqui a pouco a ressaca passa. Mas as gargalhadas ficam. É, acho que você tá certa. Eu acho que tem coisas que eu não tô acostumada a fazer sozinha. Ah, sozinha? Você não tava sozinha. E nunca vai estar.
Não sei, mas sei lá, é meio estranho. Depois que a gente se separa, parece que todo mundo espera que você escolha um lado. Ou você sofre desesperadamente, ou já parece linda, plena e superada. E você tá onde? Acho que eu tô no meio do caminho. Um pouco perdida, um pouco encontrada. O melhor lugar possível. Porque pelo menos você tá seguindo. E é isso que importa.
Às vezes eu acho que eu quero voltar pra casa. Mas tem outras que eu percebo que eu nem sei quem eu sou sem o Lucas. Eu sei exatamente como é isso.
Você sente falta dele até hoje, né? Todos os dias. Desculpa, eu não queria... Não precisa pedir desculpa. Faz parte da vida. Eu acho que eu nunca tive coragem de te perguntar. Como é que você conseguiu, depois de tudo? A pergunta certa é como eu consigo. Porque todos os dias são tentativas. Quando o Claudio morreu, eu tive a sensação de que o chão tinha se aberto embaixo dos meus pés. E eu tinha caído num abismo sem fim.
E a cada dia ficava mais escuro. Deve ter sido horrível. Foi sim. Mas os dias foram passando e a cada dia eu sentia uma energia, uma força, algo diferente que estava acontecendo comigo. Como assim? Hoje eu consigo ter uma leitura melhor do que eu tinha. Naquele momento eu não tinha nem força pra pensar, mas era algo que eu sentia que me sustentava, sabe? Então eu escolhi me jogar naquele tipo de colo invisível.
Nossa, e você passou por tudo isso sozinha? Nunca. Eu me sinto privilegiada pela maneira como as coisas aconteceram. Em meio a todo aquele caos, onde nada do que fizesse iria mudar nada, eu tive ao meu lado tudo e todos que eu precisava. O buraco que ele deixou era gigante. Gigante. E eu não sei se sustentaria mais faltas.
Você consegue fazer a morte e o luto ficarem até bonitos. Eu acredito que o luto seja neutro. O que vai tornar ele bonito ou feio é a escolha que cada um faz sobre como viver esse processo. Eu acho que eu nunca tinha pensado nisso. Cerca de um ano antes da morte do Claudio, uma grande amiga minha, a Lúcia, tinha atravessado esse portal.
E por mais que pra mim fosse impossível atravessar com ela, eu tava lá, do lado dela, ouvindo. E a partir do meu lugar, vivendo junto com ela. Talvez se as pessoas olhassem mais pra dor do outro e aprendessem com elas, ah...
O mundo ia ser um lugar muito, mas muito mais feliz. Eu acredito muito nisso, Amanda. E comigo e com a Lúcia foi muito assim. Eu não imaginava que fosse passar por isso. Mas eu estava lá, de coração para ela. E quando eu me vi na mesma situação, eu percebi que um tempo já tinha se passado em algum lugar. E eu já sabia como era e o que eu precisava fazer. Ai, que lindo. Parece até poesia. E não podia ser diferente.
Uma mistura de Vinícius de Moraes e Álvares de Azevedo. Eu queria tanto ter conhecido ele. Tá conhecendo? Como assim? Tem coisas que eu ainda não consigo colocar em palavras e, pra ser sincera, eu nem quero. Eu só quero e preciso viver. E todos os dias, quando eu desperto.
Sinto ele despertar em mim. Nada é igual era. Todos os dias são realmente novos. Cada um com um tom. Cada um com uma cor. Ó, por mais inusitado que possa parecer, eu não sei o que falar. Tô sem palavras. Então não fala nada. Vai, levanta dessa cama. Toma um café bem forte pra curar essa ressaca. E vamos pra praia, que o dia tá lindo hoje.
Te amo, amiga. Obrigada por existir na minha vida. Eu também. Não demora. Eu passo aí uma hora. E talvez amadurecer seja isso. Entender que existem dores que não desaparecem de uma vez, mas que ficam mais leves quando alguém senta do nosso lado. Porque no final das contas, nenhuma mulher precisa atravessar a própria vida sozinha.
Pedro da Silva não voltou pra casa Quando saiu ontem pra trabalhar Anoiteceu e ele não deu notícias Amanheceu e ninguém viu ele chegar Ligar pra Pedro já nem adianta Tá desligado o seu celular
Pergunta à vizinhança se ele vai voltar Pergunta à vizinhança se ele vai voltar Deu no jornal que a violência é tanta Que até criança não vai escapar
Mas Deus ajuda quem cedo levantar E o meu Pedro logo vai voltar Eu rogo logo pra Nossa Senhora Que a linda ser da do seu altar
E eu tô preparando a mesa do jantar E eu tô preparando a mesa do jantar Dentro da Silva é gente da gente
E tem a vida inteira pra poder sonhar Pedro da Silva é gente da gente Aqui no morro é o seu lugar É bom, menino, preferir ser vinte E tem a vida inteira pra poder sonhar
inteira pra poder sonhar
Minha mãe manhã Madruguei na escuridão Ofendi seu grão Outro irmão Medo mete a mão Maculado amanhã Miguel e João Brinca não
Anoiteceu. E o meu pai, onde é que tá? Em sua vida larga, curta carregar. Dentro da canção, põe uma voz pra chorar. Tento aliviar o nó do coração.
Amém.
Dentro da canção põe mó voz pra chorar, tento aliviar.
E vai crescer direito da cabeça Sendo o crio de uma mãe
Meu coração, mãe, é um fiaco podre Uma corda velha que hoje bate sem porquê E mais parece quando bate um fio de açote E essa noite, mãe, cadê você? Pois qual o bicho que na terra nasce Que vai crescer direito da cabeça Sendo cria de uma mãe
É tão natureza
Transcrição e Legendas Pedro Ribeiro Carvalho
E mais parece quando bate um fim de açoite E essa noite manhinha, cadê você?
É isso aí, galera. Voltamos depois dessa potência de curadoria musical, falando aí sobre a maternidade. A gente ouviu agora, Mãe Ana, com a música Pra Mãinha. Essa música foi gravada em 2021. Ouvimos também Mama, de Josiara, que lançou essa música em 2022. Gabi da Pele Preta, pernambucana, maravilhosa, que eu sou fã, fã, fã, fã. Tô...
trouxe pra gente aí a vida inteira que ela gravou em 2026 com o grande músico Revoredo. E, particularmente, pra mim é muito legal ouvir de novo Gabi da Pele Preta lançando músicas porque ela engravidou em 2024 e deu uma parada. E ela pariu justamente vida a filha dela.
A gente abriu o bloco com colombiana, Fifo e estúdio usada com mãe de menina. Uma canção aí poderosa que fala sobre como a gente tenta, tenta, tenta, mas a gente não pode proteger os filhos. A gente não tem como assumir esse lugar. E vocês pensam que é fácil falar de ser mãe ou falar sobre mães?
É por isso que a curadoria musical dessa edição é baseada na busca por mulheres na música brasileira que falam sobre mães, maternidade ou esse contexto de maternagem. Bom, mas eu preciso falar também aí do Diário de uma Bruxa que estava permeando esse bloco musical.
A Le Xavier veio muito bem acompanhada da Mirella e tem vivenciado essa desconstrução desse padrão de família, de relação de casal. Foi muito potente escutar esse depoimento, essa conversa, essa troca entre duas amigas que estão vivendo aí lutos diferentes, né? Uma pela perda do marido e a outra pela separação.
Muito, muito, muito bom esse bloco. Eu confesso a vocês que eu sou mãe hoje, mas eu nunca imaginei que eu seria mãe. Na verdade, não é que nunca. Depois que eu me dei conta de que a família nuclear trazia em si milhões de dores e de sabores, que ela podia se dissolver, eu já não me via mais mãe.
Até que um dia, do nada, de verdade, pulsou dentro de mim algo que dizia Seja mãe agora, agora é a hora de virar mãe.
E eu sempre tive na minha cabeça que ser mãe mais velha também não seria muito bom, porque eu estaria muito distante da minha juventude. E aí o conflito geracional possivelmente seria maior. Eu não sei se isso aconteceria de verdade, porque eu engravidei com 22 anos. Hoje eu estou com 46, minha filha está com metade da minha idade. E eu acho muito bom ser mãe dela.
E aí eu estava de férias, vocês perceberam a minha ausência por aí. E durante essas férias me perguntaram o que eu achava da Erika Hilton. E eu achei muito curiosa essa pergunta, porque eu sou uma pessoa que gosta da diversidade. Eu realmente admiro e aprecio a diversidade.
O que eu acho da Erika Hilton se identificar como mulher? Não tem nada a ver com a vida da Erika Hilton. Eu prezo por ela. Só que quando me perguntaram isso, vieram já vários argumentos dos mais esdrúxulos e sem noção possível. Do tipo, o que você faria? O que você sentiria ao dividir o banheiro com uma mulher trans? O que você acha dela se identificar como mulher, mas ela nunca vai poder parir o filho?
Quando a gente coloca o debate com esses argumentos, é até constrangedor. Porque há tantas mulheres sem útero. E não estou falando simplesmente de mulheres trans. Eu estou falando de tantas mulheres que não querem ser mãe. Há outras que não podem ser mãe de uma gestação.
Assim como a gente de todo tipo, a mãe de todo tipo. Eu, por exemplo, sou do tipo pãe. Eu tive que ser pai e mãe da minha filha, porque o pai dela, mesmo que assumindo a paternidade legalmente, a paternidade biológica, ele sumiu pelo mundo. Foi fazer outros filhos com outras tantas mulheres.
que também criam suas filhas sozinhas ou com suas redes de apoio. Eu não sou só mãe da Letícia. Eu sou mãe de cinco gatas, eu sou mãe de plantas, eu sou mãe de um projeto que acolhe dezenas de mulheres. E isso não revela nada sobre a minha feminilidade, sobre a minha feminilidade, muito menos sobre a minha mulheridade.
Diz sobre a minha vida, a minha trajetória e as minhas escolhas. A Erika Hilton é muito mais feminina do que eu no jeito de vestir. Eu tenho certeza que se um dia ela quiser se tornar mãe, ela criará um ser humano excepcionalmente criativo, cheio de valores, bem resolvido. Porque ser mãe é muito além de maternar.
Ser mãe é assumir o cuidado, assumir o papel de tutora, de orientadora, de escuta, de colo.
Saber sair do foco, do foco não, mas do centro de operações da vida de seus filhos. Ser mãe é uma parte do ser mulher. E ser mãe não define uma mulher. Assim como um homem não é definido por ser pai. A gente vê na sociedade hoje muitos homens que não assumem a paternidade, mas que são...
endeusados, louvados pela sua masculinidade, pelo seu sucesso como homem provedor, homem de negócios, homem de conquistas. Mas isso não revela nada sobre... Na verdade, isso revela muito sobre o tipo de homem que é. A forma como eu assumo a minha maternidade, o meu compromisso com a vida do outro, diz muito sobre quem eu sou.
Sobre que tipo de pessoa, mas não diz sobre o tipo de mulher que eu sou. É isso, gente. Eu já falei demais. Eu vou parar, vou puxar mais música, mais coluna e daqui a pouco eu volto. Vamos de música? Vem comigo. Vem, vem, vem, vem. Hoje eu entendo tudo Eu não culpo mais o mundo E nem culpo mais você
Não vou mentir, foi bem difícil Não olhar mais pro umbigo E tentar te entender Foi tanta coisa que já vivemos Guardamos mágoas, adoecemos Você sofreu e eu sofri vendo A reprodução de um comportamento
Mãe, eu sei, você deu o seu melhor Mas acabei vivendo o pior Você me feriu com suas feridas Mãe, eu sei, era muito cedo pra criar Uma criança sem machucar Mas hoje eu aprendi a me curar
Entendo as suas feridas.
Foi tanta coisa que já vivemos. Guardamos mágoas, adoecemos. Você sofreu e eu sofri vendo a reprodução de um comportamento. Mãe, eu sei. Você deu o seu melhor. Mas acabei vivendo o pior.
Você me feriu com suas feridas, mãe. Eu sei, era muito cedo pra criar uma criança sem machucar. Mas hoje eu aprendi a me curar. Entendo as suas feridas.
Começa agora Let Me Love, ressignificando as formas de se relacionar. Uma coluna por Miriam de la Cruz. Hora do Sabá, ano 8, temporada 11. A única revista feminista colaborativa pelas ondas do rádio. Baby, oh, oh, oh, baby.
Olá, queridos ouvintes da rádio A Hora do Sabá. Aqui quem fala é Miriam de la Cruz com a coluna Let Me In Love, ressignificando os relacionamentos afetivos. E hoje eu já chego assim e me sentindo nutrida em todas as dimensões.
de voltar de uma imersão, na qual eu pude experienciar diversas formas de se relacionar num contexto com outras pessoas que também estavam abertas e dispostas a cocriar esse espaço e sustentar um ambiente onde a gente possa se sentir seguro, pra trazer as nossas singularidades, pra participar, pra propor atividades e ao mesmo tempo pra ter um feeling de saber quando você simplesmente não quer fazer nada.
E também foi um momento da gente se reencontrar. Pessoas que durante esses anos, até mesmo durante a pandemia, a gente se conheceu online, em comunidades de aprendizagem online. A gente pôde finalmente se encontrar pessoalmente. E foi muito interessante estar nesse lugar de reencontro real, na vida material.
e poder ver tudo o que aconteceu nesse movimento de eterno retorno e tudo que pode emergir desse espaço no momento que a gente vive tantas transições, a importância da gente estar com pessoas, simplesmente conviver. E eu, na minha trajetória, eu venho colecionando essas experiências de vida em comunidade, como eu já mencionei aqui, outras comunidades que eu já tive a oportunidade de estar presente, tanto aqui no Brasil quanto no exterior.
E realmente é uma busca que faz parte da minha jornada. E sempre que eu estou...
nesses contextos, eu me relembro do como é ser humano, do como é gostoso a gente simplesmente sentar e olhar as estrelas, a gente poder contemplar um céu estrelado, filosofar, falar devagar e aprender uns com os outros. E eu, nesse momento, compartilho, porque a gente precisa desses sopros de vida, a gente precisa manter as nossas humanidades renovadas. Nessa atmosfera de conexões autênticas, hoje eu trago a sabedoria da AVE Kondo.
Let me in love, quando a expansão pede raiz. Há momentos em que a vida se abre, como um céu vasto, cheio de correntes de ar invisíveis, nos convidando para voar. Ideias ganham vida, possibilidades se revelam, caminhos se multiplicam. Eu subo, vejo mais longe, sinto mais, percebo o quanto tudo pode ser.
Mas existe um ponto delicado nesse voo. Quando eu subo, antes de estar ancorada, a visão se expande, mas o eixo se perde. E então vem a confusão, a dispersão, a sensação de estar em muitos lugares e às vezes fora de mim mesma.
O Condor me ensina isso. Não é sobre voar, é sobre saber quando voar. Porque nem toda expansão pede movimento imediato. Algumas pedem silêncio, outras pedem corpo, raiz. Eu senti isso, no meio de tantas ideias ganhando vida, de encontros que expandem, de possibilidades que brilham.
Existe uma sabedoria em não transformar toda inspiração em ação e permitir que algumas coisas apenas existem por enquanto. Nem tudo que nasce precisa crescer agora e isso não é atraso, é maturidade. Let me love. Deixe-me em amor também quando eu desacelero a expansão. Deixe-me confiar no meu ritmo, honrar o meu corpo e escolher com consciência o que eu sou capaz de sustentar.
Porque no fim, não é sobre quantas possibilidades se abrem, é sobre quais eu sou capaz de energizar. Sem me perder no céu das possibilidades, aprendendo com sabedoria a sempre voltar a mim mesma. Let me love. E ainda não acabou. Hoje eu vou encerrar compartilhando com vocês uma música da minha autoria, chamada La Mousser, por Miriam de la Cruz.
Nada se cria, tudo se copia Enquanto você se demora, a natureza se transforma Tem tanta cidade, cadê, cadê? Até quando o seu alcance é a frequência da sua TV Streaming a série vida dentro da sua mente E pare de ser consumido a cada dia lentamente Qual foi a última vez que você viu o céu estrelado? Alguma vez na vida você já nadou pelado? Quando foi que um simples pôr do sol te deixou tão animado?
Tá tudo desmoronando, pode crer, eu tô ligado Mas você ainda pode escolher no que ficar sintonizado Com olhos vivos sempre em frente, coração recarregado Na bateria da vida, startus humanizado
O mundo tá fudido e tu só pensa em fevereiro Eu sei que tu é folgado, mas eu quero o meu dinheiro Sem noção, paga pensão Ou sem noção, paga pensão Papais panacas, aqui não passarão Papais panacas, aqui não passarão
E aí E aí
Pá, pá, pá, spá na casa Aqui não passarão Sem noção, paga pensão Pá, spá na casa Aqui não passarão Pá, pá, spá na casa Aqui não passarão Pá, pá, spá na casa Aqui não passarão Pá, pá, spá na casa Aqui não passarão
Tu achou que era de graça, tu tentou fazer pirraça, tu quer dorrar na cachaça, mas aqui tu não te passa. Vai ter que pagar, tu que me botou no mundo e não quis criar. Tá se achando, mas a cara tu não quer botar, quer sambar, mas a avenida eu vou barrar. O meu futuro é vestido de pai, sem ser fantasia.
A minha vida não é alegoria Guardamos com os B.O. que tu não sustenta Eu vim fazer valer aqueles 60 segundos Que tu não pensou no futuro Mas eu penso no meu e custa uma nota Vem pagar tua cota, eu já marquei a data O volume do carnaval já tá na soca Mas nesse trio não vai pular Papai Panaca
Você tá se preparando pro carnaval que eu tô percebendo O tempo tá passando e tu me enrola o ano inteiro Mas cara, eu tô afogado, o que eu quero é meu dinheiro Sem noção, paga pensão Sem noção, paga pensão Papais, panacas, aqui não passarão Papais, panacas, aqui não passarão
Passarão Tu tá é fugindo, tu tá é me devendo Cê diz que é mimimi, só que é o meu direito Assume o teu B.O. Que o bebê abre o berreiro, vai Paga pensão Ou sem noção, paga pensão
Fala, Fala, Fala
E desse templo啊啊
Tchau, tchau.
Cria pernas, cria mãos e canais.
Por aí
É cristal, é ancestral, adiante circular. Flor de fundamento a eternizar. Um amor vulcão lava o coração.
Leva uma vila Pra fazer nossa família florescer
Legenda por Sônia Ruberti
Saudade é amor que fica. Saudade é amor de vida. Saudade é amor.
Saudade é amor.
A Vota On
Fumida boa Cheguei no baile, toda deusa pra causar As novinha olha, a ref pra copiar Aqui é fundamento da favela popular Se liga que a volta on A volta on no painel Seguindo o fluxo, mexendo o rapetão A volta on no painel Seguindo o fluxo, mexendo o rapetão
Música
Seguindo fluxo, mexendo o rapetão A bota on no baile Seguindo fluxo, mexendo o rapetão Se liga que a bota on Fecha rápido, fecha rápido Se liga que a bota on É Prestadorada A bota on No baile Vem pro bar
Eu adoro essa música, adoro mesmo. E falar de mãe e não falar de vó é difícil, né? E essa é uma das poucas cantoras que falam sobre ser vó. Parabéns, Zeferina, ela é vó.
Ela é uma avó jovem e ela discute muito sobre isso. E eu acho muito legal. E depois desse mergulho em tantas formas de existir mulher, de cuidar, de permanecer e reinventar a vida, a Hora do Sabá está chegando ao fim de mais uma edição.
Hoje a gente falou sobre maternidade, mas principalmente sobre liberdade. Sobre entender que nenhuma mulher deveria ter seu valor medido pela capacidade de gerar um filho. Manter um casamento, sustentar sozinha as estruturas emocionais de um mundo...
todo, um mundo inteiro. Ser mãe pode ser uma escolha, um desejo, um susto, uma impossibilidade ou até uma construção coletiva. Muitas vezes ela é uma travessia solitária ou até mesmo uma ausência.
E talvez o mais importante seja entender que existir como mulher já é por si só uma experiência profunda, complexa e criadora de mundos. Vocês escutaram aí.
Zeferina com a Vota 1. Annelise Assunção. Fit com Lued de Luna. Com a música Benta. Cheio de crianças. Essa música é uma das mais lindas da Annelise. Ava Rocha. Fit Yara Renói. Saskia. Com Papai Panacas. Isso que ela lançou essa música no Carnaval de 2022. E também. Antes da coluna Let Me Love. Da Miriam de la Cruz.
Bia Marques com a canção Mães. E ser mãe é uma possibilidade na existência feminina. Mas há uma certeza nisso. Por hora, todas as pessoas nascem de um útero.
Útero de uma mulher cis hétero, seja de um homem trans que pariu, seja de uma mulher que não pôde engravidar e adota, seja de uma tia que acolhe a criança que perdeu a família. Mãe, pode ser aquela pessoa que passa a fazer parte da nossa vida, cheia de amor e cuidado e afeto.
Ser mãe não define a existência de uma mulher. E eu sonho com um mundo por muito mais Éricas, com muito mais Marielles, com muito mais Robertas, com muito Júpiter, Gales, Tames e Laertes, e Saras e Marias e Joanas.
A Hora do Sabá de hoje, ela veio discutir uma dor, um impacto que me causou pensar sobre a maternidade. Eu sou mãe solo e eu luto há muito tempo para garantir para minha filha um ambiente onde ela se sinta amada, que ela se sinta apoiada, que ela se sinta escutada, que ela consiga, sim, fazer boas escolhas.
estar cercada de boas pessoas e ser feliz. Não quer dizer que eu vou conseguir proteger ela o tempo todo, mas eu quero que ela seja feliz, eu quero que ela tenha valores, eu quero que ela construa um espaço para existir com dignidade, liberdade e respeito. Esse é o sonho de toda mãe, não é...
simplesmente ser mulher. E não interessa se a Erika Hilton pode parir ou não pode parir. Ela é uma mulher que representa muitas mulheres por aí. Assim como a maternidade de Marielle, assim como a mulheridade de Laerte, cartunista, assim como Roberta Close representou o feminino durante décadas, durante uma geração toda. Eu não vejo...
argumento nenhum para diminuir a mulheridade de Erika Hilton. Eu sou uma mulher que me veste cheia de proteção e escudos, porque eu já passei por inúmeros tipos de violência e eu sinto a necessidade de me proteger no meu modo de vestir. Então, no dia a dia, eu estou sempre de calça, camisetão, moletom, cabelo preso. Mas quando eu vou...
socializar, eu adoro botar um vestido, colocar meus anéis, colocar os meus colares. Eu não gosto de maquiagem, mas não me maquiar não me faz menos mulher, não me faz menos feminina. E eu já ouvi muito.
que eu sou uma mulher muito masculina. Eu não sou uma mulher masculina, eu sou uma mulher que teve que tomar a frente da sua vida, das decisões sobre isso. E isso não tira a minha mulheridade, a minha feminilidade. Isso me faz fazer escolhas diferentes do que as minhas irmãs, que são casadas, por exemplo.
Isso me faz fazer escolhas diferentes do que a Camila Genaro, do que a mulheridade da Vitória Pacheco, do que a mulheridade da Alessandra Xavier, da Miriam de la Cruz, e de todas essas mulheres que estão participando aqui. Eu amo ser mulher, e dentro da minha identidade feminina, dentro da minha feminilidade, dentro da minha mulheridade,
Eu escolho, sim, me proteger. Eu quero agradecer a todos pela audiência. Lembrar vocês que tem muitos canais para vocês ouvirem aí a Hora do Sabá. Vou falar bem rápido, porque o meu tempo está acabando e tem música para rolar. Não, não vou poder falar. Vou deixar vocês aí com Julia Tizumba, mas acessa lá a horadossabá.com.br. Tem todos os horários de todas as web rádios. Salve Alma Londrina, que está completando aí 14 anos. E a gente adora ter essa parceria com vocês.
E escute também nas plataformas de streaming. Segue a gente lá no Instagram. Quer chegar mais perto? Tem uma comunidade no WhatsApp. É só mandar um DM pra gente que a gente te coloca lá. Um beijo e até a semana que vem. Ouça o manho o dia inteiro e a louça lá na pia.
E eu não rendia. É que eu sou mãe, mãe na pandemia. Seu trabalho sempre fora com quem deixo minha cria. É que eu sou mãe, mãe na pandemia. Quem se importa com criança? Ó Deus, salve a economia. É que eu sou mãe, mãe na pandemia. Me chama de guerreira se eu não tenho opção. Se eu faço, ele não. Depois diz que até faria. É que eu sou mãe, eu sou mãe na pandemia.
Aula online pra assistir, eu nem fiz pedagogia. É que eu sou mãe, mãe na pandemia. E se trava a internet pra quem sobra teoria. É que eu sou mãe, mãe na pandemia. Uma, duas, três jornadas, esse é meu dia a dia. É que eu sou mãe, mãe na pandemia. Planejar, fazer, limpar, saudades da boemia. É que eu sou mãe, mãe na pandemia. Não me manda...
Eu sou mãe na pandemia. Mamãe, eu quero. Mamãe, eu quero. Mamãe, eu quero deitar. Tomar a saideira. Tomar. Tomar. Tomar. Tomar. Tomar.
Quase 8 bilhões e meio de mulheres deixaram de trabalhar desde o início da pandemia da Covid-19. Para quem cria seus filhos sozinha, os retrocessos foram ainda mais profundos. 61% das mães solo no país são mulheres negras. A participação feminina caiu 45,8% no mercado de trabalho. O nível mais baixo em três décadas.
Tomar a saideira, dormir a noite inteira, cagar sozinha e tacar o dental, fechar os olhos...