Ângelo Delgado: “A nacionalidade não vale por si só. Tens que ir provando que tens os mesmos hábitos. É aí que está a validação. Não é o bilhete de identidade”
Nascido em Portugal em 1981, ano em que a Lei da Nacionalidade entrou em vigor, o escritor Ângelo Delgado reflecte, neste episódio de “O Tal Podcast”, sobre a relação entre documentos e acolhimento. “Cresci num país que me via como alguém diferente”, diz o autor do romance “Foi o Preto”, obra lançada no início do ano, que espelha bem as fraturas raciais que continuam a dividir o país. “A nacionalidade não vale por si só”, sublinha.
Escritor, leitor compulsivo e voz ativa na reflexão sobre identidade e racismo, Ângelo Delgado abre espaço, entre memórias, feridas e reconstruções, para uma conversa onde a escrita surge como refúgio, mas também como confronto. “É onde vomito aquilo que me vai na alma”, confessa, revelando um processo criativo profundamente íntimo e, muitas vezes, doloroso.
No centro da conversa está “Foi o Preto”, obra construída a partir de vivências reais — suas, da família e de pessoas próximas. Mais do que um livro, é um exercício de exposição e catarse.
“Tive de remexer nas minhas entranhas”, admite. O resultado é uma narrativa provocadora, que coloca o leitor diante do desconforto e o deixa, tal como o racismo faz, “num beco sem saída”.
O autor revisitou uma infância marcada pela sensação de diferença. “Cresci num país que me via como alguém diferente”, recorda, apontando a escola como o primeiro espaço onde essa perceção se impõe, muitas vezes sem explicação, sem espaço para questionar.
“A nacionalidade não vale por si só”, diz, sublinhando que o verdadeiro reconhecimento continua a depender de códigos invisíveis — hábitos, comportamentos, formas de estar.
A conversa atravessa também as dinâmicas familiares e culturais que moldam o seu olhar sobre o mundo. Das mulheres cabo-verdianas, fortes, resilientes, frequentemente sobrecarregadas, às estruturas comunitárias que contrastam com o isolamento vivido na diáspora, há um constante movimento entre geografias e significados. “É como colorir memórias a preto e branco”, descreve, num processo de redescoberta da própria identidade.
Pelo caminho, há ainda espaço para pensar o racismo para lá do discurso imediato, questionando a forma como ele é abordado publicamente, e defendendo a literatura como lugar essencial dessa reflexão. Porque, no fim, escrever não é apenas contar histórias: é dar sentido ao passado, reorganizar o presente e, talvez, encontrar alguma forma de liberdade.
Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
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Ângelo Delgado
Paula
- Racismo EstruturalDiscussão pública sobre racismo e violência policial · Literatura como espaço de reflexão sobre racismo · Expressões racistas no cotidiano · Impotência diante do sofrimento social
- O Romance 'Foi o Preto'Processo criativo e escrita como refúgio e confronto · Vivências reais como base da narrativa · Racismo e desconforto provocado pela obra · Ângelo Delgado
- Militância e presença femininaResiliência e sobrecarga das mulheres cabo-verdianas · Maternidade solo e ausência paterna · Força como rótulo e o questionamento sobre seu impacto · Filomena (mãe de Ângelo Delgado)
- Processo CriativoEscrita como forma de estruturar pensamentos e emoções · Escrita como analgésico e calmante para dores · Dores íntimas e mal-entendidos pessoais · Impotência diante de problemas sociais
- Geração de órfãos e ausência paternaHábitos de ausência e contribuição financeira do homem cabo-verdiano · Impacto da ausência paterna na formação masculina · Diferenças entre a comunidade em Cabo Verde e em Portugal · Mindelo como centro de boémia e vanguarda cultural
- Identidade Racial e DiásporaMovimentos de resgate e reencontro com a identidade · Consciência crescente sobre machismo e homofobia · Consciência ambiental e desafios em Cabo Verde · Autoridades como forças de bloqueio para a mudança
- Direito de cidadania e nacionalidadeNacionalidade como validador de liberdade de circulação · Dificuldades burocráticas para vistos e nacionalidade · Comparação de acesso entre portugueses e cabo-verdianos
Olá, eu sou a Paula Cardoso. Eu sou a Georgina Angélica. E damos as boas-vindas ao tal podcast, espaço de conversas sem guião, que aproximam experiências e histórias de vida. É nos Estúdios do Expresso que recebemos o nosso convidado de hoje, recém-aventurado no seu primeiro romance, em que nos lança a pergunta qual o culpado mais conveniente de um crime, ao mesmo tempo que apresenta uma acusação? Foi o preto.
Escritor, redator de publicidade e ex-jornalista, Ângelo Delgado escreve memórias que continuam por conhecer e reconhecer.
Olá, eu sou a Cátia Mateus e este é o Céu é o Limite, um podcast onde os líderes das empresas portuguesas conversam sobre o seu percurso profissional, os altos e baixos que enfrentaram ao longo do caminho, as ideias mais ousadas, mas também os erros e fracassos, sempre com uma boa dose de gargalhadas pelo caminho. Junte-se a mim nestas conversas, ouça o céuéolimite em expresso.pt ou na sua app de podcasts preferida e deixe-se inspirar.
Bem-vindo, Ângelo. Já te ouvi falar sobre como a escrita é uma via para estruturares o teu pensamento. O que me leva a questionar se é também um caminho para estruturares as tuas emoções. Olá. Olá. Georgina, Paula, obrigado pelo convite, primeiro que tudo. Se é uma forma de estruturar as minhas emoções, a escrita.
Eu diria que sim. É o território onde me sinto mais confortável. E eu sou uma pessoa que escrevo não só profissionalmente, porque esse é o meu métier, como publicitário, neste caso escrever e pensar, é muito o território onde me posiciono, mas também escrevo para mim.
Ou seja, não só a escrita do romance, como foi agora o Foi o Preto, como também o Sem Ofensa, um pequeno ensaio que fiz com a Sofia Ayuso, minha amiga.
mas sim, escrevo para além de todos esses lugares uns mais editoriais outros mais de profissão eu costumo escrever escrevo muito, escrevo para mim é onde eu também estruturo a minha a minha forma de pensar e também as minhas emoções onde vomito um pouco aquilo que que me vai na alma é até a próxima
O surgimento de ambas as obras, embora sejam sempre sedimentadas na realidade, digamos assim, mas elas partem muito desses exercícios que eu fui fazendo e vou fazendo. Agora estou um pouco parado.
Não me digas. Estou. Um pouco parado. Estou parado aí nesse tipo de escrita porque estive de férias estive e agora estou mais preocupado ou ocupado com a publicidade digamos assim. Não tenho que estar tão ligado a essas emoções a desligar um bocadinho disso também. Faz parte.
Estava aqui a pensar também nesta ideia de estruturar, que está muito ligada ao desestruturar, ao reestruturar também. O que é que tu tiveste de remexer para conseguir se escrever foi o preto?
Tive que me remexer, agarrando a tua palavra, gosto muito, eu tive que remexer um pouco nas minhas entranhas, na verdade. Porque escrevi em um lugar de dor. E, portanto, escrever em um lugar de dor é sempre...
É sempre desconfortável. E foi a partir daí que eu comecei também aqui a cozinhar esta história, baseada em factos verídicos, que aconteceram a mim, que aconteceram a pessoas da minha família, que aconteceram a amigos, ou no fundo foi o preto, eu não vou dizer uma salada no sentido pejorativo, é um juntar, agarrar em pequenas histórias de várias pessoas.
sendo elas sempre, lá está, reais, e depois cozinhá-las. Esse trabalho, obviamente, provocador. Provocador porque eu fui espectador, ou até ator, presente naquelas narrativas, e é um remexer que foi causando desconforto. Muitas vezes parei, muitas vezes tive que apanharar.
mas fez-me bem é um pouco catártico também já o tinha sido feito já tinha sido assim com o Sem Ofensa este mais profundo este foi um pouco mais profundo porque
Não eram só expressões ditas por alguém abstrato. Isto era algo que tinha acontecido e a realidade tem sempre um peso, carrega sempre aqui uma dimensão que alguém abstrato não tem.
Estávamos a falar, antes de começar a gravar, que nascesse em 1981, em agosto, curiosamente. Portanto, no mesmo ano em que Portugal aprovou a lei da nacionalidade, mas que só entrou em vigor em novembro, se não estou em erro. Uma das alterações. Exatamente.
Sentes que a tua história está mais próxima de um país que te reconhecia automaticamente ou de um país que começou a impor condições para esse reconhecimento? É difícil responder diretamente a essa pergunta. Eu sinto que cresci num país de até a próxima.
que me via como alguém diferente. E isto vai um pouco ao caminho daquilo que tu perguntas. Ou seja, eu... E isso dá-se quando tu entras na escola, não é? Ou seja, tu és até aquele momento uma pessoa, um ser humano, uma criança que vive, que respira, que brinca. Normalmente com amigos mais próximos, poucos na altura, e com a tua família.
E é, e tu dás conta que vives num país que tem aqui um padrão diferente para alguns quando tu entras na escola. É o primeiro espaço de grande dimensão que tu entras e que metes o pé dentro. E é aí que te dizem repetidamente até que és diferente. E é aí que tu...
Começas a sentir que és diferente. És diferente. E muitas vezes não tens coragem de, em casa, fazer a pergunta relativamente a essa diferença ou o porquê que dizem que tu és diferente. E, portanto, eu cresci num país onde volta e meia me fazia fazer parecer diferente. E sempre adorei Portugal e adoro Portugal.
mas Portugal tem no seu processo de solidificação de democracia que agora até está um pouco periclitante mas no seu processo teve estes buracos grandes estes percalços de sociedade que eu diria assim que vão deixando desconfortáveis quem não corresponde a um certo padrão até a próxima
A Jóginha estava a trazer a lei da nacionalidade, não é? Recoando a 81, já teve várias alterações. Exato. Tu sentes que a nacionalidade é algo...
tu consigas explicar para além das vivências, ou seja, podes ter o documento, podes ser português no documento, mas se as tuas vivências não forem reconhecidas como as de uma pessoa portuguesa, nos acessos dos quais tu podes desfrutar, até que ponto é que tu te podes ver como nacional de um país? Até que ponto é que tu podes sentir que fazes parte?
Sim, tu só fazes parte verdadeiramente quando tu tens esses hábitos, quando tu tens a forma de fazer dos que já cá estão, não é? Tu até aí és sempre visto diferente e isso é, no fundo, uma luta que temos de forma incessante, que é tentar parecer com os que já cá estão. Ou seja, eu sempre tive a nacionalidade, eu sempre tive a nacionalidade, mas isso não chega, isso não chegava.
Porque se tivesse tido, vá, entre aspas, o azar de nascer uns meses depois, ou em 82, a tua vida teria sido completamente diferente. Seria mais difícil nesse aspecto, sim. Ou pelo menos, não sei se a minha vida, mas se a dos meus pais.
a tentarem tratar desse assunto. Mas sim, a nacionalidade não vale por si só. Tu tens que, e eu também passei por isso, tu tens que ir provando que tens os mesmos hábitos, tens a mesma forma de fazer, tens a mesma forma de reagir.
E é aí, é essa que é a validação, não é o bilhete de identidade, porque o bilhete de identidade já o TAY está garantido e não tu tiram à partida. O que eu queria perguntar há pouco, e depois ali embrulhei-me um bocado, tinha que ver com esta questão do se tu consegues provar uma nacionalidade, não é?
Ultimamente, a partir também dessas derivações que estavas a trazer em relação aos processos democráticos, há muito esta discussão sobre, afinal, quem é que pode ser e vamos validar o ser a partir de uma série de exercícios que nós fazemos. Isso é uma coisa que se prova através de testes.
Eu penso que não. Eu vejo a questão da nacionalidade como, de uma forma muito simples, às vezes isto torna-se muito complexo. As pessoas vêm para cá e vêm tentar encontrar a sua vida, encontrar caminhos, melhorar aquilo que tinham antes. Normalmente é isto que acontece.
e após um período de adaptação e de vários anos em cima desse país é normal que peçam na cinalidade que requiram esse direito que está consagrado, obviamente e não me parece que
sejam testes que consagrem o chegar à nacionalidade, a concessão da nacionalidade. Estamos cá, estamos a trabalhar, estamos a descontar, fazemos parte de uma sociedade, temos uma família, mesmo que não a tenhamos. E, portanto, por isso é que eu simplifico, porque às vezes é importante simplificar esta questão.
porque a discussão depois ganha tantos contornos ideológicos, sociais. Portanto, é bom simplificar. As pessoas vêm para trabalhar e o adquirir uma nacionalidade é um passo natural, natural, dessa estadia, desse trabalho que vão desenvolver no dia-a-dia e que vão se tratando a essa sociedade. Eu queria dizer também, relativamente à nacionalidade,
A nacionalidade acaba também por ter aqui uma importância muito grande num outro lado desta moeda, que é ela é um passaporte, ela é um validador de liberdade. Uma pessoa cabvardiana que não tenha a nacionalidade portuguesa, neste caso a dupla nacionalidade, não é? Que queira amanhã viajar para Lisboa, não o poderá fazer.
se invertermos isto e uma pessoa portuguesa quiser visitar Cabo Verde amanhã, decide ir visitar a cidade da praia apetece-lhe estar num ambiente com uma temperatura mais elevada ela pode fazê-lo já amanhã
Tranquilamente. Tranquilamente. E isso, quando se fala aqui da nacionalidade, fala-se de liberdade também. E é importante que se tenha noção do que é que se está aqui a falar. E de cidadãos de primeira e de segunda. Uns podem viajar, outros não podem viajar. E é também algo que se fala pouco. As leis estão consagradas, é o que é. Os países têm os seus acordos, mas...
Mas acho que poucas vezes paramos para pensar nisso. Ou seja, a lógica de cidadãos de primeira e de segunda. Uns podem e outros não podem. E isso até vai para além da cor da pele. Quando pensamos também em quem é que não pode, estás aqui a trazer a experiência de Cabo Verde. Eu tenho recentemente vários exemplos na família, portanto, de pessoas que estão a tentar vir de Moçambique, até para passar férias. É-lhes cobrado todo o processo, do ponto de vista burocrático.
e depois no final é um não. Portanto, não vamos atribuir o visto. Portanto, isto está a acontecer demasiadas vezes em Moçambique. E a contrapartida, de facto, não existe. Portanto, qualquer português pode chegar a partida a Moçambique, a menos tenha depois alguma coisa esquisita ali na migração, mas paga-se o visto fronteira e entra-se, não é? E entra-se, naturalmente, normalmente. E isso também está a acontecer em Cabo Verde. As pessoas demoram meses e meses. É verdade, sim.
para conseguir obter um visto que é apenas de turista. Muitas pessoas em Cabo Verde hoje, sabendo até as dificuldades que existem atualmente na habitação, no encontro de um emprego que consiga alimentar o preço de uma habitação, sabem que é extremamente difícil e querem vir cá, sim.
Visitar familiares, passear, fazer turismo. Pronto, porque é um país com uma ligação muito grande a Portugal, a Cabo Verde, neste caso, e normalmente até tem aqui familiares, e isso não está a ser possível, e isso mostra-nos aqui a diferença entre uns e outros.
A não ser que se precise da mão de obra, não é? Como os motoristas da Carris. Sim, como os motoristas da Carris, que de repente Cabo Verde ficou sem motoristas. É verdade. Porque foram necessários aqui.
Exatamente. Sim, e estava a pensar, quando estamos a falar em trânsito, aqui estamos a falar de pessoas, mas tu agora como autor, com o romance, já tinhas o Sem Ofensa, conforme partilhaste, que é um livro que traz uma série de expressões racistas que nós temos no nosso cotidiano, e tu vais desconstruindo uma a uma, e agora com este romance, conforme também estavas a partilhar, em que tu concretizas as vidas.
quanto mais não seja a partir dos personagens que tu trazes no livro, consideras como é que está a ser este teu processo de circulação enquanto autor com esta temática?
O livro saiu, curiosamente, tinha acontecido aquela palermice no Estádio da Luz. Palermice, estás a ser muito gentil. E parece que foi à boleia naquela altura também desse problema.
As entrevistas e as conversas que eu tenho tido com o Meio de Comunicação Social abordam, versam sempre neste tema a existência do racismo, de que forma podemos lidar com ele, de que forma podemos ir radical.
De que forma é que eu tenho lidado com isto? É o que me perguntas, Paula. Já estava à espera. É algo que não me surpreende. Falar sobre os problemas raciais do país, sobre a violência, a brutalidade policial. É algo que já estava à espera que acontecesse. Bate-se muito nesta tecla, normalmente aqui em Portugal.
Porém, o que sinto muitas vezes falta é de falarmos de literatura. Literatura. Óbvio que, e não posso fugir disso, há um tema subjacente e o tema é forte do ponto de vista...
social, mas penso que sobra pouco depois para falarmos da literatura, do processo de escrita, da narrativa, da criação da voz das personagens e, portanto, enquanto autor sinto falta dessa componente mas já estava à espera.
que dois terços, pelo menos, ou até mais do que isso, das conversas à volta deste romance versassem sobre os temas raciais. Então, como é que é esse processo criativo para ti?
Aproveitando, não é? Aproveitando, sim. Eu sou apaixonado por literatura. Leio muito. Desde qualquer escritor deve ler muito mais do que escreve. E eu não sou exceção. Estou dentro daquilo que é considerada a norma. O processo de escrita ou criativo, como dizias, é...
é estar sozinho, é estar isolado é escrever muito, escrever sem vírgulas escrever sem regras criar diálogos na minha cabeça e depois ter referências, obviamente porque nós, embora tenhamos de nos afastar de alguma forma dessas referências literárias não nos ajudam se nos ficarmos muito agarrados a elas mas elas estão cá não nos ajudam
obviamente, e depois é criar aqui ganchos e como se estivéssemos a agarrar numa agulha e a tricotar e a agarrar esta história, esta personagem, esta e puxá-la, e também ter como referência o universo audiovisual dos filmes e o filo aqui no foi o preto, ou seja, ir para a frente, ir para trás, quase Tarantino.
E também criar bloqueios nas personagens, um bocado kafkian, vá, digamos assim, não deixar que... quase que tornar as coisas sem resolução. Eu gosto muito desse tipo de...
de trama deixar as pessoas num beco sem saída porque na verdade é assim que o racismo nos deixa e portanto eu achei e tem que haver aqui uma interseção entre a literatura e o tema
E é por isso é que eu acho que se deve falar também deste processo, porque o processo leva ao tema e o seu contrário. O racismo deixa-nos sem chão, deixa-nos sem alternativa, muitas vezes, quando somos acusados, quando somos agredidos no dia-a-dia.
E essa agressão retira-nos muitas vezes, porque ela surge sem estarmos à espera, ela retira-nos muitas vezes a capacidade de defesa. E isso é ficarmos encurralados. E eu agarrei nesse sentimento...
de prisão para também escrever o livro. A ideia, eu tento passar isso, às vezes posso não ser eficaz, mas tento passar sempre essa ideia de tudo isto está de tal forma intrincada que não conseguimos sair daqui. Lá está, por isso é que eu falei há pouco da questão kafkiana, lá está. Não é que o Kafka me... até a próxima.
Me influencia na forma de estrangular as personagens, não na forma de escrita. Isso nem se coloca, não é sequer um assunto. E tu tens, no teu livro, mulheres poderosas. Porque foi essa a experiência que foste tendo, ou é essa a experiência que vais tendo na tua vida. Portanto, as mulheres que te rodeiam trazem essa força que te dá essa raiz.
e nomeadamente a mulher cabo-verdiana sem obviamente falo daquilo que da tua experiência não quero falámos há pouco falámos há pouco de equívocos diplomáticos é um bocadinho incidente
Não quer trazer para aqui outro. Ou os irritantes, não é? Havia uma altura que havia os irritantes. Os irritantes, era com o João Lourenço. Estamos a precisar de novas palavras, acho. Exatamente. Os irritantes. Cheia, menino, não fala política. Não, que ideia, não, que ideia. Sim, a minha cabo-verdiana, no outro dia, numa conferência que eu participei na Gulbenkian, na propósito dos 30 anos da...
Da RTP África. Da RTP África, da RDP África, neste caso. Acho que é RTP. Agora é RTP África. Agora é RTP África. E eu não quero, porque eu ainda não li o livro, mas falava-se de... Eu penso que era assim, a Simone Bovoar falou, disse que a mulher nascia, tornava-se mulher, não é?
e havia uma escritora cabo-verdiana que agora não me recordo o nome, que dizia não desmentindo-a, não indo contra a Cibone Beauvoir, certamente nem pensando nisso mas dizia que a mulher cabo-verdiana deixia já a mulher a saber e a conhecer o seu corpo, ainda que depois isso tenha um lado positivo e negativo na equação
E isso mostra, isso tem a ver também com a força, com a natureza da mulher cabardeanda, que na maior parte das vezes, ou grande parte das vezes, ela fica sozinha a cuidar dos filhos.
é também muitas vezes cuidadora já de sua mãe, se a sua mãe já for. Ou seja, olha para baixo, olha para cima e carrega aquilo tudo com a ausência do pai que normalmente está no estrangeiro a trabalhar ou, nos casos mais infelizes, que não são poucos, as mulheres caverdianas criam os seus filhos como mães solteiras.
E isso é bastante comum. Isto dá-lhes uma força, dá-lhes uma capacidade de trabalho, de conseguir estar em várias plataformas ao mesmo tempo. Que é invejável. Eu às vezes olho para ela, para a minha mãe, por exemplo. Olho para outras mulheres cabo-verdianas. Como é que se chama a tua mãe? Filomena.
Olho para outras mães Cabo Verdeanas E acho incrível Há pouco falava Tenho passado algumas temporadas no Mim Dele Tenho só de continuar a fazê-lo E quando lá estou Observo muito Eu estive muito tempo sem ir A Cabo Verde Nasci cá E portanto
Demorei alguns anos aí e a minha presença lá é um pouco de assimilar tudo isto. E, portanto, estou sempre a observar, estou sempre muito atento a todos os fenómenos. E se há coisa que, quando estamos em Cabo Verde, conseguimos facilmente identificar, é essa mãe, bastante nova, muitas vezes, já sozinha, já com um filho na barriga e outro aos braços. E muitas vezes sem completar 20 anos, sequer 18. E aí para o trabalho, neste cenário.
isso não é bom obviamente que é um problema que Cabo Verde tem mas por outro lado também mostra-nos a força porque normalmente são capazes de ir para a frente não há grandes lamentos há um avançar não há tempo a vida é isto, aconteceu assim
podíamos dissecar aqui, embora não seja o território próprio, os problemas que estão por trás disto, mas isto acontece e é assim, a realidade é assim e avança-se. Isto para os casos mais infelizes, para as outras mães que têm uma estrutura maior, é um pouco diferente. A minha mãe, esse o caso, tem filhos, tem três filhos e avança com eles, mesmo com a ausência do pai, que está a trabalhar, no caso.
dois terços do ano, ou mais do que dois terços do ano, e é capaz de trabalhar, de fazer a comida, de limpar a casa, de tratar dos filhos, de comprar os cadernos, de fazer inscrição para a universidade, que é incrível, e é incrível. E isto num país que muitas vezes é hostil também para elas. E é por isso é que...
Acabas por prestar homenagem às mulheres da tua vida com estas personagens? Sim, sim, de alguma forma sim, sem dúvida. E estavas a falar no Minguele, não é? Que tens agora esse hábito de ir recorrentemente e falaste das observações. O que é que tu absorves?
A maneira de viver, dou cor às histórias que eu vi durante muitos anos à volta da mesa de refeições. Ou seja, é um bocado como... Eu falo disto de forma um bocado um pouco indireta no livro, mas é um pouco como colorir as memórias a preto e branco que eu fui tendo.
E é isso, eu em Cabo Verde, e no Mindelo em particular, embora tenha visitado outras ilhas, eu tenho estado a dar cor e sentido. E sentido à minha infância, à minha adolescência, à minha vida, às minhas hábitos que eu tinha e que nem sabia que eu tinha. Ou seja, à forma de dizer certas coisas. Ou seja, a observação é bastante abrangente, é na linguagem, é comportamental, e...
a forma de contar histórias acho os caboverdianos e eu não tenho esse são grandes contadores pelo menos na oralidade não tenho certamente essa magia que eles têm, que conseguem transformar uma história que nem tem assim tanta piada e que tem com eles a contar, é fabuloso o Germano Almeida
tem essa capacidade de, nos livros dele, nos mostrar a capacidade oratória do Cabo Verde e a forma como ele conta histórias e conta o mundo todo. Parece que tem o mundo todo dentro deles e é incrível a fluidez com que tudo surge. E isso é uma das coisas que eu estou sempre bastante atento ao mim deles. Estou sempre a ouvir muitas histórias. Estou muito mais calado do que a falar.
Não que tenha problemas em falar o crioulo, e falo, vai sair com inúmeras imperfeições, é normal.
Eu apontar para mim. Ele vai ser com muitas imperfeições, mas faço questão de ir tentando, de ir ao ginásio com o meu crioulo. O crioulo, se tem que ter, foi sempre a língua mãe. Em casa, sem dúvida. É ele que está, é o crioulo que vigora. Entendemos perfeitamente. Sim, agora a minha mãe... ... ...
Voltamos aqui um pouco atrás, na lógica da integração, o medo que ficássemos para trás, disse sempre, vocês falam em português e nós falamos sim mesmo.
Sim, eu tenho a mesma experiência, mas estavas a falar das mulheres cabordianas e da força e de estares no Mindel e observar jovens já praticamente a reproduzirem o mesmo padrão que viram.
Eu assino em baixo, realmente, tenho uma força, mas eu tenho questionado muito sobre esse rótulo de força na mulher caboverdiana e quanto a tem prejudicado ao longo da vida. Porque vejo isso nas mulheres à minha volta e vejo também...
quase um sentimento de não merecimento, não merecimento do que eu posso descansar, não um conhecimento do que eu posso pedir ajuda, o não saber pedir ajuda, aliás, e portanto é um bocadinho conflituoso para mim, que tenho sangue caboverdiano, filha de caboverdianas, esta palavra da força e da força, sim, sem dúvida, mas como é que quebramos esse padrão, como é que quebramos esse padrão repetitivo?
que parece que não estamos a conseguir sair dele. Sim. É em Cabo Verde e fora de Cabo Verde. Portanto, a tua história que nós chamávamos era uma expressão muito utilizada nos lares caboverdeanos olha, o pai está embarcado. Sim, sim. Havia muito essa expressão. No barco, no vapor. Exatamente. No vapor.
E sabíamos que normalmente quem tinha o pai embarcado, de uma forma ou de outra, teria mais acesso a mais alguma coisa. Portanto, havia todas estas distinções. Mas é verdade, o pai não estava, a referência masculina não estava em casa. Portanto, eu pergunto-te agora, como é que isso impactou a tua vida? O pai que vem de X em X meses, ou está meio ano fora, como é que isso te marca na tua construção como homem?
Marca através da ausência. De facto, como tinha dito, o meu pai passava grandes, grandes temporadas fora, portanto o ano tem 12 meses, ele estava connosco um mês e meio.
mês e meio. E era um corpo estranho. Era um corpo bastante estranho em casa. Demorava bastante a entrar. Demorava bastante a entrar. E também tinha um perfil autoritário. Também bastante comum. Na verdade...
E é difícil, e hoje penso mais nisso, era também difícil para uma pessoa como eu, com poucos estudos, ou nhoos, para dizer a verdade, com uma matriz do homem é que traz, o homem é que manda, e de repente chegar a uma casa onde ele sente que não é...
indispensável. Ou seja, tudo aquilo funciona sem ele. E isso para uma pessoa, pelo menos como o meu pai, não quer generalizar, mas acredito que isto tenha réplicas em muitos lares.
Para homens como ele chegarem a um lar e verem aquela harmonia, sem que ele esteja onde o seu único contributo é uma transferência bancária, e quando digo único contributo não estou a menorizar porque isso permite também que exista essa mesma harmonia, essa mesma à vontade, que não haja carências, digamos assim. Essa gestão, não é? Exatamente.
Mas é algo, e isso eu fui percebendo, é algo que lhes desequilibra. E trazendo depois essa matriz autoritária, é algo que cria depois conflitos.
dentro de casa com os filhos, com a mulher porque há ali uma dinâmica que está criada e ele quer impor a sua sendo que há todo um edifício construído que rola, que abre que fecha um condomínio que funciona perfeitamente e de repente chega ali um...
E quero romper com toda aquela dinâmica naquele mês e meio. Isso obviamente que teve uma influência muito grande na forma como eu me fui formando, através da ausência e através dessa autoridade.
que me provocava alguma repulsa, como é óbvio. E, portanto, eu quando cresço, cresço a querer fazer e ser o contrário daquilo. Reconhecendo mais mérito na presença feminina, e eu tive a oportunidade e a felicidade de visitar muitas casas cabelianas em bairros suburbanos de classe medianormal, como a Almada.
Cacém e Maçamá, como também indo à Brandoa, à Reboleira, à Damaia, Cove de Amor, a Seis de Maio, com famílias muito mais humildes, mas os padrões eram os mesmos. E notava-se essa brandura, essa nancidão, mas esse amor da parte feminina e essa ausência quase constante do homem. Isto não é nenhuma acusação.
Não, é a realidade. É a realidade. O homem caboverdeano, estando aqui ou estando no estrangeiro, está ausente. Normalmente está ausente. E porquê que tu achas que ele, mesmo estando cá, ele está ausente? É difícil responder. Normalmente, normalmente são trabalhos...
que exigem ausência, mesmo estando cá, em grandes períodos do dia, portanto, nos principais períodos do dia.
muitas vezes, diria que agora menos, muitas vezes ao fim de semana são pessoas que dentro da presença ausentam-se porque têm que acabar de construir a casa. Isso acontecia muito, principalmente nos bairros Cova da Moura, 6 de Maio, isso acontecia bastante. A casa ia-se fazendo, porque durante a semana estão a construir a casa dos outros.
Estamos a falar de bairros de autoconstrução. Sim, exatamente. E depois tem que ver também com hábitos que se trazem de Cabo Verde. E se calhar, Georgina, estávamos com essa aí atrás da orelha. Não é? Sim, aqueles hábitos de estar longe, de não querer fazer parte da construção do lar, apenas o contributo é financeiro.
e estar sempre de uma forma lateral na casa, sendo que depois entrando, quando entram lá, pretendem impor a lei e a ordem. Não se pode generalizar, mas isto, fui observando a longo de vários anos, são muitos anos, deste tipo de observação.
São hábitos que se trazem de Cabo Verde. O do Mindelo, uma cidade, neste caso, com bastante boémia associada, e isso é bom, mas também tem os seus aspectos bastante negativos, que entroncam muitas vezes aqui nestes assuntos que estamos aqui a falar, porque muitas vezes...
Há coisas que parecem inocentes, mas que depois se transportam para outras geografias, neste caso Portugal, e elas mantêm-se exatamente as mesmas, sem mudar a vírgula, e é que há um por exemplo problema. É que há um por exemplo problema. O que é que pode ser inocente num contexto e se torna problemático no outro?
Eu diria que no Mindelo, onde é, vamos assumir, inocente, é quase como é tácito. É assim. Faz parte.
Por pior que seja, não há um tentar corrigir alguns comportamentos a partir até de alertas, não é? Sim, e isso vê-se que não está a mudar, há uma dificuldade em mudar isso até no facto de haver muitas mulheres jovens nessas condições, grávidas e já com o filho em mãos.
Portanto, isso é sinal de que algo não está a mudar e já deveria estar a mudar. Aqui é um problema porque a sociedade é diferente, não é tão branda com esse tipo de situações e é também...
É também uma sociedade que exige mais deslocação, as ausências são mais notadas, são muito mais notadas. Não é tão comunidade, não é? Não é tão comunidade, porque lá o pai pode não estar, mas está o tio, está o primo, está mais gente. Alguém sempre, sempre potencia qualquer coisa. Sim, e aqui não, o que o espírito de isolamento das famílias é maior.
cada vez maior, na verdade, hoje em dia, mas é maior aqui em Portugal do que em Cabo Verde. Em Cabo Verde estamos constantemente rodeados de pessoas, e eu poderia transpor isto de Cabo Verde para a África, há mais, o sentido de comunidade é mais presente, as pessoas estão mais juntas umas das outras, aqui não tanto, é assim, não há...
Não estamos aqui a avaliar nada. E isso, numa sociedade assim, provoca mais dano, ou é mais notório, a ausência. A transposição desses hábitos que já tinham nos seus países de origem.
E a diáspora, portanto, estes movimentos entre a diáspora e que estamos a observar nas nossas gerações, sobretudo, que já temos essa necessidade de fazer um resgate, de nos encontrarmos, o tal reconhecimento de que falavas quando estás no Mindelo e que vais colorindo as tuas memórias.
tens, sentes que essa também pode ser uma via de transformação portanto esses movimentos que estão a acontecer com outras consciências que estão também a circular pelos nossos países de origem ou dos nossos pais observas isso porque tu já estás a trazer uma consciência diferente em relação àquela que é a realidade do homem cabo-verdeano que estamos aqui a descrever
Sim, eu diria que sim. Eu diria também que há uma contracorrente. E o Mindelo também... Essa boémia também traz uma força cultural, uma massa crítica forte. E o Mindelo sempre foi isso. O Mindelo sempre foi isso. Desde que tinha um porto enorme e recebia barcos de todo lado do mundo. E isso também permitiu-lhe estar muitas vezes numa espécie de vanguarda dentro de...
de Cabo Verde e eu acho que essa massa crítica continua a existir e está a trazer e há muita gente no Mindele já com esse drive utilizando aqui um termo estrangeiro e não necessariamente a vir de não tem de vir aqui de Portugal, nascidos e criados lá, com uma outra consciência em vários aspectos, desde o até a próxima
não verem com bons olhos, aliás, afastaram totalmente atitudes machistas, homofóbicas, uma consciência ambiental muito grande, que é um trabalho também que se tem que fazer em Cabo Verde até pelas suas características.
e que muitas vezes é dificultado mas mais pelas autoridades muito mais pelas autoridades do que pelas pessoas que têm hoje em dia uma consciência porque depois de Cabo Verde as pessoas estão cá, estão lá e aí vai havendo aqui uma passagem de conhecimento e é muito permeável
e as pessoas têm uma enorme consciência nesse aspecto, agora, sinto que as autoridades também estão, o ITA já são forças de bloqueio para mudar aqui algumas coisas portanto, sim, eu sinto que, principalmente o Mindele, onde é o local onde eu mais tempo fico e, portanto, mais capacidade tenho de fazer uma análise um pouco mais profunda do que superficial noto essa gente com força e, portanto,
homens e mulheres homens e mulheres e muitos artistas que principalmente aí, mas não só que querem já estão a dar um ponto a pé querem dar um ponto a pé nessa ignorância para trazer um
uma cidade diferente. E aqui falo de uma cidade porque é ali que aquilo está a acontecer. Não é fácil. As coisas demoram a mudar. São gerações e gerações. E por dizer que se nota que é um processo lento. Porque ainda há muita debilidade. Há muito buraco.
Os processos de transformação profundos levam sempre muito tempo e voltando aqui à ausência do homem cabo-verdeano, eu perguntava porquê, não é? Eu pelo menos tenho andado a refletir muito sobre isso.
e percebo e tu falaste na dor, logo no início desta conversa eu percebo que há uma dor ainda por explorar há uma dor ainda por por se...
Há várias dores para serem identificadas que levaram a esses padrões de comportamento e que, felizmente, como estavas a dizer, há uma maior consciência para se quebrar ou para se tentar quebrar. Mas eu continuo a ter esse questionamento. Porquê dessas ausências?
Eu recuo sempre à história, acho que há aí uma raiz histórica muito profunda, que levaram e que levam e que as coisas ficam, e as memórias ficam e os comportamentos reproduzem-se. Mas eu queria voltar àquilo que tu disseste no início, falaste de dor. E que dores é que tu estás assim, vá, a exorcizar com a tua escrita? Ou que continuas a exorcizar com a tua escrita?
Com a escrita do foi o preto ou falas no geral? No geral. No geral, naqueles desabafos. Sim, sim. Nos desabafos, muitas vezes são dores íntimas, são muitas vezes mal entendidos que eu tenho, descobrir-me em mim próprio e, portanto, a escrita serve para... é uma espécie de... à antiga, uma espécie de água oxigenada.
Eu não ouvi falar de água oxigenada. Eu não sei, eu não me viro há muito tempo. Já ninguém utiliza água oxigenada. Eu não tenho ninguém. Eu, por acaso, acho que estou em casa. Tenho? Sério, Paulo Cardoso? Tu também tens, Gustavo Carvalho? Não está completamente abolida. Está completamente fora do prazo. Está a água oxigenada.
Mas pronto, um analgésico. São calmantes. A escrita é um calmante para muitas das minhas dores. O racismo, obviamente, é uma delas. Mas muitas vezes uma certa...
Uma certa impotência pelo que vejo nas ruas e na nossa sociedade, na nossa sociedade aqui falo em particular de Portugal, agora não tanto, mas lembro-me de ter várias discussões com amigos meus sobre a habitação, sobre...
sobre os problemas que Portugal vai passando, sobre também o sistema bancário. Ou seja, estou a ir buscar não estes temas, mas estes tópicos, neste caso, porque muitas vezes são coisas que me dóem, ver o sofrimento, ver a dificuldade, como Portugal continua, a forma como Portugal continua a tratar as pessoas, com todos estes problemas, mas...
e muitas vezes em discussões e entrando em colisão chegado a casa é dessa forma que eu consigo pôr água oxigenada, o analgésico e escrever sobre aquilo, vomitar volto a repetir isto
a mandar para ali, a mandar para um caderno e a falar, e a escrever numa forma de de uma calmar, muitas vezes, com essa com essa instituição a escrita para mim tem muito essa essa função a calmar, a calmar a dor E ela muda dependendo do sítio onde tu estás? Portanto, quando estás em Lisboa ou quando estás no Mindelo?
No Mindelo, não tenho feito tanto isso. O Mindelo, sou mais observador. No Mindelo sou mais observador. Tento absorver-me mais durante o tempo que lá estou. Tento meter-me dentro das comunidades. Tento ir a tudo e a todos. Digamos assim, aqui não. Aqui sempre isolo-me muito mais. É até porque é mais fácil.
tem a ver com as sociedades aqui isolo-me muito mais para o fazer para colocar esses pensos na minha dor, para tentar estancá-la
E é circunstancial, ou seja, depende do momento, por exemplo, agora não o tenho feito, lá está, como tinha dito, mas vivemos novamente, nós estamos constantemente agora a viver uma constante torrente de imbecilidades. Exato. Às vezes é difícil acompanhar o número de imbecilidades que acontecem durante um dia.
e por isso é que eu agora nem tenho porque senão não tinha tempo para mim para estar mas é agarrante nessas imbecilidades que muitas vezes ponho-me a escrever e a para tentar acalmar para tentar
eu quero sentir-me em paz com o sítio onde estou neste momento porque não é fácil não é fácil e a escrita leva-me para esse lugar para esse porto seguro sai de lá normalmente mais descansado falaste em acalmar as dores e o que é que transmuta completamente o que é que cura o que é que cura? não sei Paula, desculpa desiludir-te não sei
É uma resposta super válida. Sim. Eu até agora, essas dores em particular, que falamos aqui dos problemas da sociedade, entre os quais o racismo e outras coisas, que são muitas, são variadas, elas não têm sido resolvidas. E, portanto, a erradicação dessa dor não se dá. Ela vai sendo acalmada, mas ela ressurge, e ressurge muitas vezes com força.
E portanto, parece que eu não te consigo responder. Andamos anestesiados no máximo. Anestesia, sim. Anestesia. Eu vou até aí. É aí que me é permitido ir. Eu não consigo erradicar como se erradica algumas doenças. Algumas delas voltam novamente. Algumas delas voltam novamente. Infelizmente. Exatamente.
Ai, Paula Cardoso, pois é. A Georgina tem sempre esta tarefa de encerrar. É horrível, é horrível. Vamos ter que mudar este papel. Não, não. Eu não sou professora, não sou professora nem a mãe. Portanto, eu sou a tia. A tia normalmente diz que há sempre tempo. Há sempre tempo. Para tudo, para mais uma Coca-Cola. Não me vão entalar agora com nada, pois não. Não.
Não, isso nunca é o nosso objetivo entrar lá ninguém com nada. Ainda, ainda. Pois. Quer dizer, isso não é verdade. O meu é. Não aqui. Aqui, aqui não. Aqui não. Aqui não. Agora na vida. Aqui não. Isso já são conversas para vinho negro no A Viaja das Horas. Passa publicidade. Exatamente.
No Mindelo Que maravilha Ou então podemos ir a Pontador Também a Moçambique Ou então mesmo no centro da cidade É uma cidade belíssima Vamos embora Temos que explorar E temos que estar bem Não só que estar anestesiados Mas a celebrar Isso é uma vibração muito boa
Ângelo Delgado, muito obrigada. Obrigado eu pelo convite. Foi mesmo muito bom conhecer-te e perceber um pouco mais sobre, não só a tua história, mas o teu processo criativo, enfim, aquilo que vais, por onde os teus pensamentos navegam.
Espero que tenham gostado também de me ouvir. Foi ótimo. Foi ótimo ter vindo cá. Gostei muito. E vamos nos vendo por aí, certamente. Vamos nos ver por aí. E também tem sido muito bom ler tudo aquilo que tu escreves. E isso grata também por esse contributo.
Obrigado. Obrigado a nós. Este episódio tem sonoplastia de Salomé Rita e Gustavo Carvalho, fotografia de Matilde Fieschi, capa de Tiago Pereira Santos e música original de Pedro Bernardino e Wilson Twice. A coordenação é de Joana Beleza e Yuri Lopes Pereira e direção de João Vieira Pereira. Eu sou a Georgina Angélica. Eu sou a Paula Cardoso. E estamos de volta na próxima semana. Até lá.
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