Episódios de ESPAÇO DO TERROR

30 MINUTOS DE TERROR - 3 RELATOS REAIS | EP.236

02 de maio de 202630min
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Participantes neste episódio1
L

Leonardo Rivera

Narrador
Assuntos4
  • A maldição de Dona IvoneDona Ivone · Amaldiçoamento
  • Cafeteria de EstelaCafé do Esquecimento · Dona Catarina
  • A bruxa do cemitérioLeonardo Rivera
  • Desaparecimento de Ana
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Há mais anos que consigo lembrar, eu costumava frequentar uma cafeteria localizada em um bairro antigo da minha cidade. Não é um lugar grande, tampouco tem luxos ou aquelas coisas que colocam nos cafés modernos para deixá-los bonitos. Lá, pelo que sei, ainda só servem café preto e algumas poucas opções para acompanhá-lo.

Tudo é simples, sem enfeites ou luzes chamativas. Nada que faça o lugar se destacar mais do que deveria. As mesas são de madeira, um pouco gastas pelo tempo, e as cadeiras rangem um pouco quando alguém se senta. Mas ninguém parece se incomodar com isso. Faz parte do charme do local. O café é forte, daqueles que despertam com um único gole.

Não é um café qualquer. Tem um sabor que fica na boca por um tempo, como se houvesse algo a mais que o tornasse especial. A dona do lugar se chama Estela, uma mulher que fala pouco, atende os clientes com poucas palavras e segue com seu trabalho. Não que seja grosseira, apenas séria e na dela. Nunca a vi envolvida em fofocas ou longas conversas.

Sua família tem essa cafeteria há muitas gerações e mesmo com as mudanças no bairro ao longo dos anos, o local permanece o mesmo. Nunca fizeram grandes reformas nem colocaram novidades para atrair clientes. E não precisam, pois sempre há pessoas entrando e saindo, algumas de passagem, outras que já frequentam há anos e não imaginam o dia sem a sua xícara de café.

No bairro, há quem diga que o café de Estela não é um café qualquer. Alguns garantem que, dependendo do grão usado, ele pode ajudar com certas coisas. Há quem entre com dor de cabeça e depois de alguns goles, diga que se sente melhor. Outros contam que chegaram gripados e no dia seguinte amanheceram bem. Um vizinho jurava que, depois de tomar um café ali, se livrou de uma dor nas costas que o atormentava há meses.

Sempre tinha alguém que dizia que era tudo coincidência, mas no fim, todos voltavam para mais uma xícara. Mas nem todos no bairro acreditavam nisso. Sempre há alguém que diz que tudo não passa de conversa fiada. Nesse caso, a mais teimosa era a dona Catarina, uma idosa que morava na casa ao lado. Nunca foi discreta sobre o que pensava e sempre que via Estela soltava algum comentário.

Segundo ela, Estela era filha do diabo. Dizia que à noite via luzes dentro da cafeteria, mesmo depois de fechada, que já tinha visto sombra se movendo lá dentro e que às vezes ouvia um murmúrio baixo quando tudo estava em silêncio. Ninguém acreditava nela, mas ela insistia. A maioria dizia que a senhora era louca, que sua idade já estava pesando e por isso dizia tantos disparates.

Um dia apareceu na cafeteria um homem que eu nunca tinha visto antes. Não parecia com os clientes habituais. Era mais jovem que a maioria e se vestia diferente, com roupas finas, como alguém que não era daquele bairro. Desde que atravessou a porta, Estela o olhou de um jeito estranho. Não disse nada nem fez gestos, mas parecia que sua presença a incomodava. O homem pediu um café e sentou-se em uma mesa próxima ao balcão.

Ele não parecia ter pressa para ir embora e observava cada movimento de Estela como se esperasse que ela falasse com ele. Ele não demorou muito para se apresentar. Disse que se chamava Marlon e que havia voltado depois de muitos anos porque sua avó, Dona Catarina, estava muito doente e precisava de alguém para cuidar dela. Muitos se surpreenderam ao ouvir seu nome, pois fazia tempo que ninguém sabia nada dele.

Dona Catarina sempre falava do neto, mas nunca dizia onde ele estava ou porque nunca a visitava. Agora que havia retornado, dava a impressão de que o fazia mais por obrigação do que por afeto. Mas o que mais chamou atenção foi que, em vez de cuidar da avó, ele passava o dia inteiro na cafeteria. Marlon não ia lá pelo café, e sim por Estela.

Estava claro que queria chamar sua atenção, mas ela não lhe dava bola. Às vezes respondia com o mínimo possível. Outras nem sequer olhava para ele. Com o tempo, ele deixou de ser apenas um cliente que perguntava sobre o café e tornou-se insistente. Já não se contentava em apenas observar Estela de sua mesa. Agora buscava qualquer pretexto para falar com ela.

Até que um dia, diante de vários clientes, disse algo que fez todos ficarem em silêncio. Ele afirmou que estava disposto a fazer qualquer coisa para que Estela lhe desse uma chance, que não importava o que fosse preciso, ele estava pronto para provar que falava sério. Estela parou o que estava fazendo, ergueu os olhos e o encarou por alguns segundos.

Ela disse que se ele realmente queria demonstrar que era capaz de qualquer coisa, deveria ir até a Serra do Bugio e trazer um café especial. Não era um café comum, daqueles vendidos em mercados. Chamava-se Café do Esquecimento e, segundo ela, só era produzido em uma comunidade onde os moradores não deixavam qualquer um entrar. O mais difícil não era chegar lá, mas convencer os locais a cederem o café.

Não havia outro meio de consegui-lo. Achei que aquilo não passaria de palavras, e que Estela dizia isso apenas para que ele a deixasse em paz. Afinal, quem iria até a serra apenas por um café que nem se sabia se existia? Eu pensei que no dia seguinte, ele voltaria à cafeteria como sempre, buscando outra forma de insistir. Mas não foi assim.

Disse que se Estela lhe desse um desafio, ele o cumpriria. Que não era homem de desistir e que não importava quanto tempo levasse, ele voltaria com o café em mãos. Alguns riram, outros acharam que ele estava brincando, mas na manhã seguinte ninguém mais o viu. Ele se foi. Passaram-se mais de duas semanas e sua avó faleceu por morte pulmonar.

Outras duas semanas se passaram, até que certa manhã algo estranho aconteceu. Antes mesmo de Estela abrir a cafeteria, um idoso apareceu na porta carregando uma caixa de madeira preta nos braços. Não bateu, não chamou e não disse nada. Apenas ficou ali esperando com os olhos fixos na porta. Quando Estela saiu e o viu, parou por um momento.

Não perguntou nada, apenas assentiu com a cabeça, fez um gesto para que ele entrasse e fechou a porta atrás dele. Eu estava por perto, vendo tudo da rua enquanto lia meu jornal. Não sei porquê, mas aquilo me deu uma sensação estranha. Não sei quanto tempo se passou, mas depois a porta se abriu de novo. O velho saiu, mas já não carregava a caixa. Quando a cafeteria reabriu, tudo parecia igual.

As pessoas entraram como sempre, pediram suas bebidas e sentaram-se às mesas. Mas havia algo novo, um café que antes não estava no cardápio. Não era apenas mais escuro, ele tinha um aroma único. As pessoas o cheiravam e ficavam em silêncio por um momento. Eu não provei, mas vi quando começaram a pedi-lo.

No primeiro gole tinham uma reação estranha, mas depois bebiam normalmente. Não diziam nada, mas seus olhos entregavam algo, como se estivessem revivendo o momento mais feliz de suas vidas. Dia após dia, mais gente o pedia. E Estela nunca disse de onde veio esse café. A essa altura, acho que já sabem onde quero chegar.

Pois é, ninguém sabe exatamente o que aconteceu com Marlon, mas eu tenho uma ideia. Acho que ele está morto e acho que alguma parte de seus restos foi usado para preparar esse café. Não quero saber se estou certo, mas estou quase certo de que estou.

O bairro em que cresci não era um lugar bom para as crianças. As ruas estavam cheias de lixo que se acumulavam e as pessoas em situação de rua representavam quase a maioria dos que viviam ali. As casas todas iguais se alinhavam uma após a outra, com janelas sujas e portas que pareciam querer cair ao abrir. Quando isso acontecia, eram substituídas por plásticos ou papelão.

O ar ali sempre cheirava a fumaça e a algo que eu não sabia nomear, mas que me deixava desconfortável, como se o bairro inteiro estivesse apodrecendo por causa da nossa própria imundice. Naquela época, minha mãe trabalhava o dia inteiro. Ela saía antes do amanhecer e voltava quando o sol já havia se posto, deixando meus irmãos e eu trancados em casa. Éramos pequenos, mas já sabíamos que o mundo lá fora não era seguro.

Eu sou o mais velho e sempre tentei manter todos entretidos. Geralmente inventávamos jogos, enquanto Ana, a irmã do meio, cuidava de Luiz, o mais novo. Eu tentava não pensar no que aconteceria se algo desse errado, pois sabia que outras crianças já haviam sido vítimas de tragédias por ali.

Eu sabia disso, mesmo sem ir à escola. Suponho que éramos espertos. A única pessoa que parecia se preocupar conosco era a dona Ivone. Ela morava no fim da rua, em uma casa que parecia ainda mais velha que as outras, com um jardim cheio de plantas secas e uma porta que sempre ficava entreaberta. Ali, um cão preto imenso e sinistro espiava para fora, sempre preso por uma corrente.

Dona Ivone costumava nos levar comida e doces, embora nossa mãe tivesse nos avisado para não confiar em estranhos. Eu deixava isso rolar porque Dona Ivone parecia inofensiva. Ela tinha um sorriso doce e uma voz suave que nos acalmava quando estávamos assustados. Ou pelo menos era o que pensávamos. Uma tarde, enquanto brincavamos na sala, ouvimos uma batida na porta.

Era Dona Ivone, trazendo uma sacola cheia de pão recém-assado. Ele sempre foi mais tímido e não gostava muito de conversar com pessoas mais velhas. Dona Ivone insistiu e quando Luiz continuou resistindo, algo mudou em seu rosto. O sorriso desapareceu e seus olhos tornaram-se frios. Venha, menino.

Sua voz já não era mais suave, agora era áspera e severa, como se a recusa de Luiz realmente a tivesse irritado. Antes que pudéssemos reagir, ela agarrou Luiz com uma força que parecia impossível para uma senhora daquela idade. Ela o colocou em um velho carrinho que trouxera consigo, onde carregava sacos de lixo. Em seguida, começou a empurrá-lo em direção ao terreno baldio no fim da vizinhança.

Luiz gritou, mas Ivone o silenciou com tapas. Fiquei tremendo de medo ao ver aquela velha levando meu irmão à força. Ana e eu corremos atrás deles, sem saber exatamente o que faríamos, mas com a certeza de que tínhamos que pegá-lo. Nas ruas só havia bêbados e drogados, que nem sequer compreendiam nossos gritos. Ninguém quis nos ajudar.

O terreno baldio era um lugar proibido para nós, pois os adultos sempre diziam que coisas ruins aconteciam ali. Mas não tínhamos escolha. Precisávamos salvar meu irmão. Chegamos a tempo de ver Ivone preparando algo com dificuldade no chão. Ela havia desenhado um círculo com carvão e pedras, cercado por latas acesas com óleo.

Na mão, ela segurava uma faca enferrujada e Luiz estava amarrado no centro do círculo chorando e pedindo ajuda. Solte ele! Gritei, mas Ivone apenas sorriu. Seus merdinhas! Agora é a vez de vocês. Assim não sentirão mais fome. Ela nos disse, afiando a faca na pedra.

Eu me lembro até hoje de estar apavorado, mas sem pensar duas vezes, peguei uma pedra do chão e a arremessei com força, atingindo a cabeça da Ivone. Ela caiu no chão, mas antes de conseguir se levantar, nos amaldiçoou com uma voz que não era humana. Eu quero vê-los queimados até os ossos. Ana pegou outra pedra, ainda maior, a arrastando com esforço.

Sem nenhum pingo de medo a deixou cair no rosto da Ivone, a matando. Eu verifiquei sua respiração. Ficamos assustados com o que havíamos feito, mas sabíamos que só estávamos protegendo nosso irmão. Não pensamos duas vezes e agimos rápido para esconder o que tínhamos feito. A enterramos ali mesmo em um buraco fundo e juramos nunca falar sobre o que havia acontecido.

Naquela mesma noite, os pesadelos começaram e eu soube, no fundo da minha alma, que Dona Ivone não tinha ido embora. A vida seguiu relativamente calma depois disso. Ninguém se preocupou com o desaparecimento de Dona Ivone, nem os catadores de lixo, nem os moradores de rua.

Sua casa, feita de entulho, foi esquecida e com o tempo desmoronou. O que fizemos caiu no esquecimento e continuamos vivendo na miséria. Nossa mãe nunca soube o que aconteceu e também nunca descobriu que aquela velha era algum tipo de bruxa. Na época, achávamos apenas que era uma mulher louca.

O terreno baldio, como era inabitado, não chamou a atenção de ninguém, mas a partir daquele momento vieram os pesadelos. Não eram sonhos comuns e não eram aqueles pesadelos infantis, onde monstros imaginários te perseguem. Esses eram diferentes, eram muito mais reais. Nos meus sonhos, Dona Ivone emergia da terra com seu corpo retorcido e coberto de barro vermelho.

Seus olhos brilhavam com uma luz que não era deste mundo, e suas mãos longas e ossudas se estendiam em minha direção. Fora isso, às vezes ouvia sua voz sussurrando que eu morreria queimado. Eu sempre acordava gritando, com o coração batendo tão forte que parecia prestes a explodir. Mas o pior não era o sonho em si, era o que vinha depois. Eu via coisas se movendo nos cantos da casa.

Ana ouvia gritos no meio da noite e sentia toques estranhos em sua pele. Ela escutava vozes dizendo coisas que ela não queria repetir. Luís, o mais novo, parou de falar completamente. Ele se trancava em sua casinha de colchão velho, cercado por brinquedos quebrados e outros que roubava dos quintais. Recusava-se a sair como se algo o esperasse lá do lado de fora.

Nossa mãe, exausta pelo trabalho, não entendia o que estava acontecendo. Ela achava que estávamos apenas com medo de histórias que inventamos. Mas eu sabia que não era assim. Ivone nos havia amaldiçoado e sua presença, embora não vêssemos, estava em todos os lugares.

No ar que respirávamos, nas sombras que se moviam quando ninguém estava olhando e, acima de tudo, no silêncio da noite, pois era nele que podíamos ouvir sua risada. Uma tarde, minha mãe chegou mais cedo do que o habitual. Ela reuniu todos nós na sala e disse que não podíamos continuar vivendo assim, que nos separaríamos por um tempo, até que as coisas se acalmassem.

Embora ela não soubesse a razão dos fenômenos, imaginava que era por conta do ambiente hostil em que vivíamos, mas nunca havíamos contado nada para ela. Eu iria morar com um tio em outra cidade, Ana seria enviada para a casa de uma comadre e Luiz ficaria com minha mãe por ser o mais novo. Isso não apenas daria um alívio para ela em relação a nós, mas também nos daria a oportunidade de viver um pouco melhor.

É para o bem de vocês, disse minha mãe com seus olhos cheios de lágrimas. Eu não queria ir embora, nem queria deixar meus irmãos, mas não tínhamos escolha. Na noite anterior à separação, Ana segurou meu braço, me olhou fixamente e disse. Não deixe que o mal vença. Não importa o que aconteça, não deixe que ela vença. Luiz, por sua vez, me abraçou forte.

Os anos passaram, mas os pesadelos nunca cessaram. Ivone nos perseguia, não importava para onde fôssemos. Ana escrevia cartas com frases pela metade, como se alguém a estivesse observando enquanto escrevia. Luiz, embora falasse pouco, nunca mencionava o que havia acontecido no terreno baldio, mas eu via na maneira como ele se sobressaltava com cada ruído quando estava em lugares escuros.

Tentei seguir em frente, mudei-me para outra cidade, consegui um emprego e tentei construir uma nova vida, mas aquela mulher não me deixava em paz. Todas as noites, seus olhos brilhavam nos meus sonhos e todas as manhãs eu acordava com a sensação de que algo me perseguia. Então um dia recebi uma ligação da minha mãe. Sua voz tremia e eu soube imediatamente que algo ruim havia acontecido.

Ana desapareceu. Ela não liga e não escreve há um bom tempo. Você precisa vir, filho. Eu não posso fazer isso sozinha. E assim eu voltei para aquele lugar onde tudo de ruim aconteceu em minha vida. A casa estava igual, mas o ar estava carregado de uma tristeza que eu sentia ali. Minha mãe me abraçou forte e, pela primeira vez em anos, senti-me como um filho novamente.

como uma criança assustada que não sabia como proteger aqueles que amava. Naquela noite, enquanto tentava descansar, ouvi uma voz no corredor. Era a voz da Ivone chamando meu nome. Me levantei da cama e saí para o corredor, mas como de se esperar estava vazio. Eu sabia que Ivone estava ali, me atormentando e me esperando.

Desta vez não havia escapatória. Sabia que se não fizesse algo nunca teria paz. Com o coração batendo forte e as mãos tremendo, decidi voltar ao lugar onde tudo começou. O terreno baldio ficava no final da rua, um lugar que os adultos ainda evitavam. Agora era um pedaço de terra seca e rachada, cercado por uma grade enferrujada. A última vez que estive lá foi para enterrar Ivone com meus irmãos.

Agora, anos depois, o lugar parecia ainda mais sinistro. O mato estava alto e o ar cheirava a podridão como se algo tivesse morrido e nunca tivesse sido enterrado. Eu levava uma lanterna que meu irmão havia deixado e uma pá, embora não soubesse exatamente o que esperava encontrar.

Meu plano era desenterrar seu corpo e dar fim nos restos. Algo dentro de mim dizia que precisava fazer isso, que precisava enfrentar meu medo e minha culpa. Caminhei lentamente até o centro do terreno, onde havíamos jogado o corpo em desnível. A terra estava dura e seca, mas comecei a cavar mesmo assim.

Não sei se era coisa da minha cabeça, mas a cada pá de terra removida, o ar ficava mais ruim de respirar. Minhas mãos tremiam, o suor escorria pela minha testa, mas eu não podia parar. Finalmente a pá bateu em algo sólido. Eram pedaços de pedra e ossos. Os afastei com cuidado e lá estava ela.

O corpo não havia se decomposto de forma normal. Estava seco como uma múmia. Seus olhos estavam fechados, mas sua boca estava levemente aberta, como se estivesse prestes a gritar. Aquilo não era normal. Aquilo não era natural. Tentei puxar o corpo, mas a terra parecia segurá-lo como se não quisessem soltá-lo. De repente, tive a nítida impressão de que um dos olhos daquela mulher se abriu.

Eram escuros como a noite, sem pupilas, sem vida, mas cheios de ódio. Não sei se foi imaginação ou realidade, mas vi o corpo começar a tremer e nisso eu corri. Não olhei para trás, mas sentia que algo me perseguia. Só parei quando cheguei em casa, onde minha mãe me esperava na porta. O que aconteceu, menino? Perguntou, mas eu não conseguia falar.

Estava tremendo e naquela noite não dormi. Fiquei acordado, sentindo a presença de Ivone em cada espaço do meu quarto. Eu sabia que não podia ficar mais ali e precisava levar minha mãe comigo. Ao amanhecer montamos uma bolsa e fomos procurar Ana. Após encontrá-la em situação deplorável embaixo da ponte da minha cidade, foi então que decidi contar tudo à minha mãe.

Não podia mais carregar esse segredo e contei sobre aquela tarde no terreno baldio e como uma maldição nos perseguiu desde então. Minha mãe ouviu tudo em silêncio e lágrimas nos olhos. Quando terminei, ela me abraçou e disse. Não foi culpa de vocês. Vocês eram apenas crianças. Era meu dever estar com vocês.

Ela me abençoou naquela noite com suas palavras cheias de amor e perdão, mas eu sabia que isso não seria suficiente. Hoje, apesar da distância, sei que ela nunca nos deixou e os pesadelos continuam. Quando fecho os olhos, vejo o esqueleto que deixei a céu aberto emergir da terra e vir atrás de mim.

Sei que os restos mortais dela foram levados pelas autoridades, mas meus irmãos e eu ainda carregamos o acontecido em nossas mentes. A maldição da dona Ivone ainda me persegue como no primeiro dia, e já tentei de tudo para me livrar dela.

Por favor, curta e se inscreva se você estiver gostando. Agora continuamos.

De todas as histórias de terror que eu poderia contar, a única que me faz suspirar é aquela que vivi na própria pele. Acho que minha inocência não me deixou perceber o que eu tinha diante dos meus olhos. E como eu era muito incrédulo sobre o que os outros me diziam, permaneci cético em relação ao tema do paranormal. Sou o Leonardo Rivera e esta é minha história. Eu tinha 13 anos quando aconteceu.

Eu morava em uma cidade do interior do Mato Grosso e passava muito tempo visitando a fazenda do meu avô. Ia de bicicleta quase todos os dias com meus amigos, porque gostávamos de brincar lá e ver todos aqueles animais. De vez em quando jantávamos lá e tudo mais. Na volta, sempre tínhamos que passar pelo cemitério, que não ficava dentro da cidade, mas nos arredores, perto das fazendas e do mato.

Naquela época, eu não tinha medo de voltar sozinho, nem mesmo à noite. Não porque me considerava corajoso, mas porque nunca tinha visto nada, até que numa ocasião eu voltava para casa quando a lua estava cheia e gigante. Ao passar pelo cemitério, vi uma senhora na entrada que, ao me ver, se aproximou e me fez frear, pois parecia querer algo. Com um sorriso lindo, disse que já havia me visto andando de bicicleta com meus amigos e achava incrível.

Retribuí a simpatia e depois continuei meu caminho como se nada tivesse acontecido. Quando contei para os meus amigos, um deles me disse, brincando que essa devia ser a bruxa que vivia no cemitério. Poucos a tinham visto, mas diziam que ela fazia muitas maldades com aqueles de quem não gostava. Os outros caíram na risada porque parecia uma história inventada.

Eu disse que ninguém acreditava naquilo e que ele deveria parar de falar bobagens. Dois dias depois, novamente voltava tarde da fazenda do meu avô e desta vez aquela senhora estava parada no meio do caminho. Ficou claro que esperava que eu parasse para ouvi-la novamente.

Eu parei e, quase sussurrando, ela me disse para não dar ouvidos ao meu amigo que ela não era perigosa para mim e que gostava muito de mim, ao contrário dele. Naquele momento, toda a minha tranquilidade sumiu. Ela não tinha como saber da conversa que tive com meus amigos. Eu não tive coragem de perguntar como ela sabia disso. Apenas a senti com a cabeça e fui embora o mais rápido possível.

Novamente contei a ele sobre ela, mas o clima ficou mais sério. Aquele que havia me alertado zombou da situação, dizendo que aquela bruxa era uma louca e que ela não teria coragem de fazer nada contra ele. Ele mencionou que seu avô era muito corajoso e que seria capaz de queimá-la se ela o tocasse. Essas palavras lhe custaram caro, porque apenas algumas semanas depois, ele desapareceu sem deixar rastro.

Sua bicicleta foi encontrada no mato, mas bem longe do cemitério, longe o suficiente para não relacionar uma coisa à outra. No entanto, na minha cabeça, a ideia de que aquela senhora estava envolvida não saía da minha mente. Então fui até a fazenda do meu avô e, de propósito, voltei tarde para ver se a encontrava no caminho. E assim aconteceu.

Ela me esperava com um sorriso e quando parei ao seu lado, não hesitou em nada. Ela mesma me disse que aquele meu amigo não falaria mais sobre ela, pois ela havia se livrado dele. Com medo e tremendo, perguntei se ela sabia onde ele estava e foi quando ela me propôs entrar no cemitério para descobrir. Ela me acompanhou, entramos e me levou até um local onde havia um grande buraco.

Quando olhei para dentro, vi meu amigo dentro de um caixão sem tampa, com os olhos fechados e coberto de terra. Nunca soube se ele estava vivo ou morto. Quando a senhora começou a rir, saí correndo sem olhar para trás. Subi na bicicleta e pedalei até estourar a corrente. Ao chegar à cidade, avisei minha família, que imediatamente avisou a família do meu amigo.

Mais de 20 pessoas foram até o cemitério para procurá-lo, mas não encontraram nada. Nem a senhora, nem o buraco. No entanto, não me tomaram como louco, porque encontraram a tampa do caixão, exatamente como eu havia descrito. Eles cavaram na área que indiquei, mas meu amigo não estava lá, nem em lugar nenhum.

Nunca mais o vi, nem a suposta bruxa. E digo suposta porque facilmente ela poderia ser outra coisa. A partir desse dia, comecei a acreditar em todas essas coisas e nunca mais voltei tarde da fazenda do meu avô. Pelo menos não sozinho.

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