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Naruhodo Entrevista #71: Karina Possa Abrahão

06 de julho de 20261h35min
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Na série de conversas descontraídas com cientistas, chegou a vez da Professora, Biomédica, Mestra e Doutora em Psicobiologia, com pós-doutorado no NIH dos EUA, Karina Possa Abrahão.

Só vem!

>> OUÇA (95min 03s)

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Naruhodo! é o podcast pra quem tem fome de aprender. Ciência, senso comum, curiosidades, desafios e muito mais. Com o leigo curioso, Ken Fujioka, e o cientista PhD, Altay de Souza.

Edição: Reginaldo Cursino.

http://naruhodo.b9.com.br

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Karina Possa Abrahão é formada em Biomedicina pela Universidade Federal de São Paulo (2005), possui mestrado (2008) e doutorado (2012) em Psicobiologia também UNIFESP.

Entre 2010 e 2011, fez um doutorado sanduíche na Wake Forest University, EUA. Fez seu primeiro pós-doutoramento no Departamento de Farmacologia da USP e depois passou mais 5 anos como Pós-doutora no NIH (2013-2018), EUA.

Essa formação propiciou uma vasta experiência no estudo de comportamentos impulsivos, formação de hábito e tomada de decisão, além do uso de animais transgênicos e técnicas de eletrofisiologia e fotometria para a compreenssão da função dos Núcleos da Base e dos efeitos neurobiológicos do álcool. Tem vasta experiência da área de Psicobiologia e Neurofisiologia.

Atualmente é Professora Adjunta do Departamento de Fisiologia da UNIFESP e orienta pelo programa de pós-graduação em Psicobiologia da mesma instituição.

Tem interesse na área de neurobiologia da tomada de decisão, sobretudo as escolhas arriscadas, e como o álcool pode afetar esses comportamentos.

Utiliza técnicas de farmacologia, imunofluorescência, eletrofisiologia celular, optogenética, quimiogenética, fotometria e comportamento para desvendar a cascata de eventos neurais associadas às escolhas arriscadas.

Sempre buscou integrar o desenvolvimento científico à comunicação científica, tendo fundado diferentes canais de divulgação como o Prisma Científico, o Eureka Brasil e, mais atualmente, o NeuroAthens. Site do laboratório: abrahaolab.com

Bem recentemente, começou um trabalho dentro da FAPESP (FUndação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo), como assessora científica interna.

Lattes: http://lattes.cnpq.br/1245502652994136

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O Altay e eu temos duas mensagens pra você.

A primeira é: muito, muito obrigado pela sua audiência. Sem ela, o Naruhodo sequer teria sentido de existir. Você nos ajuda demais não só quando ouve, mas também quando espalha episódios para familiares, amigos - e, por que não?, inimigos.

A segunda mensagem é: existe uma outra forma de apoiar o Naruhodo, a ciência e o pensamento científico - apoiando financeiramente o nosso projeto de podcast semanal independente, que só descansa no recesso do fim de ano.

Manter o Naruhodo tem custos e despesas: servidores, domínio, pesquisa, produção, edição, atendimento, tempo... Enfim, muitas coisas para cobrir - e, algumas delas, em dólar.

A gente sabe que nem todo mundo pode apoiar financeiramente. E tá tudo bem. Tente mandar um episódio para alguém que você conhece e acha que vai gostar.

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É isso, gente. Estamos enfrentando um momento importante e você pode ajudar a combater o negacionismo e manter a chama da ciência acesa. Então, fica aqui o nosso convite: apóie o Naruhodo como puder.

bit.ly/naruhodo-no-orelo

Participantes neste episódio3
A

Altay de Souza

Hostjornalista
K

Ken Fujioka

HostPublicitário
K

Karina Possa Abrahão

ConvidadoBiomédica, Professora
Assuntos6
  • O Papel do Álcool e ComportamentoEfeitos neurobiológicos do álcool · Variabilidade individual na resposta ao álcool · Sistema dopaminérgico e predição de erro · Sistema opioidérgico e dependência · Controle inibitório e consumo de álcool
  • Trajetória profissional e acadêmicaConcursos públicos e estabilidade · Projeto Jovem Pesquisador da FAPESP · Importância da FAPESP para a ciência · Gestão de laboratório e financiamento · Avaliação da qualidade científica
  • Intercâmbio no exteriorDoutorado sanduíche na Wake Forest University · Aprendizado da técnica de patch clamp · Superação da barreira do idioma (inglês) · Pós-doutorado no NIH (National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism) · Ciência Sem Fronteiras
  • Comunicação CientíficaFundação do Prisma Científico · Canais de divulgação científica (Eureka Brasil, NeuroAthens) · Importância da comunicação da ciência · Desmistificação da dopamina
  • Tomada de DecisãoEscolhas arriscadas · Influência do álcool nas decisões · Núcleos da base e suas funções · Técnicas de neurociência (eletrofisiologia, fotometria)
  • Hobbies e Estilo de VidaMúsica e conservatório musical · Banda Os Insolúveis · Dança de forró · Equilíbrio entre vida profissional e pessoal
Transcrição229 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
KPKarina Possa Abrahão

Ele falou, mas você vai ser o quê fazendo física? E aí eu não sabia direito que na época, se eu fizesse física, capaz que eu chegaria no mesmo lugar que eu tô hoje. Mas na minha cabeça eu entendi que eu iria ser professora. Eu escolhi fazer biomedicina na Universidade Federal de São Paulo porque era o curso que na minha cabeça tinha mais a ver com a área de saúde médica. A farmácia, a bioquímica, Tinha muita coisa de química, que não era um problema, mas não era algo que tava me chamando tanta atenção naquele momento.

E até hoje confesso que eu não me arrependo e que é um curso assim fenomenal. Hoje em dia eu dou aula nesse curso, então me sinto uma privilegiada de ter escolhido esse caminho. Sabe aquela coisa meio óbvia? Terminei a biomedicina, era comum todo mundo ir para o mestrado. Na minha época. Então essa facilidade de não precisar procurar outras coisas também acabou me empurrando. Na época, né, o governo tinha um movimento enorme, muito importante de internacionalização da ciência, era do governo Lula e depois a Dilma, que fez um programa chamado Ciência Sem Fronteiras, onde estudantes de graduação, pós-graduação e pós-doc conseguiam bolsas brasileiras para ir se formar no exterior.

E aí eu aproveitei essa oportunidade que foi assim única, exclusiva, maravilhosa.

?Voz B

Naruhodo entrevista Karina Poça Abraão. Ilustríssimo ouvinte, ilustríssimo ouvinte do Naru Rodô, o Altair e eu temos duas mensagens para você. A primeira é muito, muito obrigado pela sua audiência. Sem ela, o Naru Rodô sequer teria sentido de existir. Você nos ajuda demais, não só quando ouve, mas também quando espalha episódios para familiares, amigos e, por que não, inimigos. A segunda mensagem é: existe uma outra forma de apoiar o Naru Rodô.

A ciência e o pensamento científico, que é apoiando financeiramente o nosso projeto de podcast semanal independente, que só descansa no recesso do fim do ano. Manter o Narodô tem custos e despesas: servidores, domínio, pesquisa, produção, edição, atendimento, tempo, enfim, muitas coisas para cobrir, e algumas delas em dólar. A gente sabe que nem todo mundo pode apoiar financeiramente, e tá tudo bem. Tente mandar um episódio pra alguém que você conhece e acha que vai gostar.

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Ilustríssimo ouvinte, ilustríssimo ouvinte, seguimos com a série Narodô Entrevista, que está trazendo conversas descontraídas com cientistas brasileiras e brasileiros que contam sobre suas trajetórias, seus pensamentos e seus campos de atuação. Neste episódio vamos falar com a Karina Poça Abraão. Karina Poça Abraão é formada em biomedicina pela Universidade Federal de São Paulo, possui mestrado e doutorado em psicobiologia também pela UNIFESP.

Entre 2010 e 2011 fez um doutorado sanduíche na Wake Forest University nos Estados Unidos. Fez seu primeiro pós-doutoramento no Departamento de Farmacologia da USP, depois passou mais 5 anos como pós-doutora no NIH nos Estados Unidos. Essa formação propiciou uma vasta experiência no estudo de comportamentos impulsivos, formação de hábito e tomada de tomada de decisão, além do uso de animais transgênicos e técnicas de eletrofisiologia e fotometria para a compreensão da função dos núcleos da base e dos efeitos neurobiológicos do álcool.

Tem vasta experiência na área de psicobiologia e neurofisiologia. Atualmente é professora adjunta do Departamento de Fisiologia da UNIFESP e orienta pelo programa de pós-graduação em psicobiologia da mesma instituição. Tem interesse na área de neurobiologia da tomada de decisão, sobretudo as escolhas arriscadas, e como o álcool pode afetar esses comportamentos. Utiliza técnicas de farmacologia, imunofluorescência, eletrofisiologia celular, optogenética, quimiogenética, fotometria e comportamento para desvendar a cascata de eventos neurais associadas às escolhas arriscadas.

Sempre buscou integrar o desenvolvimento científico à comunicação científica, tendo fundado diferentes canais de divulgação como Prisma Científico, o Eureka Brasil e mais atualmente o Neuro Athens, site do laboratório, abraaomlab.com. Bem recentemente começou um trabalho dentro da FAESP, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, como assessora científica interna. Vamos então para a conversa com a Karina. Karina, muito obrigado por ter topado falar com a gente aqui no Narodô.

Dê aí seu primeiro salve para as nossas ouvintes e para os nossos ouvintes, Karina.

KPKarina Possa Abrahão

Muito obrigada pelo convite, é uma honra. É um podcast que eu ouço bastante nas minhas horas vagas, lavando uma louça, limpando a casa e fazendo experimento, mesmo agora como professora. Então, para mim, que é uma honra, tô muito feliz de estar aqui.

?Voz B

Ah, perfeito, Karina. Aonde você se encontra no momento, Karina? Em que cidade?

KPKarina Possa Abrahão

Eu estou em São Paulo, capital. Tô gravando aqui da minha casa para evitar barulho.

?Voz B

Tá certo, eu perguntei porque a Karina viaja, viu? Essa mulher viajou durante a vida e a gente vai falar sobre essas aventuras também. Mas antes disso, Karina, eu vou começar com você como eu começo com todo mundo que eu converso aqui no Narodô. Eu quero saber quando você nasceu, onde você nasceu e em que contexto familiar, socioeconômico você nasceu, Karina.

KPKarina Possa Abrahão

Eu nasci em 1983.

?Voz B

83, uma menina, uma menina, uma garota.

KPKarina Possa Abrahão

Olha aí, 9 de fevereiro, plena quarta-feira de cinzas de um carnaval. Isso já diz muito da minha personalidade, que a gente pode embutir aí, né? Eu nasci em Osasco, aqui no estado de São Paulo, colado em São Paulo.

?Voz B

Olha só, eu cresci em Osasco, sabia? Eu cresci no 18. Você cresceu em Osasco aonde?

KPKarina Possa Abrahão

Não, eu só nasci.

?Voz B

Ah, você só nasceu? No Hospital das Damas?

KPKarina Possa Abrahão

No Hospital das Damas.

?Voz B

Olha só, minha irmã nasceu no Hospital das Damas também.

KPKarina Possa Abrahão

Olha, coincidência! É, mas aí meus pais, meu pai trabalhava num banco, na época chamava Banco Real, veio a virar o atual Santander. Minha mãe, ela começou vendendo roupas de sacoleira de porta em porta e até hoje trabalha com isso, mas com uma loja de confecção. Então ela é uma vitoriosa, uma mulher bem avançada, né?

?Voz B

Que legal!

KPKarina Possa Abrahão

Eles vieram, meus pais, do interior de São Paulo, de uma cidadezinha perto de Ribeirão Preto chamada Jardinópolis. E também tinham relação com Brodowski, que é a terra de Cândido Portinari. Uau! Bem legal. E meus pais foram assim pessoas que mudaram de vida na época deles, porque saíram de famílias que não ganhavam uma Coca-Cola no Natal para conseguir dar a mim e ao meu irmão. Tenho um irmão 3 anos mais novo que eu, é uma vida mais confortável.

Então eu fiz escola particular. E isso me ajudou bastante até a passagem pro vestibular numa universidade federal.

?Voz B

Certo. Ô, Karina, e como é que foi a sua infância? Você falou que nasceu em Osasco. Você cresceu exatamente em que bairro e como é que foi a sua infância assim?

KPKarina Possa Abrahão

Eu cresci no bairro do Butantã, que é bastante famoso na Zona Oeste.

?Voz B

Ah, você já cresceu perto da USP então, é isso? Exato.

KPKarina Possa Abrahão

Já comecei ali na boca do gol da USP. E eu estudei numa escola chamada Joana d'Arc, que tá fechando inclusive, eu tenho alguns contatos.

?Voz B

Tá fechando, é mesmo?

KPKarina Possa Abrahão

É, tá fechando. E foi uma infância bastante viva, no sentido que eu brincava muito na rua, eu era sempre da turma da molecada, andava muito de bicicleta ali no bairro e os meus pais Levavam a gente bastante, eu e meu irmão, pra USP. Na época, a gente escorregava de papelão na grama da USP, assim, no barranco. Era essas coisas que a gente fazia. E além disso, eu também fui bastante influenciada por ir muito pro interior. Então, minhas férias, por exemplo, eu ia pra casa da minha avó, dos meus avós, lá em Jardinópolis, e passava o tempo todo lá.

Então, vivenciei a minha infância e um pouco da minha adolescência Aquele ambiente do interior que todo mundo se conhece, todo mundo cresce junto. Então acho que foi bastante rico assim. Eu não tenho muitas reclamações, eu lembro com muito carinho.

?Voz B

É, parece que são só boas memórias assim, né? Quem morava no Butantã usava o campus da USP como o seu parque, é isso?

KPKarina Possa Abrahão

Muito! A gente andava de bicicleta. Eu também entrei, já na época eu tinha asma, né? Era aquela criança que não conseguia, era rinite, sinusites, ites. Minha mãe me inscreveu num programa da USP de pesquisa que eu participava lá do centro esportivo de lá, de ginástica olímpica, e quando tinha sol, de natação. Então também usava a USP nesse sentido para fazer.

?Voz B

Você já era usuária da USP antes de ser aluna da USP? É isso?

KPKarina Possa Abrahão

Exatamente, eu já tava lá por todos os cantos, achava tudo lindo, inclusive.

?Voz B

Perfeito. Ô, Karina, me fala uma coisa aí da infância para adolescência. Na adolescência aconteceu alguma coisa que já deu uma dica sobre o seu futuro?

KPKarina Possa Abrahão

Aconteceu uma coisa da infância para adolescência. Eu comecei, meu pai sempre falava, olha, filha, você precisa aprender inglês. Porque na época, hoje eu brinco com meus alunos, já precisa aprender mandarim, mas na minha época era inglês. E aí, só que eu não gostava de inglês, eu era péssima com inglês, era muito ruim mesmo. E a minha mãe era mais da, acho que mais da arte, mais solta. Ela falou, então vai fazer música. Então eu fui, entrei no conservatório musical que chama Conservatório Musical do Butantã.

Eu estava provavelmente ali na 4ª série, 5ª série da época do ensino fundamental. E aí, amor, aí eu fiz anos de conservatório musical.

?Voz B

É mesmo? Que instrumento?

KPKarina Possa Abrahão

Teclado.

?Voz B

Teclado, tá.

KPKarina Possa Abrahão

Mais para frente eu conto uma história que eu tenho uma banda agora.

?Voz B

Ah, você tá brincando? Vai, eu vou querer saber sim, vou querer saber. Segura essa informação, tá bom? Segura, segura.

KPKarina Possa Abrahão

Depois aqui da nossa gravação tem ensaio. Olha só que legal!

?Voz B

Aí sim, é.

KPKarina Possa Abrahão

Aí, ao fazer música, eu também tinha em paralelo a isso uma paixão enorme por Tchan, tchan, tchan, tchan! Física na escola.

?Voz B

Física, olha só!

KPKarina Possa Abrahão

E eu tive um professor espetacular. Aí vem o meu amor aos professores. Eu acho que eles fazem toda a diferença na nossa vida. Professor Mário, ele era professor de física lá na escola, no Joana d'Arc, e ele via que eu tinha uma facilidade, que eu gostava muito de física. E eu também encarava a música com muito da matemática e da física, porque eu não né, para quem não é da área musical, muitas métricas musicais vêm da física e da matemática, sem dúvida.

Então isso fez com que meu cérebro assim na época começasse a entender que eu queria seguir áreas mais da ciência, das STEMs, né. Na época eu não sabia esse nome, mas eu queria essa área. E o meu primeiro sonho foi, então vou fazer física de faculdade.

?Voz B

Vou fazer física.

KPKarina Possa Abrahão

Aí meu pai, sempre muito preocupado com o futuro, meu pai muito pé no chão em relação a dinheiro, né, a gente tem que defender o nosso. Ele falou, mas você vai ser o quê fazendo física? E aí eu não sabia direito que na época, se eu fizesse física, capaz que eu chegaria no mesmo lugar que eu tô hoje. Mas na minha cabeça eu entendi que eu iria ser professora. E professor, mesmo que naquela época já era considerado uma profissão desvalorizada, que é uma pena.

?Voz B

Verdade. Eu não peguei a profissão de professor valorizada, pra te falar a verdade, viu, Karina?

KPKarina Possa Abrahão

Pois é.

?Voz B

Eu acho que foi antes da minha geração.

KPKarina Possa Abrahão

É.

?Voz B

E olha que a minha geração ainda é mais velha que a sua, então faz tempo.

KPKarina Possa Abrahão

Não é tão mais velha assim, tá?

?Voz B

É, sim, é, sim.

KPKarina Possa Abrahão

Aí eu acho que nessa época eu achei, poxa, se eu fizer isso, eu acho que eu vou ter dificuldades e tal financeiras. Minha mãe insistindo pra eu fazer música na USP.

?Voz B

A sua mãe sempre com a cabeça lá na frente.

KPKarina Possa Abrahão

É, minha mãe totalmente. E aí eu falei, ah, então eu vou fazer medicina. Porque era uma pessoa totalmente sem saber o que eu queria da vida.

?Voz B

Não é? É, eu tô entre física e medicina.

KPKarina Possa Abrahão

Era isso. Hoje eu falo muito com os meus alunos assim, eu falo, olha, as decisões vão sendo tomadas quase que organicamente, você não sabe direito como vai ser.

?Voz B

E aí uma hora a gente supervaloriza a nossa influência nas nossas próprias vidas.

KPKarina Possa Abrahão

E hoje em dia eu vejo uma ansiedade grande, né, em saber o que tem que fazer. Eu falo, ai, galera, eu tenho 43 anos ainda, às vezes sei. Então vamos embora, só vai seguir que dá bom. Aí beleza, vamos fazer medicina. Eu era uma adolescente muito estudiosa, eu era do grupo dos nerds da escola.

?Voz B

Medicina não te parecia uma coisa distante então?

KPKarina Possa Abrahão

Não, porque eu já era há muitos anos aquela que tirava nota 10 na escola. E a minha escola era uma boa escola e incentivava a gente a fazer os cursos mais concorridos. Não era algo que daria medo, pelo menos não no contexto que eu estava. E aí eu falei, tá bom, então vou fazer medicina. Tinha uma grande amiga, que é minha amiga até hoje, a Luciana Correia. Ela é atualmente médica. Que ela falou, vamos as duas serem médicas. E começou essa história da colega.

E aí comecei a estudar para isso, cheguei ao terceiro colegial e ganhei uma bolsa no cursinho pré-vestibular. E então eu estudava na escola de manhã e fiz cursinho à tarde. Não serviu para nada, só fui ruim nos dois, porque aí meu desempenho caiu.

?Voz B

Tá, entendi. Você foi mal no terceiro ano, não conseguiu estudar o cursinho direito, não aconteceu nada.

KPKarina Possa Abrahão

Aí, mas prestei medicina e obviamente não passei. Mas me serviu para conseguir uma bolsa no cursinho pré-vestibular no ano seguinte, que aí eu fui fazer só cursinho. E nesse ínterim fiz os cursinhos voltado a fazer medicina. E um dia fui com a minha mãe numa médica dela, inclusive uma ginecologista. E minha mãe, na época daquele orgulho de mãe, ai, minha filha quer ser médica, né? Contava isso para todo mundo. E essa ginecologista, provavelmente já muito assim trabalhada, sabia, calejada, calejada, essa é a palavra.

Ela virou para mim e falou, ai, que lindo! Geralmente quem tá aqui prestando medicina tem um pequeno sonho inicial. E aí, para surpresa da minha mãe, da médica, eu falei, ah, eu quero descobrir remédios para curar doenças. Aí a médica olhou para mim e falou, então, querida, Tem uns caminhos mais curtos para você fazer aí. Você gosta de pessoas, de pacientes? Eu falei não, não, eu era meio antissocial, certo? Vou deixar claro aqui, me desculpa, tô sendo sincera.

?Voz B

Sim, por favor.

KPKarina Possa Abrahão

Aí eu era meio antissocial, era aquela nerd tímida, eu tive muito, eu não conseguia conversar com as pessoas. Né, fui dar o meu primeiro beijo na boca muito tarde, eu era bem assim, assim, ó. E aí ela olhou para mim e falou, não, então é difícil ser médico sendo asocial, né? É. Aí ela falou, olha, procura alguns outros cursos. E nisso ela me indicou o curso de biomedicina, que na época se prestava o vestibular junto com a famosa FUVEST.

Então você escolhia entre os cursos lá que agrupava o vestibular da USP, da UNIFESP, da Universidade Federal de São Paulo, e da Santa Casa também, na época. E aí eu olhei e falei, poxa, esse é até menos concorrido. Comecei a pesquisar, pesquisar, e comecei a reparar que não era medicina que eu queria fazer. E a partir daí comecei a sofrer uns preconceitos dos professores da escola. Sim. Achando que eu tinha desistido de fazer...

A escola já tinha passado, mas eu tinha contato ainda porque eu era monitora de física. Eu ia lá na escola dar monitoria de física. Ah, você deve estar com medo de não fazer medicina e tal. Pois aí, como eu sou meio— não duvidem que eu vou lá e faço esse treco arraigado em mim. Eu prestei biomedicina na Unifesp porque o vestibular separou naquele ano. Na USP eu prestei farmácia e bioquímica porque eu achei que tinha a ver com fazer remédios para curar doenças. E na Unicamp eu prestei medicina.

?Voz B

Mas na sua cabeça já tava aquele propósito de criar remédios pra curar as pessoas?

KPKarina Possa Abrahão

E aí nesse ínterim eu tinha a influência, agora é muito antiga, acho que os novos não vão entender, do mundo de Bikman.

?Voz B

Sim, ó, você sabe que a galera entende, viu? Assim, eu não sei se é porque tá no YouTube agora, sabe as coisas. Pode ser, vai ver isso, é, vai ver isso.

KPKarina Possa Abrahão

Então assim, eu queria ser o Bikeman, certo? E aí, lembra do rato do Bikeman? Sim, acho que era, é, não lembro também exatamente. Eu queria ter os ratos, queria estudar os ratos, começou aí. Aí então eu já tinha certeza que o vestibular tinha que ser para isso. A medicina na Unicamp foi quase que um Vamos ver se eu não consigo passar. E lá também não tinha nenhum curso que me atraía nesse sentido da área de pesquisa em saúde, porque a Unicamp não tinha um curso dessa área e biologia era uma coisa que eu não ia fazer.

Aí eu passei em todos, menos no Botucatu. Aí escolhi fazer biomedicina na Universidade Federal de São Paulo porque era o curso que na minha cabeça tinha mais a ver com a área de saúde médica. A farmácia, a bioquímica Tinha muita coisa de química, que não era um problema, mas não era algo que tava me chamando tanta atenção naquele momento. E até hoje confesso que eu não me arrependo, sou feliz da vida, tenho muito orgulho de ter feito biomedicina na Escola Paulista de Medicina, na UNIFESP, até porque foi onde foi criado o curso pelos professores Léo Prado lá atrás e Iberê do Vale, e que é um curso assim fenomenal.

Hoje em dia eu dou aula nesse curso, então me sinto uma privilegiada. Ter escolhido esse caminho.

?Voz B

Karina, eu queria que você voltasse um pouquinho no tempo e me falasse como é que foi o dia em que você viu que tinha passado na FUVEST.

KPKarina Possa Abrahão

É, esse dia talvez seja o dia mais vívido na minha memória. Tenho meu hipocampo tá brilhando, região do cérebro da memória. Os pais, como eu comentei antes, viajava muito para o interior para ver os familiares e eu sempre ia junto. Nesse dia que ia sair, primeiro que saiu o vestibular da Unesp antes do Carnaval e eu não tinha passado, fiquei muito triste. E os resultados da USP, da UNIFESP sairiam depois do Carnaval, tava nessa época, né, do início do ano, né, o vestibular tinha sido um pouco antes.

Isso já segunda fase, né, o ponto final ali de passei ou não passei. E eu lembro exatamente que o dia que ia sair, a gente estava voltando do interior, era um domingo, tá, de carro. E naquela época não tinha internet, né, não era assim, o celular era um celular antigão, não era esse que você consulta tudo online.

?Voz B

Exato, era um celular para fazer ligação telefônica.

KPKarina Possa Abrahão

Exato, jogar aquele joguinho da cobra, o jogo da cobrinha. Aí eu tinha que chegar em São Paulo com os meus pais e ir até um dos cursinhos pré-vestibulares para ver nome em lista, porque eles pregavam, né, colavam a lista nas paredes dos cursinhos, ou você tinha um amigo que ia lá ver. Pois eu voltei nessa viagem com os meus pais ansiosíssima e deu uma chuva daquelas tempestades de São Paulo que alagou tudo na época. E a gente ficou parado num trânsito absurdo.

Então eu não conseguia chegar em São Paulo e eu não conseguia ter contato com ninguém. Eu sei que eu tive que esperar até muito tarde até chegar na casa dos meus pais para conseguir telefonar para algumas amigas minhas que tinham ido até o cursinho que eu fazia ver. E aí elas falaram que não tinham visto o meu nome. Aí eu falei, mas por que eu não passei? É porque vocês não procuraram. Ela, porque a gente não procurou, a gente achou que ia estar lá.

Eu, pois é, tive que esperar mais um pouco. A energia tinha acabado na casa dos meus pais, eu lembro disso muito vividamente. A energia voltou, a gente já tinha internet, e aí sim eu consegui entrar na internet num computador, naqueles antigões. E aí eu consegui ver meu nome, então foi Eu lembro dos meus pais chorando, eu chorando muito. Às vezes eu vejo muito dos vídeos atualmente que as pessoas filmam, né, a reação da família vendo, e foi idêntica.

Eu lembro dessa cena porque eu sou a primeira da família inteira a fazer uma universidade pública. Então meus pais estudaram, eles fizeram faculdade, mas eles fizeram trabalhando e pagando. E eles não fizeram a faculdade necessariamente dos sonhos, eles fizeram a que eles podiam pagar. O meu pai fez matemática e minha mãe fez ciências sociais.

?Voz B

Ou seja, não necessariamente eles acabaram trabalhando também com o que estudaram.

KPKarina Possa Abrahão

Exatamente. Então eu era a primeira que ia fazer um curso integral, né?

?Voz B

Certo.

KPKarina Possa Abrahão

Então isso foi algo—

?Voz B

é, isso para família acaba, pode ser revolucionário, né?

KPKarina Possa Abrahão

Pode. Eu tinha uma boa condição, né? Eu acho que hoje em dia tem estudantes entrando na faculdade que precisam mais do que eu precisava, mas mesmo assim foi uma mudança de paradigma na minha família.

?Voz B

Sem dúvida. Ok, ô Karina, agora você entrou então na USP, na biomedicina, perdão, na UNIFESP, na biomedicina, a USP veio mais pra frente, né, na hora de trabalhar. E aí você entra então nesse universo acadêmico. Né? Você é uma pessoa que já entrou na universidade já com a cabeça de uma cabeça meio de pesquisadora. Você já tinha um sonho de pequena de ser professora, né? Como é que foi a realidade assim na faculdade, né? A realidade, ela reforçou esse seu desejo ou te deixou em dúvida?

KPKarina Possa Abrahão

O primeiro ponto é que eu fiz uma decisão pessoal de não ser mais tímida e nerd ao passar no vestibular. Isso é muito importante, até para eu estar aqui conversando com você. A ponto que meus pais dizem que não conseguem conectar a Karina antes e depois da faculdade, porque eu de fato era nerd, era tímida, não conseguia conversar com ninguém, não tinha amigos, aquela coisa toda. E na faculdade falei, não, agora Eu vou ser a popular.

?Voz B

Como é que foi isso? Você simplesmente olhou no espelho e falou, vou mudar?

KPKarina Possa Abrahão

Eu pensei assim, eu falei, olha, lá ninguém me conhece, né? Novas pessoas vindo de outras cidades. Aí eu falei, então eu posso ser quem eu quiser.

?Voz B

Ah, é a chance de você vestir uma nova personalidade.

KPKarina Possa Abrahão

Exatamente. E aí vesti. Então eu, de toda introvertida que eu era, eu vesti uma personagem extrovertida e que ia jogar truco no centro acadêmico e que ia me divertir a todas as festas, todas as festas. E aí, como eu não tinha tido essa popularidade, essa amizade antes, eu entrei na faculdade e relaxei. Falei, ah, vou estudar. Mas eu vou me divertir. Então, de início, eu não tava com essa cabeça de cientista, não. Eu tava jogando truco no centro acadêmico, curtindo tudo quanto é festa, fazendo amizade, namorando, essas coisas.

?Voz B

Tá bom. Levando a sério aquela decisão de não ser mais a tímida do rolê.

KPKarina Possa Abrahão

Isso. E aí, isso pode parecer, nossa, relaxou pra ser cientista. Só que indiretamente isso me ajudou. Porque eu comecei a ter mais amizades e contato com os veteranos da faculdade. E aí, conforme eu via os meus colegas procurando iniciações científicas, eu comecei a perguntar, Flash, poxa, agora que tá todo mundo fazendo, acho que eu preciso fazer, tem que parar com essa história de jogar truco. Aí, como eu tinha amizades, eu conseguia visitar vários laboratórios.

Então isso me ajudou, porque eu conhecia muitas pessoas E aí eu comecei a frequentar laboratórios esporadicamente só para dar aquela olhada em que que era feito ali, junto com os veteranos dos anos mais velhos ali da faculdade, né, o terceiro ano, quarto ano da faculdade. E aí isso foi muito importante porque a minha geração foi a geração que ficou encantada com a genômica, porque estavam decifrando, né, o código de DNA de vários seres vivos, inclusive dos humanos.

E aí a primeira coisa, falar, tá bom, vamos ver isso que parece legal. Achei uma porcaria. Ai, colocava amostra no aparelhinho lá e aí ia sair uns picos dizendo A, T, G, que são, né, as cadeias. Mas que coisinha chata, insuportável. Aí um outro colega falou, ah, vamos lá ver o meu estágio, eu faço cultura de células. Eu falei, nossa, Que coisa chique, né? Um biomédico. Fui ver, gente, uma aguinha chacoalhando no que a gente chama de shaker, uma garrafinha com aguinha chacoalhando.

E aí você tem que ir lá trocar o tal do meio, trocar, né, o lugar que as células vivem todos os dias. Fui, mas é muito chato também, insuportável. Aí comecei a duvidar, eu falei, nossa, escolhi o curso errado, devia ter feito música.

?Voz B

Minha mãe falou, a minha mãe tinha razão o tempo todo.

KPKarina Possa Abrahão

É, e aí outra, entrei numa banda lá na universidade também, ficava tocando Velhas Virgens no centro acadêmico, uma loucura. Aí beleza, aí eu falei, nossa, eu não tô gostando de nada. Até que eu conheci uma veterana, ela chama Ágata, tenho contato com ela até hoje, que me levou no laboratório que ela fazia estágio. Já ela era orientanda do que foi a ser minha futura orientadora professora Maria Lúcia Formigoni, dentro do departamento de psicobiologia. E aí, pela primeira vez, eu vi um camundongo bêbado.

?Voz B

Um camundongo bêbado?

KPKarina Possa Abrahão

E aí eu olhei para o camundongo, eu falei, é igualzinho meus amigos nas festas. Porque eu não, eu não bebia até a faculdade, eu comecei a beber álcool a partir da faculdade. E quando eu olhei aquilo, eu literalmente me apaixonei pelo camundongo bêbado. De uma maneira arrebatadora. É engraçado, é para o pessoal rir. E eu não consegui mais sair de lá. Então eu pedi à professora Maria Lúcia Formigoni para começar a acompanhar as reuniões do grupo, que aconteciam nas horas do almoço, porque o nosso curso era integral.

E achava o máximo, entendia talvez uns 5% do que era falado. Toda vez que falavam álcool, eu falava, ai, eu sei o que que é. E aí tinha, né, o grupo era grande, tinha gente da área que pesquisava coisas com animal e já com cérebro, e tinha o pessoal mais da psicologia que trabalhava com os humanos. E aí comecei a frequentar, fiquei frequentando essas reuniões uns 6 meses, até que a professora Maria Lúcia Formigoni falou, e aí, querida, vamos, vamos dar uma linha na pipa?

Vamos fazer alguma coisa? Certo. E aí eu escrevi o meu primeiro projeto de iniciação científica, logicamente com ajuda da professora e dos outros colegas que trabalhavam lá. E acho que foi aí meu primeiro passinho mesmo para falar, poxa, encontrei algo que eu gosto e vou começar a entender o método científico de fato, né, na prática.

?Voz B

O título: Papel dos Receptores Dopaminérgicos D1 e D2 na Expressão da Sensibilização Comportamental a Efeito circulante do etanol em camundongos. Que que você pode nos contar sobre esse estudo aqui? Deu tempo de você tirar alguma conclusão, aprender uma coisa nova, Karina?

KPKarina Possa Abrahão

Quando eu entrei, a professora Malu, vou chamar ela de Malu, ela já foi entrevistada aqui no podcast.

?Voz B

Já, Malu Formigoni, um abraço para ela!

KPKarina Possa Abrahão

Ela é uma querida, minha mãe científica. Tenho muito a agradecer tudo que acontece Na minha vida, ela é uma das vencedoras, assim. Legal. Eu venço por ela. Ela trabalhava na época na parte de pesquisa com animal, com entendimento de variabilidade individual. Do mesmo jeito que tem pessoas que bebem um pouco mais ou menos e têm comportamentos completamente diferentes, aqueles que já ficam muito mal na sarjeta, outros que ficam mais alegres, desinibidos, estimulados.

Tem alguns animais que quando a gente aplica álcool neles, alguns ficam mais estimulados e outros menos. Então a gente tentava entender o que que acontecia no cérebro, principalmente, que levava os animais terem comportamentos tão diferentes, mesmo que fosse a mesma molécula, né, de álcool entrando no corpo deles. Porque, né, a gente pode partir do pressuposto que aquela molécula vai atingir algumas coisas dentro do nosso corpo, algumas proteínas.

Então, por que que a mesma molécula tem efeito tão diferente em animais que são parecidos até? E isso era o mote central, né, o carro-chefe do laboratório. Quando eu entrei, eu comecei estudando até alguns outros sistemas de neurotransmissão, que é como o nosso cérebro, os neurônios se comunicam uns com os outros. E caí no final já da graduação nesse sistema dopaminérgico que você leu esse titulozão aí complicado. O sistema dopaminérgico, ele é muito conhecido, e aqui eu já vou fazer um parênteses para ajudar a galera que tá ouvindo, é talvez por conta da galera ficar seguindo uns coach quântico do Instagram aí que tá tudo errado.

Que a dopamina é a molécula do prazer. Então, se tem uma coisa que eu vou deixar de aprendizado aqui, esquece essa porcaria de dopamina ser a molécula do prazer. Dopamina é super importante para várias coisas. O prazer é decodificado no cérebro um pouco pela dopamina, mas por várias outras moléculas e sistemas de neurotransmissão. Agora, de fato, a dopamina ela é bem importante para o que a gente chama de predição de erro. Que que é isso? É assim, eu tava com uma expectativa aqui para essa entrevista, não tava?

?Voz B

Sim.

KPKarina Possa Abrahão

E aí eu venho aqui e o Ken é maravilhoso, faz uma puta entrevista, e a entrevista foi melhor que a minha expectativa.

?Voz B

Certo.

KPKarina Possa Abrahão

Acontece no meu cérebro, há uma liberação de dopamina Para que o meu comportamento de ter me preparado, de ter ficado feliz de vir aqui, se repita no futuro, caso você me convide lá na frente com mais história para contar. Então a dopamina é isso, ela vai marcando no nosso cérebro o que a gente tem de expectativa. Se for melhor que a expectativa, mais dopamina. Se for pior, menos dopamina, e você evita aquele comportamento no futuro.

Olha só, então se as drogas de abuso, como as pessoas conhecem, é aprendido, podem aumentar a tal da dopamina numa região também conhecida chamada núcleo accumbens, o que que ela faz? Ela faz com que você marque aquele momento de uso como uma super expectativa, foi ótimo. Então você vai lá e repete o comportamento e busca droga de novo.

?Voz B

Tô entendendo várias coisas aqui. Isso não vale só para álcool, é isso?

KPKarina Possa Abrahão

Não, se tem um mecanismo de ação comum às drogas quando a gente usa pelas primeiras vezes, é que as drogas têm uma capacidade molecular de aumentar essa dopamina, e que as pessoas às vezes confundem com, ah, deu prazer. Mas não é necessariamente prazer, é uma marca de expectativa que faz com que aquele seu comportamento possa ser repetido no futuro.

?Voz B

Você tocou numa questão complicada, né, que é denominar corretamente aquilo que você tá sentindo, né. Não é tão simples assim, né, porque é um fenômeno químico que envolve vários hormônios e substâncias, etc., mas que a gente tenta nomear, né, a gente tenta dar uma palavra para, né. Então, sei lá, tem lá os 7 sentimentos básicos, né, do Ekman. É uma simplificação, né, de qualquer forma.

KPKarina Possa Abrahão

Eu tenho sido muito influenciada atualmente por um pesquisador chamado György Buzsáki, né, um pesquisador muito famoso que escreveu livros que inclusive são muito legais. Talvez eu não consiga indicá-los para leigos leigos, mas para quem já tem alguma vivência na ciência mesmo que não seja na neurociência, vale muito a pena. Por exemplo, tem um livro dele chamado The Brain from Inside Out, então é o cérebro de dentro para fora.

Então o que que ele diz um pouco? Ele diz que talvez na neurociência a gente precise um pouco se desconectar dos termos da psicologia. Nada contra a psicologia, é uma ciência muito importante, Inclusive muito mais antiga que a neurociência, mas que a gente às vezes tenta definir regiões do cérebro baseado em termos que não conseguem ter um limite de definição. Por exemplo, qual é a diferença entre memória e aprendizagem? Tem um overlap ali entre.

?Voz B

Sem dúvida, sem dúvida.

KPKarina Possa Abrahão

O que é memória? Inclusive, talvez você aprenda melhor se você tem memória. E aí Tem vários detalhes assim que precisam às vezes ter cuidado. Por exemplo, o próprio termo cognição, emoção, atenção, vigília. Por exemplo, atenção e vigília é um negócio— vigília parece que é quando você tá acordado, mas é também quando você tá atento. Então tem vários termos da psicologia que às vezes não tem definições claras e que não é um problema para psicologia, é importante para análise comportamental.

Mas o cérebro, ele não tá preocupado com isso. Então esse pesquisador, esse professor, ele tenta diminuir um pouco do uso do termo prazer, por exemplo, e olhar o cérebro do jeito mais comportamental. E aí, vou ser sincera, talvez isso não seja muito novo. Os behavioristas da própria psicologia já queriam ser mais simplificados. Certo, certo, lá atrás. E aí os cognitivistas vieram e falaram, olha, não é bem assim. O que tudo bem, eu não acho que um exclui o outro.

A ciência, inclusive, para evoluir precisa de muitas visões em paralelo, e que às vezes elas se entrelaçam e se separam. Mas eu tenho essa visão de que, como eu me tornei atualmente uma neurofisiologista celular, de que a gente precisa diminuir o uso de termos que são complexos em sua definição. Então por isso que expectativa é um negócio bem mais simples. E aí você consegue de fato acoplar muito bem ao que a dopamina faz.

?Voz B

Tá, acaba ficando mais preciso sob esse ponto de vista.

KPKarina Possa Abrahão

Quando eu digo baseado no que se observa, no que animais fazem quando tem a dopamina aumentada, é isso. Ele aumenta a probabilidade do comportamento futuro acontecer.

?Voz B

Agora, se a ciência tem muito a ver com a evolução do pensamento que você vai formulando, foi natural então que quando você decide fazer mestrado você continue nessa trilha de investigar o efeito do álcool nos seres? E isso é uma questão. E outra questão é: nesse momento você já sabia que ia seguir a carreira acadêmica?

KPKarina Possa Abrahão

Quando no início da iniciação científica não, mas no final, já lá no último ano da faculdade, com certeza. É claro que eu tenho que ser sincera no sentido que também existiu uma quase facilidade, sabe aquela coisa meio óbvia? Terminei a biomedicina, era comum todo mundo ir para o mestrado na minha época. Então essa facilidade de não precisar procurar outras coisas também acabou me empurrando, porque eu, como eu disse lá no começo, eu sempre gostei de muita coisa.

Então eu ia abraçando as oportunidades conforme elas vinham aparecendo, não era algo, eu não ficava muito em dúvida. Eu falei, olha, tem um mestrado aqui, acho que eu vou nesse sentido. Mas ainda naquela época eu não tinha essa visão que eu comentei agora dos termos, né, e tudo mais. Eu ainda achava que estudar variabilidade comportamental era importante. Eu mudei um pouco a temática no mestrado, eu fui estudar o sistema opioidérgico, que é o sistema das endorfinas, porque na época também fui influenciada por uma professora que atualmente é colega, que é a professora Isabel Marianne Hartmann de Quadros, que tinha sido aluna da professora Malu, e ela voltou do exterior É muito empolgada com a proposta, que na época era nova, de usar drogas opioidérgicas para tratar dependência de álcool.

Só que a parte clínica, né, feita nesse sentido era por tentativa e erro. Ah, esse remédio parece ajudar. E ninguém sabia direito como isso acontecia no cérebro, quais eram os efeitos neurobiológicos que poderiam explicar o efeito da droga num paciente.

?Voz B

O que que são opioidérgicos?

KPKarina Possa Abrahão

É um outro sistema de neurotransmissão. A gente não acabou de falar do sistema da dopamina? Então, aquelas moléculas que comunicam um neurônio ao outro neurônio. O opioidérgicos é um outro sistema que usa, em vez da dopamina, usa os opioides.

?Voz B

É um sistema que tem no nosso cérebro?

KPKarina Possa Abrahão

Tem no nosso cérebro. Aí o ouvinte pode estar assim: pô, não é aquele negócio das drogas opioides? Tem umas drogas aí, a morfina, heroína. Sim, sim, é exatamente que é onde age essas drogas opioidérgicas de fora. Elas agem num sistema que tem aqui dentro da nossa cabeça, que é o sistema opioidérgico, que ajuda a comunicação de alguns neurônios.

?Voz B

Perfeito.

KPKarina Possa Abrahão

Então eu fui estudar isso ainda naquela visão da variabilidade individual, se o animal que tem a estimulação pelo álcool tem alterações desse sistema diferentes dos animais que não tinham essa estabilidade, como eu fiz lá na dopamina. E a gente encontrou várias coisas interessantes. Então, nesse resumo entre a iniciação científica, o mestrado, a gente encontrou que, por exemplo, animais que ficam mais estimulados ao álcool têm aqueles receptores da dopamina mais hiperestimulados, enquanto que o sistema opioide também tá mais hiperestimulado, só que em outras regiões do cérebro.

Então realmente foi nesse sentido, entendendo que não é a droga só, mas a interação dela com o comportamento que pode causar alterações cerebrais específicas. O que parece distante, né, de quem não é da área, mas eu poderia simplificar dizendo: olha, quando as pessoas utilizam as drogas, não basta dizer, ah, usou álcool, e você tem uma noção do que tá acontecendo no cérebro dela. Depende de como aquilo afetou o comportamento da pessoa.

E aí isso é bastante importante para entender inclusive as consequências disso para a vida daquela pessoa. E aí mais ainda, sei lá, voltando no meu sonho inicial de criar remédios, que até já ficou bastante distante, é o criar o remédio também depende de como as pessoas respondem às drogas. Então assim, será que uma droga dessa que eu falei, que age nesse sistema opioidérgico, né, o nome dela é naltrexone, vai ter efeito em todo mundo? Talvez não.

?Voz B

Provavelmente não, né, já que você tem essa variabilidade individual aí.

KPKarina Possa Abrahão

Exato. E de fato, hoje em dia, que já faz bastante tempo que essa droga tá no mercado, é somente 30% das pessoas que fazem uso abusivo de álcool consegue ter benefício com essa droga. Atualmente ela tá sendo usada aí também para quem tem consumo abusivo de comida e tem obesidade. E vai funcionar para todo mundo? Também não vai.

?Voz B

Também não.

KPKarina Possa Abrahão

Então isso explica muito. Apesar de ser uma, ah, é uma substância que vai entrar e agir num lugar específico, mas isso não tá sozinho, não tá descolado do que o organismo é por inteiro e como ele responde ao contexto que ele vive.

?Voz B

E é por isso que quando, sei lá, quando eu parei de fumar a última vez, eu usei todas as coisas possíveis simultaneamente, porque cada um vai somando uma probabilidade positiva assim, né? Porque não vai funcionar, né, do mesmo jeito para todo mundo o adesivo de nicotina ou a goma de mascar ou, né, enfim, né? Meditação.

KPKarina Possa Abrahão

Exato, meditação. Hoje em dia tem propostas de uso de até o que é considerado drogas alucinógenas.

?Voz B

Sim, opioides.

KPKarina Possa Abrahão

É, exato, os cogumelos, os outros, as outras drogas para tratar compulsão por drogas como nicotina, álcool, cocaína. Então assim, as vertentes são muitas e é importante que existam. Agora, vou ser bem sincera aqui, não vai, não funciona sem psicoterapia. Então as pessoas estão loucas, desesperadas por medicamentos que é um comprimidinho, resolveu, mágico, né?

?Voz B

Mágico.

KPKarina Possa Abrahão

Não vai funcionar. Vai precisar fazer terapia com psicólogo para mudar o aspecto comportamental, vai precisar fazer, ai meu Deus, ai meu Deus, exercício físico.

?Voz B

Sim, né? Sim, eu comecei, eu comecei exercício físico antes de tudo, inclusive assim, né? Antes de tudo, porque eu já era do exercício físico até fumando, né? Mesmo fumando, mas Mas sem dúvida foi uma das coisas que me ajudou a seguir em frente com a, né, não ter abstinência, sabe? Aquela coisa assim, né?

KPKarina Possa Abrahão

É a velha história: a ciência comprova alguma coisa boa para melhorar sua saúde? Comprova exercício físico, noites boas de sono e alimentação saudável.

?Voz B

Olha só, né? Olha, já tá aí, não precisa nem no médico, né, para falar a verdade.

KPKarina Possa Abrahão

Só que a população ainda quer os comprimidos mágicos. E sim, a gente precisa de alguns para tirar pessoas que estão em estados muito graves, verdade, mas não tem como fugir do que é o arroz com feijão de cada dia.

?Voz B

Aliás, eu me lembrei que eu também tomei, não sei o princípio ativo, né, mas é alguma coisa tipo Ziban ou coisa do gênero assim, que também é um Um outro, uma droga auxiliar, né, mas que também sozinha não ia fazer nada, né. Assim, é auxiliar, né, a psicoterapia, ao exercício físico, a adesivo, a goma de mascar, a tomar mais água. Tudo isso eu fiz ao mesmo tempo, né, para aumentar as chances de sucesso.

KPKarina Possa Abrahão

Assim, é isso. E a gente precisaria até ter mais políticas públicas para poder ofertar essa custa, né, a complexidade de possibilidade de tratamento para pessoas que não têm condição financeira de pagar, porque não é barato.

?Voz B

Não é barato mesmo assim, né? Se você vai no SUS, você tem acesso a uma ou outra dessas possibilidades, né, mas não todas, né? E não inclui a psicoterapia, que acho que é a variável mais importante, né?

KPKarina Possa Abrahão

Acho que é a luta do próximo, da próxima década para o SUS. Até não só por conta dos problemas de uso de drogas, mas por conta dessa vastidão horrível de problemas de saúde mental que tem acometido todas as idades.

?Voz B

Então, e que tá relacionada a fenômenos recentes, né, do tipo redes sociais, do tipo telas múltiplas, do tipo bets, né, aquecimento global, do tipo vida política Política estressante. Exato, exatamente. Ô Karina, e aí você então resolve fazer o doutorado? Você colou, né? Mestrado e doutorado foi praticamente colado, né?

KPKarina Possa Abrahão

Colado no nível que eu nunca fiquei sem bolsa. Ah, tá, eu me preparava. Isso é uma coisa que eu falo bastante para os estudantes. Deve ter um bom, vários ouvintes aqui pós-graduando, sem dúvida. Se prepare, porque eu entendo que vários pós-graduandos falam assim, ficam desesperados, né? A bolsa tá para acabar dali 2 meses e a pessoa desespera porque, né, tem que comer, tem que pagar aluguel, tem que viver. Só que você sabia que essa bolsa ia acabar 4 anos antes, ou no mestrado 2 anos antes.

Então é no dia que você assina que vai receber a primeira bolsa Você já tem que fazer um planejamento de como vai ser logo depois. E eu fazia isso muito bem. Eu acho que essa é uma parte que eu fui vitoriosa. Então, antes de terminar a iniciação científica, eu já tava aprovada no mestrado. Antes de terminar o mestrado, eu já tinha a bolsa de doutorado aprovada. Antes de terminar o doutorado, eu já tinha o pós-doc aprovado. E assim foi.

?Voz B

Você foi bolsista da FAESP desde a iniciação, é isso?

KPKarina Possa Abrahão

Foi.

?Voz B

Ah, então você, a FAPESP aí é renovando assim, você se planejou para isso?

KPKarina Possa Abrahão

Eu me planejei. Então, por exemplo, eu prestei a prova para entrar no mestrado 6 meses antes de acabar minha graduação, e aí eu passei. E aí logo depois já submeti, na época, o pedido de bolsa FAPESP, e a FAPESP aprovou um mês antes de eu me formar, porque você só precisa ter se formado e comprovar, né, o documento na contratação da bolsa. Então você pode ter feito todo o processo antes. E isso aconteceu repetidamente em todas as fases aí de pular, né, de um para o outro.

Então acho que isso é importante assim para a pessoa que quer academia, claro, senão vira um estresse absurdo.

?Voz B

Agora, você fez aqui um estudo que eu vou ler, o título é Maior de Todos. Variabilidade individual na sensibilização ao etanol, neuroadaptações dopaminérgicas e glutamatérgicas no núcleo accumbens e vulnerabilidade para dependência. Primeiro, quero que você explique todo esse título, tá? E também conte, porque no doutorado você fez um sanduíche na Wake Forest University lá na Carolina do Norte, é isso?

KPKarina Possa Abrahão

Exatamente.

?Voz B

Então me fala desse título primeiro e depois me fala desse doutorado e do sanduíche.

KPKarina Possa Abrahão

Então, quando eu terminei o mestrado, eu tava trabalhando com o tal dos opioidérgicos que a gente comentou agora, e odiei, não gostei, achei chato.

?Voz B

Entendi, tá. Você terminou o mestrado achando essa coisa chata para cacete, tá.

KPKarina Possa Abrahão

E aí também tive muita— eu tinha tido muita sorte na iniciação científica. Sabe aquela sorte de que o tal do p menor que 0,05, para quem não é do mundo da ciência, é quando a gente acha uma diferença estatística entre dois grupos. E o Altair, que não me ouça, de ser o cata-p, né? Mas assim, isso dava uma, um brilhinho nos olhos quando você via, olha, Eu injetei uma droga e foi diferente do bicho que não tinha droga, do animal controle.

Isso causa em quem tá começando a ciência uma alegria, porque certo, tudo foi igual, você se sente mal, né? Você fala, nossa, nada deu efeito. E eu tive sorte na iniciação. No mestrado eu quase não achei nenhuma diferença. Todas as minhas hipóteses foram rejeitadas, o que hoje teoria, eu sei que é importante. Tô até aqui sem querer querendo, eu tô lendo novamente o Karl Popper, né, A Lógica da Pesquisa Científica, atualmente com outra visão de professora.

Mas a gente quer falsear as nossas hipóteses. Agora eu entendo isso. Mas no mestrado eu falsei todas, eu fiquei chateada. Nada que eu previa deu certo. Então no doutorado Eu falei, ah, eu continuei com a professora Malu, a relação era maravilhosa, eu gostava muito do que eu tava fazendo, mas eu falei para ela, olha, eu quero voltar para uma linha de pesquisa que eu quero apostar numa coisa com mais caldo, eu quero tentar algumas coisas diferentes.

Então eu voltei a trabalhar com a dopamina e na época eu tinha estudado mais a fundo, comecei a me interessar mais pelas vias intracelulares. Porque quando eu vou estar estudando o neurotransmissor lá, dopamina, o opióide, aí tem outros, né, serotonina, essas coisas.

?Voz B

Sim, sim.

KPKarina Possa Abrahão

Ainda a gente tá entendendo como aquelas moléculas afetam a superfície de um neurônio. Só que quando isso acontece, tem várias coisas dentro da célula que se modificam. E isso tem muito, vem muito da bioquímica, de quando a gente estuda bioquímica na faculdade. E eu comecei a estudar que existia uma relação do que acontecia no sistema da dopamina com o que acontecia no sistema do glutamato, que é parte do título aí grandão que você—

?Voz B

Isso, é, glutamato me chamou atenção aqui.

KPKarina Possa Abrahão

Isso, é um outro neurotransmissor, é muito famoso porque ele é o principal neurotransmissor excitatório, quando um neurônio fala para o outro, né, funcionar. Disparar um potencial elétrico. E aí eu comecei a ver que tinha umas cascatas dentro da célula, que uma proteína afetava a outra. E eu falei, eu quero estudar isso aí, eu quero começar a ser mais minuciosa nos detalhes do cérebro. E quando eu entrei também no doutorado, eu falei para a professora Malu que eu queria, logo no começo eu já falei, eu quero programar um doutorado que a gente chama de sanduíche.

Tenho certeza que outros colegas foram entrevistados aqui, já falaram sobre isso, é que é quando a gente faz um pedacinho, um ano mais ou menos do doutorado fora do país. E eu também já sabia o que eu queria aprender nesse doutorado durante a faculdade e também o mestrado. Eu fui influenciada por algumas, alguns professores, ó, voltando nos professores. Então você, vou nomear porque eles são muito importantes, alguns deles vão ouvir essa mensagem.

Mas um deles infelizmente não, o professor Roberto Fussa Filho, que já faleceu. Ele foi um professor de farmacologia muito importante e que ele dava psicofarmacologia, as drogas no cérebro, e isso me influenciou. E ele sempre falava assim, que o corpo só serve para levar o cérebro ao passeio. Eu achava isso o máximo, porque fazia com que o cérebro fosse a coisa mais importante do mundo.

?Voz B

Sim, o cérebro como protagonista.

KPKarina Possa Abrahão

Então é isso, eu ia ser neurocientista, tava aí já uma influência. Aí teve um professor de neurofisiologia, professor Luiz Eugênio, que atualmente já foi diretor na FAESP, atualmente se aposentou, na disciplina que eu atualmente dou aula aqui na Unifest. E também teve a professora Janínia Boulafia, que também já é aposentada, da biofísica da Unifest. E que foi quem me apresentou lá na graduação ainda a história do patch clamp, que é o patch clamp, que é uma técnica que a gente usa uma pipeta, um vidrinho bem pequenininho para colar no neurônio usando o microscópio, obviamente, e identificar e registrar a atividade elétrica do neurônio.

Então, para quem não é neurocientista, o cérebro usa atividade elétrica para comunicar de lá para cá, né? O neurônio dispara uma carga elétrica e a gente consegue medir isso bem pertinho do neurônio usando essa técnica de patch clamp. Lá no doutorado eu falei para Malu que eu queria aprender a fazer essa técnica porque eu já, eu durante o mestrado fiz algumas escolas, cursos, né, a gente chama de escola da International Brain Research Organization, uma organização de pesquisa internacional sobre o cérebro que ajuda estudantes da América Latina, da África, da Ásia, e para vários lugares aprender técnicas de neurociência.

E eu fiz uma escola no Uruguai na época, de 3 semanas, e naquele momento uma semana era dedicada a essa técnica aí Pet Clamp. Então eu tinha, né, na faculdade aula com a professora Janine Abolafia, que tinha falado sobre a técnica em biofísica. E aí no mestrado eu fui fazer esse curso. Então no doutorado eu falei, aí eu quero aprender esse negócio. E não tinha lá na Psicobio para eu aprender. Então eu falei para a Malu, eu quero ir para fora.

Então aí chega nessa parte do que você comentou, que eu fiquei na Carolina do Norte. Quando eu tava fazendo o desenvolvimento do projeto, quando a gente chegou a estudar a parte do glutamato, a técnica que a gente tentava para afetar o sistema glutamatérgico aqui no Brasil era usando farmacologia, usando o que a gente chama de agonistas, que ativam, ou antagonistas, que bloqueiam, para ver o que que acontecia com o comportamento do animal.

Não foi muito eficaz. E a gente não teve resultados interessantes, porque realmente não tava dando pra medir o que a gente queria. Um outro jeito de medir a atividade glutamatérgica, e muito mais direta, é o tal do PET clamp. Então aí eu colei uma coisa com a outra e falei: eu quero ir pro laboratório de um professor. E aí, uma outra dica pros pós-graduandos, pras iniciações científicas: saibam escolher muito bem os seus orientadores.

Porque do mesmo jeito que ele pode te jogar pra cima, ele pode te destruir. Então, o que eu fazia pra tentar escolher bem era perguntar pra pessoas. E nesse momento, pra Malu, que era uma pessoa que eu confiava muito, se ela conhecia o tal do Jeff Weiner. Aí ela falou que ele era ótimo e tudo mais. Eu tive a oportunidade de ir num congresso internacional e ver uma palestra dele e tal.

?Voz B

E aí, mas ela acolhencia e dizia que vai em frente, vai em frente, ele é um cara legal, ele é um bom orientador.

KPKarina Possa Abrahão

Porque você sabe que tem uns orientadores tóxicos por aí, né? Não sei se o pessoal já se deparou aí.

?Voz B

A gente teve alguns episódios aqui bastante pesados, viu? Inclusive de orientandas que, de orientadas que sofreram bastante, viu?

KPKarina Possa Abrahão

Pois é. Aí eu, a Malu tava me dando esse respaldo, eu conheci num congresso e ele foi muito receptivo em abrir o laboratório. E fui com mala e cunha. Lembra que eu falei lá no começo do podcast que meu inglês era péssimo?

?Voz B

Sim.

KPKarina Possa Abrahão

Pois aí eu não tive como fugir, eu tive que aprender.

?Voz B

E seu inglês ainda não era grande coisa naquela época?

KPKarina Possa Abrahão

Nesse momento no doutorado eu já lia por conta da filha, ela tem que ler comigo. Eu fazia um curso, né, esses cursos de tentar aprimorar o meu inglês. Eu fui em congressos internacionais onde eu passei vários micos, muitos. Se quiser eu conto um ou outro.

?Voz B

Eu quero, me conta um já.

KPKarina Possa Abrahão

Então, por exemplo, tá assim, eu dá para eu fazer um stand-up comedy com esses Mas um deles era no mestrado, inclusive foi quando eu conheci esse professor Jeff Weiner no congresso da Sociedade Americana de Dependência de Álcool, chama, a gente chama na sigla RSA, tem um evento que os estudantes podem ir num almoço chiquérrimo, sabe aqueles almoços que chega o pratinho, sai pratinho, 300 garças?

?Voz B

Sequência, aquela sequência, né?

KPKarina Possa Abrahão

Aquela coisa bem, bem chique que minha mãe tinha que me ensinar lá como usava os talheres. E a Malu sempre incentivava: você vai se inscrever, aproveitar o congresso. Ai, Malu, mas meu inglês é ruim. Não, mas você vai lá, tá tudo bem. Me inscrevi e sentei lá numa mesa que ficavam vários estudantes intercalados com professores. E eu sentei do lado de um professor que atualmente eu conheço ele, ele é um querido, que trabalhava, trabalha lá nos Estados Unidos, chamado Fernando Valenzuela.

E eu cheguei muito cedo, eu sempre fui muito pontual, e cheguei sozinha lá. E ele chegou logo depois. E conforme a conversa que eu vou tendo com ele, foi chegando as outras pessoas. Aí você vai entender que as outras pessoas caíram na risada de mim. Ele virou para mim e perguntou, aí eu vou tentando traduzir, né, é o que eu estava achando do Congresso.

?Voz B

Só que uma pergunta simples, tá?

KPKarina Possa Abrahão

Primeiro ele me perguntou, what's your name? Yes, eu sei responder essa, eu me garanto. My name is Karina. Foi uma delícia, tô bem, é ótimo. Aí ele perguntou o que eu tava achando do congresso, mas em inglês isso é, what are you thinking about the meeting? Meeting é reunião, congresso. Só que meat pode ser carne.

?Voz B

Sim, certo. Sim.

KPKarina Possa Abrahão

Então ele perguntou o que você tá achando do Congresso e o meu cérebro entendeu o que você tá achando da carne. Eu tava no almoço, concorda?

?Voz B

Certo.

KPKarina Possa Abrahão

Não tinha ainda chegado o pratinho da carne.

?Voz B

O que que ele tá me perguntando da carne, né?

KPKarina Possa Abrahão

Parênteses: na minha vida pessoal eu gosto de carne mal passada. Certo, mas eu não sabia falar isso em inglês. E a única coisa que eu sabia falar é bem passada, que é o well done. Aí eu falei well done.

?Voz B

Tem o rare, o medium rare, o well done.

KPKarina Possa Abrahão

Mas nesse momento o meu único vocabulário era o well done.

?Voz B

Então a gente trabalhou, a sua carne ia ser sempre bem passada porque você não sabia.

KPKarina Possa Abrahão

Era o que eu sabia. Só que pensa comigo, para a pergunta o que você tá achando do Congresso, o Eldan até que cai bem.

?Voz B

Verdade, funciona, funciona.

KPKarina Possa Abrahão

Só que eu fui monossilábica, e a ideia desses encontros é criar uma conexão maior entre estudantes e professores, quebrar o gelo, é quebrar o gelo do professor assistiu. Yes, great! But what do you think about the meeting? E aí eu virei para ele e assim, outro parênteses, só para vocês entenderem. Eu prefiro carne a frango, tá? Então se eu tiver numa churrascaria, eu prefiro um bife do que um frango.

?Voz B

Tá certo. Até porque frango a gente come em casa, dirizia a minha mãe.

KPKarina Possa Abrahão

É mesmo. Só que eu não Eu não tinha outro vocabulário, então eu usei o que eu tinha. I like meat, but I prefer chicken. Eu gosto de carne, mas eu prefiro frango.

?Voz B

Aí ele bugou, aí ele que bugou.

KPKarina Possa Abrahão

A mesa tava cheia já. Tinha uma outra estudante americana que ela escorregou pra baixo da mesa porque ela não conseguiu se conter de tanta risada. E o danado do professor, percebendo que tinha dado muito ruim, Virou em espanhol e falou, no, estou a perguntar del congreso. Aí eu pensei, por que não me falou? Por que já não me começou com esse espanhol aí? Já tava melhor. Nossa, eu sei que eu comi esse almoço sem falar mais uma palavra, saí de lá, subi para o quarto do hotel, chorei 3 horas seguidas.

?Voz B

Sério?

KPKarina Possa Abrahão

E nesse dia eu tinha certeza que eu não ia ser cientista, porque eu não ia conseguir. Então, estudantes, quando você vê que você caiu no fundo do poço, pode apostar que dali uns anos você vai contar num podcast e dar risada sobre isso.

?Voz B

Agora, você, a partir desse momento, começou a encarar o inglês de outro jeito? Como é que foi?

KPKarina Possa Abrahão

Morria de medo. Voltei Voltei. Não, aí o que eu encarei foi: preciso voltar para o Brasil e estudar, porque essa era sempre minha arma, né? Eu sempre fui estudiosa. Eu falei: não dá para eu pagar um mico desse tamanho, né, num congresso internacional. Você tem noção? Depois de 15 anos, eu já tava como pós-doc no ENAED, eu fui convidada. Aí, olha só, já tava chique, eu fui convidada para dar uma palestra num congresso no Japão, em Pois voei para o Japão e não sei se você já foi lá, mas eu achei assim, o aeroporto entrando em Tóquio era lotado, um negócio enorme, muitas filas.

Tinha tido um tufão e que outro, tava uma bagunça. Pois eu aqui na fila esperando, fazendo aquele zigue-zague que tem filas grandes, do nada eu ouço um grito distante: I prefer chicken, eu prefiro frango. Aí eu cruzava, não é possível, e procurava, procurava, nada. Era o professor Fernando Valenzuela, que também tava indo para esse congresso da palestra, que me zoa até hoje. Virou uma piada.

?Voz B

Mas até nisso você teve sorte então, porque você pegou pessoas que levaram tudo isso na brincadeira, assim.

KPKarina Possa Abrahão

É isso, levaram na brincadeira e são pessoas muito queridas. Mas voltando, eu acho que o inglês, eu encarei o inglês com agora mais seriedade, comecei a estudar. Mas quando eu cheguei no Doutorado Sanduíche, eu já era, eu já conseguia me virar um pouco melhor, obviamente. Eu não, aí eu já conseguia falar que eu preferia carne, carne, e eu já sabia falar que eu preferia Mal passado.

?Voz B

Mas ao mesmo tempo, isso é um, é uma, é um fio de esperança para aquelas pessoas que ainda têm, morrem de medo de inglês e falam, puxa, eu jamais vou fazer uma pós porque, né, o meu inglês dá, né? Dá.

KPKarina Possa Abrahão

E eu fui com a cara e com a coragem porque cheguei lá, perderam minhas malas. Caramba!

?Voz B

Caramba!

KPKarina Possa Abrahão

E aí, para explicar, porque assim, você aprende o inglês lá da universidade e aquele da escolinha, né? Aí chega lá, você é colocado numa situação que você fala, eu não sei falar. Tipo, eu tive que resolver uma situação que tava vazando água daquele, sabe aquele tanque da privada atrás para dar descarga? Sim, sim, sim, tava vazando água dali. E como que fala pelo telefone? O que que tá acontecendo na época? Não sabia explicar em inglês isso.

Eu tava preparada para falar The Books on the Table, sei lá, para falar sobre ciência, que eu já tinha aprendido. Mas aí você é colocado, você é jogado lá, morando lá. E aí foram 4 meses de dor de cabeça, porque terminava o dia, parecia que eu tinha corrido uma maratona de tão cansada em ficar falando inglês. Mas também me esforcei muito de não colar só nos brasileiros, porque brasileiro que mora no Brasil se cola mesmo, não tem como.

?Voz B

E aí a gente não pratica, né?

KPKarina Possa Abrahão

Aí nunca fica. Eu me esforcei, eu colei nos brasileiros, não vou mentir, mas eu me esforçava para o outro lado também. E aí o inglês fluiu. Eu lembro que o clique do ouvir o inglês e falar, nossa, agora eu tô entendendo, Foi um amigo que eu fiz lá, era um egípcio. Ele chamou, ah, vamos no cinema, era um dia sem fazer nada. E eu virei pra ele e falei assim, eu não consigo entender um filme complexo ainda, né? Tipo, eu não conseguia sentar sem legenda, inglês não era ainda fácil pra mim.

Aí ele, não, então vamos ver uma coisa mais de criança. E eu fui ver, sabe aquele filme antigo, How to Como Treinar o Dragão, daquele dragão pretinho.

?Voz B

Sim, sim.

KPKarina Possa Abrahão

Agora já tem a versão live, não sei o que lá, né? Esse filme eu nunca esqueço. E aí eu tava assistindo o filme, do nada, ao invés de ouvir palavras para tentar entender o contexto, eu comecei a ouvir as frases. Então assim, é persistência. Tá bom. Agora eu já me considero fluente em inglês.

?Voz B

Agora, você volta, termina o seu doutorado em 2012, aqui pelo que eu vejo, e aí você já sai para fazer pós-doc, é isso?

KPKarina Possa Abrahão

Não, fiquei na USP um pouco. É, foi a hora que eu voltei para USP. Voltei não, comecei. Que que aconteceu? Começou na USP, final do doutorado eu já tinha certificado, iniciação científica, mestrado, doutorado na Unifesp com a Malu, porque eu fui, né, uma reta só. A própria professora Malu falou: olha, Karina, você pode continuar aqui, mas você precisa dar uma diversificada, conhecer outras pessoas. E eu já conhecia, por conta de congresso, a professora Rosana Camarini, que inclusive foi da minha banca da defesa de E ela era uma pessoa muito legal e continuava trabalhando com álcool.

Eu queria continuar trabalhando com álcool. E aí foi uma decisão estratégica mesmo de diversificar meu currículo e também de ir lá conhecer um pouco mais de perto a galera da USP. Porque apesar de estar em São Paulo, né, a gente não conecta tanto, né? É perto, mas não é, sabe? Aquela coisa.

?Voz B

É, porque são, acabam sendo comunidades diferentes, né?

KPKarina Possa Abrahão

E aí nesse interim também, não sei se vocês sabem, mas eu tinha um grupo muito legal de pós-graduandos na Psicobio que a gente, é um paralelo aqui, fazia divulgação científica. A gente fundou o Prisma Científico. Uma dessas pessoas já deu entrevista aqui, que é o César. Certo. Então a gente tinha, eu já tinha uma vontade de fazer divulgação científica. Então continuei com esse vínculo na Unifesp, com essa galera de blog, né? A gente tinha um blog na época, mas aí eu quis ir para o pós-doc lá na USP e continuei trabalhando mais ou menos com a mesma vertente do que eu trabalhava: variabilidade individual, sistema glutamatérgico ainda, só que aí outros receptores, outras vias relacionadas ao sistema de neurotransmissão glutamatérgica.

E aí eu bodiei. Por que que aconteceu? Eu fui para USP também com a ideia de usar um setup de pet clamp, lembra a técnica que eu fui aprender lá fora?

?Voz B

Sim.

KPKarina Possa Abrahão

E a minha ideia era, olha, eu fui lá aprender, agora eu vou fazer no Brasil porque poucas pessoas estão fazendo. E de fato eu tinha um setup de pet clamp fechado em caixa lá na— eu fui para farmacologia, mas eu tinha um contato com o pessoal da fisiologia e da biofísica do ICB da USP, do Instituto de Ciências Biomédicas, e tinha um setup lá. E aí eu pensei, poxa, eu vou pôr para funcionar. Só que aí vários problemas, várias dificuldades.

Eu organizei um simpósio no Congresso da Sociedade Brasileira de Neurociência, onde os meus orientadores lá, o professor Jeff Weiner, vieram para o Brasil E repararam que eu tava meio patinando para conseguir fazer alguns experimentos. E eles viraram para mim e falaram, ah, se você quiser passar alguns meses, volta lá e faz os seus experimentos de pet clinic. Porque eu queria muito fazer isso.

?Voz B

As dificuldades aqui eram o quê, burocráticas? É isso?

KPKarina Possa Abrahão

Era de tudo, viu? Era burocrática, era um equipamento que ficou um tempo fechado. Então, quando a gente abriu, algumas borrachinhas tinham ressecado. Aí ia levar não sei quantos meses para importar, essas coisas que o Brasil enfrenta, que tem melhorado, não dá para negar. Mas naquela época tava, poxa, eu queria, eu queria acelerar o meu processo, sabe? Eu queria aprender mais. Eu tava com o que a gente chama sangue nos olhos, sabe, querendo ir para frente.

Aí eu, durante, eu fiz os experimentos comportamentais aqui no Brasil, e aí eu levei uns cérebros lá para os Estados Unidos e fiquei mais 4 meses no mesmo laboratório que eu tinha feito doutorado sanduíche, trabalhando com o professor Jeff Weiner e também professor Brian McCool, que é um outro professor lá que me ensinou a fazer dosagens de proteína, que essa técnica chamada Western blot.

?Voz B

Quando você fala levei uns cérebros para lá, o meu e dos animais, você levou cérebros literalmente assim?

KPKarina Possa Abrahão

Literalmente. Claro que com toda papelada, né, de acordo.

?Voz B

Eles vão acomodados como?

KPKarina Possa Abrahão

Eles vão, ah, vai numa empresa, né, que mantém o gelo seco para deixá-los na época congelados, para chegar tudo certo lá no laboratório de lá. Isso é super comum na ciência, de lá para cá, de cá para lá, certo? Custa dinheiro, óbvio, mas foi bastante legal porque aí lá eu consegui fazer várias dosagens que aqui no Brasil não ia conseguir. Então é aí que começam as grandes colaborações, né, internacionais, que é super valorizado.

Então eu tive essa experiência. E aí, nesse momento, o professor Jeff Weiner já me conhecia há um tempo. Ele começou a falar, me incutiu, porque o que aconteceu nesse pós-doc na USP? Eu ganhei uma bolsa FAESP. Não sei se o pessoal sabe, mas a bolsa FAESP de pós-doc, ela é muito boa. Né, comparado assim a realidade da maioria das pessoas, a ponto que um pós-doc FAESP ganha mais do que o salário líquido de um docente recém-contratado na UNIFESP.

?Voz B

Uau, não sabia disso!

KPKarina Possa Abrahão

É como um desconto no Imposto de Renda. Então se você comparar o que cai na conta, acaba sendo mais. E aí a minha vida tava meio que confortável aqui no Brasil, tava Vamos continuar aqui. E como eu disse lá no começo, eu sempre deixei a vida me levar, tava desesperada. Aí, só que aí, confortável, confortável, a gente não vai para frente, né? A gente tem que às vezes dar uma chacoalhada no dia a dia. Então o que o Jeff lá nos Estados Unidos falou: olha, Karina, você sempre falou, e era uma coisa que eu falava mesmo, que o meu sonho era me aprofundar muito nessa técnica de pet clinic.

Porque eu fiquei um ano lá, mas é uma técnica que demanda mais tempo para se aprender os detalhes sórdidos. Ela envolve muito conhecimento de fisiologia, de biofísica. E aí a biofísica tem a ver lá com a TRIAD, que eu falei que eu era monitora de física na escola, influenciando minha vida. Ele falou, por que que você não volta para os Estados Unidos para fazer um pós-doutorado? Pleno, né? Não só agora que você tá aqui um mês ou outro, vem para— e eu sou aquela história, vamos abraçando o que vai aparecendo, sabe?

É interessante. Aí ele: por que você não escreve para o professor que você sempre falou que tinha um sonho? Nesse interim todo que a gente tá contando aqui, eu ia em congressos internacionais quando podia, né? Quando tinha o dinheiro das bolsas, da verba. E eu sempre fui uma stalker, os jovens vão entender, dos pôsteres apresentados pelo grupo do professor David Lovinger. E eu era stalker a ponto que depois, no futuro, eu fiquei sabendo que eles tinham medo de mim, porque eu era aquela pessoa que colava assim, ficava lá com o olho aberto, meus olhos já são bem grandes, maravilhada.

Mas como meu inglês era péssimo, eu não ficava perguntando nada para ninguém. E eu comentei que eu admirava muito esse professor, né, que é do NIH, do Instituto Nacional de Saúde lá dos Estados Unidos. E ele, né, o professor Jeff Weiner, me incentivou: escreve para ele, né, quem sabe e tal. Pois eu escrevi um email para ele e no dia seguinte eu tava fazendo um trabalho como pós-doc lá nos Estados Unidos, nesse período que eu fiquei lá pequeno.

E os professores de lá falaram, olha, a gente recebeu uma ligação do ENAED a seu respeito. Aí eu já pensei, vou ser deportada, né? Porque quando é imigrante, você acha que você é. Aí eu falei, ah, eu escrevi para ele. Aí ele falou, eles falaram, você quer mesmo ir para lá? Porque é um instituto, não é uma universidade, o volume de trabalho é bem maior, não é É um pouco diferente porque não tem pós-graduação, não tem aluno de mestrado, doutorado.

O pós-doc é o trabalhador. Aí eu falei, pensei, eu vou indo. Nunca tive medo de trabalhar.

?Voz B

E era um instituto 100% dedicado ao estudo de efeito do álcool, essas coisas?

KPKarina Possa Abrahão

Exato, porque dentro do Instituto de Saúde dos Estados Unidos tem vários subinstitutos. Então seria no que é especialista em álcool, que chama National Institute on Alcohol and Alcohol Abuse. Que é Instituto Nacional de Álcool e Abuso de Álcool. Era o recorte do que eu estudava a vida toda. E aí eu falei, eu quero ir. Pois aí eu fiz uma entrevista no dia seguinte e o professor David de Oliver falou— eu tava um ano mais ou menos do pós-doc no Brasil— ele falou, olha, se você quiser vir com a minha verba daqui, tem que esperar mais um ano.

Se você conseguir alguma verba parcial, pode vir imediatamente. E aí, lembra, eu sou bem organizada, apliquei para tudo quanto é verba que podia e ganhei o famoso Ciências Sem Fronteiras. Na época, né, o governo tinha um movimento enorme, muito importante de internacionalização da ciência, era do governo Lula e depois a Dilma, que fez um programa chamado Ciências Sem Fronteiras, onde estudantes de graduação, pós-graduação e pós-doc conseguiam bolsas brasileiras para ir se formar no exterior.

E aí eu aproveitei essa oportunidade que foi assim única, exclusiva, maravilhosa. Em paralelo, eu também ganhei um prêmio da IBRO. Lembra da escola de pet clinic que eu fiz? Sim, eu apliquei também, ganhei o Joe Nichols Award, que é um dos professores mais famosos da IBRO. Ele foi aluno de prêmios nobres e E esse prêmio também me dava o direito de ficar um ano fora do Brasil para me formar. Eles dão para países em desenvolvimento.

Então isso propiciou, eu conversei aqui no Brasil com a professora Rosana, que ficou muito feliz. Ela é uma orientadora também excepcional, uma pessoa maravilhosa, ainda orienta, tem um laboratório maravilhoso na USP. E ela me deu incentivo, a Magalu me deu incentivo, e eu fui. E aí eu fui para ficar um ano e fiquei 5.

?Voz B

Caramba!

KPKarina Possa Abrahão

Esse pós-doc foi uma mudança de paradigma na minha vida. Então eu imagino, é ficar fora do país é difícil, né? Eu tenho casos que eu sofri xenofobia, a gente enfrenta coisas durante o estadia fora, mas é completamente transformador. Eu não seria a cientista que eu sou hoje se eu não tivesse passado os 5 anos que eu passei no ENAED com o professor David Lawlinger. E novamente, um orientador de primeira classe, maravilhoso, que hoje eu considero a Malu é minha mãe científica e o David Lawlinger é o meu pai científico.

?Voz B

Legal, legal. E nem todo mundo tem essa sorte, vamos dizer assim, né, Karina?

KPKarina Possa Abrahão

Eu acho assim, não teve a sorte descola do orientador, termina, faz o, cumpre o seu. Se você assinou um contrato de bolsa, faz até o final melhor possível e vai embora. Porque também tem a síndrome do Estocolmo, né? O aluno fica preso naquele, naquele ambiente muito tempo. Quanto mais tempo no ambiente tóxico, pior para sua saúde mental.

?Voz B

Verdade.

KPKarina Possa Abrahão

Viu que não é para você? Entrega o prometido e Beijo, tchau, vai atrás de um orientador que é humano e é um bom orientador.

?Voz B

Karina, a gente já tá chegando perto aqui do nosso limite de tempo, mas eu queria que você contasse um pouco o que que você tem feito desde então, porque você voltou dos Estados Unidos em 2018, né, dessa temporada com o professor Lovinger, e aí você Aí você volta para o Brasil e que que você tem feito desde então além de sucesso e além de continuar estudando, né? E assim, você tem, como eu falei logo no começo, né, você viajou e continua viajando para se manter atualizada, né?

E muitas vezes também convidada para falar nesses eventos hoje, né? Como tem sido sua vida e o que que você planeja, se é que planeja, né? Porque você é uma pessoa deixa a vida me levar, é para esse, esse futuro, esse futuro aí que tá tão maluco.

KPKarina Possa Abrahão

Olha, quando eu voltei, eu voltei no momento complicado para ciência, porque 2019 o governo do Bolsonaro assumiu e foi um desastre. Indústria e para a ciência, que já tava vindo desde o Temer, né? Independente de opiniões políticas, na ciência houve um corte e um ataque bem complicado aos cientistas. E aí, ainda em cima disso, tivemos uma pandemia logo no começo que eu tava tentando montar o meu grupo de pesquisa. Por outro lado, eu não posso reclamar porque eu deixo a minha vida me levar, me preparando para ela.

Mas assim que eu apliquei para trabalho nos Estados Unidos, alguns não levei nenhuma entrevista, não consegui nada. E ao mesmo tempo também prestei os concursos no Brasil, até porque eu tinha sido Ciência Sem Fronteiras e eu tinha um contrato com o CNPq de retornar ao Brasil ou de pagar $30 mil. E essa, eu sei que tem gente que reclama, mas eu tinha assinado um contrato, eu tinha essa consciência.

?Voz B

Claro, eu acho que é o que é combinado, não é caro, né?

KPKarina Possa Abrahão

Exatamente, eu gosto disso. E eu apliquei lá no sentido, bom, se eu achar um bom trabalho, eu vou pagar, que é justo, é justo. Se eu voltar para o Brasil, aí eu tô pagando com meu tempo de dedicação ao Brasil, ok. E eu passei em dois concursos no Brasil, passei na biofísica da Unifesp, passei na psicobio. Um mês de diferença os dois concursos, foi bem drástico de estresse, mas foi foi legal. Assumi na Psicobiu na época porque eu tinha passado em primeiro lugar e também tinha um histórico lá com eles bem grande.

E comecei muito rapidamente, até antes de voltar para o Brasil, a escrever o que é chamado Projeto Jovem Pesquisador da FAESP. Então eu já tinha sido toda filha da FAESP, né, até o pós-doc. E a FAESP gosta dessas pessoas que que são filhos deles, que vem desde a iniciação científica com as bolsas. Então eu tinha uma internacionalização muito importante, que é crucial para ser jovem pesquisador, tinha passado no concurso, e esse projeto é exatamente esse de estabilização de um pesquisador novo.

Então as pessoas às vezes não gostam de falar valores, mas eu acho importante. O meu jovem pesquisador foi financiado com R$5 milhões só comigo de pesquisadora. Então foi, uau, foi bacana então, muito bacana. E aí eu consegui comprar um setup do danado do Pet Clamp.

?Voz B

Então a gente, agora você tem o seu, é, tem o meu.

KPKarina Possa Abrahão

E ainda um outro setup que também é parecido com Pet Clamp, mas ele em vez de medir eletricidade, ele mede fótons, luz, que é uma técnica muito legal também chamada fotometria na neurociência. E esses setups são caros, né, são multiusuários. E aí eu consegui começar a me estabilizar. Demorei bastante por causa da pandemia, mas as coisas foram andando. E eu continuei, iniciei os estudos, só que aí eu saí um pouco do estudo que eu fazia lá com a Malu, até no próprio pós-doc.

Durante o pós-doc eu descobri que neurônios marca-passo são neurônios que disparam o tempo todo. A gente atividade elétrica. A gente tem eles no coração, a gente tem alguns no cérebro também. Eles, alguns tipos de neurônios, são afetados pelo álcool. Álcool muda a atividade do neurônio. E essa região do cérebro que eu estudava, chamada globo pálido, é importante para vários comportamentos. Um deles é o controle inibitório, é quando a gente decide não fazer algo.

E a gente, olhando para pessoas, a gente pensa assim, a pessoa quando começa a encher a cara, beber um drink depois do outro, ela começa a ficar meio desinibidinha, né? Dança mais do que queria, falar mais do que queria, sobe na mesa, dá gritos. Então a proposta é que o álcool vai agindo em regiões do cérebro que impedem a gente ter um bom controle inibitório. Isso faz com que a gente faça coisas engraçadas, mas também perigosas.

Né, como por exemplo beber e dirigir achando que tá bem e não tá. E também leva a gente a beber mais, porque a gente não tem esse controle inibitório de saber que horas que tem que parar. Então com essa ideia eu resolvi começar a estudar essas regiões do cérebro que fazem controle inibitório, e é o que eu tenho estudado até hoje. São 8 anos já como docente. No último ano eu fiz uma remoção do departamento psicobiologia para neurofisiologia, até porque o meu estudo saiu bastante do comportamento.

A gente ainda faz comportamento de avaliação de risco, mas tá cada vez mais embutido no estudo neurofisiológico de neurônios muito específicos que a gente registra. A gente faz análise de várias moléculas como RNA, que que as pessoas ouvem, o DNA e proteínas. Então eu acabei me transferindo até para contribuir, porque eles estavam precisando de professores bem específicos dessa área. E aí tô super feliz. E talvez a maior novidade que tem, que talvez tem 3 semanas só, é que eu fui convidada bem recentemente.

Atualmente eu sou assessora interna na FAESP. Então eu, eu vou, né, eu sou filha da FAESP e me tornei assessora interna, que são os assessores que trabalham lá dentro para reger, né, todo o sistema de chegada dos pedidos de bolsas e de verbas, e também emissão dos pareceres dos assessores externos que vão avaliar a ciência. Então tá sendo um novo aprendizado. Muito legal, porque eu tenho obviamente uma admiração enorme pela FAESP.

Acho que é a agência brasileira que mais deu certo, não só pela FAESP em si, mas por conta da lei que recorta o orçamento do Estado, né, para ciência e tecnologia aqui em São Paulo, e que é muito importante. Mas o jeito que a FAESP trabalha também, eu queria entender como que é lá de dentro, porque é o que fomenta a nossa ciência. E a gente depende muito da FAESP, assim como depende do CNPq e da CAPES. Quem sabe um dia eu vou contribuir lá também.

Mas essa é a minha novidade. Tô numa fase de escrita de um novo projeto, porque esse jovem pesquisador está finalizando. E é sempre muito estressante para o professor, porque a gente vai ficar sem verba. Como que a gente faz para sustentar os projetos dos alunos? Mas eu acredito que trabalhando firme, né, publicando boa qualidade, né. Acho que eu nunca fui a pessoa que acreditou na quantidade de papers, sabe, esses artigos, a galera que faz o salame science, né.

Eu não acho que isso é importante. Eu acho que tem que ser artigos, mesmo que não na Science, na Nature, tem que ser coesos, que contam uma história, que de fato podem contribuir um tijolinho a mais, né, na ciência, mesmo que ele for pequeno. E eu acho que isso tem sido, eu tenho tido retribuição em relação a isso. Então acho que é o caminho. E hoje em dia até a própria avaliação da pós-graduação tem se tendenciado a olhar mais a qualidade do que a quantidade. Então acho que eu tô preparada.

?Voz B

Karina, foi, olha, o tempo voou, o tempo voou, sabe assim? Foi uma delícia conversar com você, conhecer um pouco mais sobre, sobre sua trajetória e sobre o que você tem pesquisado mais recentemente. Karina, deixa aí o seu até logo para as nossas ouvintes e ouvintes. Eu quero que você também deixa aí aonde você prefere que as pessoas te procurem, caso queiram conhecer mais sobre o trabalho do seu lab.

KPKarina Possa Abrahão

Queria deixar essa mensagem final, algo importante para todo mundo. É claro que para chegar onde a gente vai chegando na carreira acadêmica, Tem que se dedicar muito, tem que ter resiliência e trabalhar bastante, né? Aquele famoso workaholic, mas sem deixar de viver outras coisas. Então, se vale a curiosidade, eu danço forró, já fui professora de forró numa academia.

?Voz B

Olha só!

KPKarina Possa Abrahão

É, e como eu falei, tem a banda, e tem a banda. É isso que eu ia falar. E há um ano atrás formamos a banda Os Insolúveis, são Só professores aqui da Unifesp. Se quiser procurar a gente, a gente tá só começando. Tem Instagram lá, Insolúveis, Banda Insolúveis. Agora, se quiser me achar, é Karina Abraão. Eu tô lá no Instagram, eu tô no LinkedIn, e as pessoas podem interagir. Eu tento ser ativa, mas o tempo é curto às vezes. Mas eu consigo dar atenção que as pessoas quiserem.

É mesmo que eu transferi lá para o email, que eu acho que é tranquilo. Meu email é carinabraham, tudo junto, @unifeste.br.

?Voz B

Tá certo. E também você vai ver no post sobre o episódio, também tem o link para o lab da Karina, que é abrahamlab.com, Abraão com H, né? E lá você tem detalhes das as pessoas que trabalham com ela, os estudos que elas têm conduzido e muito mais, não é isso, Karina?

KPKarina Possa Abrahão

É isso, tem que também manter esse site bem atualizado.

?Voz B

Tá certo então. Ô Karina, foi um prazerzão conversar contigo, tá? Obrigado pelo que você tem feito pela ciência brasileira, né, e levado o Brasil lá para fora. Muito obrigado de verdade, viu, Karina?

KPKarina Possa Abrahão

Obrigada a você, Key. Também obrigada ao Otair, ao Naru Rodô, que é podcast sensacional. A gente indica para todo mundo. E quem sabe eu trago mais novidades numa próxima vez. Um abraço.

?Voz B

É isso daí. E Naru Rodô, ilustríssimo ouvinte. E você já sabe, aqui no Naru Rodô quem faz a pauta é você. Você tem alguma pergunta pra gente ou quer comentar algum episódio? Escreva pra nós, podcast@naruodo.com.br. Repetindo, podcast@naruodo.com.br. E lembre-se, mande nome completo, idade, profissão e a cidade de onde você está falando. É isso aí.

KPKarina Possa Abrahão

Esse podcast é apresentado por p9.com.br.