Episódios de Naruhodo

Naruhodo #469 - Temos livre arbítrio? - Parte 1 de 2

29 de junho de 202657min
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Nosso cérebro toma decisões antes mesmo de termos consciência delas? Se sim, seriam nossas decisões deterministas e o livre-arbítrio uma ilusão? O que a ciência tem a dizer sobre isso? Parte 1 de 2.

Confira o papo entre o leigo curioso, Ken Fujioka, e o cientista PhD, Altay de Souza.

>> OUÇA (57min 28s)

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Naruhodo! é o podcast pra quem tem fome de aprender. Ciência, senso comum, curiosidades, desafios e muito mais. Com o leigo curioso, Ken Fujioka, e o cientista PhD, Altay de Souza.

Edição: Reginaldo Cursino.

http://naruhodo.b9.com.br

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Participantes neste episódio2
A

Altay de Souza

Hostjornalista
K

Ken Fujioka

HostPublicitário
Assuntos6
  • Filosofia ExistencialismoJean-Paul Sartre e a liberdade de autocriação · Diferença entre ser humano e produto manufaturado · Responsabilidade pela própria essência · Má-fé: fingir não ter escolha para escapar da ansiedade da liberdade · Simone de Beauvoir e a mulher que se torna · Moral da ambiguidade e luta social
  • Determinismo BiológicoSeleção natural age nos genes, não nos organismos · Variância genética como base do determinismo · Genes codificam proteínas e geram respostas probabilísticas · Sociedade reduz a variabilidade potencial · Determinismo biológico existe no nível da variabilidade
  • Livre-arbítrio vs. DeterminismoDeterminismo duro: incompatível com livre-arbítrio · Compatibilismo: determinismo e livre-arbítrio podem coexistir · Libertarianismo metafísico: livre-arbítrio e determinismo ao mesmo tempo · Compatibilismo clássico (Hobbes): liberdade de ação · Compatibilismo moderno: livre-arbítrio como competência psicológica
  • Liberdade de AçãoCapacidade de escolher entre cursos de ação · Controle sobre ações para responsabilidade moral · Fonte última e originária das próprias ações · Relação com a religiosidade e crença em entidade transcendente
  • Dualidade e MaterialismoConsciência gerada pelo cérebro e suas sinapses · Emergência da consciência não é puramente física · Dificuldade em determinar a direcionalidade cérebro-consciência
  • Aposta de PascalPrevisão do futuro e a ilusão de controle · Contradição entre determinismo biológico e restrição social · Polarizações sociais e paradoxos contemporâneos
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KFKen Fujioka

Temos livre-arbítrio? Parte 1.

ADAltay de Souza

Naruhodo Podcast.

KFKen Fujioka

Bem-vindo ao Naruhodo Podcast para quem tem fome de aprender. Eu sou Ken Fujioka.

ADAltay de Souza

Eu sou o Taíde Souza.

KFKen Fujioka

E hoje é dia de quê? Ciência e senso comum. Ilustríssimo ouvinte, ilustríssimo ouvinte do Naruhodô, o Altair e eu temos duas mensagens pra você. A primeira é: muito, muito obrigado pela sua audiência. Sem ela, o Naruhodô sequer teria sentido de existir. Você nos ajuda demais, não só quando ouve, mas também quando espalha episódios pra familiares, amigos e, por que não, inimigos. A segunda mensagem é: existe uma outra forma de apoiar o Naruhodô, a ciência e o pensamento científico, que é apoiando financeiramente o nosso projeto de podcast semanal independente, que só descansa no recesso do fim do ano.

Manter o Naruhodô tem custos e despesas: servidores, domínio, pesquisa, produção, edição, atendimento, tempo, enfim, muitas coisas para cobrir, e algumas delas em dólar. A gente sabe que nem todo mundo pode apoiar financeiramente, e tá tudo bem. Tente mandar um episódio para alguém que você conhece e acha que vai gostar. A gente sabe que alguns podem, mas não mensalmente, e tá tudo bem também. Você pode apoiar quando puder e cancelar quando quiser.

O apoio mínimo é de R$15 e pode ser feito pela plataforma Orelo ou pela plataforma Apoia.se. Para quem está fora do Brasil, temos até a plataforma Patreon. É isso, gente. Estamos enfrentando um momento importante e você pode ajudar a combater o negacionismo, e manter a chama da ciência acesa. Então fica aqui o nosso convite: apoie o Naruhodô como puder. Altair, temos uma pergunta com muitos e-mails, Altair.

ADAltay de Souza

É um dos recordes de perguntas para os episódios do Naruhodô. Esse pense um que deu trabalho.

KFKen Fujioka

Pois é, esse aqui só perdeu em perguntas. Pro episódio duplo sobre PNL, é isso, Pedro?

ADAltay de Souza

Isso, do Protocolo Galinha.

KFKen Fujioka

Que é onde falamos sobre o Protocolo Galinha, exatamente. Se você tem dúvida de onde tá a teoria sobre o Protocolo Galinha, ele surgiu no episódio duplo sobre Programação Neurolinguística.

ADAltay de Souza

Isso, 346 e 347. Então, nesse sentido, dado essa grande quantidade de e-mails, será que tínhamos liberdade de não fazer esse episódio?

KFKen Fujioka

É, parece que não tínhamos esse livre-arbítrio.

ADAltay de Souza

Então, pois é.

KFKen Fujioka

A primeira pergunta, ou primeiro email, tá aí, veio do Isaac Campos, que era estudante de física na época. É porque esse email veio de 2021, tem emails de 2019, né? Enfim, o Isaac Campos é de Curitiba, Paraná. Ele disse o seguinte: tem uma dúvida que vem me afligindo há algum tempo. Ouvi falar de experimentos que mostraram que nosso cérebro toma decisões antes mesmo de termos consciência delas? Seriam nossas decisões deterministas e o livre-arbítrio uma ilusão?

Ou o cérebro, ou seja, nós mesmos, tomamos essas decisões de forma livre, mas a nossa consciência sobre nós mesmos sempre tem um delay? Qualquer uma das opções é angustiante, mas quero me angustiar pela razão certa. Temos também Eduardo Marques de Lima, que diz o seguinte: ou o futuro e o passado existem como um todo e o que chamamos de presente é como uma fatia muito fina de algo muito maior, como uma imagem de ressonância magnética.

Ou o passado e o futuro não existem, pois um já aconteceu e outro está para acontecer. A única coisa que existe é o presente. Porém, se isso for real, tudo quase inexiste, porque a existência se resume a algo tão pequeno quanto um instante pode ser. Mas se a existência não se resume a um instante, podemos dividir a existência em duas partes: passado e futuro. Sendo a única diferença entre eles a posição em relação ao presente.

Partindo disso, nós podemos dizer que o passado parece imutável, mas se a única diferença entre passado e futuro é a linha do presente, o que garante que o futuro não tenha essa característica de imutabilidade do passado? No fim, a pergunta que fica é: seria o tempo algo que já existe como um todo e nós experienciamos ele passando? E se o tempo já existe como um todo, o futuro todo já estaria escrito tal qual o passado? Ou seja, não temos livre-arbítrio. Olha que viagem do Eduardo Altaíde!

ADAltay de Souza

Veio autoestragado, bateu beleza, né?

KFKen Fujioka

Temos também Tomás Ferreira, que é técnico de exercícios, seja lá o que isso signifique, em Portugal. Já o Iço Podcasts, olha ali o português de Portugal, já o Iço Podcasts há muitos anos E o vosso é sem dúvida alguma dos melhores que já ouvi. Parabéns pelo vosso trabalho maravilhoso em prol de um mundo mais baseado em evidências científicas. Espero que continuem sempre a exterminar mitos. Olha, eu às vezes corto os elogios que as pessoas mandam por e-mail porque são muitos e-mails como esse caso aqui, mas o do Tomás eu deixei por causa do jeito português que ele mandou, então a gente não podia deixar de fora.

ADAltay de Souza

E você interpreta bem o português de Portugal.

KFKen Fujioka

Aí ele diz: dúvida, qual a vossa opinião sobre o livre-arbítrio? Ouvi um episódio vosso recentemente em que o Altair menciona discretamente que temos poder de decisão. Li os dois livros do Sapolsky, Comportamento e Determinado, que mostra através de centenas de estudos que não temos controle nenhum sobre as nossas decisões. Basicamente, a genética e educação é que determinam todas as nossas ações. Temos também e-mail do Lucas Nascimento, estudante de ciências biológicas pela UEL, na Universidade Estadual de Londrina.

Portanto, ele é de Londrina, Paraná. E ele diz o seguinte: antes de tudo, gostaria de agradecer a vocês por toda a transformação que o podcast tem feito em minha vida. Verdadeiramente muito obrigado. Minha pergunta se refere ao tal do reducionismo biológico. Normalmente, no senso comum, há um pensamento de que há um dualismo entre o seu corpo e uma pessoa que fica atrás dos olhos e controla nossas decisões com total livre-arbítrio.

Dada essa longa contextualização, minha pergunta é: faz sentido levar minha vida a partir do reducionismo biológico, ou seja, que todas as nossas decisões são frutos de processos celulares e não de minha consciência? Ou tem algo a mais que faz sentido citar sobre o livre-arbítrio da consciência? Temos também Vitor Vilar, que é psicólogo, professor universitário e doutorando em psicologia social na USP. E mora em São Caetano do Sul.

Diz o seguinte: com os novos desenvolvimentos de guerras no Oriente Médio, meu feed do YouTube começou a se encher com canais que propõem usar teoria de jogos ou modelos matemáticos para prever os próximos movimentos de certos atores geopolíticos no mundo. Os apresentadores muitas vezes fazem afirmações com tanta segurança que me lembra o Harry Seldon defendendo a psicohistória em A Fundação. De Asimov. Vários alunos já vieram me perguntar sobre este conceito de psicohistória e tenho a impressão de que muitos acreditam que a teoria dos jogos é só um filhotinho que um dia se desenvolverá em uma psicohistória real.

Refletindo sobre essas tecnologias e como elas são um desafio para o debate sobre livre-arbítrio, queria trazer algumas perguntas: esses modelos são tão bons assim para permitir previsões de conflitos geopolíticos em tempo real? Com mais dados, teorias e poder computacional, isso poderia chegar a algo tão poderoso como a psicohistória conhece com a história da Fundação? E o que poderia ser dito sobre a ideia de livre-arbítrio, que é tão cara para tanta gente, frente a essas tecnologias que se propõem a ser preditivas?

Obrigado, como sempre, por esse podcast, que já virou lição de casa tanto de alunos quanto de pacientes. Coitado desses alunos e pacientes, hein? Temos também Arthur Schneider Almeida, que é servidor público na Universidade Federal Espírito Santo. O que a ciência atualmente tem a dizer sobre liberdade dos seres vivos, sobre o livre arbítrio e sobre como controlar aquilo que nos controla? Só o ser humano é capaz de controlar aquilo que o controla ou nem o ser humano é capaz disso?

No desenvolvimento humano, onde se posiciona a capacidade de controlar aquilo que nos controla? É uma habilidade que se aprende? Pode existir uma educação emancipatória nesse sentido? Letícia Ventura também mandou e-mail e diz o seguinte: Lembro a primeira vez que comentei com meu marido sobre como eu gostava de quando aprendia uma palavra nova em algum episódio e a partir daí nos demos conta de como, popularmente falando, o Naruhodo abria nossa mente.

Nunca que eu imaginei que eu veria tanta coisa diversa com tanto interesse e mesmo terminando alguns episódios com a impressão de não entender nada, sinto que algo dali eu absorvi. Ô Letícia, faço as minhas as suas palavras.

ADAltay de Souza

Isso é comum, por isso tem que ouvir de novo.

KFKen Fujioka

Agora, vocês querendo ou não, fazem parte da nossa vida, são tema de diversas conversas nossas e na menor chance indicamos direto para amigos. Ouça um outro podcast que gosto muito chamado Escafandro, sensacional podcast.

ADAltay de Souza

Recomendo, recomendo.

KFKen Fujioka

Um abraço pro Tomás Chiaverini, quem não ouve, ouça!

ADAltay de Souza

E manda um "Oi" pra ele.

KFKen Fujioka

Exato. Oi! Em um episódio ele falou sobre livre-arbítrio, mexeu com a minha cabeça. Após uns 2 dias de digestão, corri para o Naruhodo, como de costume, pra saber o que a ciência tinha pra dizer sobre isso. Eu não encontrei nenhum com esse título, mas certa vez você já tinha abordado esse tema. Comecei a ouvir e reouvir um por um. Até que tive a brilhante ideia de pedir a vocês uma indicação.

ADAltay de Souza

Chegou agora!

KFKen Fujioka

E temos também Fernando Baschirotto de Souza, que diz o seguinte: escrevo porque no episódio Como Sabemos Se Uma Coisa é Causa de Outra, o Altair comentou que não temos livre-arbítrio e meio que comentou que isso tinha a ver com a teoria dos jogos. Diante disso, fiquei curioso sobre a afirmação e agora estou ouvindo alguns podcasts sobre teoria dos jogos, um episódio sobre o tema e como essa teoria é aplicável nas nossas vidas, nas nossas vida seria interessante.

Será mesmo que o nosso destino já é definido na hora que nascemos ou podemos mudar ele ao longo da vida? Temos também Vitor Zuccarelli, que trabalha com assuntos regulatórios no Rio de Janeiro. Venho aqui trazer uma questão que está sempre presente no meu dia a dia: existe livre-arbítrio? Sempre quando penso sobre isso, chego na conclusão de que o livre-arbítrio não é uma realidade. Ainda que levemos em consideração a sugestão da mecânica quântica de um universo com uma natureza não essencialmente determinista, Onde nossos cérebros operem de alguma forma em conformidade com essa lógica, isso apenas acrescentaria uma camada probabilística, não necessariamente indicando que tenhamos a capacidade real de tomar decisões.

Sendo assim, quando analisamos a causa material, vemos que nossos átomos e moléculas obedecem às leis da física e química, sem que possamos influenciar nesses processos. Na causa formal, podemos argumentar que somos conduzidos por heurísticas e vieses. No âmbito da neurociência, temos as evidências que sugerem que fazemos escolhas antes mesmo de termos plena consciência desse processo. Na causa eficiente, observamos que somos moldados por fatores históricos, construções sociais e ainda com a ajuda do nosso querido marketing, persuadidos por agendas e tantos outros fatores que acabam influenciando nosso comportamento.

E por fim, na causa final, ainda temos pressões seletivas que podem modular nossa forma de de agir. Olha aí a análise, 4 causas, é das 4 causas de Aristóteles. Apesar disso tudo, possuo a nítida impressão de que tenho controle sobre minhas ações. Existe alguma evidência que sugere que de fato temos livre-arbítrio? Temos também, Guilherme Andrade, que diz o seguinte: passei a acompanhar o canal de vocês no YouTube alguns meses atrás. Olha só, tem algumas pessoas que acompanham a gente no YouTube.

ADAltay de Souza

É, pois é.

KFKen Fujioka

Todos os episódios que estão nas plataformas de áudio estão também no YouTube, né, sem imagem, tá. A gente poupa vocês de ficar olhando para as nossas caras.

ADAltay de Souza

Obrigado.

KFKen Fujioka

Mas o áudio tá lá no YouTube também. E aí diz o seguinte: uma das questões que mais me intriga é sobre livre-arbítrio. Faço graduação em psicologia, cheguei a ver algumas coisas que tangenciam esse tema em neurociência e filosofia, mas sempre parece Parece que algo me escapa. E finalmente temos Gabriel Akira, que é programador de São Paulo, capital. Ele diz o seguinte: um casal de amigos me falou sobre o paradoxo de Newcomb. Não entendi, e procurando na internet achei diferentes formas.

Alguns usam um vidente, uma pessoa onisciente ou um supercomputador para ser o previsor, às vezes aparecendo como nunca tendo errado. Pelo que vi, além de lógica, existe filosofia envolvida, como o livre-arbítrio. Altair, afinal de contas, ficou até cansado, né? Para a ciência, Altair, temos livre-arbítrio ou não?

ADAltay de Souza

E começando, para quem fujoca, existe o livre-arbítrio?

KFKen Fujioka

Ó, Altair, ó, para mim é livre-arbítrio é uma ilusão.

ADAltay de Souza

Você acha mesmo?

KFKen Fujioka

Eu acho.

ADAltay de Souza

Você sempre achou? A vida toda sempre achou?

KFKen Fujioka

Não, eu passo a achar isso à medida em que eu vou Amadurecendo, envelhecendo.

ADAltay de Souza

Mas com que idade você tinha quando você achava que existia?

KFKen Fujioka

Que você era... Ah, eu acho que até a fase de jovem adulto, 20 e poucos anos assim.

ADAltay de Souza

E como você era a pessoa que acreditava no livre-arbítrio?

KFKen Fujioka

Arrogante, provavelmente, né? Mais arrogante porque achava que tinha controle sobre as coisas, sobre a situação.

ADAltay de Souza

Essa é uma boa observação. Então assim, a crença na existência do livre-arbítrio pressupõe uma certa beligerância em relação à realidade?

KFKen Fujioka

É, acho, não sei se chega a ser beligerante a postura, mas eu diria que há uma certa arrogância, sabe?

ADAltay de Souza

É, tudo depende de mim.

KFKen Fujioka

Isso, exatamente, exatamente.

ADAltay de Souza

Eu posso fazer o que eu quiser, né?

KFKen Fujioka

Então, isso, se eu fizer resolve.

ADAltay de Souza

Bem pensamento de agência, né? Um pouco, né?

KFKen Fujioka

Pensamento de idiota.

ADAltay de Souza

Acontece. Acontece. Então, esse, viram a quantidade de e-mails que temos, né? Então esse é um dos episódios que é mais requerido pelas pessoas. Me tomou alguns anos para bolar esse episódio e ele é uma junção de vários outros, tá? Mas a hora dele chegou. E como de costume, ele será em duas partes. Na primeira parte a gente vai falar um pouco mais da questão filosófica mesmo, dar uma orientada nisso. Lembrando que livre-arbítrio é uma questão filosófica há centenas de anos, então tem 350 milhões de autores.

Eu vou fazer um compilado mais ou menos das ideias gerais, assim, das teorias de livre-arbítrio, porque as pessoas ficam... fica uma questão muito opinativa, né? "Ah, você é a favor ou contra?" Sabe? É meio time de futebol, né? Fica aquela coisa. Então, a ideia do episódio assim, a gente vai tomar partido, tá? A gente vai tomar partido de um lado no final da segunda parte, né? Já vou deixar claro, a gente vai tomar partido de um lado, mas a ideia é você perceber a história, como que o argumento é construído ao longo do tempo.

E a ideia é que ao longo dos episódios, dos dois, Você fica percebendo assim: não, parece que tem livre-arbítrio. Não, parece que não tem, sabe? A ideia é que seja um pouco socrático a coisa, sabe? Então vou construir o argumento de um lado, de repente: mas e isso? Aí você vai para outro lado. A ideia é você fazer esse caminho, tá? Que isso torna bem mais interessante o entendimento. E é por isso que é uma das grandes questões filosóficas que temos também, tá?

Na primeira parte vai ser um pouco mais filosófico, na segunda parte vai ser aplicações. Eu vou falar de exemplos mesmo. Porque tem muita coisa na filosofia, tem teses, linhas de pesquisa sobre isso. E a ideia, como é uma coisa de divulgação científica, a questão, eu fiquei pensando muito tempo em como trazer isso para o dia a dia das pessoas, sabe? Como que a gente é controlado muitas vezes por algumas coisas. E aí é uma ideia mais moderna de livre-arbítrio.

E como a existência do determinismo é uma condição necessária para que o livre-arbítrio surja. Isso é uma coisa contraditória. Em teorias mais modernas, a ideia de pressupor a existência do livre-arbítrio tem que considerar a existência do determinismo. Só que a gente tem que definir o que é determinismo também. E aí tem a ver com o nosso último e-mail, do Gabriel Akira, que é o paradoxo de Newcomb. O paradoxo de Newcomb é um bom exemplo disso, que será tratado no segundo episódio, essa parte.

Mas a ideia é começar do começo. Então vamos começar, vamos definir o que é livre-arbítrio. Definir. Então assim, definição: livre-arbítrio, abre aspas, capacidade ou habilidade da pessoa de escolher entre diferentes cursos de ação. É só capacidade de escolher entre diferentes cursos de ação. Essa é uma definição. Tem uma outra forma de definir isso, é quando o organismo exercita controle sobre suas ações de forma necessária para ter responsabilidade moral.

Então essa é uma segunda definição parecida com a primeira. Então é a capacidade de exercício do indivíduo de ter controle sobre suas ações de forma necessária para ter responsabilidade moral. E o que é responsabilidade moral? Noção de certo e errado. Noção de certo e errado. Essa é a ideia. E uma terceira forma de definir livre-arbítrio é o indivíduo ser a fonte última e originária das suas próprias ações. Então você se comporta como causa última do seu próprio comportamento.

Então, por exemplo, quem você vai lá na loja e compra um sapato, né? Você é o causador único e último do comportamento de comprar o sapato, certo? Percebe? Isso seria o livre-arbítrio, tá? Então essas seriam definições gerais de livre-arbítrio, tá? A definição de livre-arbítrio vai mudando com o tempo, por isso que eu coloquei essas três, tá?

KFKen Fujioka

E aí o livre-arbítrio, a ideia de livre-arbítrio Ela é descolada da ideia de livre-arbítrio da Bíblia, por exemplo, religiosa?

ADAltay de Souza

Não. Ela é mais antiga do que o cristianismo e tal. É tão antiga quanto a escrita. Tem ideias sobre isso. Será que a gente é livre? Será que tem livre-arbítrio? Claro que hoje em dia ela tem relação direta com a religiosidade, com a crença numa entidade transcendente. Isso dá uma noção de livre-arbítrio ou não. Mas também com o tipo de religião. Religiosidade é como você manifesta a sua crença ou não no divino. Religião é o que você professa, é o que você segue.

Você pode ser católico, evangélico, o que quer que seja. Isso também tem impacto na sua crença de livre-arbítrio. Então é engraçado porque muitas vezes as pessoas não entendem livre-arbítrio. Elas não entendem mesmo. Então, por exemplo, quem tá nesse raio de merda de época de Copa do Mundo, que eu odeio, ainda mais porque Copa posto de evento de lavagem de dinheiro por bet, né? Então tem o nosso episódio sobre bet, né? Então eu já não gostava de futebol, agora eu detesto ainda mais.

Mas por exemplo, o cara que aposta no jogo, né, ele aposta no jogo, ele tem uma crença de que ele vai controlar alguma coisa, não é?

KFKen Fujioka

Provavelmente, né? Ou pelo menos se ilude dessa forma.

ADAltay de Souza

Isso. Então uma pessoa que joga, né, sem ser jogo compulsivo, porque aí jogo compulsivo ela é controlada pelo jogo em si, então aí ela não tem controle nenhum. Tá? Mas a pessoa que faz uma aposta, por exemplo, que vão fazer uma aposta, né? É, você acha que você vai ganhar, por isso você tá fazendo aposta. Você tem que ter um certo controle, né? Você tem que ter uma crença de que existe uma regra por trás daquilo que você tá vendo para poder controlar.

Nesse sentido, você não acredita no livre-arbítrio, você tem uma sensação de que você tá controlando alguma coisa, sabe, né? Que você entende a regra, por isso que você aposta, né? Você tem tanta ideia de que vai acontecer o que você espera Tanto é que você aposta nisso, sabe? Só que aí os dados mostram muito, que a gente vai ver no segundo episódio, as pessoas que mais apostam em jogo são as pessoas que mais acreditam no livre-arbítrio, que tem uma providência. Ah, é o contrário.

KFKen Fujioka

Existe essa correlação?

ADAltay de Souza

Existe essa correlação. Então quanto mais religiosidade, né, assim, a crença na entidade transcendente torna a pessoa, ela acha que ela, por acreditar em algo, Ela tem essa providência, né, que afeta ela, ela tem essa fé, e essa fé faz com que ela tenha um comportamento que não é ligado ao livre-arbítrio, mas ao mesmo tempo ela acredita que tem. Percebe a contradição? Então é uma zona, sabe? Então isso de tempos imemoriais, tá?

Desde a crença ou não em Deus também condiciona um certo paradoxo em você pensar em livre-arbítrio, né? Porque se Deus é criador de todas as coisas, Aí agora você não teria livre-arbítrio, concorda? Não teria, né?

KFKen Fujioka

Verdade.

ADAltay de Souza

É, mas ele, mas ele te deu livre-arbítrio, né? Na Bíblia fala isso, né? Ele criou o céu e a terra e te deu o livre-arbítrio.

KFKen Fujioka

Isso foi dado para que o ser humano possa amar Deus sem que seja uma imposição, que seja uma decisão livre.

ADAltay de Souza

É exatamente o primeiro mandamento, né? Então amar a Deus e a todas as coisas da mesma forma, aquela coisa toda, né? Então isso é um contrassenso, é um pouco de contrassenso, né? Mas para pessoa que crê faz sentido dentro da lógica de representações ali, mas para pessoa que não crê não faz sentido, né? Então a própria crença numa entidade transcendente já condiciona a existência ou não de livre-arbítrio para aquele indivíduo, tá?

Ou pelo menos a crença nisso. Então isso já é um problema, tá? Mas eu vou deixar religião de lado um pouco, que ela vai entrar depois. Mas começando assim, nas teorias de livre-arbítrio, que tem um monte A ideia geral do livre-arbítrio é você fazer escolhas não determinadas por eventos passados. Então, por exemplo, se você vai sempre num restaurante, né, e você vai nesse restaurante porque você já foi antes e gostou, a rigor você não tem livre-arbítrio, concorda?

KFKen Fujioka

Sim.

ADAltay de Souza

Ou seja, isso é uma das definições de livre-arbítrio, você vai nesse restaurante porque você já foi antes, ou seja, você tá controlado por um evento do passado. Então, a noção de livre-arbítrio ela é meio ligada com a noção de causalidade. E aí a gente tem um episódio, o episódio 413, "Como que uma coisa é causa da outra", que a gente fala das teorias de causalidade. E a gente tem o episódio 322, que é "Se é possível acender um poste com o poder do pensamento", também tem a ver com essas noções de causalidade.

E aí é muito importante introduzir o conceito de determinismo, que muitos dos nossos ouvintes falam, né? Ah, então não existe livre-arbítrio porque a gente é determinado pela biologia, pela química, pela física, pelas leis. As leis físicas, químicas e tal, biológicas, determinam a gente, né? Faz sentido pensar nisso, mas falta definir melhor, de uma forma mais moderna, o que é o determinismo, tá? Sobretudo determinismo biológico, tá?

O determinismo biológico e o químico, tá? As pessoas pensam que determinismo— e aí tem trabalhos recentes fantásticos que me ajudaram a fechar essa questão— tem gente que pensa o determinismo como é algo assim: como é determinado, vai acontecer de um jeito só. Sabe aquela história? É tipo o seu destino. O seu destino é um caminho único, não teria como ser diferente, né? E aí vale a pena a gente voltar no episódio 182. 182 é o episódio se a ordem dos irmãos faz diferença, se você é o irmão mais velho, é diferente de ser o irmão do meio ou mais novo, né?

Nesse episódio eu coloco um conceito muito importante da biologia, que é o conceito de herdabilidade. Herdabilidade. Tá? Então, e aí vale a pena trazer esse conceito de novo porque ele é muito importante para redefinir o que seria determinismo. Isso é muito importante para entender as teorias modernas de livre-arbítrio. Então, a ideia é assim, que por exemplo, quem? Você, hoje, você não foi moldado pela seleção natural. A seleção natural não afeta você, afeta os seus genes.

Ele afeta suas partes, tá? Então, por exemplo, seu pai e sua mãe, eles têm lá o cérebro deles, o corpo deles, o coração, os órgãos. Tá? Tem as estruturas do corpo deles, tá? A seleção natural age nos genes que condicionam as estruturas, não age neles. Essa primeira metáfora é importante. Então, ó, se a seleção natural, que é o que— a pressão seletiva que gerou a seleção dos seus pais, dos seus avós, dos seus bisavós, por aí vai, tá?

Então, isso é determinado pela seleção natural, que é uma das formas de seleção. Tem outras três que eu vou falar daqui a pouco. Então, por exemplo, Um organismo, ele aparece no ambiente porque as partes dele são montadas a partir de genes que foram selecionados pela seleção natural, que é uma das formas, tudo bem? Ou seja, você, você quem? Você é uma junção de genes. Cada gene tem uma pressão seletiva que fez ele aparecer, porque quando o seu pai e a sua mãe deram os gametas que geraram você, é meio que uma loteria dos genes, né?

Uma loteria de cada um dos genes ali, da expressividade de cada gene, veio para você. Ou seja, você não é uma soma dos genes dos seus pais, você é uma soma da variabilidade dos genes. Esse conceito de variância é fundamental para entender determinismo hoje em dia, tá? Então você não é uma média dos seus pais, você é uma média da variância deles.

KFKen Fujioka

Senão, as pessoas, os filhos seriam todos cópias, né, do pai com a mãe.

ADAltay de Souza

Seriam cópias muito mais homogêneas. E o que você, o que a seleção natural promove Não é a média, é variabilidade. Ela gera pressão para variabilidade, tá?

KFKen Fujioka

Isso. Ou seja, mesmo aqueles genes não dominantes têm chance de aparecer, né?

ADAltay de Souza

Tanto é que aparece em você e não na sua irmã, no seu irmão, por exemplo. Pode aparecer, tá? Então, é ela. E aí, assim, o gene aparece, só que o que que o gene codifica? Proteína. E aí, por exemplo, quando você come um, você come um doce, né? Aí vai ter lá liberação de insulina para processar o doce, seu Pâncreas age, tá? Isso é processado por genes. Vai ter um gene: "Olha, entrou um doce, né? Libera aí." Aí ele vai liberar lá um gene que libera uma proteína que vai no pâncreas e libera lá insulina, tá?

Só que a gente pensa como se fosse um mecanismo, né? Uma máquina. Só que não é uma máquina. Então, se você comer um doce hoje, não é exatamente a mesma quantidade de insulina que é liberada amanhã. Tem uma oscilação desse valor. Você é uma máquina probabilística, Key. Você é uma soma de probabilidades dos seus genes. Isso já inclui uma variabilidade bizarra do seu comportamento. Bizarra. Que vai ficando menor conforme você vai ficando mais velho.

Vai ficando menor. Isso é o efeito da sociedade. A sociedade, a cultura vai reduzindo a sua variabilidade potencial. Então uma coisa pra deixar claro: existe determinismo biológico? Sim! Misericórdia, existe determinismo biológico. Existe, tem um artigo fantástico de 2025 que mostra que— não, 2025 não, 2019, que ele fala o seguinte, que eu adorei esse artigo, que ele fala que o determinismo biológico, do jeito como ele está no mundo assim que as pessoas falam, é tão ruim quanto determinismo social.

Tipo aquele discurso de humanas, que de gente que não estuda, que fica falando tudo é social, né? O ser humano é um ser social, só bobagem. Claro que tem uma base determinada biologicamente, só que a pessoa pensa determinação como se fosse algo 100%, e não é, é uma variabilidade. Você ser socializado é você ir em função das médias. Então a socialização é um processo de redução das variabilidades biológicas. Então assim, isso é importante, é tipo informação pública.

Existe determinismo biológico? Sim, mas existe no nível da variabilidade, tá? Então você, ok, você não vai virar, sei lá, você não vai no meio da sua vida, você não vai gerar traço ocidental, tem traço oriental, acabou, sabe? É isso, tem essa base, tá? Tem restrições, tem um limite inferior e superior da sua biologia, mas o que você pode fazer ali dentro, um monte de coisas, você tem um monte de variabilidade ali para ser selecionado pela socialização, tá?

Isso é muito importante. Tanto é que, a partir dos mecanismos biológicos de variabilidade, você desenvolve os dispositivos sociais que definem você. O que te define não é a biologia, o que te define é a sociedade. É o seu nome, aí tem o episódio sobre nome próprio. O que define é a sua cultura, é a educação dos seus pais, dos amigos, da sociedade. Então, você nasce com uma variabilidade gigantesca, que é determinada biologicamente, É determinada, a biologia, tá?

Isso é importante. Então assim, esse ponto é fundamental para entender livre-arbítrio de verdade. O mais perto do livre-arbítrio que a gente tem de fato é o determinismo biológico, porque ele seleciona uma variabilidade muito maior do que o que você poderia imaginar para você mesmo, e mesmo seus pais, seus pais deles, e por aí vai, tá? Então isso é importante. Determinismo biológico existe, mas no nível da variabilidade. Né? Lembrando que a seleção natural é uma das formas de seleção.

A gente tem 4 formas de seleção. Então tem isso, ensino médio: seleção natural, mutação. Teve lá a junção dos genes dos seus pais com a sua mãe, os gametas do pai e da mãe. Na hora de juntar pode ter dado um ruim. E por quê? Por acaso. E aí você nasceu meio torto, nasceu com a diferença deles, porque sim, mutação. Mutação é seleção, é um tipo de seleção. Por acaso, não, mas Aí você vai pensar: então tem livre-arbítrio, né? Nesse sentido parece, né?

Porque ali, pá, né? Deriva gênica. Deriva gênica é assim: teve, por exemplo, antes disso, migração. Migração. Uma população mudou de lugar. Vai gerar diferenças de seleção, né? As pessoas tinham controle disso? Tipo, você tem controle dos seus avós terem vindo do Japão para cá? Não. É isso, tá? É uma migração. Deriva gênica também, que são traços que são selecionados ali no ambiente por acaso. Ou seja, tem uma quantidade de aleatoriedade no rolê que você vai pensar: "Não, então se determinismo genético, determinismo biológico é pela variabilidade e tem 4 formas de seleção, uma delas é a mutação, que é por acaso, tem livre-arbítrio." Não faz sentido pensar que tem?

Tem. Pelo menos biologicamente tem. O que que não teria? O que que reduz a gente? É a sociedade! A sociedade que tira o seu livre-arbítrio, tá vendo? Que droga! A biologia te daria muito mais liberdade do que você seria capaz de manifestar biologicamente, né? Percebeu? Parece que o jogo virou, não é mesmo? Então aí você vai começar: "É verdade, parece que tem livre-arbítrio mesmo." Então, só que aí esse determinismo biológico que te dá uma potencialidade gigantesca para você ser um monte de coisas, né?

Ele acaba sendo cooptado pela sociedade, porque você nasce como um ser biológico no meio social e você não tem controle dessas coisas. Então, por exemplo, por que que a sua língua, a sua primeira língua é português? Porque sim, é isso, né? Só que foi imposto em você. Você não nasceu, você não saiu lá da barriga da sua mãe e falou: "Ah, eu quero aprender japonês." Não quero essa língua, quero outra. É, então não dá. Ou seja, já é imposto, a socialização já é imposto, né?

Ou seja, aí parece que não tem livre-arbítrio, né? Pô, a biologia abre para um lado, a sociedade fecha para o outro, e agora? Será que tem uma média? Então, aí a gente entra nas teorias. Então, a primeira coisa é pegar o determinismo e mostrar que determinismo biológico existe, só que ele existe não no sentido de te dar um caminho comum, mas te dar um certo limite inferior e superior das suas potencialidades, que é gigantesco. Gigantesco.

KFKen Fujioka

Gigantesco, é. Probabilisticamente é monstruoso.

ADAltay de Souza

É monstruoso, sim. Você nem consegue imaginar o que você poderia ser, quem você nem consegue imaginar.

KFKen Fujioka

Não caberia no meu cérebro todas as probabilidades possíveis.

ADAltay de Souza

Então aí chupa o povo de humanas que fala lá determinismo biológico xingando Darwin porque não entende, não leu o ensino médio. Isso é dito no ensino médio. Aí, capítulo, episódio 8, 2. Então, pensando nas teorias de livre-arbítrio, a gente tem as teorias deterministas, que falam assim: determinismo é não tem, não tem livre-arbítrio mesmo, não tem. Aí tem o determinismo que ele chama de determinismo duro, que é não tem livre-arbítrio, não tem.

A biologia, apesar de ela variar muito, tem um limite, mas você nasce na sociedade, a sociedade também vai te dar restrição, então você não tem, não dá. Então esse é o determinismo duro. E ela é incompatível com o livre-arbítrio, né? Tem teorias que falam que se existe determinismo, não tem livre-arbítrio. Acabou, tá? Essa é a mais simples. Aí essas teorias são chamadas de incompatibilistas, que não tem compatibilidade entre o determinismo e o livre-arbítrio, tá bom?

Aí tem 370 caras que fala disso. Aí depois vai ter, tem as teorias que são compatibilistas, que tem uma compatibilidade entre o determinismo e o livre-arbítrio. Livre-arbítrio, né? E aí, assim, das teorias compatibilistas você tem, por exemplo, o que, assim, algumas delas, né, falam que o determinismo é importante para ter o livre-arbítrio, que parece contraditório, né? Então, só que aí depende da definição que você dá de livre-arbítrio.

Então espero que tenha ficado claro, né? Então, se você pegar estritamente, se existe determinismo, não tem livre-arbítrio. Se você aceitar uma, não aceita a outra, acabou. Tá, então aí vai, aí você vai meditar o que que você acha, tá bom. E aí tem aquela ideia que eles chamam de libertarianismo metafísico, que eles falam assim: que pode ter, pode ter livre-arbítrio e determinismo ao mesmo tempo, pode, tá. E aí você tem desse, e aí cria a teoria compatibilista, né.

Dos compatibilistas você tem os clássicos. Um exemplo de compatibilista clássico é o Thomas Hobbes. O Thomas Hobbes, que o Thomas Hobbes é o homem, é lobo do homem, aquela coisa toda. Ele fala assim que o livre-arbítrio é liberdade de ação. Se ninguém tá te prendendo fisicamente, ninguém tá te prendendo, ninguém tá te batendo, você é livre. É meio zoado, né, Ken?

KFKen Fujioka

Ou alguém ou algo, né?

ADAltay de Souza

Você não tá sendo coagido, você não tá preso, ninguém tá te batendo. Se você tem liberdade de ação, de comportamento, você é livre, né? Você sabe que esse argumento tá por trás de metade das teorias de marketing, né? Eu faço uma propaganda, tô te batendo para você comprar o produto?

KFKen Fujioka

É, não tô te obrigando a nada.

ADAltay de Souza

Liberal do cacete, não é verdade?

KFKen Fujioka

Não tô te obrigando a nada.

ADAltay de Souza

É, só tô botando a propaganda.

KFKen Fujioka

Você tem livre escolha.

ADAltay de Souza

Exatamente. Então essa é uma teoria compatibilista, que ela coloca, ó, você se libera. Livre arbítrio é liberdade de ação, né? Pode ter determinismo, mas se você tá livre para fazer o que você quer, esse é o pensamento do Uber. Por exemplo, eu sou empreendedor de mim mesmo, sou chefe de mim mesmo, sabe? Então, se você pensa essa ideia neoliberal mesmo, né, do mercado, ela é um tipo de compatibilismo clássico mesmo. Você é livre para fazer o que você quer, né?

Sim, sim. Hoje a gente tem uma pessoa no mundo que tem 46% do dinheiro mundial, né?

KFKen Fujioka

Não é, rapaz?

ADAltay de Souza

Então, ele foi livre, assim.

KFKen Fujioka

Não, é, o mundo, todo mundo foi livre, né, Antônio?

ADAltay de Souza

Isso.

KFKen Fujioka

O mundo inteiro foi livre.

ADAltay de Souza

O fato de ter o Elon Musk tá impedindo de você de ir no cinema? Não. Então você tem livre arbítrio. Você tem livre arbítrio, ponto.

KFKen Fujioka

Exatamente.

ADAltay de Souza

Tomazov desgraçado.

KFKen Fujioka

E você é proletário porque quer também.

ADAltay de Souza

É, não, você nasceu ali. Não, assim, você pode criticar, você pode criticar o Estado, não tem problema. Mas você criticar o Estado, e dado que o Estado não é uma pessoa, né, ele é um conglomerado de interesses, está impedindo você de comer alguma coisa? Não, então você é livre. Então ele pensa esse livre-arbítrio molecular, sabe? Do nível do comportamento do indivíduo, né? Então é meio ruim, né? Então, tipo, vem... O Thomas Hobbes vem de muito uma ilusão de controle, na verdade, que está presente em muitas teorias hoje, muitas teorias hoje, tá?

Então muitas teorias modernas que falam que a gente tem livre-arbítrio é que, na verdade, no seu comportamento molecular, você pode fazer o que você quiser, né? Tipo, menospreza o efeito da educação, o efeito da publicidade, Então é aquela coisa meio meritocrática, tá? Então meio complicado, tá? Esse tipo de compatibilismo clássico, né? E aí a gente tem teorias mais modernas, que é o compatibilismo moderno, né? Que na verdade o livre-arbítrio é uma competência psicológica, é uma coisa que você tem, você desenvolve, é uma coisa que você aprende, você pode aprender a ter livre-arbítrio.

Isso é um pouco contraditório, né? Mas aí entra mais perto da psicologia mesmo e da sociologia, do ponto de vista mais individual, né? E aí, aí umas teorias mais modernas fantásticas assim, que tem a ver com o materialismo mesmo, né? Então tem uma coisa que é o determinismo, a outra é o materialismo, né? O materialismo fala assim, que toda consciência que você tem é gerada a partir do seu cérebro. Então o seu cérebro que gera sua consciência.

Então o seu cérebro, a ligação das sinapses E da bioquímica do seu cérebro gera você e gera sua consciência, tá? Só que aí tem, existe um problema, né, que é chamado problema duro do materialismo, que assim, tipo, a emergência, a consciência não é algo tipo físico. Só que se eu achar que é algo físico, eu vou estar supondo a existência de uma alma, que não faz sentido, né? Então, mas se eu pensar que é uma emergência da complexidade do seu cérebro, já é alguma coisa.

Isso tem a ver com o episódio lá atrás que a gente gravou dos tipos de consciência, no episódio 67, que é como funciona o cérebro, como a gente fala com a gente mesmo, trabalha assim indiretamente com essa ideia do materialismo, né? Então, para ajudar, vou dar um exemplo. Então, por exemplo, imagina que você vai no metrô, tá? E aí muitas pessoas chegam na estação de metrô antes do metrô chegar, né? Então aquelas pessoas chegam na estação de metrô, né?

Ou seja, as pessoas vão ali por causa do metrô. As pessoas vão na estação de metrô para pegar o metrô, né? Só que isso é diferente do fato do metrô chegar. Tipo, você acha que a presença das pessoas causa a chegada do metrô?

KFKen Fujioka

Claro que não.

ADAltay de Souza

Isso, o metrô vai passar de qualquer jeito, não é? Sim, tá. Só que o que que você vê, né, vendo de fora? O que que você vê? As pessoas chegam, o metrô para, abre a porta e entra, né? Então parece que a pessoa vai lá por causa do metrô O indivíduo vai por causa do metrô e o metrô chega por causa da pessoa. Parece, né? Parece que acontece nos dois sentidos. Então, por exemplo, o seu cérebro, ele é a causa da sua consciência ou é a consciência que gera o cérebro?

Não dá para saber, não tem essa direcionalidade dos dois lados, né? Quando você pensa no metrô, dá para você saber que o metrô não chega por causa das pessoas, ele vai passar lá de qualquer jeito, mas as pessoas vão por causa do metrô. Ou seja, tem uma direcionalidade única. No nosso cérebro, em relação à consciência, não. Então, essa ideia do materialismo é ligada com essa ideia do compatibilismo moderno. O livre-arbítrio, na verdade, se você pensar que a biologia seleciona a variabilidade e a sociedade dá uma restringida nisso, selecionando sua língua, sua percepção de gênero, sua percepção de socialidade e coisas do tipo.

Então, na verdade, o determinismo está na sociedade. A biologia coloca muito mais variabilidade nisso, né? E a gente precisa ser um pouco mais determinado socialmente para conseguir se comunicar e viver em grupo, né? Então, o que acontece? O materialismo, né, ele colocaria assim: não, então o livre-arbítrio não é uma entidade metafísica, tem que ser uma atribuição do indivíduo. Você tem que aprender a ter livre-arbítrio, né? Então, e essa é uma teoria compatibilista. Ela tem uma compatibilidade entre o determinismo e o livre-arbítrio.

KFKen Fujioka

Então ele tá, na verdade, essa tese ela coloca então o livre-arbítrio como um skill, uma habilidade a ser desenvolvida.

ADAltay de Souza

Como uma competência do indivíduo.

KFKen Fujioka

E não uma verdade, vamos dizer assim.

ADAltay de Souza

Exatamente. Então as teorias mais modernas colocam assim que Existe o determinismo biológico? Sim, só que é o determinismo no nível da variabilidade, né, que dá muita coisa. Então assim, existe o determinismo, mas tem alguma coisa para ter alguma, algum livre-arbítrio puro? O livre-arbítrio, a gente chega numa conclusão que o livre-arbítrio puro não existe. Por quê? Porque se existe a noção de causalidade, já não tem o livre-arbítrio puro.

Tipo, você quem é, o que é, porque antes você fez um curso, você trabalhou no lugar, você fez uma outra coisa, você tem seus pais. Isso vai gerando, né? A partir de quando você nasceu, você podia ser praticamente qualquer coisa, né? Porque os seus genes dão muita variabilidade. Conforme os eventos vão acontecendo, você foi cuidado dos seus pais de um certo jeito, você conheceu tais pessoas, vai dando uma limitada, né? Então a noção de livre-arbítrio, a noção da falta de livre-arbítrio, vai sendo construída.

Então a gente chega a uma conclusão interessante, que o livre-arbítrio ele é construído socialmente em você a partir do seu determinismo biológico. Logo, ele não existe, né? No nível biológico, ele é muito maior, mas ele não existe dessa forma pura, né? Mas as teorias modernas colocam: não, o livre-arbítrio pode existir como uma competência psicológica, como algo que você pode aprender. E aí tem a ver com o e-mail de um dos nossos ouvintes, né, que ele fala que: será que existe uma educação emancipatória para isso? É exatamente esse ponto.

KFKen Fujioka

Gostei dessa pergunta.

ADAltay de Souza

É, então, será que existe uma forma de educar isso, né? Pode existir uma educação emancipatória? É uma habilidade? É, sim. Então as teorias modernas colocam que sim, né? Só que isso é feito hoje em dia? Isso acontece na escola? É exatamente o contrário. Falhamos, falhamos sistematicamente, tá vendo? Que droga, né?

KFKen Fujioka

E o marketing ainda ajuda, né, para o resto da vida aí.

ADAltay de Souza

É você que tá falando, né?

KFKen Fujioka

Não ter—

ADAltay de Souza

é você que tá falando isso.

KFKen Fujioka

Tá vendo?

ADAltay de Souza

Eu nem preciso falar, tá vendo? Nem preciso falar. Que bom, que bom. E aí o que acontece? Por exemplo, quando você pega a estrutura da rede social, né, e isso bate completamente na sua área da teoria de comunicação. A gente vai estudar um cara clássico da teoria de comunicação, o Gadamer, que é fundamental para entender isso. Então, a arquitetura da rede social, como a gente já falou em vários outros episódios, ela não é feita para comunicação, ela é feita para venda, né?

Isso já impõe uma certa falta de livre-arbítrio da sua expressão. Na rede social, porque você só viraliza se você trouxer uma mensagem muito assertiva. E tem coisas que não são assertivas, tem coisas que geram reflexão. Mas eles querem uma coisa assertiva, uma coisa meio histriônica, para logo depois da sua fala, que não importa o que seja, eu colocar a propaganda de um produto para aparear. Então, numa estrutura dessa que já viesa você, você se tornou um produto.

E aquela frase clássica: Se o produto de graça é que na verdade o produto é você, não é verdade? É, convenhamos, tá? Então, né, é complicado. Então, puxando mais para isso, né, para teorias mais modernas assim desse compatibilismo moderno, então se o livre-arbítrio é uma competência psicológica, né, que a gente tem que desenvolver, é aquela coisa: quem que causa o trem? O quê? Se são os trens que causam a pessoa ou as pessoas que causam o trem, né?

Então quando você pensa em eventos sociais, Essa era uma discussão entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. Aí entrando mais numa filosofia, mais autores mais modernos mesmo. Tem um paradoxo que aparece aqui, esse paradoxo da liberdade. E aí entra muito a discussão de um, eu pessoalmente gosto bastante dele, do existencialismo, e principalmente o Sartre. Já ouviu falar do Sartre, né? O Sartre fala, uma frase famosa dele, que a existência precede a essência.

Como é que aparece essa frase? No Ser e o Nada, que é o livro que ele lança essa ideia, um dos. Ele fala assim, que o ser humano é diferente da manufatura. O ser humano não é um produto. Veja que ele está tendo uma discussão já mais sociológica. Aqui entra a Primeira e a Segunda Guerra, tá? Já está tendo a luta de classes, o Marx já veio antes, aquela coisa toda. Então, o Sartre fala muito isso, que o humano é diferente de um produto.

No caso do produto, por exemplo, pense numa cadeira. Para você construir uma cadeira, você não tem que ter uma ideia dela, você tem que ter o projeto da cadeira, certo? Então, no caso de um produto, a essência precede a existência. Você pensa na cadeira e constrói ela, né? Então todos os produtos têm uma ideia de concepção, né? E aí ele, a partir desse, dessa ideia de Fabril, né, muita gente, muitas teorias econômicas pensavam sujeito como um produto.

Então a essência É tão interessante isso, porque tem a ver com a religião protestante também, né? Tem o Max Weber, né? A Ética do Capitalismo lá, o protestantismo e a Ética do Capitalismo, que fala disso, né? Quando você pensa, por exemplo, os gregos, né? Os gregos, eles eram essencialistas. Você tem uma essência primeiro, que é a sua alma, né? Então você tem o Platão, Aristóteles, o São Tomás de Aquino falam isso. Existe uma alma e aí nasce você.

Então a essência precede a existência. O Sartre foi o primeiro que dá essa quebra. Porque o que acontece? Como isso é presente muito no cristianismo, o cristianismo é a sua alma aparece e aí vem o seu corpo, né? Isso tem o Descartes também, Descartes coloca muito isso, né? O racionalismo, quando você separa mente e corpo, o que aparece primeiro? A mente, depois o corpo. Res cogitans, res extensa. A gente fala muito nisso no episódio "Como eu sei que eu sou eu mesmo e não você".

Mesmo o Descartes, separando da religião, Ele ainda coloca a mente como primazia do corpo. Então a essência precede a existência, né? O próprio Kant também, os imperativos categóricos. Você nasce com inatismos, né? Com essências. O Sartre é o primeiro que dá essa quebrada. E ele dá essa quebrada nisso com objetivo social, que é: na sociedade de mercado— vai pensando anos 30, 40, tá? Na sociedade de mercado, o industrialismo, a indústria começa a estralar logo depois do colonialismo.

E você, com uma visão social já baseada na existência do Estado, baseado na desigualdade, que é a base do capitalismo, o Sartre começa a ficar bolado. Ele vai chegar e falar: "Não, você não pode transformar a pessoa em um produto, porque se você pensa a pessoa como um produto, você vai pensar a pessoa como uma religião", igual a religião pensava, a essência precede a existência. "Não, não, vamos quebrar isso", como uma forma de lutar contra o Estado.

Então é o contrário. A existência precede a essência. Você nasce, você nasceu, quem Fujioka, como ser biológico, e você é jogado na existência, você é jogado na cultura, né? É muito a teoria compatibilista moderna mesmo, né? Você, quem, ó, você não tem alma não, você nasceu, azar o seu, né? Azar o seu, você nasceu na sociedade aí, ó, você não tem escolha, você não tem destino inato, é isso aí, é treva, né? E aí o que que acontece?

Qual é essa implicação dessa liberdade, né? Porque é uma liberdade que você tem. Seria um livre-arbítrio, não é? Você nasceu com uma existência e aí você é jogado na essência, né? Isso te dá uma liberdade. Então, isso é chamado autocriação. Você é inteiramente responsável pelo que você é, entende? Você joga na pessoa a capacidade dessa volição, né? De lutar contra isso. Então, a liberdade é você forjar o seu próprio caminho e a sua responsabilidade.

É ser uma pessoa não convencional, é ficar brigando mesmo, tá, contra as estruturas do Estado e tal, aquela coisa toda, né. E o Foucault vem muito nisso, né, da ideia da dominância biopolítica também, né, que você é controlado mesmo por sistemas políticos, biológicos, políticos sociais, né. O panóptico que ele coloca, que você é visto por todas as outras pessoas, isso te controla, né. A questão das normas sociais, que você é controlado também.

Pensa você quem, como como brasileiro, mas de herança oriental. Quando você era novo, quando você era novo, óbvio que você tinha várias crenças meio racistas para algumas coisas, tanto positivas quanto negativas, né? Sim, tem o episódio Se Japonês é Tudo Igual que a gente fala um pouco disso, né? Conforme o tempo vai passando, você vai mudando, e aí você não se torna nem japonês nem brasileiro, você fica no meio do caminho, que a ideia do transfuga de clássica.

A gente já falou desse episódio também. A ideia que o Sartre coloca, né, de você ser jogado na existência essência, a partir da existência, ser jogado para criar uma responsabilidade sobre uma essência, né? Deveria ser o papel da educação emancipatória, respondendo nosso aluno, né, o nosso ouvinte. Deveria ser uma educação emancipatória que é compatível com compatibilismo moderno, onde que o livre-arbítrio é uma competência psicológica.

A educação é um meio de desenvolver em você um senso de livre-arbítrio. Por quê? Porque a sua existência precede a essência. A sua essência é criada a posteriori para lutar contra a desigualdade do Estado. Nossa, que discurso tchilê-lê, não é, Key? É, foi longe essa, hein? Nossa Senhora! Mas o interessante é quem veio depois dele. O Sartre lançou essa, né? Fez maior sucesso, pá, tal. Na época da guerra, Guerra Mundial, né? Os interesses políticos muito acima do direito das pessoas, aquela coisa toda.

Tinha o nazismo, claro, tava acontecendo ali o holocausto, aquela coisa toda. Claro que teve essa reação do Sartre. Mas mais legal que o Sartre é quem veio depois. O Sartre botou essa ideia boa. Quem veio depois, quem é? A Simone de Beauvoir. Porra, mulher foda! Vamos falar dela no segundo episódio. Simone de Beauvoir, ela pegou o Ser e o Nada do Sartre e falou: "Não, legal isso aí, mas vamos dar uma mexida nisso aí." Ela chegou lá: "Ó, Sartre..." Legal, tal, porque eles viveram juntos a vida toda assim, mas tinha uma história deles é interessante, tá, mas fica para outro dia.

Mas a Simone de Beauvoir, o livro mais conhecido dela que é O Segundo Sexo, né, que é de 1949, o ícone do feminismo, aquela coisa toda. Aí tem uma frase importante que a mulher não nasce, mas se torna. Percebe que tem ligação com o texto do Sartre, né? A mulher se torna mulher, ela não nasce mulher, ou seja, a existência precede a essência. Né, tem essa ideia, né, pega isso também, tá. Só que nada contra o Segundo Sexo, assim, é um livro bom, né, que você separa gênero de sexo biológico e tal.

Só que a discussão disso evoluiu muito. Então na área de sociais fica muito preso nisso. Tem um livro dela que hoje podia ter sido escrito essa semana, que é Por Uma Moral da Ambiguidade. Que texto foda! Esse é o texto que tinha que ser lido hoje. O outro é importante, muito, né? A gente já explorou em outros episódios, o segundo sexo, por exemplo, se existe amizade entre homem e mulher, né? Essa coisa da discussão entre sexo e gênero já evoluiu muito.

Então ficar só lendo a coisa tem 100 anos quase. Hoje a gente já tem níveis de seleção maiores, né? Sexo biológico, identidade de gênero, orientação sexual, estratégia sexual. A gente já explorou isso em outros episódios. Mas ninguém fala do livro— eu gosto desse livro demais, já li umas 200 vezes— Por uma Moral da Ambiguidade, né? Que ela fala assim: não, tudo bem, Sartre, Eu concordo com você que para a luta social, para desenvolver no indivíduo um livre-arbítrio como uma competência psicológica, o que a gente tem que fazer?

Tem que partir do pressuposto que a existência precede a essência. Beleza. Então você não é homem, você se torna homem. Você sempre pode questionar, na medida em que você é internamente responsável pelo que você é. E aí eles dois criam um conceito que é o conceito de má-fé. A pessoa com má-fé. O que é uma pessoa com má-fé? É a pessoa que finge não ter escolha. Sabe aquela pessoa provinciana que segue as normas sociais, sabe? Que quer sair nas colunas sociais, sabe?

Dos jornais. Que faz tudo que as pessoas fazem. Que fica seguindo influencer com milhão de seguidor e faz tudo que o cara faz, sabe? Então essa é a pessoa que age por má-fé. Nessa lógica, entre aspas, né? É a pessoa que finge não ter escolha para escapar da ansiedade da liberdade. Porque não quer brigar, entendeu? Isso bate completamente no nosso episódio 404, que é: "Ah, é tão legal que isso, é tão foda, eu não sei de vocês, mas vocês são fantásticas." E aí a Beauvoir coloca esse conceito da ética da ambiguidade, a moral da ambiguidade.

Que ela fala assim, que tudo bem, o Sartre coloca esse ponto importante, só que Sartre era um bicho meio... Se eu sou feio, o bicho era horroroso, era feião mesmo. Não sei se são os B.O. de vocês. E aí ela brigava com ele, falava: "Isso é muito coisa de homem." É muito coisa de homem por quê? Porque na sociedade patriarcal o homem tem o domínio das coisas, então parece que é uma coisa muito pessoal assim. Você coloca essa teoria aí do ser e o nada como se fosse uma coisa muito do indivíduo, e não é pra ser do indivíduo, é uma briga social.

Você tem que desenvolver pelo cuidado, você tem que cuidar das novas pessoas, ou seja, das crianças. Para que elas desenvolvam uma moral da ambiguidade. Então tem que ser uma luta social, não é você ficar lá sofrendo, ai, a minha existência, a minha essência, dane-se, o bagulho é a briga cotidiana, né? E aí ela fala que a busca por uma moral da ambiguidade tem que ser um movimento político, social e, antes de tudo, solidário. O exercício da solidariedade é você se abrir para a alteridade, para conhecer o outro, né?

E aí ela chama isso de liberdade situada. Né, que é você ser livre para projetar a sua existência, né, apesar da concretude da realidade material. Então, por exemplo, que você, você é uma pessoa que existem realidades materiais da sua vida, você tem um certo salário, você tem uma certa saúde, você tem uma certa rede de apoio, tem esses limitantes, né, esses limitantes condicionam você, você não pode fazer qualquer coisa, tá. Mas apesar disso você tem que lutar para ter uma certa liberdade situada, para você defender o determinismo biológico.

O que que é isso? Variar, para você variar, variar mais, sabe? Então, por exemplo, o que que seria o Ken Fujioka de má-fé? O Ken Fujioka de má-fé, né, seria assim: você vai sentar na sua posição lá de planner, né, e você vai fazer todo o possível para manter o status quo, sabe? Você vai ser o político do centrão. Sabe, manter as capitanias hereditárias. Isso é ter má-fé. Isso é abrir mão do seu livre-arbítrio, né, de forma deliberada, por conta da— para não viver a ansiedade da liberdade, tá?

Temos que lutar contra isso. Então o que que você vai ter que fazer? Você vai ter que meter o louco, né? Tipo, a moral da ambiguidade é meter o louco. E o que que é meter o louco? Variar, tentar fazer coisas diferentes, explorar a sua variabilidade. Ah, eu nunca fiz tal coisa. Vai fazer, né? Mas eu não sei o quê. Dane-se, faz a coisa diferente, vai conhecer pessoas diferentes. Pô, esse monte de povo era foda, né? Que é exatamente o contrário dos discursos feministas hoje, que é status quo também, que gera essa polarização de homem e mulher, né?

Aí aumenta o discurso red pill mais ainda, fica uma droga. O que ela defende na moral da ambiguidade? Não, vai falar com os cara, né? E os cara vai falar com as mulher aí, vai ver onde dói, né? Em vez de você tentar ser aquela mulher libertária que na verdade só vai reproduzir as estruturas de dominação que o próprio homem faz, né? Você vai ser o O judeu sendo nazista e vice-versa, né? Vide o que acontece hoje em dia, na verdade, né?

É complicado, tá? Porra, esse, eu li de novo, porra, Bovo era foda, puta mulher foda, né? Puxa, então fizemos uma construção legal, né, das teorias de livre-arbítrio, né, até chegar nessa parte do compatibilismo moderno. O que veremos no próximo episódio? Vamos ver exemplos, exemplos disso hoje em dia, dessa, desse caminho que a gente estabeleceu. Então vocês têm lá uma semana para pensar. Meditar sobre isso. Então a gente vai começar com o paradoxo de Newcomb, né?

Vamos ver como é que ele funciona. E a partir daí a gente vai falar, por exemplo, por que que hoje a gente vive numa sociedade que todo mundo quer apostar, quer fazer apostas, quer tentar controlar a realidade, e ao mesmo tempo todo mundo acha que controla tudo, né? E ao mesmo tempo não, fica deprimido, se sente sozinho o tempo inteiro, sabe? Então essa contradição entre o determinismo biológico, que é a variabilidade, e a restrição da sociabilidade por meio de uma sociedade de mercado baseado na desigualdade, onde isso está chegando num limite, né, gera a clássica, as clássicas polarizações e os paradoxos que temos hoje.

Então, a partir da discussão desse episódio, agora vamos discutir no próximo o impacto disso e como a gente cria um processo educacional que tenta minimizar esses efeitos, né. Isso vai acontecer no nosso tempo de vida? Não, não. Mas a ideia é colocar os germens para isso.

KFKen Fujioka

Tá certo.

ADAltay de Souza

Gostou da discussão?

KFKen Fujioka

Gostei. Tô ansioso pela parte 2. Altair, veremos.

ADAltay de Souza

Curiosidades, né? Você vai ver várias coisas modernas, muito modernas, que na verdade são reflexo dessa discussão. E aguardamos todos os nossos ouvintes no próximo episódio.

KFKen Fujioka

Tá certo, então na semana que vem a gente tem Naru Rodô Entrevista, e na outra, isso, a parte 2 desse episódio duplo, certo? Tá aí certíssimo. E Naru Rodô, ilustríssimo ouvinte! E você já sabe, aqui Aqui no Naruhodo, quem faz a pauta é você! Você tem alguma pergunta pra gente ou quer comentar algum episódio? Escreva pra nós! podcast@naruhodoh.com.br Repetindo: podcast@naruhodoh.com.br E lembre-se: mande nome completo, idade, profissão e a cidade de onde você está falando.

ADAltay de Souza

É isso aí!

KFKen Fujioka

Esse podcast é apresentado por b9.com.br.

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