Naruhodo Entrevista #70: Rodrigo Willemart
Na série de conversas descontraídas com cientistas, chegou a vez do Professor, Biólogo, Doutor em Zoologia e coordenador do Laboratório de Ecologia Sensorial e Comportamento de Aracnídeos (LESCA), Rodrigo Willemart.
Só vem!
>> OUÇA (84min 47s)
*
Naruhodo! é o podcast pra quem tem fome de aprender. Ciência, senso comum, curiosidades, desafios e muito mais. Com o leigo curioso, Ken Fujioka, e o cientista PhD, Altay de Souza.
Edição: Reginaldo Cursino.
*
Rodrigo Hirata Willemart possui graduação em Ciências Biológicas (2000) e doutorado em Zoologia pela USP (2005).
Durante o doutorado trabalhou na França (Université de Bourgogne) e na Argentina (Universidad Nacional de Córdoba).
De 2006 a 2007 realizou pós-doutorado nos EUA na University of Nebraska e pesquisa na Harvard University.
Foi pós-doutorando no Instituto de Biociências da USP em 2008, realizou pesquisa em 2014 na Aberystwyth University em País de Gales e foi professor visitante na Université de Paris XIII em 2015.
Desde 2008 é professor na USP-Leste (Escola de Artes, Ciências e Humanidades).
É credenciado no Programa de Pós-graduação em Zoologia do Instituto de Biociências da USP.
Defendeu a livre-docência em 2018 e hoje é Professor Associado 3.
Atua principalmente nos seguintes temas: ecologia sensorial, interação presa-predador, controle de escorpiões e comportamento de aracnídeos (Arachnida).
Coordena o laboratório LESCA (Laboratório de Ecologia Sensorial e Comportamento de Aracnídeos), cujo site está em http://each.uspnet.usp.br/willemart/
Lattes: http://lattes.cnpq.br/9263833464663272
*
APOIE O NARUHODO!
O Altay e eu temos duas mensagens pra você.
A primeira é: muito, muito obrigado pela sua audiência. Sem ela, o Naruhodo sequer teria sentido de existir. Você nos ajuda demais não só quando ouve, mas também quando espalha episódios para familiares, amigos - e, por que não?, inimigos.
A segunda mensagem é: existe uma outra forma de apoiar o Naruhodo, a ciência e o pensamento científico - apoiando financeiramente o nosso projeto de podcast semanal independente, que só descansa no recesso do fim de ano.
Manter o Naruhodo tem custos e despesas: servidores, domínio, pesquisa, produção, edição, atendimento, tempo... Enfim, muitas coisas para cobrir - e, algumas delas, em dólar.
A gente sabe que nem todo mundo pode apoiar financeiramente. E tá tudo bem. Tente mandar um episódio para alguém que você conhece e acha que vai gostar.
A gente sabe que alguns podem, mas não mensalmente. E tá tudo bem também. Você pode apoiar quando puder e cancelar quando quiser.
O apoio mínimo é de 15 reais e pode ser feito pela plataforma ORELO ou pela plataforma APOIA-SE. Para quem está fora do Brasil, temos até a plataforma PATREON.
É isso, gente. Estamos enfrentando um momento importante e você pode ajudar a combater o negacionismo e manter a chama da ciência acesa. Então, fica aqui o nosso convite: apóie o Naruhodo como puder.
- Acidentes com escorpiõesAumento de acidentes com escorpiões em centros urbanos · Reprodução assexuada de escorpiões · Fatores que favorecem escorpiões em cidades (alimento, abrigo, ausência de predadores) · Estratégias de controle (atrair, repelir, matar) · Predadores de escorpiões em ambiente urbano (galinhas, sapos) · Mortalidade e tratamento de acidentes com escorpiões · Falta de dados científicos e pesquisas em controle de escorpiões
- Trajetória profissional e acadêmicaDecisão de seguir carreira acadêmica · Transição do mestrado para o doutorado · Aprendizados do processo de pós-graduação · Pós-doutorado nos Estados Unidos (Nebraska e Harvard) · Estágios na Argentina e França durante o doutorado · Início da docência na USP Leste · Desenvolvimento como professor · Coordenação do laboratório LESCA
- Supressão e Adaptação SensorialDefinição de ecologia sensorial · Modalidades sensoriais em aracnídeos (visão, olfato, vibração, deslocamento de ar) · Comunicação química em opiliões · Equipamentos e métodos de pesquisa no LESCA · Laboratório de Ecologia Sensorial e Comportamento de Aracnídeos (LESCA)
- Formação e Desenvolvimento de PesquisadoresA importância dos estudantes para a pesquisa · Desafios da gestão do tempo e limitações intelectuais · A importância da inclusão e diversidade na universidade · Cuidado com a saúde mental de estudantes e pesquisadores
Então, uma vez que eu já tinha decidido, no terceiro ano da faculdade, eu já sabia que eu queria fazer pós-graduação e fazer pesquisa. Então já comecei a tentar entender como é que funciona o meio, o que é importante nesse meio, e eu comecei a entender que produção era uma coisa importante. E eu pegava aranhas do quintal, na grama, e jogava na teia de aranhas que ficava no teto, e ficava tirando foto das bichinhas lá, a aranha tecendo.
Teia lá e predando a outra. Eu colocava cupim para brigar com formiga, aranha para brigar com cupim. Ele falou: "Ó Rodrigo, acho que você já está maduro o suficiente para estar no doutorado, né? Você já pode mudar, o seu projeto tem muitos desdobramentos, dá para crescer." Então, sugeriu que eu mudasse para o doutorado. Então, nesse cenário, eu acho que é menos mal, porque mal ou bem eu tinha maturidade de 2 anos de iniciação científica, mais 2 anos de mestrado, antes de entrar no doutorado.
Eu voltei dos Estados Unidos em 2007, E aí eu comecei um segundo pós-doc na USP mesmo, no Departamento de Zoologia, onde eu tinha feito meu doutorado, com o professor Ricardo Pinto da Rocha. E aí eu peguei uma bolsa FAPESP, comecei o segundo pós-doc. Foi quando apareceu o concurso na Escola de Artes e Ciências Humanidades, a EACH, onde eu dou aula hoje, né.
Ilustríssimo ouvinte, ilustríssimo ouvinte do Naruhodô, o Altair e eu temos duas mensagens pra você. A primeira é: muito, muito obrigado pela sua audiência. Sem ela, o Naruhodô sequer teria sentido de existir. Você nos ajuda demais, não só quando ouve, mas também quando espalha episódios pra familiares, amigos e, por que não, os inimigos. A segunda mensagem é: existe uma outra forma de apoiar o Naruhodô, a ciência e o pensamento científico, que é apoiando financeiramente o nosso projeto de podcast semanal independente, que só descansa no recesso do fim do ano.
Manter o Naruhodô tem custos e despesas: servidores, domínio, pesquisa, produção, edição, atendimento, tempo, enfim, muitas coisas para cobrir. E algumas delas em dólar. A gente sabe que nem todo mundo pode apoiar financeiramente, e tá tudo bem. Tente mandar um episódio pra alguém que você conhece e acha que vai gostar. A gente sabe que alguns podem, mas não mensalmente, e tá tudo bem também. Você pode apoiar quando puder e cancelar quando quiser.
O apoio mínimo é de R$15 e pode ser feito pela plataforma Orelo ou pela plataforma Apoia.se. Para quem está fora do Brasil, temos até a plataforma Patreon. É isso, gente! Estamos enfrentando um momento importante e você pode ajudar a combater o negacionismo e manter a chama da ciência acesa. Então fica aqui o nosso convite: apoie o Naruhodô como puder! Ilustríssimo ouvinte, ilustríssimo ouvinte, seguimos com a série Naruhodô Entrevista, que está trazendo conversas descontraídas com cientistas brasileiras e brasileiros que contam sobre suas trajetórias, seus pensamentos e seus campos de atuação.
Neste episódio, vamos falar com o Rodrigo Villemarte. Rodrigo Hirata Villemarte possui graduação em Ciências Biológicas e doutorado em Zoologia pela USP. Durante o doutorado, trabalhou na França e na Argentina. De 2006 a 2007, realizou pós-doutorado nos Estados Unidos, na University of Nebraska, e pesquisa na Harvard University. Foi pós-doutorando no Instituto de Biosciências da USP, realizou pesquisa na Aberystwyth University, em País de Gales, e foi professor visitante na Universidade de Paris.
Desde 2008 é professor na USP Leste, Escola de Artes, Ciências e Humanidades. É credenciado no Programa de Pós-Graduação em Zoologia do Instituto de Biosciências da USP. Defendeu a livre docência em 2018 e hoje é professor associado III. Atua principalmente nos seguintes temas: ecologia sensorial, interação presa-predador, controle de escorpiões e comportamento de aracnídeos. Coordena o Laboratório LESC, Laboratório de Ecologia Sensorial e Comportamento de Aracnídeos.
Vamos então para conversa com o Rodrigo. Rodrigo, muito obrigado por ter topado falar com a gente aqui no Narodô. Quero que que você dê aí o seu primeiro salve para as nossas ouvintes e para os nossos ouvintes, Rodrigo.
Queria agradecer primeiramente vocês, né, pelo convite, que me honra. Segundo Gemini, vocês são um dos podcasts de divulgação científica mais conhecidos e respeitados do Brasil. Então é uma honra estar aqui com vocês.
Olha só, quer dizer que a nossa estratégia de otimização para inteligência artificial tá funcionando.
Então seja lá o que vocês estiverem fazendo, tá dando certo.
Tá certo. Rodrigo, eu vou começar com você como eu começo com todas as pessoas que eu entrevisto aqui no Naruhodo. Eu quero saber quando você nasceu, em que lugar você nasceu e em que contexto familiar socioeconômico você nasceu, Rodrigo.
Tá, eu nasci então em 3 de março de 79, eu sou daqui de São Paulo mesmo. Meus pais são ambos professores, então vamos dizer classe média, acho que tá bom, né? Minha mãe é professora de português, meu pai é professor universitário, aposentados os dois, né?
E o fato de estar numa casa de professores, você acha que influenciou para você seguir uma carreira acadêmica lá na frente, Rodrigo?
Olha, eu imagino que sim, ok? Eu não consigo te falar precisamente, dado que meu irmão é engenheiro e cresceu na mesma casa e não é acadêmico. Mas certamente a influência de leitura, né, livros em casa, incentivo à leitura, incentivo a estudo, que isso sempre foi muito forte, isso eu tenho certeza que foi algo que contribuiu, né, com a minha decisão, com certeza.
E você nasceu onde, Rodrigo?
Em São Paulo mesmo.
São Paulo, em que bairro, Rodrigo?
Em Santo Amaro.
E foi em Santo Amaro que você cresceu assim até a vida adulta, ou como é que foi?
Na verdade, eu nasci em Santa Mara, comecei a viver em Santa Mara até os 9, 10 anos. Daí a gente foi morar na França, moramos 1 ano na França. Na verdade, eu já morei na França quando eu tinha 83, quando eu tinha 3 anos eu morei lá, fui alfabetizado lá. Aí voltamos pro Brasil, aí depois voltamos pra Santa Mara, e depois voltamos pra França e pra Bélgica. Aí fui pra escola lá por 1 ano, com 10 anos de idade. Daí voltamos pro Brasil, fomos pro bairro do Morumbi.
E do Morumbi eu me mudei depois para Perdizes e agora tô na Moka. Muitos bairros.
E essas idas e vindas para França e para Europa, ela é decorrente de quê, Rodrigo?
Já da carreira do meu pai, na verdade. Foram pós-docs e convites para trabalhar como professor visitante na França e eu pequeno, né, fui junto com meu irmão e com minha mãe.
Certo. O seu pai era acadêmico em que área?
Ele é da Fefeleche, ele é professor aposentado de lá, professor emérito agora inclusive também lá da Fefeleche. Uau! É muito legal, né?
Muito!
Sempre gosto de falar porque eu tenho orgulho, né, do papai. Mas ele é da área de letras.
Perfeito! E aí, Rodrigo, você consegue me contar alguma coisa da sua infância ou da adolescência que conversa ou até foi um fator decisivo para você escolher a faculdade lá na frente?
Quem? Mas aí eu acho que sim, mas que não tá ligado diretamente à educação dada pelos meus pais. Ótimo! A faculdade em si, né, eu acho que eu sempre gostei de natureza, sempre gostei de bichos, tem um pouco de influência do meu pai nisso. A minha mãe não gosta de natureza, não gosta de bicho, minha mãe é da cidade, como meu irmão, mas acho que o o prazer pela natureza, né, o tanto que eu gosto de bicho, isso certamente contribuiu para depois eu fazer biologia.
Você se lembra na época do vestibular se foi uma decisão fácil ou se você ficou entre biologia e um curso nada a ver, né, que é uma coisa que também acontece com muita gente?
Excelente pergunta, Ken. Sim, fiquei na dúvida, como acho que a maioria das pessoas, né. Embora eu gostasse muito de biologia, eu sempre gostei muito de história também.
Tá.
Então eu Pensei em fazer História, quase felizmente decidi não fazer História junto com Biologia, mas eu cheguei até a cogitar fazer junto. Então esses eram duas carreiras possíveis assim.
Entendi. Você é um filho de escola particular ou de escola pública, Rodrigo, antes da faculdade?
Particular.
Você curtiu a sua vida escolar assim antes do vestibular?
Ah, eu sim, eu, Ken. Acho que eu tive sorte de estar em escolas legais, com pessoas legais. Isso evidentemente, sou imensamente, eternamente grato aos meus pais, né? Porque eu sou, no final das contas, fui um privilegiado de ter essas pessoas que estavam sempre me colocando nos melhores lugares. Escolas, não era a escola que era mais perto, era a escola que eles achavam que era melhor. Não era o cursinho que era mais perto, era o cursinho que era o melhor.
A escola de inglês. Então eles sempre me deram toda essa estrutura que me permitiram no final chegar onde eu cheguei. Isso não tenho a menor dúvida da influência da formação que eu tive graças aos meus pais, o investimento que eles fizeram na minha educação.
Ah, e que bom que dois pais professores tiveram condições de te dar essas oportunidades, né, Rodrigo?
Com certeza, Ken. Então, mas isso é outra coisa que, de novo, é um privilégio meu e mérito deles, porque eles também abriram mão de muitas coisas, né? Para poder dar essa educação para o meu pai, para o meu irmão e para mim, eles evidentemente abriram mão de muita coisa, tanto que a vida deles melhorou depois que eu e meu irmão entramos em faculdade pública, e aí eles pararam de ficar gastando tanto com a gente, eles tiveram um padrão de vida melhor a partir daí.
Legal, legal. Agora, você tem um sobrenome japonês no meio do seu nome, né, Rodrigo? Me explica isso daí.
O Hirata, ele é de avós da minha mãe, meus bisavós são do Japão por parte de mãe, né, tanto os avós dela.
Nasceram lá mesmo seus avós?
Isso, nasceram no Japão, os meus bisavós nasceram lá.
Bisavós, tá.
Então isso, meus bisavós são de lá, então eu já tô bem longe do Japão, vamos dizer assim, né. Dá para ver pelo meu rosto, né.
Você chegou a ir para lá alguma vez ou você—
Não, não, nunca nem fui. Gostaria, quem?
O quanto você é envolvido com a cultura japonesa?
Menos do que eu gostaria até. A gente adora comida japonesa, todos nós adoramos, mas assim, a gente não tem hábitos muito próximos comparado com amigos meus que são de família japonesa, né? Tirando a comida, eu acho que é só comida na verdade, eu acho.
Tá certo, então tá bom. Ô Rodrigo, agora sim a gente pula lá para o vestibular e eu queria que você tentasse se lembrar como é que foi no dia em que você soube que tinha entrado em Ciências Biológicas e como é que foi a sua reação, a reação da família assim.
Ken, eu me lembro que eu tava no escritório do meu pai e eu não lembro agora se foi computador, não lembro mais quem, mas assim, eu lembro que eu fiquei muito, muito, muito feliz porque era o que eu queria, né, a gente no então colegial, né, para quem é mais jovem, né, no último ano do ensino médio, quando eu tava no terceiro ano do colegial, eu fiz meio ano de cursinho junto com a escola, né? Então era um momento que fica mais pesado, né?
Eu sempre fazia esporte, jogava basquete, fazia judô, e aí no último semestre eu parei tudo, parei com os esportes para fazer escola de manhã e cursinho à tarde, sendo que o cursinho era do outro lado da cidade. Então eu estudava no Morumbi e fazia o cursinho lá na Liberdade, no ângulo Tamandaré, né?
Certo, lá na Liberdade.
Isso, isso. E aí, isso, chegava de noite em casa e ainda tinha lição da escola, lição do cursinho para fazer, e para depois 7:30 tá na escola, e depois 1:30 no cursinho. Então foi um semestre puxado assim, né? Então é lógico, mas porque eu, eu, é uma coisa que eu queria muito, eu me dediquei bastante, e felizmente deu certo, passei, né? E aí lógico que fiquei feliz demais, né? Com certeza.
E aí você começa então as aulas lá na Biu e você pela primeira vez tem contato com um campus universitário, né, para valer assim. Como é que foi esse primeiro ano assim? O que que você teve de coisas boas e eventualmente até de decepções assim?
Quem? O campus em si eu até já frequentava por conta do meu pai que era professor lá, então a gente já ia no centro de esportes, esportes, né, andar de bicicleta. Então eu conheci o campo.
Já era um parque de lazer assim para você?
Exatamente, era meio que um parque de lazer. Mas é claro que muda, né, quando você tá na faculdade, né. E sua pergunta é muito interessante porque de fato o perfil das pessoas muda, né. Então eu frequentava pessoas do meu bairro no colégio, né, que as pessoas tipicamente vão escolas mais do bairro, né. E de repente, e pessoas muito diferentes, tipo em termos de interesse, de repente estava no meio, na faculdade, de pessoas que todo mundo gostava de biologia e dos bichos e das plantas.
Então você fica mais encantado com tudo aquilo, né, de estar no meio de um monte de gente que tem uma cabeça mais parecida com a sua. Tanto é que assim, nessa época da faculdade, do primeiro ano de faculdade, é quando muitas pessoas terminam os namoros do ensino médio e começam namoros novos na faculdade, que foi precisamente o que aconteceu comigo. Porque você começa a encontrar pessoas que são mais parecidas com você, né? Aham.
Então sim, foi um momento maravilhoso de abertura, de conhecer pessoas novas. Ainda, naquela época, isso é uma coisa interessante que mudou muito de lá pra cá, naquela época não tinha cotas, não tinha, a diversidade era muito mais baixa, então a minha faculdade era, a biologia era um pouco mais difícil de entrar, tinha muito pouca gente de escola pública, né? Então era um ambiente mais de pessoas de classe média, que é algo que felizmente isso mudou bastante.
Hoje a gente tem gente de tudo que é classe social, mas infelizmente na minha época não era assim ainda.
Entendi. Agora, eu tô vendo aqui que você teve um trabalho logo de cara na graduação. Isso daqui é o quê? É fruto de iniciação científica? O que que foi isso?
Então, na graduação, eu tive a sorte de já me apaixonar pelo meu estágio rapidamente, né, com aracnídeos. E depois de algum pouco tempo estudando esses bichos, eu já sabia que eu queria fazer carreira acadêmica, que eu queria fazer pós-graduação. E que eu tenho plena consciência de que isso é muita sorte, porque eu sei que não é o que acontece com a média das pessoas, né. As pessoas normalmente continuam em dúvida até o mestrado, doutorado, pós-doc.
Mas felizmente eu tive a sorte de já saber que eu queria seguir em carreira acadêmica. Então uma vez que eu já tinha decidido, no terceiro ano da faculdade eu já sabia que eu queria fazer pós-graduação e fazer pesquisa. Então já comecei a tentar entender como é que funciona o meio, o que é importante nesse meio, e eu comecei a entender que produção era uma coisa importante. Então nessa de entender que produção é importante, eu falei: bom, se tal desses papers são importantes, né, publicar conhecimentos, coisas novas, então vamos tentar fazer isso, né?
E aí que vieram então esses trabalhos, sempre com o apoio do meu orientador na época, o professor Pedro Gnaspini, sempre me deu maior apoio, enorme apoio na graduação e depois continuou na pós. Então foi isso, na verdade, foi fruto de entender que isso era uma coisa legal e eu fazia com a maior paixão do mundo, criava bichos no meu quarto, cheguei a ter mais de 50 aranhas ou pilhões no no meu quarto.
O terror das mães, então.
Ela não era fã dos meus bichinhos, mas eles estavam lá tudo preso. Quando eles não fugiam, estavam presos no aquário.
Quando não fugiam, é. Elas ficavam aqui em aquários dentro do seu quarto?
Sim, são aquários, igual aquário de peixe, né? Mas aí a gente chama de terrário, né?
Sim.
Então eu cheguei a ter muitos, dezenas de bichos na minha casa, no meu quarto, porque na verdade eu criava bicho no laboratório e criava no meu quarto também, só que no meu quarto a vantagem é que era mais fácil de fazer observações de madrugada. Então eu tava em casa já, né, os bichos estavam lá, eu deixava tudo escuro, botava uma luz vermelha que os bichos não enxergam e começava a fazer um monte de observação no meu quarto mesmo, né.
Seu quarto virou um laboratório 2 então.
Virou, literalmente, porque os 2 primeiros trabalhos que eu fiz, trabalhos muito simples, descritivos, né, Mas eles foram exatamente de bichos que observei no meu quarto e vi coisas que ninguém nunca tinha visto. E aí eu comecei a fuçar a literatura e falei: "Gente, isso não tem nada falando disso na literatura." Aí pronto, virou uma produção. E aí depois que veio a Iniciação Científica. Isso na verdade foi antes, foi meio antes, meio durante, mas não são as publicações da Iniciação Científica.
Essas da Iniciação Científica vieram depois, que são trabalhos mais elaborados, maiores, que eu fui para campo, com auxílio da FAPESP, minha orientadora ajudando. Uma coisa bem mais elaborada, bem melhor.
Agora, essa paixão por aracnídeos é uma coisa que nasceu dentro da faculdade ou um negócio que você já tinha guardado de você antes até disso?
Eu já gostava de aranha desde pequeno, viu? Na verdade, eu gostava de todos os bichos. Minha primeira paixão, na verdade, eram os felinos. Eu entrei na faculdade querendo trabalhar com onça, mas aí eu vi que onça era muito difícil.
E essa é um pouco mais complicado, você ter uma onça no quarto, né?
É um pouquinho, no terrário, né? O terrário tem que ser meio grande, né? Acho que eu vou ter que ficar fora do quarto. Tenho foto, daquelas fotos de imprimir, que a geração mais nova não sabe nem o que é, né? Você certamente conhece aquelas câmeras bem mexas, mas fininhas, que existiam antigamente, pareciam uns retângulos assim. E eu pegava aranhas do quintal, na grama, e jogava na teia de aranhas que ficava no teto. Que hoje eu sei que são licozas, que eu jogava na teia de Nephilins, né?
E ficava tirando foto das bichinhas lá, a aranha tecendo a teia lá e comendo, predando a outra. Quando eu viajava para um sítio com amigos meus, eu colocava bichos, cupim para brigar com formiga, aranha para brigar com cupim, um pote de maionese. Então eu sempre gostei de mexer com bicho, botava formiga com açúcar para ver se Tentava criar, é lógico que morria, enfim, mas botava a casa de marimbondo em pote para ver o que acontecia.
Daí que eu vi o marimbondo sair, falei: nossa, saiu marimbondo daqui! Não tinha nada nessa caixa, era só uma colmeia, mas tava larva lá dentro, né?
Sim, sim.
Então eu sempre fiz, desde criança, sempre fiz essas coisas. Então já era uma paixão antiga assim, tá?
Então quando você teve que abrir mão de animais do porte da onça, vir para os aracnídeos foi bem natural assim?
Ah, foi tranquilo, Ken, porque eu logo me apaixonei. Foi uma aula que o professor Pedro Gasparini deu e no que eu vi a aula falei: "Pronto, eu quero isso!" Já fui falar com ele depois da aula e no dia seguinte já estava no laboratório dele. E aí começou a aventura com os aracnídeos.
Título do trabalho da graduação: Biologia Reprodutiva do Opilion Cavernicola Goniosoma Albinscriptum. O nome dele é opilião cavernícola ou ele é um tipo de opilião cavernícola que a espécie é o goniosoma?
Isso, então, o opilião, na verdade pouca gente conhece ele, mas ele é um parente das aranhas, dos escorpiões, dos carrapatos, ele é um aracnídeo também. E embora pouca gente conheça, ele é bem fácil de achar no mato, né? Se você andar em Mata Atlântica você acha facilmente. Principalmente de noite. Então é um bichinho que tem em matas, mas tem espécies que são de caverna, que são cavernícolas, né? E aí tem diferentes relações com cavernas, tem animais que vivem só dentro da caverna, tem outras espécies que vivem dentro, mas saem para comer de noite, que nem morcego, por exemplo.
Eles não gostam de luz, é isso? São bichos que não gostam de luz?
É, eles geralmente, eles têm o que a gente chama de fototaxia negativa, né? Então eles Eles fogem da luz tipicamente e eles moram em cavernas, que é um ambiente mais úmido também, né? E é isso. Então esse que eu estudei é um animal desse tipo de espécie que a gente chama de trogloxeno, que são esses que moram na caverna, mas eles saem para se alimentar, que é que nem os morcegos fazem, né? Os morcegos saem de noite para comer.
Esses bichos também fazem isso, eles saem da caverna para comer, depois voltam no amanhecer e dormem na caverna, passam o dia dormindo na caverna. Eles são noturnos, né? Perfeito. Esse nome é o nominho dele, né, que já nem é mais, já mudou esse nome agora, já virou Ah, já mudou? Já mudou, mas é "etermitobats subscriptus" em vez de "goniosoma subscriptus". Mudou um pouquinho o nome.
Tá. E aí você entrou em 97 e terminou em 2000 o curso, é isso?
Exatamente.
Em que momento você já sabia que ia fazer uma pós-graduação?
Então, na graduação mesmo, no terceiro ano da faculdade, quando eu comecei a estagiar com o Pedro Grinaspini, Passaram poucos meses, eu já entendi que eu gostava muito daquilo, eu era alucinado, eu comecei a ler loucamente. Naquela época não tinha PDF, você ia na biblioteca... Xerocava os artigos assim. Exatamente, fazia cópias impressas. Então, poxa, no que eu comecei, a minha primeira tentativa de trabalho foi com outro aracnídeo que chamava solífugo, Aí o Pedro, meu orientador, me arrumou uma viagem lá em Goiás durante a construção da usina hidrelétrica Serra da Mesa, que existe hoje, né, até hoje.
Quando tava começando a construir hidrelétrica, enchendo a represa, a gente ia, um monte de gente ia para lá para resgatar os bichos, para eles não morrerem afogados, né, porque a represa ia encher, ia matar tudo, né. E aí o Pedro conseguiu um contato lá e me mandar para lá para eu ir atrás de um bichinho do Aracnídeo lá no Cerrado que chamava solífugo. E aí eu fui E nessa época, como eu falei, bom, então tá, vou trabalhar com solífico.
Eu já comecei a escarafunchar tudo que tinha publicado com solífico no planeta e já comecei a ler loucamente. Cheguei na sala do meu orientador com uma pilha de trabalhos copiados. Ó Pedro, li tudo isso daqui. O Pedro olhou e falou: Mano, que maluco, cara, não tinha que ter lido tudo isso, você nem vai trabalhar com esses caras ainda, você nem sabe o que vai fazer e já leu 200 papers de solífico. E aí deu errado no final, não consegui coletar os bichos, não consegui encontrar.
Aí mudamos para escorpião, aí mesma coisa, li uma penca de trabalho de escorpião. Aí nisso meu orientador já falou: "Poxa, esse cara tá empolgado, né?
Acho que ele..." "Esse cara é emocionado." É emocionado, e eu era mesmo.
Então eu comecei a ler louco, aí depois acabou que mudou para o escorpião também, não deu certo, mudou para o pilhão. Enfim, então aí nessa altura eu já sabia que eu queria fazer pesquisa, eu era apaixonado por aquilo, eu lia loucamente. Tudo que tinha, eu sabia de cor as referências, nome de autor, nome de bicho, que trabalho que tava, cada informação. Eu gostava muito, muito daquilo, né? Então já era o perfil que eu acho de pesquisador, né?
Quer dizer, o doutorado em zoologia era uma coisa quase óbvia, né, que seria esse o campo. Agora, você foi daqueles que pulou o mestrado, nada de mestrado, vamos direto para o doutorado.
Como é que foi essa sua decisão, Rodrigo, que não é todo mundo que toma uma decisão Essa é uma decisão que eu não teria feito hoje como pescador mais maduro, não acho que é uma boa ideia, não recomendo para ninguém, porque hoje eu entendo que você precisa entrar no doutorado com uma maturidade maior do que o aluno médio tem ao sair da graduação. No meu caso foi um pouquinho diferente, porque eu saí da graduação, entrei no mestrado e fiz 2 anos de mestrado, sendo aluno de mestrado, E aí então o meu orientador me sugeriu de eu mudar para o doutorado direto, em vez de defender o mestrado.
Ah, então você chegou a começar como mestrado?
Isso, exatamente, exatamente.
Na zoologia mesmo?
Isso, no mesmo orientador, com o Pedro. Então o que aconteceu foi que eu entrei no mestrado, depois de 2 anos ele falou: "Ó Rodrigo, acho que você já tá maduro o suficiente para estar no doutorado, né? Você já pode mudar, o seu projeto tem muitos desdobramento, tá, para crescer. Então ele sugeriu que eu mudasse para o doutorado. Então nesse cenário eu acho que é menos mal, porque mal ou bem eu tinha maturidade de 2 anos de iniciação científica mais 2 anos de mestrado antes de entrar no doutorado.
E se não fosse isso, provavelmente o professor Pedro não daria essa sugestão, né?
Isso, provavelmente, provavelmente. Então, mas de qualquer forma, assim, hoje olhando em retrospecto, eu acho que é melhor defender o mestrado passar por uma banca, tomar porrada.
Aquilo acaba virando meio que uma preparação assim para o doutorado?
Eu acho, Ken. Não só a banca em si, né, mas tudo, né. Depois você escrever um doutorado, que você senta e escreve um projeto de novo, já com essa maturidade toda. Porque no que eu mudei para o doutorado, né, lógico, eu tive que preparar algo para mandar para a FAPESP, mas eu acho que é uma vivência diferente de você finalizar um trabalho e começar um outro. E hoje o que eu recomendo para as pessoas é finalizar o mestrado e começar o doutorado, mas na época não foi o que eu fiz e acabei então entrando no doutorado direto depois de 2 anos de mestrado.
E aí no doutorado, quer dizer, quando você transformou mestrado em doutorado, você já sabia qual ia ser o seu objeto da pesquisa?
Sim, sim, aí acabou mudando, desviando um pouco do meu do meu mestrado. O meu mestrado era só com animais cavernícolas, mas eu comecei a ter muita dificuldade de obter dados, então acabei expandindo um pouco o doutorado e ampliando para animais não cavernícolas também. Então mudou um pouco o tema. E no final das contas, doutorado, acabei fazendo tanta coisa paralela ao doutorado em si que meu doutorado virou uma salada de coisa, porque na verdade ele é assim, Ken.
Eu tinha um mestrado que era bem redondo, bem, bem redondo, Só que no doutorado eu fiz tantos projetos paralelos e eu queria que esses meus projetos paralelos passassem, eu queria levar porrada da banca por todos eles e não só pelo meu doutorado, porque eu queria saber o que eles estavam achando do que eu tinha feito. Entendi. Então, para ter oportunidade de ter o feedback deles na minha defesa, de saber o que eles achavam de tudo que eu tinha feito e não só do que era meu doutorado, eu expandi, fiz um doutorado gigante com um monte de coisa E coloquei tudo lá porque eu queria ter justamente o retorno de uma banca, que era uma banca que eu achava muito competente, muito boa, e eu queria saber o que eles achavam.
Você queria tirar o máximo da qualidade dos membros da banca, é isso?
Exatamente, que era exatamente o que eu queria. Daí então conversei com o orientador e falou: beleza, então, né, vai ficar um doutorado meio esquisito, né, porque é um monte de coisa misturada, mas tá bom, põe aí, aí você vai ter opinião da banca sobre tudo e beleza. Então tá bom, assim foi.
O pessoal topou então?
É, o meu orientador topou.
O Pedro tinha moral lá para fazer outras pessoas toparem também?
Ah, ele topou, ele falou: tá bom, Rodrigo, vai lá, você quer fazer isso aí, põe, manda brasa. Ele sempre foi muito, sempre me apoiou muito nas ideias que eu tinha lá, ele falou: tá bom, manda brasa. E assim foi.
Legal. Ô Rodrigo, como é que foi, o que que você apontaria assim como aprendizados principais desse seu trabalho de pós-graduação, seja na época do mestrado ainda, seja depois quando você ampliou o estudo, o que você traria como um grande aprendizado assim dessa pós?
Ken, são tantas coisas que eu teria até dificuldade de colocar. Eu certamente vou deixar de falar de várias por esquecimento, tá? Mas assim, Eu gosto de falar, e eu senti isso na época, eu gosto de falar pra todo mundo, meus alunos hoje, que assim, o mestrado, doutorado é muito, muito, muito mais do que o produto final. É muito mais do que o documento que você entrega. O documento é uma pequena parte de tudo aquilo. O processo que você vive é muito, muito fundamental.
E por processo que você vive, eu quero dizer tudo aquilo que você aprende durante a pós-graduação, que não necessariamente vai aparecer no documento final. Então, a maturidade que você adquire como pesquisador, como pessoa, o inglês, a estatística que você aprendeu, as teorias que você aprendeu, conhecimento sobre o assunto, conhecimento sobre o taxon, sobre o animal que você estudou, lidar com pessoas, lidar com gente, lidar com colaboradores, conseguir financiamento, né?
Então, é uma série de habilidades que você tem que adquirir, ferramentas diversas que você adquire, né? E algumas dessas habilidades acabam se refletindo no documento final, acaba vendo um pouco ali no documento final, mas nem todas. Então, para mim, a pós-graduação é um enorme aprendizado e eu acho que ela tem que ser encarada assim, ela não deve ser encarada só como "eu preciso sair daqui com o doutorado", e sim "eu tenho que aproveitar tudo que a universidade tem para me ensinar e todas as oportunidades que eu tenho para aprender aqui dentro". Até o período, a época da minha defesa.
Quer dizer, o processo de desenvolvimento da tese é tão importante quanto o resultado final dele.
Exatamente, exatamente. É tão ou até mais dependendo, viu, que acho que varia muito caso a caso, mas acho que alguns casos dá até para falar que é mais importante, porque no final o documento vai ser um dos trabalhos, se você seguir carreira acadêmica, né, ele é um dos trabalhos que você vai fazer durante toda a sua vida. Da sua vida, você vai fazer muitos outros, mas na verdade muito do que você vai fazer depois do doutorado vai depender do que você aprendeu durante a sua pós-graduação, né?
Então o aprendizado, o processo, ele vale para a vida toda, o produto do doutorado, que é a tese em si, ele vale para aquele momento. Lógico, né? Um grande paper pode ser decisivo para conseguir um emprego, por exemplo. Ok, verdade, isso totalmente verdade. Às vezes o produto, sim, ele pode abrir uma porta grande, mas em termos de continuidade, né, o que você ganhou durante esse aprendizado na pós, às vezes ele é até mais importante do que 2, 3 papers que você publicou no doutorado.
E você começou a dar aula logo depois do doutorado ou você, na verdade, fez primeiro o seu pós-doc fora do Brasil?
Então, quando eu defendi o doutorado, primeiro eu saí do Brasil, e fui fazer um pós-doutorado lá nos Estados Unidos.
Me fala desse pós-doutorado, como é que você aplicou, como é que te aceitaram e qual que foi o trabalho lá?
Tá, o pós-doutorado ele foi um trabalho, ele nasceu de um contato de congresso, então congressos são fundamentais para isso, a gente acaba conhecendo muita gente e quando eu tava no congresso em 2004 na Bélgica, um congresso internacional de aracnologia, Eu conversei muito com uma professora chamada Eileen Hebbets, que na época era professora em Berkeley, na Califórnia, e conversa de café assim, só que a conversa de café se estendeu, a gente ficou, a gente perdeu palestra, a gente ficou acho que uma hora conversando.
E no final da conversa, ela para mim era uma professora que eu respeitava demais, eu nunca tinha visto ela pessoalmente, né, conhecia de paper só. E aí no final da conversa ela falou: Rodrigo, por que você não faz um pós-doutorado "Vai dar uma olhada no laboratório quando você terminar." E eu não sabia nem como reagir, porque eu fiquei tão feliz com aquilo, né? Até que no final do congresso eu falei: "Olha, é verdade mesmo o que você falou?
É sério? É pra fazer isso mesmo?" Eu fiquei muito, muito, muito contente, porque eu tinha o maior respeito por ela. Ela falou: "Não, com certeza sim, vamos aplicar e tal." Aí beleza, eu terminei isso, eu estava no meio do doutorado, acho, Nesse congresso. Certo. No meio, é isso, mais ou menos no meio. Aí beleza, foi isso, então eu terminei, escrevi um projeto de pós-doc que eu mandei para a CAPES. Na época a CAPES, na época a internacionalização era muito pior do que é hoje, né?
A FAPESP não tinha pós-doutorado fora, a CAPES dava um ano de bolsa só para pós-doc, então eu peguei essa bolsa de um ano da CAPES, tive também apoio na época do meu orientador para pensar, Tive apoio também de pesquisadores que escreveram carta de recomendação para mim, professor César Hades, professor Sérgio Vanin, professor Antônio Carlos Marques, que naquela época estavam me apoiando, fizeram carta de recomendação e deu certo, a Capes aprovou a bolsa e fui para lá.
Então fiquei um ano nos Estados Unidos e aí então a professora Aline Hebbels já não estava mais na Califórnia, tinha se mudado para Nebraska, então acabei indo para Nebraska em vez de ir para Califórnia, no meião dos Estados Unidos. O que foi ótimo, porque a vida é muito mais barata lá, então lá o meu dinheiro dava para comer direitinho, na Califórnia talvez faltasse o dinheiro da bolsa. E aí fiquei um ano lá, trabalhando com ecologia sensorial de opilhões, e durante esse período lá eu aproveitei e também conversei com o professor Gonzalo Hirybe, que era lá do Museu de Zoologia Comparativa, lá em Harvard.
E aí, eu conheci ele de congresso também, e aí eu mandei um projeto para ele que eu queria fazer com os bichos nos quais ele era especialista, né? Eu falei: "Ó, Gonzalo, estou aqui nos Estados Unidos, posso passar um mês aí e tal para fazer esse projeto com você e tal? Você tem os bichos todos que eu preciso, você tem aí no museu, você tem a estrutura toda que eu preciso e tal?" Aí ele gostou do projeto e falou: "Beleza, Rodrigo, vem aí." Pedi autorização para a Aileen Hebbett, coordenadora do pós-doc, ela deixou eu ficar um mês fora.
Aí viajei lá para Cambridge então e fiquei um mês lá também trabalhando. Então acabou sendo um, o meu pós-doc oficial era em Nebraska, mas acabei passando um mês em Cambridge fazendo esse outro trabalho que foi muito legal também, também me abriu milhões de portas e conheci colaboradores do futuro com quem eu trabalho até hoje, enfim, como sempre, né? Cada uma dessas vivências foi uma quantidade imensa de portas e que inclusive alunos meus começam a explorar depois, né? Então, enfim, foi tudo, essa experiência fora foi muito, muito boa, né.
Você terminou o pós-doc e aí como é que a sua vida segue a partir daí, Rodrigo? Você volta dos Estados Unidos e já começa a dar aula? Como é que foi isso?
Eu voltei dos Estados Unidos em 2007 e aí eu comecei um segundo pós-doc na USP mesmo, Departamento de Zoologia, onde eu tinha feito meu doutorado. Junto com o professor Ricardo Pinto da Rocha. E aí eu peguei uma bolsa FAPESP, comecei o segundo pós-doc. E aí depois, nesse segundo pós-doc, depois de 6 ou 7 meses nesse pós-doc, foi quando apareceu o concurso na Escola de Arte e Ciências Humanidades, a EASC, onde eu dou aula hoje, né?
E aí eu prestei esse concurso e dei uma sorte danada aí de passar. Tinha uns cara fera que não apareceram, que bom, porque senão talvez eles tivessem passado e não eu. Concurso sempre tem um pouco disso, né? Sim, varia de quem tá lá, né? E aí prestei, passei. Então aí foi em que ano, Rodrigo? 2008 eu passei nesse concurso.
Tá bom.
E pronto, já comecei a dar aula no mesmo ano, já no segundo eu passei no primeiro semestre, no segundo semestre já tava dando aula. Então foi Foi assim que eu comecei lá na IASC.
E como é que foi isso? Você já tinha dado aula alguma vez assim? Você se descobriu um professor? Você achava que já levava jeito? Porque ensinar não é uma coisa fácil, né?
Quem? Eu nunca tinha dado aula, tá bom? Nem escola, nem faculdade, nem coisa nenhuma. Eu tinha dado cursos, palestras pequenas, coisa assim, né? Mas eu gostava, eu já gostava, adorava dar uma palestrinha, adorava dar uns cursos, adorava falar em disciplinas quando tinha oportunidade. Então, mas é desafiador, né, porque quando você tá lá para dar sua primeira aula, óbvio que você fica super nervoso, né, você não sabe o que que você tá fazendo direito, se tá bom, se não tá.
Você se lembra da primeira aula que você deu, Rodrigo?
Quem?
Ou você tava tão nervoso que não lembra?
Eu tava nervoso, sim. Eu lembro de que o conteúdo que eu dava, hoje eu acho que eu tava viajando. Hoje mais maduro, né? Tanto é, Ken, que se você comparar a mesma aula que eu dou hoje e você pegar a mesma aula em 2008, que são aulas que são, lógico, as aulas, os slides, o conteúdo mudou, mas é o mesmo assunto, né? As aulas são muito diferentes, muito diferentes. Isso só mostra como minha aula era ruim. Quer dizer, partindo do pressuposto que minha aula é melhor hoje, que eu acho que é verdade, que minha aula sim, minha aula é bem melhor hoje, minha aula devia ser uma porcaria na época, porque era muito carregado.
Hoje minha aula tem um terço dos slides que tinha antes, o que me faz pensar que eu não tinha a menor ideia do que eu tava fazendo.
Ah, então a aula não necessariamente era uma porcaria, talvez você não tivesse o traquejo do didatismo, assim, menos coisas, talvez um programa mais limpo.
É exatamente isso que eu acho, você matou a charada, exatamente o que eu acho.
Talvez quando a gente é jovem a gente vai pelo excesso, né, a gente quer demonstrar conhecimento, sei lá.
Pode ser, quer demonstrar conhecimento, você acha que tudo é importante, você não consegue selecionar direito o que é mais importante, dado que eu tenho tão pouco tempo.
Não é uma coisa trivial, né, assim, escolher o que é importante e tirar fora o resto, né? Uma, às vezes dói, né?
Quem, eu tive um problema adicional que é o seguinte, eu fiz graduação em biologia e eu dou aula para um curso de ciências da natureza, então eles têm muito menos biologia do que eu tive. Então se você somar, e isso é muito porque é normal, é ciência da natureza como um todo, então assim, eu tive muito mais horas Por exemplo, ecologia. Eu tinha, se eu não me engano, eram 8 horas de ecologia vegetal mais 4 de animal, que já dá 12, mais 4 de humana, 16.
Eu tinha pelo menos 16 horas de ecologia na graduação. Eu dou 2 horas de ecologia hoje por semana, por semana, e eu tive 16 na graduação. Então eu tive que transformar muitas horas que eu tive de ecologia por em duas horas. Então, pô, você cortar em 8 a quantidade de conteúdo que você dá não é trivial, né? E conseguir dar um negócio que faça sentido, né? Nem sei se hoje eu tô conseguindo fazer, mas eu certamente no meu primeiro ano, no meu segundo, no meu terceiro não estava.
E o que é que ajuda você a se tornar um professor melhor além das horas de voo, né, das horas de sala de aula assim. O que que vocês professores fazem para se desenvolver e continuar se desenvolvendo enquanto professores?
Nossa, que essa pergunta é excelente. Eu não sei te falar o que os outros fazem ou qual que é o melhor procedimento. Eu posso te dizer o que eu fiz, tudo bem? Porque como eu não sou da pedagogia, eu não estudo isso, não entendo nada disso. Fiz licenciatura, mas "Meu Deus, eu fiz daquele jeito, não entendo, não conheço." Mas o que eu sempre fiz e continuo fazendo, eu observo muito as pessoas, os palestrantes, os professores, os alunos, a interação, o que funciona, o que não funciona, traquejos de palestrantes que eu gosto, que eu não gosto, slides que eu gosto, que eu não gosto, como eles conduzem a plateia, como a plateia reage à maneira como eles Eles falam.
E eu sempre fiz isso, já na graduação já fazia isso. Então eu tenho absoluta segurança de dizer que isso me ajudou muito a dar aula, porque eu basicamente, a minha aula sempre foi um resumo copiado de palestrantes que eu admirei durante a minha vida. Então assim, eu juntei o que 4, 5 professores que eu tive faziam em sala de aula, juntei tudo e criei meu estilo a partir da minha personalidade e do que esses caras faziam. E hoje meu estilo é esse.
Hoje eu consigo dizer claramente que eu tenho um estilo próprio, mas esse próprio é um próprio copiado, literalmente, de pessoas que eu admirava na graduação, na pós, no pós-doc, e eu continuo fazendo isso. Então hoje mesmo eu assisto TED Talk, que eu adoro, E eu vejo como determinados palestrantes conduzem a plateia, como eles storytelling, como eles fazem a história fluir. Tive dicas também de pessoas que me falaram: "Ó, isso aqui não ficou legal, isso aqui ficou bom." Ver como os alunos reagem, né?
"Pô, isso aqui ninguém deu risada." Então hoje eu tento, na medida do possível, claro, depende muito do conteúdo, né? Mas hoje, na medida do possível, O máximo que eu posso, eu tento introduzir nas minhas aulas ou palestras um pouco de drama, um pouco de emoções, fazer eles sentirem emoções, contar histórias tristes ou chocantes ou que fazem eles reagirem, alternar com um pouco de humor, tentar modulação de voz, então slides também, não ser slides que sejam monotônicos.
Então tem uma série de estratégias, eu acho que, de novo, é tudo copiado de um monte de gente, claro, mas que eu acho que acabam, ou que desde sempre me ajudaram a dar aulas e me ajuda até hoje.
O Rodrigo, eu percebi aqui que a gente falou sobre a sua ida para os Estados Unidos no pós-doutorado, mas durante o doutorado você também fez visitas para fora, né? Se não me engano, na França e na Argentina, né? Chegaram a ser sanduíches? Como foi a sua ida nesses locais? Se foi pura vontade de trocar com estudiosos de outros países ou se tinha algum motivo específico de estar nesses lugares?
Quem? Ó, o primeiro estágio que eu fiz no doutorado foi na Argentina. Foi um pesquisador, Alfredo Peretti, que eu conheci em congresso também. Era um cara muito respeitado, até hoje é um cara muito respeitado inclusive.
Também um cara dos aracnídeos?
Isso, também dos aracnídeos. Eu conheci num congresso de aracnídeo. E aí eu tava batendo papo com ele num congresso sobre um trabalho que ele tava apresentando. E de bater papo, bater papo, ele falou de um trabalho que ele não tava conseguindo terminar, que ele não tinha tempo. No que ele falou: eu não tenho tempo, na hora eu falei: eu termino, eu termino, eu posso ir, eu vou, eu vou. Quando? Aí ele pulou para trás e falou: "Sério?
Você quer fazer?" Eu falei: "Quero, quero fazer, eu quero terminar, eu te ajudo." Ele falou: "Tá bom." Então tá, a gente combinou. Aí eu passei um mês na Argentina, lá em Córdoba, e fui coletar os dados lá, aprendi uma imensidão de coisas com ele, aprendi muito, muito com esse cara.
E um mês foi o suficiente para fazer o que precisava?
Um mês era o que eu tinha, Ken, na verdade. Eu queria ficar mais, só que eu já tinha agendado um outro estágio na França. Então eu voltei desse estágio, eu fiquei coisa de uma semana aqui no Brasil e já fui para a França. E esse estágio da França já estava agendado, então eu não conseguia ficar mais. E aí então, esse na verdade foi até um estágio extraoficial, digamos assim, né? Que eu me banquei com a minha bolsa FAPESP que eu tinha do doutorado aqui no Brasil, né?
Ele não foi um sanduíche oficial, meu sanduíche oficial era na França. Esse foi um estágio informal, entre aspas, a mais, que eu acabei indo lá e fui, voltei e fiz esse trabalho, voltei e já fui para a França depois.
Você manteve contato com esse professor argentino depois?
Sim, sim, sim, a gente chegou a publicar outro trabalho depois e tô mandando inclusive agora no final do ano, tô mandando um aluno meu de mestrado para o laboratório dele, desse argentino. Então esses contatos ficam, né, assim, mesmo que não seja eu acaba, outras pessoas acabam herdando, né. Tem um outro aluno meu, o Guilherme também, que mesma coisa, esse estágio que eu fiz lá em Cambridge, conheci um cara que na época fazia iniciação científica, esse cara virou professor e ele recebeu meu aluno fazer doutorado depois.
O professor Gonzalo que era lá, que trabalha hoje em Cambridge também recebeu esse meu aluno duas vezes lá em Cambridge também. Então esses contatos renderam muitos frutos para os meus estudantes, na verdade, né. Às vezes Ah, que legal! Mais do que para mim mesmo, né?
Mas me fala então do sanduíche na França.
Isso, aí eu voltei da Argentina. Então, na França, eu queria trabalhar com comunicação química em animais, eu queria tentar estudar como que os meus opilhões, meus bichinhos, se comunicavam quimicamente, que eu tinha certeza que tinha que ter um componente químico muito forte. Isso era claramente uma lacuna na literatura, não tinha quase nada feito sobre isso. Aí eu queria um laboratório que trabalhasse com isso para aprender técnicas, né?
E não tinha com o pilhão, porque ninguém faz isso no mundo. E tinha, eu achei esse laboratório na França com insetos, em Dijon, na terra da mostarda, lá em Borgonha, na França. Aí eu falei, pô, aí o meu orientador me ajudou, né, o Pedro Gaspini, ele escreveu lá para os caras. Na verdade, eu escrevi primeiro, daí quando eu escrevi ninguém me respondeu. Daí quando o meu orientador escreveu, daí responderam: é fogo ser aluno Aí respondeu, aí eu entrei em contato com o pessoal de lá, aí na época foi telefone, telefonamos, falamos no telefone com o povo de lá, eu falei com o povo de lá no telefone e fechamos, acordamos e tal, e fui lá, passei, agora não sei se foram 3 meses, acho que foram 3 meses, 3 ou 4 meses, não me lembro, mas assim, passei uns meses lá na França, em Dijon, e de novo, né, foi uma quantidade enorme de portas que me abriram, colaboradores, doutorandos na época, que eram doutorandos como eu, viraram colaboradores depois.
Fui na França depois de novo, em 2015, no laboratório de um cara que era doutorando na época quando eu fui falar. Então, de novo, muitos contatos, muitos trabalhos, foi uma estadia maravilhosa ficar lá também. Então foi sensacional essa ida para lá, né, na França.
E voltando aqui para a linha do tempo, Rodrigo, você então Começa a dar aula, essa é a sua principal atividade até hoje. Como é que ficou a pesquisa a partir daí? Aí foi a partir dos orientandos ou você também continua tendo projetos seus? Como é que fica a vida depois do pós-doc?
Ken, a minha vida foi assim: hoje eu e meus estudantes somos uma entidade, eu não sou ninguém sem eles. E já é assim desde que eu fundei meu laboratório, na verdade. Então eu fundei o laboratório, eu entrei na IACHI em 2008, lá na USP Leste, fundei, aí abri um prédio novo, inaugurou o prédio, ganhei um laboratório, fundei o laboratório em 2009. De 2009 até, sei lá, muito recentemente, eu nunca mais, tirando esporadicamente um outro trabalho, coisa de não mais do que 5, nenhum trabalho eu sou primeiro autor.
O que é um indicativo de que quem tá botando a mão na massa são meus estudantes. Então hoje eu não sou nada sem meus estudantes, pra tudo. Desde sempre, lá do começo, eles botam a mão na massa, a gente tem discussões, a gente discute projetos juntos, discute os métodos, as perguntas, as abordagens, a coleta, os os trabalhos, as publicações. E hoje continua sendo assim, né? Eles são muito mais, hoje eles são muito mais do que braços, a gente pensa junto, a gente faz tudo junto e eles têm todo o mérito de ter os trabalhos que eles têm porque eles são eles que estão lá no laboratório botando a mão na massa e pensando junto comigo, né? A gente virou a mesma pessoa.
E essa escolha, Rodrigo, de não de dar um protagonismo, né, e de apoiar os alunos assim, essa posição te satisfaz?
Ah, com certeza! Quem, cara, hoje eu vou te falar, eu não tenho tempo de fazer metade do que eu queria fazer, não tenho tempo de ler metade do que eu queria ler, de ir para os laboratórios que eu queria ir, não consigo, não dá tempo. Então o que eu tento fazer é, o jeito de me satisfazer é eles fazerem o que eu queria fazer, entendeu? E acaba acontecendo isso. Então isso já acontece lá atrás, quando tinha esse projeto FAPESC que eu tinha, que eu tinha essa bolsa para ir lá para Harvard de novo, para voltar lá para trabalhar.
Eu falei: eu não vou conseguir, eu tenho que dar aula. Mandei meu aluno. Ah, não sei o quê. Mandei meu aluno. E aí isso acaba se repetindo, né? Então hoje eu tento, é literalmente como se a gente fosse uma entidade assim, né? Eu não consigo fazer, mas você consegue, então vai lá e aprende isso que eu queria aprender. Queria pelo menos alguém daqui tá aprendendo essa técnica, esse, não sei, essa ferramenta, né, que eu não tô conseguindo tempo.
Então hoje no laboratório eu tento literalmente assim pensar na carreira de cada estudante e não só no trabalho. É quase que uma assessoria, um coach acadêmico, é orientação na verdade, né. Então eu tento pensar no todo O que que essa pessoa precisa para chegar lá? Ela precisa de A, B, C e D. Então você vai fazer A, B, C e D. E no fundo, no fundo, no fundo, A, B, C e D é o que eu queria estar fazendo, tá bom? Mas eu não consigo, não tenho tempo.
Então Fulano faz A, B, C e D, Beltrano faz D, F, H, e as pessoas vão adquirindo habilidades diferentes. Todas as coisas que eu não sei fazer, todas não, mas muitas eu não sei fazer, e eles aprendem coisas que eu não sei. E aí a gente tem no final do laboratório um monte de gente com habilidades diferentes Mas hoje, se você fizesse um experimento assim: "Tira todos os alunos do Rodrigo", eu morro. Acabou o Rodrigo, entendeu? Não tem mais Rodrigo.
Por quê? Isso é uma conversa que eu tive até com um primo meu da Bélgica, que é professor, que é zoólogo também, e ele falava isso: "Cara, as técnicas, os modelos, as estatísticas, a literatura, tudo avança tão rápido, a tecnologia, os métodos computacionais". Que a gente não dá conta de aprender tudo e fazer o professor, administração, a extensão e tudo que a gente precisa fazer. Então, no fundo, a gente passa para os nossos alunos e a gente vira um burrão assim.
Se você não, se os seus alunos todos acabarem, deixarem de existir, você não faz mais nada. Essa que é a real hoje, né? Eu tenho que admitir que assim, é isso. Eu preciso dos meus alunos Não sei se eles precisam de mim, mas eu definitivamente preciso deles.
Precisam de você, sem você eles não vão para Harvard assim à toa não.
Tomara que eles precisem.
Ô Rodrigo, me fala de um estudo que você possa falar de alunos que você tá orientando no momento assim.
Ó, hoje o laboratório quase todo trabalham com controle de escorpiões. E quase todo eu digo porque tem um mestrando que vai chegar da Colômbia agora que não vai ser com isso, e tem uma outra menina que também é da Colômbia que não trabalha com isso.
E quando você fala laboratório, você tá falando do LESCAR?
Isso, o LESCAR que é o Laboratório de Ecologia Sensorial e Comportamento de Aracnídeos, que é o laboratório que eu coordeno.
Depois eu queria que você me explicasse melhor o que que é ecologia sensorial.
Ecologia sensorial, Ken, é uma área da ecologia que é, que estuda como que essas modalidades sensoriais que os animais têm ajudam eles a obter recursos e a sobreviver. Então, por exemplo, como assim modalidades sensoriais? Sentir cheiro, enxergar, ouvir, sentir gosto, vibração, deslocamento de ar, vibração de ar, sons, né?
E os aracnídeos, eles são bons em quê? Em que eles são bons? Em que eles não são bons?
Varia, mas assim, tem alguns que são muito bons em visão, por exemplo, tem aranhas que enxergam muito bem, você põe uma televisão, ela assiste, ela consegue enxergar Predadores numa televisão, ela enxerga cores. Tem muitas aranhas que são boas de cheiro também, então detectam odores, feromônios sexuais ou não sexuais, e tem talvez os sentidos talvez sejam mais diferentes dos nossos, já estão muito bem estabelecidos em aracnídeos, são vibração, uma extrema sensibilidade a detectar vibração de substrato.
Sabe quando está perto do trem, do metrô, e você sente o chão tremer quando ele tá chegando? Sim, é isso, só que muito, muito, muito mais sensível, de maneira que eles percebem uma barata passando perto, é suficiente para fazer vibrar o substrato. Lógico que isso depende do substrato também, Tá, mas isso faz vibrar o substrato e vários aracnídeos detectam isso, né? Então você tem, por exemplo, aranhas que fazem um cortejo batendo estruturas no chão, como se fosse um tamborzinho, em plantas de bananeira, e o sexo oposto percebe isso a quase 4 metros de distância.
E aquela aranha tá fazendo aquilo para se comunicar?
Para ela, sim. Aí nesse caso específico é de comunicação entre fêmea. Então é um macho tentando falar para fêmea: Oi, tudo bem? Estou aqui. E eles são muito, muito sensíveis a isso, né? Então essa vibração de substrato é um poder que os aracnídeos têm, vamos dizer assim. E um outro também, que é pouco intuitivo para gente, mas que é muito bem demonstrado, é perceber deslocamentos de ar, que é basicamente vento. Só que de novo, não é um vento que a gente percebe, é um vento assim, mesma coisa, passou uma barata perto, a barata empurra o ar E esse empurrar que uma barata fez faz mexer um pelinho que esses bichos têm, e esse pelinho mexendo estimula neurônios que estão aqui na base, e o aracnídeo vai saber que passou um bicho lá.
Eles conseguem separar se é uma barata, se é um cortejo de um outro macho, se é um vento, eles conseguem distinguir tudo isso.
Agora eu estou tentando visualizar, Rodrigo, a partir dos animais que vocês observam, E esses fenômenos que você tá descrevendo, um laboratório de ecologia sensorial aí com aracnídeos e afins, ele precisa de muito equipamento assim? Como é que vocês detectam? Porque assim, eu tô imaginando que tem umas coisas aí de microsensores, né? Assim, como é que é equipado esse laboratório, Leska?
Dá para fazer pesquisa muito surpreendentemente barata com isso. Que é o que nós fazemos inclusive. Existem aparelhos muito caros, por exemplo, aparelhos que conseguem detectar o substrato vibrando e reproduzem isso em um gráfico. Esse aparelho, por exemplo, você pode usar. A gente não tem isso no laboratório. A pesquisa de ecologia sensorial que a gente faz é incrivelmente barata. O que a gente faz é controlar. A gente tem então mesas que minimizam a vibração com granito, com estruturas na base que que fazem vibrar menos. A gente é muito cuidadoso.
Tipo mesa de snooker assim, que não pode tremer.
É, não pode tremer, é isso. A gente não pode encostar, a gente tem muito cuidado com deslocamento de ar. Então as arenas são fechadas, ou se são abertas não pode ficar passando gente perto durante o experimento. A gente tem muito cuidado com iluminação para não ter também viés de luz vindo de um lugar, luz vindo de outro. Com odores, então a gente— isso é uma instrução para todo mundo no laboratório assim que entra— não é para usar perfume, cremes nas mãos, repelentes.
Então a gente tem uma série de cuidados, mas no fundo, no fundo, a gente faz pesquisa muito barata, tá? A gente não tem, para essa parte comportamental, equipamentos muito caros. O que a gente usa que é muito caro é quando começa a entrar em química, Que aí tem reagentes que são caríssimos, aí tem colaboradores da Química que me ajudam com isso, aí fica caro. Quando a gente usa microscopia eletrônica de transmissão, microscopia eletrônica de varredura para enxergar a estrutura por dentro, aí também isso é muito caro, mas a gente não tem de novo aparelho nosso, a gente usa um aparelho que é da instituição como um todo, a gente agenda e vai fazer lá.
Então, no nosso laboratório a gente usa pouca estrutura cara, E a gente tem no final colaboradores ou equipamentos que são da instituição quando é coisa mais cara. Por exemplo, agora para controle de escorpiões, a gente testa pesticidas. Ah, como é que o bicho reage ao pesticida? Se ele foge, não foge? Se ele morre, não morre? A gente faz tudo dentro de capelas, que são estruturas que ficam puxando o ar, uma ventilação. Então ele puxa, filtra e depois joga lá para fora, já filtrado.
Então aí você não vai inalar aqueles pesticidas porque aquilo tá tudo acontecendo dentro de uma estrutura gigante que tá puxando ar para cima. Esse aparelho é caríssimo, a gente usa um de uma colaboradora da Química de novo, né? Então é isso, o Lesk em si, cara, Tupperware, aquário, câmera e bola para frente. E os equipamentos caros a gente faz em colaboração. É meio que isso.
Perfeito. Rodrigo? Já nos aproximando do final, eu queria entender de você planos para esse breve futuro aí, né? Eu imagino que você é uma pessoa que tá bastante satisfeita com a sua vida profissional, mas a gente sempre tem novas ambições, né? Eu queria saber se você tem planos aí para onde você pretende voltar seus sua capacidade intelectual e o pouco tempo que resta, o pouco tempo que sobra para você fazer coisas novas?
Ken, com certeza hoje um dos meus principais focos é essa pesquisa em controle de escorpiões, tá? Então hoje nosso laboratório inteiro, como eu falei, tá quase que inteiramente voltado para isso. A gente acabou de ter um auxílio FAPESP aprovado para trabalhar com isso, porque os escorpiões estão causando muitos acidentes, não para de crescer, é impressionante como—
aliás, bom tema que você trouxe aqui, Rodrigo. O que que tá acontecendo de escorpiões aparecerem na cidade grande, em centros urbanos hoje, assim, de uma forma que não acontecia antes?
Então, na verdade, já acontecia, Ken, só que o que tá acontecendo é que tá aumentando muito. Qual que é o problema? A gente tem a principal espécie que tem causado problemas de acidentes, de acidentes que eu digo no Brasil, Ken, tá passando de 200 mil acidentes por ano.
Caramba!
Só com escorpião, tá? 200 mil por ano.
Eu não fazia ideia desse tamanho.
Então, mas esse número não passava dos 100 mil há poucos anos atrás. Então qual que é o problema? A gente tem a principal espécie que causa acidentes, é uma espécie que primeiro ela se reproduz sem machos. Uma fêmea nasce, chega à idade adulta e vai lá e resolve ter ovos e nascem lá os seus 20 filhotes. Mais pra frente ela resolve ter mais, produzir mais ovos, nascem mais 20 filhotes. Ela acaba tendo, uma única fêmea acaba tendo uns 40 filhotes por ano.
Uma fêmea. Agora você imagina que tem centenas de fêmeas por aí, né? Então nessas populações aqui de São Paulo não tem nem macho, só tem fêmea e elas reproduzem sem machos, então não tem nem que encontrar um macho, elas ficam dando ovos, né? E aí a população aumenta, depois que os bichos saem do ovo, começam a se desenvolver, né? Eles estão no ambiente de cidade que é extremamente favorável porque tem muito alimento, eles comem baratas, por exemplo, são presas de escorpiões, tá cheio de barata na cidade.
Eles usam abrigos que têm umidade adequada, temperatura adequada, né, desde bueiros, cemitérios, lugares escuros, tá cheio nas cidades, frestas, né, tem muito nas cidades, entulho. Então eles basicamente, eles têm um ambiente que é muito bom do ponto de vista de condições ambientais, temperatura, umidade, Tem alimento em abundância e um problema que é muito sério que ocorre nas cidades que não ocorre no mato.
Eles se alimentam de lixo também ou de seres vivos?
Não, seres vivos. O problema é que na cidade tem lixo, a barata come o lixo e o escorpião come a barata. Então esse é o problema. O problema é que a gente gera lixo, a barata come lixo e o escorpião come barata. E o problema que tem na cidade também, que é um grande problema, é a falta de predadores naturais desses animais. Então, se você vai na natureza, tem escorpião, mas tá tudo controlado porque tem um monte de predador de escorpião, né?
As aranhas, tem um monte de predador de aranha. Na natureza tá tudo bonitinho, só que no que eles invadiram a cidade, eles encontraram alimento em abundância, abrigo em abundância, ausência quase completa de predadores, e os bichos começaram a população cresce, cresce, cresce, cresce, não para de crescer. E a realidade é que a situação hoje aqui tem poquíssimíssima gente trabalhando em estratégias para combater crescimento populacional de escorpião ou repelência de escorpião de ambientes onde você não quer que ele vá.
Hoje a maior parte dos pesquisadores que trabalha com isso trabalha com estatísticas da compreensão de tentar entender onde ocorrem os acidentes, condições ambientais onde que se correlacionam com o acidente acidentes por região, por estrutura econômica ou socioeconômica, que é um trabalho fundamental, tem que acontecer para a gente entender como que é a dinâmica de acidentes e tentar melhorar isso, né, melhorar atendimento, saber onde estão os acidentes, pontos hospitais, soro, onde tem que ter.
Então tem que ter essa pesquisa. Felizmente tem gente trabalhando com isso, mas tem muito pouca gente trabalhando com estratégias comportamentais para tentar diminuir o número de acidentes, seja matando escorpião seja repelindo, seja atraindo para alguma armadilha. Então isso, na verdade, o foco do nosso laboratório hoje é bastante isso, de tentar estratégias para atrair, repelir ou matar escorpião.
Essas duas pessoas que estão para chegar no laboratório são pessoas do escorpião, é isso?
Não, não, essas duas que vão chegar são as exceções. É, na verdade, uma trabalha à distância e outra que vai chegar para fazer mestrado aqui. Eles são as exceções, mas o resto todo laboratório, na verdade são 3 que vão chegar, 2 que vão chegar, um pós-doc e um mestrando, e uma graduanda que já orienta à distância mesmo. Mas tem no laboratório hoje, a gente tem 2 pós-docs, um mestrando e 3 graduandos que trabalham com controle mesmo.
A gente tenta usar luz comprimentos de ondas diferentes para ver se atrai ou se repele, usar pesticidas. A gente tenta encontrar estratégias para matar, repelir ou atrair escorpiões.
Quem que é predador em centro urbano do escorpião?
Então, quem? Não tem, na verdade, tá? O que tem assim, coisa esporádica. A gente publicou, inclusive, um trabalho recente com galinhas. Então, todo mundo: "Ah, galinha mata, galinha mata." A gente foi lá e testou, deram o escorpião para galinha e tal. E galinha realmente mata, só que galinha tem alguns problemas. Primeiro problema é que ser uma galinha em ambiente urbano é complicado. E o segundo é que galinha é um animal que é diurno e escorpião é noturno.
Então quando o escorpião sai, a galinha está dormindo e vice-versa. Entendi. Então esse é o primeiro problema que a gente está tentando estudar, essas interações entre galinha e escorpião. Já temos alguns resultados que a gente deve publicar em breve sobre isso. Tem um estudo de pesquisadores que viram que sapos também são não só predam, mas alguns sapos são imunes ao veneno escorpião, tanto quanto as galinhas que a gente testou também são.
As galinhas eram picadas e continuaram vivendo. Só que de novo, né, você não vai começar a criar sapo em casa, entendeu, na cidade, nem sapo, nem galinha. Predador, tem aranha que preda escorpião, mas você não vai falar: galera, vamos criar aranha, porque também não funcionar. Vamos que tem escorpião, come escorpião. Mas você não vai criar escorpião para comer escorpião. Então, na cidade realmente é um problema. Predador natural é uma coisa que funciona mais no campo, que pode funcionar no campo, não tem nem evidência de que é efetivo de fato, mas que pode funcionar no campo com certeza.
Mas de novo, tem poucos dados. No final, a história é assim: tem muito pouca informação, tá? Então precisa de pesquisadores trabalhando com isso, porque as medidas que são feitas, que são tomadas pelo governo para combater escorpião, muitas vezes não são baseadas em dados científicos sólidos. E não é nem culpa do governo, é porque não tem. Não tem. Os dados são às vezes contraditórios, às vezes o que a gente obtém, outro laboratório obteve diferente, depende do composto que é, depende do método que cada um usou. Então precisa trabalhar.
Algum país, algum país tem estudos mais avançados em escorpiões e poderiam ser, ou até já são, enfim, colaboradores importantes pra gente nessa área?
Não tem quem, não tem. Tem estudos feitos no México, tem publicações na Índia, por exemplo, são lugares que tem escorpiões perigosos, mas você não tem um centro de estudos hoje forte em controle de escorpião de um ponto de vista comportamental, de testar métodos novos, não. Porque os países que têm, às vezes até tem gente estudando escorpião, mas não estuda controle, e tem gente que faz comportamento animal, mas não faz, não trabalha com escorpião.
Então no final não, não tem. O que falta é as pessoas que trabalham comportamento se juntarem à causa e começarem a trabalhar com escorpião para ajudar a combater os bichinhos.
Então eu apoio totalmente esse foco agora de ampliar a atuação do Laboratório com Escorpiões, viu, Rodrigo? Porque a gente tem acompanhado, né, noticiário, cada vez mais casos de acidentes com escorpião em centros urbanos, né? Isso, para quem tem uma filha pequena como eu, É meio apavorante, sabe?
Com certeza.
Tem que sair daqui correndo para o Butantã ou eu vou ter a chance de uma vacina ou coisa, ou um antídoto mais próximo?
Ken, ó, a mortalidade de picadas por escorpião é muito baixa, tá? Mas morre muita gente porque tem gente que fica um inchaço, é isso?
E dor?
É inchaço sente dor, dói muito. Pode não doer tanto, mas a praxe é— já aconteceu com gente que eu conheço que às vezes a picada foi meio seca, tinha pouco veneno e não sentiu muita coisa, mas tipicamente dói muito. Só que em 97% dos casos os sintomas são leves, então a pessoa não toma nem soro, ela vai para o Butantan e vão dar analgésico. E aí nesses 3% divide entre acidentes que chamam de moderados e graves. Os graves são esses que podem levar a óbito.
Só que se você pegar em porcentagem, a porcentagem de óbito é muito baixa. Então assim, a sua criança foi picada, tem que correr pro Butantan ou para um hospital que tenha soro. Eu posso depois passar, existem links com hospitais que têm soro pelo Brasil inteiro, isso existe, tudo bem? Mas se você está em São Paulo, perto do Butantan, o Butantan é perfeito porque eles estão cansados de receber gente picada 24 horas, tem médicos prontos para atender exatamente para isso, né?
Mas é claro, às vezes não é possível ir para o Tantan, tem hospitais que tem soro, então esse é o lugar para ir. E é bom ser hospital sim, porque às vezes a reação alérgica ao soro é muito ruim. Então é importante estar no hospital ou no centro de saúde, né? Porque tem que ter médico presente para conter uma eventual reação alérgica ao soro, né? Mas o risco de morte é abaixo de 0,1%. 0,1%, tá? Então é baixo.
Fiquei um pouco mais tranquilo, fiquei mais tranquilo, Rodrigo.
É baixo, mas assim, quase todos esses casos são em crianças, quase todos.
Então geralmente quando tem óbito é criança, porque imagino que o adulto ele identifica um escorpião e tem mais o instinto de tentar matar, de tentar pisar ou fugir, e a criança quer ir lá mexer.
Então, na verdade, assim, o número de acidentes não é, não é que o número de acidentes em criança é mais alto, número de mortes é mais alto, porque criança morre mais se é picada, entende?
Ou seja, a criança tem menos defesa, ela é menor, né?
Então o peso dela em relação à quantidade de veneno é muito menor, né? Então ela é muito mais vulnerável. Um adulto de 50, 60, 70 kg tem o veneno diluído muito mais massa, vamos dizer assim, né? A criança é um pequenininho, muito mais, com muito menos defesa ao veneno, e acabava morrendo muito mais, né. Mas de novo assim, se for picado, não tem que desesperar, tem que ir para o levar tomar soro, tem que ir para o hospital. As mortes também praticamente sempre estão associadas à demora em receber soro.
É quando você dá o azar de os sintomas ficarem graves, que é um azar, porque 97% são sintomas leves, só vai doer. Mas se você der o azar de evoluir para um caso grave, e os casos de morte são assim: você foi para um hospital, não tinha soro, foi para o outro, não tinha soro. Então, o que eu recomendo, né, as pessoas que moram em lugares que tem escorpião, é já ter de antemão quais são os hospitais que tem soro perto da sua casa.
Isso eu posso passar um link para vocês, existem links em que tem os hospitais que tem soro para cobra, aranha, escorpião. E você já sabe, ó, quando for picado, eu já sei que esse hospital que tá 10 minutos da minha casa, 20 minutos da minha casa, tem soro. Então é lá que eu vou. Eu pessoalmente, eu teria cuidado também telefonar antes de ir, só para ter certeza que naquele momento que minha criança foi picada tem soro. Porque assim, esses 3 minutos que eu vou levar para telefonar pode salvar a vida, porque de repente eu vou ver que não tem soro lá, vou perder a viagem Depois eu vou ter que ir para outro hospital porque calhou de, sei lá, atrasou a entrega, o soro apodreceu porque acabou a luz, a geladeira pifou e o soro apodreceu, sabe?
Então eu gosto sempre de dar a ideia de telefonar, já saber onde é o hospital mais próximo, já telefonar de antemão para já saber confirmar que tem. E se a pessoa for picada, já ligar antes, falar: tá com soro agora? Tem? Então tá, tô indo para aí, uma criança foi picada, já já vou. Essa seria minha recomendação.
Não, importantíssimo você ter dado essas recomendações, porque eu não vi essas recomendações na abordagem jornalística que a gente tem contato, assim, né? Então acho que é importante você colocar isso na mesa. Rodrigo, eu vou terminar a conversa fazendo uma pergunta mais difícil para você, tá? Que é o seguinte: eu queria que você agora abrisse seu coração e falasse assim, O que você gostaria que acontecesse no seu departamento para que o trabalho fosse ainda melhor, ainda mais fluido e te deixasse ainda mais satisfeito?
Porque eu sei que na universidade pública nem sempre a gente tem acesso aos recursos que a gente quer, né? Mas eu queria saber de você o que você acha que faria a diferença, assim, sabe? Sobre o ponto de vista de recursos para desempenho do trabalho do seu departamento?
Nossa, que pergunta muito difícil, Ken, porque...
O laboratório, por exemplo, tem alguma coisa no laboratório que você gostaria muito que ele tivesse equipado para fazer coisas que você não consegue fazer hoje, enfim?
Ó, Ken, com certeza sim, lógico, né? Se eu tivesse um laboratório uma estrutura muito maior do que eu tenho, com todos esses equipamentos, somente para uso do meu laboratório, é lógico que tudo flui muito melhor, lógico. Mas isso é uma coisa que eu em nenhum momento cogito, porque eu sei que é completamente inviável. A gente não tem nem sequer espaço de— exatamente, seria assim, a gente pensar num sonho, né, ah, um laboratório 10 vezes maior que o meu, com todo equipamentos, colaboradores trabalhando lá dentro, isso seria maravilhoso, né?
Ah, então vamos lá, a USP vai falar: "Te dou um laboratório e você vai ter todos os seus colaboradores trabalhando nele com todos os equipamentos que eles querem, a parte de química, a parte de morfologia, né, os colaboradores todos lá, os estudantes todos lá." Isso certamente deixaria, enfim, tornaria a pesquisa infinitamente mais eficiente, né? Mas existe um gargalo também que é da minha própria capacidade intelectual, entendeu?
Então assim, não adianta você falar: eu vou te dar uma estrutura gigantesca se eu não tenho como o tempo e a capacidade intelectual de gerenciar tudo que é produzido nesse laboratório. Por que que eu tô falando isso? Por exemplo, hoje eu sou um gargalo do laboratório no sentido de produção, porque meus alunos me entregam coisas que eu demoro para despachar, para fazer a coisa circular, porque eu tô com muita coisa.
Material, passar material para você que precisa passar por algum equipamento ou coisa do gênero, ou por exemplo a própria produção, entendeu?
Então assim, quem é meu aluno de doutorado, quem me entregou uma publicação, "Thor Rodrigo, lê aí".
Você precisa de tempo para avaliar.
Isso, só que quem me entregou, só que mais outras 3 pessoas entregaram, e mais a FAPESP tá me pedindo parecer, e as revistas estão pedindo parecer, E a EAS está pedindo parecer, e a USP está pedindo parecer, e tem a comissão disso, a comissão daquilo. Então, nisso, também tem que colocar na equação o tempo que o pesquisador tem. Não adianta eu ter toda a estrutura do mundo se eu não consigo tempo hábil de lidar com tudo aquilo.
Então começa a ter que abrir mão de alguma coisa. Então fala: ó, eu vou orientar menos, eu vou pegar menos comissão, eu vou fazer menos extensão, eu vou dar menos aula, fazer menos administração. Alguma coisa às vezes eu tenho que tirar para conseguir lidar com maior produção, entendeu? E lógico que isso varia de pessoa para pessoa, né? Mas eu acho que isso é um aprendizado que eu falo bastante para os alunos, isso, que a gente tem que ter noções também das nossas limitações, né?
O quanto, a quantidade de coisas que a gente é capaz de fazer, porque se a gente pega mais do que é capaz, a gente acaba chateando todo mundo, porque a gente não vai dar conta de nada, vai todo mundo te cobrar, vai todo mundo ficar p da vida com você. E aí vem a questão de saber falar não, né, que demora para aprender e é difícil.
Demora, viu, a gente demora, viu, Rodrigo.
Você sabe, né?
Principalmente a gente que gosta de fazer tudo, né, quer fazer ao mesmo tempo.
Demora, com certeza. Então, mas enfim, a gente vai aprendendo. Tem tantas camadas possíveis, daria para discutir sobre isso, né, o que que poderia melhorar, mas assim, Acho que isso vira uma discussão sobre inúmeros temas de universidade.
Não adianta melhorar só uma coisa, né? Essa que é a verdade, assim.
É isso, assim, a gente tem uma coisa que, por exemplo, melhorar, que não é uma melhora para mim, para o meu laboratório, mas uma coisa que eu acho que está acontecendo e que tem sido muito benéfica é a questão da gente ter cada vez mais preocupação com questões de inclusão, por exemplo. Que é algo que a USP demorou para entrar nisso. Hoje a USP está mais ligada, então já tem uma pró-reitoria de inclusão e pertencimento, está trabalhando para isso, vários grupos de trabalho, diretorias diferentes trabalhando com inclusão de diversos grupos de pessoas, né?
E isso é algo que eu vejo como muito bom, né? Inclusive em contraste com a minha graduação. Então Eu gosto muito da ideia de você pegar uma pessoa que tem uma formação muito deficiente e ajudá-la a chegar num lugar onde, se você não tivesse dedicado muito, essa pessoa talvez não chegasse, porque tá concorrendo com uma pessoa que é rica desde criança.
Então tornar ela essa pessoa competitiva, né?
Isso, quando ela partiu lá de trás porque ela teve uma formação deficiente desde a escola do do fundamental, entendeu? Então eu acho muito legal, eu fico muito satisfeito quando eu vejo pessoas que eu sei que vieram de baixo e eu sei que a participação de alguma forma na minha aula, no meu laboratório, por exemplo, meu laboratório é mais fácil de ver isso, né, que essa pessoa está crescendo muito, num ritmo muito bom, apesar de deficiência de formação que ela teve.
Que é muito diferente de alguém que já partiu, já foi classe média alta desde pequeno, já entrou no laboratório com português perfeito, formação perfeita, inglês perfeito. Essa pessoa vai chegar, entendeu? De um jeito ou outro ela vai acabar chegando, né? É muito mais gratificante você ver uma pessoa que tem uma série de dificuldades e por ter um cuidado especial com aquele grupo de pessoas, você ajudá-la a chegar onde aquela primeira que já tem os privilégios todos chegar também, consegue chegar, né?
E fazer os dois chegarem no fundo. Então isso é uma coisa que eu acho que você perguntou, ah, o que que poderia mudar, né? Eu acho que essa mudança está acontecendo dessa preocupação com inclusão.
Talvez acelerar ainda mais.
É, exatamente, né? Quanto mais tiver disso, acho que melhor, porque é isso no final que vai mudar a sociedade como um todo, né? Que não vai ficar sempre nessa mesmice do, né, a galera que tá sempre se ferrando, o cara tá sempre dando bem, né? O poder de mudança que a universidade tem acho que é muito grande, né? Então acho que isso seria uma mudança legal.
Rodrigo, a conversa foi uma delícia, sério. Eu torço para que você permaneça bastante tempo onde você tá, porque claramente uma pessoa que trabalha com prazer, e eu sei que isso faz muita diferença para quem tá se formando num lugar assim. Então eu queria agradecer demais, Rodrigo, pelo seu tempo, pela sua generosidade, pelo conteúdo que você compartilhou com a gente. Deixa aí sua despedida para as ouvintes e ouvintes do Narodô e diga como é que eles te encontram, tá? Onde que você prefere que elas entrem em contato com você?
Então primeiro eu quero agradecer, tá? Como eu falei, é uma honra Todo mundo que eu conheço, com quem eu conversei de vocês, falou: "Nossa, o Naro Rodô, nossa, os caras são maravilhosos, não sei o quê." Menos, menos. É o que dizem, tudo bem, é o que estão dizendo, é o que dizem por aí, né. O Altaí, que eu conheço pessoalmente também, é um gentleman, é um cara sensacional, é um cara inteligentíssimo, companheiro de tatame, né, somos docas, né, já.
Verdade, verdade.
Ele, bom, muito mais do que eu. Quem sou eu perto dele, que é um faixa preta, né? Mas enfim, então tô conhecendo você agora, prazerzão, gostei de você, espero que a gente se torne pessoalmente. Então primeiro agradecer. E talvez, bom, então contato, né? O meu site, Lesca, L-E-S-C-A, se você colocar Lesca USP no Google já vai aparecer meu laboratório, lá tem meu contato, tem meu email, então já pode ver tudo que a gente faz, os estudantes, tem meu contato lá também para entrar em contato comigo, fiquem à vontade, será um prazer.
E se eu puder deixar um recado final, né, partindo do pressuposto que tem muita gente que ouve que é estudante, né, que eu acho que é um pressuposto razoável.
Sim, tem mesmo.
Que é algo que eu desconhecia até alguns anos atrás e aprendi com os meus estudantes, graças a eles, ainda aprendo, certamente ainda erro e tenho tentado aprender, é a cuidar da cabeça, basicamente. Porque o que a gente está vendo hoje não é algo só da pós-graduação, é uma coisa generalizada de problemas de ansiedade e depressão, é que isso afeta enormemente a vida pessoal e profissional. Lógico, eu como orientador não sou eu não sou terapeuta de ninguém, mas eu como orientador, né, eu tenho que ter uma preocupação com isso porque isso também afeta o desempenho profissional da pessoa, lógico, né.
Mas é basicamente, se eu puder dar um recado para pós-graduandos ou para pessoas no começo de carreira, pensem lá na frente, cuidem da carreira, montem o currículo direitinho, ok, tudo bem, legal, mas cuidem da cabeça, que se a cabeça não funcionar, o resto não funciona também. E certamente das coisas mais importantes que você tem que fazer é estar bem, saudável mentalmente, tá bom? Esse que eu queria deixar de recado para a turma aí.
Eu assino embaixo, é o tipo de assunto que a gente já tocou várias vezes inclusive no Naru Rodô, né? E às vezes a gente, quem nunca passou por problemas de saúde mental, né, diagnosticados e tal, talvez não tenha noção do impacto que isso tem na nossa vida. Eu sou uma pessoa que já tive pelo menos 2 burnouts durante a carreira e numa delas eu queria desistir de tudo, de tudo, jogar a carreira para o alto e mudar de país. Esse tipo de reviravolta que a cabeça começa a pirar assim.
Então assine embaixo, Rodrigo, cuidem de suas cabeças, sem elas não somos nada, não é isso?
É isso, Ken.
Tá certo então, Rodrigo. E Naru Rodo, ilustríssimo ouvinte! E você já sabe, aqui no Naru Rodo quem faz a pauta é você. Você tem alguma pergunta pra gente ou quer comentar algum episódio?
E escreva pra nós: podcast@naruodô.com.br. Repetindo: podcast@naruodô.com.br.
E lembre-se: mande nome completo, idade, profissão e a cidade de onde você está falando. É isso aí! Www.b9.com.br