Naruhodo #468 - O que é a curiosidade?
Essa vontade de entender o mundo, os fenômenos e nós mesmos, é algo exclusivamente humano? Existe alguma explicação sobre o que acontece em nosso cérebro quando estamos nesse estado de querer aprender algo?
Confira o papo entre o leigo curioso, Ken Fujioka, e o cientista PhD, Altay de Souza.
>> OUÇA (54min 35s)
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Naruhodo! é o podcast pra quem tem fome de aprender. Ciência, senso comum, curiosidades, desafios e muito mais. Com o leigo curioso, Ken Fujioka, e o cientista PhD, Altay de Souza.
Edição: Reginaldo Cursino.
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APOIO: INSIDER
Eu preciso confessar: eu não sou um fã do frio - portanto, inverno não é minha estação favorita.
Na hora de me vestir, então, o frio me castiga: é camada em cima de camada, calça com tecido pesado, casaco que não deixa a gente se mexer direito...
Mas, com a INSIDER, eu descobri que a solução para o frio NÃO É MAIS ROUPA, e sim a ROUPA CERTA com o TECIDO CERTO.
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#InsiderStore
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REFERÊNCIAS
Grafo dos episódios do Naruhodo (Agradecimentos ao Patrick Natan)
https://github.com/PatrickNatan/naruhodo_graph
Grafo
https://patricknatan.github.io/naruhodo_graph/
How people decide what they want to know
https://www.nature.com/articles/s41562-019-0793-1
How Curiosity Enhances Hippocampus-Dependent Memory: The Prediction, Appraisal, Curiosity, and Exploration (PACE) Framework
https://www.cell.com/trends/cognitive-sciences/fulltext/S1364-6613(19)30238-4
Curiosity in old age: A possible key to achieving adaptive aging
https://centaur.reading.ac.uk/75889/1/SakakiYagiMurayama_2018.pdf
Curiosity across the adult lifespan: Age-related differences in state and trait curiosity
https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0320600
It doesn't hurt to ask: Question-asking increases liking
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28447835/
Interpersonal curiosity as a tool to foster safe relational spaces: a narrative literature review
https://www.frontiersin.org/journals/psychology/articles/10.3389/fpsyg.2024.1379330/full
Curiosity Killed the Cat but Not Memory: Enhanced Performance in High-Curiosity States
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35884653/
Curiosity in younger and older adults: the relationship between information value and memory
Social Pressures in Informal Groups
The relationship between epistemic curiosity and successful aging in older adults: the role of self-perceptions of aging and perceived social support
https://link.springer.com/content/pdf/10.1186/s40359-026-04577-4_reference.pdf
Individual differences in trait curiosity influence hybrid search speed across the adult lifespan
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0001691825010066
Curiosity and children’s memory for a dinosaur exhibit
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0885201424001230
Within-person variability in curiosity during daily life and associations with well-being
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31519052/
Naruhodo #433 - Existe amizade entre homens e mulheres? - Parte 1 de 2
https://www.youtube.com/watch?v=EFVaBfGaowg
Naruhodo #434 - Existe amizade entre homens e mulheres? - Parte 2 de 2
https://www.youtube.com/watch?v=H6D1yCni0rc
Naruhodo #267 - O que é dissonância cognitiva?
https://www.youtube.com/watch?v=1xJwqmir5Uw
Naruhodo #268 - O que é dissonância cognitiva? - Parte 2 de 2
https://www.youtube.com/watch?v=--OHlHmOQTM
Naruhodo #340 - Como se constrói a auto-estima?
https://www.youtube.com/watch?v=0ULx-CXmh7w
Naruhodo #342 - O que é e de onde vem a inspiração?
https://www.youtube.com/watch?v=Xg0vGC-uPwM
Naruhodo #395 - O que é força de vontade?
https://www.youtube.com/watch?v=5bR1RNVo7kM
Naruhodo #324 - Por que sentimos nostalgia?
https://www.youtube.com/watch?v=UHajyH8RFSA
Naruhodo #379 - Como nós nos tornamos nós?
https://www.youtube.com/watch?v=fI9rqAJfcUU
Naruhodo #457 - Ficamos mais reflexivos e tristes no final do ano?
https://www.youtube.com/watch?v=dBvu4FEiwto
Naruhodo #338 - Por que fofocamos?
https://www.youtube.com/watch?v=ij9ocesTc50
Naruhodo #363 - Jejum de dopamina funciona?
https://www.youtube.com/watch?v=908qoFZG8rY
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O Altay e eu temos duas mensagens pra você.
A primeira é: muito, muito obrigado pela sua audiência. Sem ela, o Naruhodo sequer teria sentido de existir. Você nos ajuda demais não só quando ouve, mas também quando espalha episódios para familiares, amigos - e, por que não?, inimigos.
A segunda mensagem é: existe uma outra forma de apoiar o Naruhodo, a ciência e o pensamento científico - apoiando financeiramente o nosso projeto de podcast semanal independente, que só descansa no recesso do fim de ano.
Manter o Naruhodo tem custos e despesas: servidores, domínio, pesquisa, produção, edição, atendimento, tempo... Enfim, muitas coisas para cobrir - e, algumas delas, em dólar.
A gente sabe que nem todo mundo pode apoiar financeiramente. E tá tudo bem. Tente mandar um episódio para alguém que você conhece e acha que vai gostar.
A gente sabe que alguns podem, mas não mensalmente. E tá tudo bem também. Você pode apoiar quando puder e cancelar quando quiser.
O apoio mínimo é de 15 reais e pode ser feito pela plataforma ORELO ou pela plataforma APOIA-SE. Para quem está fora do Brasil, temos até a plataforma PATREON.
É isso, gente. Estamos enfrentando um momento importante e você pode ajudar a combater o negacionismo e manter a chama da ciência acesa. Então, fica aqui o nosso convite: apóie o Naruhodo como puder.
Altay de Souza
Ken Fujioka
Reginaldo Cursino
- Fenômenos e curiosidades diversasDefinição de curiosidade · Curiosidade como atributo inato · Curiosidade e força de vontade · Curiosidade e autoestima · Curiosidade interpessoal vs. fofoca · Mecanismo cerebral da curiosidade (PACE) · Amígdala e inibição da curiosidade · Curiosidade estado vs. curiosidade traço
- Solidão e IsolamentoTeoria de Leon Festinger · Pressões sociais em grupos informais · Desenvolvimento de criatividade e curiosidade
- Etimologia da palavra emboscadaMito dos barcos americanos "for all" · Forró como conjunto de ritmos · Forró-bodó como festa tradicional · Luiz Gonzaga e a música "Forró do Manevito"
- Saúde e bem-estar dos idososCuriosidade estado e novas experiências · Melhora em testes cognitivos · Arquitetura que promove interação social
- Vício em Redes SociaisDiminuição de erros de predição · Dependência temporal e previsibilidade · Impacto na curiosidade e exploração
- Infância e padrões familiaresJulgamento moral e "certo" e "errado" · Inibição da criatividade e curiosidade · Ditados populares e respostas criativas
- Pets e AnimaisComportamento de gatos e cachorros · Mecanismo de sobrevivência vs. curiosidade
Ken Fujioka:O que é a curiosidade? Naruhodo Podcast. Bem-vindo ao Naruhodo Podcast, para quem tem fome de aprender. Eu sou Ken Fujioka.
Altay de Souza:Eu sou a Thaís de Souza.
Ken Fujioka:E hoje é dia de quê?
Altay de Souza:Ciência e senso comum.
Ken Fujioka:Ilustríssima ouvinte, ilustríssimo ouvinte do Naruhodô, o Altair e eu temos duas mensagens pra você. A primeira é: muito, muito obrigado pela sua audiência. Sem ela, o Naruhodô sequer teria sentido de existir. Você nos ajuda demais não só quando ouve, mas também quando espalha episódios pra familiares, amigos e, por que não, inimigos. A segunda mensagem é: existe uma outra forma de apoiar o Naruhodô, a ciência e o pensamento científico, que é apoiando financeiramente o nosso projeto de podcast semanal independente, que só descansa no recesso do fim do ano. Manter o Nado Rodô tem custos e despesas: servidores, domínio, pesquisa, produção, edição, atendimento, tempo, enfim, muitas coisas pra cobrir, e algumas delas em dólar. A gente sabe que nem todo mundo pode apoiar financeiramente, e tá tudo bem. Tente mandar um episódio para alguém que você conhece e acha que vai gostar. A gente sabe que alguns podem, mas não mensalmente, e tá tudo bem também. Você pode apoiar quando puder e cancelar quando quiser. O apoio mínimo é de R$15 e pode ser feito pela plataforma Orelo ou pela plataforma Apoia.se. Para quem está fora do Brasil, temos até a plataforma Patreon. É isso, gente. Estamos enfrentando um momento importante e você pode ajudar a combater o negacionismo e manter a chama da ciência acesa. Acesa. Então fica aqui o nosso convite: apoie o Naruhodo como puder. Eu preciso confessar, eu não sou um fã do frio. Portanto, inverno não é a minha estação favorita. Na hora de me vestir, então, o frio me castiga. É camada em cima de camada, calça com tecido pesado, casaco que não deixa a gente se mexer direito. Mas com a Insider eu descobri que a solução para o frio não é mais roupa, e sim a roupa certa com o tecido certo. Minha camiseta Tech manga longa, por exemplo, é a minha peça coringa nessa época. Funciona como uma camiseta hiperconfortável, mas também como a segunda pele mais confortável do meu guarda-roupas. Então eu te convido a fazer o mesmo. Escolha Insider como a sua solução para enfrentar os dias mais frios. E tem mais, nos dias 15 e 16 de junho você ainda tem frete grátis e 5% de desconto adicional em compras com pagamento por Pix. Dá ou não dá um quentinho? Então você já sabe, use o endereço a seguir para ter o cupom NARUHODO já aplicado ao seu carrinho de compras: creators.insiderstore.com.br/naruhoodo ou clique no link que está na descrição deste episódio. Insider, inteligência em cada escolha. Altair, temos pergunta de ouvinte, Altair.
Altay de Souza:Uma pergunta que tivemos curiosidade. Você é uma pessoa curiosa, Kim?
Ken Fujioka:Olha, eu costumo ser assim, viu?
Altay de Souza:E você nunca teve curiosidade de ter um episódio sobre curiosidade?
Ken Fujioka:Olha só, chegou o momento.
Altay de Souza:É, porque essa pergunta ela não é muito nova. Ela é de 2021, na verdade, faz um tempo, né? Faz um tempo, que mostra que é um tema razoavelmente complexo de ser abordado, apesar de ser interessante, algo que todos, pelo menos todos, deveríamos ter. E você, como você é mais curioso agora ou quando você era mais novo?
Ken Fujioka:Acho que eu sempre fui, viu, Thaí? É, sempre fui uma criança fuçadora assim, sabe? Queria saber como as coisas funcionavam. Acho que até que era mais curioso eu quando era criança.
Altay de Souza:E aí você acha que pessoas mais velhas, idosas assim, são menos curiosas?
Ken Fujioka:Eu acho que as crianças são mais naturalmente curiosas, e acho que os adultos precisam, vamos dizer assim, ter mais intencionalidade assim de ser curioso.
Altay de Souza:Então a preguiça tirou sua curiosidade?
Ken Fujioka:O envelhecer, o se tornar adulto, vai tirando algumas coisas da gente.
Altay de Souza:Será que é a idade ou é o trabalho mesmo que vai tirando isso?
Ken Fujioka:Pode ser, pode ser o capitalismo, né?
Altay de Souza:Então veja que é um fenômeno multifatorial com várias camadas. Veremos isso no ano que vem.
Ken Fujioka:Sem dúvida, sem dúvida. O e-mail, Thaí, veio do Lucas Lopes Sanches, que é formado em Letras e trabalha como professor de língua inglesa em Sumaré, no interior de São Paulo. Altair! E ele diz o seguinte: "Sou muito fã do trabalho que vocês fazem. São minha companhia enquanto faço caminhada ou limpo a casa e vivo recomendando episódios aos meus amigos. Uma coisa que acho muito interessante é o fato de que o título dos episódios trazem perguntas, sendo a maioria delas perguntas que nunca tinha me feito antes. Mas assim que vejo um episódio novo com uma pergunta nova, lá vem ela, a curiosidade." Confesso que tive até certa dificuldade de formular minha dúvida numa única pergunta, mas o que estava pensando é o seguinte: a curiosidade, essa vontade de entender o mundo, os fenômenos e nós mesmos, é algo exclusivamente humano? Existe alguma explicação do que exatamente está acontecendo em nosso cérebro quando estamos nesse estado de querer aprender algo? Aqui em casa temos gato e cachorro e sempre me intriga quando vejo o que parece ser uma manifestação de curiosidade quando, por exemplo, mostro um objeto diferente para eles e os vejo se aproximando com certo cuidado e até com o que parece ser uma expressão específica. E eu me pergunto: em alguma medida, será que esse comportamento é uma forma de curiosidade? Quando o gato encosta a patinha com cuidado ou o cachorro quer cheirar o objeto, penso que isso pode se tratar mais de um mecanismo de sobrevivência, tentando identificar se algo é ou não uma ameaça. Mas teria isso alguma relação com curiosidade que nos move a buscar compreender fenômenos mais complexos como os da física, química e biologia e toda filosofia e ciências humanas? O que em nós nos leva a querer saber coisas, quando sabemos bem que desde certa idade uma das coisas que as crianças mais fazem é perguntar por quê? Espero que minha dúvida faça algum sentido, afinal eu diria que o que move esse podcast é a nossa curiosidade. Muito obrigado por buscar saciar a nossa curiosidade do dia a dia e um forte abraço a todos. Um abraço também para você, Lucas, e obrigado pela pergunta, Altair.
Altay de Souza:Ótimo e-mail, né?
Ken Fujioka:Afinal de contas, a curiosidade é algo estudado pela ciência?
Altay de Souza:Você está curioso com a resposta?
Ken Fujioka:Estou, estou.
Altay de Souza:Então, É, na verdade sim. Inclusive, o que deu insight para esse episódio sair agora é que tem muitos artigos de 2026. Certo. Parece que é um tema que tá voltando agora. E eu tenho uma hipótese fenomenológica, uma hipótese sociológica do porquê esses trabalhos em 2026 têm aparecido. A hipótese sociológica é de que existem outros trabalhos mostrando que parece que as pessoas mais jovens, jovens 25 menos, estão perdendo interesse nas coisas, em geral. Interesse pelo conhecimento, interesse pelas coisas. E aí tem uma influência das redes sociais e do uso de telas, tem essa influência, mas parece que apenas o uso de telas é uma explicação muito rasa. Parece que é um fenômeno contextual maior. E daí, de 2 anos para cá, começou a aparecer um monte de artigos e trabalhos sobre curiosidade. Mas isso é estudado já há décadas. Mas parece que o tema ficou mais quente agora, né? E aí faz sentido, eu fui lendo esses trabalhos, aí me deu insight ontem, na verdade, falar: "Fechou, finalmente!" Porque tem vários episódios que ficam quase, né? Fica naquele quase, tem vários ao mesmo tempo. E aí esse ontem, ah, finalmente aconteceu uma coisa, fechou. E aí eu já perguntei para você, né, se você é uma pessoa curiosa e tal, mas falta definir o que é curiosidade, porque às vezes as pessoas definem usando expressões diferentes. Elas colocam a mesma palavra para coisas diferentes. Então, o que seria curiosidade? Abre aspas: "É uma qualidade relativa ao pensamento..." É uma qualidade que o organismo tem, é uma disposição que o organismo tem relativa ao pensamento inquisitivo, exploração e aprendizado. Então, é uma atribuição que você tem, é uma qualidade que você tem, que é relacionada ao pensamento inquisitivo, A exploração e o aprendizado, tá? E aí tem um traço muito importante da curiosidade. A curiosidade é um atributo inato. Existe um inatismo, você nasce com curiosidade. Ou não. Não, você nasce, todos nós.
Ken Fujioka:Todo mundo nasce com curiosidade.
Altay de Souza:Todo mundo nasce. Se você não é curioso, isso foi tirado de você. Isso é um problema.
Ken Fujioka:Certo.
Altay de Souza:Isso é claramente um problema. Algo foi tirado de você. E aí eu vou dar explicação, que até o nosso ouvinte Lucas perguntou, de qual é a circuitaria do cérebro relacionada com isso, tá? Então claramente assim, não tem como não ser curioso, não tem, tá? Você pode transformar a curiosidade em algo desadaptativo, e aí bate totalmente no nosso episódio sobre fofoca, né? Então a pessoa tem que— é uma acepção da palavra curiosidade, né? É você querer saber dos outros, mas você quer saber dos outros para quê? Para ajudar a ter uma certa— para dar conta de uma curiosidade interpessoal ou para usar o conhecimento do outro como moeda de troca. Então, veja que— E aí é uma coisa completamente negativa, é zoado. Essa acepção da fofoca, temos o episódio "Por que fofocamos?" Mas o atributo mais valoroso da curiosidade, que é essa disposição para explorar o mundo, para o pensamento inquisitivo, para aprender, isso é ligado a outros 3 episódios que fizemos que forma uma trinca que esse episódio entrará junto, né? Que é o episódio 342, da onde vem a inspiração, é 395, que é força de vontade, 340, como se constrói a autoestima. Esses 3 episódios são relacionados. E esse episódio hoje, que é o que é curiosidade, entra agora como um 4º episódio nisso. Então, ser curioso, mas ser curioso do ponto de vista positivo, e não é, eu não tô falando de moralidade, certo ou errado, Eu tô falando positivo como algo que te movimenta a fazer coisas, a construir, tá? Ser fofoqueiro não é ser curioso de verdade, tá? É, na verdade, uma corruptela dessa palavra. Então, quando você tem uma curiosidade genuína pelas coisas, isso é um sinal de força de vontade que te inspira a construir autoestima. E aí tem a ver com esses outros 3 episódios. Só que eu vou repetir, por isso que esses 4 episódios são importantes. Então, quando você é curioso pelo mundo, quando você tem curiosidade interpessoal, curiosidade pelo outro, por informações e por conhecer a você mesmo, isso desenvolve a sua força de vontade, a sua autoestima e torna você inspirado para outras coisas. Então parece muito legal ser curioso. E, de novo, reforço que curiosidade é um atributo inato. Todos os organismos têm curiosidade, que é esse comportamento que a gente chama nos animais de exploração. A capacidade que um organismo tem de explorar o mundo é inato. Ele tem que explorar o mundo, senão ele não sobrevive, tá? Então você nasce já se movendo. Pega o bebê pequeno, ele nasce se movendo, né? Como ele nasceu muito imaturo, no caso do humano, que ele não tem muito cérebro, ele não faz muita coisa com os movimentos dele, mas ele tem essa disposição. Mas pensa num pintinho. A galinha já nasce correndo. Já pensou se a galinha não tivesse propósito de explorar o mundo? Morre. Não sobrevive. Então, a curiosidade é uma coisa muito basilar. Essa qualidade relativa ao pensamento inquisitivo, exploração e aprendizado. E você só aprende porque você é curioso. A curiosidade é algo indispensável para a aprendizagem. É que as pessoas pegam de um jeito muito antropomorfizado. O que é curiosidade, né? "Ah, é aquela pessoa que faz muita pergunta, que quer saber o porquê das coisas." Não é só isso, tá? Curiosidade tem coisas muito mais simples também relacionadas com isso. A gente tem uma expectativa de achar que crianças têm mais curiosidade, porque crianças têm mais energia e exploram as coisas, e pessoas mais velhas têm menos curiosidade, né? A gente tem essa sensação. E assim, tem alguns trabalhos no passado que mostravam isso, mas hoje parece que tem tem mudado. E não é que os idosos mudaram, não é isso. É que as definições de curiosidade melhoraram. Então, na verdade, hoje em dia a gente não tem um tipo de curiosidade, a gente tem alguns tipos de curiosidade. E tem alguns tipos que as crianças têm mais e outros que os adultos têm mais, e idosos, tá? Então, na verdade, quando a gente pega a palavra curiosidade, a gente tá chamando coisas diferentes de curiosidade, porque na verdade tem tipos de curiosidade. Isso torna o fenômeno mais complexo, tá? E aí vale muito, e dá para discutir, isso é um tema fantástico porque dá para relacionar com várias outras coisas. Então, de novo, curiosidade é a base da autoestima, da inspiração e da força de vontade. Esses três elementos só existem porque você é curioso, tem disposição de conhecer o mundo, tá? E aí eu vou me referir a um pedaço final de um outro episódio que eu citei uma coisa do Skinner, que é uma frase do Skinner, que é uma das poucas frases, acho, poéticas do Skinner, assim, que tá no livro sobre o behaviorismo, no capítulo 2, que é interessante, que dá para trazer aqui, né? Que é uma— e você até falou, né? Mas curiosidade é inato? Então tem pessoas que não são curiosas? E aí eu pego essa frase do Skinner para mostrar. A frase é a seguinte, eu não lembro ela perfeitamente de cabeça, mas a ideia é assim, né? Ele fala assim: que o nosso mundo interno, o mundo que você tem dentro de você, é resultado de aprendizagem social. O mundo que você tem dentro de você é resultado de aprendizagem social. Você só começa a dar valor para o seu mundo interno quando alguém fora de você se interessa por ele. Isso tem muitas camadas, tá? Então, geralmente, pessoas que não são curiosas— e de novo, eu não tô falando de fofoca, que é essa coisa besta, Tá, essa coisa idiota é curiosidade mesmo, tipo, por que que você é assim? Por exemplo, quem tem um tipo de curiosidade que é a curiosidade interpessoal, né? Eu quero saber sobre você, mas não para falar para o outro, dane-se o outro. Eu quero, eu quero entender você porque isso me ajuda a entender a mim mesmo. Essa curiosidade interpessoal que importa. Então, por exemplo, se você me fala sobre você, né, e eu uso alguma coisa que você me disse para entender o meu mundo interno, Então, por exemplo, quando eu demonstro que eu tenho interesse em você, curiosidade em você, isso valora para você mesmo seu próprio mundo interno. Então, eu demonstrar curiosidade sobre você genuína, não é saber factualmente o que você fez ou não, essa babaquice, tá? Assim, eu quero saber como você pensa. Isso diz para você mesmo que você não é tão ruim assim. Você começa a se tornar curioso com você mesmo. Só que isso não é consciente, isso não é consciente. Então quando eu chego com— de verdade, Kenji, já teve conversa séria assim, e tipo de eu tentar entender como você pensa e vice-versa, sabe? Esse tipo de pergunta não é uma pergunta que merece ser dita para outra pessoa, porque o interesse é meu. Eu quero saber mais sobre você porque isso vai me ajudar a entender uma parte de mim mesmo, ao mesmo tempo que valora a importância para você mesmo de você mesmo. Percebe? Sim. Isso é a metacognição, é algo super importante, tá? Então isso é o aprendizado que você tem a partir da curiosidade do outro. Não é tipo, você me conta uma história, eu vou chegar, ai, Cláudia Irene, veja o que o Ken fez, sabe? Esse tipo de bobagem, né? Não, mas isso mostra um sintoma social que é vítima do imediato, que é resultado do imediatismo que a gente tem. Eu odeio fofoca, odeio. É um dano ao tecido social. É um defeito você ser fofoqueiro, é um defeito. Tem o Naru Rodolffo sobre isso, que tem uma importância evolutiva lá atrás, mas hoje isso já foi totalmente corrompido, tá? Tanto é, e aí é um problema, né? Tipo, você tem os podcasts que são de vídeo, né, assim, que tem pessoas que— e tem podcast raiz que nem esse, que é só áudio, né, que é mais clássico, né? Se você pega os rankings dos podcasts mais ouvidos, é só de lorota da vida dos outros, sabe?
Ken Fujioka:É verdade.
Altay de Souza:"Não, mas é verdade, nada contra quem faz, porque se tem oferta tem demanda, é uma demanda social, não é um julgamento moral." Mas mostra, tipo, a gente devia se envergonhar enquanto sociedade, sabe? De você usar esses tipos de exemplo só pra ficar reverberando, só pra usar como cola social. Então a pessoa que fala: "Eu gosto dessas histórias, eu gosto de saber isso porque me informa." Claramente algo na sua socialização falhou. Claramente algo falhou. "Desculpa, pode se sentir mal, quer me cancelar, pega a senha, senta aí." Você deve ser uma pessoa um pouco rasa, ou você deveria utilizar a sua curiosidade interpessoal de uma forma um pouquinho mais produtiva. Isso não tem a ver com gênero, acontece para homem e para mulher, tá bom? Porque outra babaquice que fala: "Ah, homem não sabe expressar emoção." Ninguém sabe expressar emoção direito, ninguém, nem homem nem mulher, tá? Isso é indiscriminado.
Ken Fujioka:Por quê?
Altay de Souza:Porque você não tem interesse pelo mundo interno dos outros. Como você não tem interesse de fato pelo mundo interno dos outros, isso é um resultado de que ninguém se interessou pelo seu. O que é uma merda. Falhamos como sociedade, Ken.
Ken Fujioka:Verdade.
Altay de Souza:Já começamos bad vibes, tá? Mas desculpa, o Nauru Rodolffo já tá acostumado, é assim mesmo. Mas vamos falar do mecanismo, do mecanismo da curiosidade, que é muito curioso, aliás, né? Então, falando do cérebro mesmo, causa material e formal, o fenômeno da curiosidade tem 4 partes. Que é a predição, avaliação, a curiosidade em si e depois a exploração. Então, por exemplo, Ken, uma coisa curiosa para você, por exemplo, se todo dia você vai no mesmo restaurante e pede a mesma coisa todo dia, tá? Ou seja, é tudo previsível, não é? É tudo previsível, você vai lá, faz a mesma coisa, então você não acha curioso porque é tudo a mesma coisa, previsível. Então uma coisa para ter curiosidade É você ser exposto a algo diferente. Imagina que você foi no mesmo restaurante e mudou alguma coisa. Mudou uma pessoa, mudou um prato, então algo aconteceu no ambiente que você não esperava. Essa é a predição. Tá bom. E aí é uma coisa até poética, né? Que toda curiosidade nasce de um erro. Por quê? É um erro de avaliação. Então você tá acostumado a fazer uma certa coisa, de repente aconteceu diferente, sabe? Aconteceu uma coisa diferente, ou seja, O seu cérebro prevê alguma coisa, mas teve um erro. Mas o erro não é algo moral. Aconteceu um erro, ué, teve essa predição. A partir desse problema, desse erro de predição, você vai fazer uma avaliação disso. Você faz uma avaliação desse erro. Isso vai desenvolver a curiosidade. Ué, mas por quê? É a pergunta que o nosso ouvinte colocou. Por quê? E depois vai ter a exploração. O que você faz com isso? Então, essas 4 fases é um modelo neurofisiológico que é chamado PACE, né, porque em inglês, né, então Prediction, Appraisal, Curiosity, Exploration, PACE. E é como funciona a curiosidade no nosso cérebro, tem áreas cerebrais relacionadas com isso. Então basicamente quando você vê alguma coisa que você tá acostumado e de repente algo muda, que não foi por sua causa, aconteceu, né, você fica meio curioso. Você tá olhando um lugar Por exemplo, você entra numa sala que você nunca entrou antes. Você entra numa sala, alguma coisa puxa sua atenção. Aí você começa a olhar aquilo, tipo: "Nossa, que estranho!" Começa a olhar. Então, o que acontece no seu cérebro? Você tem duas áreas, que é o hipocampo. O hipocampo é uma área relacionada com detecção de contexto. Então, quando você entra num lugar que tem várias coisas e uma coisa é diferente, isso puxa o hipocampo. "Olha, isso aqui é diferente do que eu já vi." A detecção de contexto, né? E ao mesmo tempo tem uma outra área que é o córtex cingulado anterior, que ele é relacionado com coisas novas ou não. Então você pode ver uma coisa que é nova, você pode ver uma coisa que não é nova, você pode ver uma coisa que é diferente ou não do que você já viu. Então você entra numa, você entra, por exemplo, numa sala e tem um carro, né? Carros você já viu. Então o córtex cingulado falou: você já viu. Mas é um modelo que você nunca viu antes. Aí o hipocampo ativa, entende? Então a curiosidade nasce dessas duas coisas: se você tá vendo uma coisa nova ou não, e se essa coisa tem um contexto ou não similar a algo que você conhece. Tudo bem, Ken? Tá? Então a base da predição começa com isso. Você tá vendo uma coisa nova ou não? E essa coisa nova ou não tem um contexto familiar ou não? Então tem quatro condições, tem quatro condições. Que é a coisa nova, familiar ou não, a coisa não nova, familiar ou não, no contexto, tá? Cada um desses erros, né, entre aspas, de julgamento, vai levar uma avaliação. Aí essa avaliação é feita numa outra área, que é o córtex pré-frontal lateral, que vai avaliar isso, falar: isso é perigoso, é não, né? O que que acontece e tal. E a partir do córtex pré-frontal lateral vai para uma outra área, que é o estriado ventral, Então o córtex pré-frontal já na frente da sua cabeça, que é quando você julga, né? Então você entra numa sala, você vê alguma coisa. Nossa, isso é novo ou não? Isso é familiar ou não? Aí vai para uma outra área. Isso é perigoso ou não? O que que eu faço? E aí depois vai para o estriado ventral, que aí é a base da curiosidade. A base da curiosidade está nessa área, no estriado ventral, né? E aí tem uma coisa interessante: o estriado ventral, que é essa área da curiosidade, ele retroalimenta o hipocampo e o córtex cingulado. Então, por exemplo, imagina, você entrou numa sala, você viu uma coisa nova, né? Aí o hipocampo e o córtex cingulado ativa, aí manda lá para o córtex pré-frontal, né, para você julgar. Aí quando você julga, isso acontece milésimos de segundo, tá, tá rapidinho. Aí o pré-frontal olha, ele fala: não, é perigoso, é não, eu tenho que fugir, alguma coisa, tá. Aí não, parece que tá. Aí vai para o estriado ventral. O estriado ventral, ele gera esse interesse Né, ele gera esse interesse. Só que aí acontece uma coisa: o estirado ventral é ligado para uma área emocional que é chamada amígdala, no cérebro também, não na garganta, no cérebro tem uma área chamada amígdala. A amígdala, amígdala, ela sofre influência de aprendizagem social do mundo. Então, por exemplo, quem— imagina que você era criança e você é uma pessoa curiosa, porque você nasce com curiosidade. Pega sua filha, a pessoa mais curiosa que deve ter, sua filha, que pega tudo, por isso que morre. Cai das coisas, bota o dedo no olho.
Ken Fujioka:Basicamente, um bebê numa certa idade, ela fica o dia inteiro tentando se matar.
Altay de Souza:Exatamente, basicamente. A sua tarefa de cuidadora é exatamente cuidar, né? Porque é tipo não deixar morrer, basicamente é isso. Daqui a pouco tá lambendo o fio, lambendo a rua, e aí assim mesmo, é normal, tem que deixar, né? Aí o que acontece, então, nela O hipocampo e o córtex cingulado tá estralado, porque é tudo novo. Pá! E o córtex pré-frontal, como não tá bem desenvolvido ainda, porque é bebê, o córtex pré-frontal não julga direito. Então é aquela zona, o fenômeno, a bagunça total. Aí o que acontece? O que que pai e mãe otário faz? Pai e mãe otário devia só deixar a criança viver, né? Começa a julgar, que é desgraçado também, né? Que a gente já falou em outros episódios, pior coisa que você tem é falar que seu filho é inteligente. Porque você dá o julgamento sem dar o caminho. Aí você prende a criança na porra de uma crença porque você é um otário, né? Então o que acontece? Isso é amígdala. Imagina, né, um triângulo: hipocampo, córtex cingulado anterior, o córtex pré-frontal lateral. Esse é um triângulo informacional. Aí essa informação vai para o estriado ventral. O estriado ventral é ligado com a amígdala. Aí o que que a amígdala faz? A amígdala é como se fosse um sensor do mundo. Então toda vez que você chega para sua filha e fala: "Ó, tá errado!" "Não é assim, tá errado e tal." É uma informação externa que vai batendo na amígdala. Essa amígdala, quando ela tem essa reprimenda do mundo muito forte, ela começa a inibir o estriado ventral. Então, o estriado ventral é a área da curiosidade, que vem da ligação das outras 3 áreas. Quando você começa lá a falar: "Tá errado, não é assim, plá plá", bater de fora, Isso inibe o mundo interno da criança. E onde tá o mundo interno e o desejo por explorar? Onde tá isso? No estriado ventral, que é inibido pela amígdala, né? E aí você, aí você acha, ela nunca foi curioso. Não, você que é um imbecil que ficou com uma das poucas trends de TikTok que eu gosto, gostei mesmo, achei legal, achei foda. E é uma prova para separar pai e mãe otário de quem não é, que assim, era uma trend que eles pegavam criança, criança 5, 6 anos. É uma trend fantástica aqui, pode procurar. Achei que eles pegam ditados populares. Quando sua filha ficar um pouquinho maior, faz isso com ela, tá? De novo, você tem que tirar da sua cabeça certo e errado, tá bom? Pai e mãe otário é quando quer falar que tem certo e errado. Não tem. Você chega para sua filha, ela não sabe porque ninguém nasce sabendo. Você vai pegar ditados populares e pedir para ela completar. Então você chega para ela assim: filho de peixe, filho de peixe, e deixa ela responder. Tipo, cala a boca, cala a boca, não tem certo e errado. As respostas vão ser muito melhores do que o ditado. Então é isso, é a chave da curiosidade, que você, pai e mãe imbecil, tira da criança oportunidade ela desenrolar alguma coisa, certo? Porque, porque veio, você tá batendo na amígdala dela quando fala, não é assim, né? Filho de peixinho, filho de peixe, peixinho é Aí a criança fala, sei lá, filho de peixe é tilápia, sabe? Em vez de valorizar a criança que deu a resposta criativa, não, você bate na amígdala dela sendo um otário, entendeu? E aí, por que eu tô sendo tão incisivo com pai e mãe? Porque a gente recebe um monte de e-mail pai e mãe, o que que eu tenho que ler? Só não seja imbecil, tá? É muito simples, é muito simples. Não seja imbecil, não projete seu desejo na criança, faça você terapia. Que só a criança melhora. Ela é a prova de adulto. Você tá dando casa e comida, o resto desenrola, tá? Não seja idiota, é isso, tá? Se você vai falar para criança uma coisa que você acha errado, não fala, né? E não tem certo e errado que os outros esperam, dane-se, entendeu? Então esses exercícios, esse exercício de pegar um, uma, e eu já vi criança assim, sabe? E isso me dá, eu fico triste, triste. Você pega uma criança de 7, 8, 9 anos E faz essa brincadeira com ela. Tem crianças que respondem, tipo: "Ah, filha de peixe, sei lá, é tilápia." Sabe falar alguma coisa assim e dá risada. Claramente os pais estão cuidando bem dessa criança. Aí você pega uma outra criança da mesma idade e ela também não sabe. Você fala: "Filha de peixe." Aí ela fica tímida. E não é porque ela é tímida, é porque claramente parece que esperam dela uma resposta certa. Aí você fodeu com a criança.
Ken Fujioka:Ah, sim, sim.
Altay de Souza:Tá saindo imbecil. Aí depois vira o adulto que é embotado emocionalmente por culpa sua. E de novo, não importa se você é bem-intencionado, não interessa. De novo, de boas intenções o inferno tá cheio. Só cala a boca. Só para de certo e errado, julgamento moral imbecil, sabe? Pensa como uma coisa lúdica, tem que jogar com a criança, sabe? E dá risada mesmo. Pô, nossa, a resposta é muito melhor que o ditado original. Porque muitas vezes é. Muitas vezes é. Então, esse comiço dessa circuitaria, tem uma circuitaria para isso, Ken. Imagina lá uma circuitaria, e tem um sensorzinho, que é a amígdala, que pega feedback externo para validar essa circuitaria. Se você fica lá protegendo demais a criança, ou tendo julgamento moral, ou tendo certo e errado, vai inibindo a criatividade da criança e a curiosidade. E aí, nesse sentido, inibe também a capacidade dela se inspirar, a autoestima e a força de vontade, né? Sim, sim. Percebeu que não é foda? Não é para ficar desgraçado? Eu fico desgraçado da cabeça, não sei de você, mas eu fico desgraçado, né? Aí fica pagando caro com terapia, com os cursos lá de parentalidade, quando na verdade é só você não ser idiota. É só você não ser idiota, quem sabe? De novo, é simples, mas não é fácil. Sim, porque Você adulto, você tem esse julgamento vindo dos outros no trabalho, as pessoas ficam te julgando. E aí você tem um treino comportamental de ter o seu mundo interno embotado, porque ninguém se interessa por ele, porque você não é visto como quem fujoka, você é visto como funcionário, você é visto como quem tem que fazer sei lá o quê. Ninguém tem interesse pelo seu mundo interno. Aí o que acontece? Você, acostumado nisso, joga isso na criança e vai embotando o mundo interno dela. E é por isso que tem um monte de adolescente cristalzinho de cortisol, né, que não consegue se frustrar com nada, né? E aí fica educado pelo TikTok, óbvio, né? Percebeu que é uma discussão complexa, assim, mas importante.
Ken Fujioka:Vai longe, vai longe.
Altay de Souza:É importante, importante. Aliás, tem um livro que pouca gente leu, né? Muita gente conhece o Leon Festinger. Lembra do Leon Festinger? Do episódio duplo sobre dissonância cognitiva, né? É o pai do termo, que criou o termo dissonância cognitiva, né? O livro mais importante dele é a Teoria da Dissonância Cognitiva mesmo, né? Mas tem um livro anterior dele que eu acho tão importante quanto, que é de 1950, que é— eu não sei se tem em português, eu li em inglês, mas é Pressões Sociais em Grupos Informais, Social Pressures in Informal Groups, está na descrição, o livro muito legal, né? E ele fala, esse livro é uma pré-edição do porquê hoje as pessoas se sentem sozinhas, né? Isso tem a ver com a curiosidade. É uma previsão hoje, assim, o livro 70 anos atrás. Tem a ver com a curiosidade totalmente, porque, porque o que que ele fala, né? O título já diz, né? Pressões sociais em grupos informais. Ele fala assim que para você evitar solidão, porque de novo, quando você está sozinho, quer dizer que não tem ninguém externamente que tem interesse no seu mundo interno. Né? Então é um problema, vai embotando. E aí por isso que a gente acha que idosos são menos curiosos também, porque na verdade tem menos pessoas prestando atenção neles, né? Então, para que que você ser curioso se ninguém tem interesse em mim, né? Percebe essa coisa? E de novo, isso não é consciente, não é que a pessoa espera isso, é simplesmente como a gente é um ser relacional, né? A gente é construído a partir disso. Quem a gente conversa toda semana, isso retroalimenta a gente. Quer você goste ou não, tá? Você não precisa lembrar, mas coisas que a gente conversa aqui ressoa durante a sua semana. Você não precisa lembrar que fui eu que falei ou que você falou, não interessa, tá? Mas a gente é feito desses contatos. O Festinger descreve nesse livro de forma brilhante, né? E ele fala assim que a gente tem que criar o que ele chama de contato passivo, né? O que que é um contato passivo? Por exemplo, que imagina que você vai na faculdade, né? E tem várias pessoas que vão lá também Aí, sabe aquelas pessoas que você conhece porque você vê com frequência? Sim. Tipo o povo que você vê no ônibus no mesmo dia, no metrô, por acaso, né? Ou você vai na faculdade, você dá bom dia para umas pessoas e tal, né? Ou você vai na lanchonete, tem sempre o tio da lanchonete, alguma coisa assim. Isso são contatos passivos, são contatos que você não faz esforço e as pessoas estão lá, né? E aí às vezes você cria um vínculo com elas, né? Um vínculo de até com alguma proximidade. Esses contatos passivos, essa disciplina de manter contatos passivos, que não tem muito esforço, mas é só dar "oi" e tal, ajuda muito a você desenvolver criatividade e curiosidade. Por quê? Porque, por exemplo, imagina que todo dia a gente se vê. A gente faz um curso junto, todo dia a gente se vê. Por acaso vai chegar um dia que eu vou te perguntar alguma coisa de você e você vai perguntar de mim? Ou seja da matéria, sabe? Seja da matéria, porque a gente tá junto, convive, né? E aí esses pequenos drops de pequenas informações de várias pessoas vai constituindo em você um senso de curiosidade pelo ambiente, por exploração do ambiente, tá? Isso a gente vê em macaco. O macaco, ele não fica com chimpanzé, tal, bonobo, ele não fica só, entre aspas, conversando com um, ele conversa com todos, ele pega informação de todos, né? Isso ajuda a montar o mundo interno dele. Também, tá? É porque quando eu falo daquela frase, né, do Skinner, que alguém tem que ter interesse pelo seu mundo interno. Quando você é criança, quem que tem que ter interesse pelo seu mundo interno para você ter interesse por ele também e curiosidade? São os cuidadores, né? Os cuidadores têm que desenvolver isso. Então é uma coisa mais individual mesmo, um a um. Mas conforme você vai ficando mais velho, isso vai diluindo. Dificilmente vai ter uma única pessoa com interesse no seu mundo interno. Isso é dividido entre pessoas. E vice-versa, você começa a ter interesse por várias pessoas também, por pedaços, para formar esse mosaico dentro de você que você chama de subjetividade. Para isso você tem que explorar o mundo, tem que ter a curiosidade. E aí uma coisa muito importante para a curiosidade, sem palavras diretas, é você meter o louco. E o que é meter o louco? É fazer coisa diferente, sabe? É tipo... 'Ah, nunca fui ali, vou lá. Nunca fiz esse caminho, vou fazer outro.' É colocar o seu cérebro num lugar de erros de predição, que é exatamente o contrário que acontece na rede social. A rede social, ela diminui os seus erros de predição, porque cada TikTok ou Story que você vê, o próximo que passa retroalimenta o primeiro. Então diminui os seus erros de percepção. E veja o fenômeno, quem, ó, comportamentalmente é muito simples. Você está lá no TikTok o dia inteiro. Aí cada story que você vê, o próximo é retroalimentado pelo primeiro. Então tem uma dependência temporal deles. Se tem uma dependência temporal, você passa lá 3 horas por dia neles, você vai ter cada vez menos erros de predição. Você vai prever tudo o que vai acontecer. Se você tem menos erros de predição, você não vai precisar avaliar nada. E se você não vai precisar avaliar nada, porque não tem erro de predição, você não tem curiosidade. E aí não vai precisar explorar. O que vai acontecer com você? Vai virar uma samambaia. Claro! Não vai sair de casa. E aí, se você não sai de casa, você não desenvolve contatos passivos. Você só vai poder ter contatos ativos, que são as pessoas que ativamente você vai ter que buscar. E aí é por isso que todo mundo fica com preguiça de sair. Percebe? E aí a gente vira um mundo cada vez menos curioso pela realidade. E qual é o resultado disso? Jean-François Lyotard, 1974, condição pós-moderna, sociedade das comunidades, polarização. Olha que merda, não é verdade? Perceberam? Estamos todos lascados, Key. Todos lascados. E é simples, a solução é simples, só não é fácil. É simples, de novo, é meter o louco. Hoje estamos cada vez menos curiosos, menos curiosos, porque a gente tem menos interesse no mundo interno dos outros. Porque a gente não reconhece mais o nosso mundo interno. É uma droga! Esse triangulinho aí do hipocampo, córtex cingulado, o pré-frontal lateral, deve estar um triangulinho de nada! Já virou um ponto! Não tem nem mais área dentro dele, virou um ponto! Tem que dar uma bombada nisso, não é ficar tomando anabolizante, é bombar essa área aí. Como é que você bomba? Tendo curiosidade genuína, sem ser fofoca. A fofoca, essa fofoca chula, de bobagem, não ativa essa área. Fofoca não estimula a curiosidade. Fofoca é como se você juntasse dinheiro para fazer trocas sociais com os outros. Então eu não preciso te conhecer, Ken. Se eu sei a vida de todos os artistas, jogador de futebol, de Big Brother, eu não preciso te conhecer para virar seu amigo. É só ficar trocando essa conversa rasa. A gente troca ladainha, eu não conheço seu mundo interno, nem você o meu. A gente sai junto, enche a cara, dá risada, volta e dorme deprimido. Olha que bosta, não é verdade? É simples, simples, gente. E de novo, os papers são atuais, mas os clássicos têm 70 anos, texto. Ai, que preguiça! E eu tive como—
Ken Fujioka:Mas eu não esperava que fosse chegar nesse lugar, viu, Tainá?
Altay de Souza:Ah, mas como sempre, né? Essa ideia. E onde eu tive insight? Ontem no bar, tava com insônia, eu falei: "Ué, não sabia que uma pergunta como 'o que é curiosidade' levaria aí gente pra bed." Não, mas na verdade isso sistematicamente os trabalhos Voltam, as pessoas estão ficando menos curiosas mesmo. Paulatinamente. E aí tem um resultado interessante que parece que os idosos estão ficando mais curiosos. E aí entra nessas definições de curiosidade, né? Que curiosidade não é uma coisa só, são tipos de curiosidade, né? Aí, entrando nos tipos de curiosidade, é basicamente dá para dividir em dois tipos, né, que eles chamam de curiosidade estado e a curiosidade traço, né? O que que é a curiosidade estado? Por exemplo, estado é uma coisa que você tem ou não, é como se fosse um interruptor. Então, ou você é ou não curioso, tá? Então, por exemplo, imagina, você viu alguma coisa na internet, aí você achou interessante, você ativamente buscou mais informações. Então, por exemplo, que imagina, por acaso alguém te fala alguma coisa, isso deixou você curioso, aí você voltou em casa e Google o assunto para saber um pouquinho mais, tá? Você já fez isso? Até o trabalho do planejador, basicamente, eu acho que é esse, né? Você pega alguma coisa, fala: nossa, isso aí, o que que será que é, né? Aí você procura mais, entendeu? Isso é a curiosidade estado, tá? Que é uma coisa que vem e vai. A curiosidade traço é uma disposição que a pessoa tem sempre. Parece que ela tem uma maquininha de buscar coisas dentro dela, que não é hiperfoco. Para de patologizar as coisas. Você não tem hiperfoco, você pode ser chato só, tá? Não tem nada a ver com autismo, hiperfoco. Para, para, não é hiperfoco. Quer botar um nome cientificamente mais acurado no raio do seu hiperfoco, que não é hiperfoco? É curiosidade traço, tá? É curiosidade traço. Então, por exemplo, é, sabe aquelas pessoas que gostam de trívias, essas perguntinhas? Sim, sabe, perguntinhas de desafio, coisas do tipo. Essas são pessoas que têm mais curiosidade estado. Então eu faço uma pergunta para você, você fica meio: "Ai, eu quero saber!" Aí você vai procurar a resposta, tá? Tipo, vira um desafio para pessoa. E tem pessoas que não têm esse desafio da curiosidade, elas gostam de procurar, elas acompanham, tá? Então, por exemplo, boa parte dos ouvintes do Naruhodo, por exemplo, os ouvintes mais hardcore, provavelmente tem uma curiosidade traço, como nosso ouvinte, né? O nosso ouvinte Lucas tem essa curiosidade. "Ah, eu sempre quis saber um pouco das coisas." E, de novo, não é que você tem altas habilidades, não é que você tem autismo, você não precisa ter nada disso, você pode ser só uma pessoa interessada. Não precisa patologizar o rolê, é mais simples. Então, assim, eu estou colocando esses termos, tipo curiosidade, estado e traço, que eles são mais populacionais. Você não precisa associar com termos ligados à questão de Eu nem gosto do nome neurodivergência, com neurovariabilidades, depois a gente justifica porque esse termo é muito melhor que neurodivergência, neurovariabilidades. Não tem a ver com isso, é uma coisa que todo mundo tem. Como falamos no começo do episódio, curiosidade é algo inato, todos nós temos, independente de quem você seja, tá? Só que você pode ter uma curiosidade estado, que vem ou vai, quando eu te dou um desafio você fica curioso, eu te conto uma piada, né, uma adivinhação, você fica curioso. Ou tem a curiosidade traço, que é uma disposição sua de Querer conhecer as coisas, tá? O que se tem hoje é que esses dois tipos de curiosidade dá para medir, né? Tem questionários dessas duas coisas. Aí tem artigos de 2025 mostrando efeitos disso em relação à idade, né? Isso é muito interessante. Então, por exemplo, as pessoas mais— vou fazer um teste com você, tá? Para ver se você é curioso ou não, tá, Ken? Então, você já ouviu falar de uma história que é a história do surgimento do termo forró. Sabe forró?
Ken Fujioka:Sim.
Altay de Souza:Tem muita gente que conta essa história, né, do surgimento do nome forró, que era quando barcos americanos paravam, né, atracavam ali na região de Natal, né, no Nordeste, no porto. E aí eles atracavam ali, eles promoviam festas dentro do barco, e eles colocavam uma placa for all, para todos. E era com músicas e tal, e aí for all, for all virou forró. Você já ouviu essa história?
Ken Fujioka:Já ouvi essa história. Já.
Altay de Souza:Você sabe que isso é KO?
Ken Fujioka:Já ouvi também que essa história não necessariamente é verdadeira.
Altay de Souza:Isso. Não, na verdade ela é mentira, né? E você sabe por quê?
Ken Fujioka:Não.
Altay de Souza:Isso. Quer saber?
Ken Fujioka:Quero.
Altay de Souza:Vai ter que aguentar até o final do episódio, tá? Vai ter que aguentar até o final do episódio, aí eu conto. Então vou deixar sua cabeça ocupada com isso. Eu quero saber o quanto seu pré-frontal trabalha com isso.
Ken Fujioka:Tá bom.
Altay de Souza:E os nossos ouvintes também. Vai ter gente que vai ficar tão desesperada, que é o pessoal do Curiosidade Estado, que vai ou vai parar o episódio, vai procurar na internet, ou nem vai conseguir prestar atenção no resto do episódio porque vai ficar desesperado com isso, tá? Esse é um tipo de episódio. Você não tem nenhuma neurovariabilidade, nada mental, tá? É só você é assim e tá tudo certo, tá? Então, quando eles fizeram esses estudos, né, de Curiosidade traço estado, eles aplicaram em uma amostra grande de pessoas, em um estudo longitudinal, e aí eles viram que os idosos têm uma maior quantidade de curiosidade estado. Então, os idosos não têm uma curiosidade tão grande por coisas em geral, mas eles têm uma abertura a novas experiências das coisas que eles já vivenciaram. Então, por exemplo, quem? É, se você voltar agora hoje a jogar beisebol, agora, tá, pode ser que você encontre novas camadas de significado nisso, pode ser que você desenvolva muita curiosidade e estado nisso, tá. Então, por exemplo, ah, eu era carpinteiro e agora eu vejo um monte de canais de carpintaria, de coisas, eu melhorei minha habilidade em carpintaria com base nisso, sabe, alguma coisa assim. Você pega coisas que você já tinha e vai na masteriza essa coisa. Isso é uma coisa muito produtiva para os idosos. Pegar coisas que eles já faziam e tentar virar um expert naquilo. Isso ajuda muito. Inclusive, tem dados populacionais de estudos longitudinais, tem um de 2013, mostrando que idosos que fazem isso, que continuam experts nas suas atividades, por curiosidade, por mais termos, atualizações, tem uma melhora nos testes cognitivos muito grande, tá? Tem um trabalho, por exemplo, de 2006, feito com idosos de 65 a 85 anos, e aí alguns deles tinham scores maiores de curiosidade e outros menores, né? Eles fizeram um teste no computador que eles mostravam imagens. Algumas imagens os idosos já conheciam e outras eram imagens novas, né? Os idosos, usando eye tracker, né, os idosos que passavam mais tempo olhando as imagens novas, né, tentando decodificar as imagens novas, tinham mais curiosidade de estado e tinham melhores resultados nos testes cognitivos, tá? Então assim, a questão da direcionalidade é importante. Não se sabe se você, por ser curioso, vira um idoso com cérebro mais saudável, ou por ter o cérebro mais saudável você fica mais curioso. Não se tem a relação direcional, tá? Mas parece que um retroalimenta o outro. Então, você vai ter uma vida muito mais frutífera se você parar de seguir fofoca e começar a se interessar, né? Ter um interesse informacional pelas coisas, tá? E aí uma coisa muito importante é separar fofoca de curiosidade interpessoal. A curiosidade interpessoal é o desejo de informação sobre o outro como uma base para estabelecer conexão, pertença, sobrevivência e autoavaliação. Então eu não quero saber coisas de você, Ken. Eu quero saber você. Não é nem saber de você, porque saber de você, como é que você tá, tá? Eu quero saber você. É diferente, é mais sobre o verbo ser do que o verbo estar. Isso, exatamente, é o ser mesmo. Porque de novo, se você estabelece comigo um exercício De eu tentar saber você, você começa a ter interesse por você mesmo. E você deixa de se distrair por outras coisas. Isso bate totalmente no episódio duplo que a gente gravou, "Se existe amizade entre homem e mulher", que é o 432, 433, eu acho. "Se existe amizade entre homem e mulher". Não, 433, 434. E nesse episódio a gente fala que tem um conceito muito importante que é o shadow talking. Que é essa conversa das sombras. A ideia do shadow talking, por exemplo, quando a gente tem shadow talking, se eu tenho isso, eu consigo me ver através de você. Essa que é a ideia aqui. De novo, isso tem várias camadas. Eu vejo a mim mesmo através de você, porque você deixa. E a recíproca é verdadeira. Quando isso acontece, que vitória! Isso devia ser o mínimo, mínimo. Falhamos como sociedade, porque a gente não dá valor para isso, porque isso não... Isso não é escalável, isso tem que ser analógico, não dá pra digitalizar. Agora, fofoca da vida dos outros dá, né? Ficar falando de bobagem de Big Brother dá, porque dá pra pôr a propaganda do refrigerante junto com o cara lá 36 horas em pé plantando bananeira, né? Dá pra pôr. Ai, que preguiça, né? Falhamos enquanto sociedade, estamos falhando continuamente, né? Fazer o quê? Ai, que tristeza, né? Eu fico bolado, eu fico desgraçado. Dane-se também. Mas enfim, e aí fechando o episódio, então assim, temos que pessoas mais velhas continuam curiosas, algumas continuam até mais curiosas quando elas desenvolvem essa curiosidade de estado, que é você estimular ela a tentar resolver desafios dentro das áreas de expertise delas. Então, por exemplo, você é publicitário, aí eu começo a perguntar coisas para você de publicidade mesmo. Aí você vai perceber que você sabia coisas de publicidade de 30 anos atrás. "Pô, mas agora eu não sei." Aí você vai procurar. E aí você melhora muito, porque você aprende muito mais, tem experiência. Entende? Aí vira um efeito de halo em você mesmo. Então, imagina, sei lá, vou pegar o exemplo do nosso amigo Felipe, o designer. Ele trabalha a vida inteira com design. Aí ele aposentou. Se as pessoas começarem a ter interesse por design e perguntarem para ele sobre design, E fala: "Nossa, isso é assim, mas eu sabia isso há 20 anos atrás. Como é que é agora?" Aí vai pesquisar, aí a coisa desenrola. Aí você desenvolve esse senso de busca. E é isso que tá faltando dos mais jovens. O que falta dos mais jovens é esse tipo de interesse, que aí não seria a curiosidade-estado, é a curiosidade-traço, que é o que a gente nasce. Então isso é interessante: você nasce com a curiosidade-traço, que é essa disposição para explorar. O que é que a sua filha tem? A sua filha tem curiosidade traço. Vai lá, bota o dedo na tomada, se corta, cai tudo, né? Conforme ela, com o tempo, ela vai desenvolver curiosidade estado, que é o interesse mais por alguns assuntos e não por outros, que faz parte. Aí tem vários condicionantes, né? Tem condicionantes sociais, históricos, econômicos, enfim, né? Aí o que acontece? Quando você fica mais velho, você vai ter muito mais curiosidade estado, que é curiosidades dentro das coisas que você já conhece. Se você for estimulado a isso, perfeito. E aí é interessante, né? Inclusive tem a ver até com arquitetura. Tem um trabalho muito interessante que eles construíram um prédio na Inglaterra que é um prédio que impossibilita você ficar sozinho, fora no banheiro, fora o banheiro, tá? É um prédio que é construído assim, que as janelas são para dentro, e aí dentro do prédio tem uma área comum. Então toda vez assim, quando você não tá no banheiro ou no quarto Você tá vendo alguém, entendi, sempre tá em contato com alguém, mesmo que seja vendo só, não precisa tá falando, né? E aí eles fizeram esse teste, né, arquitetônico, como um, era um asilo de idosos ali, né, esse prédio. E aí eles viram, ao longo do tempo melhorou muito a qualidade de vida dos velhinhos, muito, porque eles eram obrigados a interagir, né? E aí interagir um pouco mais, ficava menos isolado, uns conseguiram ver quando o outro tava isolado, conseguia lá bater na porta. Enfim, melhorou muito, tá? Então, mesmo quando, ah, eu não quero falar com ninguém, tudo bem, você entra no quarto, né? Mas se você ficar muito tempo no quarto, os outros sabem, sabe? Então, é bem interessante, é um desafio arquitetônico também desenvolverem lugares que possibilitam pelo menos você ver outras pessoas, né?
Ken Fujioka:E é relativamente simples, né, a solução?
Altay de Souza:Então, tem um desenvolvimento arquitetônico de engenharia, mas a implementação é simples, o custo é bem baixo, né? Possibilita, como o Festiger falou, os contatos passivos. Só você dar bom dia para alguém, "Oi", não precisa desenvolver, não precisa falar de Kierkegaard para a pessoa, mas só "Oi", já ajuda muito, melhora muito a qualidade de vida das pessoas e a curiosidade em estado. Porque um dia você vai esbarrar com a pessoa, você vai trocar ideia com ela, aí a coisa começa, desenrola. Você ficou muito incomodado ainda porque eu não te falei o negócio? Cê está incomodado? Cê está bolado?
Ken Fujioka:Não fiquei bolado, mas continuo curioso.
Altay de Souza:Cê está curioso? Isso atrapalhou a sua atenção no restante da discussão do episódio?
Ken Fujioka:Não, não chegou a atrapalhar.
Altay de Souza:Não chegou a atrapalhar? Pode ser que tenha gente que esteja puta.
Ken Fujioka:Pode.
Altay de Souza:Pode chegar a ter. Então vou dar a resposta aqui no final do episódio, tá? A resposta é a seguinte: na verdade essa história do barco é mentira. Tá? Não faz nenhum sentido e é fácil de testar, mostrar que não é verdade, tá? Por quê? Porque a época que os barcos americanos atracaram ali em Natal, né, na base militar lá, foi em 1941, que era na época da Segunda Guerra, 1941. Mas o termo forró já existia no dicionário, ou seja, surgiu bem antes, desde 1913. Ou seja, o termo já é muito mais antigo do que o evento. Isso, claro, já tá mostrado, né? Mas agora vem a próxima pergunta: então da onde surgiu o nome forró? Se não foi disso aí, da onde surgiu? Então, na verdade, forró não é uma música, é um conjunto de ritmos. É um conjunto de ritmos, na verdade. Então forró vem do século 19, é bem mais antigo, e é um conjunto... Por exemplo, quando você pensa rock, rock é um conjunto de estilos. Então aí você tem o ritmo e a melodia. Então o forró é um conjunto de ritmos. Ritmo é batida, são as batidas. Quando você faz a batida do tambor, o ritmo, né, é a base da música. Aí você tem a melodia, que são os sons, né. Então quando você pensa uma música tipo tananana, o tipo Parabéns Pra Você, você lembra da melodia e não do ritmo. O ritmo são as batidas. Sim, batendo o ritmo na música. Tá? Então você tem músicas que são rítmicas, por exemplo, músicas de atabaque, tambor, músicas com percussão são músicas rítmicas. E você tem as músicas que juntam melodia e ritmo, que você tem a batida com um som em cima, que aí é chamado música tonal. Então, por exemplo, quando alguém com violão canta, né, isso é uma música tonal, porque você tem o ritmo e a melodia, que é a música em cima, tá? Isso mostra uma coisa colonialista, aliás, né? Porque a música tonal foi introduzida no Brasil Pela colonização, que é uma coisa mais europeia. As músicas tradicionais do Brasil são músicas rítmicas, onde a batida do ritmo é o mais importante. E o forró é uma delas. O forró é um conjunto de ritmos que incorpora o baião, o xote, o chachado, entre outros. E por que o forró surgiu esse nome? Foi por causa do Luiz Gonzaga. Lembra do Luiz Gonzaga? Sim, claro, Gonzagão. É, o Luiz Gonzaga em 1949, ele gravou uma música que chama Forró do Manevito. Só que essa música não é um forró, essa música é um baião, né? Era um baião, só que pegou forró. E aí a pessoa, as pessoas generalizaram o nome forró com base nisso, tá? Mas o forró na verdade surge de forró-bodó, que é o nome de uma festa tradicional que tem desde o começo do século 19.
Ken Fujioka:Forró Bodó?
Altay de Souza:É, o Forró Bodó é uma festa tradicional num período do ano que toca baião, shot, chachado e tal. E aí isso deu origem ao nome forró, né? Mas é uma junção de vários ritmos.
Ken Fujioka:Isso não tem nada a ver com borogodó?
Altay de Souza:Nada, nada. Isso é outra coisa, né? Nem balangue-dengue, né? Mas não é uma história bem mais legal?
Ken Fujioka:É uma história bem mais legal.
Altay de Souza:Então espero ter dado conta da curiosidade das pessoas sobre isso. Desculpa quem ficou muito atormentado. E tal, né, mas foi pelo bem científico. E espero agora que a curiosidade, pelo menos em relação à meta-curiosidade, em relação à curiosidade do Lucas tenha sido sanada. Mas contamos com a curiosidade dos nossos ouvintes para manter o podcast, né. Nosso podcast é mantido integralmente baseado na curiosidade de vocês.
Ken Fujioka:Tá certo então, Altair. Inaro o rodo, ilustríssimo ouvinte! E você já sabe, E aqui no Naruhodo, quem faz a pauta é você! Você tem alguma pergunta pra gente ou quer comentar algum episódio?
Altay de Souza:Escreva pra nós! podcast@naruhodoh.com.br Repetindo: podcast@naruhodoh.com.br E lembre-se: mande nome completo, idade, profissão e a cidade de onde você está falando.
Ken Fujioka:É isso aí!
Altay de Souza:Esse podcast é apresentado por b9.com.br.
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