Episódios de Naruhodo

Naruhodo Entrevista #69: Hugo Fernandes

08 de junho de 20261h20min
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Na série de conversas descontraídas com cientistas, chegou a vez do Professor, Biólogo, Mestre e Doutor em Zoologia, com Pós Doutorado em Ecologia, Hugo Fernandes.

Só vem!

>> OUÇA (80min 01s)

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Naruhodo! é o podcast pra quem tem fome de aprender. Ciência, senso comum, curiosidades, desafios e muito mais. Com o leigo curioso, Ken Fujioka, e o cientista PhD, Altay de Souza.

Edição: Reginaldo Cursino.

http://naruhodo.b9.com.br

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Hugo Fernandes é biólogo, professor da Universidade Estadual do Ceará, possui pós-doutorado em Ecologia e é mestre e doutor em Zoologia.

Desde 2022, é sócio e Diretor de Inovação da Seteg Soluções Ambientais, empresa de consultoria com atuação em mais de 20 estados do país. 

Pertence ao corpo docente de programas de pós-graduação da UFC, PUC e Universidade do Carbono. Faz parte do programa executivo do European Institute of Innovation for Sustainability e integrou a delegação brasileira em duas Conferências das Partes da ONU (COP16 Biodiversidade e COP30 Clima). 

Foi membro do Programa Cientista Chefe junto à Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Ceará (SEMA), onde coordenou a Lista Vermelha da Fauna Ameaçada do Ceará. Além disso, faz parte do corpo de especialistas que elabora a lista vermelha nacional de roedores e felinos silvestres junto ao ICMBio. 

Como comunicador, foi um dos pioneiros da divulgação científica ambiental na internet brasileira, duas vezes TEDx speaker, apresentador de TV (SBT Ceará), colunista de ciência da Band News FM e assinou textos científicos para veículos como HuffPost New York, Folha de S. Paulo, Piauí e Veja. Pela sua atuação, já recebeu homenagens do Governo do Estado do Ceará, da Assembleia Legislativa do Ceará e do Conselho Federal de Biologia, no Senado Federal.

Lattes: http://lattes.cnpq.br/9647959713613299

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O Altay e eu temos duas mensagens pra você.

A primeira é: muito, muito obrigado pela sua audiência. Sem ela, o Naruhodo sequer teria sentido de existir. Você nos ajuda demais não só quando ouve, mas também quando espalha episódios para familiares, amigos - e, por que não?, inimigos.

A segunda mensagem é: existe uma outra forma de apoiar o Naruhodo, a ciência e o pensamento científico - apoiando financeiramente o nosso projeto de podcast semanal independente, que só descansa no recesso do fim de ano.

Manter o Naruhodo tem custos e despesas: servidores, domínio, pesquisa, produção, edição, atendimento, tempo... Enfim, muitas coisas para cobrir - e, algumas delas, em dólar.

A gente sabe que nem todo mundo pode apoiar financeiramente. E tá tudo bem. Tente mandar um episódio para alguém que você conhece e acha que vai gostar.

A gente sabe que alguns podem, mas não mensalmente. E tá tudo bem também. Você pode apoiar quando puder e cancelar quando quiser. 

O apoio mínimo é de 15 reais e pode ser feito pela plataforma ORELO ou pela plataforma APOIA-SE. Para quem está fora do Brasil, temos até a plataforma PATREON.

É isso, gente. Estamos enfrentando um momento importante e você pode ajudar a combater o negacionismo e manter a chama da ciência acesa. Então, fica aqui o nosso convite: apóie o Naruhodo como puder.

bit.ly/naruhodo-no-orelo

Participantes neste episódio3
K

Ken Fujioka

HostPublicitário
A

Altay de Souza

Co-hostjornalista
H

Hugo Fernandes

ConvidadoBiólogo, Professor, Diretor de Inovação
Assuntos8
  • Desconexão da realidadeImportância do mundo real e conexão · Conhecer comunidades e demandas · Engajamento e ação para mudança · Inteligência ancestral e ambiental
  • Trajetória profissional e acadêmicaInfância e escolha pela Biologia · Formação em Fortaleza e Belo Horizonte · Experiência com rádio e jornalismo · Decisão pela Biologia e vestibular · Vivência na graduação e Iniciação Científica · Trabalho com serpentes e etnobiologia · Mestrado na UFPB e atividades cinegéticas · Doutorado sobre caça no Brasil
  • Interações ecológicas e biodiversidadeLista Vermelha da Fauna Ameaçada do Ceará · Atuação em consultoria ambiental · Economia da biodiversidade · Inovação tecnológica para biodiversidade · Participação em Conferências da ONU (COP) · Geração de valor e renda com a natureza
  • Relação Brasil-EUA e EleiçõesAtividades cinegéticas · Caça de subsistência e comercial · Tráfico de animais silvestres · Impacto da caça no Nordeste brasileiro · Espécies ameaçadas e extintas · Anta (Quandu baturitensis)
  • Comunicação CientíficaInício da divulgação científica · Experiência na TV e rádio · Uso de redes sociais e Instagram · Impacto da pandemia na comunicação · TEDx talks e valor da ciência
  • Desafios da Ciência no BrasilEstudo dos animais · Biodiversidade brasileira · Grandes centros de referência em Zoologia · UFPB como centro de referência
  • Experiências Pessoais de LexaQuase morte por malária mista · Diagnóstico incorreto e tratamento · Indução de coma para recuperação · Encontro com cachorro-vinagre · Desafios da carreira acadêmica
  • Animais e NaturezaCachorro-vinagre (Cerdocyon thous) · Cachorro de orelhas curtas (Cerdocyon microtis) · Furão da Amazônia (Mustela africana)
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Hugo Fernandes:E hoje eu não trabalho com serpente. Na verdade, eu não trabalho com serpente há muitos anos, assim, desde basicamente desde quando me formei. Embora eu tenha abordado e produzido coisas sobre o assunto, a minha vida acadêmica foi para outro lugar. E a faculdade foi isso, eu vivi a faculdade mesmo, curti muito a faculdade. Só que eu acho que ali na reta final me bateu realmente um senso de responsabilidade que eu ainda não tinha tido, entendeu? E quando eu tive ali nasceu uma coisa que nunca morreu. A zoologia, ela é uma área do conhecimento muito famosa, estudo dos animais, mas por incrível que pareça, embora a gente abrigue a maior biodiversidade do mundo, não há muitos grandes centros de referência no Brasil ainda hoje. Pois eu mesmo tive a honra de coletar o holótipo, ou seja, o espécime oficial de um mamífero de médio porte, que é o Quandu Baturitensis, olha o nome dele, né? Um porco-espinho. Eu sou ainda, sou esse biólogo, sabe, que se emociona vendo bichos difíceis e gosta muito daquilo e tal. Cara, que coisa incrível, sabe, a ser biólogo e tudo.

Voz B:Naruhodô entrevista Hugo Fernandes. Ilustríssima ouvinte, ilustríssimo ouvinte do Naruhodô, o Altair e eu temos duas mensagens pra você. A primeira é: muito, muito obrigado pela sua audiência. Sem ela, o Naruhodô sequer teria sentido de existir. Você nos ajuda demais, não só quando ouve, mas também quando espalha episódios pra familiares, amigos e, por que não, inimigos. A segunda mensagem é: existe uma outra forma de apoiar o Naruhodô, a ciência e o pensamento científico, que é apoiando financeiramente o nosso projeto de podcast semanal independente, que só descansa no recesso do fim do ano. Manter o Naruhodô tem custos e despesas: servidores, domínio, pesquisa, produção, edição, atendimento, tempo, enfim, muitas coisas para cobrir, e algumas delas em dólar. A gente sabe que nem todo mundo pode apoiar financeiramente, e tá tudo bem. Tente mandar um episódio pra alguém que você conhece e acha que vai gostar. A gente sabe que alguns podem, mas não mensalmente, e tá tudo bem também. Você pode apoiar quando puder e cancelar quando quiser. O apoio mínimo é de R$15 e pode ser feito pela plataforma Orelo ou pela plataforma Apoia.se. Para quem está fora do Brasil, temos até a plataforma Patreon. É isso, gente. Estamos enfrentando um momento importante e você pode ajudar a combater o negacionismo e manter a chama da ciência acesa. Então fica aqui o nosso convite: apoie o Naruhodô como puder. Ilustríssimo ouvinte, ilustríssimo ouvinte, seguimos com a série Naruhodô Entrevista, que está trazendo conversas descontraídas com cientistas brasileiras e brasileiros que contam sobre suas trajetórias, seus pensamentos seus campos de atuação. Neste episódio, vamos falar com Hugo Fernandes. Hugo Fernandes é biólogo, professor da Universidade Estadual do Ceará, possui pós-doutorado em ecologia e é mestre e doutor em zoologia. Desde 2022, é sócio e diretor de inovação da CETEG Soluções Ambientais, empresa de consultoria com atuação em mais de 20 estados do país. Pertence ao corpo docente de programas de pós-graduação da UFC, PUC e Universidade do Carbono. Faz parte do Programa Executivo do European Institute of Innovation for Sustainability (EIIS) e integrou a delegação brasileira em duas Conferências das Partes da ONU: COP16 Biodiversidade e COP30 Clima. Foi membro do Programa Cientista-Chefe junto à Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Ceará, onde coordenou a Lista Vermelha da Fauna Ameaçada do Ceará. Além disso, faz parte do corpo de especialistas que elabora a Lista Vermelha Nacional de Roedores e Felinos Silvestres junto ao ICMBio. Como comunicador, foi um dos pioneiros da divulgação científica ambiental na internet brasileira. Duas vezes TEDx Speaker, apresentador de TV pela SBT-Ceará, colunista de ciência da BandNews FM, assinou textos científicos para veículos como HuffPost (Nova York), Folha de São Paulo, Piauí e Veja. Pela sua atuação, já recebeu homenagens do Governo Estadual do Ceará, da Assembleia Legislativa do Ceará e do Conselho Federal de Biologia no Senado Federal. Vamos então para a conversa com o Hugo. Hugo, muito obrigado por ter topado falar com a gente aqui no Naru Rodô. Mande aí o seu primeiro salve para as nossas ouvintes e para os nossos ouvintes, Hugo?

Hugo Fernandes:Mais que um salve, um forte abraço aqui, né, às ouvintes e aos ouvintes que estão aqui nos assistindo. Quero dizer que sou um deles, inclusive, então uma grande honra estar aqui. Acima de tudo, uma grande honra estar aqui.

Voz B:Sensacional, Hugo. Hugo, eu quero começar com você como eu começo com todo mundo que a gente conversa aqui no Narodô, perguntando Quando você nasceu, onde você nasceu e em que contexto familiar você nasceu, Hugo?

Hugo Fernandes:Legal, nasci no dia 27 de abril, dia da anta, tá?

Voz B:Dia da anta!

Hugo Fernandes:Dia da anta, com muito orgulho, cara. 27 de abril de 1976, eu nasci em Belo Horizonte. Eu nasci na esquina da Afonso Pena com a Rua Guajajaras, no início da feira mais conhecida como a Feira Hippie de Belo Horizonte. Ou seja, eu nasci no meio do caos.

Voz B:No meio da feira hippie, é isso?

Hugo Fernandes:No meio da feira hippie. Inclusive, meu tio tem uma barraca na feira hippie.

Voz B:Olha só, o que que ele vende nessa barraca, Hugo?

Hugo Fernandes:Camisetas, tanga. Camiseta?

Voz B:É, exatamente. É mesmo?

Hugo Fernandes:Camisetas há muitos anos, exatamente. Então, para quem espera, né, aquele biólogo que nasceu em meio à natureza e que sempre teve muita vontade Aquele costume, né? Ele dá nada. Eu nasci na selva de concreto de Belo Horizonte.

Voz B:Tá certo. E como é que foi a sua infância, Hugo? Teve alguma coisa que aconteceu durante sua infância que você acha que remete à escolha que você acabou fazendo lá na frente?

Hugo Fernandes:Quem? Acho que assim, a minha infância ela foi absolutamente normal para uma criança ali da classe média urbana, né? Classe média baixa, inclusive logo depois eu fui para periferia de Belo Horizonte, a gente rodou inclusive interior do Brasil, meu pai é bancário, então imagina, a gente rodou bastante, minha mãe que nasceu no Maranhão, mas se criou aqui no Ceará, o foco sempre foi vir para o Ceará, então eu sempre fui uma criança que mudou muito, fez muitas mudanças, então eu tive uma infância normal, absolutamente normal no sentido de gostar de animais? Claro, eu fui uma criança que gostou de animais, fui uma criança que queria mexer nos bichos também, uma criança que foi impactada por documentários e séries, né, seja da TV aberta ou por fitas que meu pai trazia. E o que eu costumo dizer, que na verdade talvez eu tenha sido só uma criança absolutamente apaixonada por animais, assim como qualquer outra criança, que de alguma forma quase que acidental Chegou na biologia, então talvez só tenha seguido, né, as predileções de um garoto, normalmente, vamos dizer assim.

Voz B:Você fez até o ensino médio aí em Belo Horizonte mesmo?

Hugo Fernandes:Na verdade, não. Essa história é bem interessante. Eu fiz o ensino médio em Fortaleza, que é onde eu estou nesse momento.

Voz B:Ah, você já fez em Fortaleza. Como é que foi essa sua mudança para Fortaleza? Quando e como ela aconteceu?

Hugo Fernandes:Como eu falei, meu pai bancário, só que minha mãe, embora tenha nascido no Maranhão, inclusive nasceu no delta do Parnaíba, na face maranhense do delta, e eles, meus pais, sempre tiveram a vontade de vir morar no Ceará. Então eles sempre perseguiram isso. Meu pai, enquanto bancário, vivia pedindo transferências cada vez mais ao norte, né, até chegar aqui. No Ceará.

Voz B:Você sabe me dizer por que especificamente o Ceará assim? Que que tem uma paixão aí pela—

Hugo Fernandes:sei, primeiro, todo mineiro tem um sonho de morar na praia, justo. E meu pai era super apaixonado pela, não só pela minha mãe, mas também pelas praias do Ceará. Tinha tudo numa questão de custo de vida também. Custo de vida aqui era mais baixo, então era uma meta dos meus pais. Então a gente chegou aqui, eu tinha uns 12 anos de idade, né? Tô aqui desde 98, então na verdade eu cheguei aqui a 6ª série. Então eu fiz parte do ensino básico e ensino médio aqui, né? E eu acabei que me formei aqui também. Eu sou, minha alma mater é a Federal do Ceará. Certo. E aí só depois começo mais uma vez a rodar o Brasil, dessa vez por conta própria, graças ao meu trabalho, sobretudo, né, tanto na pós-graduação academicamente, mas também nas consultorias.

Voz B:Certo. Vamos voltar aqui para sua época pré-vestibular, Hugo. Em que momento você já sabia onde ia fazer o X no vestibular?

Hugo Fernandes:Contar uma historinha para vocês que eu acho que eu nunca contei. Eu com 15 anos de idade entrei no meu primeiro emprego, foi uma rádio, trabalhava fazendo vinheta, spot externas, em uma rádio rock inclusive, uma rádio jovem aqui chamada Cidade. Logo depois fui para Jovem Pan, inclusive morei em São Paulo.

Voz B:É mesmo?

Hugo Fernandes:É, cara, trabalhando na Jovem Pan aqui em São Paulo, trabalhando na Jovem Pan, fazendo o que hoje a gente chama de menor aprendiz, né, alguma coisa, era bem adolescente na verdade. E aí, mas por pouquíssimo tempo, na verdade, comecei esse trabalho por aqui. E aí eu tava super decidido a fazer jornalismo, né, acho que é a minha A minha carreira, entre aspas, juvenil, me empurrava para esse lugar, né, de fazer jornalismo. Eu tava super decidido. Mas aí eu tive uma decepção profissional. Será que nós podemos dizer assim? Acho que se fosse no mundo adulto, viu, Ken, teria sido mais um dia de trabalho ruim. Mas não, para o adolescente é o fim do mundo, né? Ela sabe assim, você tem o seu trabalho questionado. Para o adolescente é o fim do mundo. Era: quero mais saber disso, sabe? Nunca mais vou entrar no estúdio de rádio na minha vida. E aí começou aquela coisa, não, vou fazer o que eu gosto de estudar e tal. E aí eu tinha sido, eu fazia Olimpíadas de Biologia desde a 8ª série, cheguei inclusive a vencer.

Voz B:Você curtia Biologia então?

Hugo Fernandes:Curtia, mas nunca tinha olhado para ela como um meio profissional, entendeu? Curtia fazer, eu era da Turma Olímpica, né, aquelas coisas. Certo. Que não sei, enfim, que para aqui para o Ceará é algo muito forte assim. O Ceará ele tem uma fama de ser um estado muito concurseiro, verdade. Então aqui existe essa cultura. E aí eu lembro que no meio da minha decepção profissional, assim, eu lembro até o mês, cara, foi agosto, eu botei o X no 07, que era Ciências Biológicas na Federal do Ceará. Isso a gente fazia no colégio, tá? A gente entregava esse formulário no colégio. Quando o coordenador entregou o formulário, eu falei assim, Adhemar, inclusive Adhemar Celedonio, um grande educador hoje, nacionalmente reconhecido, um grande abraço. Eu falei Gademar, você entregou lá o formulário? Entreguei. Então, cara, é lá, tá dizendo que eu vou fazer Biologia, não Jornalismo. Só que tinha um problema, que o vestibular naquela época era, eram questões objetivas e tinham as específicas, que eram duas matérias, né, eram três na verdade. Redação, que era para todo mundo, e aí dependendo do seu curso você tinha que fazer duas específicas. No meu caso, Jornalismo, Português e História. Então eu passei de fevereiro até agosto estudando as específicas de história que a coordenação reservava para gente, horas específicas para isso. E eu cheguei para ele e falei o seguinte: cara, agora tu tem que me trocar de turma para Biologia e Química. E assim foi um caos, um caos. Ele me deu uma mega bronca.

Voz B:É mesmo?

Hugo Fernandes:Como é que você faz isso? De novo, gente, colégios aqui no Ceará são, eles pegam muito essa coisa da prova, do concurso, do vestibular e tal, não sei o quê. Como é que você toma esses anos, mas me deu uma bronca justa. Porque você, por que que você escolheu biologia? Porque eu gosto. Foi, tem uma coisa assim super, não, porque eu recebi assim uma coisa que eu sempre quis fazer. Eu costumo dizer, se eu não tenho uma história linda antes de ser biologando, eu não tenho uma história tipo, ah, nossa, eu sempre, não, eu gostava de estudar e fiz, sabe, assim, fui à faculdade, voltou para esse, para esse universo.

Voz B:E assim, a Federal do Ceará era o seu principal vestibular, né? Você chegou a prestar outros assim?

Hugo Fernandes:Não, prestei o da Estadual também, que é onde hoje eu sou professor. Olha só, né?

Voz B:Ah, tá.

Hugo Fernandes:Você tá falando de uma época pré-ENEM, já existia, mas ele era parte da primeira fase, ele não era do jeito que nós conhecemos hoje, que é o local por onde você entra, né, no vestibular das públicas, sobretudo federais. Não, então eu passei nas duas, um de um dos professores, o professor da Estadual, mas eu optei pela Federal e lá fiquei.

Voz B:Agora, eu vejo aqui no seu currículo, Hugo, que já na graduação você tem um trabalho. Que que foi isso? Foi iniciação científica? Como é que foi a sua vivência na graduação?

Hugo Fernandes:Eu era conhecido como Hugo do CER. Então eu era o cara que organizava o campeonato de futebol, porque a gente não tinha atlética, E eu era o cara que organizava as coloradas, e eu fui Hugo do Ceará por 4 anos, então não fui o Hugo do, sabe, aquele cara que desde a graduação é conhecido como Hugo do Bicho tal, que é muito comum, né? Ah não, esse é o cara do Casaranhas, esse cara ali é o cara que trabalha com a planta X. Não, eu era o Hugo do Ceará, cara. Então assim, eu fui realmente entender o que era ciência tá, não conhecimento, mas ciência mesmo, método científico, produzir artigo. Tava no final, no final, no último ano, eu bati a porta do Núcleo Regional de Ofiologia do Ceará, né, que trabalhava com serpentes e outros tipos de répteis e também anfíbios, coordenado pela professora Diva Borges Nojosa, minha orientadora, minha mãe científica. E a Diva, ela me conhecia, já tinha sido aluno dela e tal, E ela falou: beleza, você pode entrar aqui, você tem essa coisa da comunicação, vamos fazer a parte de educação ambiental. Só que aí, ó, entrei, fazia educação ambiental, porque lá é um serpentário, então parte de extensão. Só que aí, cara, muito cedo fui correr chave dicotômica. Quem é taxonomista sabe que é basicamente um método para a gente identificar espécies. E aí eu gostei daquilo, cara, gostei muito daquilo, dessa coisa de produzir conhecimento. E realmente eu publiquei uma notinha, né, que a gente chama uma nota de registro, né, de uma espécie, até lembro, Helicopsa gulatus, né, se não me engano 2008. E ali eu acho que eu gostei disso, viu. E aí eu acho que eu coloquei, aí foi logo ali realmente no final da graduação em que eu decidi ser cientista. E aí, cara, quinta marcha, foi exatamente isso, né. Dali para mestrado foi um mês, doutorado 6 dias, e E assim foi.

Voz B:E algum motivo especial pelo tema do trabalho ser em torno de cobras?

Hugo Fernandes:Sabe que não, sabe que não. Assim, é isso, cara. Eu era um cara meio perdido na faculdade. Eu gosto muito de contar essa história porque eu sei que tem vários que nem eu, sabe? Assim, não era um cara que tinha muito foco, não era um cara que tinha assim uma história a perseguir. Eu era um cara, inclusive, que acordou relativamente tarde para aquilo. Eu entrei nesse laboratório e eu gostei muito. Tanto é, olha que interessante, ele de fato foi a porta de entrada para mim. Hoje eu não trabalho com serpente, na verdade eu não trabalho com serpente há muitos anos, assim, desde, basicamente, desde quando me formei, né? Embora eu tenha abordado e produzido coisas sobre o assunto, a minha vida acadêmica foi para outro lugar, assim, foi entrando lá e fazendo aquelas conversas com as pessoas que lá chegavam para o serpentário, eu escutava dessas pessoas falando um monte de relatos assim de crenças sobre serpentes que não necessariamente batiam com conhecimento científico. E o papel do biólogo nessas horas muitas vezes é só corrigir, sabe? E eu fiz uma outra pergunta, eu falei assim: cara, que interessante, por que que eles acham que cobra mama, sabe? Isso é interessante assim. Por que que eles acham que cobra cospe fogo? E eu fui atrás desses porquês, né? E fui trabalhando com esses porquês que eu comecei a trabalhar com essa relação entre pessoas e meio ambiente, que se chama etnobiologia. Isso me levou para caça. Então foi de alguns trabalhos sobre caça, né, que fizeram a minha linha acadêmica. E foi pelo fato de mamíferos serem o grupo mais caçado que eu comecei a estudar mamíferos. E hoje mamíferos é meu grupo mas de maior foco. Não trabalho só com eles, mas é meu grupo de maior foco, tanto que eu sou membro desde 2010 da Sociedade Brasileira de Mastozoologia, que é o estudo de mamíferos.

Voz B:Agora, você durante a graduação, Hugo, você falou que entrou ainda meio perdido, foi se encontrando. Quando chegou no final do curso, Hugo, você já sabia que ia e a perseguir ou seguir numa carreira acadêmica, fazer pós-graduação. Assim, você se encontrou então até o final da graduação?

Hugo Fernandes:Exatamente, sim. Ali no final do curso eu me encontrei. E realmente, eu acho que foi há muito tempo não levava tão a sério alguma coisa, sabe? Como eu trabalho desde muito novo, sabe, tenho esse, de fato, essa veia com comunicação, Sobretudo naquela época, tinha uma vida que já me oferecia coisas interessantes sob o ponto de vista social, sabe? E a faculdade foi isso, eu vivi a faculdade mesmo, curti muito a faculdade. Só que eu acho que ali na reta final me bateu realmente um senso de responsabilidade que eu ainda não tinha tido, entendeu? E quando eu tive, cara, ali nasceu uma coisa que nunca morreu, sabe?

Voz B:Mas foi em tempo então, né, Hugo? Porque você curtiu o CEA, curtiu, curtiu, você organizou os campeonatos lá de futebol, né, não deixou de fazer um trabalho de conclusão de curso bacana. Quer dizer, então essa encontrada foi importante para você saber como é que seriam os próximos anos da sua vida. Vida assim?

Hugo Fernandes:Total, cara, total. Eu acho que isso também fica aquele sentimento de ter feito coisas que eu curti fazer. E mas eu ouso dizer que, claro, poderia ter dado errado, óbvio, né? Como tudo na vida. A vida é um conjunto de variáveis pouco rastreáveis. Mas nesse caso é isso, realmente coloquei a vida acadêmica como um foco. E logo depois, eu lembro bem, eu fui, eu tinha já feito a minha monografia, que era, olha só, sobre crenças relacionadas a serpentes e tal, coisa que eu nunca mais mexi. Nem com crença, nem com— enfim. E aí eu tinha ido para um congresso de etnobiologia e conheci o que viria a ser meu orientador, Romulo Alves. E aí eu voltei para o laboratório e o professor Daniel Cassiano, que já era membro do laboratório, ele falou assim: "Ah, e agora, o que você vai fazer?" Eu falei: "Ah, cara, vou dar uma parada agora e tal, vai ter seleção de mestrado no meio do ano." Isso foi em dezembro. "Vai ter seleção de mestrado no meio do ano, vou me formar agora, e é bom que eu dou uma parada e tal, de repente viaje." Ele não, cara, você tem que fazer a prova agora assim. Mas foi ele, velho, mas a prova é daqui a um mês, a prova desse ano é daqui a um mês. Não dá para estudar, cara. E aí foi interessante assim, esse cara me deu um chacoalhão. Hoje é meu colega, tá, ele é professor da U.S. Esse cara me deu um chacoalhão que foi muito importante, porque eu em um mês de fato estudei para uma das provas de zoologia, época mais difícil do Brasil, que é a prova do FPB, que né, tem aí 40 anos de história, mais 40, e passei, cara. E foi ali que aí de fato a minha vida acadêmica realmente se estrutura, né, porque eu pego ali o fim de graduação, é que eu passo do perdido para o cara que acordou ali nos 45 do segundo tempo, consigo até publicar um artigo, encaminhar outro, mas realmente assim O Hugo se estrutura cientificamente, vai entender o que é não só a ciência, mas a academia, né? As paredes da academia quando ele ingressa no mestrado. Mas aí eu já tinha outra pegada, eu já tinha realmente um foco muito grande, realmente.

Voz B:Mas aí para o mestrado, porque o mestrado aí você foi para o FPB.

Hugo Fernandes:Isso.

Voz B:Para a Universidade Federal da Paraíba. Explica para os ouvintes, Hugo, Essa tradição que o FPB tem na área de seu interesse, assim.

Hugo Fernandes:Claro, sim, a zoologia ela é uma área do conhecimento muito famosa, estudo dos animais, mas por incrível que pareça, embora a gente abriga a maior biodiversidade do mundo, não há grandes centros de referência de zoologia no Brasil ainda hoje, tá? Calma, não há muitos grandes centros de referência no Brasil ainda hoje. Grandes tempos, inclusive internacionalmente. Mas sobretudo ali, foi quando eu fiz o mestrado em 2010, esses centros eram até bem espalhados sob o ponto de vista geográfico, porque a gente tem Gildi no Pará, a gente tem o INPA na Amazônia, a gente tem obviamente o Museu de Zoologia da USP, Butantã, tem uma FUNED, tem em Minas, tem obviamente o Museu Nacional no Rio de Janeiro, o FPR e a FURG. Isso sim, dos históricos. Para o Nordeste, nós temos dois que são muito antigos. O mais antigo é a UFPE, depois a UFPE e a UFBA. Aí depois veio o ESC, depois veio o Feira de Santana, veio uma galera, tá? Sobretudo ali depois do Reúne, né? Depois de todas as— o aumento não só das universidades, mas também dos programas de pós-graduação. Obviamente, essa realidade Ficou bem, bem mais diversa, mas ainda muito concentrada no eixo Sudeste e Sul, né? Certo. Então a zoologia na UFPB, ela tem um histórico muito importante, ela custa mais de 40 anos. Ela inclusive começou trazendo grandes nomes. A gente tá falando de uma época onde as universidades não necessariamente tinham concursos públicos, mas no caso da UFPB esses convites foram muito bem feitos. Então Meu próprio coorientador, que é o decano da mastozoologia nacional, o Alfredo Langut, né, foi um dos convidados, uruguaio. Então é de fato assim um grande centro de referência. Tanto é que a maioria dos meus professores que ensinaram zoologia no Ceará, eles passaram pela FPB, tá, de mestrado, doutorado. Então é um grande celeiro de pesquisadores do, não só do Nordeste como do Brasil, e alguns inclusive espalhados mundo afora. O curador do Field Museum em Chicago é cria da UFPB. Uau!

Voz B:Pois é, não sabia disso, desse alcance internacional aí da formação.

Hugo Fernandes:Sim, sim, exatamente. Um abraço para ele, Anderson Feijó, também um grande pesquisador.

Voz B:Muito legal. Você termina a graduação em 2008, em 2009 você já emenda então no mestrado.

Hugo Fernandes:Isso, um mês depois, vou informar. Exato.

Voz B:Aí você foi orientado pelo professor Rômulo, como você antecipou, já foi bolsista agora aqui pela primeira vez pela Capes, né? E o título do trabalho aqui é Atividades Cinegenéticas em um Brejo de Altitude no Nordeste do Brasil: Etnozologia e Conservação. Me explica o que que são atividades cinegenéticas e o que que é o brejo de altitude? Cinegética seria atividade cinegética. Perdão, eu é que li errado.

Hugo Fernandes:Cinegética é tudo que relacionado à caça, sobretudo a caça para fins alimentares.

Voz B:Ah, então no mestrado você já tava entrando nesse mundo da caça aí?

Hugo Fernandes:Já foi onde eu entrei, na verdade. Mestrado foi que eu de fato abri para esse universo e eu estudei as atividades de caça num remanescente de Mata Atlântica de altitude, por isso chama brejo de altitude, no meio da Caatinga. Chama brejo porque ele é um oásis úmido inserido nesse bioma que é um bioma seco, né, da Caatinga, né, um bioma semiárido, né.

Voz B:Certo.

Hugo Fernandes:Então aqui no Nordeste brasileiro nós temos vários brejos de altitude de altíssima importância. Eu sempre gosto de dizer que o mais importante é o da Serra de Baturité. Por quê? Porque eu fiz o estudo lá também. Chama de mundo mágico, Ken. Chama de mundo mágico. Existem muitas espécies inclusive que são endêmicas da serra, ou seja, no mundo inteiro só existem lá, tá? Então a gente tá falando de espécies vegetais e até animais que só existem lá. E também é um celeiro de descoberta de novas espécies. Eu mesmo tive a honra de coletar o holótipo, ou seja, o espécime oficial de um mamífero de médio porte, que é o Quandu baturitensis. Olha o nome dele, né? Um porco-espinho, né?

Voz B:Esse é um animal que não— uma espécie que não estava cadastrada, catalogada, não estava.

Hugo Fernandes:E aí o Anderson Feijóis, meu amigo, que hoje é curador do O meu artigozinho, ele descreve a espécie. E anos depois, meu então aluno de graduação, hoje doutor, Eberson Menezes, melhora essa descrição, inclusive acha uma outra espécie no Brasil. Então essa, essa, essa, isso tudo começou com esse trabalho, né, de mestrado, estudando a caça desse mundo mágico que eu chamo mundo mágico da Serra de Baturité.

Voz B:Quando você fala de estudar caça A gente tá falando exatamente de que? De animais que são predadores? O que exatamente é? O que que limita, né, esse termo?

Hugo Fernandes:É estudar a atividade humana sobre a fauna.

Voz B:Ah, é humana mesmo? Quando você fala caça, é a caça humana?

Hugo Fernandes:Isso, que nasceu com aqueles relatos Lá do laboratório, quando eu ia atender as pessoas, as pessoas diziam um monte de, né, de informações sobre serpentes que eu achava interessante. E esse meu 'por que que você acha que é isso?', né, isso foi fazendo com que eu tivesse ali mais proximidade com esse meio rural, tá? E para isso tive que morar lá. Então morei na serra, então fiquei lá um tempo de fato entendendo essas atividades, entendendo o que se caça, como se caça, Por que se caça e qual é o tamanho do impacto dessa atividade, né? E aí a gente estuda modelos de sustentabilidade de caça para saber se de fato é impactante para aquela espécie ou não, né? Entendemos questões legais relacionadas a esse contexto, né? O meu orientador, Romulo Alves, ele é uma das maiores autoridades do mundo em etnozoologia. Mas eu fui um dos primeiros alunos dele a trabalhar com essa temática realmente de caça voltada para mamíferos, aves, répteis também, né, um pouco de anfíbios. Então foi ali que a gente foi modelando ali no mestrado, né, o que viria a ser minha principal linha de pesquisa.

Voz B:Essa já mudou. Ah é? Falaremos sobre isso. Esse modelo de caça que você encontrou no mestrado que você encontrou, Hugo, lá na Paraíba, ele era um modelo de sobrevivência assim, uma caça mais para subsistência, ou você encontrou também modelos mais, digamos, comerciais?

Hugo Fernandes:Tem tudo, né? A caça ela é uma atividade que ela está presente em basicamente qualquer área silvestre onde há população humana próxima ou lá inserida, certo? Então você tem de tudo. No contexto do Nordeste brasileiro, a caça de subsistência ainda existe, sim, mas sobretudo graças às políticas de distribuição de renda que nós tivemos, desde o Fome Zero, passando pelo Bolsa Família, né, entre outros. Essa realidade mudou drasticamente, mas ela ainda é uma atividade fortemente arraigada na cultura, né, nesse dia a dia não somente sertanejo, mas também costeiro, também serrano, né, que nós temos não só no Nordeste, mas basicamente qualquer lugar do Brasil. Só que obviamente com situações, com cenários muito diferentes, que depois eu vim estudar isso no doutorado, né, na escala tradicional. Mas o que eu encontro na época do mestrado é uma caça que já não tem mais uma Já não é mais uma atividade obrigatória para subsistência, embora seja complementar em algum ponto. Sim, encontrei a caça comercial, inclusive, né, não tão forte quanto seria 30, 40 anos atrás, mas ainda forte, sobretudo com o advento das redes sociais, onde você diminui a quantidade de intermediários e consegue, né, ficar um pouco mais de baixo, né, dos, da, um pouco menos amostra das forças policiais, né. E também achei essa caça que não necessariamente tá ligada alimentação, mas tá mais sim ao tráfico de animais silvestres, né, sobretudo aves. E aí o Nordeste ainda é, né, como é muitos, muitas décadas, ainda é o principal, principal polo, né, de tráfico É Norte e Nordeste, no caso, né, principal polo de tráfico de animais silvestres, sobretudo aves. Então esse sim é um cenário que eu consegui também destrinchar. Inclusive é o meu artigo mais citado até hoje, é sobre aves. É para você ver, né? Eu não sou ornitólogo, mas meu artigo mais citado é com ave. Interessante.

Voz B:Hugo, e do mestrado para o doutorado também foi uma emenda assim? Você terminou um e já começou o outro, é isso?

Hugo Fernandes:6 dias. Engraçado também, mesma coisa, cara, sem parar. Para não, ainda não tenta, certo? Sabe, queria viajar, queria sair e tal, mesma coisa assim. Aí o meu orientador falou: não, cara, tenta essa seleção, vai dar certo. Eu falei: tá bom, tentei, deu certo. 6 dias depois defendi, 6 dias depois tava fazendo disciplina. E aí fiquei lá na FPB, e aí já foi outro desafio, né? A gente tá falando realmente de uma Realmente, eu acho que assim, sem dúvida, é o produto, o produto mais importante, né, que eu já fiz, talvez. Olha que tem a lista de fauna ameaçada do estado do Ceará aí na frente, ou então ocupando o segundo lugar. Mas eu acho que a minha tese de doutorado é— eu tenho um conceito sobre tese de doutorado que é o seguinte: uma tese de doutorado, quando você entrega uma dissertação de mestrado ou um artigo ou um TCC, Você tá entregando parte daquilo que você estuda de fato, parte daquilo que você se dedica. Você tá assinando ali, colocando seu nome, você tá entregando parte de você. O meu conceito sobre tese de doutorado é que você tá entregando você. Eu quero entender o que é você academicamente, né, e entender não somente daqui para trás tudo que você fez, mas eu quero entender o seu potencial daqui para frente enquanto acadêmico. É a sua tese de doutorado que vai ser de fato melhor. O melhor indicativo para isso, sabe? Então a minha parte do doutorado, ela foi extenuante de fato, é, eu rodei o Brasil inteiro. Ela chama Caça no Brasil. Sim, então foram 29 localidades de todas as regiões, todos os biomas. 29? 29, e de todos os biomas. Então assim, eu rodei Amazônia, Caatinga, Pantanal, Pampas, Mata Atlântica, Cerrado, atrás de caçadores. Desculpa, para conhecer o Brasil inteiro, né? É, eu também, eu tenho essa safadeza, sabe? Nossa, eu fazia isso demais, assim, eu inventava uns trabalhos para poder conhecer. Mas isso foi muito, cara, mais do que esse privilégio, assim, cara, sei lá, eu tenho uma, eu tenho um sentimento de gratidão tão profundo, sabe, com, porque eu conheci o Brasil profundo mesmo, sabe, que Sim, imagino. É uma coisa que é impagável, sabe? Eu vejo muita gente querendo, até beleza, juntando uma grana para ir, vai para Paris, vai para Itália, vai para um monte de lugar, e muitas vezes não conhece o estado vizinho, sabe? Tá tudo bem, você ir para Europa e para os Estados Unidos, tá tudo certo.

Voz B:Sim, claro, mas de fato, é de fato, a gente ignora muito do próprio país, né?

Hugo Fernandes:É, e eu vou falar um negócio para você, eu acho que E quando vai, vai para isso, vai para capitais ou lugares muito turísticos. Não, cara, o Brasil profundo é lindo, Brasil profundo é muito rico. Então acho que assim, a Alteza na época, não só, também as consultorias, elas acabaram me levando para lugares muito interessantes, ainda hoje, né? Mas foi isso. E aí eu fiz um tratado, né, vamos dizer assim, chamam, né, foram dois volumes, um panorama atual, panorama histórico. Então fiz, rodei aí de 1500 até 2014, informações históricas, né, que eu podia coletar em bibliotecas não só do Brasil, mas mundo afora também. Então peguei muita coisa de Portugal, mesmo de bibliotecas Estados Unidos, enfim, para poder fazer esse trabalho. E, mas assim, não tem como não fazer aqui um forte agradecimento ao Museu de Zoologia da USP, que foi onde eu me internei para fazer com a Dionysse Lépierre, que é a bibliotecária do Mususpi, O Anjo dos Olhos. Foi onde conheci o Pirula, viu, Ken? Foi ali onde a gente— é mesmo? Exatamente, foi ali onde a gente nasceu essa amizade e tal. E então tem muitos amigos lá ainda. E aí eu fiz essa parte do Panorama Atual, né, que foi viajar para entrevistar esses caçadores e entender Também essa dinâmica, né? E foi lá onde também, através da tese, mostrei que a região Nordeste é a região historicamente mais impactada pela caça no Brasil, né? Essa é a conclusão estatística mais importante da tese, tá?

Voz B:Então, quais são os impactos que o Nordeste sofre a partir dessa, desse movimento de caça?

Hugo Fernandes:É o mais impactado porque é nele que nós temos a maior diversidade de espécies perdidas, inclusive A gente pode fazer uma reflexão que nem precisava da minha tese, que é assim: se você for analisar as espécies extintas do Brasil, as extintas globalmente, né, aquelas que existiam no Brasil, somente no Brasil, e deixaram de existir, né, portanto, para o globo terrestre, você vai ter a maioria das espécies são do Nordeste brasileiro, inclusive aquelas que estão em tentativa de voltar, ararinha-azul, mutum-de-alagoas, né, Elas são da Caatinga, Mutum de Alagoas ali da região da Mata Atlântica Costeira, mas muito próximo à Caatinga. Mas nós temos o Caburé de Pernambuco, o Limpa-folhas do Nordeste, a gente tem uma série, tá, de espécies que estão concentradas aqui nessa região, tá. Mas a caça, ela tem, né, a esmagadora maioria ameaçadas pela retirada direta, caça, tráfico, e também, claro, pela perda de Mas tem outras coisas interessantes, por exemplo, existe um artigo ali dos anos 2000, começo dos anos 2000, que modela em quanto tempo a anta estará extinta da Amazônia, se a caça assim continuar e se as atividades humanas outras também continuarem. E esse artigo modela, é do Bodmer, Richard Bodmer, revela que então em 2000 ela teria mais 150 anos de existência na Amazônia. Mas a gente já perdeu a anta na maior parte do território da Caatinga 100 anos. A gente tem anta no limite do limite da Caatinga com o Cerrado, que só foi descoberto, as populações, relativamente recente, agora, pelo Instituto de Pesquisas Ecológicas da Dra. Patrícia Medes, né? Mas assim, na maior parte do território ela foi extinta há mais de 100 anos. Então essa é a realidade da Caatinga, entendeu? Sim. É muitas vezes uma riqueza que é subestimada hoje, ou seja, ela tem muito mais riqueza do que as pessoas acham que ela tem, mas sobretudo ela tinha uma riqueza muito maior, inclusive de fauna de grande porte. Só que a gente tem de olhar para Caatinga como esse ambiente naturalmente pobre, né? Sim, eu sou sudestino, então posso dizer, o sudestino, né, o não nordestino, quando ele pensa em Caatinga, ele imagina um solo rachado, um cacto e um crânio de boi.

Voz B:É verdade, é bem estereotipado mesmo.

Hugo Fernandes:É, eu costumo dizer, cactácea corresponde a 4% da flora da Caatinga. "Não é nada", entendeu assim? E a seca é uma realidade de um bioma semiárido de fato, mas que na outra metade do ano ela vai estar super úmida e ela é uma floresta de fato. A Caatinga é heterogênea, mas ela tem um componente florestal absurdamente grande. E aí eu acho que a minha tese, depois dos artigos que a gente publicou, ajudaram a quebrar um pouco desse estereótipo de mostrar também que a fauna daqui era muito mais rica do que a gente pensa, do que a gente imaginava, entende?

Voz B:É, porque quando eu pensei aqui numa, num trabalho com o olhar de um sudestino, né, pensei aqui como é que você faria para não enviesar esse olhar, né? E aí você falou sobre morar nos lugares, né, morar na região em que você tava pesquisando. Você tem alguma, algum desafio mais específico, alguma história pitoresca que aconteceu durante esse doutorado? 29 cidades é bastante lugar para dar coisa errada, né, Hugo?

Hugo Fernandes:Entrar em coma e quase morrer serve?

Voz B:Caramba, não tava pensando em alguma coisa tão séria assim.

Hugo Fernandes:O que que aconteceu? Pois é, cara, estava eu em Rondônia, eu estava ali na divisa com a Bolívia fazendo um trabalho de consultoria e também, né, meus trabalhos de doutorado. Quando eu, inclusive nessa cena, provavelmente na semana em que eu contraí esta doença que eu já revelo, eu tive um dos maiores encontros da minha vida, cara. Eu fotografei um cachorro-vinagre atravessando o rio. Olha que interessante. Era uma vez um biólogo no meio do Rio Madeira. São um casal de cachorro-vinagre, na verdade. Eu fotografo esse cachorro-vinagre e eu lembro de ficar assim hiper contemplado com aquilo. Sou ainda, sou esse biólogo, sabe, que se emociona vendo bichos difíceis e gosta muito daquilo e tal. E eu lembro de ter ficado super contemplado assim, voltando daquela viagem, dizendo assim: nossa, cara, Que coisa incrível, sabe, ser biólogo e tudo. Voltei assim com o coração cheio de felicidade. Ainda por cima, tô sendo pago para fazer isso, cara, que coisa legal, né? Então quero uma consultoria. E aí, cara, o que que aconteceu? Eu cheguei em Fortaleza, eu já morava sozinho, mas meu pai, ele foi ali me receber, né? Eu cheguei 6 horas da noite falando assim: rapaz, tô me sentindo meio mal. Meio para baixo e tal. Aí meu pai, meu pai muito preocupado, não, vamos para o hospital, tá chegando na Amazônia, vamos para o hospital. Falei, ah pai, que mané hospital, não precisa, cara. Meu pai encheu tanto minha paciência, velho, que falei, ah tá bom, fui lá para o hospital, cheguei e fiz os exames de sangue, enfim, né, tudo certo, fiz as coletas de sangue e tal. E o cara me mandou um soro e me mandou de volta para casa. Eu acordei no outro dia de manhã, mas eu não parecia um um trapo assim, já tava tremendo de febre. E eu já voltei para o hospital, e aí o médico falou: olha, vamos fazer uma nova coleta de sangue, enquanto isso você vai ficar no soro aqui. Veio o resultado do exame e eu tinha perdido, sei lá, dezenas de milhares de plaquetas. Caraca, já em pouquíssimo tempo. Cara, vamos te internar porque não é normal você perder essa quantidade de plaquetas em tão pouco tempo assim. Me internaram e começou, né? Fui fazer os testes. Como eu tava vindo da Amazônia, eu falei: ó, tô vindo da Amazônia, então assim, febre amarela, malária, já faz o teste aí para ver se não é e tal. Fizeram a coleta que chama gota espessa, né, que é específica para malária. E eu fiquei internado ali, só que isso demorava para vir isso. Enquanto isso, fizeram a de dengue. E a de dengue naquela época demorava também 4 dias para sair o resultado. Quando veio o resultado da malária, deu negativo. Da febre amarela deu negativo. E o da dengue, que ainda teve que esperar mais um dia, deu negativo. Mas eu já tava no quinto dia de sintoma, certo? E aí a coisa foi piorando, piorando, piorando muito. E febre todo dia e toda hora, era uma coisa meio maluca assim. E aí, até então, que eu vou Eu entro num caso de paciente com, né, sem diagnóstico, desço tudo quanto é exame que você imaginar na sua vida, velho, tudo que você imaginar na sua vida, até bola. Assim, o negócio assim absurdo, e tudo vindo do criativo. Até que eu entro em, vou para UTI, não melhoro, e então Depois do quinto médico, né, depois do quarto médico, na verdade, um quinto médico é contratado, Dr. Jorge Magalhães, que é conhecido como o House do Ceará, porque ele é aquele House do Ceará, aquele cara que faz maravilhas, rei do diagnóstico. É exatamente ele, cara. É muito louco, cara. Ele entrou na sala, eu lembro dele entrando na sala assim, e que eu ainda conseguia eu ainda conseguia, né, eu ainda tava consciente. E eu lembro dele entrando na sala e, cara, eu acho que viram uns 8 médicos atrás do hospital, parecia que era professor deles, é professor da Federal inclusive. E tava o hospital inteiro imobilizado, né, então. E ele falou: eu vou fazer o seu exame. Então me fez uma série de perguntas, e, mas ele falou: olha, eu vou começar a ligar o seu protocolo de coma, porque senão você não aguenta. E aí, de fato, ele inicia o protocolo de coma, mas então ele mesmo faz diagnóstico e ele dá, de fato, ele acha que é malária. Você fala: caramba, velho, mas o que que rolou? Porque é simples, cara. Primeiro, eu não tava com uma malária simples, eu tava com a malária mista. São 3 cepas no Brasil de Plasmodium, protozoário: vivax, malaria e falcíparo. Vivax é a mais comum de todas. A malária é bem comum, mas a Vivax é a mais comum de todas e ela não é mortal necessariamente. A falcíproa, ela é letal. O índice de letalidade da falcíproa é muito maior. Eu tava com Vivax e falcíproa ao mesmo tempo. Então começa com essa dificuldade. Segundo e principal dificuldade: eu não estava na Amazônia quando eu fiz o diagnóstico. Ceará não é área de endemia de malária. Então, se eu tivesse na Amazônia, em qualquer posto de saúde, de qualquer buraco em Rondônia, eu teria recebido o diagnóstico correto. Entendi. E terceiro, eu não fui para o hospital de referência em infectologia, o hospital público, que eu deveria ter ido para o hospital público referência de infectologia. Então fica a dica para vocês, tá vindo de uma região de endemia, teve sintoma, vá para o hospital público de referência infectologia. E eu não fui. Particular. Então tudo isso ajudou a ter um diagnóstico errado no começo, mas que também não foi reforçado. Por quê? Porque eu tinha malária, eu tinha febre todo dia, toda hora. Malária, você tem febre um dia sim, dia não, um dia sim, dois não. Por quê? Porque eu tinha duas malárias no meu corpo. Então foi uma série de coisas que me levou para isso, mas eu quase morri, cara. Então se eu não cheguei a entrar em coma completamente porque ele achou o diagnóstico, então eu simplesmente fui regredido do protocolo. Mas eu precisei entrar, eu precisei entrar no protocolo de coma para que eu sobrevivesse, estivesse aqui. Então essa é uma história que eu carrego aí do meu doutorado.

Voz B:Já que você foi colocado, né, seu coma foi induzido, é isso? É, explica para os nossos ouvintes por que é que se induz um coma.

Hugo Fernandes:Se induz um coma porque a gente garante ao corpo uma possibilidade fisiológica de que ele se concentre no seu restabelecimento. É mais assim, é como se você forçasse o seu corpo, aí eu vou dar aqui, é só uma metáfora, tá, pessoal, a hibernar um pouquinho. Hibernação é outro conceito biológico, tá, a hibernar um pouquinho para que o seu corpo não gaste energia que não seja absolutamente necessária para o restabelecimento das suas funções. Fisiológicas, né? É para evitar uma falência de órgãos. Você força o corpo a se concentrar nessa tarefa aí. Exatamente, exatamente. Você permite, obviamente junto com tratamento, né, economizar energia do seu corpo para fazer com que isso aconteça.

Voz B:No meu caso era para me dar tempo, né? Sim, exato.

Hugo Fernandes:Porque eu não tinha tratamento nenhum, eu estava absolutamente sem tratamento. E olha só, fui salvo pela hidroxicloroquina. Olha lá, eu posso falar que eu realmente fui salvo pela hidroxicloroquina, que é um remédio, como nós sabemos, né, de fato desenvolvido para a malária.

Voz B:É isso, exatamente. A hidroxicloroquina, ela funciona, né, Hugo? Ela só não pode ser usada para coisas para as quais ela não foi feita, né?

Hugo Fernandes:Eu sou prova viva, que bom, disso.

Voz B:Agora, você mencionou lá há pouco, Hugo, sobre você Cruzado, um cachorro vinagre, né? E ele é considerado um dos animais, um animal raro, né?

Hugo Fernandes:A gente chama de elusivo. Assim, ele é tão difícil de achar que até difícil dizer se ele tá ameaçado ou não, que a gente tem pouca informação sobre ele. Ele não é o mais elusivo, tá? Ele já foi. Até hoje a gente tem bem mais informações do que a gente tinha na época que eu registrei. É, mas nós temos no Brasil fantasmas. Eu posso dizer dois fantasmas, né? É o cachorro de orelhas curtas, que é o Telocinus microtis, e o maior de todos, só visto agora, se não me engano, na Colômbia. Tem um vídeo dele, um vídeo, só tem um vídeo. Fora esse vídeo, a gente tem um desenho dele do século passado, do século retrasado, que é o Mustela africana. É um furão da Amazônia.

Voz B:O Mustela! O que aparece no Fantástico lá, ou aparecia? Não, ali é um mustela puro. Ali é o furão comum, ali é o furão mais comum.

Hugo Fernandes:A gente tem um mustelídeo, um furão da Amazônia chamado Mustela africana. Aí você fala: por que que chama africana? Aí tem uma história muito interessante que quando ele foi descrito por um desenho, inclusive, olha só, ele é nada, foi por um desenho não, foi por um, foi por um, por uma espécie mitaxidermizada. Ele foi junto com remessas da África, então ele foi descrito errado, entre aspas, mas assim permaneceu porque o nome da primeira descrição é o que precisa ser mantido, né, a não ser que tenha mudanças taxonômicas e tal. Então, na verdade, esse bicho, cara, a gente tem aí um vídeo dele Só, e não é nem no Brasil. Então no Brasil não tem nem sequer uma foto. Que doideira!

Voz B:Para você ter uma ideia de como elusivo ele é. Ô Gomi, fala, quando é que você começou a sua carreira de professor? Quando é que você começou a dar aula?

Hugo Fernandes:Cara, é o seguinte, isso aí, isso é um ponto importante assim. As pessoas me conhecem mais como divulgador científico, né, que inclusive é uma história que começa junto com academia em paralelo. Mas como eu venho da comunicação, como eu venho da rádio, eu comecei de fato a vislumbrar isso. Não, cara, eu acho que eu consigo comunicar para repassar o conhecimento. Eu sou filho de professora, né, minha mãe é professora. Só que eu confesso que o que me chamou para carreira de professor foi o fato de que a carreira acadêmica do Brasil ela é quase, quase exclusivamente ligada à carreira do magistério, do ensino superior, né? Nós temos instituições de pesquisas que contratam pesquisadores, mas a gente sabe que é uma realidade mais difícil. Então eu comecei a focar para isso assim. Então eu presto concurso em 2015, eu estava no pós-doutorado na Rural de Pernambuco, Federal Rural, tava indo para Inglaterra trabalhar com a continuação da minha tese de doutorado. Quando eu presto concurso, eu então passo para professor em 2016, né? Eu sou chamado na verdade em 2016, né? E eu então assumo a cadeira de zoologia, né, lá da Estadual do Ceará, nas disciplinas de zoologia aqui da Universidade Estadual do Ceará. E foi isso, sim, na verdade foi essa minha carreira acadêmica que me leva para essa posição, né?

Voz B:E aí, Hugo, você terminou o doutorado, passa a dar aula, e que mais que você começa a aprontar na sua vida aí?

Hugo Fernandes:Pois é, assim, eu separo o Hugo profissional em 3 pilares assim, né, que acabam se encontrando, óbvio. O primeiro pilar acadêmico é esse, né, eu acabei de contar. Depois eu me torno professor da Estadual do Ceará, Oriento na Federal do Ceará ainda, então volto para minha alma mater como orientador, né, nessa área de conservação de vertebrados terrestres e tal. Só que tem um outro Hugo aí, né, que eu acho que poucas pessoas conhecem mais, que é esse Hugo que nasce em 2010, né, o divulgador científico que, ao ver uma reportagem, né, ali no início da manhã, março de 2010, se eu não me engano, 30 de março de 2010, ao ver uma reportagem sobre um incêndio numa coleção científica. Acordo de manhã e já muito emocionado, com uma xícara de café na mão, a emoção dá lugar a uma raiva absurda. Como assim deixa uma coleção científica pegar fogo? E aí eu vou escrever, eu sento no computador e começo a escrever absolutamente tomado pela raiva sobre valorização das coleções científicas. E esse texto vai para a internet. Foi o primeiro texto que eu escrevi na era dos blogs, né? Eu não tinha blog, mas ele acabou sendo republicado, de listas de e-mail ele foi para blogs. Então, acho que o meu primeiro texto foi um texto que a gente pode chamar de viral. E ali naquele parágrafo eu conto assim: estamos aqui assistindo o incêndio de uma coleção científica. E geralmente quando eu falo isso as pessoas lembram logo do Museu Nacional, mas isso foi em 2010, o do Museu Nacional é de 2018. Na verdade, eu tava falando sobre os incêndios do Instituto Butantan, coleção de répteis do Instituto Butantan. Só que eu escrevo um parágrafo ali falando: será que a gente vai esperar com que o mesmo aconteça com outras coleções? A exemplo do Museu Nacional. Então, 8 anos depois, tava eu de novo, já um divulgador científico melhor posicionado, vamos dizer assim, falando sobre esse assunto. Então, as pessoas me perguntam: o que te levou para divulgação científica? O ódio grande. E depois eu fiz outras coisas movido por outras emoções, né? 2014 eu dou um TEDx, meu primeiro TEDx falando sobre— engraçado— falando sobre divulgação científica. E até hoje eu não entendo porque me chamaram para esse TEDx, porque eu não era ninguém, absolutamente nada. Eu fazia nada, eu fazia, eu publicava umas fotos.

Voz B:Você achava que era nada?

Hugo Fernandes:Não, sem brincadeira, cara. Não que hoje eu acho que seja alguma coisa, mas Principalmente naquela época, é uma coisa assim, eu postava umas fotos no Facebook de bicho e falava sobre os bichos e postava umas análises críticas sobre a política científica brasileira, assim, sabe? Mas não era uma coisa, meu, né, essa época a gente tá falando de 2014, claro, tinha pouquíssimos divulgadores científicos de expressão no Brasil, mas já existiam alguns. A gente já tá falando no universo onde Átila, Pirula e Berê, sabe, já Yuri Essa galera já reinava, assim. Certo. E aí eu vou, falo num TEDx, cara, dizendo assim: ah não, divulgação científica no Brasil precisa mudar, tem que ser pela internet porque na televisão a gente já perdeu as nossas referências. Aí eu falei de Carl Sagan, falei do Castelo Rá-Tim-Bum, do Rá-Tim-Bum, do mundo de Pikmin, sabe? Sim. E aí, olha que louco, velho, eu saio do palco e o produtor do SBT aqui do Ceará fala assim: eu te dou um programa. Agora. Uau, que legal! Que doido! Eu, olha que maluco, cara, isso. Eu também nunca disse isso. Se você, se as pessoas observarem meu TEDx lá, elas vão ver que eu lanço um canal, que eu tinha uma ideia para esse canal, só que esse canal nunca foi para frente. Olha que loucura! Na verdade, o que foi para frente foi o meu programa de televisão, onde eu disse que não daria certo. Que louco isso! Fiquei 5 anos, na verdade, na televisão E o sistema jangadeiro que abriga o SBT aqui no Ceará, ele também abriga BandNews. Então eu fiquei 5 anos na TV e 6 anos na BandNews Rádio. Pra aquele lugar que aos 17 anos eu falei que nunca mais ia voltar, né? Exatamente. Que loucura, cara. Então, e é isso, acho que o Hugo Divulgador Científico, ele é um Hugo da mídia mais tradicional mesmo assim. Eu venho da TV e do rádio. É 2019 com as queimadas da Amazônia e sobretudo, infelizmente, 2020 com a pandemia, é que esse Hugo de rede social se projeta, né, com essa, com esse modo ali de falar que era interessante assim. Eu lembro que o Instagram ele já disponibilizava a possibilidade de fazer carrossel de cards. E eu, e cara, eu sendo muito honesto, eu não sei se eu fui o primeiro, sabe? Já me falaram: "Ah, você foi o primeiro a fazer." Eu falei: "Cara, não é o título que eu busco." Mas de fato ali os divulgadores científicos usavam o Instagram como uma rede social pessoal e quase todos eles estavam no YouTube, né? E aí eu não fui para o YouTube e eu comecei a usar o Instagram para fazer isso, para fazer, eu pegava Emoji, velho, fazia emoji, emoji, e construía narrativa com emoji nos stories. Aí eu printava aquilo e colocava no carrossel. Negócio absolutamente mambembe, tá? Até hoje, até lá. Você for para 2019 lá, fizer o scroll até, vai estar lá. E aí, como juntou essa coincidência das pessoas quererem muito saber o que tava acontecendo, seja sobre queimada, seja sobre pandemia, seja sobre qualquer coisa que estivesse ali no meio daquele caos, e que eu pudesse falar, obviamente. Eu acho que eu acabei sendo projetado. Mas para você ver, não é uma coisa que você quer continuar muito, viu? É muito legal ver as pessoas ainda falando assim: pô, cara, que legal, gosto muito do seu trabalho. Mas você for ver, eu tô muito pouco ativo hoje, sabe? Porque eu acho que, velho, a gente poderia ter falado horas sobre isso, sabe? Por que que eu não estou mais tão ativo? Sim, mas uma das explicações é que a pandemia, a pandemia assim como a todo mundo, mas ela me fez um mal muito grande assim, sabe, de começar a falar sobre um assunto que diga-se de passagem nem era o meu, né? Eu sou o cara da biodiversidade, né? E aí, à época, eu tinha ganhado um grant do Serrapilheira, né? Então eu tava indo para o segundo grant com eles, na verdade. E a ideia, antes da pandemia, era a gente fazer uma coisa, sabe, velho, sensacional, de entrevistar. Olha só, entrevistar pessoas de fora da ciência, trazer essas pessoas para o nosso mundo, tipo chamar um humorista e colocar esse humorista no laboratório, sabe? Era um negócio assim super legal para falar de biodiversidade, de levar uma atriz para o Pantanal. Era esse lugar assim. Só que aí, meu povo, me impôs que a gente fizesse outra coisa, né, mais simples. É mais simples. Só que eu montei equipe, voltei a estudar o que eu estudava na faculdade: parasito, fisiologia, né, infectologia e tal, para poder tentar fazer com que, sei lá, velho, que o que eu, né, menos pessoas fossem atingidas por isso, tal. Sim, mas vou te falar, viu, quem foi, foi muito brutal assim, sabe? Eu sofri 57 tentativas de hackeamento, não é? Caramba! Não, não é cancelamento, não é hater, isso aí, cara, sei lá, já sou meio vacinado para isso, não importa muito isso não.

Voz B:Tentativas de invasão mesmo, sim, cara.

Hugo Fernandes:E deu na Folha de São Paulo isso, tal. Foi muito brutal assim, sabe? Inclusive, eu só fui entender o impacto disso bem depois que a pandemia passou. Sim, isso foi, foi um processo terapêutico longo para eu entender o quanto aquele, aquele período me afetou assim. E hoje talvez eu tenha uma relação mais mais amena com as redes sociais. Eu vou te dizer, mais saudável, viu, Ken?

Voz B:Eu imagino. Eu entrevistei já muita gente que atuou durante a pandemia na linha de frente, de uma forma ou de outra, assim como você. E é incrível como todos eles saíram muito, muito impactados, né, dessa experiência assim, né? Uma experiência para vida mesmo, né? Uma experiência para vida. Ô Hugo, você fez um Pós-doc também, é isso?

Hugo Fernandes:Fiz, fiz um pós-doc.

Voz B:Tive a sorte de fazer um só.

Hugo Fernandes:Eu digo isso, fiz em ecologia na Federal Rural de Pernambuco.

Voz B:Por que que você fala que a sorte de ter feito um só?

Hugo Fernandes:Porque tive a sorte de ter concursado cedo, né? Entendi. Eu digo sorte mesmo, claro, óbvio, tem, né, o fato, o mérito de ter estudado Claro, obviamente, mas tem muita sorte nesse processo, né? A gente precisa ser muito honesto quando a gente fala.

Voz B:Você tá concorrendo com um monte de gente que provavelmente estudou também, né?

Hugo Fernandes:E às vezes mais que eu, e às vezes há mais tempo do que eu. Então tem a sorte de cair aquilo que você domina, né? Tem muitas variáveis aí. Então assim, o filtro da academia, o filtro, né, dessa, desse, vamos pegar o topo dessa pirâmide, vamos dizer, sabe, que a gente pode dizer, né? Parece o topo da pirâmide que eu Pessoa chega lá e tá feita na vida, né? Mas de fato, né, o filtro ele é muito pequeno assim. A gente tem hoje, só para você ter uma ideia, tá, quem a gente tem, 20 mil mestrandos e doutorandos só nas biológicas no Brasil. É mesmo? Só nas biológicas?

Voz B:Jamais chutaria esse número, é muito alto.

Hugo Fernandes:Isso é um levantamento da Capes de 2022, tá? Então ele é pós-pandemia já. Então a gente pode até dizer que esse número se aumentou, porque na pandemia ele diminuiu, né? Então ele não, ele é pós-pandemia, mas pega os dados na verdade de antes da pandemia, perdão. Então pega os dados ali até 2020. Então assim, ele é 20 mil só nas biológicas, cara. E a gente tem ao todo 300 e pouco, 320 se eu não me engano, instituições públicas de pesquisa no Brasil. Né, com a universidade. Então assim, é muito, meu irmão, a conta obviamente não fecha. Então se você achar que você que tá ali conseguiu sua posição no concurso é porque, nossa, você de fato é o melhor, não, cara. Existe um conjunto de variáveis ali que exige você obviamente muito estudo e muito artigo publicado e coisas nesse sentido. Mas cara, o contingente de reserva As pessoas que estão do lado de fora, elas são muitas vezes muito mais competentes do que eu fui, do que eu sou.

Voz B:Entendo. Agora, o que que o pós-doutorado, o que que você esperava desse pós-doutorado? O que que as pessoas devem esperar de um pós-doutorado?

Hugo Fernandes:Aqueles que estão na pós-graduação em dúvida se fazem ou não. Olha, vamos lá, vamos ser, vamos jogar o jogo honesto aqui, tá? Vamos jogar o jogo de forma bem direta. Tá, o que que historicamente é um pós-doutorado? É um estágio. Inclusive não é um título, tá, pós-doutor não existe, ok? É o estágio. E que historicamente um doutor, na maioria das vezes já posicionado, ele, esse cara já era professor, ele pedia um afastamento para poder tirar um sabático e concentrar no aprofundamento de suas pesquisas. Ganhava ele, obviamente, ganhava a universidade que o recebia e também ganhava a universidade de sua lotação, né? Porque você tinha ali geralmente parcerias nacionais e internacionais de desenvolvimento. Isso é o que historicamente um pós-doutorado significava. Com o aumento do contingente de pós-graduandos que não acompanhou o aumento, que de fato houve aumento, mas que não acompanhou o aumento da, das instituições de pesquisas que pudessem absorver esta demanda de mercado, tá? O que você tem é um pós-doutorado como um lugar que basicamente tenta acolher, absorver de modo temporário essa demanda. Entendi. O pós-graduando, que a gente pode nem mais dizer que é pós-graduando, que é um profissional mesmo, Certo, esse profissional ele vai ganhar uma grana geralmente melhor do que uma bolsa de doutorado, geralmente até bem melhor, tá? Mas ele não recolhe direito trabalhista, ele não tem 13º, férias, recolher INSS, coisas nesse sentido, tá? O GTS, é, quem o recebe tem um profissional de excelência que consegue dar vazão a demandas, sobretudo de artigos, né, em outros tipos de produção. Mas fica essa relação basicamente entre quem acolhe e quem tá ali. Isso é bom, não tô falando que isso é ruim. Claro que é bom, você tem pessoas que estão ali trabalhando dignamente, recebendo por isso. Sob o ponto de vista da análise social, isso é um problema, porque se você tem muitas, milhares de pessoas saindo de pós-doc em pós-doc, significa dizer que essas milhares de pessoas estão envelhecendo sem recolher direitos trabalhistas que são básicos, né, fazendo com que a demanda seja muito maior do que a oferta para aquilo que geralmente se almeja, que é a posição do magistério superior. Dificilmente você vai ver uma pessoa saindo de pós-doutorado, pós-doutorado, dizendo o seguinte: não, eu não quero fazer concurso. Pode até existir, mas é raro. O que a gente tá falando realmente de uma cu absolutamente outlier. As pessoas querem fazer concurso, mas eles precisam existir, né? E elas precisam passar. E não necessariamente isso é um reflexo da sua competência, pode ser inclusive da sorte, né? Então, sim, a gente tem sob esse aspecto um problema que é social e não é nacional, tá? A gente vê isso basicamente no mundo inteiro acontecendo hoje.

Voz B:Ô Hugo, que que tá dentro das suas ambições a partir de agora, hein? Enfim, que que o Hugo de 2026 pensa em deixar como legado aí a partir de agora?

Hugo Fernandes:Legal, cara. Bom, primeiro, para eu explicar minhas ambições, eu preciso até explicar o que aconteceu comigo nos últimos 5 anos, né? Quando a gente passa no concurso, a gente é lotado, geralmente a gente já entra com a dedicação exclusiva. Em outros lugares você precisa pedir a dedicação exclusiva, que basicamente é uma gratificação que você recebe em cima do seu salário base, mas também tá lá dizendo que você não pode trabalhar em qualquer outro lugar que não seja a universidade. Tudo bem? Perfeito. O que que acontece? Eu peço então a saída, né? Eu peço então a minha, a minha retirada da minha dedicação exclusiva. É, em 2021 eu fiz esse pedido. Perfeito. Porque depois de 6 anos sendo convidado para compor o quadro societário de uma empresa de consultoria ambiental chamada CETEG, eu resolvo aceitar. Depois que eu já tinha passado probatório, depois que eu tinha entendido sobretudo que era possível, tá, realmente trabalhar com demandas públicas e privadas de mercado que envolvesse a conservação da biodiversidade. Então é isso que eu faço.

Voz B:É uma empresa privada essa consultoria? É uma empresa privada. Que você já conhece, já participou de vários projetos durante vários anos aí, mas ainda não como sócio?

Hugo Fernandes:Na verdade não, eu já tinha feito muita consultoria desde quando eu tava no início do mestrado, mas foi somente depois, assim, o único trabalho que O primeiro trabalho que eu fiz para a CETEG foi já como sócio, né? Eu já tinha feito para outras grandes empresas. Ah, entendi. A CETEG é uma empresa de 35 anos. Quando eu entrei, ela tinha 26 funcionários. Hoje ela tem 47, né? Então é uma empresa hoje que está posicionada inclusive em nível nacional. A gente, né, já fincou o pé ali em 2 estados e trabalhando com obras de médio e grande porte, licenciamento ambiental de obras de médio e grande porte e De uns tempos para cá também trabalhando com o que eu chamo de economia da biodiversidade. E isso acaba— por que que eu conto essa história? Porque isso faz com que a minha linha de pesquisa também mude, né? Então hoje a minha pesquisa já deixou de ser caça há muito tempo, há muito tempo. Eu comecei a trabalhar com conservação aplicada. Inclusive eu tive a honra de coordenar a Lista Vermelha dos animais ameaçados de extinção do Ceará, né? Faço parte inclusive de algumas listas no Brasil, como a de roedores, como a de felinos, né? Pequenos felinos. E agora, de pouco tempo pra cá, ela migrou completamente pra bioeconomia, né? Economia da biodiversidade, que é basicamente sobre como é que a gente consegue gerar valor na economia, sobretudo na economia circular, né? Aquela renda que toca o solo mesmo, né, que ela também envolve comunidade, que ela também envolve quem produz, e também a parte de inovação, inovação tecnológica para a biodiversidade. Então hoje, este Hugo que vive mudando, né, ele tá apaixonado assim por essas duas linhas de pesquisa que são mais sinérgicas com aquilo que eu faço na empresa, né, sou diretor de inovação da empresa, Então agora estou nessa sinergia entre o mercado privado e a academia, né, para esse aspecto da biodiversidade. Mas continuo lá, viu, Ken? Continuo também atendendo demandas públicas, né? Fui delegado na última COP, fui delegado na COP Biodiversidade, que geralmente é a COP que mais me envolve, né, a conferência das partes da ONU, né? Onde eu atuo também ali nessa, não só nessa parte da discussão, mas também na construção de políticas, né, agora globais. Então, coisa que, sei lá, 10 anos atrás eu jamais imaginaria que estivesse fazendo. Aí não sei, viu, te falar assim quais são as ambições, esse Hugo muda tanto, né.

Voz B:Foda salvar o planeta, né.

Hugo Fernandes:Esse Hugo muda tanto, mas eu acho que Hoje, minha ambição é aprofundar esse assunto, levar para as pessoas também, mostrar que a biodiversidade tem valor agregado, mostrar que a gente consegue proteger a natureza e manter a floresta em pé e gerar renda com isso, mostrar que essa renda gerada precisa tocar o solo, precisa atingir a comunidade, precisa de fato envolver quem produz, né? Mostrar também, por outro lado, que Para que a gente consiga fazer isso em larga escala, eu preciso sim contar com quem gera dinheiro em larga escala, né? E tentar fazer isso da forma mais ética possível. São muitos desafios, tá? Eles não são nada fáceis, porque muitas vezes são forças que estão do outro lado do cabo de guerra, e quando a gente mostra que elas podem estar do nosso mesmo lado, isso às vezes gera ruído. Mas eu acho que hoje eu tô mais maduro até para topar esses ruídos, sabe? Para poder de fato fazer uma grande diferença sobre o ponto de vista nacional, pelo menos, para que a gente, sabe, mostra que é possível, cara. Eu acho que isso é mais legal assim. A gente, quem trabalha com meio ambiente, é biólogo, posso falar pelo biólogo, ele é muito treinado para apontar o problema, viu, quem treinado para isso. A gente é muito bom dando diagnóstico do que não presta, a gente é muito bom, mas não necessariamente bom para apontar a solução. Tem muita, muita gente boa apontando solução e fazendo solução, mas geralmente nós somos uma minoria, né? Nós, nosso contingente é menor, mas eu acho que é um contingente gostoso de se trabalhar, é um contingente que pode mobilizar muitas pessoas Não necessariamente pelo alerta, mas sobretudo para a solução. Eu acho que é muito legal esse sentimento de conseguir fazer parte de algo, sabe? E é isso que eu quero mostrar para as pessoas, talvez inclusive como divulgador científico, talvez. Eu não quero fazer grandes promessas sobre se eu vou voltar ou não, mas quem sabe, é onde eu quero chegar.

Voz B:Tá certo. Eu queria fechar com uma pergunta uma pergunta muito pessoal, viu, Hugo, que é: se você tivesse que botar uma coisa na cabeça do jovem de hoje, do adolescente, que— e tô falando especificamente dessa faixa etária porque na minha época essa era a faixa etária que impulsionava transformações estruturais na sociedade. Eu queria saber que tipo de coisa a gente devia colocar na cabeça desses jovens para eles serem agentes de mudança dessa crise de meio ambiente.

Hugo Fernandes:Ken, eu vou falar uma frase assim que pode parecer desconexa com tudo aquilo que a gente falou, tá? É falar de precisão Jovens, o seguinte: existe um universo fora da tela, existe um universo fora da rede social. Cuida aí do seu tempinho. Abre agora seu telefone e vê quanto tempo você fica em rede social e depois multiplique isso pela semana. O teu próprio telefone te dá esse relatório, é assustador. Sai disso, tá? Eu sou um divulgador científico que, antes de ser divulgador científico, sou biólogo. E antes de ser isso tudo, né, enfim, antes de ser divulgador científico, na verdade, sou muita coisa. Então talvez para mim seja um pouco mais fácil falar isso. Se fosse só divulgador científico, talvez eu não estaria aqui falando assim: não, galera, sai das redes sociais e tal. Mas por que que eu tô dizendo isso? Parece desconexo, mas não é. A solução tá lá fora, velho. A solução, ele tá na conexão. Quando a gente fala de meio ambiente, a gente precisa ainda, ainda, sabe, do mundo real. Você precisa conhecer, pisar no chão, pisa descalço, tá ligado? Parece meio bicho-grilo que eu vou falar agora. Descalço. O que eu quero dizer, isso é metafórico. Conheçam as comunidades, entendam o que é, o que se precisa, entendam quais são as demandas públicas, privadas também, mas vai entender isso lá fora, velho, sabe? Vai conhecer teu país, saca? Se engaje mesmo. As soluções não estão de trás de uma tela. E eu acho que no fim das contas Quando a gente hoje tá assim hiperconectado, e muitas vezes nosso papel enquanto divulgador científico é manter este engajamento das pessoas hiperconectadas ali. Quando eu tô dizendo que isso é ruim, na verdade isso é muito bom, mas ao mesmo tempo isso faz com que elas achem que estão fazendo alguma coisa simplesmente reclamando, simplesmente curtindo, compartilhando alguma coisa sobre meio ambiente. É importante, galera, é, continue fazendo isso, mas assim, quer realmente mudar? Vai para fora, vai conhecer a tua realidade real e mostra a tua realidade para as pessoas. Aí sim, porque a partir disso é que você vai conseguir mudar a sua e também a realidade delas. É, hoje eu tô nessa saga assim, sabe, talvez por ter acordado, talvez por esse cara também muito mais hiperconectado do que eu sou hoje, e olhar assim, falar o seguinte: cara, quer saber, "Eu vou tentar sair um pouco disso e vou enxergar a realidade de fato como ela é", saca? E "A" pode ser inteligência artificial, mas pode ser inteligência ancestral também, sabe? Verdade, verdade. Inteligência ambiental.

Voz B:Hugo, queria agradecer demais aqui, acho que essa última mensagem é muito necessária. E tá vindo de um cara que conheceu já todos os biomas brasileiros, né, dezenas de cidades diferentes aí. Então, se eu fosse você, daria ouvidos e daria essa volta lá fora para conhecer a realidade para valer. Hugo, muito obrigado, de verdade. Queria que você deixasse aí sua despedida e Onde as pessoas te encontram nas redes sociais quando elas estiverem conectadas?

Hugo Fernandes:Cara, eu vou te dizer duas redes sociais. O LinkedIn, que hoje talvez seja a rede que eu mais use. Tem muita coisa legal lá que a gente compartilha sobre mercado dentro desse contexto da biodiversidade. E claro, meu Instagram, minha rede mais forte. O Twitter eu saí, tá? Abandonei. É, abandonamos. É, abandonei. Mas vou lá, @hugofernandesbio, tá, é o meu Instagram. Espero que não, não sei, quem sabe, né? Quem sabe a gente volta a produzir algumas coisas aí. Vez por outra eu posto alguma coisa, sabe, sem muita pretensão de voltar a ser conteúdo, mas vai ser um prazer. E obrigado, viu, que é uma honra muito grande, tá, tá aqui nessa entrevista com você. Adoro o Nara Rodó. Mandar um abraço aqui para o Altair, que é inclusive judoca também, que nem eu, tá?

Voz B:Também é judoca, isso aí.

Hugo Fernandes:Um grande exemplo, inclusive sensei Altair, tá? Um dia eu chego lá, um dia eu chego lá.

Voz B:Tá certo, Itogo, muito obrigado. Inaru hodo, ilustríssimo ouvinte. E você já sabe, É isso aí! Aqui no Naruhodô, quem faz a pauta é você! Você tem alguma pergunta pra gente ou quer comentar algum episódio? Escreva pra nós! podcast@naruhodô.com.br Repetindo: podcast@naruhodô.com.br E lembre-se: mande nome completo, idade, profissão e a cidade de onde você está falando.

Hugo Fernandes:É isso aí! This podcast é apresentado por b9.com.br.