Episódios de Naruhodo

Naruhodo Entrevista #77: Irma de Godoy

28 de setembro de 20261h38min
0:00 / 1:38:30

Na série de conversas descontraídas com cientistas, chegou a vez da Professora, Pesquisadora, graduada em Medicina, com Doutorado em Pneumologia, Irma de Godoy.

Só vem!

>> OUÇA (98min 30s)

*

Naruhodo! é o podcast pra quem tem fome de aprender. Ciência, senso comum, curiosidades, desafios e muito mais. Com o leigo curioso, Ken Fujioka, e o cientista PhD, Altay de Souza.

Edição: Reginaldo Cursino (@reginaldocursino)

Ilustração e Capa: Felipe Cruz (@felipecruzart)

http://naruhodo.b9.com.br

*

Irma de Godoy concluiu o doutorado em Medicina (Pneumologia) pela Universidade Federal de São Paulo em 1982 na área de reabilitação pulmonar. 

Realizou pós-doutorado na University of Pittsburgh no período de 1992-1994, na área de DPOC, Nutrição e Inflamação e estágio no Instituto Catalão de Oncologia, Unidade de Controle do Tabaco, Universidade de Barcelona, em junho e julho de 2023.

Atualmente é Professora Titular da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho.

Atua na área de Pneumologia com ênfase em DPOC, Nutrição, Tabagismo, Oxigenoterapia Domiciliar Prolongada e Reabilitação Pulmonar.

Atua em parceria com profissionais das áreas de Enfermagem e Fisioterapia. 

Presidente da Comissão de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia para o biênio-2008-2010.

Revisora do Jornal Brasileiro de Pneumologia desde 2014 e revisora de publicações nacionais e internacionais.

Presta assessoria científica para agências de fomento em pesquisa e a ANVISA. 

Diretora de Ensino da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, gestão 2017-2018. Presidente eleita gestão 2019-2020 e Presidente gestão 2021-2022.

Membro da coordenação de Tabagismo da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia, gestão 2024-2025.

Lattes: http://lattes.cnpq.br/5079454858778041

*

APOIE O NARUHODO!

O Altay e eu temos duas mensagens pra você.

A primeira é: muito, muito obrigado pela sua audiência. Sem ela, o Naruhodo sequer teria sentido de existir. Você nos ajuda demais não só quando ouve, mas também quando espalha episódios para familiares, amigos - e, por que não?, inimigos.

A segunda mensagem é: existe uma outra forma de apoiar o Naruhodo, a ciência e o pensamento científico - apoiando financeiramente o nosso projeto de podcast semanal independente, que só descansa no recesso do fim de ano.

Manter o Naruhodo tem custos e despesas: servidores, domínio, pesquisa, produção, edição, atendimento, tempo... Enfim, muitas coisas para cobrir - e, algumas delas, em dólar.

A gente sabe que nem todo mundo pode apoiar financeiramente. E tá tudo bem. Tente mandar um episódio para alguém que você conhece e acha que vai gostar.

A gente sabe que alguns podem, mas não mensalmente. E tá tudo bem também. Você pode apoiar quando puder e cancelar quando quiser. 

O apoio mínimo é de 15 reais e pode ser feito pela plataforma ORELO ou pela plataforma APOIA-SE. Para quem está fora do Brasil, temos até a plataforma PATREON

É isso, gente. Estamos enfrentando um momento importante e você pode ajudar a combater o negacionismo e manter a chama da ciência acesa. Então, fica aqui o nosso convite: apóie o Naruhodo como puder.

bit.ly/naruhodo-no-orelo

Participantes neste episódio3
K

Ken Fujioka

HostPublicitário
A

Altay de Souza

Co-hostjornalista
I

Irma de Godoy

EntrevistadoProfessora, Pesquisadora, Médica, Pneumologista
Assuntos6
  • O combate ao tabagismo e a preocupação com cigarros eletrônicosBrasil como modelo em políticas públicas·aumento de fumantes por vapes·consequências precoces dos vapes·lobby da indústria do tabaco
  • A infância rural e a decisão precoce pela medicinanascimento em fazenda·primeira da família na universidade·ajudando o pai com animais·influência do médico da cidade
  • A escolha pela pneumologia e o doutorado pioneiro na UNIFESPresidência na Unicamp·criação da residência de pneumologia·doutorado em reabilitação pulmonar·construção de resistências inspiratórias
  • A construção da pneumologia na UNESP Botucatu do zerochegada em Botucatu em 1987·inexistência de serviço de pneumologia·criação de enfermaria e laboratório·parceria com cirurgia torácica
  • A entrada na faculdade de medicina e o desafio em Jundiaípreparação para o vestibular·entrada na Faculdade de Medicina de Jundiaí·preconceito com estudantes·construção de comunidade na faculdade
  • O legado na ciência e o futuro na perícia médicaformação de novos profissionais·reconhecimento nacional e internacional·preparação para aposentadoria·curso de perícia médica
Transcrição172 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
IDIrma de Godoy

Todos os anos do colégio eu sempre procurava participar de feiras de ciência para avaliar tipos sanguíneos, para avaliar uma série de outras coisas, e sempre direcionado para medicina, sempre foi assim. Minha prática da medicina que me satisfaz mais e que sempre foi assim é aquela associada ao ensino. Essa é a minha prática que eu gosto mais e que sempre me desenvolvi melhor. Eu prestei concurso para trabalhar com fisiologia, que era o que tinha de, digamos, cargos públicos para pneumologista.

Pneumologista começou a ser conhecida há pouco tempo, né? Naquela época, os concursos que existiam para pneumologistas eram sempre direcionados para a área de fisiologia. A minha atividade consistiu em, sim, 80% do tempo de andar pela Florêncio de Abreu, em São Paulo, comprando tubos em casas de material de construção para construir as resistências inspiratórias. A gente construiu essas resistências inspiratórias com tubos de PVC.

A gente começou a trabalhar com fatores de risco para doença, com tabagismo, com a doença em si do ponto de vista clínico e depois tentando entender também quais são as condições aí, digamos, biológicas que estão alteradas e o processo inflamatório relacionado a essas doenças respiratórias crônicas.

ADAltay de Souza

Naruhodo entrevista Irma de Godói.

IDIrma de Godoy

Naruhodo Podcast.

KFKen Fujioka

Ilustríssimo ouvinte do Naruhodô, o Altair e eu temos duas mensagens para você. A primeira é muito, muito obrigado pela sua audiência. Sem ela, o Naruhodô sequer teria sentido de existir. Você nos ajuda demais, não só quando ouve, mas também quando espalha episódios para familiares, amigos e, por que não, inimigos. A segunda mensagem é: existe uma outra forma de apoiar o Naruhodô, a ciência e o pensamento científico, que é apoiando financeiramente o nosso projeto de podcast semanal independente, que só descansa no recesso do fim do ano.

Manter o Narodô tem custos e despesas: servidores, domínio, pesquisa, produção, edição, atendimento, tempo, enfim, muitas coisas para cobrir, e algumas delas em dólar. A gente sabe que nem todo mundo pode apoiar financeiramente, e tá tudo bem. Tente mandar um episódio para alguém que você conhece e acha que vai gostar. A gente sabe que alguns podem, mas não mensalmente, e tá tudo bem também. Você pode apoiar quando puder e cancelar quando quiser.

O apoio mínimo é de R$15 e pode ser feito pela plataforma Orelo ou pela plataforma Apoia.se. Para quem está fora do Brasil, temos até a plataforma Patreon. É isso, gente, estamos enfrentando um momento importante e você pode ajudar a combater o negacionismo e manter a chama da ciência acesa. Então fica aqui o nosso convite: apoie o Narodô como puder.

ADAltay de Souza

Ilustríssimo ouvinte, ilustríssimo ouvinte, seguimos com a série Narodô Entrevista, que está trazendo conversas descontraídas com cientistas brasileiras e brasileiros que contam sobre suas trajetórias, seus pensamentos e seus campos de atuação. Neste episódio, vamos falar com a Irma de Godói. Irma de Godói concluiu o doutorado em medicina pneumologia pela Universidade Federal de São Paulo em 1982, na área de reabilitação pulmonar.

Realizou pós-doutorado na University of Pittsburgh no período de 92 a 94, na área de DPOC, nutrição e inflamação, e estágio no Instituto Catalão de Oncologia, Unidade de Controle do Tabaco, da Universidade de Barcelona, em junho e julho de 2023. Atualmente é professora titular Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Atua na área de pneumologia com ênfase em DPOC, nutrição, tabagismo, oxigenoterapia domiciliar prolongada e reabilitação pulmonar.

Atua em parceria com profissionais das áreas de enfermagem e fisioterapia. É presidente da Comissão de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Fisiologia para o biênio 2008/2010. Revisora do Jornal Brasileiro de Pneumologia desde 2014 e revisora de publicações nacionais e internacionais. Presta assessoria científica para agências de fomento em pesquisa e a Anvisa. Diretora de ensino da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Fisiologia na gestão de 2017/2018 e foi presidente eleita na gestão 2019/2020 e presidente na gestão 2021/2022.

Membro da coordenação de tabagismo da Sociedade Paulista de Pneumologia e Fisiologia, gestão 2024/2025. Vamos então para a conversa com a Irma.

KFKen Fujioka

Irma, muito obrigado por ter topado falar com a gente aqui no Narodô. Vamos começar aí ouvindo o seu primeiro salve para as nossas ouvintes e para os nossos ouvintes, Irma.

IDIrma de Godoy

Então é um prazer estar aqui, um salve a todos os ouvintes. Que eu espero que a minha história sirva aí de um exemplo ou de uma inspiração para algumas pessoas.

KFKen Fujioka

Ah, eu tenho certeza que sim, irmã. É uma honra ter você aqui com a gente. E eu vou começar com você como eu começo com todo mundo que eu entrevisto aqui no Narodô, te perguntando quando você nasceu, onde você nasceu e em que contexto familiar socioeconômico você nasceu, irmã.

IDIrma de Godoy

Então essa é uma história longa, né, que é bastante longa. Então eu nasci no dia 19 de março de 1952, mas fui registrada no dia 25 de março de 1952 porque eu morava numa fazenda. Eu nasci numa área rural, uma área rural, e aí eu fui registrada no dia que meu pai foi no cartório, né?

KFKen Fujioka

Então o dia que ele foi para a cidade, né?

IDIrma de Godoy

Isso, exatamente.

KFKen Fujioka

Né?

IDIrma de Godoy

Então eu nasci na Fazenda Cachoeira, no município de Itirapina, nessa, nessa longa data aí.

KFKen Fujioka

Onde fica Itirapina, irmão?

IDIrma de Godoy

É Itirapina. Itirapina fica, é, talvez você conheça melhor, ela fica próximo de Brotas.

KFKen Fujioka

Brotas, eu já fui para Brotas fazer canoagem, fazer rafting.

IDIrma de Godoy

Exatamente, é uma área de lazer rural, de águas, né, ecoturismo, né? Exatamente, certo. São 20 minutos de Brotas.

KFKen Fujioka

Ah, então é do ladinho mesmo. E Tirapina, não conhecia essa cidade. Ô irmã, e aí, como é que era o desenho familiar na época que você nasceu? Você tem irmãos, irmãs mais novas, mais velhas?

IDIrma de Godoy

Então, eu sou a filha do— meus pais, eles eram proprietários dessa fazenda, né? Meu pai e minha mãe não têm, nunca tiveram educação formal, sabiam ler e escrever, mas porque aprenderam com os patrões quando eram mais jovens. E eu sou a filha do meio de 3 filhas. Então, tem uma irmã mais velha, que é 6 anos mais velha que eu, e tem uma irmã mais nova, que é 6 anos mais nova que eu.

KFKen Fujioka

Olha só, você tá bem mesmo, bem no meio, bem no meio. E como é que foi uma infância, irmã, na fazenda? Eu acho que é um sonho, né?

IDIrma de Godoy

Olha, se há uma coisa que eu me lembro assim com uma, com uma, com muita saudade, é essa época, que foi uma coisa maravilhosa, né? Sem nenhum, nenhuma restrição. Com a liberdade total, no ambiente absolutamente saudável, né, e de liberdade e de conhecimento e de, sei lá, até de riscos, né, porque a gente vivia numa fazenda, não tinha limite, pescar no rio, andar a cavalo e tudo mais. Então foi realmente uma infância muito livre e muito aproveitada, digamos assim, né. Então foi realmente muito gostoso.

KFKen Fujioka

Eu tenho, eu tenho um objetivo pessoal de ainda levar a família para morar no interior, principalmente por causa da nossa filha, né, que tá com 2 anos. E eu tenho certeza de que crescer num ambiente mais rural, sabe, mais perto da natureza, brincando com outras crianças livremente assim, É uma coisa que não tem preço, sabe?

IDIrma de Godoy

Então eu tenho certeza que não tem preço, viu? Que foi muito bom.

KFKen Fujioka

Legal, irmã. E aí você foi criança, adolescente, e durante a infância e adolescência eu queria saber se teve alguma coisa, ou até mais de uma coisa, que deu um sinal para onde você caminharia profissionalmente lá na frente?

IDIrma de Godoy

Então, eu hoje olhando para essa, para esse passado, né, para essa infância e para tudo isso, eu consigo enxergar assim alguns sinais, né. Então, na minha família, eu fui a primeira que fui para universidade. Assim, meus pais, como eu disse, não tinham educação formal. A minha irmã mais velha fez até acho que o colégio. Depois que ela acabou, depois de muitos anos, ela conseguiu terminar. Ela casou 19 anos. Então ela praticamente fez o ginásio, né?

Depois ela completou aí com o magistério. Então eu fui a primeira. Então eu morei até os 9 anos na fazenda. Então os 2 primeiros, isso, os 2 primeiros anos de colégio, né, que eu iniciei na primeira série, aconteceu quando meu pai que não tinha educação formal, mas achava que isso era a coisa mais importante do mundo para ele. Ele fez um negócio lá com o prefeito da cidade, arrumou uma escola, construiu uma escola. A professora foi morar na minha casa e dava aula para todos nós nessa escola da fazenda, para mim, para meus, para todos os filhos dos funcionários da fazenda frequentavam essa escola.

Aí eu fiz os 2 primeiros anos lá e depois nós mudamos para a cidade. Aí eu completei essa minha formação do grupo escolar na cidade de Tirapina. Então, mas os 2 primeiros anos eu fiz na fazenda.

KFKen Fujioka

Ah, tá, entendi. Com uma estrutura própria da fazenda mesmo de uma escola.

IDIrma de Godoy

Então, por isso, né, eu tinha, eu era muito curiosa, sempre fui muito curiosa, e meu pai tinha um retiro de leite, né? Era uma fazenda que produzia leite e eu acompanhava meu pai em todas as atividades, tudo. Eu tirava leite, eu ajudava a cuidar dos bezerros, do gado como um todo.

KFKen Fujioka

Tinha leite para subsistência ou chegava até a vender para fora assim? Isso, ele vendia, vendia para fora numa época em que era muito manual ainda assim.

IDIrma de Godoy

Exatamente. Então eu ajudava a tirar esse leite, como a gente chamava, né, a ordenhar as vacas e também a cuidar, porque meu pai— a gente não tinha veterinário naquela época disponível, então meu pai que cuidava. E essa era uma das coisas que eu mais gostava de fazer, era ajudar meu pai a cuidar dos partos, das doenças dos animais.

KFKen Fujioka

Você literalmente acompanhou o parto De bezerro, isso?

IDIrma de Godoy

Sim, sim, de bezerro, de cavalo, de tudo. Então eu já, e eu adorava fazer isso. Então hoje, olhando para trás, eu acho que isso foi um estímulo aí para minha, não tenho dúvida, para isso.

KFKen Fujioka

Não tenho dúvida, porque assim, a primeira pessoa da família a ir atrás de um curso universitário, e você escolheu logo o curso provavelmente mais concorrido da época.

IDIrma de Godoy

Na época era muito difícil, tinha muito pouca faculdade de medicina, né? E meu pai achava assim, ele até estimulava, ele falava que eu deveria fazer magistério, porque por conta da importância que ele dava à educação. Então ele achava que o magistério seria a carreira ideal para mim, mas eu não quis. Eu já disse para ele, não, eu vou fazer medicina. Então Eu nem me lembro exatamente assim qual foi a reação dele, mas assim, depois que eu decidi, ele apoiou totalmente, minha mãe também. Então aí foi mais fácil, digamos assim.

KFKen Fujioka

Então você contou para ele de uma maneira bastante decidida, né? Você se lembra quando você se decidiu: vou fazer medicina?

IDIrma de Godoy

Olha, eu vou te dizer uma coisa. Quando eu terminei o colégio, quando eu fiz o colégio, eu já participava de feiras de ciência, né, no colégio, na primeira tanto no colégio como todos os anos do colégio, eu sempre procurava participar de feiras de ciência para avaliar tipos sanguíneos, para avaliar uma série de outras coisas, e sempre direcionado para medicina. Sempre foi assim. Nunca eu fiz, digamos, eu tinha uma facilidade muito grande para matemática, para outras coisas, mas isso eu fazia, digamos, eu dava aula de matemática com meus colegas, né?

Mas eu não, não era minha intenção, nunca foi fazer nenhuma carreira de exatas. Então eu sempre fui mais voltada para biológicas mesmo, e aí sempre pensando na medicina. Então acho que até foi quase que um caminho natural assim, à medida que foi evoluindo eu fui mais me envolvendo em situações, em ações, em atividades relacionadas a biológicas. E aí quando eu tava no, acho que no primeiro ano, que naquela época era científico, né, que a gente fazia, eu já tinha decidido que iria para fazer o vestibular de medicina, ciente de toda a dificuldade que eu iria enfrentar, porque era muito difícil.

Eu não tinha, né, acho que isso é importante que a gente lembrar, que eu não tinha uma formação assim de línguas. A mesma minha, o meu conhecimento de português, né, não era o melhor possível, porque os meus pais não tinham essa Eu cresci no ambiente rural com os funcionários, então eu não tinha essas facilidades. Eu sabia que ia ser difícil, mas eu tinha decidido. Então, e meus pais sempre me apoiaram. Aí não teve nenhuma dúvida. Quando eu decidi, tava decidido, tava apoiado.

KFKen Fujioka

Ô irmã, eu tenho que fazer essa pergunta assim: cuidando de bichos desde criança, veterinária não passou pela sua cabeça?

IDIrma de Godoy

Passou, passou, mas muito rapidamente assim. Eu acho que quando nós mudamos para a cidade, a cidade de Tirapina tinha um médico. Nossa, tinha apenas um médico, só tinha um médico que era um médico privado. Naquela época a gente não tinha SUS, né? Então era um médico privado e eu ia com a minha mãe no médico. Então assim, a partir desse momento que eu comecei ter algum contato com essa atividade, eu aí então fechou.

KFKen Fujioka

Eu nunca pensei, um médico na cidade realmente acabou confirmando os seus instintos, né?

IDIrma de Godoy

Exatamente.

KFKen Fujioka

E aí, irmã, eu quero saber do momento do vestibular. Você foi de cara que você entrou? Foi na primeira vez que você prestou vestibular? Como é que foi esse processo de fazer a inscrição, fazer a prova e depois descobrir que entrou. Me conta como foi esse processo.

IDIrma de Godoy

Então, eu fiz, eu fiz os primeiros 4 anos, né, do colégio, fiz lá em Tirapina. Depois, em Tirapina não tinha a parte do científico, aí eu mudei para Rio Claro. Meu pai me colocou lá num colégio de freiras e eu fui no colégio em Rio Claro. E fiz 2 anos de científico em Rio Claro. Aí no terceiro ano eu tinha que me preparar para o vestibular. Então aí na época, né, era mais ou menos uma— a gente tinha algumas regiões do estado de São Paulo que eram mais promissoras para você fazer cursinho e tinha pouco lugar.

Então eu fui para Ribeirão Preto na época. Eu fiquei um ano em Ribeirão Preto e fiz o terceiro colegial em Ribeirão Preto e fiz o curso preparatório, que era o curso Cesar Lattes de Ribeirão Preto. Então aí eu fiz esse cursinho em Ribeirão Preto e aí meu pai me deu 3, falou, olha, você tem, eu vou te dar a oportunidade de prestar 3 vestibulares. Aí eu prestei o vestibular público, prestei Jundiaí Faculdade de Medicina de Jundiaí, que tava no segundo ano de faculdade, e tinha me inscrito em Marília.

Então eram as três opções que eu tinha. O primeiro vestibular que eu prestei foi Jundiaí, prestei e entrei no primeiro vestibular. Então entrei na primeira, já tava garantido, então já tava garantido. Aí eu, meu pai me deixou fazer o vestibular público na época. Eu fiquei assim, o último, a última pessoa que entrou aqui em Botucatu foi o Fábio Tuti, eu acho que era o nome dele. Ele foi o último chamado, eu era a seguinte, próxima, a seguinte.

Mas aí não deu certo. E aí, caramba, por uma vaga, por uma vaga. Aí eu fiquei, não entrei aqui no público, fiz a faculdade no privado. E meu pai não me deixou prestar Marília, falou: não, você já entrou, você vai ficar.

KFKen Fujioka

Chega de gastar dinheiro com vestibular.

IDIrma de Godoy

Exatamente. Como eu tinha entrado no primeiro, falei: bom, vamos lá, né, fazer o quê? Foi legal, mas ele assim, eu tive a sorte, né, eu me lembro que a gente morava, eu morava num pensionato em Ribeirão Preto quando eu entrei.

KFKen Fujioka

Então você foi morar sozinha em Ribeirão Preto para fazer o terceiro ano?

IDIrma de Godoy

É, morei no pensionato em Rio Claro, que a gente não tinha colégio em Tirapina, né. E aí de lá eu fui morar em Ribeirão Preto e fiquei um ano lá fazendo cursinho e fazendo o terceiro colegial. E aí entrei, tive a sorte de entrar.

KFKen Fujioka

Imagino que era uma época em que uma mulher sozinha ir para o interior, morar sozinha e estudar para fazer vestibular, era ainda um tabu, né?

IDIrma de Godoy

Era um tabu. Assim, por sorte, né, meu pai tinha essa— meu pai era uma pessoa muito inteligente, né? Pois é, muito acima da média.

KFKen Fujioka

Ele não tava olhando lá na frente assim, né?

IDIrma de Godoy

Exatamente. E ele não tinha esse tipo de preocupação. Ele, se era para estudar, se era para fazer algumas coisas, não tinha economia, não tinha nada. Ele fazia o que ele podia para os filhos estudarem. Então acho que isso foi assim, eu devo isso totalmente a ele, né? Porque ele tinha uma visão de mundo que ele achava que educação, ele falava, ele dizia isso para gente muitas vezes. A gente nunca foi rico, mas era uma classe média baixa até na época.

Ele tinha uma fazendinha, ele falava, olha, Eu não vou deixar nada para vocês, eu vou deixar o estudo e vocês se virem, porque isso ninguém vai tirar, né? Então acho que é isso que era a ideia dele.

KFKen Fujioka

E seus pais prosperaram mesmo, mesmo não tendo educação formal, né? Quer dizer, começaram como funcionários da fazenda até que um dia tiveram sua própria fazendinha.

IDIrma de Godoy

Isso mesmo, ô irmã.

KFKen Fujioka

É legal. Então você entrou em Jundiaí, na Faculdade de Medicina em Jundiaí, que é uma faculdade também bastante tradicional. Quer dizer, hoje ela é tradicional, na época era uma faculdade que tava nos seus primeiros anos, né? Não tinha nenhuma turma formada ainda, não é isso?

IDIrma de Godoy

Não, eu sou da terceira turma.

KFKen Fujioka

Então me conta como é que foi esse contato com a vida universitária irmã?

IDIrma de Godoy

Então, eu entrei em Jundiaí. Jundiaí era uma cidade muito provinciana, digamos assim, né? Na época que eu entrei em Jundiaí, a gente era terceira turma da faculdade. Só tinha faculdade de medicina em Jundiaí na época. E era uma cidade, foi muito difícil, porque até para arrumar lugar para morar em Jundiaí foi muito difícil, porque as pessoas tinham preconceito assim muito grande com relação aos estudantes de medicina não queriam alugar.

A gente entrar, eu lembro que a gente tava na faculdade, marcava, por exemplo, de ir num restaurante. Às vezes a gente chegava, o restaurante fechava, né, porque achava que os estudantes iam fazer bagunça. Era mesmo? Não, era, Jundiaí era triste, viu?

KFKen Fujioka

Era triste. Vocês eram então as estudantes e os estudantes eram os subversivos da cidade.

IDIrma de Godoy

Exatamente. Nós éramos, tinha 60 estudantes por turma na época. Agora tem mais, mas na época eram 60. Então eram 180 estudantes, a maioria de fora. Então assim, eles consideravam aquilo um absurdo que a gente fazia, né?

KFKen Fujioka

Então principalmente porque eram de fora, né?

IDIrma de Godoy

Exatamente, né? Então a maioria era de fora, tinha poucos da cidade. Então, mas assim, eu acho que teve assim um lado negativo, né, que esse lado de você ter se ajustar, de que você ter que conquistar, mostrar o valor da Faculdade de Medicina. Mas também tinha um lado positivo, que como eram muito poucos estudantes, né, não tinha aquele monte de estudantes, a gente tinha uma convivência muito grande. A gente não tinha, digamos, um acolhimento dentro da cidade, então a gente teve que construir uma comunidade dentro da faculdade que houvesse espaço para conviver, para conversar, para trocar ideias, para fazer festas, para fazer coisas, porque a gente praticamente não era muito bem aceito dentro da sociedade jundiaiense na época.

KFKen Fujioka

Olha só que interessante, eu não fazia ideia disso, viu?

IDIrma de Godoy

Pois é, foi bem difícil, viu, que não foi fácil não. Imagino.

KFKen Fujioka

Ô irmã, Você fez a faculdade e como é que você vislumbrava seu futuro? Você se via num consultório, numa sala de cirurgia ou numa sala de aula? Como é que você se via na época assim?

IDIrma de Godoy

Pois é, você sabe que desde o colégio eu tinha Eu sempre desenvolvi atividade de ensinar meus colegas. Eu tinha uma facilidade muito grande para muitas coisas, né? Eu tive o privilégio, tinha uma memória fotográfica. Eu sei lá, quando eu era pequenininha, as pessoas achavam que eu sabia ler porque eu decorava os livros, né, de olhar e as pessoas falarem. Então eu tinha uma memória fantástica. Então sinto saudades dela hoje, viu?

Mas naquela época eu tinha uma facilidade muito grande E então eu sempre tive essa, digamos, esse quase que naturalmente eu ensinava as pessoas, né? Eu conseguia ter um quê a mais de conhecimento que para os meus colegas eu acabava contribuindo. Dava aulas de matemática, aulas de física. Olha só, não dava de biologia, mas dava de matemática e física para os colegas. E quando eu entrei na faculdade Eu tinha também assim, porque muita coisa nos primeiros anos da faculdade são coisas de decorar, né?

Aquela coisa de fisiologia, histologia, microbiologia, que é coisa de você decorar coisas. E aquilo para mim era muito simples, porque eu lia aquilo para prova uma vez, eu decorava, eu sabia o que tava acontecendo, ia lá, depois de meia hora esquecia tudo, mas pelo menos para prova eu conseguia fazer. Então também na faculdade eu tinha muita, as pessoas me procuravam muito porque eu tinha cadernos, eu era muito CDF, digamos assim, eu fazia tudo.

KFKen Fujioka

Você era uma CDF, essa que é a verdade, né? Então as pessoas colavam em você, era o seu caderno que todo mundo tentava copiar, não é isso?

IDIrma de Godoy

Exatamente, principalmente em véspera de prova, né? As pessoas me procuravam para fazer. Então eu sempre tive essa questão de ajudar as outras pessoas aí nas atividades. E aí, durante a faculdade, eu fiz monitorias para clínica médica, para auxiliar os outros estudantes. E assim que eu terminei a faculdade, eu terminei a faculdade em dezembro de 1976, e no ano seguinte eles já me contrataram na faculdade para eu ficar como preceptora dos monitores de clínica médica.

Então eu fazia residência em Campinas e eu vinha para Jundiaí duas vezes por semana para fazer reuniões com os monitores de clínica médica. Então isso aconteceu quase que assim automaticamente, sem— porque eu gostava de fazer aquilo, sempre gostei dessa questão de sentar com outras pessoas, de conversar, de orientar. E eu tinha também obviamente essa facilidade que eu conseguia, né, por exemplo, ter uma organização pessoal de ter disponível ali os materiais que as pessoas precisavam.

Então acho que isso foi um começo, né? Eu não consigo identificar assim exatamente o momento, mas eu acho que toda, durante toda a minha formação, eu tive esse papel de interagir com as outras pessoas e de realmente tentar passar aquilo que eu tinha conhecimento.

KFKen Fujioka

Certo, então fazia sentido, fez sentido, né, que você acabasse integrando as duas atividades, né, tanto praticando a medicina quanto formando outros médicos, né.

IDIrma de Godoy

E acho que também assim, isso de forma nenhuma, né, nunca atrapalhou a minha, o meu exercício da medicina, da profissão. Porque eu gosto muito de fazer medicina, sempre gostei, sempre tive um excelente relacionamento médico-paciente, né? Então foi uma coisa assim que combinou as duas coisas. Agora, uma outra coisa que talvez tenha influenciado é que quando eu, por alguns períodos, passei muito tempo fazendo só assistência e pouco ensino, isso já me aborrecia, não era uma coisa que eu gostava, né?

Eu gostava de— a minha prática da medicina que me satisfaz mais e que sempre foi assim é aquela associada ao ensino, né? Então essa é a minha prática que eu gosto mais e que sempre me desenvolvi melhor.

KFKen Fujioka

Você mesmo então disse que assim que você se formou médica. Primeiro assim, como é que foi na família uma primeira pessoa com faculdade, né, com curso superior e se tornando médica?

IDIrma de Godoy

Foi um, foi um assim, eu acho que foi uma alegria muito grande, né, e um orgulho muito grande que meus pais tiveram, né, minha família também. Eu fui a primeira da família a me formar, formando médica, numa época que era muito difícil de entrar numa faculdade, né. Meus pais fizeram um sacrifício para pagar a faculdade, que era uma faculdade particular, né? Mas assim, eu acho que eu tentei corresponder a essa, a esse investimento, digamos assim, que eles fizeram, né?

E a todo esse orgulho. E também assim, meu pai ficou muito feliz porque eu também não sabia, mas no dia da formatura ele foi chamado porque eu fui considerada a melhor aluna da turma, né? Olha só, olha só, ainda isso, né? Foi uma felicidade para ele, para toda a família. Família que tivesse acontecido isso.

KFKen Fujioka

Sim. E você foi fazer especialização ou a residência lá na Unicamp, né? Como é que você foi parar na Unicamp lá de Jundiaí?

IDIrma de Godoy

Então, a gente em Jundiaí, a gente terminava a faculdade, não tinha residência em Jundiaí, né? E a gente tinha as opções de vestibular, de vestibular de cursos de residência médica. Então, quais eram as possibilidades? Na época era a USP, né, São Paulo, a USP Ribeirão, é que era tudo separado, ainda é, né, USP São Paulo, USP Ribeirão. Eu fiz o SUS na época e fiz a Unicamp porque era tudo muito próximo ali para mim de Jundiaí, né.

Então eu fiz todos esses vestibulares. No SUS eu não entrei, na USP eu não entrei, na USP Ribeirão também não, e eu entrei na Unicamp na primeira, na primeira coisa. Então assim, era natural que você fizesse, prestasse a residência no SUS, na USP São Paulo, USP Ribeirão e Unicamp. Então esses foram o que eu prestei, eu não prestei outros. Então quando eu prestei a Unicamp, eu entrei na Unicamp em clínica médica. E eu já tinha assim, eu quando eu tava na faculdade eu fiz projeto Rondon, fiz umas monitorias e também fiz 3 anos, eu fiz um estágio na maternal em São Paulo, no Leonor Mendes de Barro, que era no Tatuapé.

Eu fiquei, fiz 3 anos de obstetrícia lá. Olha, É que era assim, quase que o mundo ganhou uma obstetra. Pois é, mas eu não gostei assim. Depois eu fui, foi bom porque eu fiz, aprendi muito de obstetrícia na época, mas eu fiquei com certeza que área cirúrgica, que envolvia qualquer coisa cirúrgica, não era o que eu gostava. E aí então eu já tinha decidido por clínica médica, não tinha decidido pela pneumo ainda, mas ainda você não decidiu.

KFKen Fujioka

Quando é que veio a decisão pela pneumo? Porque você tem tomar uma decisão durante a residência, é isso?

IDIrma de Godoy

Então, na época, a residência na Unicamp era um ano de clínica médica geral e um ano de especialidade. Na Unicamp, a gente tinha moléstias infecciosas, cardiologia, hemato e gastro e reumato, eram as especialidades que tinha. Não tinha pneumologia, mas durante o estágio do primeiro ano eu tive um contato muito grande com o pessoal da pneu e me encantei pela pneu, né, porque a gente tinha atividades em ambulatório, atividades de enfermaria, embora não houvesse a residência de pneumologia.

Aí no final do ano eu tinha que fazer uma opção para alguma especialidade, e aí eu optei na época por hemato, eu e uma amiga minha que fazíamos a residência de clínica médica. Optamos por hemato. Só que aí neste ano foi criada a residência da Unicamp. Então eu fui a pioneira lá na Unicamp, eu e a Teresa Cristina fomos as primeiras residentes de pneumologia. Então quando abriu o pneumo, eu larguei a hemato e fui para pneumo. Então nós, aí eu fiz mais um ano de pneumo lá na Unicamp.

KFKen Fujioka

Você já, você já gostava de pneumo ou era, ou era mais uma disciplina que você queria ter passagem assim?

IDIrma de Godoy

Não, eu quando fiz o primeiro ano, durante o período que eu passei na pneumologia, eu já me encantei pela pneumologia. E tinha também, né, a gente tinha na época, tinha um cirurgião torácico em Campinas que era o Dr. Frazato, Dr. Carlos Frazato, que era uma pessoa espetacular assim, né. E ele cativava todo mundo mesmo. E eu fiquei encantada com a pneumologia e com ele. E aí quando abriu o curso, falei, bom, Não tenho dúvida, né? E fui fazer pneu e fiz um ano de pneu lá.

KFKen Fujioka

Entendi. Agora eu vou dar um spoiler aqui, né, para quem não leu a biografia ou não prestou atenção na biografia da professora. Ela é uma sumidade aqui no Brasil sobre DPOC, né, ou seja, doenças pulmonares. Você na época, você tava fazendo a residência numa época em que o índice de fumantes no Brasil era altíssimo, né? Assim, se você comparar com hoje, né, era altíssimo. Assim, eu diria que a maioria da população adulta fumava, né?

Isso já era uma questão quando você tava fazendo residência, ou essa questão de combate ao tabagismo ela veio mais para frente?

IDIrma de Godoy

Essa pergunta é muito interessante, porque eu nunca tinha pensado nisso, para falar a verdade para você. Mas olhando agora com a sua colocação, né, essa época de 1979, 1980, a gente tem estatísticas no Brasil, né, mostrando uma prevalência de tabagistas em torno de 38, 40 90% da população era fumante, inclusive eu, certo?

KFKen Fujioka

Olha lá, você era fumante?

IDIrma de Godoy

Eu não, nunca assim, por um, digamos, por uma questão genética ou por uma questão aí não sei qual, eu nunca fui dependente, mas eu fumava de vez em quando, porque aquilo era uma, sabe, era aceito, se fumava dentro de sala de aula, dentro do hospital, em todo lugar. Então, naquela época, não havia essa, digamos, essa preocupação nem dentro dos hospitais, nem era um assunto, né? Não, não era uma questão que chamasse atenção. Era considerado um hábito, né, um hábito normal que as pessoas tinham, e era muito comum no meio médico na época era todo lugar, se falava alguma coisa.

A gente tinha um professor de pneumo que era o Dr. Toubar na época. Quem é de Campinas deve se lembrar que ele era, ele era para, trabalhava principalmente na área de fisiologia, e ele sempre comentava sobre isso, mas era a única pessoa dentro da pneumologia naquela época que comentava isso, né, que falava. E mostrava alguma preocupação com isso. Então aquela época praticamente passou batido, né, que é o que a gente entende que foi até logo depois começaram todas aquelas publicações mais importantes a respeito dessas alterações.

E aí a gente acabou tendo uma compreensão melhor, mas isso era normal, né, isso era realmente, a gente tá, a gente tem até a preocupação de que a gente tá voltando talvez para essa para esse ambiente de permissividade com relação ao uso desses dispositivos agora, né?

KFKen Fujioka

É verdade, vamos falar sobre isso também mais para frente. Agora, você mencionou, professor, que era da tisiologia, né? Tuberculose, por outro lado, era um assunto na época?

IDIrma de Godoy

Ainda tuberculose era muito, era um assunto muito importante, tanto que tinha, a gente tinha Agora eu acho que nem tem mais, mas naquela época eu me lembro até que eu tava na residência médica e eu prestei concurso para trabalhar com fisiologia, que era o que tinha de, digamos, cargos públicos para pneumologista. Pneumologista começou a ser conhecido há pouco tempo, né? Naquela época, os concursos que existiam para pneumologistas eram sempre direcionados para a área de fisiologia.

Porque era a doença que matava muita gente, né, que tinha, ainda tem, mas tinha uma prevalência muito alta e muita gente morria de tuberculose.

KFKen Fujioka

Agora, você termina a residência decidida pela pneumologia, né, mas eu vi aqui no seu currículo que você terminou a residência e já começou o doutorado. E o doutorado foi na UNIFESP aqui em São Paulo, é isso?

IDIrma de Godoy

Isso. Então, quando eu tava terminando a residência, houve assim, havia, já tinha a UNIFESP, era um centro muito importante de formação em pneumologia, já era quase o único ali na época. A UNIFESP, para você imaginar, ela tinha mais prestígio do que a USP em pneumologia. Então era uma, uma, um centro de formação em pneumologia extremamente importante, era o mais, digamos, conhecido no Brasil, formava pessoas, professores para o Brasil inteiro em pneumologia.

Então a UNIFESP realmente era um centro, ainda é, mas naquela época era praticamente o único centro de formação em pneumologia com reconhecimento internacional, né? A maioria dos professores com no exterior. Então era realmente um centro muito importante. E aí, quando a gente tava terminando, né, a residência, até não fui eu, foi a Cristina que identificou que havia essa possibilidade de completar a nossa formação com curso de pós-graduação na UNIFESP.

E tinha uma vaga para fazer, a gente tinha que prestar esse concurso. E aí, na época, eu conversei com vários dos meus ex-professores. Até tinha o Dr. Antônio Carlos Ferreira Barreto, que é do Incor, que foi meu professor de clínica médica, e o Dr. Fausto Igonaca também, que era do Incor. E eu conversei com eles, eu falei, olha, eu já dava aula em Jundiaí, então eu encontrei com eles, falei, olha, apareceu essa oportunidade de eu fazer pós-graduação, você acha que eu devo me inscrever?

E acho que ele me deu o melhor conselho da vida, que ele disse assim: olha, você tá saindo da residência médica, você fez só um ano de pneu. Se você for para a UNIFESP, você vai fazer mais tempo de pneu, porque a UNIFESP era tempo integral na época, pós-graduação. Então você vai completar sua formação em pneumologia. Se você conseguir um grau de mestrado ou doutorado, você vai ter uma empregabilidade no futuro muito melhor, e você vai poder optar no futuro se você quer fazer carreira universitária ou não.

E aí então eu decidi que ia me inscrever, e nos inscrevemos eu e a Cristina nesse, nesse curso. Eu entrei no curso e aí fiz a pós-graduação na UNIFESP.

KFKen Fujioka

E ela?

IDIrma de Godoy

Ela não entrou.

KFKen Fujioka

Caramba! Pois é, só tinha uma vaga, é isso?

IDIrma de Godoy

Não tinha mais vagas, eram 5 vagas, mas aí tinha uma turma grande, bem É porque tinha, por exemplo, os meus colegas, tinha um do Piauí, um do Espírito Santo, um do Mato Grosso, eu, gente do Brasil inteiro, atenção, São Paulo. Então nós éramos 5 e todos assim, um de cada lugar do Brasil. Então era uma coisa, era muito disputado, né? E aí eu entrei e fiz a pós-graduação lá a partir de 1979, assim que eu terminei a residência, eu fui Unifesp e fiquei lá.

KFKen Fujioka

Caramba! Agora eu vou aqui ler o título do seu trabalho de conclusão, tá, em que foi em 1982: O Efeito de Diferentes Cargas Resistivas no Treinamento de Músculos Inspiratórios. Explica para gente sobre o que se tratou esse seu trabalho no doutorado. Oi, irmã.

IDIrma de Godoy

Então, na época que eu fui para a UNIFESP, né, a gente, a UNIFESP tinha uma tradição muito grande de fazer trabalho experimental, principalmente na área de insuficiência respiratória. Mas nessa época também o Dr. José Roberto Jardim, que é da UNIFESP, pneumologista, ele tinha feito, ele tinha ido para o Canadá e tinha feito um estágio no Canadá trabalhando com músculos respiratórios. Então ele foi para lá para trabalhar com músculo respiratório, que isto era uma preocupação.

Os pacientes com doença pulmonar crônica acabam tendo às vezes alterações nutricionais, precisam de um trabalho ventilatório muito maior para respirar, né? Então eles têm resistência inspiratória aumentada, então eles precisam desenvolver um trabalho para manter uma respiração normal muito maior. Então havia um interesse nesse treinamento dos músculos inspiratórios para esses pacientes.

KFKen Fujioka

Quando você fala músculos inspiratórios, irmã, você tá falando exatamente de que órgãos assim? Porque eu, quando você fala músculo inspiratório, o que me vem à cabeça de cara são os músculos do pulmão, né? Mas a gente tá falando de uma musculatura mais ampla do que isso?

IDIrma de Godoy

Então, então acho que talvez eu possa explicar um pouquinho melhor. Para você respirar, o pulmão é um órgão elástico, né, que tem, digamos, uma capacidade. Se você tirar o pulmão da caixa torácica, ele murcha porque ele tem uma retração elástica, ele se fecha totalmente. Quando você coloca o pulmão dentro da caixa torácica, né, ele ali é um ambiente fechado você, a caixa torácica tem uma estrutura óssea maior do que o pulmão. Então o pulmão fica, digamos assim, esticadinho próximo da parede torácica, porque é uma caixa torácica fechada.

E quando você vai respirar, né, você, esse não dá para a gente entender o pulmão separado da caixa torácica. Então quando você vai inspirar, você tem que fazer um esforço para os músculos da caixa, é que a gente chama de bomba, né, para entender. Então é uma bomba em que você tem um movimento tanto do diafragma, que é um músculo da caixa torácica, e também os músculos intercostais, os esternocleidomastoideus, que você vai fazer um esforço inspiratório para expandir tanto a caixa torácica quanto o pulmão.

Então, no pulmão, a gente tem os músculos que estão em volta das vias aéreas, mas eles não vão expandir o pulmão. Para expandir o pulmão, eu preciso ter uma força muscular na caixa torácica, que é aquilo que vai— quando ela expande a caixa torácica, ela expande o pulmão ao mesmo tempo. Então, esses são os músculos que a gente chama de respiratórios. Diafragma, músculos intercostais, peitorais, esternocleidomastoide. Então todos esses músculos estão envolvidos na respiração normal.

É que a gente não percebe, né, Kim? Porque quando, como é uma atividade automática, né, você respirar, você tem um centro respiratório que regula isso, você não percebe. Mas é só pôr a mão. Quem faz yoga, né, bota a mão na barriga e vê que o tórax aumenta e diminui, né? Então acho que é bem por aí. Então a ideia é que esses músculos são fundamentais para respiração, né? Se eles não tiverem em atividade, em boas condições, você não consegue respirar.

Então para isso que foram feitos esses estudos, né, e esses trabalhos que o Dr. Jardim começou na Escola Paulista para avaliar e treinar os músculos respiratórios.

KFKen Fujioka

Agora, vocês treinavam isso emulando, eu imagino, resistências diferentes, né? Porque você tá falando aqui de diferentes cargas resistivas. Quais eram as cargas resistivas que vocês consideravam nesses estudos?

IDIrma de Godoy

Então, eu acho que eu passei por vários períodos na minha vida em que eu tive que começar do zero. Né? Então acho que a gente começou, eu comecei do zero muitas vezes. E lá na UNIFESP, quando o Dr. Jardim voltou, eu tinha um outro orientador. Quando ele voltou, eu fui designada para trabalhar com ele e a gente não tinha nada, né, para treinar esses músculos respiratórios. Que hoje você tem alguns dispositivos com resistências que você varia.

Então hoje você tem tudo isso, naquela época a gente não tinha nada. Então o meu, a minha atividade consistiu em 80% do tempo de andar pela Florêncio de Abreu em São Paulo comprando tubos em casas de material de construção para construir as resistências inspiratórias. A gente construiu essas resistências inspiratórias com tubos de PVC. É, então a gente construiu tudo, tudo, tudo para poder medir, para poder treinar. Tudo isso era feito com os tubos de PVC que a gente comprou na Florencio de Abreu.

Então a gente não tinha esses dispositivos que hoje você tem, que são dispositivos para treinamento, que a gente chama de threshold, né, que são dispositivos que têm resistências que você regula e que você pode fazer. Então Então aquilo foi um trabalho, digamos, quase que seminal aí de construir essas resistências e de começar a fazer as medidas também. E também os métodos que a gente utilizava para medir, né, se isso fazia efeito, se não fazia efeito, também foram todos desenvolvidos pelo Dr. Jardim com os alunos de pós-graduação na época.

KFKen Fujioka

E as medições assim, vocês tiveram que criar também uma escala ou já existia uma escala mundial, vamos dizer assim, para poder inclusive permitir comparações entre o Brasil e Canadá e outros países que faziam esse tipo de estudo?

IDIrma de Godoy

Já existia alguns parâmetros, né, digamos, as técnicas e medidas já eram conhecidas, né, que a gente tinha que fazer uma, digamos, para você, a gente chamava isso de pressão inspiratória máxima, máxima ou pressão inspiratória máxima, em que o que você faz é, você vai fazer uma inspiração máxima, mas que não vai entrar ar. Você vai fazer um esforço inspiratório máximo dentro de uma, de um sistema em que você vai medir. Naquela época a gente media com registro gráfico, né?

Então o indivíduo fazia um esforço, aquilo tinha que ter uma sustentação por pelo menos 1 segundo, e aí você considerava aquilo como pressão inspiratória máxima.

KFKen Fujioka

Máxima.

IDIrma de Godoy

O mesmo você fazia com relação à pressão expiratória máxima. O indivíduo fazia um esforço expiratório contra uma resistência, porque o ar não pode sair, porque você tem que medir a pressão, né? E aí você fazia também o registro disso nos aparelhos aí que você fazia, digamos, era totalmente com papel, né, com caneta marcadora de temperatura para você conseguir medir. Então era Bem artesanal. Hoje em dia isso é totalmente automatizado.

KFKen Fujioka

É, nossa, e para mim, quando você fala isso, me soa quase heroico.

IDIrma de Godoy

A gente sofria muito, ficava com as mãos cheias de tinta, né? Então era tudo muito artesanal, foi muito.

KFKen Fujioka

E você foi uma pessoa que viveu isso, né, na década de 80, e que hoje tá convivendo com inteligência artificial. Quer dizer, você passou por uma revolução tecnológica assim, né, inclusive aplicada à medicina.

IDIrma de Godoy

Na área de pneumologia, né, é incomparável, né, o que a gente fazia naquela época e o que a gente faz hoje em dia, né. Porque houve uma, digamos, houve, é óbvio que aumenta muito o número e as exigências, mas também houve uma facilitação de métodos muito grande, né, porque naquela época a gente não tinha nem pneumologia. Então em cardiologia era mais avançado, mas em pneumologia era muito pouco, né?

KFKen Fujioka

Então, por que que em cardiologia era mais avançado, em pneumologia menos?

IDIrma de Godoy

Eu acho que o investimento nacional em pesquisa, internacional em pesquisa na área de cardiologia, sempre foi maior, né? Então acho que até hoje é assim, mas hoje obviamente existe aí uma distribuição um pouquinho mais equitativa, né? Mas sempre foi maior na área de cardiologia, né? Até pela prevalência, né? Uma doença maior, pior, a maior causa de mortalidade no mundo, né? Então acho que sempre houve um desenvolvimento maior da área de cardiologia.

KFKen Fujioka

Agora, quando você tava fazendo doutorado, era período integral lá na UNIFESP, né? Então eu fico perguntando assim, você ficou sem clinicar durante esse tempo?

IDIrma de Godoy

Então, na verdade, na UNIFESP, a gente, o estágio era uma A gente fazia todos os estágios, tinha um hospital escola lá, fazia todos os ambulatórios, a gente fazia inclusive atendimento. Naquela época, quem atendia os pacientes de pronto-socorro da Unifesp éramos nós. Então cada disciplina, cada especialidade tinha um dia que descia para o pronto-socorro e fazia triagem de pronto-socorro. Então assim, a gente fazia clínica, eu Fazia UTI, fazia tudo.

KFKen Fujioka

Então na residência do doutorado você era uma clínica geral assim?

IDIrma de Godoy

Exatamente.

KFKen Fujioka

Embora estivesse fazendo um doutorado em pneumologia, na prática você era uma clínica geral ali em campo?

IDIrma de Godoy

A gente fazia clínica geral e fazia todos os ambulatórios de pneumo e também a UTI de pneumologia. Então a gente faz agora a parte de clínica geral era relacionado ao atendimento de pronto- pronto-socorro.

KFKen Fujioka

Então você fazia desde a triagem no pronto-socorro até tratamentos clínicos na pneumologia mesmo?

IDIrma de Godoy

Isso, exatamente. Até na UTI que a gente tinha, a Unifesp tem uma UTI de pneumo, né? Então a gente fazia o estágio lá também, mas era tempo integral, quer dizer, a gente trabalhava todos os dias de manhã e de tarde. Eu fiz isso durante 2 anos.

KFKen Fujioka

Certo.

IDIrma de Godoy

E ainda tinha que arranjar tempo para estudar, tinha que arranjar tempo para fazer pesquisa e para estudar, não tinha jeito.

KFKen Fujioka

Ô irmã, deixa eu falar, perguntar uma coisa em paralelo assim. Quando é que você, você ainda tava fumando? Você ainda era fumante quando tava fazendo o doutorado?

IDIrma de Godoy

Eu não, eu não, eu não, eu não era uma fumante, mas eu era uma Eu tinha aquela fumante de fim de semana, quando ia tomar uma cervejinha para beber. Eu era assim. Eu parei de fumar quando eu vim para Botucatu.

KFKen Fujioka

Aliás, quando é que você chega em Botucatu então, né, para uma, para sua vingança? Tô brincando, né, assim, porque já que Botucatu não te aceitou lá atrás, você entrou pela porta da frente anos depois, né? Como é que foi? Você terminou o doutorado e aí como foi? Finalmente você parou de estudar, né? Porque nunca vi médico estuda mais de 10 anos antes de começar de fato a viver sua, fazer a sua carreira profissional autônoma, né?

IDIrma de Godoy

Isso. Então eu terminei em 1980, 80, eu estava lá na UNIFESP, certo? E aí em 1981 eu voltei para Jundiaí. Aí eu voltei para Jundiaí ainda com doutorado em andamento, em andamento, que eu terminei no meio de 82. Aí eu voltei para Jundiaí, fiquei na Faculdade de Medicina de Jundiaí. Então eu participei aí durante muitos anos, até 86, da construção assim da consolidação da Faculdade de Medicina de Jundiaí. Então eu entrei como professora lá, criei a residência, ajudei a criar a residência médica lá.

Então eu fiquei assim por muitos anos trabalhando em Jundiaí, tanto na Faculdade de Medicina quanto em unidades hospitalares da cidade. Então aí eu fiquei alguns anos lá em Jundiaí. E aí quando eu tava, eu, mas eu mantinha sempre uma, um contato e trabalhava junto com o pessoal lá da Unifesp.

KFKen Fujioka

E aí, mas como é que veio essa missão, irmã? Do nada você volta para Jundiaí para ajudar a colocar, consolidar a Faculdade de Medicina, né? Foi um convite que veio no meio do seu doutorado? Foi um chamado que você teve para ajudar nisso?

IDIrma de Godoy

Então, na verdade, eu lembro que eu tinha sido contratada em 1977 para a atividade de ensino dos preceptores, né, dos preceptores. Então eu nunca saí de Jundiaí durante esse período. Eu continuei com esse contrato, eu voltava para Jundiaí durante minha residência, durante a minha pós-graduação, pelo menos uma ou duas vezes por semana. Também dava plantão em algo, a gente precisava de ganhar dinheiro naquela época, né, dava plantão em algumas unidades hospitalares lá de Jundiaí.

Então aí, quando eu terminei de coletar meus dados lá na faculdade, na UNIFESP, eu voltei a morar em Jundiaí, a trabalhar na faculdade. E aí eu comecei a trabalhar não só na faculdade Faculdade de Medicina. A faculdade de medicina não tinha um contrato que incluísse o hospital. Eu comecei a trabalhar no hospital da cidade, que onde era desenvolvido os estágios dos alunos da faculdade de medicina e onde eram desenvolvidas, onde foi desenvolvida a residência médica.

Então aí eu voltei para Jundiaí e participei dessa parte aí toda da consolidação da residência médica, da faculdade como estágio, das unidades de saúde da faculdade que tinham relação com a faculdade de medicina. Eu fiquei lá todo esse período até 87.

KFKen Fujioka

E eu imagino que você ao mesmo tempo já tava tratando os dados que você coletou do seu doutorado e terminando a sua tese também.

IDIrma de Godoy

Isso, exatamente. Eu tava trabalhando em Jundiaí, mas eu tava, eu ia duas vezes por semana para São Paulo para me reunir com o Dr. Jardim, que era meu orientador, para terminar de escrever. Porque eu entrei para mestrado, mas no meio da história virou doutorado. Isso. Aí foi, eles consideraram que a tese era adequada, então foi transformado num doutorado. Aí por isso que eu até fiquei um pouco mais de tempo, demorou 3 anos e meio para eu terminar.

KFKen Fujioka

Entendi, entendi. Agora, você nessa época terminando doutorado, colocando um hospital universitário de pé, um curso, uma residência, ali você acha que já tinha, já sabia que ia enveredar pela carreira acadêmica, ou foi antes disso?

IDIrma de Godoy

Eu já tinha certeza, daí já não tinha mais dúvida não. Aí não tinha mais nenhuma dúvida, eu já tinha certeza absoluta que era a minha, digamos, a minha vocação, né, seria nesse sentido.

KFKen Fujioka

Como é que, como é que terminou então? Você, você tá em Jundiaí fazendo todas essas atividades, terminando o seu doutorado. Quando você termina o doutorado, então você está em Jundiaí? Quando é que a sua sua vida muda novamente assim?

IDIrma de Godoy

Então, a minha vida muda porque Jundiaí teve um período em que, por questões, ela era uma, é ainda uma autarquia municipal. E autarquia municipal, ela tem sempre, ela vive aí da, digamos, da política, né, tá associada às condições políticas da cidade. Então, na época que a faculdade ainda não tava muito consolidada, houve uma mudança na administração da cidade. E esse hospital da cidade, que é um hospital tradicional de Jundiaí, ele deixou de ser hospital universitário e nós fomos transferidos para Franco da Rocha.

Então a área de estágio da Faculdade de Medicina passou a ser Franco da Rocha. E Franco da Rocha é uma cidade difícil de ir de Jundiaí, uma estrada cheia de curva, uma meia hora da cidade. E aí quando foi para Franco da Rocha, eu deixei deixei de fazer atividade didática com os alunos e com os residentes. Eu fiquei só 12 horas na faculdade dando aula teórica. Então eu deixei de fazer a parte prática. E aí eu tinha que ocupar meu tempo com outras coisas.

Eu comecei a trabalhar como clínica no Hospital Santa Rita, que é um hospital geral de Jundiaí, também na unidade de terapia intensiva. Na época eu prestei uma, uma, o exame de título de especialista em terapia intensiva, fui aprovada e comecei a trabalhar na terapia intensiva. E também na mesma época, até por conta que eu tinha que trabalhar em alguma coisa, teve um concurso do INSS na época e eu fui aprovada e comecei a trabalhar como clínica geral no INSS.

KFKen Fujioka

Então por um período eu deixei de fazer, na época a gente chamava de e INAMPES, não era?

IDIrma de Godoy

Exatamente. Então eu deixei de fazer atividade didática, prática, com os residentes e com os alunos, e passei a desenvolver uma atividade como médica mesmo, assistencial, no INAMPES, no Santa Rita e na UTI. Então isso não me agradou, né? Eu achei que não era minha praia, não gostava de tive um consultório particular que não gostei assim. Eu até fiz sucesso como clínica, mas eu não gostava. E aí então, não, não, eu achava que não sabe, eu não sei, eu não tinha o, digamos, não era minha praia, digamos assim, né?

Eu gostava mesmo era da atividade de trabalhar com SUS, de trabalhar com os alunos, era isso que eu gostava. Então quando aconteceu esse período, eu comecei a pensar em procurar outro tipo tipo de atividade. Aí nessa, nesse meu contato com a UNIFESP, eu fiquei sabendo que a UNIFESP estava, que a UNESP estava contratando professores para aqui para Botucatu. E aí eu fui, tinha uma vaga aqui em Botucatu, e só que era período eleitoral.

Então isso foi 86, e aí eu tinha que vir e tinha que aceitar, ou naquele dia tinha que decidir num dia, e eu não tava preparada. Aí eu falei, não, não vou. Eu resolvi não vir. Então em 86 eu fui convidada, foi a primeira vez que eu vim a Botucatu. Um frio do inferno, cidade fria demais. Aí eu cheguei aqui, é mesmo, é muito frio. Eu não conheço Botucatu e na minha, no meu imaginário ela é Não, naquela época era muito frio. Hoje em dia a diferença já é menor, mas naquela época era muito frio.

Aí eu vim para Botucatu, visitei, conheci, tinha uma ex-aluna minha que até que foi contratada da clínica médica na época, na vaga que eu não fiquei. E aí eu falei, bom, gente, eu não consigo decidir isso num dia, minha vida não vai ser decidida num dia. E resolvi não vir. Aí eu fiquei mais um ano me enjundiar aí com essas atividades fora da faculdade. Aí falei, não, eu não preciso mudar disso, chega disso. Aí eu vim para Botucatu e falei, olha, eu tô aí, eu fiquei sabendo na época a Unesp desenvolveu um projeto que era, olha só como foi importante aquilo que o Dr. Pereira Barreto me disse lá atrás.

KFKen Fujioka

Na época a Unesp estava contratando professores com título de Então, quando começou, as universidades começaram a popular o seu corpo docente com doutores, né?

IDIrma de Godoy

Exatamente. Então aí eu vim para cá e fui contratada então na pneumologia em agosto de 87, certo?

KFKen Fujioka

E aí você se muda então para Botucatu e vira funcionária da Exatamente, para nunca mais sair.

IDIrma de Godoy

Pois é, até agora tô aqui ainda, tô quase na aposentadoria e na expulsória, mas ainda tô aqui.

KFKen Fujioka

Eu queria que você me contasse então dessa sua fase mais recente aí, né, que já é longa na Unesp, e todos os seus estudos, né, os seus estudos principais, todos não, né, porque se a gente ficar todos aqui a gente vai ficar uma semana gravando. Mas estudos que você considera importantes, né, que merecem destaque aí durante esses anos na Unesp como pesquisadora, professora, orientadora, evidentemente, né. O que que evoluiu na epidemiologia ao longo desses anos aí e ao longo da sua carreira? Primeira irmã?

IDIrma de Godoy

Bom, a história é muito longa, mas eu vou tentar fazer ela um pouquinho mais curta, né? Então, quando eu vim para Botucatu em 1987, aqui em Botucatu a gente tinha o departamento de clínica médica, tinha um estágio de clínica médica, e a pneumologia era a Doutora Thaís Querus, que era a única pneumologista aqui na Faculdade de Medicina. Não tinha enfermaria de pneumologia, tinha um ambulatório de falei para você, que era uma vez na semana, que fazia junto com a clínica médica.

Não tinha nada, nenhuma outra, nenhum outro, digamos, serviço aqui. Então quando eu cheguei aí, para complicar um pouquinho, quando eu cheguei a Doutora Thaís estava saindo para fazer um estágio de 2 anos no exterior, que ela acabou ficando 3. Então eu cheguei em agosto, Doutora Thaís viajou em fevereiro. Aí quando eu cheguei foi criada a enfermaria de pneumologia com 4 leitos na época. Então eu cheguei, não tinha enfermaria, não tinha laboratório, não tinha nada.

Então eu comecei a trabalhar junto com o pessoal da clínica médica e eu precisava de um orientador na época, né? E como a Doutora Thaís estava saindo, quem ficou com a minha orientação, que você precisa ter um projeto de pesquisa para desenvolver durante os 3 anos do período probatório. Então quem ficou responsável pela minha orientação foi o Dr. Álvaro Oscar Campana, que trabalhava, que era um nutrólogo, então ele trabalhava com nutrição.

E aí então eu fiz um projeto de avaliação nutricional nos pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica, né? Eu já tinha uma experiência em trabalhar com DPOC, e aí eu comecei a estudar com o Dr. Campana, fazer esse projeto. Então a minha inserção na nutrição foi por meio desse projeto de iniciação do período probatório que era necessário e que eu comecei a desenvolver junto com o pessoal da clínica médica geral e com o Dr.

Campana. E como não havia uma estrutura de pneumologia aqui em Botucatu, eu comecei, a Dra. Thaís estava saindo, eu tive que criar um núcleo. Então eu comecei a procurar. Havia na época assim, a cirurgia torácica era separada da pneumologia, né, e era praticamente muito envolvida no atendimento de pneumologia do hospital. Eu comecei, fiz uma parceria com eles. Então eu comecei a trabalhar junto com a cirurgia torácica. Acabei, a Doutora Thaís tinha pedido um aparelho de função pulmonar, eu acabei montando então o laboratório de função pulmonar, melhorando nesse laboratório.

Acabei ficando responsável por esse laboratório. Aí criamos atividades conjuntas entre a pneumologia e a cirurgia torácica. Então, porque eu tinha que ter, digamos, alguém para discutir, para fazer, não tinha nenhum pneumologista, eu era sozinha, né? E aí então a pneumologia foi construída dessa forma: eu fiquei, eu ficava responsável pelo laboratório de função pulmonar pela enfermaria, pelo ambulatório, pela— vou criar qualquer outra coisa que tivesse de serviço, eu que tinha que fazer.

Eu era a única que tinha na pneumologia, né? Então, e assim foi por alguns anos, né? Então eu fiquei com essa, com essa missão e fui construindo as coisas à medida que foi possível. Foi um trabalho, digamos, hercúleo nessa época, né? Porque realmente você construir uma especialidade dentro de uma universidade praticamente do zero, né? Então foi assim bastante um trabalho muito grande. Eu trabalhei muito. Hoje eu tenho noção, falei, eu não teria condições hoje de fazer aquilo que eu fiz, não é?

KFKen Fujioka

Tem coisas que realmente tem que acontecer numa época porque não vão acontecer em outra, né?

IDIrma de Godoy

Não, não tem condições. Eu me lembro que na época eu assisti aquele, não era o filme, não existia ainda, sabe aquele filme do livro do Stephen King, A Espera do Milagre?

KFKen Fujioka

Sim, sim.

IDIrma de Godoy

Então nesse filme tem uma, nesse livro, eu li os livros dessa época, que era, ele saiu em fascículos, e tinha uma cena que tinha um cara, falou assim, morre. Eu tive a impressão, naquela época eu tinha impressão de que eu tinha comprado um terreno construído uma casa, coberto com placas, feito uma horta e tivesse colhido tudo, tudo isso antes da hora do jantar. Então era mais ou menos essa sensação que a gente tinha, entendeu?

Mas eu acho que foi assim, foi uma época, eu tinha energia para fazer aquilo naquela época, né? Então acho que foi bem tranquilo assim, eu conseguia fazer. E tive uma ajuda espetacular do pessoal da clínica médica aqui, né? Então acho que teve essa, essa, e também da cirurgia torácica na época. Então foi uma época bastante difícil, mas que conseguimos construir alguma coisa.

KFKen Fujioka

Que bom, que bom que a UNESP contou com a sua energia, né? A sua juventude, a energia da juventude, né, irmã? Ô irmã, eu tava me lembrando que, né, que eu fui fumante durante muito tempo, né, e pensar que a gente fumava dentro de elevador, né, assim. Na verdade, acho que a coisa mais engraçada que eu já escutei foi de um ginecologista, um obstetra, né, que falou que fumava durante os partos, assim, né, era dentro da sala de parto.

Mas eu lembro também que só em 2009 nasceu a lei de antifumo, né? Na época era o José Serra, né, que tava encampando essa campanha. Mas isso já foi uma consequência, né, dos anos anteriores. A gente viu o mundo transformar o tabaco, cigarro, de fato num vilão público. Né? Quando é que, na sua memória, quando é que isso começou a ficar sério aqui no Brasil? E como é que isso conversa com a sua trajetória também?

IDIrma de Godoy

Então, na verdade, eu tenho assim o que a gente tinha de evidência na época, né? Já tá aí nessa época do ano 2000, por aí já tinha muita evidência a respeito da do tabagismo, muitas doenças, já tinha uma preocupação geral, né? Mas ainda havia aquela, digamos, aquela resistência que até hoje existe, né, da liberdade das pessoas poderem fazer o que querem, né? Mas a gente, eu tinha na época uma preocupação muito grande com isso já, porque eu acho que desde 1980 e por aí para frente já começou, já começaram digamos, o conhecimento se expandiu muito, muito da associação do tabaco com um número muito grande de doenças.

Também já começou com, já tinha as iniciativas em outros países de proibição, né, de uso em locais públicos, que já se conhecia o efeito aí importante do tabaco passivo. Então acho que esse conhecimento, a partir da década de 80, e foi crescendo de uma forma bastante consistente. A gente não tinha mais dúvida com relação à complicação associada aí a todas as consequências do tabagismo. Então é assim, eu comecei a trabalhar, eu trabalhei sempre com doença pulmonar obstrutiva crônica.

Eu acho que o que me levava muito a essa condição, primeiro é a frequência, né, porque eu acho que é tão, o tabagismo frequente, as doenças pulmonares também eram frequentes, e era a noção que se tinha de que essas pessoas, isso era inexorável, digamos assim. Se você tivesse uma doença relacionada ao tabaco, você tava destinado a morrer com ela e não tinha muita coisa que fazer. E realmente, nessa época, a gente tinha muito pouco, tanto medicação como estruturas, como todos os recursos direcionados para as doenças respiratórias.

Era muito pouco. Tabagismo era considerado um hábito, as consequências dele um castigo, e você não tinha muito como abordar esses pacientes porque não havia muita pesquisa relacionada a isso. Então isso acho que foi o que me impulsionou a realmente começar a trabalhar com pacientes com DPOC, compreender, né, Desde as consequências imediatas do cigarro, né, como as consequências tardias, compreender as complicações que isso levava, as restrições que isso levava, a falta total de políticas públicas relacionadas ao tratamento desses pacientes.

Então tudo isso fez com que isso fosse para mim uma área de pesquisa extremamente importante. E eu acho que a gente conseguiu, né, desenvolver durante esse período aqui em Botucatu uma série de ações que foram pioneiras, né. Então acho que a primeira ação que acho que foi bem importante foi a oferta na época de oxigênio para as pessoas que necessitam de oxigênio, terapia domiciliar prolongada. A gente não tinha como fazer isso, né.

Então eu participei do primeiro grupo da Secretaria de Saúde do Estado junto com o Dr. Jardim para desenvolver uma portaria para começar a trabalhar com oxigenterapia com esses pacientes. E ao mesmo tempo, depois do meu estágio no exterior, a gente começou a trabalhar também com os quadros de desnutrição e principalmente com as alterações aí, aí que começou, que eu desenvolvi mesmo a linha de pesquisa em DPOC que foi relacionada aos processos inflamatórios crônicos.

Então, que a gente— eu montei um laboratório de cultura de células aqui em Botucatu quando voltei dos Estados Unidos, e aí a gente começou a desenvolver então pesquisas nessa área. Então, resumindo, a gente começou a trabalhar com fatores de risco para doença, com tabagismo, com a doença em si do ponto de vista clínico, e depois tentando entender também quais são as condições aí, digamos, biológicas que estão alteradas e o processo inflamatório relacionado a essas doenças respiratórias crônicas.

Então acho que essa, digamos, seria uma linha mais ou menos geral assim do que a gente começou a trabalhar aqui em Botucatu.

KFKen Fujioka

Você durante esse período fez muitas formações complementares, né, fora do Brasil, Brasil assim. Eu vi formações que você fez na Suíça, na Alemanha, nos Estados Unidos, né? Quais são os países que são considerados centros de excelência, vamos dizer assim, em estudos de pneumologia e de DPOC, Irma?

IDIrma de Godoy

Então, hoje, hoje isso tá bem mais disseminado, digamos assim, né? Você tem os estudos seminais em pneumologia que foram, digamos, muito importantes para definição do papel do tabaco em doenças respiratórias, foram da Inglaterra, né, que foram os estudos de Doll e Hill, que eles fizeram os estudos nos carteiros, né, que fumavam, e nos médicos que fumavam na Inglaterra. Inglaterra e que conseguiram estabelecer a relação entre o tabaco, a doença pulmonar obstrutiva crônica e principalmente o câncer.

Então esses estudos seminais são da Inglaterra, mas hoje nós temos centros importantes na Inglaterra, temos na Holanda, temos na Austrália, temos na França, temos nos Estados Unidos muitos locais, no Canadá, né? Então são Hoje em dia isso é muito mais, digamos assim, disseminado no mundo todo. Então você tem hoje, vocês têm uma produção científica imensa chinesa, né, também a respeito de doenças pulmonares. Então a gente começou, digamos, era Inglaterra, Estados Unidos e Canadá, e depois isso se desenvolveu pela Europa como um todo, né.

Então acho que Isso trouxe um crescimento aí para pneumologia muito grande, mas na época ele era mais restrito.

KFKen Fujioka

Agora, o Brasil, Irma, é um país que dá para se considerar um país destaque na redução da prevalência de tabagismo na sua população, né? Você mesmo falou, a gente já chegou a ter perto de 40% de prevalência aqui no Brasil. E hoje a gente tá, tudo bem que nos últimos anos a gente teve um aumentinho, né, mas a gente chegou a ter abaixo de 10% de prevalência e subiu aí para 11, 12 nos últimos anos, né. Esse resultado, essa queda que a gente teve nesses anos, é considerado um case, é uma coisa respeitável dentro da comunidade médica internacional assim?

IDIrma de Godoy

Sim, o Brasil é reconhecido como um modelo de políticas públicas para controle do tabagismo, né, porque teve um resultado realmente muito evidente. Então ele é considerado assim dentro do todo. Se você, a gente tem uma convenção internacional que é o Amy Power, que são medidas que são recomendadas Organização Mundial de Saúde para controle do tabagismo. O Brasil é praticamente um dos poucos países que conseguiu implementar a maioria dessas medidas para controle do tabagismo.

Então é um case, e é um case de sucesso, né? Então é realmente, isso é bastante respeitado no mundo todo.

KFKen Fujioka

E portanto isso ajuda também o Brasil a ter mais voz na comunidade internacional a respeito disso? Como é que você sentiu isso ao longo dos anos?

IDIrma de Godoy

Eu acho que sim, a gente sempre tem. Por exemplo, quando você tem as reuniões da Convenção Quadro, que é uma convenção contra o tabaco internacional, as reuniões todas que tem da Organização Mundial de Saúde, o Brasil já coordenou, né, alguns mecanismos aí, algumas, algumas da Organização Mundial de Saúde, você tem algumas funções que estão relacionadas diretamente ao controle do tabaco. E o Brasil já foi, digamos, coordenador dessas, dessas iniciativas internacionais e já trabalhou diretamente na Organização Mundial de Saúde com desenvolvimento de políticas para todo mundo e não só para o Brasil.

Então o Brasil tem realmente um papel muito importante tanto na construção de políticas públicas, na construção de resoluções da Organização Mundial de Saúde no controle do tabaco. Então isso, por isso que para a gente é tão difícil agora ver o que tá acontecendo com os cigarros eletrônicos, né, porque realmente o Brasil sempre teve um papel de destaque nessa área.

KFKen Fujioka

É, então para quem tá vivendo em outro planeta, né, e não sabe, nos últimos anos pela primeira vez nos últimos anos a gente teve um aumento do número de fumantes no país, né, que vinha de quedas e quedas sucessivas, mas a gente teve um aumento aí nos últimos anos, especialmente por conta desses dispositivos eletrônicos, né, os chamados vapes, né. Ela é hoje a grande preocupação em relação no universo das DPOCs, irmã?

IDIrma de Godoy

Olha, a gente ainda não sabe exatamente qual vai ser a consequência do uso desses dispositivos na saúde respiratória dos jovens. A gente sabe que tem inúmeros indicadores aí de prejuízos muito evidentes diferentes, né? Já tivemos o EVALI, que era uma doença grave. Temos o pulmão de pipoca, temos as alterações relacionadas à asma, DPOC. Mas a gente tem pouco tempo de evolução. Se a gente lembrar, né, de que essas coisas que você mencionou—

KFKen Fujioka

desculpa te interromper, mas só para não perder o raciocínio— essas coisas que você mencionou, elas acontecem com os vapes e não aconteciam com Exatamente.

IDIrma de Godoy

Por exemplo, o Evale nunca aconteceu uma doença aguda com o uso do cigarro. Então é uma insuficiência respiratória aguda muito grave que aconteceu com o uso do Evale, nunca aconteceu com o uso do cigarro. Então, além dos dispositivos eletrônicos terem em comum com cigarro uma série de substâncias que são cancerígenas, que são que causam doenças respiratórias muito graves, ainda você tem o desenvolvimento dessas outras alterações que a gente não via, né, com tabaco convencional.

Então a preocupação é que a gente, por exemplo, nós demoramos 50 anos para descobrir associação do tabaco com câncer, né? Então a gente provavelmente vai verificar isso a longo prazo, as consequências totais. Mas nós já estamos tendo consequências muito precoces, né, com o uso dessas substâncias. Então acho que a preocupação hoje em dia, isso é uma preocupação muito grande, porque realmente você tá, nós estamos vendo, né, uma parcela da população muito jovem se tornando altamente dependente de nicotina e que pode vir a usar esses dispositivos por longo prazo ou começar a usar cigarro a combustível e vão ter todas as consequências aí relacionadas a esse uso.

E algumas que talvez a gente se surpreenda no futuro porque a gente ainda não conseguiu saber todas elas. A gente sabe de algumas que já nos preocupam muito, mas não sabemos de todas.

KFKen Fujioka

É, então por isso que o Altair até brinca aqui que se for para fumar vape, volta para o cigarro, porque pelo menos a gente, pelo menos a gente conhece as consequências. Ô irmã, esse é um fenômeno mundial assim? Vocês têm trocado internacionalmente sobre esse fenômeno? Que que você sabe dizer a respeito da internacionalização né? Porque a gente agora, a gente vive no mundo ainda mais globalizado, né? Então eu queria saber assim, é um fenômeno mundial?

IDIrma de Godoy

É um fenômeno mundial, né? E para você imaginar, a gente até brincava até alguns anos atrás quando a gente ia em congresso, eu que sempre participei dos grupos de tabagismo, a gente ia nas nas palestras, nas aulas. E assim, tinha, a gente falava que a gente pregava para convertido, né, porque era pouca gente que tava ali. Hoje em dia, o número de atividades que tem, congressos, reuniões, eventos nacionais e internacionais a respeito disso, é muito grande e lotado, lotado, né, porque isso virou um problema de saúde pública internacional.

Isso tá em todos os lugares. E a gente teve aí uma pequena contribuição, ou grande até, que eu acho que foi que o sistema de saúde da Inglaterra incluiu os cigarros eletrônicos como tratamento de tabaco. Então eles legalizaram isso, né? E agora estão correndo atrás do prejuízo, né? Que estão tentando—

KFKen Fujioka

eu lembro, eu me lembro que teve uma época em que eu tava tentando parar de fumar e e usei o vape durante uns meses, né, como uma alternativa de redução de danos assim, né, e quem sabe uma esperança de reduzir o consumo de nicotina, né, para deixar de fumar. E isso não aconteceu, isso não aconteceu. Pelo contrário, assim, né, aquilo manteve a minha dependência por nicotina. E pouco tempo depois eu já tava voltando para o cigarro queimado, né, o cigarro fumado assim.

Então acabei parando porque minha filha nasceu, né. No final das contas é o que fez eu parar pela oitava vez, né, porque é uma batalha, né, uma batalha de anos, né. Pela oitava vez eu parei de fumar e pela única vez das 8, eu não, eu não me vejo voltando a fumar, sabe? Assim, pela primeira, primeira vez, pela primeira vez eu não vislumbro isso assim, né? Depois de ter voltado 7 vezes. Mas esse discurso da redução de danos, né, de ser mais seguro, colou isso durante um bom tempo, viu, irmã?

IDIrma de Godoy

Sim, colou. E ainda, e ainda é disseminado esse discurso, porque a propaganda da indústria nesse sentido, né? E a gente tem vários, por exemplo, essa ação da Inglaterra foi um reforço para isso também, né? E hoje eles estão correndo atrás do prejuízo, porque estão fazendo aí a lei que não pode mais fumar depois dos 18 anos, né, quando completa, né? Então agora estão correndo atrás do prejuízo, e a gente tá passando por um período muito difícil porque a gente tem uma, é proibido pela Anvisa, mas não existe uma lei nacional que proíba.

Então é preciso transformar isso em lei, porque enquanto não for lei, a gente tá, digamos, sofrendo a possibilidade, né, vislumbrando a possibilidade de algum, por exemplo, a Soraya Tronic já fez uma, tem um projeto de lei para legalizar. Então, enquanto não tiver uma lei proibindo, a gente corre o risco de algum deputado, senador tentar aprovar uma lei que libere. Já aconteceu recentemente na Argentina.

KFKen Fujioka

Olha lá, é porque o lobby do tabaco continua bilionário, né? Então, e essas empresas, muitas das empresas de vape foram adquiridas, né, pelas grandes empresas de de tabaco, o lobby continua. Então acho que tornar essa, essa, eu gostaria que essa internacionalização desse problema tivesse mais claro na cabeça da sociedade, sabe? Porque fica parecendo às vezes que é uma exclusividade nossa, né? Essa coisa de ter um mercado clandestino, né, de venda de vapes, tal, né?

Ah, isso é muito Brasil, mas na verdade a gente tá vendo esse problema no mundo inteiro, né? E acho que isso precisa ter, isso precisa ter esse alcance mesmo. Ô Irma, estamos chegando aqui ao final do nosso tempo, e eu gosto de respeitar o tempo aqui porque a gente tá falando de pessoas bastante ocupadas como você. Mas eu não queria deixar de perguntar o seguinte, Irma: você falou que tá perto da sua aposentadoria, né? Não gosto quando pessoas importantes da nossa ciência começa a pensar em aposentadoria, mas entendo que chega uma hora que a gente precisa descansar.

O que eu queria saber é o que que você ainda gostaria de ver acontecendo antes da sua aposentadoria? Que que você tá— você é que você planeja algo também para fazer assim? Eu quero fazer isso antes de me aposentar?

IDIrma de Godoy

Então, eu acho que assim, é um momento diferente, né, na vida, quando você já passou por uma série de processos, né. Eu iniciei muitas vezes, digamos assim, reiniciei muitas vezes, né.

KFKen Fujioka

Mas eu acho que o legado tá garantido, viu, irmã. Assim, eu tô brincando aqui porque você tem todo direito de se aposentar, porque o legado já tá garantido. Mas O que mais que dá para fazer agora?

IDIrma de Godoy

Então, eu acho que assim, eu tenho muita sorte, né, Ken? Porque eu consegui formar pessoas aqui em Botucatu, né? Eu acho que hoje a gente tem um grupo de pessoas aqui em Botucatu que praticamente independe de mim, graças a Deus, né? Porque eu acho que as pessoas hoje estão fazendo, a Suzana, Liana, todo mundo estão fazendo um trabalho espetacular aqui em Botucatu. Que nós temos hoje, né? Eu que entrei aqui em 87 com a pneumologia inexistente, quase, né?

Era tudo mato, literalmente, quase mato, né? Eu não quero diminuir o trabalho da Doutora Thaís, mas era quase mato. E hoje em dia nós temos uma disciplina que, uma com reconhecimento nacional e até internacional. Então eu acho que isso para mim é o meu maior legado e é a maior coisa que eu me orgulho muito, né, e agradeço porque tive a oportunidade de encontrar pessoas que resolveram, digamos assim, a dar continuidade àquilo que eu comecei.

Então acho que esse é o meu maior legado. Então eu tenho assim claro para mim que eu fiz bastante coisa e que agora eu tô tentando, digamos, desacelerar e passar isso para as pessoas e tô conseguindo, né? Então acho que isso é bom. Do meu ponto de vista pessoal, né, eu não tenho muita ambição não, viu, Key? Eu acho que eu fiz bastante coisa. Eu não pretendo, eu não pretendo deixar tudo. Eu ainda trabalho com os alunos, gosto muito de fazer isso, faço reuniões científicas aqui na disciplina.

Acho que isso é bastante importante e e tô me preparando, digamos assim, para uma atividade que não me exija tanto.

KFKen Fujioka

Por exemplo, eu tô fazendo hoje, né, um curso de perícia médica, né, que então é verdade, eu vi aqui que foi, essa foi sua última formação técnica, última que eu digo, mais recente, né? Isso, isso, perícia médica.

IDIrma de Godoy

Exatamente, porque é uma área assim, eu durante toda todas as minhas atividades aí como docente, como professora, como médica, como presidente da sociedade, como diretora do hospital aqui, né, que eu fui. Durante todo esse período eu tive que trabalhar muito sempre com laudos, dar pareceres e não sei o quê. E eu não tinha formação nenhuma, fazia achando que tava fazendo certo, né. Aí eu resolvi me dedicar a essa questão, tá em curso essa especialização, tô fazendo aí no segundo ano agora.

Então acho que é uma outra, digamos, iniciando uma outra carreira aí, quem sabe.

KFKen Fujioka

Que legal, que legal!

IDIrma de Godoy

Agora eu vou continuar por aqui um pouco.

KFKen Fujioka

Já que você tocou nesse assunto, eu vi aqui que o seu trabalho já tem um título do mínimo provisório, né? Você pode mudar até o final na entrega, mas assim, doença respiratória crônica grave, uma lacuna da lei e os critérios que podem preenchê-la. Que lacuna na lei é essa que você tá tratando no seu trabalho de especialização, Irma?

IDIrma de Godoy

Então, na verdade, é o seguinte: a gente tem uma, por lei você tem um elenco aí de doenças que dão direito ao aposentado não ter desconto de imposto de renda. Doença cardíaca grave, hepática grave, nefropatia, alienação mental, uma série de doenças aí que são definidas em lei. E a doença pulmonar, a doença crônica respiratória, doença terminal avançada, ela causa uma incapacidade física brutal, ela associado com gasto de saúde brutal, né, como todas as outras doenças crônicas que estão elencadas em lei.

E não tem só a única doença respiratória que tá elencada nessas doenças é tuberculose ativa e a fibrose cística, que é uma doença genética praticamente infantil, que agora tá mudando um pouquinho. Mas para doença respiratória, por exemplo, nossos pacientes com doença terminal tem que usar oxigênio, tem que ter cuidador, tem que ter um monte de medicação, e eles não têm esse reconhecimento. Então a gente tá propondo, né? A gente tá agora na fase com a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Fisiologia, por meio da, da, de uma diretoria de relações institucionais, trabalhando no Congresso Nacional para que um deputado faça um projeto de lei para incluir essa, as doenças respiratórias avançadas, dentro do rol de patologias que dão direito desconto de imposto de renda para as pessoas portadoras.

KFKen Fujioka

Ah, entendi. Então aqui existe um objetivo ali de contribuir na elaboração de uma política pública específica para isso assim.

IDIrma de Godoy

Exatamente.

KFKen Fujioka

Quer dizer, também não é uma nova carreira tão leve assim, né, irmã?

IDIrma de Godoy

Como diria meu pai, procurando sarna para se coçar.

KFKen Fujioka

É, então, porque não é fazer crochê, né? Que você não tá saindo da faculdade para fazer crochê. Irma, foi uma delícia conversar com você, conhecer só um pouco da sua trajetória. Porque assim, sem brincadeira, gente, eu não costumo falar dos currículos lattes das pessoas que a gente entrevista aqui, mas vocês vocês precisam visitar o Lattes da Irma, tá? Talvez seja um dos mais longos que eu já vi, que eu já vi aqui entre as entrevistas que a gente fez.

Ele é realmente gigantesco, tá? Então, de com certeza, a vida profissional da Irma não caberia aqui nem em 10 entrevistas, mas espero que vocês tenham conhecido um pouco mais sobre ela, inspirado na carreira dela. Irma, muito obrigado pelo seu tempo, de verdade, muito obrigado principalmente pela contribuição à sociedade que você deu por meio da ciência, por meio da medicina. E espero então que agora suas alunas, né, sua ex-aluna, deem continuidade ao seu trabalho para que você possa se dedicar à perícia médica.

Então, a partir daí, tá bom, irmã? Deixa aí o seu, a sua despedida, seu tchau para as nossas ouvintes e para os nossos ouvintes.

IDIrma de Godoy

Bom, eu agradeço aí a oportunidade, foi muito interessante, foi muito agradável, né, revisitar todo esse passado. É óbvio que nós não conseguimos fazer tudo, mas eu acho que foi bastante interessante. Você conduziu muito bem, agradeço muito oportunidade. Tenho certeza que a pneumologia de Botucatu vai continuar brilhando aí com as meninas. Elas são super competentes, super ativas, então não tenho nenhuma dúvida disso, né? E espero que sirva de alguma inspiração para algumas pessoas, que as dificuldades estão aí, né?

Existe muita dificuldade em construir uma carreira, mas que é possível, né? Que a gente trabalhando direitinho, tentando vencer as as dificuldades, enxergando dificuldade como oportunidade, a gente consegue chegar lá. Então agradeço muito a oportunidade da discussão e gostei muito de participar. Muito obrigada.

KFKen Fujioka

Imagina, irmã, a gente é que agradece. Foi uma honra. E Naru Rodô, ilustríssimo ouvinte! E você já sabe, aqui no Naru Rodô quem faz a pauta é você. Você tem alguma pergunta para gente ou quer comentar algum episódio, escreva para nós, podcast@naruodo.com.br. Repetindo, podcast@naruodo.com.br. E lembre-se, mande nome completo, idade, profissão e a cidade de onde você está falando.

ADAltay de Souza

É isso aí.

IDIrma de Godoy

É apresentado por B9.com.br.