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Naruhodo Entrevista #73: Fernanda Leite

03 de agosto de 20261h19min
0:00 / 1:19:31

Na série de conversas descontraídas com cientistas, chegou a vez da Professora, Pesquisadora, graduada em Arquitetura e Urbanismo, com Mestrado em Engenharia e Doutorado em Engenharia Civil e Ambiental, e atual Vice Presidente de Pesquisa da Universidade do Texas em Austin, Fernanda Leite.

Só vem!

>> OUÇA (79min 32s)

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Naruhodo! é o podcast pra quem tem fome de aprender. Ciência, senso comum, curiosidades, desafios e muito mais. Com o leigo curioso, Ken Fujioka, e o cientista PhD, Altay de Souza.

Edição: Reginaldo Cursino.

http://naruhodo.b9.com.br

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Fernanda Leite é Professora, Pesquisadora, graduada em Arquitetura e Urbanismo, com Mestrado em Engenharia e Doutorado em Engenharia Civil e Ambiental, e atual Vice Presidente de Pesquisa da Universidade do Texas em Austin, Estados Unidos.

Especialista em modelagem de informação da construção (BIM), engenharia de construção e engenharia de sistemas resilientes, sua pesquisa explora a integração de modelagem 3D e inteligência artificial (IA) para criar infraestruturas sustentáveis e adaptáveis.

Como decana associada de pesquisa da Cockrell School of Engineering, Leite ajudou a lançar grandes iniciativas interdisciplinares em semicondutores, ciência quântica, robótica e IA.

Também liderou esforços em todo o campus, incluindo o grande desafio Planet Texas 2050. Leite possui doutorado pela Carnegie Mellon University e é engenheira profissional licenciada.

Fernanda traz uma abordagem colaborativa e voltada para o futuro à liderança em pesquisa – avançando a missão da UT Austin de se tornar a universidade pública de pesquisa de maior impacto do mundo.

Qualificações Acadêmicas

Ph.D., Carnegie Mellon University, 2009
M.S., Federal University of Rio Grande do Sul, 2005
B.S., Federal University of Ceara, 2002

Prêmios e Honrarias Selecionados

Daniel W. Halpin Award – American Society of Civil Engineers (2019) 

IAspire Leadership Academy fellow (2019)

Ervin S. Perry Student Appreciation Award – Fariborz Maseeh Department of Civil, Architectural and Environmental Engineering (2018) 

Dean’s Award for Outstanding Engineering Teaching by an Assistant Professor – The University of Texas at Austin (2013-14) 

Outstanding Early Career Researcher Award – FIATECH (2013) 

Áreas de Pesquisa

Construction Engineering and Project Management

Sustainable Systems

Interesses de Pesquisa

Building information modeling (BIM); Scan-to-BIM; Circular economy in the built environment; Sustainable systems engineering; Visualization and collaboration technologies

Publicações Selecionadas

https://scholar.google.com/citations?user=MGRRt2YAAAAJ

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APOIE O NARUHODO!

O Altay e eu temos duas mensagens pra você.

A primeira é: muito, muito obrigado pela sua audiência. Sem ela, o Naruhodo sequer teria sentido de existir. Você nos ajuda demais não só quando ouve, mas também quando espalha episódios para familiares, amigos - e, por que não?, inimigos.

A segunda mensagem é: existe uma outra forma de apoiar o Naruhodo, a ciência e o pensamento científico - apoiando financeiramente o nosso projeto de podcast semanal independente, que só descansa no recesso do fim de ano.

Manter o Naruhodo tem custos e despesas: servidores, domínio, pesquisa, produção, edição, atendimento, tempo... Enfim, muitas coisas para cobrir - e, algumas delas, em dólar.

A gente sabe que nem todo mundo pode apoiar financeiramente. E tá tudo bem. Tente mandar um episódio para alguém que você conhece e acha que vai gostar.

A gente sabe que alguns podem, mas não mensalmente. E tá tudo bem também. Você pode apoiar quando puder e cancelar quando quiser. 

O apoio mínimo é de 15 reais e pode ser feito pela plataforma ORELO ou pela plataforma APOIA-SE. Para quem está fora do Brasil, temos até a plataforma PATREON.

É isso, gente. Estamos enfrentando um momento importante e você pode ajudar a combater o negacionismo e manter a chama da ciência acesa. Então, fica aqui o nosso convite: apóie o Naruhodo como puder.

bit.ly/naruhodo-no-orelo

Participantes neste episódio3
A

Altay de Souza

Hostjornalista
K

Ken Fujioka

HostPublicitário
F

Fernanda Leite

ConvidadoProfessora, Pesquisadora, Vice Presidente de Pesquisa da Universidade do Texas em Austin
Assuntos7
  • Carreira acadêmica USP· EducacaoAssistant Professor · Associate Professor com tenure · Full Professor · Associate Dean for Research · Vice Presidente de Pesquisa · Impacto da pesquisa acadêmica
  • Trajetória profissional e acadêmica· EducacaoInfância e mudança familiar · Formação em Arquitetura e Urbanismo · Mestrado e Doutorado nos EUA · Carnegie Mellon University · Universidade do Texas em Austin
  • Crises e Resiliencia· SociedadeModelagem de informação da construção (BIM) · Inteligência Artificial na engenharia · Infraestruturas sustentáveis e adaptáveis · Engenharia de sistemas resilientes · Mudanças climáticas
  • Pesquisa em BIM· TecnologiaCoordenação de projetos em 2D vs 3D · Detecção de conflitos (clash detection) · Modelagem de informação · Gates Building (Carnegie Mellon)
  • Experiências na academia· EducacaoFinanciamento de doutorado (stipend, tuition) · Graduate Research Assistant (GRA) · Teaching Assistant (TA) · Exame de qualificação de doutorado
  • Customização em massa em habitação popularPrograma de Arrendamento Residencial (PAR) · Adaptação de espaços residenciais · Necessidades familiares e uso do espaço
  • Segurança do trabalho e desenho universalPrevenção de acidentes em obras · Design para todas as habilidades · Interação cidadão-ambiente construído
Transcrição93 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
FLFernanda Leite

Terminei escola em Fortaleza, fiz graduação na Federal do Ceará, foi onde eu conheci o meu marido na faculdade. Nós fomos juntos para Porto Alegre para fazer mestrado na Federal do Rio Grande do Sul e de lá viemos nós dois fazer doutorado aqui nos Estados Unidos, na Pensilvânia, na Carnegie Mellon University. Eu passei a fazer pesquisas na área de segurança do trabalho. E dar aula de liderança de segurança, mas agora focada em construção.

Como é que a gente foca para criar múltiplas camadas de proteção para as pessoas que estão trabalhando naquela obra, para que elas possam voltar para casa do mesmo jeito que elas chegaram. Hoje em dia, até a pesquisa que eu faço é de Resilient Systems Engineering. Então, de certa forma, eu faço pesquisa em sustentabilidade mais técnica, de tentar desenvolver assim modelagem de infraestrutura para proteção de comunidades com relação à mudança climática.

Hoje em dia as pessoas nem precisam programar mais, que você pode usar AI para programar para você, mas você precisa ter computational thinking fundamentalmente. Então você precisa entender como é que você cria aquela estrutura. Então fundamentalmente é super importante você você entender estrutura de dados.

?Voz B

Naru Rodô entrevista Fernanda Leite.

FLFernanda Leite

Naru Rodô podcast.

?Voz B

Ilustríssimo ouvinte, ilustríssimo ouvinte do Naru Rodô. O Altair e eu temos duas mensagens para você. A primeira é muito, muito obrigado pela sua audiência. Sem ela, o Naruhodo sequer teria sentido de existir. Você nos ajuda demais, não só quando ouve, mas também quando espalha episódios para familiares, amigos e, por que não, inimigos. A segunda mensagem é: existe uma outra forma de apoiar o Naruhodo, a ciência e o pensamento científico.

Que é apoiando financeiramente o nosso projeto de podcast semanal independente, que só descansa no recesso do fim do ano. Manter o Narodô tem custos e despesas: servidores, domínio, pesquisa, produção, edição, atendimento, tempo, enfim, muitas coisas para cobrir, e algumas delas em dólar. A gente sabe que nem todo mundo pode apoiar financeiramente, e tá tudo bem. Tente mandar um episódio para alguém que você conhece, conhece e acha que vai gostar.

A gente sabe que alguns podem, mas não mensalmente, e tá tudo bem também. Você pode apoiar quando puder e cancelar quando quiser. O apoio mínimo é de R$15 e pode ser feito pela plataforma Orelo ou pela plataforma Apoia.se. Para quem está fora do Brasil, temos até a plataforma Patreon. É isso, gente, estamos enfrentando um momento importante e você pode ajudar a combater o negacionismo e manter a chama da ciência acesa. Então fica aqui o nosso convite: apoie o Narodô como puder.

Ilustríssima ouvinte, ilustríssimo ouvinte, seguimos com a série Narodô Entrevista, que está trazendo conversas descontraídas com cientistas brasileiras e brasileiros que contam sobre suas trajetórias, seus pensamentos e seus campos de atuação. Neste episódio, vamos falar com a Fernanda Leite. Fernanda Leite é professora, pesquisadora, graduada em arquitetura e urbanismo, com mestrado em engenharia e doutorado em engenharia civil e ambiental, e atual vice-presidente de pesquisa da Universidade do Texas em Austin, nos Estados Unidos.

Especialista em modelagem de informação da construção, BIM, engenharia de construção e engenharia de sistemas resilientes, sua pesquisa explora a integração de modelagem 3D e inteligência artificial para criar infraestruturas sustentáveis e adaptáveis. Como decana associada de pesquisa da Cockrell School of Engineering, Leite ajudou a lançar grandes iniciativas interdisciplinares em semicondutores, ciência quântica, robótica e IA.

Também liderou esforços em todo o campus, incluindo o grande desafio Planet Texas 2050. Leite possui doutorado pela Carnegie Mellon University e é engenheira profissional licenciada. Fernanda traz uma abordagem colaborativa e voltada para futuro à liderança em pesquisa, avançando a missão da UT Austin de se tornar a universidade pública de pesquisa de maior impacto no mundo. Vamos então para a conversa com a Fernanda. Fernanda, muito obrigado por ter topado falar com a gente no Narodô, ter aberto um tempinho na sua agenda.

Por favor, dê aí o seu primeiro oi para as nossas ouvintes e para os nossos ouvintes.

FLFernanda Leite

Fernanda, muito prazer estar aqui com vocês como brasileira, apesar de eu morar no exterior há muito tempo, mas tenho muito prazer de sempre conversar com outros brasileiros, especialmente quando é sobre ciência também, sobre carreira profissional.

?Voz B

Muito legal, Fernanda, brigadão de novo. Fernanda, eu vou começar com você como eu começo com todas as pessoas que a gente entrevista aqui no Naru Rodô. Eu quero saber quando você nasceu, onde você nasceu e em que contexto familiar socioeconômico você nasceu.

FLFernanda Leite

Fernanda, eu nasci no final da década de 70, não vou falar o ano exato para É uma menina, é uma menina.

?Voz B

Eu nasci em 70, assim redondo, então para mim é tudo menina.

FLFernanda Leite

Eu nasci em Recife, Pernambuco, mas nunca morei muito tempo, apesar de ser pernambucana, nunca morei muito tempo em Recife. Com 6 meses minha família mudou. Meu pai era pesquisador da Embrapa, aposentado hoje.

?Voz B

Legal.

FLFernanda Leite

E então a gente se mudou muito quando eu era criança. A gente morou em Campina Grande, na Paraíba, morou em Fortaleza. Mas o tempo mesmo que eu lembro como criança no Brasil é o tempo em Fortaleza, que é de onde a minha família é. Meu pai e minha mãe são de Fortaleza, nascidos e criados. Meu pai nasceu em outro estado, mas foi criado também em Fortaleza. E com 4 anos, meu pai, naquela época, na década de 80, não haviam muitos doutores na Embrapa, cientistas.

Então o governo federal fez aquele investimento de mandar os seus pesquisadores para o exterior para estudarem, desenvolverem e terem doutorado. Então, por isso que nós fomos como família. Eu tinha 4 anos de idade quando viemos pela primeira vez morar aqui no Texas para o meu pai fazer mestrado.

?Voz B

Já foi no Texas daquela vez? Já foi no Texas?

FLFernanda Leite

Foi naquela época, sim. Mas foi em outra universidade. O meu pai fez mestrado E depois ele voltou para fazer doutorado. Então a gente morou aqui em duas instâncias quando eu era criança. Eu tinha de 4 a 7, depois dos 10 aos 14 anos que ele fez o mestrado e doutorado com o mesmo orientador na Texas A&M University, que é uma universidade que é bem focada em agricultura. E aí quando voltamos para o Brasil, para Fortaleza, quando ele terminou o doutorado, eu tinha 14 anos.

Terminei escola em Fortaleza, fiz graduação na Federal do Ceará. E depois foi onde eu conheci o meu marido na faculdade. Nós fomos juntos para Porto Alegre para fazer mestrado na Federal do Rio Grande do Sul, e de lá viemos nós dois fazer doutorado aqui nos Estados Unidos, na Pensilvânia, na Carnegie Mellon University, que é uma universidade bem focada em computação.

?Voz B

A Fernanda deu um salto aqui já da infância para pós-graduação. A gente vai voltar um pouquinho no tempo, tá, Fernanda? Eu quero entender Primeiro assim, você tem irmãos? Você, ou a Fernanda era a única pimpolha da casa que ficava pulando de país para país aí?

FLFernanda Leite

Eu sou a filha do meio, eu tenho uma irmã mais velha e um irmão mais novo.

?Voz B

E eles também foram para vida acadêmica ou não?

FLFernanda Leite

Toda a nossa família mora no Brasil. Minha irmã é coordenadora de um curso de inglês, então ela sempre— a vantagem que a gente teve também de morar aqui por muitos anos quando crianças foi receber a fluência da língua. Então ela acabou tirando aquilo, virando a carreira dela, né? Primeiro como professora de inglês e depois hoje é coordenadora de um curso de inglês. E o meu irmão é psicólogo.

?Voz B

Ele é o caçula.

FLFernanda Leite

Ele é o caçula. Ele trabalha com crianças no espectro autista e ele também tem doutorado. Então tem várias pessoas ao meu redor com Com doutorado.

?Voz B

Então você já vem de uma família de pesquisadores, né? Ou pelo menos seu pai pesquisador. Eu queria entender o quanto isso foi importante para sua decisão de vida. Que é que puxou você para faculdade que você acabou fazendo assim, sabe? Como é que se deu essa decisão? Ou se foi igual o meu colega de podcast, o Altair, né, que tava em dúvida entre dois cursos, jogou o dado.

FLFernanda Leite

No meu caso, a influência de seguir essa área, que a área mesmo que eu me identifico é na área de inglês, construction engineering, de engenharia de construção de empreendimentos. Meu avô, o pai do meu pai, era empreendedor. Então ele construía edificações verticais no boom da construção no Brasil da década de 80. Então eu me lembro Eu me lembro de um dia indo numa obra com ele aos 8 anos de idade e ficar extremamente fascinada com aquele caos daquela obra de uma edificação.

E eu lembro daquele dia pensando assim, eu quero trabalhar com isso. Então foi por isso que eu comecei a seguir aquela carreira. Mas durante a minha graduação eu também dava aula de inglês, assim como a minha irmã, porque eu tinha fluência. E era uma forma fácil para mim de ganhar dinheiro trabalhando poucas horas, que eu dava, eu acho que eu dava aula de inglês duas vezes por semana. E eu também tinha bolsa de iniciação científica na universidade.

Eu acho que as 4 horas que eu trabalhava dando aula de inglês era a mesma coisa que a bolsa mensal de iniciação científica. Então era uma coisa fácil para mim, eu gostava. E eu lembro de uma conversa que eu tive com meu pai, e eu perguntei para o meu pai: olha, eu tô adorando dar aula de inglês, eu só vendo os alunos aprenderem, mas eu gosto muito de construção, eu tô fazendo uma faculdade para nessa área técnica, eu quero, eu não quero ser professora de inglês o resto da minha vida, mas eu não sei o que eu faço.

E eu lembro do meu pai falando: ah, então você pode juntar as duas coisas. Eu Como é que junta essas duas coisas? Ah, você pode ser professora universitária. E aí eu perguntei para ele, aí, como é que, o que que eu preciso fazer para ser professora universitária? Ah, você precisa de um doutorado para isso. Então foi por isso que eu comecei a pensar, então como é que eu tenho que me posicionar para fazer um curso de doutorado, antes disso mestrado, e assim por diante. Mas foi meu avô que me inspirou.

?Voz B

Que ótimo! Ô Fernanda, eu vou fazer uma pergunta mais específica, vou tentar fazer você puxar pela memória, porque já faz algum tempo, mas você falou que fez iniciação científica logo na graduação, certo? Você se lembra o que que você estudou na iniciação científica? O que que foi o tema? Foi um trabalho que o próprio orientador já tava desenvolvendo? O que que foi?

FLFernanda Leite

Não, eu tinha interesse, como eu tinha interesse em obra, então eu tinha interesse em segurança do trabalho. Então eu, mas eu queria entender como é que, como é que o projeto de edificações pode vir a causar acidentes no ambiente construído, não necessariamente acidentes em obra, só acidentes de você como cidadão andando pela rua E o prédio já pronto, você diz, o prédio já pronto, até uma calçada na rua. Como é que você, como cidadão, andando pela rua, interage com o ambiente construído?

E aquela forma como a gente faz o design daquele ambiente construído gera acidentes na forma como você interage. Então eu fiquei, tive que coletar meus dados no maior hospital regional do Ceará. Que eu passei, eu passei acho que mais de um mês assim na emergência. As pessoas chegavam na emergência e a pergunta que eu fazia é como é que o acidente foi causado, para tentar fazer uma triagem e entender se foi isso.

?Voz B

É só para triagem, é só para pegar se esse é um caso que interessava para você, que interessava para mim.

FLFernanda Leite

Então aí eu tentava identificar quais eram as causas daquilo. Então teve toda uma análise, tive que aprender estatística para fazer toda análise dos dados. Mas uma coisa que eu aprendi naquela experiência é nunca andar de moto, porque a maioria dos acidentes que chegavam lá eram de moto. Mas não tinha nada a ver com o que eu tava pesquisando, mas foi um grande aprendizado.

?Voz B

Mas é uma conclusão que a gente acaba tirando, é isso? É, muitos medicamentos acabam sendo desenvolvidos para uma doença e úteis para outra, né?

FLFernanda Leite

Mas assim, aquilo, aquilo me levou a aprender sobre uma área chamada desenho universal. Então é um desenho, um jeito de projetar para pessoas de todas as habilidades. Então você começa a projetar uma calçada pensando em pessoas que têm dificuldade de mobilidade, que andam de cadeira de rodas. Então você começa a pensar no ambiente construído de outra forma. E muitos anos depois eu passei já na Universidade do Texas, tipo um full circle moment, eu passei a dar onde fazer pesquisas na área de de segurança do trabalho e dá aula de liderança de segurança, mas agora focada em construção.

Como é que a gente foca em desenvolver uma obra ou criar toda a estrutura de uma obra para proteger, para criar múltiplas camadas de proteção para as pessoas que estão trabalhando naquela obra, para que elas possam voltar para casa do mesmo jeito que elas chegaram?

?Voz B

Sei. Ô Fernando, tava imaginando aqui Sua cabeça na época, né, de uma mulher interessada em obras, né, no curso de engenharia. As mulheres já são minoria, né, no curso de engenharia em geral. Você encontrou a sua turma na faculdade assim, de outras pessoas, inclusive mulheres, que também tinha esse mesmo entusiasmo que você por essa área?

FLFernanda Leite

Uma curiosidade, meu curso de graduação é em arquitetura e urbanismo. E eu fiz mestrado e doutorado em engenharia civil. É claro que hoje eu me identifico mais como engenheira. Aqui nos Estados Unidos eu tenho a licença de Professional Engineer, então eu posso exercer como engenheira, não como arquiteta. Então, para aqui, legalmente, eu sou engenheira. Mas nos primeiros 6 meses da faculdade eu percebi que arquitetura não era para mim.

Então eu sempre, eu sempre, mas naquela época, hoje em dia mudou a forma como você entra nas faculdades, tinha que fazer vestibular e era super competitivo, era um ano estudando para aquilo. Então eu pensei assim, ah, eu vou, eu vou ficar e vou focar nos meus estágios, as minhas experiências, no que eu quero fazer, vou montar as minhas próprias experiências e depois eu vou fazer vou fazer mestrado na área que eu quero, que foi um mestrado na Engenharia Civil na UFRGS, na Federal do Rio Grande do Sul, que era muito focado em construção, em gerenciamento de construção.

Então foi essa trajetória que eu tive. Então na arquitetura tinha um balance bom, tinha, eu acho que era meio a meio, mas a minha cabeça sempre foi um pouco diferente dos meus colegas da faculdade.

?Voz B

Entendi. Então você foi conhecer sua turma mesmo para valer no mestrado, é isso?

FLFernanda Leite

No mestrado. São pessoas que eu acho que pensam mais, mais assim como eu penso, como eu raciocino, pelo menos.

?Voz B

Sei, sei. E você acabou indo então lá para o Rio Grande do Sul, né? Você já tinha na cabeça o que você queria estudar no mestrado ou foi uma nova descoberta o mundo da pós-graduação?

FLFernanda Leite

Quando eu fui para a UFRGS, eu achei que ia estudar— e engraçado como o mundo dá voltas, assim como hoje a dar aula de segurança do trabalho, eu também tive essa mesma experiência no mestrado, que eu fui para a UFRGS achando que ia estudar sustentabilidade no ambiente construído. Então eu fui para trabalhar com um professor específico que eu queria estudar sustentabilidade. Na primeira aula, eu não sei o que que era a voz do professor, mas eu lembro do— e o meu marido também fazia mestrado na UGS comigo, ele também tava fazendo a mesma disciplina sentado do meu lado.

E eu lembro dele me cutucando com um lápis para me acordar, porque eu tava— aquela aula tava me— era um sonífero. E eu saí de lá assim, eu não vou conseguir fazer, estudar com essa pessoa, eu não consigo. Tem alguma coisa na tonalidade da forma que ele, que ele fala. E ao mesmo tempo eu fiz uma outra disciplina com quem veio a ser meu orientador do mestrado, que é o Carlos Formoso. E eu fiquei extremamente apaixonada e lembrei daquele momento da minha infância que eu visitava obras com meu avô.

Então eu pensei assim, ah, é isso que eu quero fazer. E é isso a forma como eu penso, bem assim bem, bem de gerenciamento mesmo, de desenvolvimento de projetos, de delivery de projetos complexos. É isso que eu quero fazer. Então não foi esse o motivo que eu fui para a UFRGS, mas me encontrei naquele grupo de gerenciamento de construção. Meu marido foi quem fez mestrado com o professor de sustentabilidade.

?Voz B

O professor que dava sono.

FLFernanda Leite

Que dava sono, pelo menos para mim. Para ele não tinha efeito algum. Mas aí no futuro, assim, anos depois, já aqui na Universidade do Texas, eu dentro da engenharia, tem a engenharia é bem, bem siloed, né? Tem as áreas na civil de estrutura, geotecnia, construção ambiental, e a gente tinha uma dificuldade de fazer muito cross-disciplinary research. Então cross-disciplinary, um cross-disciplinary graduate program chamado Sustainable Systems Engineering, então engenharia de sistemas sustentáveis.

Então meio que voltei. Hoje em dia até a pesquisa que eu faço é de resilient systems engineering. Então de certa forma, eu hoje em dia eu faço, eu faço pesquisa em sustentabilidade, mas bem, bem mais técnica, de tentar desenvolver assim modelagem de infraestrutura para proteção de comunidades com relação à mudança climática.

?Voz B

Perfeito. Fernanda, me conta, nesse mestrado, me conta um pouquinho mais em detalhes o que você conseguir lembrar, obviamente, né, que era o seu trabalho, né, como era o seu trabalho, que e um aprendizado que você tirou dali?

FLFernanda Leite

O interessante é que naquela época, isso é no início dos anos 2000, tinha um programa de habitação popular no Brasil que era fomentado pela Caixa chamado Programa de Arrendamento Residencial, PAR. Então eles estavam construindo edificações pelo Brasil todo em massa E todas, todas as unidades eram unidades pequenas de 2 quartos, 1 banheiro, todas idênticas. E eu comecei a estudar sobre um conceito chamado customização em massa.

Então é uma forma de você, você, e eu comecei a estudar como é que as pessoas estavam utilizando ali o ambiente construído uma vez que elas estavam morando no espaço. E quais as modificações que as pessoas estavam fazendo para adaptar aquele espaço para suas necessidades específicas, a sua família. Então eu visitei e entrevistei centenas de moradores de empreendimentos PAR pelo Rio Grande do Sul. Então eram em Pelotas, em Passo Fundo, em várias cidades no Rio Grande do Sul.

Então eu passava muito tempo viajando pelo Rio Grande do Sul entrevistando essas famílias e visitando os espaços e documentando em plantas baixas, em fotos, quais eram essas adaptações e modificações do ambiente construído que elas estavam implementando. E isso chamou atenção da Caixa e a gente acabou indo para o Ministério das Cidades e apresentando esses resultados. A gente apresentou em vários estados os resultados, como é que você consegue fazer pequenas adaptações em planta que não aumenta o custo?

Porque esse é um dos constraints, né? Você tinha que manter aquele custo porque era um programa de habitação popular. Mas se você fizer uma customização em massa, pequenas modificações, você consegue manter aquele custo baixo, mas ao mesmo tempo você cria versões daquelas unidades que podem ser melhor utilizadas pela variedade de pessoas que têm necessidades diferentes.

?Voz B

Você se lembra de algum exemplo assim, Fernanda, de uma pequena mudança que fazia diferença, ou que a maioria das, ou grande parte das famílias já tava fazendo por iniciativa própria.

FLFernanda Leite

Tinham unidades que as pessoas tiravam a parede entre um quarto e outro, e se era uma pessoa só morando ou duas pessoas, dois adultos. E era isso que a gente tava tentando documentar também, como é que era o núcleo familiar também, que isso depende do tipo de núcleo daquela família, daquela unidade familiar, como é que eles usam aquele ambiente. Às vezes é quebrando a parede para fazer um quarto maior, e ao invés de 2 quartos é um quarto maior.

A maioria das adaptações eram ou dividindo ambientes ou unindo ambientes ou juntando ambientes. Então, dependendo do que você precisava, e tinham várias outras pequenas adaptações, mas as grandes eram essas. E isso é uma coisa que não é complexa de fazer na hora de você construir esses grandes espaços, grandes empreendimentos também.

?Voz B

Agora, você, como é que foi o doutorado? Você emendou mestrado no doutorado? Você fez doutorado no Brasil ou já nos Estados Unidos? Como foi essa história toda?

FLFernanda Leite

Quando eu tava terminando o mestrado na Federal do Rio Grande do Sul, um professor brasileiro que tava, que era professor na Carnegie Mellon University, veio dar um curso de uma semana. Naquela época era era machine learning, aprendizado de máquinas aplicado à engenharia civil, a problemas de engenharia. E era uma coisa bem inovadora para aquela época. Hoje a gente fala de AI e tudo, todo mundo sabe o que é AI, mas naquela época era uma coisa bem, bem de ponta.

E eu fiz esse curso e era um curso curto. No caso, ele veio durante o verão dele, né? No verão aqui a gente Como professor, a gente trabalha 9 meses para universidade, os 3 meses de verão a gente foca em pesquisa, não tem aula nos 3 meses de verão aqui. E esse curso, no final da semana, da semana ele perguntou: você quer fazer doutorado nos Estados Unidos? Você se interessa? Porque se você se interessar, pode ser que eu consiga um aqui.

Não é bem— eu posso até explicar a diferença entre bolsa e e como é que funciona aqui, porque é diferente do Brasil. Mas então ele meio que falou, ah, consigo o equivalente a uma bolsa para você, para trabalhar num projeto. E a primeira coisa que saiu da minha boca, que eu pensei assim, tudo bem, mas só se tiver uma oportunidade também para o meu marido. Porque a gente também, para mim, eu acho que é super importante você saber quais são as suas prioridades.

Então É, sempre foi muito importante para mim ser feliz, você ser feliz no trabalho, mas também em casa. Então eu sempre tentei identificar oportunidades, e meu marido também, que fossem boas para nós dois.

?Voz B

Então a gente sempre abraçasse a vida de vocês.

FLFernanda Leite

Isso. Então a gente, por isso que a gente foi para Porto Alegre, porque nós dois entramos no mestrado, nós dois tínhamos bolsa. Naquele mestrado. E a gente foi para Porto Alegre porque tinha oportunidades boas para nós dois. Então, para o doutorado foi da mesma forma. Então, um mês depois, esse professor ligou de volta para mim e ele falou, pronto, eu consegui duas bolsas, duas vagas em dois projetos, um para trabalhar comigo e é sobre XYZ, e outro para trabalhar com a minha colega, a Burcu Akinci sobre ABC.

Vocês se resolvem entre si porque eu não vou entrar em briga de marido e mulher. Então, então a gente viu o que que era o tema dos projetos e eu decidi trabalhar com quem veio a ser minha orientadora de doutorado, a Burcu Akinci, e ele trabalhou com o Lúcio Soiberman, que é o brasileiro que naquela época era professor da Carnegie Mellon. Hoje ele é professor da Universidade University of Southern California em Los Angeles.

?Voz B

Então, e o seu marido?

FLFernanda Leite

Meu marido é Daniel Oliveira, ele é diretor de pesquisa do Construction Industry Institute, que é um instituto de pesquisa que é parte da Universidade do Texas, que desenvolve pesquisas da indústria da construção, mas é mais focado em heavy industrial projects, tipo construção.

?Voz B

Mas deu certo dele ir no mesmo, para a mesma universidade no doutorado?

FLFernanda Leite

Sim, nós começamos os doutorados juntos em janeiro de 2006. Então ele trabalhando com o Lucius Soiberman e eu trabalhando com a Burcho Kind, dois projetos totalmente diferentes. Então fizemos o doutorado juntos também, os dois trabalhando como Graduate Research Assistants. Então essa é a parte que é diferente, acho, com alunos brasileiros.

?Voz B

Acho que você pode explicar aqui, vamos abrir esse parênteses para explicar a diferença de bolsa e financiamento aí Brasil e Estados Unidos?

FLFernanda Leite

Sim, então a diferença é que aqui, como aluno de doutorado, aluno de pós-graduação, os professores, como eu falei assim, eu como professora de engenharia, eu, o meu salário de 12 meses de salário, 9 meses do ano vem do orçamento da universidade e 3 meses, 3 meses de verão, vem do meu orçamento de pesquisa. Então a gente tá sempre correndo atrás de projetos de pesquisa porque é o que eu, onde eu vou receber meu salário de verão.

Se eu não tiver pesquisa de verão, eu posso pegar aquele meu salário de 9 meses e dividir por 12 e receber um contracheque por mês. Mas se você tiver um programa ativo de pesquisa, você sempre vai ter aqueles 3 meses de verão. E o orçamento de um projeto de pesquisa, a grande proporção daquilo são as pessoas que você tá contratando para trabalhar naquele projeto com você. Então um aluno de doutorado, eu vou pagar o salário dele, né, que seria o equivalente a que a gente chama de stipend, porque um aluno de doutorado ele trabalha 20 horas no projeto, um Graduate Research Assistant, ele trabalha 20 horas no projeto, e então ele é considerado meio tempo.

Half-time, e os outros, as outras 20 horas, ele, ele ou ela se dedicam a disciplinas, a sua própria pesquisa. Muitas vezes a sua própria pesquisa de doutorado é o projeto que eles estão trabalhando, tem muita overlap. Mas oficialmente você trabalha 20 horas naquele projeto de pesquisa, e aquilo vai cobrir a sua stipend mensal, que é o que seria o equivalente a uma bolsa no Brasil, o seu seguro de saúde e a sua tuition, que é a grande, que é a grande coisa.

Que aqui, por exemplo, se a gente não tivesse um Graduate Research Assistant, a gente nunca teria, nunca poderia ter ido para Carnegie Mellon fazer doutorado, porque só a tuition da Carnegie Mellon é mais de $80 mil por ano, só tuition. Assim, é inviável para muitos alunos estrangeiros fazerem doutorado aqui sem trabalhar num projeto de pesquisa. Mas na engenharia, a maioria das universidades no top 10 da engenharia aqui nos Estados Unidos, a gente não admite aluno de doutorado se não for para trabalhar no projeto de pesquisa.

A gente não quer aluno que não seja de RA, que a gente não esteja contratando. Então todos os meus alunos que eu tive, ou eles tinham uma bolsa do seu próprio país que pagava todo o curso deles e pagava o equivalente a essa bolsa mensal, ou eu tinha um aluno agora que acabou de se formar no doutorado, ele é oficial da Força Aérea Americana. Então a Força Aérea Americana também faz esse investimento nos oficiais deles para fazer doutorado, porque eles precisam deles para serem professores na Força Aérea, nas universidades militares, né, nas universidades militares.

Então ele tinha o equivalente a esse pacote pago pela Força Aérea americana. Então tem várias outras formas, mas a grande maioria dos alunos vão trabalhar num projeto de pesquisa e vão ter um 20-hour appointment, são 20 horas, e isso vai cobrir a tuition, o seguro de saúde e a sua, a sua, o equivalente à bolsa, né, os seus stipend mensal, né. E aí você tem, ou você trabalha como Graduate Research Assistant ou você trabalha como Teaching Assistant, dando aula, sendo suporte de professores dando aula.

Porque aqui todo professor, especialmente as disciplinas que tem laboratório, você tem um Teaching Assistant que vai vai te auxiliar naquela disciplina de laboratório.

?Voz B

Perfeito.

FLFernanda Leite

Então essa é a diferença, não é uma bolsa do governo federal, do CNPq ou da CAPES. É, você trabalha para aquele professor. E como você trabalha para aquele professor, se você não performa, você pode ser demitido também. Então não é uma coisa que é garantida por 4 anos. Você recebe uma oferta de 12 meses quando você vem inicialmente e pode ser estendido.

?Voz B

E a oferta vem do professor?

FLFernanda Leite

Aí depende da universidade. Aqui a gente faz por área, a gente faz assim: eu tenho dois, eu sei que eu vou ter dois projetos começando na FOL, então eu vou fazer duas ofertas. Mas a gente não A gente faz aquela oferta como grupo de Construction Engineering and Project Management. Então aluno recebe uma carta oficialmente do programa, mas eu sei que aquele aluno vai trabalhar no meu projeto, mas oficialmente a carta vem do programa, mas é para trabalhar comigo.

?Voz B

E vai ser avaliado e pode ser demitido também se não performar bem, né?

FLFernanda Leite

Isso, pode. E também se não passar, porque aluno de doutorado, para você manter o seu, o seu, a sua bolsa, você tem que ter uma média de B, né, nas disciplinas. Então é uma média, se você tirar um C numa disciplina de pós-graduação aqui, é quase que é percebido como você tá failing, né, você não passou. Apesar de C ser uma nota, uma nota que azul, né, vamos dizer assim, passaria. Mas, mas como aluno de doutorado é esperado que você, você seja o melhor daquele grupo, né.

Então É esperado que você tire A em tudo. Então, tirando B, já, já, já não é muito bom. Mas assim, no final do primeiro ano do doutorado, aluno faz um exame de qualificação. Então varia muito de universidade para universidade, mas muitas delas são, é um exame de 8 horas que você senta numa sala fechada, é closed book, e você tem que responder perguntas básicas daquela sua área de pesquisa. Então, na área de Construction Engineering, você faz parte da prova engenharia econômica, a segunda parte é de métodos de construção, e a terceira parte é de cost estimating, que é orçamento.

?Voz B

Sim, sim.

FLFernanda Leite

Então, então é uma prova escrita, e aí tem uma segunda fase, que é a fase oral com seu comitê de doutorado, que aí você vai no quadro no quadro negro, nesse caso quadro branco, e você continua respondendo perguntas ao vivo na frente do seu comitê. E o comitê vai te fazer mais perguntas além do que tá no exame, meio que para testar como é que você pensa, o que a gente fala, on your feet, né? Pensa em tempo real por você mesma, em tempo real, e como é que você reage a perguntas que não necessariamente tem uma resposta óbvia, para ver se você pensa como um doutor. Né, que você consegue pensar fora da caixa.

?Voz B

Claro, claro, formular hipóteses, né? Então assim, de um doutor se espera muito mais do que simplesmente responder uma coisa corretamente, né?

FLFernanda Leite

Então você pode não passar naquele exame. Se você não passar, você tem que sair do doutorado e você se forma ali com mestrado, que é o prêmio de consolação. Mas Mas assim, se você passar, aí você aplica para candidatura. Então você muda seu título de aluno de doutorado para candidato a PhD. E aí você, você foca mesmo em começar a desenvolver a sua tese de doutorado depois dali, daquele momento.

?Voz B

Foi um longo parêntese, mas foi um parêntese importante, portanto, esse importante que foi dado por uma pessoa que entende do riscado. Fernanda, vamos voltar então um pouquinho para o seu doutorado. Quero que você me fale sobre o trabalho, se foi uma evolução do mestrado, se foi uma coisa completamente nova, qual era o tema do seu trabalho e quais foram os principais aprendizados que você teve com ele.

FLFernanda Leite

Eu lembro da primeira disciplina que eu fiz na Carnegie Mellon. Carnegie Mellon é uma universidade que é bem focada em computação, e eu lembro que eu tava trabalhando num projeto de pesquisa com a minha orientadora e um outro professor que que meio que fundou a área de computer-aided design. E o orientador dele era um Nobel laureate da Cornell. Então a linhagem era, era o nível. E eu lembro que eu tava fazendo a primeira disciplina que eu fiz no meu primeiro semestre do doutorado, era uma de data structures, de estrutura de dados.

E o trabalho, o projeto final da disciplina era um simulador de takeoff e landing de aeroporto usando queuing theory, é teoria de, eu nem sei como é que fala isso em português, seria de fila, né, teoria de enfileiramento, vamos dizer assim. E eu tinha que fazer esse simulador e eu lembro de ir para sala desse professor que já faleceu, mas a Omar Akin, eu fui para sala dele e eu conversei com ele, eu falei assim: Omar, eu acho que vocês fizeram algum erro me admitindo nesse doutorado dessa universidade, porque eu não sei se eu vou conseguir terminar essa disciplina.

E se o meu sucesso aqui depende de eu performar bem nessa disciplina, eu não sei se eu vou conseguir. E eu lembro da reação dele. Ele tava tomando um chá bem super elegante, ele colocou o copo na mesa, ele olhou assim bem calmo, olhou para mim, ele falou assim: eu já vi muitos alunos como você. Você é uma aluna que sempre na sua carreira acadêmica você sempre aprendeu com muita facilidade e sempre tudo veio muito fácil assim academicamente para você.

Mas agora você tá na Carnegie Mellon, você é uma de centenas de alunos como você. Então volte para sua sala e você vai conseguir, você vai conseguir terminar isso aí. E aqui a gente— é difícil de você entrar na Carnegie Mellon e também é difícil de você se formar e sair da Carnegie Mellon, mas você vai conseguir. E eu lembro que eu voltei para minha sala, trabalhei, eu acho que eu passei umas 40 horas trabalhando naquele simulador.

Mas fiz, mas programei isso. Eu não tinha experiência de programação antes, eu tive que aprender a programar. Naquela época a gente usava Java.

?Voz B

E você aprendeu sozinha? Como é que foi?

FLFernanda Leite

Aprendi, eu fiz uma outra disciplina, eu tava fazendo duas disciplinas relacionadas. Uma era de programação, que eu tava aprendendo Java, e outra era essa de estrutura de dados. Porque como a Carnegie Mellon é bem focada em computacional, então você precisa precisa saber, nem só hoje em dia, as pessoas nem precisam programar mais, que você pode usar AI para programar para você, mas você precisa ter computational thinking fundamentalmente.

Então você precisa entender como é que você cria aquela estrutura. Então fundamentalmente é super importante você entender estrutura de dados. E aí eu aprendi também a programar naquele mesmo semestre, então tava aprendendo a programar e aprendendo estrutura de dados. E eu fiz, terminei aquela disciplina, foi o A- que eu mais me orgulho da minha carreira acadêmica, porque ali foi suado. Mas ali foi aquele momento que eu acho que muito aluno, muitos alunos de doutorado hoje— hoje eu já tive, segunda-feira eu vou formar meu vigésimo doutor da minha carreira, vai ser a defesa dele segunda-feira.

?Voz B

Vai ser um momento especial então.

FLFernanda Leite

Sempre é. Eu ultimamente, especialmente que eu tô vendo que eu tô meio que mudando a rota da minha carreira, mas seguindo a área administrativa, eu vejo, eu tô percebendo que cada vez eu vou ter menos alunos de doutorado. Então meu aluno 19 foi a primeira vez que eu me emocionei numa defesa de doutorado, porque eu comecei a perceber isso, né, que muito provavelmente eu vou ter cada vez menos alunos de doutorado. Eu acho que aquilo foi um momento super importante para mim, porque você, você realmente percebe, eu vejo isso com outros alunos, que no doutorado você tá sendo, você tá sempre no seu limite e você não é confortável, não é confortável.

E para muitos alunos que, que sempre foram overachievers, que sempre foram excelentes em onde estavam, eles também têm dificuldades de acompanhar, porque você tá criando um conhecimento novo, você tá criando um paradigma novo. Então aquilo não é confortável. Eu já vi isso em vários alunos ao longo da minha carreira. Então é normal, é um sentimento normal quando você tá, você tá na fronteira daquilo, né, naquela, daquela área de pesquisa.

Então aquele momento foi super importante para mim, para ver que que aquele desconforto é parte do processo. E não foi a última vez que eu senti aquele desconforto, que você vai fazendo problemas, e à medida que você vai progredindo na sua carreira, você vai lidando com problemas cada vez mais complexos. E você entende quando aquele, você sente aquele desconforto, o que que é agora. E você sabe reconhecer, e você sabe que você é capaz.

Coragem. E você sabe que você sabe lidar com aquele problema. Você já, já lidou com outros problemas no passado.

?Voz B

O doutorado você terminou em que ano, Fernanda?

FLFernanda Leite

Eu terminei no final de 2009 e eu comecei como professora aqui na IUT em janeiro de 2010. Então emendei mestrado, doutorado. Eu fazia doutorado numa área que na época não tinha muita gente fazendo doutorado nessa época. Uma, na época era uma nova linha de pesquisa chamada Building Information Modeling, modelagem de informação de edificações.

?Voz B

Já ouvi falar nisso. Eu não sou nada da engenharia civil e nem dessa área de construção, mas já ouvi falar nessa, nesse método BIM, que aqui a gente fala no Brasil, né?

FLFernanda Leite

Isso, isso. Então isso era uma coisa que não tinha muita gente fazendo, fazendo pesquisa naquela, naquela área. E durante o meu doutorado Tinha, eu tava, na realidade eu tava fazendo pesquisa na área de emergências, que era financiado por uma agência do governo federal americana, de emergências em edificações. Como é que a gente rastreia, como é que uma flooding ou uma emergência causada por uma falha no sistema da edificação, como é que ela se propaga naquela edificação.

Então tem todo um jeito de modelar os sistemas de edificações para ver como é que aquela instância vai se propagar. Mas ao mesmo tempo tinha uma obra de um edifício novo da computação na Carnegie Mellon, até financiado pelo Bill Gates. Aqui a maioria dos edifícios das universidades americanas tem doadores que colocam o nome no edifício. Então nesse caso foi o Gates Building. E essa, nessa obra, eu pensei assim, ah, esse, essa coisa de BIM é uma coisa nova, vamos testar nessa obra aqui que é no nosso quintal.

Então vamos testar para aplicação óbvia, que hoje em dia é uma, uma, um uso super comum de BIM aqui nos Estados Unidos, que foi até, eu escrevi um livro sobre isso que veio da minha disciplina que eu dei durante 15 anos. Que é BIM para coordenação de projetos, para coordenação de projetos de mecânico, elétrico, hidrossanitário, estruturas. Você coordena, porque cada um desses aqui é feito por entidades separadas, então é bem fragmentado.

Então, quando você cria um modelo federado de todos esses elementos, tem clashes entre os objetos em 3D. Então você tem que ter todo um processo de coordenação de projetos para que não tenha clashes desses elementos, elementos no ambiente físico. E aí a gente, eu fui para a primeira reunião de coordenação de projetos entre todos esses stakeholders, né, que estavam na sala. E aí eu falei, ah, o que que vocês acham da gente utilizar a 3D para fazer a coordenação de projetos ao invés de 2D?

Ah, mas todo mundo se revoltou porque eles, eles haviam sido contratados para fazer aquilo em 2D. E era aquilo que eles vinham fazendo há décadas, e era aquilo que eles sabiam fazer. Então teve muita resistência. Então eu pensei, e na engenharia é muito difícil a gente fazer como na ciência, no laboratório, você fazer um teste científico que você tenha um grupo de controle e um grupo de tratamento, um treatment group e um control group.

Ah, mas nesse caso veio essa oportunidade, essa sacada de, ah, vocês não tem problema, que tal eu acompanhar vocês fazendo a coordenação do jeito que vocês fazem, usando a mesa de luz e colocando uma planta baixa em cima da outra e rastreando manualmente para tentar identificar as classes? Eu não tem problema, acompanho. E aí eu coletava informações de quais eram as perguntas que eles faziam um para os outros, quantas clashes e quais os tipos de clashes que eles estavam identificando.

E aí essas reuniões duravam entre 6, 8 horas, uma vez por semana. E eu acompanhei essas reuniões durante 10 meses enquanto eles estavam coordenando vários andares desse prédio. Depois de cada reunião, eu voltava para o meu office na Carnegie Mellon E eu fazia a mesma, pegava aquela mesma área que eles passaram, passavam de 6 a 8 horas coordenando aquela mesma área no modelo, e rodava a Clash Detection no modelo BIM que eu tinha e fazia a mesma análise, comparava.

Então o que a gente descobriu é que no processo em 2D manual, eles, a gente utilizou métricas de information retrieval, de information science, e que é Precision and Recall. Então deixa eu explicar como é que são essas métricas. Se você tá fazendo uma pesquisa no Google e você fazer, digitar The University of Texas at Austin, então o Google ele tem tanto High Precision como High Recall. Ele vai achar exatamente o que você tá procurando, mas também ele vai achar todas as instâncias que mencionam The University of Texas at Austin na sua busca.

Então, a high precision significa que o primeiro resultado da sua pesquisa é exatamente o que você tava procurando, mas high recall significa que ele, ele fez a pesquisa exaustivamente e achou todas aquelas instâncias. Então, para você encontrar clashes no ambiente construído, em teoria você quer ter tanto high precision como high recall. Você quer achar todas as clashes que são relevantes E eu vou explicar o que que isso significa também.

E também você não quer miss clashes, porque se você não encontrar uma clash no modelo digital, no modelo BIM, você vai acabar encontrando na obra. E aí, se você encontrar uma clash na obra, aquilo vai gerar, vai ter impacto no seu cronograma de obra, vai ter impacto de custo, que você vai ter que ter rework naquela obra. Então você quer ter high precision e high recall. No processo em 2D, eles eram muito bons de achar as clashes reais.

Então eles tinham high precision, mas low recall. Eles, eles mist, eles não achavam muitas clashes, porque aquele processo manual é bem error-prone, né? Depende do humano. Então muita coisa eles perdiam, eles não achavam. Já no processo em BIM, a gente tinha High recall rate, então achava tudo que tava, tinha clash, onde tinha clash, mas tinha low precision, porque aquele low precision a gente encontrava muitos falso positivos.

E um exemplo de um falso positivo é, digamos, aí depende de como tá modelado. Então você achava todas as classes contanto que aquele objeto, os objetos estavam no modelo. Esse é, esse é a importância de você pensar isso. Na minha disciplina, no meu livro, eu falo muito isso assim: você tem que modelar a informação necessária, importante, tentar entender o que que é aquilo e qual o nível de detalhe que você tem que modelar aquilo.

Então, se você modelar uma light fixture, um elemento com, com super detalhado, com que aquele, aquela light fixture é modelada com 15 elementos porque você quer ter todos os detalhes daquela light fixture. Quando você roda o clash detection, muitas vezes aquele objeto é explodido e são 15 clashes com aquele duto que ele tá, com aquele pedaço de duto que tá gerando o clash. Então aquilo são, então é uma true positive clash, é uma clash mesmo, e tem 14 clashes que são false positives.

Então é um monte de noise. Então esse é o problema de BIM. Se você não modelar a informação correta e no nível de detalhe correto, você acaba gerando muita noise. Mas ao mesmo tempo é mais fácil você limpar o modelo, limpar aquela noise, do que o tempo que você passa investindo limpando aquela noise. É melhor, ainda é um investimento melhor do que você achar uma clash que você não sabia que tava vindo um BIM na obra, que aí tem um impacto muito maior.

Mas aí leva toda essa questão de você tentar entender como é que você modela a informação importante. Então hoje em dia, pelo menos aqui nos Estados Unidos, é quase que esperado que toda obra acima de um determinado threshold de médio porte e grande porte, todas vão utilizar BIM para design coordination, porque É tão óbvio o return on investment de design coordination que é, é, as pessoas que utilizam pela primeira vez veem aquilo e nunca mais voltam atrás.

Mas aquela, aquele, aquela obra do prédio da computação da Carnegie Mellon foi aquele paper, ainda é um dos meus papers mais citados da minha carreira, mesmo mais 20 anos depois, mais de 20 anos depois. Porque é muito difícil você ter uma coisa de você ter um control group e um treatment group. Então o control group era o pessoal fazendo aquela análise do jeito que eles sempre fizeram em 2D.

?Voz B

Foi uma sorte que você construiu aí, Fernanda.

FLFernanda Leite

E foi assim, eu acho que é tudo como tudo na vida, você aparece uma oportunidade e você tem que se adaptar, né? E naquilo Eu poderia simplesmente ter walked away naquele dia que eles falaram, ah, não tem nem, se revoltaram, não vamos fazer de jeito nenhum, a gente vai fazer isso desse jeito. Eu poderia ter voltado para minha orientadora e ter dito, ah, eles não querem fazer, azar, então vamos deixar, largar de mão, esquece porque não tem jeito.

Mas você também pode ver aquilo como uma oportunidade, e eu acho que tudo na vida a gente tem que ver como Como é que a gente pode ver aquilo de outra perspectiva? E eu voltei para o doutorado, eu falei para minha orientadora, eu falei: não, eles não querem fazer, mas tá aqui uma oportunidade. Então tá aqui um jeito de a gente aproveitar aquilo. Vai dar uma trabalheira e vai tomar um maior tempo, mas eu acho que vai valer a pena.

Então a gente fez e foi uma— criou toda uma— abriu tantas portas aquilo. Eu acho que foi aquele aquela pesquisa que abriu as oportunidades para mim, como para conseguir emprego de professora tão rápido também. Porque eu fui para um congresso, eu lembro que foi meu primeiro congresso internacional, eu tava na metade do doutorado e eu fui para Inglaterra para esse congresso. E quando eu voltei, eu lembro de receber emails de vários professores daqui dos Estados Unidos: a gente vai abrir uma vaga, uma busca de professor para nossa universidade, a gente queria que você aplicasse.

E eu tava na metade do doutorado e eu não tinha nem feito o meu— tem um qualifying exam que eu expliquei antes, aí o segundo exame é o proposal exam, o PhD proposal, que é onde você faz a sua proposta, apresenta a sua proposta de pesquisa de doutorado. E aí tem a defesa final, que é o último exame do doutorado. Eu não tinha nem feito aquele proposal exam. Que é o milestone do meio do doutorado. E aí eu falei com a minha orientadora, eu falei, mas esse pessoal tá pedindo para eu aplicar para vaga de professor, não tô nem na metade, não fiz nem o meu proposal exam.

E eu lembro dela falando, ah, se estão perguntando, aplica. Ah, e eu tenho plena consciência que eu vejo isso, eu já formei 19 doutores na minha carreira, eu sei como é difícil e eu sei como é competitivo as vagas de cada vaga em universidade, de novo nos top 10, para uma vaga de professor a gente tem em torno de 200 pessoas aplicando. 200 pessoas com doutorado ou perto de terminar o doutorado aplicando para 200 doutores.

?Voz B

200 doutores aplicando para uma vaga é muito competitivo. Então eu apliquei, não é qualquer competição, né? São 200 pessoas que já passaram por muitos filtros, né?

FLFernanda Leite

E aí eu apliquei, e eu lembro que eu apliquei para 6 universidades americanas, todas no top 10 da engenharia, certo? E foram pessoas que estavam escrevendo para mim, que me viram apresentar nesse congresso na Inglaterra. E daí, por isso que é tão importante aluno de doutorado apresentar em congresso. E por mesmo a publicação de congresso para gente aqui nos Estados Unidos não vale muito como forma de, o peso de um paper de congresso.

O que vale mesmo é o paper de revistas acadêmicas, de journal paper. Então é isso que a gente conta como métrica. A gente nem conta quantos papers você tem de congresso, mas o que vale congresso é o networking, né? Então você ir para o congresso e as pessoas verem você apresentar. E é super, por isso que eu mando meus alunos de doutorado para para congresso, para eles, eles, para as outras pessoas, outros professores verem eles, eles se apresentando e verem o potencial.

Então é super importante nesse aspecto. Mas aí eu apliquei para essas 6 universidades e no final eu recebi 5 ofertas, todas de universidades, de universidades do top 10 da engenharia. E o que me fez escolher vir para a Universidade do Texas em Austin foi porque a maioria das universidades nos top 10 da engenharia não estão em áreas urbanas, são cidades universitárias. E aí naquela época, de novo voltando para aquela importância da prioridade de você, da minha família, né, do que que é melhor para minha família, da sua vida pessoal.

E naquela época o meu marido falou assim, ah, no meio do doutorado, ele sabia que ele não queria seguir a carreira de professor, que ele não dava, não gostava de dar aula, e ele gostava de fazer pesquisa, mas não de dar aula. Então ele falou assim, ah, vá, aplique, e eu sigo você onde você for. Ah, e, mas, mas se a gente tivesse acabado indo para uma cidade universitária, as opções para ele seriam bem limitadas. Então foi um dos grandes motivos da gente vir aqui para a Universidade do Texas, porque é uma cidade urbana e hoje em dia a cidade tá boom assim, com, com, é considerado o novo Silicon Valley aqui, a cidade de Austin.

E aí no final ele tá numa situação super boa como diretor de pesquisa de um instituto privado que ele trabalha, é um instituto da Universidade do Texas, da Universidade do Texas, mas Toda a pesquisa é fomentada por empresas, empresas de energia e empresas que constroem empreendimentos para essas empresas de energia, constroem refinarias para essas empresas.

?Voz B

Mas então você escolheu, você escolheu de fato o Texas para ser a sua próxima casa, né? E aí você entra como assistant Professor, é isso?

FLFernanda Leite

Isso. O primeiro cargo quando você entra na universidade aqui é Assistant Professor, e você passa 5 anos como Assistant Professor. Aí você aplica para promoção para Associate Professor com tenure. Tenure é quando você recebe a estabilidade. Então, a partir daquele momento que você tem aquele emprego, é como se fosse um concursado, né? Você tem aquele emprego para o resto da vida. Ah, e é quando você recebe o tenure, você muda o título para Associate Professor, e depois mais 5 anos depois você aplica para promoção para full professor.

Então eu sou full professor, já passei por todas essas promoções. E quando eu fui promovida para full professor, eu também comecei assim, um ano depois eu comecei a seguir uma área administrativa.

?Voz B

Então eu fui, foi uma coisa pensada isso, Fernanda, de ir para uma área administrativa ou começar a tangenciar essa parte?

FLFernanda Leite

Não, não, eu sempre achei que eu iria para a área administrativa da universidade, mas eu não achava que ia ser tão cedo na minha carreira. Na minha cabeça eu achava que, ah, eu tinha, eu tinha pelo menos 5 anos a 10 anos como full professor para continuar desenvolvendo a minha pesquisa antes de seguir a carreira administrativa da universidade. Mas quando eu tava no meu meio carreira, né, no mid-career, como associate professor, naquela época, a dean da escola de engenharia— o dean é o cargo mais alto, tipo diretor da escola de engenharia, que é aquele, aquele é o topo da engenharia.

E aí aquela pessoa tem dois associate deans, que é o associate dean for research, que é a pessoa que que gerencia toda a área de pesquisa de toda a escola de engenharia e todo o espaço, porque a engenharia também tem muito laboratório. E tem o Associate Dean for Academic Affairs, que lida com contratação de professores, com recursos humanos, com promoções de professores e toda aquela parte acadêmica de ensino também. E quando eu tava na metade da minha carreira, a minha dean da engenharia, que foi Quando eu fui contratada como assistant professor, ela era a chefe de departamento da engenharia civil.

Então a gente sempre teve um relacionamento, ela sempre foi a minha mentor, a gente sempre teve um relacionamento próximo de mentor-mentee. E ela via esse potencial em mim, então ela me chamou para uma reunião e perguntou se eu não queria fazer um programa de 1 ano de liderança, como se fosse um MBA focado para para acadêmicos. E eu fiz esse programa, foi um programa nacional, eu tive que aplicar, foram 20 pessoas do país todo, e que foi financiado pela National Science Foundation, que é tipo CNPq ou CAPES aqui.

Fiz esse programa e durante o programa também fiz o meu desenvolvimento de liderança nos próximos 10 anos na universidade. Mas segui minha vida, eu criei aquele programa, aquele programa de engenharia Sustainable Systems Engineering Engineering, comecei a liderar programas interdisciplinares na universidade, não só na engenharia, mas a universidade como um todo. E aí a gente teve um dean novo da Escola de Engenharia, e a Escola de Engenharia também tava passando por uma mudança muito grande de construção de novas edificações, de investimento.

Tinha um prédio novo da engenharia de petróleo, engenharia química. A gente tava fazendo muito investimento na área de semicondutores e construindo laboratórios para fazer pesquisa na área de semicondutores. A gente tava fazendo um estudo para remodelar, renovar o prédio da Engenharia Mecânica. Tinha um outro projeto também que tava começando, que é para completamente remodelar os laboratórios de Engenharia Ambiental. Então tinha muito projeto de construção.

Então ele precisava de uma pessoa que Sabia lidar com gente de várias disciplinas, tinha experiência em projeto grande de pesquisa, também tinha essa capacidade de lidar com construção, porque ele é engenheiro químico, então ele não tem esse background, não é da construção. Então ele me convidou para ser Associate Dean for Research dele, né? E eu fui Associate Dean for Research mais jovem da história da Escola de Engenharia da Universidade do Texas.

Imagino que também também a primeira pessoa brasileira, a primeira, a primeira mulher e a primeira, a primeira pessoa internacional, não americana, é isso? Não americana. Então, apesar, hoje eu tenho cidadania americana, mas não nascida aqui. Então quebrou muitas barreiras, só o fato de eu estar naquele cargo. Então acho que que a quantidade de mensagens que eu recebi de pessoas, que é importante você ter uma pessoa num cargo de liderança que não seja aquele estereotípico, a pessoa de liderança, o homem branco americano que fez uma, sei lá, uma Ivy League ou coisa do gênero.

?Voz B

Isso.

FLFernanda Leite

Então acho que abriu muito, muita gente ficou feliz com aquela notícia, ficou super inspirado com aquilo. E eu passei 2 anos naquele cargo e foi extremamente, abriu muitas portas para mim, abriu minha cabeça, porque eu comecei a lidar com problemas muito maiores. Então você como professor, você, você é como se você tivesse uma empresa. Então você, você vai atrás de projeto de pesquisa para financiar seus alunos, para continuar gerando produtos e publicando papers e rinse and repeat, né?

Então você tá sempre naquela correria, mas é para naquela área, naquela sua área de pesquisa. Mas agora você tem que pensar num escopo bem maior. E se você me perguntasse 4 anos atrás, ah, o que que você sabe de semicondutores? Eu não saberia. Ah, tem uns chips dentro desse computador, dentro desse do seu, mas hoje em dia eu sei, eu sei muito mais. E essa, e para mim isso, como uma pessoa curiosa intelectualmente, eu acho que é, que essa é a parte que eu me divirto lidando com essa área de pesquisa em grande escala, a quantidade de aprendizagem que eu tenho.

Tô sempre aprendendo uma coisa nova e o impacto que eu posso ter é muito maior agora.

?Voz B

Você tinha noção naquela época em que você assumiu esse cargo o tamanho dessa conquista assim de uma mulher nordestina, sabe, com raízes pernambucanas e cearense também, de alguma forma?

FLFernanda Leite

Não, não tinha, não tinha noção. E a minha, a minha metade, eu acabei de Eu voltei, eu tava na Coreia semana passada que eu fui receber um prêmio que é o maior prêmio da minha área da American Society of Civil Engineers Computing in Civil Engineering Award, que é a sociedade que eu faço parte acadêmica. E uma das coisas que eu falei na minha palestra quando eu recebi o prêmio foi, alguém na audiência me fez a pergunta de de qual as dicas que você pode dar para outras pessoas que querem seguir carreiras administrativas ou querem seguir outras áreas ou crescerem na carreira deles?

E eu acho que a melhor dica que eu posso dar é que tá sempre tentando fazer o melhor possível onde você está, que as pessoas vão notar. Eu nunca fui, eu nunca, eu não apliquei para esse cargo de Associate Dean for Research Eu depois eu vou falar do meu cargo atual, que hoje eu sou vice-presidente de pesquisa da Universidade do Texas. Então eu faço o que eu fazia para engenharia, mas para a universidade toda.

?Voz B

Ah, e mesmo lá no começo, né, quando você recebeu o convite para ser assistant professor pela primeira vez, você não foi atrás? Foi eles vieram atrás de você?

FLFernanda Leite

Isso, isso. Mas é porque você tá sempre tentando fazer o melhor onde você tá. Não existe problema ou trabalho que não seja, que seja pequeno o suficiente, que seja. Então você sempre tenta ter que fazer o melhor possível onde você está, que as pessoas vão notar. Ótima dica. Eu nunca fiquei pensando, ah, o que que eu, o que que eu tenho que fazer para subir na carreira? Não, tô feliz fazendo aquilo da melhor forma possível, e alguém vai perceber.

E se não perceberem, não tem problema, que eu tô fazendo aquilo. Eu gosto de solve problems, essa minha mentalidade de problem solver. Eu gosto de estar tentando fazer o melhor possível. E aí, como a engenharia é grande, tem muita coisa acontecendo na universidade, a pessoa que ficou como vice-presidente de pesquisa por mais de 10 anos na universidade tava voltando para o cargo de professor, tava saindo daquele cargo que a maioria das pessoas ficam nesses cargos aos 5 ou 10 anos.

E aí eles tinham que achar uma outra pessoa. Então de novo ele falou, a gente vai abrir essa vaga, a gente quer que você aplique. Só que eu não queria porque é um cargo muito político e agora você tá exposto, você tá focado na universidade toda. Então eu não apliquei. E fizeram a busca, a busca nacional. Ninguém gostou dos finalistas. E aí o presidente da universidade me ligou e perguntou, ah, olha, eu já perguntei para todo mundo aqui na universidade, seu nome é o nome que eu fico escutando repetidamente.

Então eu queria saber se você pode, pode ser a minha vice-presidente de pesquisa. Então foi assim que eu acabei nesse cargo. E o Office of the Vice President for Research tem mais ou menos 500 pessoas que trabalham nesse office. Então a gente, a Universidade do Texas, anualmente a gente gasta 1,4 bilhões de dólares em pesquisa. Isso é dinheiro de fora, não dinheiro da universidade. Então é dinheiro federal, dinheiro de indústria, dinheiro estadual, que é o volume de pesquisa.

Então de pesquisa da National Science Foundation, a gente é número 1 do país, dos Estados Unidos, em dólares, né? Então a gente tem o maior supercomputador acadêmico do mundo e a gente tá construindo um segundo agora, que é o TACC, o Texas Advanced Computing Center. A gente tem o mais antigo laboratório de pesquisa da Marinha americana, todas as tecnologias de localização nos submarinos da Marinha Americana são desenvolvidas aqui na Universidade do Texas.

Então esse contrato existe desde a década de 60. Então a gente tem a maior, a maior pesquisa de volume do Department of Defense, que agora chama Department of War, de semicondutores do país, de qualquer universidade, que só essa pesquisa juntando o dinheiro federal e estadual, é quase 1,6 bilhões de dólares total. Então o volume é muito grande. Então por isso que tem tanta gente no office, o pessoal que faz administração, que faz a contratação desses projetos, o pessoal que gerencia todas essas contas, a contabilidade.

Tem o pessoal que faz toda a parte de segurança, porque a gente também tem muito tem que proteger o intellectual property da Universidade do Texas. Então a gente tá sempre rastreando questões de segurança com relação à pesquisa. E então tem toda a parte de research compliance, de quem faz pesquisa com humanos, que faz pesquisa com animais. A gente tem vários, tem infraestrutura com pesquisa de animais, de primatas, de de ratos, de todos os tipos, vários animais.

E tudo isso é dentro do Office of the Vice President for Research. E a parte que eu gosto muito também é uma área chamada Research Development, que a gente trabalha com os pesquisadores diretamente para ajudarem eles a aplicar para pesquisas complexas de grande escala. Então é todo um grupo de pessoas, são todos doutores que trabalham com pessoas com doutorado que ajudam os nossos professores e pesquisadores a escreverem propostas de pesquisa que sejam competitivas nessa escala nacional.

Então, o único motivo que a gente tem muito sucesso também conseguindo essas pesquisas de grande escala é porque a gente tem essa infraestrutura para apoiar os pesquisadores a conseguirem esse tipo de pesquisa. E eu sei porque eu, como pesquisadora, eu tinha um projeto muito grande, que eram 6 unidades, grupo do que na época eu não, não tava nesse cargo, eu era professora, não era nem Associated Dean for Research, mas eu tive esse projeto que acabou de terminar, um projeto de 5 anos que foi financiado pelo US Department of Energy, que é a minha pesquisa mais atual nessa área de Resilient Systems Engineering, que esses meus alunos, os últimos alunos mais recentes que estão se formando, trabalharam nesse projeto.

Do DOI. Então tem toda essa infraestrutura que a clientela da gente são os que a gente chama de principal investigators, né? São os pesquisadores, professores e pesquisadores que estão fazendo essa máquina funcionar.

?Voz B

Ô Fernanda, você não se arrependeu então de ter aceito o convite, apesar de ser para um cargo de alta visibilidade política, né? Você acha que tá dando conta bem do recado?

FLFernanda Leite

Da mesma forma como quando eu fazia iniciação científica, a mesma mentalidade. Acho que não mudou. Eu tô tentando fazer o melhor possível todo dia, no que quer que seja o desafio do dia. Então Hoje em dia a gente lida com muitos desafios de mudanças com relação ao governo federal e do impacto que o governo federal tem tido na pesquisa aqui. Então essa semana, por exemplo, eu tava lidando com uma dessas mudanças e tendo várias reuniões com advogados da universidade, tentando ver como é que a gente adapta a novas regras que estão sendo impostas às universidades.

Não só a gente, todas as universidades do país, o governo federal. E aí eu tenho que fazer muita advocacia também, né? Eu vou para, eu tenho que ir muito para, para agora no spring, eu acho que eu fui meia dúzia de vezes em 3 meses para Washington, D.C., para tentar advogar pela, pela pesquisa acadêmica. Então eu acho que agora eu tenho, posso ter um impacto muito maior e na universidade como um todo, e também tentar ajudar a todas as universidades, a toda a área acadêmica também, advogando pelas universidades.

?Voz B

Fernanda, chegamos aqui ao final do nosso tempo, porque na verdade é o final do seu tempo, bastante disputado, principalmente depois que você assume aí a vice-presidência de pesquisa da universidade. Eu queria saber primeiro Se você pensa, eu sei que você é uma pessoa do presente, né, e que gosta de fazer o melhor com que você tem no presente, mas eu queria saber se a Fernanda enxerga aonde ela quer estar daqui alguns anos, ou o que é que você gostaria de estar fazendo daqui alguns anos.

FLFernanda Leite

Eu gostaria de ficar, de poder ver, porque eu acho que é super importante também você você vê também o fruto do seu, do seu trabalho. Então, se eu, se eu sei que eu também pensava isso no meu cargo anterior, eu queria ficar 5 anos naquele cargo e acabei só ficando 2 anos porque eu mudei para esse cargo. Mas eu sinceramente, eu gostaria de ficar 5 anos nesse cargo para ver os frutos do trabalho. Eu sei que às vezes a gente não vê o fruto do trabalho, a gente tenta fazer o melhor possível, alguém vai vai, vai ver o fruto daquele trabalho. Mas sinceramente, eu, eu ficaria feliz vendo o fruto desse trabalho.

?Voz B

E se fazer um ciclo mais ou menos completo aí para começar a ver as coisas acontecerem?

FLFernanda Leite

E também uma coisa que eu também aprecio, e nesse, e você, você tá liderando um grupo de pesquisa, é que para mim é super importante continuar fazendo pesquisa, continuar sendo pesquisadora. Ontem, ontem mesmo eu submeti uma proposta de pesquisa para National Science Foundation como PI, como Principal Investigator, como pesquisador principal, porque para mim é super importante. Eu sou uma representante dos pesquisadores da Universidade do Texas, então para ter o respeito dos meus colegas eu preciso ser um deles, eu preciso também tá fazendo pesquisa.

Então se eu me vejo daqui a 5 anos, eu também continuo me vendo como pesquisadora. Ah, continuo me vendo como orientadora de alunos de doutorado. Tenho 2 alunos de doutorado começando agora na FAU, novos. Então eu me vejo continuando fazendo pesquisa e impactando a pesquisa aqui na Universidade do Texas e no resto do país.

?Voz B

Fernanda, muito, muito, muito obrigado. Pela sua participação, pelo seu tempo, pela sua generosidade. Eu queria agradecer também ao Augusto César, que também faz parte dos colaboradores da Universidade do Texas e que me avisou da promoção da professora Fernanda Leite. Falou assim, você tem que entrevistar a Fernanda, ela é um motivo de orgulho para o Brasil, uma mulher nordestina Tá, que tá ocupando cargo de liderança numa das principais universidades do mundo, né, dos Estados Unidos e do mundo.

Fernanda, por favor, continue nos orgulhando, continue sendo quem você é e deixa aqui a sua despedida para as nossas ouvintes e para os nossos ouvintes. Tem muita gente entre os nossos ouvintes que são pesquisadores e são pessoas que estão pleiteando espaço no mundo acadêmico. Deixa então o seu último salve para eles, Fernanda.

FLFernanda Leite

Primeiramente, eu queria agradecer o convite. É sempre um prazer conversar com brasileiros e dividir um pouco da minha trajetória. Eu acho que cada trajetória é diferente. Se você conversar, você conversa com muitas pessoas no seu podcast e cada um tem uma história. E eu acho que é isso que é importante, você tentar valorizar cada história e cada trajetória. Então obrigada por fazer esse podcast e dividir com toda a comunidade todas essas histórias. É um prazer estar aqui com você hoje.

?Voz B

Muito obrigado, professora Fernanda. E Naru Rodô, ilustríssimo ouvinte! E você já sabe, aqui no Naru Rodô quem faz a volta é você. Você tem alguma pergunta pra gente ou quer comentar algum episódio? Escreva pra nós, podcast@naruodo.com.br. Repetindo, podcast@naruodo.com.br. E lembre-se, mande nome completo, idade, profissão e a cidade de onde você está falando. É isso aí.

FLFernanda Leite

Esse podcast é apresentado por b9.com.br.