Episódios de Naruhodo

Naruhodo #471 - Por que gostamos de decorar as coisas?

27 de julho de 202653min
0:00 / 53:45

Tem gente que não tá nem aí sobre decorar suas casas - ou mesmo sobre "enfeitar" seus corpos com roupas. Outras pessoas não só adoram como investem tempo e dinheiro nessas coisas. Por que isso acontece? A ciência pode explicar?

Confira o papo entre o leigo curioso, Ken Fujioka, e o cientista PhD, Altay de Souza.

>> OUÇA (53min 46s)

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Naruhodo! é o podcast pra quem tem fome de aprender. Ciência, senso comum, curiosidades, desafios e muito mais. Com o leigo curioso, Ken Fujioka, e o cientista PhD, Altay de Souza.

Edição: Reginaldo Cursino.

http://naruhodo.b9.com.br

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APOIO: INSIDER

Tem uma coisa que eu aprendi viajando que ninguém te ensina: a roupa errada custa mais que peso na mala.

É isso mesmo que você ouviu: tem peças que nem adianta você levar na viagem, porque não vai sair da mala.

Por isso, eu criei uma regra para mim mesmo é: só levar na viagem se não pega cheiro ruim, se não precisa passar e se aguenta firme na durabilidade.

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REFERÊNCIAS

Eavesdropping on Happiness: Well-being is Related to Having Less Small Talk and More Substantive Conversations

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2861779/

The Literary Animal: Evolution and the Nature of Narrative

https://books.google.com.br/books?hl=en&lr=&id=LSkCL0r_DLoC&oi=fnd&pg=PA147&dq=Why+we+embellish+things&ots=pX7gxJyuvk&sig=CM166Uj1m4WLee1pBtLM3wulwmM&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false

The Aesthetic Animal

https://books.google.com.br/books?hl=en&lr=&id=qB5pDwAAQBAJ&oi=fnd&pg=PP1&dq=Why+we+embellish+things&ots=K9z3vncA9K&sig=FrtPoFzO2uMp4mOGcH9Ma0npj4g&redir_esc=y#v=onepage&q=Why%20we%20embellish%20things&f=false

The Decoration of Houses

https://books.google.com.br/books?hl=en&lr=&id=RFMrEQAAQBAJ&oi=fnd&pg=PP6&dq=decorate+houses+and+personality&ots=9M1eU2CkHt&sig=ev2uLzSDHUFs6WFAilWjt_49K2I&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false

Social Resources and Disordered Living Conditions: Evidence from a National Sample of Community-Residing Older Adults

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4507516/

You are what you can access: Sharing and collaborative consumption online

https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0148296313003366

When We Don't Own the Things We Use, Will We Still Love Them?

https://www.proquest.com/openview/7678ea26d1a547ee826d8c593236a33e/1?pq-origsite=gscholar&cbl=26142

THINGING BEAUTY ANTHROPOLOGICAL REFLECTIONS ON THE MAKING OF BEAUTY AND THE BEAUTY OF MAKING 

https://ora.ox.ac.uk/objects/uuid:f7cbc10e-b91c-4887-a575-4303c6a5154b/files/s9c67wn26z

Creating Illusions of Past Encounter Through Brief Exposure

https://journals.sagepub.com/doi/10.1111/j.1467-9280.2009.02337.x

SOCIAL ATTRIBUTIONS BASED ON DOMESTIC INTERIORS

https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0272494400901816

Temporal Aspects of Homes

https://link.springer.com/chapter/10.1007/978-1-4899-2266-3_1

Home decoration and the expression of identity 

https://open.library.ubc.ca/soa/cIRcle/collections/ubctheses/831/items/1.0094861

The People, Place, and Space Reader

https://books.google.com.br/books?hl=en&lr=&id=b9WWAwAAQBAJ&oi=fnd&pg=PA168&dq=decorate+houses+and+personality&ots=KX2uuHqoy6&sig=Fcjvhq6Yj_a3ZTN90FicMqVpu9Y&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false

Home decoration and the expression of identity 

https://open.library.ubc.ca/soa/cIRcle/collections/ubctheses/831/items/1.0094861

Geographies of Comfort 

https://api.taylorfrancis.com/content/books/mono/download?identifierName=doi&identifierValue=10.4324/9781315557762&type=googlepdf

“Your house looks like that show…”: exploring consumers’ perceptions towards media-inspired home décor

https://www.frontiersin.org/journals/computer-science/articles/10.3389/fcomp.2025.1610053/full

The Meaning of Things: Domestic Symbols and the Self

https://books.google.com.br/books?hl=en&lr=&id=8bcLAQAAQBAJ&oi=fnd&pg=PR9&dq=Why+we+embellish+things&ots=AQ-e20wsGR&sig=MXuGs9qK7gixsod09Qwi_vFH2cg&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false

Neuroaesthetics

https://www.cell.com/article/S1364-6613(14)00075-8/abstract

Neuroaesthetics: The Cognitive Neuroscience of Aesthetic Experience

https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/1745691615621274

Joining Forces: Neuroaesthetics, Contemporary Visual art and Archaeological Interpretation of the Past

https://link.springer.com/chapter/10.1007/978-1-4614-8990-0_4

EVOLUTIONARY AESTHETICS AND SEXUAL SELECTION IN THE EVOLUTION OF ROCK ART AESTHETICS

https://rockartresearch.com/index.php/rock/article/view/88

The sweet spot of seeing: A categorization-based account of visual aesthetic pleasure

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2352250X26000898

Evaluation of the Residential Facades in Tehran from the Neuro-Aesthetics Approach

https://www.sid.ir/paper/1003449/en

Perception of personal identity at home 

https://www.redalyc.org/pdf/727/72715515051.pdf

Thinging beauty: anthropological reflections on the making of beauty and the beauty of making

https://ora.ox.ac.uk/objects/uuid:f7cbc10e-b91c-4887-a575-4303c6a5154b

The Pragmatic Dimension of Knowledge 

https://www.jstor.org/stable/4319495

Como a arquitetura pode ser agente de transformação? Conheça a trajetória de Ester Carro

https://glamour.globo.com/lifestyle/noticia/2025/05/como-a-arquitetura-pode-ser-agente-de-transformacao-conheca-a-trajetoria-de-ester-carro.ghtml

Brain and Art: Neuro-Clues from Intersection of Disciplines

https://www.taylorfrancis.com/chapters/edit/10.4324/9781315224091-8/brain-art-neuro-clues-intersection-disciplines-dahlia-zaidel

Thinging beauty: anthropological reflections on the making of beauty and the beauty of making

https://ora.ox.ac.uk/objects/uuid:f7cbc10e-b91c-4887-a575-4303c6a5154b/files/s9c67wn26z

A New Etruscan Archaeology: Twenty-First Century Techniques and Methods

https://books.google.com.br/books?hl=en&lr=&id=ePfTEQAAQBAJ&oi=fnd&pg=PA121&dq=neuroaesthetics+and+decoration+anthropology&ots=sJcZ3QcySM&sig=1hzxJrMw24Dzy1qtyu_3Czc9Heo&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false

Naruhodo #196 - Por que colecionamos coisas? 

https://www.youtube.com/watch?v=wtBSKMxua1k

Naruhodo #227 - Todos nós enxergamos as mesmas cores? - Parte 1 de 2 

https://www.youtube.com/watch?v=Tvu6qbOM_QM

Naruhodo #228 - Todos nós enxergamos as mesmas cores? - Parte 2 de 2 

https://www.youtube.com/watch?v=JCz4kD83KJc

Naruhodo #161 - Visitar museus pode curar doenças? 

https://www.youtube.com/watch?v=5B6YE_WT5dQ

Naruhodo #379 - Como nós nos tornamos nós? 

https://www.youtube.com/watch?v=fI9rqAJfcUU

Naruhodo #343 - O que é e como funciona uma relação estética? 

https://www.youtube.com/watch?v=rrF27pTFGg8

Naruhodo #442 - Qual o efeito da arte sobre nós?

https://www.youtube.com/watch?v=9pgyTDtRbeo

Naruhodo #462 - Por que gostamos do que gostamos? 

https://www.youtube.com/watch?v=2CmoDe1vU98

Naruhodo #468 - O que é a curiosidade? 

https://www.youtube.com/watch?v=VvsO7xvflhw

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APOIE O NARUHODO!

O Altay e eu temos duas mensagens pra você.

A primeira é: muito, muito obrigado pela sua audiência. Sem ela, o Naruhodo sequer teria sentido de existir. Você nos ajuda demais não só quando ouve, mas também quando espalha episódios para familiares, amigos - e, por que não?, inimigos.

A segunda mensagem é: existe uma outra forma de apoiar o Naruhodo, a ciência e o pensamento científico - apoiando financeiramente o nosso projeto de podcast semanal independente, que só descansa no recesso do fim de ano.

Manter o Naruhodo tem custos e despesas: servidores, domínio, pesquisa, produção, edição, atendimento, tempo... Enfim, muitas coisas para cobrir - e, algumas delas, em dólar.

A gente sabe que nem todo mundo pode apoiar financeiramente. E tá tudo bem. Tente mandar um episódio para alguém que você conhece e acha que vai gostar.

A gente sabe que alguns podem, mas não mensalmente. E tá tudo bem também. Você pode apoiar quando puder e cancelar quando quiser. 

O apoio mínimo é de 15 reais e pode ser feito pela plataforma ORELO ou pela plataforma APOIA-SE. Para quem está fora do Brasil, temos até a plataforma PATREON.

É isso, gente. Estamos enfrentando um momento importante e você pode ajudar a combater o negacionismo e manter a chama da ciência acesa. Então, fica aqui o nosso convite: apóie o Naruhodo como puder.

bit.ly/naruhodo-no-orelo

Participantes neste episódio2
A

Altay de Souza

Hostjornalista
K

Ken Fujioka

HostPublicitário
Assuntos6
  • Arte e Expressão PessoalUnidade basica do social · Individuo vs Pessoa · Senso de pertença · Agencia e extensao do corpo
  • Paixão do fã vs. Senso de posseUsership vs Ownership · Midias digitais · Perda de propriedade · Anomia social · Minimalismo
  • Identidade e TradiçãoCasa vs Lar · Decoracao como representacao · Jung e a psique · Carl Wertheim
  • Tradução do Gosto do ClientePierre Bourdieu · Gosto classifica o classificador · Acesso social · Belo e estimulante
  • Arquitetura militante e Esther CarroLei Rouanet · Reforma em comunidades · Espaços pequenos · Cultura local
  • Escassez e valor do tempoTeoria do processamento de fluencia · Familiaridade e tempo · Espaço agradavel
Transcrição129 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Por que gostamos de decorar as coisas?

ADAltay de Souza

Naruhodo Podcast.

KFKen Fujioka

Bem-vindo ao Naruhodo Podcast para quem tem fome de aprender. Eu sou Ken Fujioka.

ADAltay de Souza

Eu sou Altair de Souza.

KFKen Fujioka

E hoje é dia de quê?

ADAltay de Souza

Fúteis e úteis.

?Voz A

Bem-vindo ao Naruhodo Podcast para quem tem fome de aprender.

KFKen Fujioka

Eu sou Ken Fujioka.

ADAltay de Souza

Eu sou Altair de Souza.

?Voz A

E hoje é dia de quê? Fúteis e úteis.

KFKen Fujioka

Ilustríssima ouvinte, ilustríssimo ouvinte do Naru Rodô, o Altair e eu temos duas mensagens para você. A primeira é muito, muito obrigado pela sua audiência. Sem ela, o Naru Rodô sequer teria sentido de existir. Você nos ajuda demais, não só quando ouve, mas também quando espalha episódios para familiares, amigos e, por que não, inimigos. A segunda mensagem é: existe uma outra forma de apoiar o Naru Rodô, a ciência e o pensamento científico, que é apoiando financeiramente o nosso projeto de podcast semanal independente, que só descansa no recesso do fim do ano.

Manter o Narodô tem custos e despesas: servidores, domínio, pesquisa, produção, edição, atendimento, tempo, enfim, muitas coisas para cobrir, e algumas delas em dólar. A gente sabe que nem todo mundo pode apoiar financeiramente, e tá tudo bem. Tente mandar um episódio para alguém que você conhece e acha que vai gostar. A gente sabe que alguns podem, mas não mensalmente, e tá tudo bem também. Você pode apoiar quando puder e cancelar quando quiser.

O apoio mínimo é de R$15 e pode ser feito pela plataforma Orelo ou pela plataforma Apoia.se. Para quem está fora do Brasil, temos até a plataforma Patreon. É isso, gente. Estamos enfrentando um momento importante e você pode ajudar a combater o negacionismo e manter a chama da ciência acesa.

?Voz A

Acesa.

KFKen Fujioka

Então fica aqui o nosso convite: apoie o Narodô como puder. Tem uma coisa que eu aprendi viajando que ninguém te ensina: a roupa errada custa mais que peso na mala.

?Voz A

É isso mesmo que você ouviu.

KFKen Fujioka

Tem peças que nem adianta você levar na viagem porque não vai sair da mala. Por isso eu criei uma regra para mim mesmo: só levar na viagem se não pega cheiro ruim, se não precisa passar e se aguenta firme na durabilidade. E sabe quem é que cumpre tudo isso? Claro, as peças da Insider. É qualidade garantida e tecnologia que te deixa confortável e seguro. Já é julho e você não experimentou Insider? Então usa o endereço a seguir para ter o cupom NARODÔ já aplicado ao carrinho de compras, creators.insiderstore.com.br/naruodo, ou clique no link que está na descrição deste episódio. Insider, inteligência em cada escolha.

?Voz A

Altair, temos pergunta de ouvinte, mas antes eu preciso avisar nossas ouvintes, nossos ouvintes que eu estou com a voz prejudicada, vulgo voz de pato rouco. Exatamente. Mas para não deixar você sem episódio da semana, vamos gravar mesmo assim, não é isso, Altair?

ADAltay de Souza

Exatamente, exatamente. Muito bem, estamos aqui com Reginaldo e o Felipe, todos juntos.

?Voz A

É isso aí, suporte. A pergunta veio por email da que é o Gutierrez, que é psicanalista de São Paulo capital. E ela disse o seguinte: esses dias me surgiu uma dúvida: por que enfeitamos as coisas? Desde pequena eu sempre gostei de decoração de interiores. Costumo passear nas lojas de home decor para olhar os produtos e imaginá-los em minha casa. O meu pai, diferentemente de mim, não faz questão de ter enfeites pela casa, nem mesmo a parede pintada de outra cor.

Já minha mãe gosta de decorar, mas apenas com coisas para suas duas gatas, o que deixa a casa sem espaço para decorações pessoais. Também tenho amigos que não decoram nada referente à própria vida, mas capricham nos enfeites quando o assunto é uma festa temática ou embalagens de presente. Outros amigos gostam de decorar tudo, desde a casa até o carro, computador, bolso, cabelo, Me ajudem com essa questão. A ciência explica por que agimos assim?

O senso estético, que muitos julgam ter o bom e o brega, tem algo a ver com isso? Obrigada pela atenção e um beijo na bochecha de todos que fazem o Narodô acontecer. Eu amo vocês. Olha, Raquel, a gente também ama vocês, Raquel, principalmente quando vocês dizem que amam a gente. Manda um beijo na bochecha, né, Altair?

ADAltay de Souza

Sim, muito afetuoso esse email, né?

?Voz A

É verdade. Altair, afinal de contas, a pergunta da Raquel: a ciência explica?

ADAltay de Souza

Sim, explica. E na verdade, esse episódio é uma junção de alguns outros. O mais recente é o 462, Por que gostamos do que gostamos? Mas tem outros dois episódios, que é o episódio 196, que é Por que colecionamos coisas? E 161, Se visitar museus faz bem para saúde? Tá? Parece que não, mas é uma junção desses episódios assim principais. Com que idade você saiu de casa, da casa dos seus pais?

?Voz A

Ah, eu saí acho que com, tinha 17, alguma coisa assim.

ADAltay de Souza

Ah, foi logo que entrou na faculdade?

?Voz A

Foi cedo, é.

ADAltay de Souza

Quando você saiu de casa, você lembra do primeiro lugar que você foi morar?

?Voz A

Foi um dormitório emprestado.

ADAltay de Souza

Então assim, a partir do momento que você começou a morar sozinho, né, você sentia necessidade de decorar os lugares aonde você estava?

?Voz A

Olha, eram coisas muito mínimas, sabe? Um porta-retrato, nada, por exemplo, que eu tinha que furar a parede.

ADAltay de Souza

Você não se preocupava tanto com o lugar em si?

?Voz A

É porque, como o lugar não era meu, então eu acabava fazendo isso de uma maneira menos invasiva, vamos dizer assim, com a casa.

ADAltay de Souza

E isso até hoje?

?Voz A

Não, hoje é diferente. Hoje, até o nascimento da Zendaya, a gente gostava de decorar assim a casa com objetos que a gente, enfim, comprou em viagens ou ganhou, né? Mas eu confesso que eu tive que subir tudo de altura com o nascimento da Zendaya e guardei várias outras coisas que não tinham como ser expostas numa altura que a Zendaya não alcança, né? Mas resumindo, quando a casa passou a ser minha eu tive mais essa vontade de decorar.

ADAltay de Souza

Mas isso dependia mais de você ou da pessoa com a qual você estava?

?Voz A

Variava, variava. Às vezes eu tava mais entusiasmado com isso e às vezes eu tava zero empolgado com decoração.

ADAltay de Souza

Eu vou chegar no ponto central assim, mas tinha algum aspecto de você, e aí eu falo de você no senso estendido, que tem a ver com você e as coisas que são extensões de você, que pode ser a casa, a roupa, o carro, Pode ser uma sala no seu escritório, por exemplo, quando você trabalhava em agência, você tinha uma sala.

?Voz A

Sim.

ADAltay de Souza

Você decorava mais essa sala do que a sua casa?

?Voz A

Não, mais minha casa.

ADAltay de Souza

Mas tinha alguma coisa assim que você se preocupava?

?Voz A

Coisinha em cima da mesa, coisas em cima da mesa.

ADAltay de Souza

Então, porque na verdade esse episódio ele tem, como sempre, né, tem várias camadas assim, né. Obrigado pela Raquel, pelo email. Ele é bem legal na verdade, porque essa coisa de decorar a casa, de buscar decorar a casa, não é para todo mundo, não é todo mundo que tem essa disposição. Tá, mas a grande pergunta por trás do que ela tá falando é assim: qual é a unidade básica do social? Tá, vou repetir a pergunta: qual é a unidade básica do social?

Quando você pensa um fenômeno social, qual é a unidade básica? Qual é a menor unidade atômica do social? Que que você acha? Não é uma pergunta difícil.

?Voz A

Talvez, talvez pessoas que morem juntos numa mesma casa.

ADAltay de Souza

Isso, mas menos que isso.

?Voz A

Menos ainda, você diz, um indivíduo.

ADAltay de Souza

Então entra nisso. O que eu quero trazer assim no começo do episódio é que a unidade básica do social, muita gente vai falar que é a pessoa, é o indivíduo, né, é aquele corpo. Mas isso é culturalmente construído. Então a sacralidade da noção de indivíduo é algo socialmente construído. Tem, existem culturas em que a unidade básica do social não é aquela pessoa. É mais que isso, tem a ver com a pessoa e o lugar, ou a pessoa e uma parte da família.

Então, por exemplo, eu não consigo entender quem você é, quem, se eu não conheço seus pais. Em algumas culturas você só tem a noção de identidade do quem quando eu tenho contato com seus pais. Eu não sei quem você é se não conheço seus pais. É como se o básico da cultura fosse você e seus pais, por exemplo, certo? Né? Você é filho de quem, sabe? E às vezes tem os parentes também, os parentes do pai e da mãe. Às vezes é mais estendido ainda.

Só que hoje, na sociedade ocidental, onde uma pessoa, né, a gente— aqui esse é um episódio legal pra definir o que é uma pessoa. Assim, uma pessoa, o senso de pessoa não é só um indivíduo, mas é um senso de pertença. Uma pessoa é um senso de pertença, é algo que você pertence ou algo que você sente pertença. A razão pela qual, social, pela qual a gente gosta de decorar as coisas, e eu não tô falando só de casa, É porque isso nos dá uma consciência de agência de que a gente é uma pessoa.

Se você pega, por exemplo, uma coisa bem estereotipada, pega o morador de rua. Morador de rua, ele não tem uma casa, não tem uma casa, não tem uma propriedade, ele é um andarilho, por exemplo. Pega bem típico assim. A gente tem referências sobre isso. Até pessoas que moram em situação de rua, quando elas vão dormir num certo cantinho lá que elas vão procurar, elas têm certos comportamentos ligados à pertença daquele espaço. Então, de novo, uma pessoa não é só um indivíduo, mas é um senso de pertença.

E esse senso de pertença te dá consciência de agência. Então, o que você pertence tem a ver com o seu corpo, o seu corpo te pertence. Por isso que é uma coisa inalienável, inalienável, direito ao seu corpo. Qual é a entidade histórico-social que é um indivíduo que não tem pertença do seu próprio corpo? É o escravo. Numa sociedade razoável, Tudo bem que essa palavra razoável tem um sentido bem amplo, mas enfim, tá?

?Voz A

E a gente tá meio distante dessa palavra.

ADAltay de Souza

A gente tá forçando o significado dela, né? Mas enfim, tem muitas acepções para isso, tá? Mas assim, nas condições normais, uma pessoa é um indivíduo que tem um senso de pertença do seu corpo e de coisas que decoram o seu corpo, das suas extensões, das extensões do seu corpo. Então, por exemplo, muitas vezes a casa da pessoa é uma extensão dela. Ela se vê como pessoa dentro da casa dela. Às vezes não é só a casa, é o carro. Às vezes é um lugar, né?

Às vezes são as coisas que ela produz. Então, como a Raquel mesmo comentou, ah, tem uns amigos que não ligam para a própria casa, mas quando vai fazer uma festa se preocupa com todos os detalhes, porque isso é uma extensão dela, né? Isso é uma extensão da pessoa dela. Então assim, em algumas culturas O senso de eu é ligado à família. Você é quem? Não é nada. Você é a sua família. Eu só consigo entender dentro da sua família. E às vezes é a família nuclear, às vezes é a extensão da família nuclear, são os irmãos dos pais e das mães, tá?

Isso em algumas culturas. Lévi-Strauss descreve isso muito bem, né? O que que é a unidade básica do social? Depende, depende da cultura. Na nossa cultura, a unidade básica do social é a pessoa, é o indivíduo, Né, mas esse indivíduo é diferente da pessoa. Indivíduo é seu corpo, é você fisicamente, é o seu aglomerado de células aí, tá? Pessoa não é só um indivíduo, mas é um senso de pertença, é o corpo que te pertence e também coisas que você associa ao seu corpo.

Então, por exemplo, você pode não gostar de decorar sua casa, mas você decora o seu corpo. E aí entra na ideia de tatuagem, entra a ideia de adereços, entra na ideia de roupas. Coisas do tipo, tá? E aí tem um sociólogo muito interessante que é o Carl Wertheim. Em 1968, ele descreveu assim por que que a gente gosta de decorar a casa, né? E aí ele separa casa de lar, né, que tem uma separação simbólica, né? A casa é a estrutura mesmo, né?

E tem a ideia do senso de lar, que é o lugar onde você pertence e que o lugar pertence a você. Então você faz parte da casa e a casa faz parte de você também. E aí, quando você pensa um lar, a casa é uma unidade transacional. Você faz transações dentro da casa, e não é transação financeira, você faz transações de valores, de sentidos dentro da casa, né? Então a casa é composta de pessoas, né? Você tem os indivíduos que moram na casa, às vezes pode ser um só.

Existem processos psicológicos dentro da casa. Então, por exemplo, aí eu conto um caso. Eu morava num lugar maior, e aí assim Eu resolvi decorar aquele apartamento que eu morava. E aí eu descobri que eu não sou tão ruim de decoração assim. Então eu fiz isso de pintar uma parede, sabe? De ter quadros e coisas assim. Não ficou ruim, sabe? Inclusive, uma coisa muito importante que vale como a casa é a iluminação da casa. A maneira como você ilumina, né?

Inclusive, tipo, iluminação pro dia e pra noite também, né? Muda totalmente o ambiente, assim, né? E assim, eu não fiz um estudo sistemático disso, mas eu percebi que eu tinha uma certa apreciação estética pra... De decoração de interiores assim, que é uma coisa que eu não sabia que eu tinha, mas eu tenho, né? Hoje eu assumo que eu tenho, né? E aí todos os lugares que eu moro até hoje, eu tenho muitas coisas, né? Tem sempre muitas coisas assim, né?

Na minha casa vem muito pouca gente, mas a minha casa representa eu mesmo, certo? É uma representação mesmo da minha cabeça, porque eu passo muito tempo nela, né? É engraçado, tem muitas coisas assim, muitas, né? Não é que é bagunçado, é que tem muitos objetos mesmo. E aí tem coisas de viagem, tem coisa que é presente, várias coisas. Eu sinto claramente que a minha casa é uma extensão da minha pessoa. Eu me reconheço várias vezes.

Às vezes eu olho para alguma coisa, é verdade, tem isso, sabe? É como se me rememorasse pistas externas mesmo. É interessante. Então as decorações representam, tem representações também, né? Para mim pelo menos, né? Isso quem fala muito é o Jung, né? Então ele fala que muitas vezes objetos, não só a casa, mas pode ser um objetos que você tem, ou as suas roupas, ou coisas do tipo, são uma imagem da sua psique. É o jeito como você funciona.

Sua casa tem uma certa paridade com o jeito como você funciona. Só que isso não acontece pra todo mundo. E na sociedade mediada pelo mercado que a gente tem hoje, não funciona tão bem. Porque tem cada vez mais pessoas com menos direito à propriedade da casa, né? Tem muito mais gente vivendo de aluguel. E o aluguel dá uma quebrada nisso, nessa representação do... Do senso de pertença como a casa. Nesse sentido, então, isso é interessante refletir, Ken.

Como cada vez menos pessoas têm direito à casa própria hoje, o conceito de pessoa como senso de pertença da casa está mudando. O conceito de pessoa, o conceito de pessoa parece que está mudando, porque pessoa não é só um indivíduo, é um senso de pertença. Então, o primeiro senso: você tem propriedade do seu corpo e de coisas relacionadas ao seu corpo. Né, de outros objetos que são extensões do seu corpo. Você pode ter um relógio que você se identifica, você pode ter um chapéu, você pode ter roupas, coisas do tipo.

E a casa pode ser um desses adereços. Quanto menor o acesso à casa própria, menos pessoas sentem possibilidade de ter como senso de pertença a casa. Isso, isso reduz o espectro de percepção da pessoa, do indivíduo, como uma pessoa, ela tem menos espaço de reflexão, de expressão dela mesma, tá? É uma limitação. É como se, por exemplo, imagina que na nossa sociedade é proibido usar saia, por alguma razão é proibido, não pode mais usar saia.

Então você tem limitada essa capacidade de expressão de usar saias que você poderia usar, até fica bem com elas, mas você poda você mesmo, tá? Então a casa, né, Ela, como unidade transacional, ela tem as pessoas que moram nas casas, tem uma ideia de tempo. O tempo dentro da casa e fora pode ser diferente, né? De novo, é para algumas pessoas. Então, por exemplo, a Raquel comentou do pai dela que não faz questão de ter nenhum enfeite na casa, né?

Para ele não importa. Então a noção de tempo para ele não deve ser a mesma para ela dentro da casa. Então quando você está dentro de casa, o tempo passa diferente de quando você tá fora. Né? Para outras pessoas, tanto faz. Para outras pessoas, por exemplo, ir no parque. Eu vou no parque toda semana, e aquele parque, a minha noção de tempo é diferente, né? Então, o que constitui aquela pessoa como pessoa é estar naquele parque, entende?

Então, não precisa ser apenas a parte, a casa, né? Mas tem que ter algo que é uma propriedade daquele indivíduo. Tem um texto fantástico de 2021 que é chamado Geografia do Conforto. É um texto de um geógrafo sobre casas. Pertença de coisas assim, né? Não é nenhum texto de arquitetura, não é nenhum texto de sociologia, geografia mesmo, a geografia do conforto. Fantástico, né? De 2021, pô, isso aí é bacana demais, né? Então a casa tem a noção de pessoa, tem a noção de tempo, né?

Por exemplo, dentro, dentro da sua casa você pode ter tempos que são lineares e tempos que são cíclicos. Por exemplo, imagina que você almoça e janta dentro da casa. Almoçar e jantar marca o tempo. Você tem ciclos que você faz dentro da sua casa que fora da casa você não faria. Por exemplo, tem coisas que são lineares que têm a ver com a passagem do tempo mesmo. E tem uma questão ligada ao ambiente. Se a casa é grande, pequena, se tem móveis, quais os tipos de móvel, se tem um andar ou outro, né?

Isso diz respeito às características da casa. E aí a gente volta no episódio 462 do Por que gostamos como gostamos. Que eu falo muito do Pierre Bourdieu, tem uma frase do Bourdieu que se aplica totalmente a esse caso, que é a seguinte: o gosto classifica e classifica o classificador. Então, se você gosta de uma certa coisa na sua casa, isso tem a ver com o seu gosto, mas o fato de você ter aquele objeto também te classifica, porque te dá acesso social a algumas coisas.

Então, se na sua casa você tem uma obra de arte de um artista, e genuinamente você gosta desse artista, Isso, o artista também te classifica, porque você é capaz de fazer parte do grupo de pessoas que tem uma obra de arte em casa, certo? Entende, tá? Então tudo que você gosta também te dá acesso a coisas. Percebe que é uma coisa transacional, né? Você dá e recebe, né? Isso gera agência em você. Então, por exemplo, se eu tenho uma obra de arte em casa famosa, né, isso me dá acesso a lugares que tem outras obras e me dá acesso a grupos de pessoas que também têm, percebe?

Então é sempre uma coisa transacional. Aí eu volto na primeira pergunta: qual é a unidade básica do social? Não é só você sozinho, você não é isolado do contexto no mundo, né? Isso é importante também. Então a maneira como você decora a casa tem a ver com você uma parte, mas tem a ver com que você pertence socialmente, né? Tem a ver com que te classifica também, tá? E aí uma frase clássica, né, que fala: você é o que você consegue acessar.

Você é o que você consegue acessar, tá? E aí, e aí, para trazer um contraponto, porque, por exemplo, tem muita gente que gosta de decoração, assim, vê até aqueles, tem programas de TV de decoração, sabe?

?Voz A

É uma coisa que ficou, digamos, mais popular inclusive nos últimos anos, né? Acho que isso aconteceu com a decoração e aconteceu também com a gastronomia, né, com a culinária, né, que muito um monte de programa também de cozinha, mais ainda do que de decoração, é, mas as duas sofreram esse fenômeno.

ADAltay de Souza

E aí isso se liga muito com o nosso episódio 161 sobre museus, que a gente fala do Schopenhauer, né, o mundo como vontade de representação e dos sensos de belo, né. Você tem a noção de estimulante e a noção de sublime. Então, por exemplo, quando você gosta de culinária, culinária é uma coisa que você vê, né, Mas dá para algumas pessoas, a pessoa vê porque ela quer fazer também. Então eu acho bonito, entre aspas, ou legal, porque é estimulante, me obriga a fazer também.

Ah, eu quero fazer o mesmo macarrão que a pessoa fez, ou eu quero ir no lugar que é o restaurante da pessoa que ganhou, alguma coisa assim, tá? Então é um senso de belo que gera movimento, né, que gera acesso, que vira um mercado, né? Na verdade é um marketing, vira uma propaganda. Então você tem, voltando lá no Schopenhauer, né, você tem a noção de belo O belo é aquilo que você olha e acha bonito. Quando você vê um quadro, você vê um padrão, você vê uma estrutura, fala: ah, bonito.

O estimulante é aquilo que você viu: legal, eu quero fazer também, né? Então te move, não é uma coisa parada, é uma coisa dinâmica, né? Uma coisa ativa. E você tem a noção do sublime. A noção do sublime é uma coisa que você paralisa, mas te dá contato com a sua finitude, com o infinito. O que o Schopenhauer dá como exemplo é você olhar para o céu estrelado. Você observa a sua insignificância. Então geralmente quando você pensa na sua casa, né, ou nessa extensão do que você chama como pessoa, em geral são você usar coisas belas ou estimulantes.

O sublime é algo muito mais difícil assim. Em geral, às vezes na sua casa você tem coisas que te ligam ao sublime. Às vezes você tem um que a gente chama de relicário, uma coisa muito cara para você que toda vez você olha você lembra de alguma coisa. Isso te conecta com sublime. Sabe? Mas não é todo mundo que coloca isso. E aí é interessante, porque quando você vê esses programas de decoração de casa, ou mesmo de culinária, né, os programas de decoração eles são mais na lógica do belo.

Você vê estrutura, você vê simetrias, né, você vê coisas, casas bonitas assim, ou pelo menos que você julga bonito, cenários bonitos, coisas do tipo. E quando você olha para programas de culinária, é mais o estimulante, né? Só que aí claramente a gente volta no Bourdieu de novo. Você sabe que esses programas de TV têm também uma lógica cultural por trás de dominação de classe, porque são casas que parecem hotel, assim, um negócio meio padronizado, eurocêntrico, né, norte-americano.

E aí eu quero dar um contraponto. Eu não sei se você conhece uma professora do McKinsey que é a Esther Carro. Carro mesmo, dirigir.

?Voz A

Esther Carro, não conheço.

ADAltay de Souza

A Esther Carro é uma professora do McKinsey formada em em arquitetura, e ela ganhou prêmios até. Inclusive, ela tem um trabalho de mestrado, né, que são caminhos circulares para regeneração socioambiental. Ela tem um trabalho muito interessante de estética e de recuperação de locais em comunidades, na favela mesmo, sabe? É muito legal, muito legal o trabalho dela, muito interessante. Vale a pena ver como um contraponto desses programas, né, de TV.

Então ela tem um canal no um perfil, né, no Instagram, por exemplo, que ela mostra as reformas que ela faz. Então ela pega, por exemplo, casebres assim de 10 metros quadrados, às vezes menos, e reforma tudo, sabe? Isso vira como um trabalho de arquitetura para universidade, assim, fantástico, muito legal, muito, muito interessante. E mantendo os valores da, assim, explorando as funcionalidades de espaços pequenos e respeitando a cultura da comunidade, né? Muito legal.

?Voz A

De certa forma, então, dando acesso a essa capacidade de aplicar um senso estético assim na casa para pessoas que normalmente não têm recurso para isso, né?

ADAltay de Souza

Exatamente. E nesse sentido você dá civilidade, você dá acesso à pessoa ter uma, ao indivíduo ter uma noção de pessoa, porque ela sente de fato pertencente àquele lugar.

?Voz A

Muito legal esse trabalho, hein, Altair? Eu Eu não, ainda mais legal agora que eu entendi essa nova camada que você tá colocando aí.

ADAltay de Souza

Pois é, fantástico. Então essa dimensão cultural, né, dos processos dos indivíduos em relação com as coisas é muito interessante, assim, é muito legal. Mas pensando agora do ponto de vista da causa eficiente, né, que diz respeito ao comportamento do indivíduo, né. Então, por exemplo, a sua casa, faz quanto tempo que você mora na casa que você mora hoje?

?Voz A

Na que eu estou hoje faz 5 anos.

ADAltay de Souza

Isso. Então a sua casa hoje é familiar para você. Quando você se mudou para ela, assim, tem um certo, uma certa estranheza no começo, não teve?

?Voz A

Sem dúvida, até porque eu tava morando no apartamento antes dessa casa.

ADAltay de Souza

Isso. E aí você vai, né, ter adaptações, tá? Hoje é muito coisas que você antes se incomodava, agora ficou natural, né? Como é que isso acontece na nossa cabeça, né? Isso é chamado tipo teoria do processamento de fluência. Quão fluidas coisas são para você? Tá? A teoria do processamento de fluência, ela, ela descreve, por exemplo, quando você vê um estímulo várias vezes, você se habitua com ele e ele se torna mais fluido para você, ele se torna mais comum.

E aí a ideia é que quando você tem uma fluência perceptual de alguma coisa, é que ela é mais familiar. E quanto mais familiar é uma coisa, melhor você processa o tempo, mais rápido o tempo passa. Para você frente àquele estímulo. Então, quanto mais familiares as coisas em torno de você, em tese, mais fluido é para você processar o tempo, porque as coisas são mais familiares. Então, uma das razões pelas quais a nossa casa se torna a nossa casa é porque o tempo passa mais rápido quando a gente tá nela, porque você tá circulado de estímulos familiares.

?Voz A

Certo. O familiar então ajuda a dar a sensação de que o tempo tá indo mais rápido.

ADAltay de Souza

Ele vai um pouco mais rápido. Então, por exemplo, você tá em casa no meio das suas coisas, fazendo coisas, o dia passa mais rápido, né? Assim, se o lugar— e aí o trabalho da Esther é muito importante, o trabalho da Esther Carro, por exemplo, entre outros pesquisadores, né, da área de engenharia ou de arquitetura, né? O fato de você criar um espaço para você que seja familiar, que seja agradável para você, gera uma fluência, uma fluência de processamento maior.

O tempo vai passar com mais fluidez. Em geral, as atividades que você faz dentro daquele espaço são mais fluidas, você tem mais foco, né? Não quer dizer que você pode ter que ficar morando no apartamento de 20 metros quadrados o tempo todo, não é isso, né? Mas o seu trabalho se torna mais eficiente ali dentro, né? E aí você vê necessidade de sair, você sai, faz outras coisas, e quando você voltar não é aquela coisa opressora. Isso é uma preocupação que eu pessoalmente tenho, assim, eu nunca morei em lugares muito grandes, Mas eu tento deixar o máximo possível lugar pouco opressor para mim, sabe?

Então ele é bem funcional para mim assim, e ele funciona bem nisso, né? Então eu não me importo de passar muito tempo nele. Claro que assim, você tem que sair, eu me obrigo a sair fazer coisas, mas estando, estar na minha casa para mim é sempre bom assim, não é ruim, sabe? E eu acho que a Raquel concorda comigo em relação às coisas dela, tá? Mas de novo, tem pessoas que não se preocupam com a casa, a casa delas física Não é o problema, não é o que torna ela pessoa, tá?

Mas tem que ter algo que você tenha pertença que te torne pessoa. Isso tem que ter. Se você não tem nada, temos algum problema, seja não necessariamente com você, mas temos algum problema de contexto, tá? Então, por exemplo, imagina, você não liga muito para sua casa, para decoração, mas você gosta de usar certas roupas. Você presta atenção em algumas roupas que você usa. Isso é o seu senso de pertença. É o que te define como pessoa.

Ou você gosta de ir em alguns lugares ou fazer algumas atividades, né? Isso também tem a ver com seu senso de pertença. Isso tem que ser cultivado, né, para que você tenha representações da sua projeção no mundo, que você se sinta representado no mundo. Senão você cai em anomia. Então a pessoa que não tem, o indivíduo, né, que não tem nenhum senso de pertença para além do corpo dele É uma pessoa que cai em anomia social, ela não se sente representada socialmente, né?

Isso gera depressão, já dizia o Durkheim, e é um fenômeno cada vez mais atual, verdade seja dita, sobretudo por causa da desigualdade. E aqui a gente entra num ponto fantástico, né, que o próprio Karl Wertham, né, em 1968, que ele escreve um livro sobre a noção de casa e de lar e tal, ele coloca um termo muito interessante, que os móveis são uma espécie de roupa. Para algumas pessoas. Então tem pessoas que não ligam para roupa que usam, mas ligam para os móveis da casa, sabe?

Você conheceu pessoas assim que se preocupam com a organização dos móveis ou com um tipo de móvel, a usabilidade do móvel, sabe? Isso é como se fosse uma extensão dela, é a roupa dela, é a maneira como ela quer se apresentar, sabe? Tem pessoas— e aí eu vou fazer até uma recomendação de um filme recente. O filme não trata sobre isso, Mas ele tem isso, que é um filme agora de 2026 chamado O Convite. Você já ouviu falar desse filme?

?Voz A

Eu ouvi falar, sim. É um filme recente, né?

ADAltay de Souza

Isso, super recente. É um filme simples, assim, deve ter sido muito barato, tá? Porque o filme passa todo numa casa. E assim, sem spoiler, é um casal que vive numa casa que recebe a visita de outro casal. É isso, o filme inteiro é isso. Os diálogos são sublimes, assim, os diálogos são excelentes, é muito legal. É interessante que o casal, né, o casal que mora naquela casa, que recebe os visitantes, né, um deles não liga para casa, né, não tem muita ligação com a casa.

E o outro cônjuge se preocupou muito em decorar a casa, tem uma preocupação, lembra dos tapetes, das coisas da casa. É muito interessante reparar isso. E aí fica como exercício, né, para quem quiser ver esse filme ou já viu, como é estruturado o senso de pessoa de cada um dos cônjuges. São duas pessoas que moram na mesma casa. Uma delas não liga para decoração, é mais ligada à música, mas nem toca instrumentos. E a outra pessoa é ligada à casa, toda decoração é bem pensada e coisas do tipo.

Isso confere a ela certas noções de pessoa, tá, certas estruturas de pensamento mesmo. É muito interessante e tem a ver com esse texto do Carl Wertham. Tanto é que você pode ver que o processamento de fluência de cada uma das pessoas é diferente. Uma delas, quando tá em casa, é muito fluido. O tempo pra ela parece que passa muito fácil, porque tudo na casa é conhecido. Pra outra não, é meio travado. Aqui a gente entra numa discussão bem importante, moderna inclusive, que a gente fala, né?

Isso é bem da sociologia, assim. A ideia de design— depois vai ter um outro episódio sobre design especificamente, tá? Design pode ser ligado à arte, design tem uma questão formal mesmo, matemática, física e tal. Tem várias camadas, mas a ideia é que o design de interiores de casas em geral torna os lugares mais estéticos e mais funcionais. E aí tem evidência que isso melhora a sua saúde, porque você fica no lugar mais fluido.

?Voz A

Chega a ter essa influência.

ADAltay de Souza

Isso, isso a gente explora bastante no episódio 161, porque os museus têm esse papel também, né? Gera uma sensação de bem-estar e tal, né? Mas as casas bem decoradas, ou pelo menos decoradas no gosto da pessoa, É legal, ajuda muito, né? De novo, reforço o trabalho da Esther Carro, que é muito interessante. Então pega até um trabalho precarizado, né? Você trabalha como entregador e você trabalha por várias horas, e ainda você volta no lugar que não tem nada de representação com a sua pessoa.

É muito opressor, extremamente opressor. Claro que você vai ficar imediatista. Isso é meio triste, é muito complicado assim. E tem aparecido muitos trabalhos atualmente sobre um tipo de arquitetura mais militante. Arquitetura para dar um senso de propriedade, né? Para criar a pessoa a partir do indivíduo. Tornando o indivíduo conectado com aquele espaço. Essa é uma discussão importante, eu quero ressaltar isso. Uma pessoa não é só um indivíduo, mas é um senso de pertença.

Todos, todos nós somos indivíduos. Mas você se torna pessoa a partir do momento que você pertence a alguma coisa e alguma coisa te pertence. E a tendência da sociedade desigual hoje é tirar tudo de você. Até o seu corpo. Qual é o nome disso? Escravidão, tá? Quando você não tem pertença de nada. E aí o fenômeno atual hoje, e isso pega totalmente na sua área, que a relação entre o usership e o ownership. Usership vem de use, que é uso, uso de coisas versus a propriedade de coisas.

Essa é uma discussão super moderna. E aí tem até a ver com uma, aí me toca pessoalmente porque eu jogo videogame, Né? E aí teve uma iniciativa claramente de negócio da Sony, né, do PlayStation, por exemplo, que eles acabaram assim, eles vão falar que ano que vem eles vão acabar com as mídias físicas, não vai ter mais CD de jogos, vai ser tudo online, você não pode mais comprar jogos na loja, você vai comprar online, tá? E aí é quando você aperta o botão aceito e tem as letras pequenas, nas letras pequenas dos direitos eles dizem assim: Que você não tem o jogo, você tem o direito ao acesso dele.

Vai acabar agora em 2027, né? E o povo tá dando um auê, e com razão, tem que causar mesmo, né? Mas isso é uma tendência geral. Pensa músicas, né? Antes você tinha um CD, agora você paga um acesso a milhões de músicas. Então, por exemplo, você podia ter uma coleção de CDs ou de DVDs.

?Voz A

Eu tinha.

ADAltay de Souza

E é, então, só que agora você paga uma quantia relativamente baixa para ter acesso a todos as músicas, só que se você parar de pagar, você automaticamente perde, entende? Então essa é uma discussão super moderna entre o ter coisas, né, ter o acesso a coisas e a propriedade das coisas, né? E aí voltamos na premissa do episódio. Então quanto mais posse de coisas você tem, menos— desculpa, quanto mais uso de coisas você tem, menos posse delas você tem.

E quanto menos posse menos pessoa você se torna, porque na verdade você pertence a cada vez menos coisas. E aí, como é que eles vendem essa ideologia? Como sendo liberdade. Você é livre pra pagar, sei lá, R$40 por mês e ter acesso a todos os filmes. Isso é uma pilhéria, é uma mentira, né? É um engodo, sabe?

?Voz A

Porque você vai ter— Chamar isso de liberdade é muita sacanagem.

ADAltay de Souza

Vocês que fazem isso, o que que eu vou fazer, né? Geografia do Conforto 2021, texto foda. Né, então percebe, então parece, dá aquela sensação, veja como é ambíguo, gente, o quê, dá aquela sensação que o mundo tá ficando cada vez mais minimalista, né. Quando você olha de fora, pensa, por exemplo, quando você trabalhava com 20, 25 anos, pensa a sua mesa, sua mesa tinha muitas coisas, máquina de escrever, tinha vários tipos de coisa que era tudo analógico, né.

Conforme foi vindo o computador, foi aglutinando funções, então foi tirando tudo. Né? Hoje, hoje a sua mesa é um computador, e olha lá, não precisa nem de papel nem de caneta, tá? A sua mesa é só o computador e uma tela, né? No máximo, no máximo uma tela extra, tá? Só que o que acontece, você tem cada vez posse de menos coisa, então dá uma sensação de minimalismo, né? Só que na verdade a posse das coisas tá sendo tirada de você, você tá tendo acesso às coisas porque tudo tá se tornando virtual, né?

E como tudo tá se tornando virtual, tem um retorno disso. Você perde a propriedade de você mesmo. A única coisa que você vai ter propriedade, olha lá, é o seu próprio corpo. Na verdade, você está homogeneizando. E aí esse texto do Geografia do Conforto é fantástico. Você está homogeneizando a cultura, você tá tornando todas as— você tá tirando das pessoas a capacidade de possuir coisas. Logo elas se desidentificam, tem uma desidentificação das culturas.

Eu não consigo saber mais se você é japonês ou brasileiro. Porque a gente tem os mesmos objetos e eu não sei o que que você tem acesso e nem você sabe, né? Sim, o tempo todo você tá pagando, pagando e parando de pagar, está ganhando e perdendo coisas. Você vira tipo um camaleão, só que com cada vez menos cores, entendeu? Até o ponto que a gente vai ter a mesma cor, ele vai ficar igual, tudo igual, né? Ou seja, anomia completa. Ai, que desgraça, né? E o que que a gente faz com isso? Que me fala.

?Voz A

O que que a gente faz com isso, Altair? Pois é, eu não quero ser igual a todo mundo, Altair.

ADAltay de Souza

Não, a questão não é ser igual ou diferente, né? A questão é que você está perdendo cada vez mais a possibilidade de se sentir pessoa. Esse é o negócio. Você, você não tem mais essas representações da decoração na sua vida. A sua vida perde as cores. E isso você tem total. E aí tem um artigo fantástico sobre isso mostrando que as tendências de arquitetura, arquitetura de interiores, tá ficando cada vez mais com cores mais pastéis ou para o branco e mais padronizado.

?Voz A

Exato. E isso vale para várias coisas, né, Otávio? Vale para estética de cafeterias, vale para cores de automóveis, né?

ADAltay de Souza

Estamos perdendo as cores, quem?

?Voz A

Já vi várias comparações de fotos de outras décadas com a da atual ou década, e você vê uma perda de cores mesmo.

ADAltay de Souza

Isso. Então qual é a grande, a grande função, né, por exemplo, de você decorar coisas sobre toda a sua casa, né? É te dar uma imagem de selfie, é melhorar a sua imagem de selfie. Poxa, meu dia deu todo errado e tal, mas pelo menos eu volto para minha casa, eu vejo que tem as minhas coisas, sabe? Mas nem isso, você tem mais que— porque você paga assinatura de tudo e você só tem acesso às coisas e não propriedade delas. Ah, eu queria ver, sei lá, eu pegar o DVD do filme do Scarface para ver pela 37ª vez.

Nem isso eu posso mais porque não tem mais a máquina com DVD. Ai, meus ovos, meu corpo complicado, viu? Que é complicado, complicado. Então, de novo, essa lógica de mercado, nessa, essa, na verdade, esse conflito mesmo, né, entre do virtual e do presencial, né, do analógico e do digital. É uma coisa cada vez mais frequente. E aí eu até divido um trabalho recente, assim, super recente, que fala disso. Por exemplo, atividades culturais, né?

Estamos mais ou menos na época da festa junina, né? A festa junina passou, mas estamos aí. Quando você pensa em festa junina, o que que você lembra? O que que vem a primeira coisa de decoração?

?Voz A

Bandeirinhas coloridas.

ADAltay de Souza

Isso, muito bem. Bandeirinhas, bandeirinhas, né? Tem um gaiato que começou a verificar a frequência de uso de bandeirinhas. Tá diminuindo.

?Voz A

É mesmo? Ele começou a contar isso nas festas?

ADAltay de Souza

É contagem, assim, vai tirando fotos dos mesmos lugares todos os anos, vai contando as bandeirinhas. Tá diminuindo cada vez mais, sistematicamente tá diminuindo as bandeirinhas. Ou seja, as bandeirinhas ou estão ficando virtuais ou as pessoas não se importam mais, né? Pode ser que no futuro só tenha uma bandeira só para marcar que é hoje, sabe? Isso é Olha que horrível que essa pasteurização do, do, das coisas. E aí, como a gente não tem mais posse das coisas, só acesso a elas, e esse acesso é mediado por alguém, e é alguém que é da sua área, que quer na verdade padronizar tudo para reduzir custo, fudeu, entendeu? Todo mundo fica igual.

?Voz A

Ó, o cara que quer reduzir custo não necessariamente é da minha área, viu?

ADAltay de Souza

Todos são. Não, no fundo cai sempre nos stakeholders, geralmente.

?Voz A

É no financeiro mesmo.

ADAltay de Souza

É, vocês têm que rolar. Sempre cai alguma agência aqui que desgraça. Eu fico, ok, isso não te deixa bolado? Eu fico desgraçado da cabeça com isso, é verdade.

?Voz A

Poxa, eu já não faço mais parte disso.

ADAltay de Souza

Ah, mas você tem que lutar de dentro, tem que encher o saco dos seus amigos. Poxa, nem para encher o saco deles.

?Voz A

Então tem outras prioridades agora.

ADAltay de Souza

Droga, eu sempre lembro da frase do Budi: o gosto classifica e classifica o classificador. Se todo mundo começa a ter o mesmo gosto, todo mundo se classifica como sendo a mesma coisa, né? Só que isso é falacioso, isso é falacioso, porque a gente não é igual, a gente é igual na diferença, né? E aí me lembra muito dos tipos de processo antropológico, por exemplo, né, que no passado— e aí, por exemplo, se você pega no começo do século, se bem que hoje existe igual, não é igual, mas é parecido.

Você pega lá no século 19 os processos sociais eram muito separados pela falta, né? Então, eu tenho, você não tem. Eu sou branco, você não é, né? Então eles viam muito na lógica racista mesmo do século 19, né? O negro era ausência do branco, né? Faltava alguma coisa, né? Você não é isso, logo você não pertence porque você não é. Depois a discussão avançou um pouco, aí virou ausência. Você é ausência de alguma coisa, né? Então não é mais uma coisa de cor, mas você não tem a família, você não tem os dotes, os traços.

Numa sociedade mais inclusiva, que é a que esperaríamos hoje, seria uma sociedade que não é baseada nem na falta nem na ausência. Não te falta nada e você não é ausente de nada, você é só diferente de mim. Então você não, tipo, eu pelo menos me sinto assim em relação a você, tá? Que não precisa reciprocar, tá? Mas assim, Eu não sinto que me falta nada em relação a você e eu não me sinto ausente em relação a nada a você, mas eu me sinto diferente e tá tudo bem, somos diferentes, né?

Então, numa sociedade pautada pela diferença, quais são os limites? Os limites são os maiores possíveis. Se eu entendo as diferenças, o meu mundo interno se torna maior. Mas por que você possui coisas como pessoa que eu não possuo? A gente tem posse de coisas, mas a partir do momento que a gente é tirado da gente essa posse, a gente só tem o acesso A gente fica cada vez mais igual, né? E dá a sensação que a gente tá mais próximo, mas não tá, não tá ficando igual, cada vez mais igual.

A gente tá, na verdade, entrando os dois em anomia, né? É a melhor forma de recrutar um soldado. Como é que você faz um soldado? Você vai entrar lá na CPOR, no tiro de guerra, qual que é a primeira coisa? Corta seu cabelo, põe a mesma roupa, todo mundo igual, dorme na mesma cama, come a mesma comida, faz tudo igual.

?Voz A

E a mesma coisa você faz uma prisão também.

ADAltay de Souza

Muito bem. O que não diferencia muito um do outro, né? Só a doutrina, né? Mas enfim, percebe o problema, né? Então essa discussão tem várias camadas. E aí, para fechar o episódio em relação a isso, não tem muito uma resposta, mas isso na verdade é uma descrição social do que a gente tem hoje. A gente gosta de decorar as coisas, seja a nossa casa ou coisas que nos pertencem. A gente tem essa tendência a decorar, isso faz parte da constituição da nossa subjetividade.

Mesmo do nosso senso de pessoa. Isso é, isso tem todas as culturas, mesmo, mesmo culturas que são, são caçadoras-coletoras ou são nômades. As pessoas têm pequenas propriedades que elas adornam, seja o corpo delas, seja pequenos adereços. Todo mundo decora algo para se diferenciar, para ter um senso de eu, e aí ter um senso de pertença àquela comunidade. Então eu pertenço a essa comunidade porque eu tenho diferenças em relação a você, e mesmo assim a gente tá junto, sabe?

Eu sou diferente em relação a você, mas mesmo assim fazendo parte do mesmo grupo. Eu reconheço a diferença, você reconhece a minha. Isso seria uma sociedade boa, né? O problema é que tá acontecendo exatamente o contrário. Você vê pelas tendências de arquitetura que tá aumentando a tecnologia, os aparatos tecnológicos estão aumentando, mas eles aumentam necessariamente pra aumentar a funcionalidade, mas não necessariamente a pertença.

Não se tem respeito, por exemplo, às questões culturais de cada região. É só funcional, né? Vira uma coisa. E aí a tendência da tecnologia, é só pensar aquela metáfora: uma mesa nos anos 80, uma mesa hoje tem cada vez menos objetos. Não é que os objetos estão sumindo, eles estão sendo aglutinados, só que tá todo mundo tendo as mesmas mesas.

?Voz A

Quer dizer, a função dos objetos, né, tá sendo aglutinada.

KFKen Fujioka

Isso.

ADAltay de Souza

Mas aí a gente perde, por exemplo, a nossa diferenciação entre pessoas. O efeito social disso é anomia. Você perde a sua identificação. Isso é chamado desidentificação.

?Voz A

Antes, eu me lembro inclusive, um pensamento lateral aqui, que eu cheguei a ver o trabalho de um fotógrafo que era sobre mesas de trabalho. Ele fotografava mesas de trabalho das pessoas mostrando como era muito personalizado, né, Otávio? Imagina como é que era a exposição, assim, eram mesas muito diferentes umas das outras. E hoje, se você tirar foto de mesa, vai ser tudo igual, né? Vai ser aquela mesa branca, o computador com o laptop no meio.

ADAltay de Souza

Então vira aquelas— por isso que você tem um monte daquele, da— não é coffee shop, é os coworking. É o coworking, exatamente isso, né? Te dá aquela ilusão de liberdade que você pode trabalhar em qualquer lugar, mas na verdade você pode trabalhar por qualquer lugar porque qualquer lugar é qualquer lugar. Você não tem mais pertença de nada, você só tem o acesso àquele lugar, sabe? A única coisa que— olha lá de novo, você tem pertença ao seu corpo.

E aí tem o Foucault falando lá da— o Foucault fala muito disso, né, do efeito das relações entre saúde e poder, né? Você só tem propriedade do seu corpo enquanto ele é saudável o suficiente para produzir. Quando ele parar de produzir, nem isso você tem propriedade mais. Olha que droga, né? É complicado, é complicado. E é por isso que tem um monte de jovem agora, porque a gente, nós somos pessoas mais velhas, né?

?Voz A

Eu sou, você que tá chegando lá.

ADAltay de Souza

Então, mas o povo mais jovem que tem 20 anos hoje tá tudo coringando. Claro que vai estar coringando, não tem porquê. Você não tem propriedade porra nenhuma, né? Você já nasce numa sociedade tecnológica que nada te pertence, tudo é mediado pelo acesso a algo, né? E de novo, você é o que você consegue acessar.

?Voz A

O acesso à posse, não o acesso, mas o acesso à posse Ficou cada vez mais caro também, obviamente, e mostra desigualdade cada vez maior, né?

ADAltay de Souza

E essa seletividade, o episódio 462, você nem é capaz de gostar de ter a posse. Você ouve muita gente falando isso: ah não, é bom não ter, né?

?Voz A

Porque aí eu só tenho acesso, fica mais prático, que aí não tem a dor de cabeça.

ADAltay de Souza

Isso, essa lorota.

?Voz A

A verdade é que a gente tá vivendo a primeira geração que provavelmente vai ser mais pobre do que as gerações anteriores, né?

ADAltay de Souza

A minha já se configura, tá? Eu já tô meio assim, tem um episódio de transfuga de classe, mas a minha já se configura, já é uma tendência de uma geração e meia para frente, né? Isso é tema para outro episódio. Isso não é necessariamente ruim, não é necessariamente ruim, tá? Você ter um poder de consumo menor do que os seus pais não é necessariamente ruim se você tem um uso mais eficaz disso. E se você parar de pensar, por exemplo, em evolução como progresso Né?

Eu evoluí porque eu tenho mais, sabe? Essa coisa de crescer, crescer, crescer como se fosse um câncer. Às vezes você tem um padrão de vida um pouco mais estoico, e se todo mundo tiver isso, a noção de valores, de pertenças, muda.

?Voz A

Sim, o problema é que não é bem isso, né, que acontece. Ao mesmo tempo em que as pessoas diminuem o acesso para elas, você tem uma concentração de renda e patrimônio. Então ela tá indo na direção oposta, na verdade.

ADAltay de Souza

Que droga, né? Que droga! Só pra não fechar o episódio muito bad vibes, que a gente já tá acostumado a fechar vários bad vibes, né? Mas eu espero que tenha respondido a pergunta da Raquel, ainda mais pra ela ser psicanalista, que tem essas camadas simbólicas e tal. E ficam, de novo, duas definições muito importantes: a pessoa não é só um indivíduo, mas é um senso de pertença. O seu corpo não é a única coisa que tem que te pertencer pra você ser uma pessoa.

Você tem que ter a posse de certas coisas da sociedade. Seja um lugar, seja um objeto, seja uma decoração, qualquer coisa. Então, se você tem essa posse, você se identifica como pessoa, e toda pessoa é pertencente a um certo contexto social e cultural. E aí você faz, você não cai em anomia. O que tem acontecido, e aí essa discussão muito importante entre uso e posse, entre aluguel e propriedade, a maior parte das pessoas estão alugando coisas.

Você tem no mundo inteiro, seja no mundo, no mundo desenvolvido ou não, crises de aluguel. Várias, várias grandes cidades, Airbnb, todos esses problemas refletem isso, tá? Então você tá tirando cada vez mais o acesso das pessoas ao bem e dando apenas ao acesso ao uso das coisas. Isso diminui a capacidade das pessoas, dos indivíduos, de se sentirem pessoas, né? Vai gerar desidentificação. Você tá criando basicamente treinamento para soldado open bar, tá?

Que é basicamente isso que fazem todos os soldados em qualquer CPOR e tiro de guerra, coisas do tipo. Tá? É a mesma coisa, pode fazer essa mesma analogia porque é válida. Mas assim, para deixar um pouco mais leve, eu fiz uma pesquisa também. E aí tem uma área muito recente assim, razoavelmente recente, que é chamado neuroarquitetura. Já ouviu falar da neuroarquitetura? Não, né? Eles botam o nome de neuro em tudo agora, né? Então parece meio triste, né? Parece.

?Voz A

Então é porque eles falam que se colocar neuro deve cobrar mais.

ADAltay de Souza

É bom, exato. Mas assim, a neuroarquitetura são o estudo da psicologia cognitiva, da psicologia da percepção, para melhorar a usabilidade, a percepção e a estética das pessoas dentro de casas, lares, estruturas. E aí tem um livro sobre neuroarquitetura que é muito interessante, né? É muito interessante. E aí eu fiz uma seleção, caso você queira fazer alguma reforma na sua casa, coisas que você não deveria fazer. Ou pode fazer.

Por exemplo, uma coisa que é interessante, imagina no quarto tem a cama, né? Em geral você encosta a cama na parede, né? E tem uma cabeceira, ou não. Nunca coloque uma prateleira em cima da sua cama, tá? Tem trabalhos que mostram isso. Quando você dorme assim com uma prateleira por cima, sim, você tá criando um acidente em potencial para você mesmo, né? Pode cair qualquer coisa de lá, tá?

?Voz A

E você pode bater a cabeça na prateleira.

ADAltay de Souza

Você pode até regular a altura para ficar mais alta, mas mesmo assim tem coisas caem Se balança. Então não é recomendado. E se você olhar fotos de decoração, tem direto prateleira em cima da cama, tá? Então sabe aquela coisa que parece bonito quando você vê, mas não funciona?

?Voz A

É isso.

ADAltay de Souza

Isso é uma das coisas. Não põe nada em cima da sua cabeça quando você tiver dormindo, tá?

?Voz A

Nada. Tem alguns canais de arquitetos que fazem esses vídeos assim de 5 coisas que todo arquiteto gosta, mas para quem mora é uma porcaria.

ADAltay de Souza

Isso, isso. Essa é uma delas, tá? É, por exemplo, o pé direito muda completamente a percepção de um recinto. Se o teto é mais alto, muda completamente a percepção, mesmo quando o lugar é pequeno, né? Então lugares com teto mais alto realmente tem uma vantagem assim, tá? Tanto de implementação quanto de uso do espaço, né? E aquela coisa sobre você prefere luz amarela ou branca, sabe? Então isso também não é— há controvérsias, depende do ambiente.

Né, luz amarela ou branca. Mas mais importante do que a luz é o ângulo dessa luz. Então se você coloca uma luz com ângulo muito aberto, um ângulo obtuso maior que 90 graus, ilumina mais, seja amarela ou branca, tá? Mas se você quer fazer uma iluminação mais intimista, você tem que fazer com ângulo agudo, menor de 90 graus, né, com foco mesmo, e o foco em certos pontos, tá? Então são dicas simples.

KFKen Fujioka

Tá?

ADAltay de Souza

Para, para, e às vezes esses, esses bocais de luz, né, que direcionam, são mais baratos do que um lustre.

?Voz A

Dicas do designer de interiores Altair de Souza.

ADAltay de Souza

É designer de interiores, pois é, quem diria, né? Mas funciona bem. E essa dica de poder pegar o mesmo ambiente, ter dois esquemas de iluminação para o dia e para noite, funciona bem, não é tão caro, tá? Vale a pena. Então você não precisa fazer, mas, né, tem umas referências. Eu até coloquei um link com uma referência de coisas de decoração para para quem tiver interesse, tá? Fica a dica aqui. Mas perceba, perceba essas camadas, tá, da questão da decoração.

E tente se preocupar. E acho que a pergunta final do episódio é: acho que ficou muito claro a diferença entre indivíduo e pessoa, né? Todos nós somos indivíduos, beleza, isso é fácil de descobrir. Mas que pessoa você é hoje, né? Você sente que você pertence a quê? Ou que coisas te pertencem? E esse senso de pessoa que você tem foi mudando ao longo do tempo? Essa reflexão você tem que fazer. Sabe? E se você não tá contente com isso, tente ter posse de coisas que configurem a sua pessoa de uma forma que você goste mais.

?Voz A

Olha, sempre foi para mim intuitiva essa coisa de sua posse ajudar a ter noção de pessoa, mas eu não sabia que era algo tão diretamente relacionado assim.

ADAltay de Souza

E algo super moderno, essa é uma discussão super moderna, tá? Essa discussão entre uso e posse só vai aumentar. Só vai piorar e tem repercussão em todas as áreas. Então esse episódio é uma forma de responder a pergunta da Raquel, mas trazer essa questão à tona que vai se tornar cada vez mais presente.

?Voz A

E é interessante, né, porque poderia, sei lá, o senso comum poderia nos levar à conclusão, uma conclusão oposta, né, de que não ter posse dá mais ênfase ao que eu sou e não ao que eu tenho, né.

ADAltay de Souza

Muito bem.

?Voz A

Mas o que eu tenho faz parte do que eu sou.

ADAltay de Souza

Exato, porque você não é descolado do contexto. Essa essência, na verdade, é construída na interação com o ambiente. Se o ambiente é mais pobre, você vai se empobrecendo internamente também. Legal, né?

?Voz A

Muito legal, tá? E acho que a nossa amiga Raquel vai ficar feliz com a resposta.

ADAltay de Souza

Só prova de amor para ela, já que ela disse que ama a gente.

?Voz A

É isso daí então. E Naro rodou, ilustríssimo ouvinte!

KFKen Fujioka

E você já sabe, Sabe, aqui no Naru Rodô quem faz a pauta é você. Você tem alguma pergunta pra gente ou quer comentar algum episódio?

ADAltay de Souza

Escreva pra nós, podcast@narurodô.com.br. Repetindo, podcast@narurodô.com.br.

KFKen Fujioka

E lembre-se, mande nome completo, idade, profissão e a cidade de onde você está falando.

ADAltay de Souza

É isso aí. Esse podcast é apresentado por petlove.com.br.

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