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Naruhodo Entrevista #68: Alexandre Linck

25 de maio de 20261h23min
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Na série de conversas descontraídas com cientistas, chegou a vez do Professor, Youtuber, graduado em Cinema e Vídeo, Mestre em Ciências da Linguagem e Doutor em Literatura, Alexandre Linck.

Só vem!

>> OUÇA (83min 34s)

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Naruhodo! é o podcast pra quem tem fome de aprender. Ciência, senso comum, curiosidades, desafios e muito mais. Com o leigo curioso, Ken Fujioka, e o cientista PhD, Altay de Souza.

Edição: Reginaldo Cursino.

http://naruhodo.b9.com.br

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Alexandre Linck Vargas tem experiência na área de Literatura e Artes, atuando principalmente nos seguintes temas: Teoria Literária, Filosofia da Arte, Estética, Teorias da Imagem, Crítica Cultural, Roteiro de Cinema e TV e História em Quadrinhos.

Graduou-se em 2004 no curso de Comunicação Social - Cinema e Vídeo pela Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL).

Ingressou em 2005 no Mestrado em Ciências da Linguagem - também na Unisul -, concluindo em 2007, com a dissertação "A morte do homem no morcego".

Em 2010, ingressou no Doutorado em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), concluindo em 2015 com a tese "A invenção dos quadrinhos: teoria e crítica da sarjeta".

Atualmente é professor do PPGCL - Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem, onde leciona a disciplina de Estética, e dos cursos de Letras (teoria literária) e Cinema (teoria, história e roteiro cinematográfico), todos da Unisul.

Alexandre é editor da revista Memorare, líder do grupo de pesquisa "Estudos em artes" (GRUAS)", e membro da RING (Red de Investigadoras e Investigadores de Narrativa Gráfica en Latinoamérica).

Destaque também para o trabalho de cineasta nos curtas-metragens OCULTO (2003), RELIGARE (2005), DEUSES DE MENTIRA (2009), e o site/canal sobre histórias em quadrinhos, QUADRINHOS NA SARJETA (2011-atual).

Lattes: http://lattes.cnpq.br/6080748048889215

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Assuntos5
  • Trajetória profissional e acadêmicaInfância e adoção · Formação em Cinema e Vídeo · Mestrado em Ciências da Linguagem · Tese 'A Morte do Homem no Morcego' · Doutorado em Literatura · Tese 'A Invenção dos Quadrinhos: Teoria e Crítica da Sarjeta' · Carreira como professor universitário · Transição para o YouTube e 'Quadrinhos na Sarjeta' · Alexandre Linck Vargas
  • Mercado de Quadrinhos BrasileirosMaurício de Souza Produções · Nicho e elitização do mercado · Virada do mercado nos anos 2000 · Dificuldades de publicação e reconhecimento · Diomedes (Lourenço Mutarelli) · Bianca Pinheiro · Lucas Johanathan · Chico (S-H-I-K-O) · Day Tripper (brasileiros)
  • Quadrinhos e ficçãoComparação com teoria do cinema · Margem de estudo e inovação · Crítica à falta de contribuição em pesquisas · O conceito de 'sarjeta' em quadrinhos · Demanda reprimida por estudos de quadrinhos · Boom de estudos de quadrinhos nos anos 2000 · Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos na USP · Falta de concursos para professores de quadrinhos · Medoquidade dos estudos de quadrinhos no Brasil · Academia de quadrinhos na Bélgica
  • Filmografia de Kleber Mendonça FilhoCurta-metragem 'Oculto' · Curta-metragem 'Religare' · Curta-metragem 'Deuses de Mentira' · Atuação em 'Durval Durvey' · Gênero do terror no cinema · Desafios da produção de cinema no Brasil
  • Canal Fábrica de Monstros e conteúdo digitalCriação do blog 'Quadrinhos na Sarjeta' · Necessidade de interlocução
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Então eu gostava de volta e meia olhar os quadrinhos, eu gostava de ver os filmes. Então esse mundo da cultura pop, eu gostava e ia lhe assampliando pra mim. De repente eu já queria saber mais também do Superman, de repente eu queria saber mais do Flash, os super-heróis começaram a soar interessante pra mim.

O curta que eu fiz, que mais circulou, foi um que eu fiz em 2002 ou 2003, acho que é 2003, que é o Oculto. O Oculto foi um curta-metragem, esse chegou a passar em Portugal, passou na televisão também. Eu entrei no mestrado, mas eu entrei muito arrastado, eu não estava tão afim de fazer, etc. Eu até estudei bastante para a prova, consegui bolsa, quando eu ingressei, mas eu fui começar a gostar desse mundo acadêmico, eu estava dentro do mestrado já.

Isso acontece muito nos cursos de humanas, né? Então, assim, ah, eu gosto de Machado de Assis, vou fazer uma pesquisa sobre Machado de Assis. Não, não é porque tu gosta. Tu tem algo novo a dizer sobre Machado de Assis? Entende? Assim, tem que ter uma contribuição. Fazer ciência não é capricho. A gente só tem uma pessoa que ficou rica fazendo quadrinhos no Brasil, que é o Maurício de Souza. Tudo gira um pouco em torno dele. Mesmo indiretamente. Às vezes o pessoal não se dá conta, mas isso tem. Como a Maurício de Souza Produções é forte, aqueles que são mais fortes no mercado orbitam a Maurício de Souza Produções.

Naruhodô Entrevista Alexandre Link Naruhodo

Ilustríssimo ouvinte, ilustríssimo ouvinte do Naruhodô, o Altair e eu temos duas mensagens pra você. A primeira é muito, muito obrigado pela sua audiência. Sem ela, o Naruhodô sequer teria sentido desistir. Você nos ajuda demais não só quando ouve, mas também quando espalha episódios pra familiares, amigos e, por que não, inimigos.

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E algumas delas em dólar. A gente sabe que nem todo mundo pode apoiar financeiramente. E tá tudo bem. Tente mandar um episódio pra alguém que você conhece e acha que vai gostar. A gente sabe que alguns podem, mas não mensalmente. E tá tudo bem também.

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E ilustríssimo ouvinte, ilustríssimo ouvinte, seguimos com a série Naro Rodou Entrevista, que está trazendo conversas descontraídas com cientistas brasileiras e brasileiros que contam sobre suas trajetórias, seus pensamentos e seus campos de atuação. Neste episódio, vamos falar com Alexandre Link.

Alexandre Link Vargas tem experiência na área de literatura e artes, atuando principalmente nos seguintes temas. Teoria literária, filosofia da arte, estética, teorias da imagem, crítica cultural, roteiro de cinema e TV e história em quadrinhos. Graduou-se em 2004 no curso de comunicação social, cinema e vídeo pela Universidade do Sul de Santa Catarina.

Ingressou em 2005 no mestrado em Ciências da Linguagem, concluindo em 2007 com a dissertação A Morte do Homem no Morcego.

Em 2010, ingressou no doutorado em Literatura, concluindo em 2015 com a tese A Invenção dos Quadrinhos Teoria e Crítica da Sargeta. Atualmente é professor do PPGCL, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem, onde ele aciona a disciplina de Estética e dos cursos de Letras, Teoria Literária e Cinema, Teoria, História e Roteiro Cinematográfico. Todos na Unisul.

Alexandre é editor da revista Memorare, líder do grupo de pesquisa Estudos em Artes, Gruas, e membro do RING, é o Red, de investigadoras e investigadores de narrativa gráfica em Latinoamérica.

Destaque também para o trabalho de cineasta nos curta-metragens Oculto, de 2003, Religare, de 2005, Deuses de Mentira, de 2009 e o site Canal Sobre História em Quadrinhos, Quadrinhos na Sarjeta. Vamos então para a conversa com Alexandre?

Alexandre, muito obrigado por ter topado falar aqui com a gente no Neuro Rodô. Dê aí o seu primeiro salve para as nossas ouvintes e para os nossos ouvintes, Alexandre. Olá, olá, bom dia, boa tarde, boa noite e obrigado pelo convite.

Imagina, a gente aqui agradece ter topado e ter separado um tempinho para conversar com a gente aqui, Alexandre. Estamos falando com uma pessoa que tem intimidade com gravações, intimidade em exposição. Não é, Alexandre? É, mais do que eu gostaria até.

Tá certo, então. A gente vai conversar com o Alexandre, que é um youtuber. Além de pesquisador, ele é youtuber.

Mas vamos começar com a vida acadêmica dele. Mas antes até da vida acadêmica, eu vou fazer a pergunta que eu faço para abrir todas as conversas que a gente tem aqui no Naro Rodô Entrevista. Eu quero saber, Alexandre, quando você nasceu, onde você nasceu e em que contexto familiar, socioeconômico você nasceu?

Bom, eu nasci numa data que eu usava pra assustar meus colegas, porque eu tinha muito colega que era crente, e como eu nasci no dia 4 do 4 de 84, numa quarta-feira, eu costumava brincar que eu era o quarto cavaleiro do apocalipse. Foi na adolescência que eu desenvolvi uma voz muito específica, que era assim... Oi, eu sou Alexandre.

A voz cavernosa, assim, meio Darth Vader. É. Mas, enfim, eu nasci em Sobradim, interior do Rio Grande do Sul, bem no centro do Rio Grande do Sul. Eu sou adotado, eu fui adotado com nove dias de vida. É mesmo? Sim. Meus pais, que são meus pais que me criaram, né? Mas só para o pessoal não se perder, meus pais adotivos, eles...

São da Grande Porto Alegre, são de Canoas. Quer dizer, é aí que está. Cada um é de um lugar. Meu pai é de Uruguaiana, que é na fronteira do Rio Grande do Sul. Minha mãe é de Barra do Ribeiro, que também é interior do Rio Grande do Sul, mas é mais próximo de Porto Alegre. E os dois se casaram, foram para Canoas. E daí estavam tentando adotar. Meu pai não...

não podia ter filhos. E... eles queriam inicialmente uma menina, tanto que era pra ser Ana Paula, o nome. E aí, a minha mãe recebeu a notícia que tinha uma criança que tinha nascido no interior, lá perto de Santa Maria, que ela não tinha interesse. E era um menino. E aí rolou, ela convenceu meu pai, depois até foi o contrário, depois que ficou meu puxa-saco foi meu pai.

Mas aí fui adotado, com nove dias de vida. E aí eu cresci em Canoas. Eu fiquei em Canoas até meus 16 anos de idade. E meus pais, ambos professores do estado do Rio Grande do Sul. Certo. A minha mãe também era advogada. Mas a minha mãe pegava poucos casos. A minha mãe era uma advogada que não gostava muito de ser advogada. Ela preferia dar aula.

Ela trabalhou até mais com a parte, ela também deu muita aula, mas ela foi por muito tempo diretora de escola. Ela cuidava mais dessa parte administrativa. E ela trabalhava mais na vara da família, ela pegava muito caso, assim, tanto de inventário ou, às vezes...

brigas familiares, atendia mulheres tentando se livrar do marido tranqueira, né? E o meu pai era professor, tanto do Estado quanto do... pegava um monte de aula em escola particular, tanto que meu pai, ele literalmente dava aula manhã, tarde e noite.

segunda a sexta. Sábado de manhã, às vezes, ele é pro interior pra dar aula pra cursinha. Então, assim, tipo, meu pai eu só via no final de semana, mas ele morava na mesma casa. Mas eu quase só via ele no final de semana. É mesmo, cara. O cara, assim, era turno triplo, é isso, de trabalho?

Era, era, era. O pai tinha a jornada totalmente cheia. Tanto que, assim, quando ele não conseguia preencher, ele dava um jeito de conseguir alguma coisa, porque pra ele... O pai foi criado num contexto, assim, que segurança era dinheiro. Né? Assim. Então... Ele sempre teve... Não deixa de estar certo, né?

Sim, sim, mas o que eu quero dizer é que hoje a gente fala muito sobre segurança afetiva também. Sim, sem dúvida. Hoje eu sou pai e eu entendo um pouco melhor isso. Então, assim, o meu pai... Era da época em que o pai era provedor, é isso. Isso, é, 100%. Provedor ainda é, mas 100% provedor. Só isso, né? E aí o meu pai, assim, depois que eles me adotaram e tal, meu pai abraçou a camisa. Mas, meu pai era...

quando eu tinha uns dois anos de idade, meu pai era alcoólatra, quando eu tinha dois anos de idade, ele uma vez saiu correndo comigo no colo, botou em cima da garupa, assim, brincando, caiu comigo, o bebezinho, nas escadas, porque tava bêbado, aí a minha mãe falou pro meu pai, disse, olha, ou tu para de beber, eu vou sumir com o Alexandre, eu vou fugir com ele, e aí o meu pai parou de beber, e aí quando, e aí o pai entrou, virou a chave, assim, né, aí ele entrou no modo assim, disse, não, eu sou responsável por esse menino, e não sei o que,

e aí ele me dava... E aí ele tinha essa coisa de pegar mais trabalho pra poder me dar mais brinquedo, sabe? Era engraçado, assim, porque pra ele era a maneira que ele tinha de... Até porque meu pai, coitado, ele teve um... Meu avô não foi uma pessoa muito boa pra ele, então demonstrar afeto era meio difícil pra ele. Sim, sim. E aí eles encontram outras formas, né? De demonstrar afeto. Algumas mães demonstram afeto cozinhando, outras enchendo de presente, né?

O meu pai era se entupir de trabalho para poder me dar brinquedo, poder me fazer viajar nas férias. Para ele isso era uma coisa sagrada. Ele se sentia derrotado se no verão a gente não ia para Capão Novo, que é ali no litoral gaúcho. Eles compraram um apartamentozinho. Isso antes de eu nascer. E a minha mãe, por sua vez, trabalhando com advogado, era diretora. Minha mãe também ficava muito tempo fora de casa. Na verdade, eu cresci sem ver muito meus pais, por mais que a gente morasse na mesma casa, tá ligado? Pois é, aham.

E a minha mãe, como diretor de escola, era a primeira a chegar e a última a sair, né? Então, assim, de manhã e de tarde também. Só que a minha mãe, pelo menos à noite, estava em casa, né? À noite eu via ela. Entendi. E essa família de pais professores, Alexandre, acabou impactando você de alguma forma em que diz respeito ao gosto por estudar ou por ler? Como é que foi isso?

Ah, claro, claro, né? Porque é que assim, eu cresci numa família que meus pais foram melhorando de grana ao longo da vida, né? Assim, quando eu cheguei, vamos dizer assim, eles eram classe média baixa, baixa, baixa, baixa, assim, tipo...

Um pouco antes de eles terem me adotado, o pai e a mãe chegaram a passar necessidade de comida mesmo, sabe? De ter dificuldade com essas coisas. Era na época que a minha mãe não estava conseguindo emprego, só estava meu pai trabalhando, meu pai também estava fazendo pouca coisa. Meu pai era para ser arquiteto, aí mudou de carreira também, aí virou professor de física, aquela coisa toda. Enfim, quando eu cheguei, era mais classe média baixa.

Aí tinha essa coisa pra eles, que era assim, ó, o mais importante é a educação. Então a gente vai gastar com a educação que tiver que gastar. Perfeito. E aí eles me colocaram numa escola particular, que no começo era porque meu pai era professor lá, então tinha desconto. Claro. Que era uma escola luterana. Só que aí depois meu pai foi demitido, e aí eles perguntaram se eu queria sair. Eu falei que não, eu até devia ter saído, porque no fundo eu acho que eu seria mais feliz em outras escolas. Mas eu fiquei inseguro, né, era o único que eu conhecia. Sim. Aí eu falei que não queria sair, e eles disseram, não, então tá, então...

a gente vai pagar. Então assim, eles sempre investiram muito em educação, depois eles me incentivaram a fazer faculdade, quando eu falei que queria fazer faculdade de cinema, meu pai viajou para Santa Catarina para descobrir onde é que tinha, então assim, e aí depois, quando eu terminei a faculdade, minha mãe me incentivou muito no mestrado, eles me incentivaram muito no doutorado, então assim, sempre muito me incentivaram.

a estudar. E aí, lógico, quando tu cresce numa família onde os adultos fazem uma coisa específica, a criança tende a imitar. Então eu lembro que eu era criança e eu pedia de presente, um quadro, eu ficava dando aula pros meus brinquedos, pros meus bichinhos de pelúcia. Sim, sim. Mas não era uma escolha, sabe? Eu demorei muito pra aceitar que eu poderia ser professor. Entendi. Embora a minha vida inteira, o que eu sempre escutei das pessoas é, você é muito professoral.

Ah, é? É, sempre. Eu fazia faculdade de cinema e o pessoal gostava de trabalhar comigo, porque eu cheguei a dirigir filme, essas coisas, depois a gente pode falar mais sobre isso, mas... Sim, vamos falar. Mas o pessoal gostava porque eu era muito didático, sabe? Pessoal, vamos filmar essa cena agora, assim, eu fazia uma reunião com a equipe, eu explicava pra equipe o que ia fazer, o pessoal dizia, pô, é bom de trabalhar com ele, porque ele é muito didático.

então assim, era meio que uma tragédia no sentido nittiano, assim, né ou seja, não tem como fugir o destino pertence aos deuses, né então já nasceu em família de professor vai ser professor

Você deu spoiler aqui para a gente de ter escolhido cinema para a faculdade. O que aconteceu durante a sua vida, sua adolescência? Eu estou aqui inferindo que a sua adolescência foi decisiva para você escolher cinema na hora do vestibular. Eu estou certo ou estou viajando aqui?

Não, foi, foi. É que assim, eu sempre gostei muito de cultura pop, né? Minha mãe brinca que ela não sabe, parece que eu já nasci gostando de Batman, por exemplo, né? Que eu sempre gostei de Batman, eu adorava Batman. E eu fui uma vítima da Batmania, né? Porque em 89, quando eu tinha 5 anos, saiu o primeiro filme do Batman. O primeiro é aquele com o Michael Keaton, hein?

Isso, dirigido pelo Tim Burton com o Jack Nicholson de Coringa. E aquilo foi uma Batmania muito forte. Tem registros da época. Foi uma coisa... Tinha tudo, sabe? Tu andava na rua, tudo era Batman, Batman, Batman, Batman. Então...

Como uma criança daquela geração, eu acabei tremendamente contaminado. Então eu gostava de volta e meia olhar os quadrinhos, gostava de ver os filmes. Então assim, esse mundo da cultura pop, eu gostava e ele ia se ampliando pra mim, né? De repente eu já queria saber mais também do Superman, de repente eu queria saber mais do Flash, sabe? Os super-heróis começaram a soar interessante pra mim.

Só que, na minha adolescência, eu não sabia direito o que eu ia fazer, né? Eu tinha uma camerazinha que eu fazia videozinho caseiro com meus amigos, a gente fazia uns filminhos, a gente gostava de fazer, a gente se reunia sábado à noite para fazer filme. Eu, durante a semana, eu ia recolhendo lixo dos vizinhos, tipo exopor, caixa de papelão, para depois a gente usar nos filmes no final de semana. Eu era um catador de lixo.

levava a sério mas os filmes eu não posso nem falar o título porque eles são totalmente eles são muito politicamente incorretos era paródia de tudo que a gente fazia na época certo

Então, assim, eram umas coisas muito escrotas. Mas a gente fazia, morria de rir fazendo aquilo depois e tal. Mas o ponto é que o meu colégio, no meu ensino médio, eles faziam teste vocacional. Eu não lembro agora se pagava, acho que tinha que pagar por fora e tal, mas meus pais, quando eram essas coisas, eles sempre pagavam. Aí eu fiz teste vocacional no primeiro ano do ensino médio e deu pra eu trabalhar com física ou química. Física ou química? É, é. Olha a surpresa.

Aí no segundo ano do ensino médio, mesma coisa, deu a mesma coisa. Terceiro ano, artes. No terceiro ano deu artes. Eu sei lá o que aconteceu, mas algo aconteceu pelo jeito, porque quando eu terminei o ensino médio, eu fiquei muito dividido. Ou eu ia fazer biotecnologia, porque o meu colégio tinha uma espécie de TCC de ensino médio, que fazia um grande trabalho no final do ensino médio.

e eu fiz sobre genética. Era época da clonagem, tava rolando esses papos tudo, eu tava interessado no assunto, eu fiz sobre genética. Aí eu lembro que eu tinha estudado um monte de genética e tal, eu comecei a gostar daquele papo. Aí tinha uma faculdade de biotecnologia, em passo fundo, e se eu fosse fazer cinema, que daí foi minha segunda, era minha outra opção, tinha, na época, a faculdade de cinema no Brasil só tinha em São Paulo, Rio e Santa Catarina.

Ah, Santa Catarina já tinha. Já tinha, já tinha. O curso da Universidade do Sul de Santa Catarina. Aí já tinha uns dois anos o curso. Era um curso novo. Aí chegou uma hora que eu disse, tá, vou pra passo... Em ambos os casos eu ia morar muito longe de casa, né? Certo. Aí pensa, pensa, pensa, no final acabei optando pelo cinema. E aí com 16 anos eu me mudei pra Santa Catarina. Vim morar sozinho com os 16 anos.

É, então, aí começou a sua vida adulta, vamos dizer assim? É, aos 16, começou até um pouco cedo. Você foi morar numa república lá, num apartamento? Isso, uma pensão, foi uma pensãozinha. E aí eu trabalhava de tarde como bolsista. O meu primeiro emprego foi numa biblioteca. Eu era bolsista da biblioteca, eu guardava os livros, eu atendia as pessoas.

E aí de manhã, conforme eu fui fazendo contato, eu pegava uns bicos, né? Pra trabalhar com o cinema. Quase nada pagava. A grande maioria não pagava nada. Mas eu ia pegando uns bicos pra fazer contato. Então de manhã eu fazia os bicos envolvendo cinema, produção de visual, etc. Várias vezes eu fui pra Secretaria de Saúde de Santa Catarina, porque tinha um estúdio lá. E eu ia lá pra ajudar e editar meus filmes, porque eu conheci um dos funcionários, era amigo meu. Então, um abraço à Secretaria de Saúde de Santa Catarina.

Que bom que o aparelho do Estado foi útil. Foi útil. E aí de tarde era trabalhar na biblioteca e de noite tendo aula. E assim foi no primeiro ano, aí depois acabou o estágio, enfim. Aí eu ia fazendo, pegando uma coisa ou outra.

e também eu morei em muitos lugares eu mudei muito, assim, porque a pensão que eu morei primeiro não deu certo eu também não sou muito fácil, eu acabei brigando lá, e aí depois aí eu fui morar, eu arranjei daí uma kitnetzinha só pra mim, só que era muito longe, eu pegava três horas de ônibus pra chegar na faculdade

Aí depois Aí um grupo, um colega meu Vagou uma vaga, que eles alugavam Um apartamento em três, vagou uma vaga Aí eu fui pro centro de Florianópolis Aí ali foi legal, e ali a gente pagava barato Pra caramba, hoje em dia seria caríssimo Aí ficávamos em três ali Ali foi quando eu fiquei mais tempo

Aí depois, mais, quando eu tava já quase no fim do curso, daí morreu minha avó, aí veio o dinheirinho de herança de uma casa da minha avó, aí a gente conseguiu comprar uma casinha. Também lá no norte da ilha, na época que não tinha tanta especulação. Mas foi assim, eu fiquei morando em 500 lugares diferentes na época da faculdade, e fazendo 500 coisas. Eu fiz filme que chegou a passar fora do Brasil, né? Assim, curta-metragem.

circulou em festival me conta um pouco a sua produção cinematográfica começou já na graduação, é isso?

Foi, foi no primeiro semestre. Inclusive na época, eu não sei se depois alguém superou esse recorde, mas na época foi a primeira vez que tu tinha um diretor tão jovem. Na minha época que eu fazia lá a faculdade, quando eu entrei, eu era a quinta turma. Ou seja, sequer existia ainda algum formado naquele curso. Eu entrei no segundo ano e meio do curso. Então...

Então, assim, eles tinham os equipamentos, que eles investiram em equipamento, mas aqueles equipamentos estavam ociosos. E aí, o coordenador do curso, na época, teve uma ideia boa, que ele falou assim, olha, é propaganda para o curso, os alunos produzirem e mandarem para o festival. Então, ele criou uma espécie de programa extracurricular, que foi um negócio que eu pilhei muito também para acontecer. E aí, então, assim, a gente, apresentando um projeto, a faculdade entrava com equipamento. Ah, é uma boa ideia mesmo. É, é. E aí, o que acontece? Desde o primeiro semestre, eu já aproveitei isso.

Certo. O primeiro filme que eu dirigi com uma equipe de mais de 20 pessoas foi com 17 anos. E foi um desastre, obviamente. É, imagina. Mas depois eu fui ficando um pouquinho melhor nisso e tal. E o pessoal gostava de trabalhar comigo porque eu era muito organizadinho.

E didático. E didático, falava que era muito didático. E aí teve, o curta que eu fiz, que mais circulou, foi um que eu fiz em 2002 ou 2003, acho que é 2003, que é o Oculto. Oculto foi um curta-metragem, esse chegou a passar em Portugal, passou na televisão também.

Olha, que legal. Vou assistir esse. Qual que é o argumento desse daí? É tudo história de terror, né? O Oculto eram quatro adolescentes que se numa noite resolvem fazer o jogo do copo, só que aí cada um ali tem um segredo, cada um esconde uma coisa. Tá.

Hoje, olhando, eu acho cafona pra caralho, mas... Tem cara de hit isso aí. Mas confesso que ainda acho que tem alguns enquadramentos e algumas escolhas cinematográficas que eu acho muito boas ainda. Eu ainda acho boas, ainda acho boas. Agora, deixa eu te perguntar uma coisa. Essa coisa de usar o gênero do terror, veio de onde? É uma coisa quase natural para um adolescente?

Eu não sei, mas até hoje eu gosto. Eu acho que, na verdade, eu sou sádico. Tem um espírito Zé do caixão aí? Eu gosto de ver o público sofrer. Eu gosto mesmo. Eu lembro que eu ia nas sessões e eu sentava lá no fundo e eu gostava de ver o público ficar com medo, ficar desconfortável.

sabe? Mas eu nunca gostei de de gore, assim, não é sangue espirrando, não, é climão, é o que o pessoal hoje de forma cafona chama de pós-horror, eu tava fazendo pós-horror antes de o pessoal chamar dessa bobagem, mas a ideia era explorar mais essa coisa de clima mesmo, assim, né, de sensação, eu achava isso muito bom, ainda gosto disso.

Estou aqui no canal, uma das coisas que o pessoal mais pede para eu falar é de dark fantasy, que explora muitos tipos de coisas. Mas enfim, em 2004 eu fiz o Religar, que foi meu TCC, que também circulou em alguns festivais. Circulou um pouco menos que o Oculto, mas circulou bem.

Também o curta-metragem, Alexandre? Também o curta-metragem, é. Mas no meio eu fiz muita coisa que se perdeu, porque eu era trabalho dos colegas. Um que circula hoje na internet, o pessoal tira sarra, é um que eu atuei, esse eu não fiz, eu só atuei, que é o Durval Durvey, que é um cantor brega, né? E eu só fui chamado pra atuar, não porque eu sou um bom ator, mas porque o pessoal achava que eu era engraçado, como fazendo um cantor brega. Ah, você era o protagonista do... Eu sou o protagonista. Você era o Durval. Não, e esse vídeo até hoje circula, que o pessoal fala, meu Deus, ele tinha cabelo, né?

Eu com cabelo e sem barba. E aí o Durval Durvey. Esse negócio tá virando, por causa do canal hoje, esse negócio foi tão ressuscitado que eu conversei com a diretora original e a gente volta e me conversa sobre a possibilidade de voltar a fazer uma continuação do Durval Durvey. Sensacional. Seria, hein? Seria, realmente. Só que o problema é que a gente começa a conversar e a gente vai ficando tão ambicioso.

que a gente acaba querendo fazer um filme muito caro, porque a gente quer botar cena de ação, a gente quer botar perseguição, a gente quer botar explosão, e aí chega uma hora e a gente fala assim, ai não, muito trabalho, cinema dá muito trabalho.

Falando em cinema, dá muito trabalho, Alexandre. Você terminou a sua graduação, se eu não me engano, foi em 2004. 2004, é. 2004, com o Religari, que foi o seu TCC.

nesse momento, o que passava pela sua cabeça? Vou virar cineasta? Vou seguir vida acadêmica? Vou largar tudo e fazer outra coisa? O que te passou pela cabeça no final da graduação?

Não, minha cabeça estava zoada. Foi a época que, inclusive, eu cheguei mais próximo de ter depressão mesmo. Porque a minha faculdade de cinema, na época, como eram poucas faculdades de cinema que tinham no Brasil, era uma turma muito, muito heterogênea. Eu tinha colegas não só de qualquer lugar do Brasil. Foi lá que eu descobri que o Acre existe. Eu tinha uma colega acriana. Então, assim, tinha gente do Brasil inteiro.

E eu tinha colega gringo, eu tive colega indiana, eu tive colega argentino, eu tive colega de outros países, nem lembro mais agora, os mais próximos eram esses. Então, assim, tinha gente de tudo que era lugar. Era um lugar muito rico. E terminou a faculdade, cada um voltou para a sua casa. Quase ninguém ficou em Florianópolis.

E aí eu perdi totalmente Meus amigos de uma hora pra outra Que eram também as pessoas com quem eu fazia os filmes Então eu também perdi o contato Como eu não era mais aluno Pegar equipamento da universidade também já não era Mais possível, então tinha que Alugar equipamento Aí eu fui fazer o que todo cineasta faz no Brasil Que é se burocratizar Então vai fazer edital, vai montar projeto Digital, etc, etc

Só que aí vem o problema de você fazer terror no Brasil. Você não é aprovado. A gente tem um problema que até hoje o pessoal às vezes critica. Por que todo filme brasileiro tem essa cara de crítica social e não sei o quê? Muito por causa dos editais que a gente tem. Porque os editais, eles cobram. Os editais, eles filtram isso.

É porque os editais, eles têm alguns itens que geram pontos que, inevitavelmente, a crítica social vai ganhar bem, porque tá lá, assim, qual é a relevância do filme? O papo é esse, né? Se o Estado vai botar dinheiro, o filme tem que ter uma relevância. Aí tu tem que preencher justificativo e não sei o quê. E isso, é óbvio que isso é um problema, do ponto de vista estético. Porque, às vezes, um filme, a justificativa é porque ele é bom, porque é legal, porque a história é divertida. Essa é a justificativa, né? Sim, sim.

Só que como isso dá ponto, tem que dar uma justificativa do não, porque isso aqui busca refletir, não sei o quê. Então, pra tu conseguir uma certa... Pra tu conseguir fazer com que esses filmes vão pra frente, tu acaba meio que se moldando a esse formato.

Entendi. E isso foi o que acabou sendo pra mim um impeditivo. Uma hora que eu olhei e disse assim, cara, não vai dar certo pra mim. Eu até ia bem nos todos os festivais que eu, perdão, todas as leis de incentivo, todos os concursos em que eu me inscrevia, eu sempre ficava, sei lá, suplente, ficava numa localização razoavelmente boa. Mas nunca ganhava. Aí tinha uma hora que eu disse assim, olha, eu não gosto de ficar preenchendo planilha, porque tinha uma hora que a tua vida como cineasta vira preencher planilhas,

E aí eu disse assim, não, eu não quero isso pra mim. E aí, ao mesmo tempo, a minha mãe, vendo que eu tava meio à deriva, ela começou a pilhar muito o mestrado, né? Faz um mestrado. Assim, tu não precisa trabalhar, não precisa parar de fazer cinema. Continua tentando e vai fazendo o mestrado junto.

Já com a carreira de professor em vista, sim? Não, não, não. Quem estava em vista disso era minha mãe. Minha mãe apostou em mim em professor antes de mim mesmo. Certo. Aí o que aconteceu foi que em 2005 eu entrei no mestrado, mas eu entrei muito arrastado, eu não estava tão afim de fazer, etc. Eu até estudei bastante para a prova, consegui bolsa, quando eu ingressei, mas...

Eu fui começar a gostar desse mundo acadêmico e eu estava dentro do mestrado já. Foi aos poucos que esse desejo foi sendo despertado. O mestrado acabou sendo uma boia para você? Nesse momento, a deriva que você estava se encontrando?

Foi, foi, foi, porque daí de repente eu comecei a ler uma série de autores, foi ali que eu me apaixonei, eu já gostava de filosofia, mas assim, eu comecei a ler pra valer filosofia, foi naquela época, né, foi aí que eu comecei a me obrigar a ler Nietzsche, Hegel, Kant, Platão e os mais recentes, Heidegger, Deleuze, Foucault e companhia, então assim, eu comecei a gostar disso tudo, comecei a gostar pra valer, né. Sim.

E esperta foi minha mãe Que percebeu que eu tinha potencial pra isso E ela encheu o saco pra eu fazer o mestrado E realmente eu comecei a gostar muito E aí chegou uma hora Que o cinema tava chato Essa vida burocrática de fazer cinema tava chato Eu não havia desistido Mas já tava ficando meio sem paciência E de repente o mundo acadêmico Tava ficando interessante Logo depois que eu terminei o mestrado Defendi metade de 2007 Logo em seguida eu fui dar aula em faculdade E aí

Espera aí, mas agora não vamos pular essa parte aqui, que eu quero voltar uns metros. Você, para o mestrado, entregou um trabalho cujo título é A Morte do Homem no Morcego. Isso. Fala um pouquinho aí da sua tese, do seu trabalho, da sua pesquisa, qual foi o papel do seu orientador, se o seu orientador gostou ou não da sua abordagem.

O meu orientador, que é o professor Luiz Felipe Soares, foi o meu amigão. Depois ele virou também meu orientador do doutorado. E ele já conhecia essa sua paixão pelo mundo pop? Sim, porque ele foi meu professor na graduação. Ele deu aula pra mim da disciplina de crítica de cinema. E ele muito Nietzscheano. Foi ele que... O pessoal pergunta onde é que veio a paixão por Nietzsche. Muito em função do professor. Foi, foi. Foi por ele.

mas assim a minha dissertação de mestrado o que eu fiz é tudo aquilo que eu nunca recomendei pra ninguém, né? eu fiz tudo errado eu entrei sem essa pesquisa eu entrei com outra pesquisa eu entrei com um projeto de pesquisa que era narrativas não lineares no cinema foi a primeira coisa que eu pensei e eu coloquei aí durante o mestrado eu disse, tá, isso aí não presta e eu quero fazer outra coisa ok

E aí eu pensava em analisar talvez o Solares, do Stanislaw Lenk, que tem duas adaptações, que é a do Tarkovsky e a do Steven Soderbergh. Eu fui transitando em temas e eu fui atrasado, eu fui me atrasando, basicamente o que aconteceu foi isso, eu fui me atrasando, me atrasando, e eu era bolsista. Aí chegou uma hora que faltava, sei lá, um mês para entregar a dissertação, e eu não tinha. E aí eu preciso fazer alguma coisa sobre a qual eu já conheço.

Exato. Um assunto que eu já domino. Isso. Foi exatamente isso. Porque o que aconteceu? A parte de filosofia estava em dia porque eu estava lendo por prazer. Então eu estava já com um bom acervo de teoria.

Eu tava sem objeto. Sim, repertório você já garantia. Agora você escolheram o tema mesmo. É, o repertório... O que me ajudou é que o repertório tava garantido. Mas eu não tinha objeto de pesquisa. Eu não tinha, eu não tinha. Aí eu disse, pô, precisa que seja algo pra eu fazer rápido. Eu tinha um feriado de carnaval pra entregar uma primeira versão pro orientador. E aí eu disse assim, vai ter que ser Batman.

Porque Batman, eu já leio um monte dos quadrinhos, eu conheço... Eu sei uma série de citações de cabeça. Às vezes não precisa nem conferir direito. E daí eu fiz um capítulo por dia, cara. Um capítulo por dia da dissertação. E tinha que ser esse mesmo, né? Porque você não tinha tempo nenhum de fazer pesquisa. Não, não. Você já tinha pesquisado bastante.

É, então assim, foi um foi um capítulo por dia, dormindo três, quatro horas por noite tanto que eu fiquei muito mal depois, eu cheguei, eu tive foi a única vez na minha vida que aconteceu de eu ter um momento de cegueira, a visão apagou e eu tava acordado, assim, foi um troço muito estranho Caramba! Foi bem doido, mas foi, daí foi, né? E o que você pode falar sobre a dissertação em si, assim? O que é a linha mestra dela?

A linha mestre era tentar pegar a noção de morte do homem, que é o que antecede o super-homem, dentro da filosofia nietzschiana, e pensar nisso na figura do Batman. Entende? Então, basicamente, é pegar o conceito de morte do homem do Nietzsche e tentar ver isso no Batman, nos quadrinhos e nos filmes.

com uma certa mediação do Foucault. O Foucault fez um meio de campo que o Foucault vai, principalmente nas palavras e as coisas, no capítulo Homem em Seus Duplos, ele vai teorizar, vai sistematizar melhor essa noção de morte do homem e do Nietzsche. Então nesse meio de campo com o Foucault foi essa ligação Batman com Nietzsche. Então basicamente a minha dissertação é isso. E a morte do homem no morcego...

me faz inferir, não sei se estou certo, que o morcego foi a forma que o Bruce Wayne escolheu para representar

o lado, digamos, morto dele? Não, não. A ideia da morte do homem no morcego é que, tentando pensar na filosofia nittiana, Nietzsche vai defender muito o Ubermensch, o super-homem. O super-homem, hoje virou uma tradução ruim, porque a gente pensa no herói. Eu acho que talvez a tradução mais correta, não é que é mais correta, mas a que talvez fosse mais fácil da gente imaginar, é o além do homem. É o além do homem.

Esse Além do Homem, para Nietzsche, tem muito a ver com a superação, com a transvaloração dos valores, com a superação de todos os ressentimentos e vinganças, com o entendimento de que o que interessa não são os valores e sim a valoração, ou seja, aí vem aquele etos aristocrático do Nietzsche de entender que é importante você criar valores, ser ativo, ser criativo perante o mundo que você cria, você não herdar um bem e mal, mas sim constituir um bom e ruim.

Entende? Então, essas coisas todas combina com o Batman. Primeiro porque o Batman também é um aristocrata. Já começa por aí. E aí, o que eu fui fazer foi basicamente olhar no... E aí, no caso do Nietzsche, antes desse super-homem, vem a morte do homem. Pra poder ter um super-homem, o homem tem que morrer. Certo. E quando o Nietzsche fala homem, é aquele homem muito criado pelo iluminismo.

uma espécie de figura da razão, uma figura positiva, esclarecedora, enfim, e moralmente correta. Então, eu precisaria matar este homem. Na verdade, não precisaria matar, ele já estava morrendo. O diagnóstico do Nietzsche é que isso já estava em curso, independentemente do que a gente fizesse.

E aí o que eu fui fazer, disse, bom, vou olhar isso no Batman, porque eu acho que o Batman, mais do que o Superman, agora o super-herói no caso, mais do que o Superman, ele reproduz isso, ele personifica isso. Por exemplo, só para dar um detalhe aqui, uma coisa que eu comento na minha dissertação, o Batman surge em 1939, é o ano que começa a Segunda Guerra.

E Gotham City é mostrado como uma cidade que não tem salvação, é uma cidade suja, podre. Aí tu olha pro Superman, que foi criado um ano antes só, o Superman ainda tem um certo otimismo. O Batman não tem mais esse otimismo. Então o Batman é muito desencanto da modernidade, é muito a descrença da razão, porque dentro dessa lógica, a razão no final das contas, a racionalização, produziu campo de concentração e bomba atômica.

que é aquilo que depois o próprio Adorno e o Rockham vão falar na dialética do esclarecimento então tu tem uma série de coisas que eu disse, cara, dá samba aqui pensando o Batman nesse aspecto até porque o Batman também é esse detetive louco, que é uma característica do Batman que eu acho muito interessante ele é o cara que investiga os crimes sistematiza, racionaliza e ele é um cara vestido num morcego, ele é um cara completamente maluco né

Então, eu disse assim, olha, tem muita coisa aqui que rende, né? E foi, então, nesse aspecto que eu procurei explorar na minha dissertação. Mas hoje eu não acho uma dissertação muito boa, não. Aliás, eu acho... Eu vejo até em Sinais da Pressa, por exemplo. Eu fui reler ela alguns anos atrás e tinha uma hora que eu queria escrever descrição, eu escrevi descrição. Então, tem uns erros assim, sabe? Nesse nível de texto apressado, né? É, é um erro leve. Um erro leve. Ah, mas...

Ô Alexandre, e aí você termina o mestrado em 2007, mas aí tem um gap entre o mestrado e o doutorado. Você começa a dar aula, certo? Como é que foi o seu ingresso na carreira de professor, finalmente, que a sua mãe já sabia?

Eu comecei sendo professor substituto, né, de uma faculdade particular, uma professora estava saindo e precisava de um outro professor correndo, e aí o pessoal, isso é importante fazer mestrado, né, porque uma das minhas colegas era coordenadora de curso. Aí, quando pensou em alguém, lembrou de mim. Aí eu comecei dando aula, eu comecei dando aula em Lages, que é a Serra Catarinense, perdão, que é, em termos de território, a maior cidade de Santa Catarina.

Ah, é? Ah, é só. E esse ato falho de falar se agarrou de tempo catarinense é porque o próprio lagiano brinca que ele só não é gaúcho porque ele nasceu do outro lado do rio. É só o rio que separa mesmo. É, porque Lages é uma cidade muito gauchesca, vamos dizer assim. Apesar de ser de Santa Catarina. Eu comecei dando aula lá e aí eu fui indo aos poucos. Aí eu dei aula no...

Cara, eu dei aula em várias cidades de Santa Catarina. Eu dei aula em Criciúme, eu dei aula em Tubarão, eu cheguei a dar aula em Joinville, Itajaí. Eu falei, eu já comentei isso. Eu, pra virar governador, falta pouco. Porque as principais cidades você já dominou ali.

Sim, sim, faltou das grandes, acho que só faltou Blumenau e Chapecó, foram as duas que eu não dei aula as outras todas eu dei aula e aí eu fui indo de tinha várias vezes que eu pensava assim vou parar de dar aula, sei lá porque às vezes eu caí numa faculdade que era uma experiência horrível eu tive uma experiência muito curta dando aula pra quinta série durou um semestre, eu não consegui me entender mas aí depois eu virei também professor substituto da Federal de Santa Catarina já comecei a dar aula na U aí você se aproximou da Federal aade

Não, não, quando eu virei professor substituto, eu já estava fazendo doutorado lá. Ah, é, porque você fez o mestrado na Universidade do Sul, mas o doutorado já foi na Federal. Foi, mas eu mantive o mesmo orientador, porque o orientador passou no concurso, ele entrou na Federal, aí eu segui ele. Ah, olha só, no mesmo ano. É, não foi o mesmo ano, né, porque eu defendi em 2007 o mestrado. Ah, tá, ele teve três anos para ir para lá, então. Isso, porque...

É, porque teve o... Tinha que cumprir o estágio probatório pra poder orientar, né? Certo. Aí depois que ele cumpriu, aí ele falou, bom, pode entrar, pode vir. Na verdade foi até antes dos três anos, que eu entrei meio numa condição ali meio semi-clandestina, mas depois ajeitou. Sei. E aí eu comecei... Eu nem lembro agora se foi 2009 ou 2010 que eu comecei o doutorado, acho que foi 2010, é. No lado está 2010, é.

Então foi em 2010 que eu comecei o doutorado. Foram dois anos e meio que eu fiquei só dando aula. Ainda trabalhei e fiz mais um filme, que foi O Deus de Mentira. Esse foi um filme que eu quis fazer uma estética tão adolescente. Eu queria fazer uma coisa meio found footage, que eu tenho a impressão que ficou tão bem feito que os festivais de cinema achavam que era uma gurizada mandando vídeo. Esse não passou em lugar nenhum. Só no YouTube. Esse foi o meu grande fracasso cinematográfico. Tá certo.

Você entra, então, no doutorado em 2010, lá na Federal, e o título do trabalho é A Invenção dos Quadrinhos, Teoria e Crítica da Sarjeta. Eu queria que você falasse um pouquinho do trabalho e o que o significante Sarjeta traz aqui para você.

Então, assim, só para retomar uma coisa, é que assim como eu entrei no mestrado com um projeto e saí com outro, a mesma coisa foi no doutorado. O doutorado, por sua vez, não foi porque eu fui empurrado. Era mais... Eu queria muito fazer, mas eu não tinha uma ideia. Aí, esse professor... Mas pelo menos o doutorado tinha mais tempo, né?

Tinha mais tempo. E aí, como eu era o mesmo orientador do mestrado, ele mesmo falou pra mim, assim, no processo seletivo, ele falou, o teu projeto tá uma merda. O teu projeto aqui é uma porcaria. O original, o que você queria fazer. É, que eu queria pensar cidades fictícias, também é outra coisa que eu não...

não tinha a menor ideia de seguir adiante, ele falou assim, mas eu, como tu é bom de trabalhar, tu vai melhorando no caminho, tu é aquele cara que cresce no processo, ele falou assim, então eu vou topar tu entrar sem projeto direito, mas trate de achar um projeto. E aí trate de achar uma pesquisa, uma tese. E aí o que aconteceu foi que...

Em 2011, quando eu já estava no segundo ano do doutorado, eu ainda estava cursando disciplinas no doutorado, eu entrei para ser professor substituto ali no curso de cinema da Federal de Santa Catarina. E eu tinha a oportunidade, na verdade eu era obrigado a ofertar uma disciplina optativa, que podia ser sobre qualquer coisa. Aí eu pensei, pô, podia falar de quadrinhos, né? Podia falar de quadrinhos. Só que na época eu não pesquisava quadrinhos. Eu gostava, mas não pesquisava, não tinha lido teoria e tal. Então eu fui ler para poder ofertar essa disciplina.

Porque até então você era só um consumidor. Consumidor voraz, mas consumidor... Na época eu me definia como um pensador de cinema. Eu ainda estava com a cabeça no cinema. E quadrinhos era meio que uma...

Era um hobby, é. Só que o que acontecia é que eu comecei a notar várias coisas, né? Então, a primeira coisa, eu era chamado pra dar palestra, pra dar um seminário, o que fosse, e é aquela coisa de professor, né? Tu vai falando, tu vai pensando em exemplo. É que nem naquele filme, é que nem não sei o quê. E às vezes me faltava o exemplo de um filme, mas me vinha o exemplo de um quadrinho na cabeça.

E eu falava do quadrinho. Eu notava que, quando eu falava isso, era o momento que o pessoal acordava. Não tanto porque quadrinho é mais interessante do cinema, mas é que, aí vem a minha segunda constatação, a teoria do cinema é muito robusta. O cinema é estudado com profundidade desde os anos 50 e 60.

Tem mais conteúdo disponível, mais literatura. Sim, é um campo consolidado. Tem uma série de graduações, pós-graduações, bibliotecas imensas só de teoria do cinema. Eu sempre faço uma comparação. A teoria do cinema é a Avenida Paulista.

Ela é assaltada, é iluminada, é sinalizada, é engarrafada, tá entendendo? E a teoria dos quadrinhos é uma estrada de terra. Volta e meia até passa um Porsche ali no meio, que é um negócio muito bem genial, assim, teoricamente falando. Mas, assim, é uma estrada de terra, cara.

o capim e tudo. Então, assim, eu comecei a notar isso, caramba, dentro do campo dos quadrinhos tem muita margem de estudo. Muita margem. Porque uma coisa que no doutorado me pilhavam muito, como todo programa de pós-graduação faz, pra eu publicar artigo. E eu ficava assim, tá, mas o que eu tenho pra dizer de novo sobre cinema? E eu começava a entrar numa crise existencial. Eu tô estudando essa porcaria, mas eu não tenho nada pra dizer que já não tenha sido dito. Eu me sinto um picareta, sabe, repetindo as coisas.

Aí eu comecei a ver que quando era quadrinhos, assim, não era difícil inovar, sabe? Não era difícil tu trazer coisas, contribuições realmente relevantes, tá entendendo? Porque depois é uma coisa que eu fui virar militante, quando eu virei professor de pós-graduação, eu fui militar a favor disso. Eu disse, olha, pesquisa tem que ser algo que contribui, não pode ser um capricho. Ah, eu gosto, que isso acontece muito nos cursos de humanas, né? Então, assim, ah, eu gosto de Machado de Assis, vou fazer uma pesquisa sobre Machado de Assis. Não, não é porque tu gosta, tu tem algo novo a dizer sobre Machado de Assis?

Não, não tem. Então mude de objeto. Não vai fazer sua machade a cis, cacete. Tem que ter uma contribuição. Fazer ciência não é capricho.

Você é duro assim, orientando também, ou Alexandre? Sim, sim, sim. Não, eu lembro que teve uma vez um aluno que chegou pra mim e falou assim, ah, eu quero fazer sobre cáfica. Eu falei pra ele, o que que tu tem pra contribuir sobre cáfica? Ele, ah, não sei, eu disse, tu já leu o que falam sobre cáfica? Não. Eu disse assim, então quando tu tiver lido, volta aqui e conversa comigo, cacete, porque isso aqui que tu tá me falando não serve. Entendi.

E, pô, né? Aí o que aconteceu? Ainda no doutorado eu percebi que tinha todo esse campo vasto nos quadrinhos para explorar, dentro da teoria de quadrinhos.

E aí que veio a mudança do objeto do trabalho, é isso? Foi, foi, foi. É que virou quadrinhos. E aí virou a categoria quadrinhos. O meu objeto é a categoria quadrinhos. Tudo aquilo que a gente chama de quadrinhos, por que chama, como é que entende, o meu objeto não é uma obra, é um conceito. Eu resolvi explorar o conceito. E aí o sarjeta, porque nos quadrinhos o sarjeta é um recurso, é aquele intervalo em branco entre um quadro e outro.

Sim. Só que é um significante com muitos sentidos, porque Sargento também é o que está colocado à deriva. Meio marginalizado. Isso, isso. E aí por isso que eu comecei a defender uma espécie de teoria crítica da Sargento, no sentido de pensar os quadrinhos a partir desse processo histórico, onde ele fica na Sargento, mas também com isso operar uma teoria, ou seja, utilizar a ideia de Sargento como também uma ferramenta de análise.

E aí foi... Isso se tornou a minha tese, né? E aí já a minha tese eu gosto bastante dela. Com a sua tese você ficou feliz, assim, porque você... Fiquei, fiquei. Teve tempo pra fazer também. E essa coisa dos quadrinhos, cara, uma coisa que me impressionou é o seguinte, a minha defesa da dissertação de mestrado era só eu, os professores da banca e os meus pais na plateia. Só isso, não foi ninguém assistir. Na minha tese...

Por quê? Porque o tema é interessante. É, mas sei lá, sei lá. Aí, a minha tese, lotou a sala, as pessoas foram assistir de pé. Que massa. Eu lembro que vários, até os professores que participaram da banca, chegaram pra mim e falaram assim, nunca vi isso acontecer, de lotar uma sala pra assistir uma defesa de tese.

E tinha a ver com isso, com essa coisa que eu estava constatando. Havia um interesse de discutir quadrinhos e não tinha ninguém estudando. Então quando aparecia um maluco como eu falando disso, todo mundo falava, ô caramba, tu viu que vai ter um cara falando de quadrinhos? Vamos lá, vamos lá. Ou seja, era uma lacuna mesmo.

muita gente estava interessada que fosse preenchida. Isso, exato. Eu percebi que havia... Realmente, isso é um termo muito do mercado, mas cabe academicamente falando. Era uma demanda reprimida. O pessoal queria discutir, pensar quadrinhos, pensar cultura pop e simplesmente não tem ninguém estudando isso. Continua tendo pouca gente estudando isso.

Então, assim, eu percebi ali que havia uma brecha que eu disse, pô, vou por aqui, até porque era um objeto que eu gostava e aí eu comecei a estudar muito. Eu também, deu sorte pro meu lado, que a época que eu fiz a minha tese foi uma época que os estudos de quadrinhos tiveram um boom, cara. Sim, porque os estudos de quadrinhos, ele teve dois períodos, assim, de um grande boom de produção. Foi os anos 70, a maioria dos livros e conceitos que a gente usa é tudo dos anos 70.

E ali pelos anos 2005, 2010, 2015, ali, entre 2005 e 2015, tu também teve um outro boom, que foi justamente a época que eu tava fazendo a minha tese. Então tava saindo muito livro. Tava saindo muito livro foda-se. Não no Brasil, né? Tudo inglês, francês e tal. Tanto que eu comecei a me forçar a ter que ler em outras línguas pra eu poder fazer a minha tese. Eu não sabia ler inglês, eu aprendi durante o doutorado. E começou a sair muita coisa. E aí eu disse, poxa vida, olha só a quantidade de... Foi na época que também surgiu as Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos na USP.

que ainda é o principal evento acadêmico de quadrinhos no Brasil. Então era uma época que estava acontecendo muita coisa. Quando é que o mercado brasileiro de quadrinhos tem uma virada? Eu sei que é um parênteses, a abertura de um parênteses aqui na nossa conversa.

Alexandre, mas me veio essa curiosidade enquanto você estava falando. Mas virada de quê? Quando é que ele vira um mercado maior do que todo o restante da história? Aconteceu isso em algum momento no mercado de quadrinhos brasileiro? Mas tu diz de quadrinhos feitos no Brasil ou só publicados no Brasil? Feitos e publicados.

Eu sou de uma época que tinha poucos títulos. A gente tinha lá... Ainda existiam as bancas de revistas. Ainda existia uma certa indústria nacional de quadrinhos.

mas a gente ainda tinha pouco acesso a graphic novels, a gente tinha pouco acesso a quadrinhos mais adultos. Quando é que isso acontece? Olha, tu teve dois momentos. Um primeiro momento mais discreto, que é com o fim da ditadura. Aí com o fim da censura começa a sair muita coisa, até para provocar o limite do tipo, realmente acabou, vamos ver.

então começam a sair nos anos 80 anos 90 uma série de revistas e álbuns mas vai ser na virada dos anos 2000 que esse mercado vai perceber foi mais ou menos nessa época que você estava fazendo o doutorado

Não, foi um pouco depois. Uma década antes. Eu fiz doutorado uma década antes, isso aconteceu com o Peso, que foi quando o mercado começou a perceber uma diminuição grande dessas revistas de banca. Na época, a editora Abril percebeu que as revistinhas de super-herói estavam caindo muito as vendas. E aí eles disseram, vamos apostar no nicho? Vamos. Então deixa de ser papel jornal, pequenininho, vamos fazer papel cocher, lombada quadrada, piriri pororó.

E aí começou... E aí tu teve uma certa guinada no mercado, que já estava em curso ali desde os anos 80, mas nos anos 2000 se assentou muito esse entendimento de que quadrinho não era mais de massa e sim de nicho. Certo. E não necessariamente pra crianças também, né?

É, só que assim, tudo tem um lado bom e um lado ruim, né? Então assim, com isso aumentou uma diversidade muito grande, então hoje tu encontra quadrinhos de quase tudo que é tipo, mas ao mesmo tempo virou tudo caro e para poucos, né? Então assim, antes os quadrinhos eram vendidos a centenas de milhares, hoje quando um quadrinho vende 5 mil exemplares, o pessoal estoura champanhe. Tem tiragem de livro hoje, assim, né?

É, não, virou. Ele está totalmente situado dentro do mercado livreiro. Tiragem de 3 mil, 2 mil, 4 mil, 5 mil. Claro, tem uma coisa ou outra, às vezes, se for uma boa, tipo um One Piece, mangá, que daí vende centenas de milhares, mas assim, via de regra, vende pouco. Até muitos desses mangás que o pessoal acha que vende muito, no fundo não vende tanto assim, não. Então virou... Hoje é um mercado de nicho. Agora, depois do doutorado, ou junto com o doutorado...

você também começa a ser blogueiro. Isso, em 2011 eu crio o... Por que o blog nasce assim? Pois é, ele foi em dezembro, quase finaleira do ano, quase Natal, eu crio um blog, porque eu já tinha feito uns outros blogs, mas eram blogs mais sobre qualquer coisa. E aí a Thaís, porque eu já estava junto com a Thaís, a gente está junto há 18 anos já. 18 anos? Quase 18. Parabéns, parabéns.

E aí a Thaís falou assim, olha, tu gosta de falar de quadrinhos? Porque eu reclamava que eu não tinha interlocutor. Eu não tinha, na Federal de Santa Catarina, eu não tinha ninguém pra falar de quadrinhos, exceto meus alunos que estavam ali querendo aprender comigo. Então eu não tinha diálogo, assim, de falar de... Ou alguém pra me ensinar alguma coisa. Eu não tinha ninguém, ninguém, ninguém. Não tinha ninguém.

Aí eu disse assim... Uma troca num nível de pesquisador, pelo menos. É, eu não tinha, não tinha. Era muito restrito, no máximo, a um evento acadêmico aqui, a colar. E aí eu tava querendo esse contato mais direto. E eu tinha vontade de falar de quadrinhos, eu não tinha com quem conversar, tá entendendo? Aí eu criei o blog. E aí quando eu fui criar o blog, eu lembro que a gente tava, Thaís e eu, fazendo um brainstorm que normalmente dá.

Eu lembro que na época tinha um blog famoso, que era Entre Quadros, e eu adorava o nome desse blog, eu disse, pô, mas não posso roubar, que o cara já existe, né? Mas eu gostava do Entre Quadros, e eu disse, tá, o quê? E a gente foi falando, falando, falando, e de repente saiu, Quadrinhos na Sarjeta. Aí eu lembro que eu falei assim, a Thaís me olhou e falou assim, hum, isso aí parece legal, né? Vamos botar? Vamos. E aí cria o blog, né? Só que o blog, assim, era um blog de muito sucesso. Eu lembro que quando um texto tinha mais de 100 acessos, eu falava, nossa, eu quebrei a internet. Eu acho que...

100 pessoas clicaram nesse texto 100 pessoas mas era ali que eu começava a fazer esses ensaios analisar as obras, falar do que eu tava lendo do que eu tava pensando e aí eu, na época, tinha os grupos de Facebook que eram muito fortes, aí eu compartilhava nos grupos de Facebook tem gente que me conhece daquela época ainda, né? que acompanha até hoje, que me conheceu naquela época

O que mudou na sua vida? Porque você estava atrás de interlocutores. Você conseguiu esses interlocutores por meio do blog? Consegui, consegui. Foi uma ponte para pessoas que tinham o mesmo interesse que você? Foi, foi. Um blog também da época, que até hoje está aí, que foi muito importante, era o Raio Laser. O Raio Laser surgiu meses antes do quadrinho do sargento e era um grupo de pesquisadores ali de Brasília.

Então, ali foi o primeiro lugar que eu disse, olha, finalmente encontrei alguém para conversar, cumpriu a missão. Então, foi importante para eu conhecer, e também comecei a conhecer a galera do mercado de quadrinhos, essa parte não foi tão feliz, o desfecho, porque depois virou só briga, porque depois eu descobri que o mercado de quadrinhos do Brasil é um feudo muito difícil de lidar. Fale mais sobre isso.

é que assim como é que eu vou falar disso pra não virar só fofoquinha isso é deve ter algum problema estrutural assim

Eu acho que tem a ver um pouco com esse nichamento que eu falei agora há pouco. Então assim, virou um mercado que não é pra todos. Aliás, nunca foi pra todos. Você acha que ele é mais elitizado do que devia, é isso? Não, mas não é só elitizado, ele é centralizado. A gente só tem uma pessoa que ficou rica fazendo quadrinhos no Brasil, que é o Maurício de Souza.

então assim, tudo gira um pouco em torno dele, mesmo indiretamente, às vezes o pessoal não se dá conta, mas isso tem, sabe, assim, tu tem ali, como a Mauritius da Produções é forte, aqueles que são mais fortes no mercado, orbitam a Mauritius da Produções, e aí tu vai criando aquilo que o Bordia vai falar, tu vai criando essas esferas de influência, que no popular a gente chama de panelinha.

tá entendendo? Tu vai começando a gerar uma série de panelinhas, então... E isso acaba sendo uma barreira pra entrada de alguns títulos, assim, de autores? Não, não, não, não, não. Não, não é só títulos de autores, mas assim, é... vira uma espécie de...

de critério pra quem deve ser legitimado e quem não deve ser legitimado, né? Quem é dos nossos aqui, pô, esse cara é um grande pesquisador, esse cara é um grande autor, esse cara é muito bom, não sei o quê. Quem não é dos nossos, não é nem questão de te tratar mal, mas, ah, não te conheço, também não vou te dar moral. Entendi.

Entendeu? Então eu comecei a notar que, por exemplo, eu falando de Florianópolis, essa galera quase tudo em São Paulo, os textos do blog não repercutiam muito. Eu lembro que tinha gente até que falava, ah, o teu texto é bom e tal, mas ok, sabe? Não havia...

Tanto que eu comecei a fazer, eu comecei a ter uma troca justamente com tudo que estava na periferia de São Paulo. Por isso que eu me dei bem com o pessoal de Brasília, comecei a me dar bem com o pessoal ali do Rio Grande do Sul, também comecei a estabelecer contato com o pessoal ali no Ceará, no Pará, sabe? Eu fui ampliando, assim, o pessoal do Paraná também. Então, assim, a gente foi criando uma rede ali de coisas que meio que orbitavam ali, ficavam na sarjeta de São Paulo.

entendeu? Ficavam fora de São Paulo. Porque ali em São Paulo tem muito disso. Por exemplo, na parte de pesquisa também as coisas ficavam muito consideradas, às vezes na USP, ali no Observatório de Quadrinhos. Então havia sempre uma espécie de verticalização das relações. Então tinha um grande centro lá no topo e aí tu ia fazendo uma gradação daqueles que eram mais ou menos próximos desse grande centro.

E aí, para ficar próximo disso, as pessoas acabavam gravitando em torno de São Paulo e engrossando a panelinha. É, e aí também rola aquelas coisas que a gente sabe que rola em qualquer meio. Aí começa a rolar uma certa bajulação, aí começa a rolar uma...

Sim, favorecimento. É, é. E aí eu olhava pra tudo isso e eu disse, ah, eu não tenho saco pra isso. Eu sei que na vida pra tu ter espaço tu precisa disso, mas eu não tava com paciência. E aí eu... E aí, isso é uma coisa até que eu evito de falar, porque parece ser quase papo de autoajuda, mas a Thais falou pra mim assim, então seja incontornável. Eu nunca me esqueço que ela falou isso pra mim. Então seja incontornável. Entende? Dá teus pulos. Falando em dar seus pulos...

você resolveu abrir um canal de YouTube. Pois é, pois é. Com o canal de YouTube, o blog fica abandonado? Ele, durante um tempo, fica em paralelo? Não, o blog já estava abandonado. Porque o blog, assim, eu toquei para valer 2012, 2013, 2014, eu já estava diminuindo o fluxo. Entendi. Foi no auge do doutorado mesmo. Aí depois você se concentrou em finalizar.

a sua tese. Aí eu encerrei a tese, e aí depois eu comecei a dar aula, e fui dando, era muita aula aqui, acolá, migrando de um monte de faculdade para outra, e aí minha cabeça estava em outro lugar, e eu não conseguia mais pesquisar quadrinhos, porque as aulas que eu dava não eram de quadrinhos, eu continuei dando aula muito de cinema, eu ainda era um professor de cinema. Você deu aula até quando, Alexandre?

Então, eu dei aula até 2023, mas o que foi a guinada importante foi em 2016, quando eu virei professor de pós-graduação. Ali foi uma guinada importante. Que foi logo depois do doutorado, então. Foi, foi. Foi um ano depois. Dentre 2007 e 2016, eu dei aula só em graduação. E aí, em 2016, eu virei professor do programa de pós-graduação, que foi o que eu tinha feito mestrado. Eu virei professor do programa onde eu fiz mestrado.

Ah, perfeito. E aí, pô, ali foi uma diferença muito grande, porque o meu coordenador dali, que era o professor Fábio Raul, é uma referência em metodologia científica. Ele me ensinou muito de metodologia. Eu não tinha metodologia nenhuma, entende? Aí eu comecei a ficar chato com metodologia. Com teoria eu me garantia, mas com metodologia eu era muito fraco.

aí eu comecei a ir nesse contato de orientar alunos de mestrado e doutorado e de dar aula no doutorado eu comecei a me puxar cada vez mais de querer ler mais coisas de querer ter repertório eu lembro que a primeira aula que eu dei foi bizarra porque praticamente todos os alunos eram mais velhos que eu eu entrei pra dar aula no doutorado com 32 anos ok

e aí e no interior ainda e aí foi nesse processo assim que disciplina que você deu aula logo de cara eu escolhi porque eles falaram que a disciplina de estética estava livre e aí eu peguei a disciplina de estética

que eu fiquei até o fim com ela. Eu fiquei até o fim. A disciplina de estética, que acabou virando a minha área principal de estudo. Hoje, quando alguém me pergunta, o que mais tu estuda? Eu falo estética. Acabou virando a minha principal área. Só que eu também tinha disciplinas optativas, aí nas optativas eu botava quadrinhos de volta. Aham, claro. E aí, com isso...

Foi na pós que eu consegui voltar a estudar quadrinhos e eu comecei a orientar pesquisa sobre quadrinhos. Aí eu estive orientando os de mestrado e doutorado, de TCC também. E agora, nessa altura, você já era a referência. Você quer fazer sobre quadrinhos, um bom orientador para se ter.

É, naquele momento eu já estava mais conhecidinho, tanto que eu publiquei artigo em Portugal, publiquei artigo na Polônia, publiquei artigo nos Estados Unidos sobre quadrinhos. Então, assim, eu já estava modéstia à parte, eu já era um dos principais pensadores de quadrinhos do Brasil. E de onde veio o desejo de fazer vídeo?

Eu sempre quis fazer, até porque eu sou formado em cinema, então gravar para mim é uma coisa que faz parte. Foi uma forma também de resgatar o cinema de dentro de você. Foi, mas também... Eu tenho a impressão que é o inconsciente agindo, porque na época que eu montei o canal, em 2019, a faculdade estava com uma crise financeira, então o fantasma da demissão estava rondando. Mas não foi uma coisa direta, assim, vou criar o canal porque se eu for demitido eu vou ver do canal. Não, eu nem imaginava o que ia viver do canal.

Foi só uma coisa assim de vou fazer alguma coisa, pra não ficar com a cabeça pensando nisso, sabe? E tinha voltado um pouco essa necessidade da interlocução porque o que aconteceu? Ali pro final dos anos 2010 aquele boom que eu te falei da pesquisa deu uma esfriada.

Já não saiam mais tantos livros bons. O evento ali da USP, ele já não estava no seu melhor momento. Aquele boom de novidade já não estava mais tão forte. As pesquisas apresentadas já não eram mais tão brilhantes. Havia muita repetição. Começou a acontecer aquilo que eu criticava que acontecia na literatura. Vou falar do Machado de Assis porque eu gosto. Sim.

E aí meio que o canal surge quase do mesmo motivo que surgiu o blog, assim, do tipo, tô com vontade de voltar a conversar sobre quadrinhos e não encontrar as pessoas porque... Aí era um novo momento, eu não queria encontrar os pesquisadores, porque os pesquisadores eu já conhecia. Eu queria encontrar quem tava afim de discutir isso, sabe? Eu queria ampliar, eu queria... Não necessariamente acadêmicos.

não necessariamente acadêmicos, mas quem tivesse afim, sabe, assim, era mais uma vontade de falar com mais gente, sabe, assim, porque começava a me dar uma angústia que eu fazia as pesquisas de quadrinhos e o campo é muito pequeno, né, cara, então, assim, tu faz um artigo, às vezes, né, modéstia à parte, o artigo tá foda, cinco pessoas leram, aí eu quase abatei uma necessidade, e na mesma época eu também fiquei responsável lá na pós pra falar sobre divulgação científica, então, assim, ia juntando tudo, eu disse, ah, tô, tô, eu vou fazer um canal, vou fazer um canal.

Eu já queria ter feito várias vezes. Aí em 2019, um mês antes da minha filha nascer, eu fiz. Ah, sua filha nasceu nessa época. Quase junto com o canal. Ela tá com quanto agora, então? Ela tá quase sete, né? Que nem o canal. E como é que começou o canal, assim? Foi meio na raça? Foi, foi totalmente na raça. Foi programado? Não, não foi nada. Você já tinha uma grade? Nada, nada.

Não, não, eu fazia o canal, tanto que o canal, no primeiro ano... Você nasceu despretensioso, assim, então. É, porque o que aconteceu? Eu comecei a fazer uns vídeos de coisas que eu queria falar, eu só ligava a câmera, era só gravar no celular, não tinha estrutura. Eu não tive, nunca passou aquela cabeça, ah, vou virar youtuber, não sei, não, não. Era só ligar a câmera e faz. Eu editava mais, porque eu achava legal deixar o vídeo editadinho. Só que no primeiro ano, assim, naquele primeiro mês antes da minha filha nascer, eu botava dois vídeos por semana. Minha filha nasceu, virou um vídeo por mês.

Entendeu? Então, 2019... Então, assim, por mais que o canal começou em 2019, 2019 foi... O ano inteiro deve ter 10 vídeos. Foi assim.

A virada mesmo foi a pandemia. Foi a pandemia. Ali o bicho pegou. E não foi só pra mim, né? Porque a pandemia, isso é uma coisa que ainda há de ser estudada. Teve muito professor que migrou pra internet durante a pandemia e alguns ficaram. Eu sou um exemplo desse. Porque o que aconteceu? Começa a pandemia, muito professor vai ter que começar a fazer aula online ou gravar a aula. Aí o cara pensa, porra, se eu gravo três horas aqui, eu consigo gravar dez minutos e botar no YouTube. Sem dúvida.

E aí começou muito professor a ter canal no YouTube. Muito professor. E você começa meio que a gerar produto mesmo sem essa intenção, né? Isso, é. E aí na pandemia, eu voltei a fazer o canal. Até a Thaís me incentivou muito, ela falou assim, não, ela viu que não estava legal, ela falou, volta a fazer o canal, volta a fazer vídeo, o pessoal gosta, etc.

E aí eu comecei a voltar a fazer vídeo durante a pandemia, aí eu simplifiquei, nem editava mais, aí editava mais roots ainda. Era só ligar, não tinha nem corte, nem nada, eu só ligava a câmera, falava, se eu errava, eu voltava, era uma coisa bem... Você não fazia corte nem de forma automatizada, era o brutão mesmo. Não, nada, nada, nada. Brutão, o som também era um dos melhores, mas foi assim.

E foi crescendo, né? Foi crescendo durante a pandemia, foi crescendo e aí cada ano que passava é crescendo mais e ao mesmo tempo cada ano que passava, lá onde eu estava lecionando eu não estava feliz porque a universidade ela foi comprada, ela passou a ter um outro dono e aí eu não me entendi começou a ter uma série de mudanças de políticas internas que eu não estava me adaptando que eu não estava gostando porque no fundo eu trabalhava numa universidade que era comunitária E aí

ela cobrava mensalidade então assim, ela pra fora era uma particular, mas pra dentro ela era igual uma federal a estrutura era muito parecida com uma federal pro lado de dentro, aí virou uma particular 100%, nossa, mudou muito mudou muito, e aí eu não tava mais gostando muito daquilo e aí o canal tava crescendo aí de repente, acho que ele fez 2021 ou 2022 a gente disse, vamos fazer um catarse do canal pra eu oferecer outras coisas juntos, como grupo de estudo que até hoje tá aí o catarse do Claudinho Sargento e aí

grupo no Telegram e aí foi chegando de um jeito que metade de 2022 eu cheguei pro meu coordenador do curso ali que eu dava aula e eu falei olha, eu não vou pedir demissão porque eu quero receber meus direitos receber os direitos e eu sei que tu não tem esse poder de me demitir, mas se te consultarem pra dizer, corta um, pode me cortar

Arruma um voluntário, né? É, isso metade de 2022. Metade de 2023, chegaram pra ele que tinha que cortar um, e aí eu saí. Aí desde 2023 eu tô só com o canal. E como é que é isso pra você, assim? Foi uma mudança que foi tranquila pra você? Não, é estranho, é estranho. É estranho demais. É muito estranho.

Você acha que vai voltar a dar aula um dia? Como é que você se vê daqui pra frente? Eu não me vejo, cara. Porque assim, eu sempre falei assim, o quadrinho do Sargento, o canal, é um namoro de verão. Namoro de verão, acabou o verão, acabou o namoro. Só que é um namoro de verão que a gente tá com quase sete anos, né? Já não dá mais pra chamar de namoro de verão, né? Pois é. Então assim, virou uma coisa que...

Foi tomando conta da minha vida de um jeito que eu não... É esquisito, assim. Vai te cercando, sabe? É uma coisa que vai te cercando. É esquisito, mas é prazeroso ainda pra você? Não, é prazeroso, mas eu... Causa um estranhamento. Até difícil falar sobre isso, porque parece que o cara tá se gabando, tá entendendo? Mas é uma coisa estranha pra um professor que tá acostumado a falar com 30 alunos e, por exemplo, hoje o Codempo Sarjeta pega, se eu não me engano, 3, 4 milhões de pessoas por mês.

Tá entendendo? Então, assim, essa mudança tão absurda de escala é um negócio que tem horas que me dá um certo desconforto, assim, eu não sei explicar, mas é uma sensação muito estranha. Quem é o... Se é que é um perfil só, mas quem é o perfil principal do espectador, do subscriber do quadrinho na Sadita, Alexandre?

Ah, é difícil definir porque é um público que vem se ampliando e se mesclando grupos, né? Eu acho que no geral daria para dizer que é o seguinte, são pessoas que gostam de cultura pop e querem aprender sobre filosofia e assuntos mais acadêmicos. Eu acho que esse virou o perfil, esse é o grande perfil. É uma galera que, e não é à toa que a grande parte do público são universitários ou pessoas que têm vontade de entrar na universidade.

Por exemplo, tem muitos que me seguem que já estão com seus 20, 30 anos, não fizeram faculdade, mas tem interesse em aprender, quer estudar. Às vezes não tem tempo e tal, e aí o canal meio que ocupa esse espaço. Um tipo de mensagem que eu recebo com muita frequência, e eu fico feliz, é comecei uma faculdade por causa de ti. Eu recebo bastante esse tipo de mensagem.

Que espaço que quadrinho tem hoje no mundo acadêmico? Lá atrás era pequeno o espaço. Hoje ele ainda é um espaço menor do que deveria? Ele é minúsculo. Ele é minúsculo e o pouco que tem, às vezes, é extremamente medíocre. Não, eu não sou muito otimista com o que é feito sobre quadrinhos no Brasil. Em que país existe uma academia de quadrinhos relevante?

Bélgica. Bélgica? Sim, berço do Tintim. É que a gente não sabe, mas o quadrinho belga é fortíssimo. Tanto que a parte francófona da Bélgica vem junto com a França. O mercado franco-belga é um dos maiores do mundo. A Bélgica tem uma tradição acadêmica forte. A França também tem. Os Estados Unidos. O Japão, por incrível que pareça, não tem tanto. Não tem. Porque lá existe uma cultura...

O Japão muito produz, mas não estuda tanto assim. Certo. Mas tu tem grandes pesquisadores no Japão. Mas não é uma coisa tão sistemática como já está consolidado, por exemplo, numa Bélgica. No caso do Brasil, o que acontece é o seguinte. Os nossos professores, no caso dos professores de federais ou de estaduais públicas, eles são professores concursados. Não existe concurso para quadrinhos. Então o que acontece? O cara entra para dar uma área X.

E se tiver chance, uma optativa, uma coisinha assim, aí ele coloca quadrinhos ali. Só que esse cara, ele não consegue se dedicar só para o estudo de quadrinhos. Por sua vez, essa disciplina, essa tal optativa, se ele se demite, se ele se aposenta, se ele morre, aquela disciplina também acaba.

Então, assim, tu não tem uma consolidação dos estudos de quadrinhos dentro das universidades públicas. Nas privadas, então, um pouco. Ainda depende muito das pessoas. Depende. É uma coisa muito... E do esforço individual. Isso, isso. E aí o que acontece?

Eu acho isso uma irresponsabilidade por parte do Estado. Porque assim, todo professor que termina uma licenciatura, eu já fui banca de doutorado de matemática, que era quadrinhos e matemática. Então assim, todo professor que termina uma licenciatura, seja em letras, na língua que for, seja em matemática, seja em geografia, seja em história, seja em filosofia, todos eles usam quadrinhos. Todo professor que eu conheço usa quadrinhos em sala de aula, nem que seja uma tirinha ou outra. Tu vai fazer o Enem e tá lá quadrinhos.

E tu não tem nenhum professor em nenhuma universidade do Brasil, até onde eu sei, que foi contratado para lecionar sobre quadrinhos. Quando tem, é por isso. É um cara individualmente que conseguiu encaixar. Então, assim, isso acaba gerando um cenário onde o estudo é medíocre. O estudo de quadrinhos no Brasil é profundamente medíocre. Tu tem alguns indivíduos excepcionais, mas o grosso da... Eu estou pensando como sistema, sabe? Uma coisa mais sistemática, uma certa indústria de conhecimento. Isso a gente não tem. Isso a gente não tem.

Alexandre, deixa eu te fazer uma pergunta mais leve, mas não necessariamente mais fácil de responder. Você teria o seu top three quadrinhos que você levaria para uma ilha deserta se só pudesse levar deles? Não, não tenho. Tanto que eu sou um dos poucos canais de cultura pop que não faz lista.

Raramente eu coloco uma listinha ou outra, porque pra mim é tão difícil. Pra mim é mais fácil eu explicar Hegel do que eu fazer top 3, top 5.

Nossa, eu passo muito trabalho com esse tipo de coisa. Eu não tenho essa lista, não. É mesmo? Não, não consigo. Que obras você recomendaria, então, para um desavisado procurar para ter uma boa amostra da produção brasileira hoje?

Da produção brasileira? Da produção brasileira, especificamente de quadrinhos. Bom, tem o meu quadrinho que eu estou lançando. Opa, então manda. Tem o meu quadrinho, Nostalgia, quadrinho que está agora até inclusive em pré-venda para a editora Mistifório. Mas assim... Aonde que as pessoas podem encomendar a pré-venda?

No site da editora Mistifório. Mistifório.com.br Meu quadrinho que é sobre um pai tentando reconstruir um fliperama no litoral gaúcho na companhia da filha adolescente. E aí, adivinha? Adivinha? Escama em terror. Terror. História de terror.

Mas, não, o quadrinho, não, o quadrinho, às vezes, a gente tem, é que tá, toda vez que alguém me pergunta alguma sugestão, eu sempre digo assim, mas o que você gosta de ler? Não, não, não, eu quero um que você... Eu sei, eu sei, um genérico, assim. É, não é só genérico, um que as pessoas vão ler, eu vou ler e vou falar assim, caralho, uma produção desse nível.

de quadrinho no Brasil? Diomedes. Como é que se escreve isso? É, Diomedes. Diomedes. Do Lourenço Mutarelli. Ah, tá. Pra mim, é o grande quadrinho brasileiro.

É mesmo? É a obra-prima brasileira? Isso. Eu não lembro, porque na verdade ele tem uma parte 2 com dois capítulos, eu não sei se está como trilogia ou tetralogia do acidente, mas as histórias com Diomedes, do Lorenzo Mutarelli, pra mim, é o auge do quadrinho brasileiro. E olha que tem muita coisa boa.

Eu não conheço, eu vou atrás. Eu sou fraquinho em HQ, mas eu sou, por exemplo, uma fanzoca do Day Tripper. Ah, você gosta? Eu sou realmente uma fanzoca. Claro, sim. Embora o Day Tripper não é um quadrinho brasileiro. Ironicamente, não é um quadrinho brasileiro. Então, ele não é.

Ele é feito por brasileiros, mas não é um quadrinho brasileiro. E qual é a história do Day Tripper, então? O Day Tripper é... Por que não é brasileiro? Não, é porque foi publicado na Vertigo, nos Estados Unidos. Mas é só isso. Mas não invalida o quadrinho, nem nada. Mas é brasileiro. Dá pra falar que são brasileiros fazendo... É. Não, não. É que eu só tô falando a nível de curiosidade mesmo. Mas sim, é brasileiro. O que mais, além do Diomedes?

que é mais além do Diomedes. Mais um. Alguém novato, alguém que está no começo da carreira. Porque o Lourenço é um gigante. Alguém mais no começo, tu diz, alguém assim mais... De carreira, é. Uma pessoa que você acha que é uma promessa brasileira.

Eu vou falar de duas pessoas, uma já também já está mais consolidada, que é a Bianca Pinheiro. Eu acho a Bianca Pinheiro genial. Genial. Alguns trabalhos dela, como Eles Estão Por Aí, Sob o Solo, ela é lembrada por alguns quadrinhos que ela fez com a Maricosa Produções, da Mônica e tal, mas esses, sinceramente, não são os que mais me pegam. Eu gosto dos trabalhos dela mais experimentais e...

Eu acho que ela tem uma produção muito boa. Bianca Pinheiro, então. Bianca Pinheiro, é. Eles estão por aí, o Sob o Solo, são dois quadrinhos que eu acho simplesmente muito bons. E tem um cara mais recente, deixa eu até colar aqui, porque o sobrenome dele não é fácil de pronunciar para eu falar certo. Tá bom. Lucas Johanathan. Lucas Johanathan.

autor do Como Pedra que até eu fiz vídeo no canal, que é muito bom muito bom, Como Pedra é um quadrinho tanto que, assim, eu eu falei, esse quadrinho é muito foda, se as premiações no Brasil forem justas ele vai ganhar alguma coisa e ele ganhou o prêmio Jabuti e ele depois lançou um outro que eu ainda não li, com vergonha na cara que é o Ouro Boros Ouro Boros esse cara é muito bom esse cara eu já ouvi falar essa abóbora eu já ouvi falar E aí

deixa eu só falar de mais um que é o Chico qual Chico? é que tá, ele escreve S-H-I-K-O ele só assina assim é Chico com S-H-I

ele agora está lançando como é que é o nome eu sou horrível com o nome, eu esqueço o nome de tudo na cabeça Carniça e Blindagem Mística Carniça e Blindagem Mística ele tem uma ah, porque ele é paraibano

do Chico, e ele tem essa temática e aí ele tem um outro quadrinho dele muito bom que é o Lavagem ele também fez um pra suas produções sobre o Piteco que é o Piteco Ingá, que também é bem bom mas ele tem uns trabalhos aqui eu tô tentando pegar aqui uma Wikipedia da vida pra ver os nomes aqui, mas não tá tudo dele aqui é incrível como quase tudo que ele faz pelo menos tudo dele que eu já vi é sempre muito bom

E ele é um ilustrador muito poderoso. Tem um domínio técnico absurdo. Sensacional. Ô, Alexandre, eu queria, antes de mais nada, agradecer o seu tempo. A gente chegou no nosso limite aqui. Não quero acabar com a sua...

com a sua agenda aí. Então eu queria agradecer demais essa conversa. Eu tenho certeza que foi um Naro Rodô entrevista muito diferente. Ou talvez um Naro Rodô entrevista que mais aproxima o mundo acadêmico.

do mundo das pessoas, de nós, meros mortais. E eu queria te agradecer de ter trazido esse rigor da academia e do pensamento científico e dos métodos científicos para uma temática do cotidiano.

É muito legal ter uma das pessoas, um dos maiores especialistas em quadrinhos aqui com a gente, o Naro Rodô. Dê aí, então, a sua... Faz aí a sua despedida para os nossos ouvintes e ouvintes e como é que as pessoas te encontram, Alexandre?

Bom, reforço aqui, obrigado pelo convite. Eu confesso que eu fico muito desconfortável falando da minha vida, sabe? Que isso! Eu não gosto, cara. Eu não gosto muito, não. Eu gosto de contar causos. Contar causos, mas falar... Falamos de bastantes causos também.

Mas fazer esse tipo de narrativa Eu confesso que eu fico meio constrangido Mas agradeço demais o convite E bom, quem quiser me encontrar Acho que o jeito é o Quadrinho da Sarjeta Estamos no Youtube, estamos no Instagram Estamos no TikTok E produzindo conteúdo Direto aí, a gente faz Praticamente documentários Porque agora os vídeos do canal estão tudo com uma hora Uma hora e meia

tudo muito editado e tal, também tem as lives também tem os vídeos curtos para essas outras redes como o YouTube Shorts, Instagram, TikTok então eu realmente fico abismado com o trabalhão que vocês geradores, produtores de conteúdo em vídeo tem para agradar todas as plataformas

Não, e uma coisa que a gente faz assim, que eu me orgulho e ao mesmo tempo eu fico pensando como é que a gente faz, a gente praticamente faz um longa por semana, né? Uhum.

Porque a gente coloca um vídeo por semana que muitas vezes tem uma hora e dez, uma hora e vinte. O mais curtinho é cinquenta minutos. Então a gente faz um... E é totalmente... É tremendamente editado. A minha cara quase nem aparece. É imagem e cobertura, imagem e cobertura, imagem e cobertura. Você trabalha com o roteiro fechado mesmo, assim?

Não. Ou com texto livre? Não, é um bando de anotação e na hora eu vou falando. No fundo, eu mantive a lógica quando eu dava aula. Quando eu dava aula, eu lia um monte de texto, entrava na sala e ia pensando, conforme eu ia falando, eu ia pensando o que eu ia falar. É mais ou menos, é exatamente como Altair trabalha também. Eu acho que é jeito de professor mesmo.

E aí a gente produz muita coisa mas eu gosto, é uma experiência boa, embora exaustiva, é uma experiência boa e bom, então quem quiser encontrar tá lá, quadrinhos na sarjeta não é difícil de esbarrar com a minha cara, talvez isso até seja um problema, a minha cara tá em muito lugar hoje em dia Imagina, Alexandre Muito obrigado então pela conversa e NARU RODOI, ilustríssimo ouvinte

E você já sabe, aqui no Naruhodô, quem faz a pauta é você. Você tem alguma pergunta pra gente ou quer comentar algum episódio? Escreva pra nós. podcast.naruhodo.com.br Repetindo. podcast.naruhodo.com.br E lembre-se, mande nome completo, idade, profissão e a cidade de onde você está falando. É isso aí. Naruhodô.

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