Episódios de Naruhodo

Naruhodo #466 - O que são sociedades individualistas e coletivistas?

18 de maio de 202659min
0:00 / 59:24

Certamente você já ouviu - inclusive aqui no Naruhodo - que algumas sociedades são organizadas de forma mais individualista e outras por meio de uma abordagem mais coletivista. Afinal, como a ciência define essas diferenças? E quais as consequências de cada tipo?

Confira o papo entre o leigo curioso, Ken Fujioka, e o cientista PhD, Altay de Souza.

>> OUÇA (59min 25s)

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Naruhodo! é o podcast pra quem tem fome de aprender. Ciência, senso comum, curiosidades, desafios e muito mais. Com o leigo curioso, Ken Fujioka, e o cientista PhD, Altay de Souza.

Edição: Reginaldo Cursino.

http://naruhodo.b9.com.br

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REFERÊNCIAS

Kinship and Behavior in Primates

https://books.google.com.br/books?

id=w4jHg1SkcaIC&pg=PA478&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false

O arco e o Cesto

https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/8891625/mod_resource/content/1/Pierre%20Clastres%20-%20O%20Arco%20e%20o%20Cesto.pdf

Does culture influence what and how we think? Effects of priming individualism and collectivism.

https://psycnet.apa.org/doiLanding?doi=10.1037%2F0033-2909.134.2.311

Cultural Psychology: Beyond East and West 

https://www.annualreviews.org/content/journals/10.1146/annurev-psych-021723-063333;

Cultural bias and cultural alignment of large language models 

https://academic.oup.com/pnasnexus/article/3/9/pgae346/7756548?guestAccessKey=

The weirdest people in the world?

https://www.cambridge.org/core/journals/behavioral-and-brain-sciences/article/abs/weirdest-people-inthe-world/BF84F7517D56AFF7B7EB58411A554C17

Autonomy-supportive teaching: Its malleability, benefits, and potential to improve educational practice 

https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/00461520.2020.1862657

Social anxiety and social norms in individualistic and collectivistic countries

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3058376/

Collectivism predicts mask use during COVID-19

https://www.pnas.org/doi/abs/10.1073/pnas.2021793118

A meta-analysis of basic human values in Brazil: observed differences within the country 

https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-66572015000100009

Adaptation of a Cultural Measure in Brazil – Developing a Short Version of the Individualism–Collectivism Vertical–Horizontal Scale

https://econtent.hogrefe.com/doi/10.1027/2698-1866/a000068

Large-Scale Psychological Differences Within China Explained by Rice Versus Wheat Agriculture

https://www.science.org/doi/abs/10.1126/science.1246850

The Psychology of Radicalization and Deradicalization: How Significance Quest Impacts Violent Extremism

https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/pops.12163

Living in a multicultural world: Intergroup ideologies and the societal context of intergroup relations

https://www.taylorfrancis.com/chapters/edit/10.4324/9781315094267-5/living-multicultural-world-intergroup-ideologies-societal-context-intergroup-relations-serge-guimond-roxane-de-la-sablonni%C3%A8re-armelle-nugier

Accepting Inequality Deters Responsibility: How Power Distance Decreases Charitable Behavior 

https://academic.oup.com/jcr/article-abstract/41/2/274/2907548

Measuring Culture Outside the Head: A Meta-Analysis of Individualism—Collectivism in Cultural Products

https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/1088868308318260

Global Increases in Individualism

https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/0956797617700622

Existential Isolation and Suicide Ideation Among Chinese College Students: A Moderated Mediation Model

https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/00221678221106916

Maya Folk Botany and Knowledge Devolution: Modernization and Intra‐Community Variability in the Acquisition of Folkbotanical Knowledge 

https://www.researchgate.net/publication/230311740_Maya_Folk_Botany_and_Knowledge_Devolution_Modernization_and_Intra-Community_Variability_in_the_Acquisition_of_Folkbotanical_Knowledge

Measuring Hofstede's Five Dimensions of Cultural Values at the Individual Level: Development and Validation of CVSCALE 

https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/08961530.2011.578059

Da solidão ao extremismo: análise fenomenológica existencial do isolamento social na adolescência

https://www.revistajrg.com/index.php/jrg/article/view/2491

Spontaneous self-descriptions and ethnic identities in individualistic and collectivistic cultures.

https://psycnet.apa.org/doiLanding?doi=10.1037%2F0022-3514.69.1.142

Naruhodo #446 - O que é transfuga de classe?

https://www.youtube.com/watch?v=HQQyT1sawZo

Naruhodo #462 - Por que gostamos do que gostamos?

https://www.youtube.com/watch?v=2CmoDe1vU98

Naruhodo #98 - Por que precisamos falar sobre suicídio?

https://www.youtube.com/watch?v=Yow-FP77YHY

Naruhodo #387 - Somos bons (ou maus) por natureza? - Parte 1 de 2

https://www.youtube.com/watch?v=Fx37e0PUgY4

Naruhodo #388 - Somos bons (ou maus) por natureza? - Parte 2 de 2

https://www.youtube.com/watch?v=xwAEaMyfm0Q

Naruhodo #220 - Existe causa para a depressão? - Parte 1 de 2

https://www.youtube.com/watch?v=cFo8GFwyuR0

Naruhodo #221 - Existe causa para a depressão? - Parte 2 de 2

https://www.youtube.com/watch?v=5peXBmG43lU

Naruhodo #406 - As fases do luto têm validade científica?

https://www.youtube.com/watch?v=VltGGsSfNsI

Participantes neste episódio3
A

Altay de Souza

Hostjornalista
K

Ken Fujioka

HostPublicitário
T

Thayde Souza

Co-host
Assuntos2
  • Abordagens coletivas versus individuaisDefinição de coletivismo · Alocentrismo · Comportamento alocêntrico · Sociedades mistas · Brasil como sociedade mista · Pierre Clastres · O Arco e o Cesto · Cultura chinesa · Cultura japonesa · Teoria do estilo de subsistência · Cultivo de arroz · Cultivo de trigo · Pensamento holístico · Pensamento analítico · Leis lógicas · Escravidão no Brasil · Colonialismo · Isolamento existencial · Gert Hofstede · Distância de poder · Maia · Provincianismo · Transfuga de classe · Amor como habilidade · Morte e ancestralidade
  • Situação de Problemas SociaisPequena ação individual e o todo · Lógica de ação coletiva · Separação de lixo e reciclagem · Boicote a marcas
Transcrição157 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

O que são sociedades individualistas e coletivistas? Bem-vindo ao Naruhodô, podcast para quem tem fome de aprender. Eu sou Ken Fujioka. Eu sou Thayde Souza. E hoje é dia de quê? Ciência e senso comum.

Ilustríssimo ouvinte, ilustríssimo ouvinte do Naruhodô, o Altair e eu temos duas mensagens pra você. A primeira é muito, muito obrigado pela sua audiência. Sem ela, o Naruhodô sequer teria sentido desistir. Você nos ajuda demais não só quando ouve, mas também quando espalha episódios pra familiares, amigos e, por que não, inimigos.

A segunda mensagem é existe uma outra forma de apoiar o narodô, a ciência e o pensamento científico, que é apoiando financeiramente o nosso projeto de podcast semanal independente que só descansa no recesso do fim do ano.

Manter o Naro Rodô tem custos e despesas, servidores, domínio, pesquisa, produção, edição, atendimento, tempo, enfim, muitas coisas para cobrir. E algumas delas em dólar. A gente sabe que nem todo mundo pode apoiar financeiramente, e tá tudo bem. Tente mandar um episódio para alguém que você conhece e acha que vai gostar. A gente sabe que alguns podem, mas não mensalmente, e tá tudo bem também.

Você pode apoiar quando puder e cancelar quando quiser. O apoio mínimo é de R$ 15,00 e pode ser feito pela plataforma Orelo ou pela plataforma Apoia-se. Para quem está fora do Brasil, temos até a plataforma Patreon. É isso, gente. Estamos enfrentando um momento importante e você pode ajudar a combater o negacionismo e manter a chama da ciência acesa. Então fica aqui o nosso convite. Apoie o Naro Rodô como puder.

Já estamos em maio e a rotina já está a todo vapor. Nesse momento sua roupa não pode atrapalhar. Roupa que incomoda, roupa que limita, roupa que exige esforço. A Insider entra como solução para isso, reduzir o atrito da rotina. Afinal, o Insider é roupa que não precisa passar, desamassa no corpo, mantém conforto térmico, evita mau cheiro e funciona em qualquer contexto.

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ou clique no link que está na descrição deste episódio. Insider, inteligência em cada escolha. Altair, temos pergunta de ouvintes, Altair.

Então, esse tema foi comentado em alguns episódios ao longo da história do Naruhado, bem colateralmente. E eu não esperava que alguém notasse, na verdade, isso e pegasse como uma pergunta. Então, é uma pergunta do ano passado, que levou um certo tempo, e teve um artigo esse ano, em 2026, que ajudou a amarrar aqui. Mas foi interessante, porque essa coisa de coletivismo e individualismo aparece em alguns episódios, mas muito colateralmente.

E aí alguém pegou exatamente esse ponto e puxou, né? Então foi uma grata surpresa ver que tem gente que presta tanta atenção nos episódios. É, prestam mais atenção do que a gente imagina, Altair. O primeiro e-mail veio do ouvinte Gabriel Akira, que diz o seguinte, eu sou muito grato pelo podcast de vocês, vocês fazem parte da minha rotina, mesmo já tendo ouvido todos os episódios mais de duas vezes, pelo menos. Talvez seja por isso que ele pegou, né?

E ele continua. Quer perguntar sobre algo dito pelo Altair em pelo menos um episódio, que são as distinções entre sociedades individualistas e coletivistas. Já li em algum lugar que o Brasil seria um país misto. Se estiver certo, acredito que possa ser pela mistura de culturas. Como isso impacta na ética e moral de uma sociedade? Quais os malefícios e benefícios de cada uma?

Temos também o e-mail da Gabriela Uetti, que diz o seguinte, ouvindo episódio 239 e todo o conceito sobre dilema social, e queria saber se conseguem me ajudar, pode ser com um episódio ou indicando bibliografia, porque as pessoas têm dificuldade de entender que a pequena ação dela contribui com o todo e que se cada um faz um pouco, o resultado será grande e benéfico para todos.

Por exemplo, separação de lixo e reciclagem, utilizar menos plástico e gerar menos lixo, boicotar marcas que colaboram com o trabalho escravo. Tem aquela frase que muitos falam, mas todo mundo faz. Ou ainda, se eu só eu fizer o certo, não vai fazer diferença, então não vou mais fazer o certo, algo do tipo.

Eu queria entender a origem desse tipo de raciocínio, pois eu não entendo. A questão dos dilemas sociais explica um pouco, a lógica de ação coletiva diz mais um pouco, mas qual teoria lida com esse tipo de pensamento? Se puderem me dar uma luz, serei só sorrisos. Essa é a Gabi Uete, que é turismóloga, historiadora de formação e yoguine de coração, Altair, de São Paulo, capital.

Altair, afinal, a ciência ajuda a entender aquilo que são sociedades individualistas e coletivistas, Altair? Na verdade, só a ciência pode ajudar isso, nessa questão. E ocorreu agora que nossos dois ouvintes parecem que são niquês, têm ascendência oriental, pelo menos pelo sobrenome.

Então, talvez isso reflita algumas coisas também, né? Desse conflito entre sociedades individualistas e coletivistas. Talvez isso pegue em você também, né, Kim? Um pouco. Sim. Certas crenças que você tem que, na verdade, você tem que valorizar mais o grupo do que você mesmo. E outras situações, você valoriza mais a você mesmo do que o grupo. A cultura japonesa, ela acaba afetando bastante nesse sentido, né?

Isso, então, hoje acho que menos, né, depois, a partir de uma certa idade, com mais maturidade de experiências e discussões, talvez você tenha se libertado de muitas amarras que tenham prendido você durante a sua infância e início da fase adulta, né? Mas você lembra de alguma situação, assim, que você se sentiu muito, ou até na sua atividade profissional também, você se sentiu muito, não coagido, mas muito impelido?

a diminuir você mesmo e se representar como sendo membro de um grupo? Por exemplo, quem tá fazendo isso não é o quem. É o grupo tal, que eu faço parte.

Aham, eu acho que várias vezes, viu, Altair? Várias vezes. E eu diria que a primeira situação que me vem à cabeça sobre isso é quando eu praticava beisebol, quando eu jogava beisebol. Acho que esse comportamento, essa atitude era meio que incentivada em todos, sabe? E como você sentia? Você lembra?

Pensa numa situação difícil, que era uma situação... Olha, era uma primeira... Olhando em perspectiva, me pareceu uma coisa natural. Eu acho que como era uma prática recorrente no time de todas as pessoas, então acho que era algo natural.

Talvez houvesse um sentimento de força, sabe? De força coletiva. De coesão. É, quando a coisa fica menos individual, né? E teve alguma sensação na sua vida do contrário? De que assim, nossa, eu tô abrindo mão de algo... Eu não faria isso.

Mas eu vou tancar pelo grupo. Também. Tipo, não é o que eu concordo, mas é o que tem que ser feito. Várias vezes. Aí acho que eu me lembro mais fortemente de situações profissionais. É, então, isso. Então, na verdade, esse episódio vai descrever e demonstrar um conflito.

então muita gente nessa desgraça de rede social polarizada que a gente tem, coloca não a gente aqui no Brasil sobretudo em grandes cidades, a gente é muito individualista e o segredo é ser mais coletivista, não tem almoço grátis, não tem solução fácil em ambos você sofre, a questão é quando e como sofrer

Então, não tem esse mito da sociedade feliz, que tudo dá certo. Não é assim, porque a gente não é onipotente e o mundo é muito maior do que a gente e as coisas perpassam a gente. Isso é importante deixar claro.

então o comentário da Gabriela por exemplo, aquelas pessoas todo mundo faz se todo mundo não faz, eu também não vou fazer eu estou fazendo aqui os negócios certos e tem os outros fazendo errado esse tipo de conflito acontece em qualquer sociedade

Qualquer sociedade. Mas a diferença de coletivismo e individualismo é como você se constrói enquanto sujeito. É a constituição da sua noção de eu. É um pouco mais fundante mesmo. E aí a gente tem que deixar claro porque o Brasil é visto como um país misto.

A gente não é totalmente coletivista nem individualista, a gente é realmente misto. E aí tem esse artigo de 2026, que é da Nature Reviews Psychology, é uma revista associada da Nature que faz especificamente revisões. E essa é uma revisão de vários artigos em psicologia para quebrar, e aí a mensagem desse artigo é muito legal, que já está prevendo um mundo multipolar e multicultural.

Então, você lembra muito bem, nós como pessoas idosas da época da Guerra Fria, então você tinha uma polaridade muito grande, uma polarização entre duas forças, com o tempo essas forças vão se esvanecendo. Então, a nossa tendência geopolítica e econômica é ter um mundo multipolar.

As coisas vão piorar bastante antes de melhorar, mas isso é muito importante para os estudos culturais, sobretudo em psicologia. Então os estudos culturais não são separados dos estudos políticos e econômicos. E aí a gente tem que repensar uma psicologia cultural baseada no multiculturalismo agora. E aí eles propõem esse artigo que é uma quebra da perspectiva monolítica entre coletivismo e individualismo. Isso não funciona mais.

Tem outras gradações. E aí um bom exemplo é o próprio Brasil, que é uma sociedade mista. Isso não necessariamente é bom, mas é uma característica importante para a discussão. Então primeiro vamos definir cada uma das partes. Vamos começar pelo coletivismo.

Então, o que seria a lógica coletiva? A lógica coletiva, então você tem o coletivismo, que é o termo geral, sociedade, falando da sociedade, e você tem o termo alocentrismo, que é falando do indivíduo.

Então, por exemplo, se você tivesse nascido no Japão, o Japão é uma nação coletivista. Nação, tá? O grupo de pessoas é coletivista. Mas você, como indivíduo, para você ser coletivo, você tem que ser alocêntrico. O alocentrismo é relacionado com o seu comportamento.

Então, você pode viver numa sociedade coletivista e ter um comportamento não coletivista. Tá. É possível, enquanto indivíduo, concorda? Ok. Individuamente. Você pode não colaborar, não ser coletivo, tudo bem. Então, assim, dentro de uma sociedade coletivista, a maior parte dos indivíduos são alocentrados. Tá.

Ou seja, o que é o pensamento halocêntrico? É quando você centra a atenção e as suas ações em outras pessoas mais do que você mesmo. Então, tudo que você pensa, a maior parte das coisas que você pensa, é pensando no que os outros estão pensando e menos em você mesmo. Então, entre aspas, você é definido pelo grupo. Ou seja, suas crenças são sempre compartilhadas. Parece que a sua noção de self está entre você e o mundo. Tá.

Então assim, você tem que ter, pra você entender realmente o que uma sociedade coletivista, por quê? Qual que é a sensação? E aí, por que a gente é misto, né? Você pensa, como brasileiro, e eu tenho certeza que muita gente deve estar pensando assim agora, como brasileiro, se é uma sociedade coletivista e eu tenho que ter um pensamento alocêntrico, quer dizer que eu me preocupo muito com todas as minhas ações levam em conta o que os outros estão pensando. Então, na verdade, eu sou, entre aspas, uma Maria mais com as outras, sabe?

Eu só faço o que os outros fazem. Esse é o pensamento brasileiro. Não é assim que funciona. É tipo, não ocorre. Não ocorre. Não é assim, ah, estou fazendo isso porque os outros estão olhando para mim. Não. Nem passa pela sua consciência. É o seu modo de ação. E aí é muito interessante você ter vivências culturais diferentes.

Então, eu vou dar um exemplo para mostrar. Eu vou dar um exemplo. Por exemplo, eu já fui várias vezes para a China e aí você vai, eventualmente, em reuniões mais formais. E os chineses têm um hábito, isso de todas as regiões da China, eles têm um hábito de, quando você vai em uma reunião mais formal, você não escolhe onde você senta.

O lugar onde você vai sentar na mesa é escolhido pra você. Tanto é que eles colocam o seu nome ali. Você vai sentar aqui. E aí, depois, eu achei curioso no começo, depois eu fui estudar um pouco mais, conversar com umas pessoas. Tem várias simbologias o lugar onde você senta. Porque, por exemplo, se eu sou de fora, e eu sou chinês, eu sou de fora, e eu entro na sala, e eu vejo todo mundo ali, eu já sei a posição de todo mundo sem conversar com ninguém. Eu já tenho essa noção. Então, você arbitrariamente vai sentar num lugar,

Pra mostrar pro grupo que você está naquela posição. Sabe? Seja mais perto do líder, seja mais longe. Então isso comunica pro grupo. E é uma coisa que lá não ocorre. Assim, as pessoas já sabem. Sim. Na hora de tirar uma foto, todo mundo se posiciona. Na hora. Sabe? E não tem certo e errado. Sabe? Ah, eu vou ficar aqui porque tal pessoa... Não. Elas já se colocam. Sim, sim. Sabe?

É tácito. É construído desde a infância. É tácito. Não tem essa coisa. Ai, eu estou aqui porque estou pensando na minha promoção. Não. Não existe. Então, isso é o coletivo. Você vai ficar nessa posição porque você está contribuindo por grupo. Não tem a ver com você. E aí tem um caso fantástico. Eu tinha um jantar. E era um jantar chique. E aí tinha um lugar onde eu ia sentar.

E aí, assim, do lado de todo visitante, né? Que eu era o outsider, né? Do lado de todo visitante sempre tinha uma mulher. Do lado direito, sempre. E aí no meu caso era uma aluna que eu conhecia, que eu já conhecia, né? E aí eu conversei um pouquinho, eu aproveitei e perguntei pra ela, porque a gente tinha um pouquinho mais de contato. Perguntei, por que, eu reparei, né? Por que do lado de todo visitante tem uma aluna?

Ela só virou pra mim, fica quieto e come. Sabe? É isso. Sabe? É basicamente isso. Mas assim, mas ela falou de um jeito impositivo, sabe? Porque não interessa, sabe? Não é que não interessa, interessa, mas é o que é. Entendi. É o que é. Entendeu? Pra ela faz sentido, porque na minha cabeça eu podia pensar, olha o patriarcado, tipo, ela passou por cima disso. Não interessa, é assim. Não tem patriarcado, patriarcado, não tem nada. É o grupo.

Estamos aqui como uma função. Então, isso me deu um sinal do coletivismo muito importante, de perceber que é ambíguo. Você trabalha para o grupo, individualmente ela não devia achar legal. E ela me servia, eu não podia me servir. Ela pegava para mim. Porque é uma coisa mais formal, é da sociedade. Então, a manifestação, ela estava tendo um comportamento alocêntrico.

ela estava, independente do que ela concorda, ela estava tendo um comportamento alocêntrico, então a manifestação psicológica do coletivismo é o alocentrismo. Você faz porque é o que tem que ser feito, e não tem uma questão moral, sabe? Não tem certo e errado. É o que é pra que tudo dê certo.

essa é a ideia da sociedade coletivista tem que dar certo tanto é que assim esses eventos que eu vou eventualmente em vários lugares do mundo é tudo meio bagunçado, corrido porque tem muitas intempéries, muitas dificuldades na China já está planejado 3 anos daqui pra frente eu já vou voltar mais 3 anos

E já tem mais eventos por três anos, já está tudo certo. Porque tem que acontecer. Então, você vendo de fora, você vai falar, nossa, como eles são organizados. Mas, ao mesmo tempo, tem um custo. Tem um custo para os indivíduos também. Então, a gente que é de fora, e é muito legal você ter a capacidade de pensar no lugar do outro e também no lugar do brasileiro. Muita gente está pensando assim, ah...

Se eu estivesse lá, eu não faria isso. Faria. Se você tem essa cultura, se você não faz, é porque você não faz parte. Sim, sim. Até o que eu falo lá, né? A China é igual uma cebola com muitas camadas. Tem muitas camadas. E quanto mais vezes você vai, mais camadas tem. Aí você volta na internet, vê essa discussão imbecil que o povo faz. Meu Deus do céu, velho. Ninguém entendeu nada.

E aí tem trabalhos muito interessantes sobre o comportamento alocêntrico dentro de uma sociedade coletivista. Porque, por exemplo, eu posso ser uma pessoa alocêntrica, eu posso pensar no grupo, mesmo numa sociedade individualista. Eu posso, individualmente. Eu posso. Isso também vai ter problemas.

então é muito importante pensar a noção da sociedade que é mais antiga do que o indivíduo então ok, você nasceu numa sociedade que é desse jeito e vai morrer numa sociedade que é desse jeito não quer dizer que seus comportamentos não mudem as coisas mas vão mudar num espaço temporal às vezes maior do que a sua própria vida você não vai ver o resultado, muitas vezes isso tem a ver com o nosso episódio 404 a gente é necessário, mas não suficiente

então você pensa é que o Brasil é uma nação recente também, então a gente não tem essa coisa de viver numa nação que tem 2, 3 mil anos de fato, de história então é realmente uma outra perspectiva e é muito interessante você ter essa

esse descolamento, assim. E no mundo multicultural é muito importante entender essa problemática. Porque você vai interagir com pessoas cada vez mais diferentes, né? E quanto mais diferentes as pessoas que você interage, mais você tem que abrir mão da sua felicidade pra se colocar no lugar do outro. Isso te incomoda, né? E é por isso que a polarização que a gente tem hoje é entre um ambiente mais plural versus um ambiente mais conservador. Porque, no fundo, do ponto de vista individual, é a dicotomia entre quem quer ser feliz a qualquer custo e quem não quer. E aí

É basicamente isso, quem abre mão disso, do ponto de vista individual. Você pode trocar totalmente essa discussão de direita e esquerda, porque quem quer ser feliz agora e quem quer ser feliz depois? É isso. Ou quem quer jogar a felicidade para a aleatoriedade. Isso é interessante. Então, pensando nas sociedades coletivistas, que você tem as suas crenças compartilhadas, qual é a vantagem de viver numa sociedade coletivista? Você tem mais suporte social,

você tem mais grupos de pessoas que te ajudam, você sente menos solidão, isso é avaliado psicometricamente por várias escalas, você se sente menos sozinho, você é relacionado com traços de personalidade, você tem mais agradabilidade, agradabilidade é o traço de personalidade, você pensar no outro mesmo, de fazer coisas para agradar. E você tem uma menor abertura a novas experiências, essa é a desvantagem, você inova menos.

porque faz sentido, porque o grupo massacra você você pode até ser uma pessoa criativa, mas se abrir a novas experiências é difícil isso significa que a sociedade coletivista ela tende a ser mais conservadora? depende do que se chama conservadorismo pode ser conservadora do ponto de vista econômico em algumas culturas em outras culturas pode ser conservador do ponto de vista dos costumes e aí

Mas a ideia é que é um grande elefante que se move devagar mesmo. As mudanças estruturais, de fato, demoram muito. Mas a garantia de manutenção da sociedade. Do ponto de vista individual, você é mais protegido. Mas essa proteção, entre aspas, deixa você mimado.

mas aí depende muito do indivíduo então, por exemplo mesmo na China hoje, vou pegar a China como exemplo porque era o grande exemplo hoje até mais do que o Japão por exemplo, a sociedade chinesa é muito mais etnocêntrica, exatamente por ser coletivista, então, o que é ser etnocêntrico? tudo aquilo que não faz parte da sua cultura, você é meio desconfiado porque você não entende então, é por isso por exemplo, que a China tem uma visão muito negativa de Taiwan e Hong Kong e aí

O chinês, de dentro da China. Então é muito interessante o discurso quem é dentro e quem é fora. Quando você conhece pessoas que vivem dentro e fora, é diferente mesmo. Você vê claramente as diferenças. Porque uma é mais coletivista e a outra é um pouco mais para o misto ou para o individual. E de novo, não tem certo e errado.

É o que é, tá? Ambas têm o ônus e o bônus. Sem juízo de valor aqui. Essa é a grande dificuldade, é tirar o juízo de valor. Para mostrar esse peso, por exemplo, do coletivismo, temos um texto, vou pedir para quem lê, por favor, um texto clássico, clássico, clássico, assim, aula 1 de antropologia você ouve esse texto, que é do PRK Clastris.

que é sobre uma população que é a população Axé, que hoje vive ali na região do Paraguai, divisa com o Brasil que chama O Arqueocesto. Vamos ouvir esse texto e faremos algumas considerações sobre ele. Por favor, quem?

Podemos, então, medir o valor e o alcance da oposição socioeconômica entre homens e mulheres porque ela estrutura o tempo e o espaço dos guaiaquí. Ora, eles não deixam no impensado o vivido dessa praxis. Tem uma consciência clara e o desequilíbrio das relações econômicas entre os caçadores e sua esposa se exprime.

no pensamento dos índios, como a oposição entre o arco e o cesto. Cada um desses dois instrumentos é com efeito o meio, o signo e o resumo de dois estilos de existência, tanto opostos como cuidadosamente separados. Quase não é necessário sublinhar que o arco, a arma única dos caçadores, é um instrumento exclusivamente masculino e que o cesto, coisa das mulheres, só é utilizado por elas. Os homens caçam, as mulheres carregam.

A pedagogia dos Guayaquil se estabelece principalmente nessa grande divisão de papéis.

Logo aos 4 ou 5 anos, o menino recebe do pai um pequeno arco adaptado ao seu tamanho. A partir de então, ele começará a se exercitar na arte de lançar com perfeição uma flecha. Alguns anos mais tarde, oferecem-lhe um arco muito maior, flechas já eficazes, e os pássaros que ele traz para sua mãe são a prova de que ele é um rapaz sério e a promessa de que será um bom caçador.

Passam-se ainda alguns anos e vem a época da iniciação. O labo inferior do jovem de cerca de 15 anos é perfurado, ele tem o direito de usar o ornamento labial, o beta, e é então considerado um verdadeiro caçador, um kibuxuete. Isso significa que um pouco mais tarde ele poderá ter uma mulher e deverá consequentemente prover as necessidades do novo lar. Por isso, seu primeiro cuidado, logo que se integra na comunidade dos homens, é fabricar para si um arco.

De agora em diante, membro produtor do bando. Ele caçará com uma arma feita por suas próprias mãos e apenas a morte ou avelício separarão de seu arco.

complementar e paralelo é o destino da mulher. Menina de 9 ou 10 anos recebe de sua mãe uma miniatura de cesto cuja confecção ela acompanha atentamente. Ele nada transporta, sem dúvida, mas o gesto gratuito de sua marcha, cabeça baixa e pescoço estendido nessa antecipação do seu esforço futuro, a prepara para seu futuro próximo.

Pois o aparecimento por volta dos 12 ou 13 anos da primeira menstruação e o ritual que sanciona a chegada da sua feminilidade fazem da jovem virgem uma daré, uma mulher que será logo esposa de um caçador. Primeira tarefa do seu novo estado e marca da sua condição definitiva, ela fabrica então seu próprio cesto.

E cada um dos dois, o jovem e a jovem, tanto senhores como prisioneiros, um do seu cesto, o outro do seu arco, ascendem dessa forma a idade adulta. Enfim, quando morre um caçador, seu arco e suas flechas são ritualmente queimados, como é também o último cesto de uma mulher. Pois como símbolo das pessoas, não poderiam sobreviver a elas.

Os guaiaki apreendem essa grande oposição segundo a qual funciona a sociedade, por meio de um sistema de proibições recíprocas. Uma proíbe as mulheres de tocarem o arco dos caçadores, outra impede os homens de manipular o cesto.

De um modo geral, os utensílios e instrumentos são sexualmente neutros. Se se pode dizer, o homem e a mulher podem utilizá-los indiferentemente. Só o arco e o cesto escapam a essa neutralidade. Esse tabu sobre o contato físico com as insígnias mais evidentes do sexo oposto permite evitar assim toda a transgressão da ordem sociossexual que regulamenta a vida do grupo.

Ele é escrupulosamente respeitado e nunca se assiste à estranha conjunção de uma mulher em um arco, nem àquela mais que ridícula de um caçador em um cesto. Os sentimentos que cada sexo experimenta com relação ao objeto privilegiado do outro são muito diferentes. Um caçador não suportaria a vergonha de transportar um cesto, ao passo que sua esposa temeria tocar seu arco.

É que o contato da mulher e do arco é muito mais grave do que o do homem e do cesto. Se uma mulher pensasse em pegar um arco, ela atrairia certamente sobre seu proprietário o pané, quer dizer, o azar na caça, o que seria desastroso para a economia dos guayaquí. Quanto ao caçador, o que ele vê e recusa no cesto é precisamente a possível ameaça do que ele tem acima de tudo, o pané.

Pois, quando um homem é vítima dessa verdadeira maldição, sendo incapaz de preencher sua função de caçador, perde por isso mesmo a sua própria natureza e a sua substância lhe escapa. Obrigado a abandonar um arco doravante inútil, não lhe resta, senão, renunciar à sua masculinidade e, trágico e se ressignado, encarrega-se de um cesto.

A dura lei dos Guayaquil não lhes deixa alternativa. Os homens só existem como caçadores e eles mantêm a certeza da sua maneira de ser preservado o seu arco do contato da mulher. Inversamente, se um indivíduo não consegue mais realizar-se como caçador, ele deixa ao mesmo tempo de ser um homem passando do arco para o cesto. Metaforicamente, ele se torna uma mulher.

Com efeito, a conjunção do homem e do arco não se pode romper sem transformar-se na sua inversa e complementar, aquela da mulher e do cesto.

Gostou do texto, Kim? Interessante, né? Um texto muito clássico. Oh, bacana! Gostei muito, gostei muito. É um texto dos anos 60, assim, e aí você tem que ver em perspectiva, né, que é a visão de um homem, que é do Pierre Clastres, né, mas vale muito a pena ler o livro todo, tá? Todo o texto está na descrição. Ele escreve muito bem, o Pierre Clastres escreve muito bem, é quase um texto literário, assim, é muito legal. E aí ele conta até nesse texto um caso de que tem um homem que acaba usando um cesto, porque ele foi deпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервперв

O pané atacou ele, entre aspas, e aí as mulheres usam o cesto na cabeça, com uma fita na cabeça. Ele usa no ombro, para mostrar que ele não é igual, sabe? E você tem o caso de um outro homem que, na verdade, assume a posição de mulher. Então ele é mais, entre aspas, afeminado.

e aí conta a diferença disso desses conflitos dentro desses dois personagens na comunidade é importante deixar claro que essa comunidade Axé inclusive eles existem até hoje são estudados até hoje lá no Paraguai quando o Pierre Classe entrevistou, viveu com eles eles eram em torno de 100 pessoas

Não era uma comunidade grande. Daí uma coisa importante que a gente tem aqui. Em geral, as sociedades coletivistas... Ser coletivista é melhor em situações em que você tem menos recurso. Faz sentido, né? Quando você tem pouco recurso...

Você tem que ser mais coletivista, dividir mais, para que o grupo se mantenha. Então, muito tempo atrás, tinha-se essa teoria de que as sociedades vão do coletivismo para o individualismo, conforme vai aumentando a riqueza. Mas hoje a gente tem vários contra-exemplos, que é, por exemplo, a China, o Japão e a Coreia, que são nações que enriqueceram, mas nem por isso deixaram de ser coletivistas. Mas quando você pensa num número pequeno de pessoas, parece que isso acontece.

então quando o número é pequeno de pessoas de uma comunidade em geral tem menos recurso as pessoas tem que colaborar mais e aí esse texto mostra de forma brilhante como que tanto o homem quanto a mulher são presos dentro do arco e do cesto é impensável não é que eles veem como certo ou errado, é impensável

você vai ter o arco e você vai ter o cesto não tem escapatória porque isso mantém a integridade do grupo então esse é um exemplo de uma sociedade coletivista e por que tem que ser assim? por que tem que ter essas regras estanques? porque se cada um fizer o que quer e são 100 pessoas a sociedade acaba e todo mundo morre é simples assim todo mundo se perde eu me lembro um episódio que é

que é aquele cruzamento, o maior cruzamento do mundo, que é lá em Shibuya, é isso? Que tem várias faixas de pedestre ao mesmo tempo. É gigante. E aí uma vez perguntaram como é que...

Como é que os japoneses se organizaram pra conseguir atravessar esse cruzamento? E o cara fala, olha, a gente, na verdade, não é que... Como é que a gente faz, né? Porque se a gente não fizer desse jeito, não tem jeito. É, exato. Você não tem escolha. O único jeito é todo mundo seguir a regra e não ficar questionando. Isso, isso. Foi o que a moça me falou. Cala a boca e come. Exatamente. Cala a boca e come.

Exatamente. E tava boa comida, aliás. Mas enfim. Mas é isso. Então, tanto é esse texto, né? Ele mostra várias situações. Que eles têm períodos, cerimônias de cantos. Que os homens e as mulheres cantam. E é o único momento em que eles podem falar deles mesmos. Porque eles cantam sobre eles.

Então os homens cantam, por exemplo, sobre como eles são fortes, como eles conseguem fazer o melhor possível. Então tem esses espaços de escape também, mas o objetivo é manter a sociedade coesa. E aí tem uma teoria muito interessante, um artigo de 2014 da Science, que é a teoria do estilo de subsistência, de como surgiram sociedades coletivistas e individualistas.

que é o cultivo de arroz versus trigo. Então, tem um trabalho fantástico, um puta trabalho foda, que eles fizeram lá na China. A China é gigante. Eles pegaram 50 províncias da China, 50 províncias, 28 delas no norte, onde eles cultivam arroz, e 21 no sul, onde eles cultivam trigo. Tá bom. São cultivos diferentes.

E o manejo da cultura é diferente. No arroz, você tem que alagar uma terra. E você não pode pegar uma terra já alagada. Você tem que fazer essa terra alagada. Dá muito trabalho. Individualmente, você não consegue fazer. Então, é um trabalho muito interdependente. Precisa da ajuda de várias pessoas. Cultivar arroz tem que ser uma tarefa coletiva. E você tem que ter um pensamento holístico.

de várias pessoas pensarem em todo mundo o tempo todo. E o trigo não, o trigo é mais independente, você planta cada plantinha e deixa ela crescendo. Eles colocam isso, a maneira de cultivo, o que você cultiva por gerações é a base do pensamento mais coletivista ou individualista de certas culturas. Essa era uma hipótese.

e tanto é que eles mostram que na China, quando você tinha menos pessoas, você tem uma comunidade com menos pessoas, menos indivíduos capazes de trabalhar, eles deixavam de cultivar arroz e começavam a cultivar trigo por exemplo e porque aí tinha mais produtividade, você tinha o que comer e aí muda o padrão da dieta logo muda a reflexão das pessoas sobre o que elas comem e aí vai mudando a cosmovisão das pessoas ao longo das gerações E aí

Muito interessante, né? Muito. Essa hipótese do estilo de subsistência. Claro que tem vários contra-exemplos. Então, você pode pensar, o pensamento do cultivo do arroz e do trigo é a separação entre a forma de pensamento coletivista e individualista. Então, por exemplo, o pensamento coletivista é um pensamento mais holístico, que você pensa no todo e não nas partes, você pensa na floresta e não nas árvores. Logo, você vai ter um pensamento mais intuitivo.

O que é um pensamento mais intuitivo? É quando a lógica é diferente. É quando, assim, se a frase A é verdade, a frase não A também pode ser verdade. Então as pessoas aceitam mais a ambiguidade. Então eu aceito que você pode ser bom e ruim ao mesmo tempo. Por quê? Porque enquanto você está trabalhando para o grupo, não importa o que você faz individualmente, se é certo ou errado.

enquanto você está colaborando, tendo pensamento holístico e intuitivo para o grupo, o seu A e o seu não A é a mesma coisa, é aceitável. Isso é engraçado, é engraçado. E é tão interessante estudar sobre isso. Obrigado, as perguntas dos ouvintes foi muito interessante. E aí, a preocupação de uma pessoa numa sociedade coletivista é assim, o quanto o meu trabalho contribui?

não é uma questão de propósito não, não tem propósito o quanto meu trabalho está contribuindo o quanto eu estou fazendo diferença tanto é que o pior sentimento numa sociedade coletivista é a vergonha

temos o naruhodo duplo sobre o que é vergonha e aí você tem até o papel da morte do suicídio, por exemplo a boa parte do suicídio são por vergonha em sociedades coletivistas então você vê que tudo encaixa você pensa o nascimento da vida pelo cultivo, isso estrutura a alimentação que estrutura a forma de criação, as regras e estrutura até a forma como você morre

muito interessante essa lógica do arroz por exemplo, já a lógica do trigo o plantio do trigo é mais independente então você planta as plantinhas e deixa lá um tempo logo, isso gera nas pessoas um maior tempo pensando nelas mesmas, então eu não fico pensando tanto no grupo, porque o trigo está crescendo eu tenho que esperar ele crescer no arroz não, não sei se você já cultivou arroz um pouco no arroz você tem que olhar toda hora

Você tem que olhar toda hora, porque como é alagado, um dia que choveu mais, choveu menos, perdeu tudo. Sim. Então você tem que ficar o tempo inteiro pilhado no cultivo, sabe? Então é o tempo inteiro focando sua atenção no grupo.

É muito louco, Kim. É muito louco isso. O tempo inteiro... Nunca tinha pensado na questão de o que você está cultivando pra sua subsistência afetar a forma como você percebe uma série de outras coisas.

E toda a sua cadeia de significados. E aí o texto do arco e o cesto brilha mesmo nisso. É o arco e o cesto. Você não precisa pensar em você mesmo. Você já tem o seu arco. E a mulher já tem o cesto dela. É só fazer o que tem que ser feito para manter o todo. A sociedade do trigo... E lembrando que esse trabalho da Science foi feito na China. Na China você tem os dois.

E daí a importância da multiculturalidade também. Então, no trigo, o pensamento é mais independente, então você deixa o trigo crescer e dá uma olhada de vez em quando. Logo, você é capaz de desenvolver um pensamento mais analítico. Ou seja, pensar em termos de categorias mais abstratas. Você se projeta mais no tempo. E aí você vai ter o aparecimento de leis lógicas. Leis lógicas mesmo, como a lógica fala. Leis lógicas de não contradição.

Então, se há é verdade, não há é falso. E logo você vai ter um pensamento mais moral. Mais de certo e errado. Mais de eu julgar você. Eu olho mais pra você aqui. Porque eu tô esperando o trigo crescer e você também. Então, eu olho, tipo, o que você tá fazendo? Por que você tá fazendo isso? Sendo que você não precisa olhar pro trigo, né? Entendeu? Se fosse arroz, você não tava fazendo essa merda. Entendeu? Tá olhando pro arroz. Sabe? Olha que mó é foda. Não é interessante?

Essa é uma teoria muito boa. Muito boa. Muito boa mesmo. Verdade. E aí, agora dá para explicar por que o Brasil é misto. Quais são as duas grandes estruturas que criaram a cultura do Brasil? Antes, claro que você tem a cultura indígena.

das comunidades. Você está falando da cultura que foi imposta aqui pelos invasores portugueses. Isso, pela colonização. Exatamente. A partir daí, 500 anos, 500 e poucos anos, o que você tem? Quais são as duas grandes estruturas? O colonialismo e a escravidão, basicamente. Então, por isso que a escravidão negra, por exemplo, que veio para o Brasil, também é indígena. Você pega sociedades que, tanto aqui no Brasil quanto na África, eram coletivistas.

e você traz para trabalhar de forma também coletiva, mas sob escravidão só que isso para alavancar o pensamento individual dos detentores desse mercado e é por isso que a gente nasce na treva a gente nasce no conflito mesmo é zoado, é triste, mas é o que nos marca tem um caráter fantástico também nessa percepção a gente nunca vai entender o que é ser o chinês nunca nunca mesmo

Por isso que não é pra se comparar. Não adianta. Temos que criar uma coisa nova. Tem que tropicalizar o rolê. A gente nunca teve guerra civil, de verdade. Teve guerras locais. Não teve a guerra da secessão, igual a dos Estados Unidos, que dividiu o país. E isso não é bom e ruim. A gente não precisa de guerra civil. Para com isso. Você não sabe o que é a guerra. Se soubesse, nunca pensaria essa bobagem. O povo que ouviu.

Esse pensamento mais analítico que vem de uma sociedade mais individual é muito importante para gerar engenhosidade, gera criatividade. Você pensar em termos lógicos, ter essa capacidade individual de pensar em termos lógicos, pode gerar soluções úteis se você é uma pessoa com mais capacidades. A gente tem o Naruhoto sobre pessoas superdotadas, que talento é resultado de oportunidade e preparo.

É isso. Numa sociedade mais individual, se você tem acesso à capacidade analítica, você estuda mais, pensa mais, tem tempo pra pensar. E isso é o preparo, às vezes pode aparecer oportunidade pra você ter uma boa ideia. Nas sociedades coletivistas, em geral, essa ideia é coletiva. Emerge do grupo. E, de novo, a diferença é o tempo em que uma ocorre ou a outra. Não tem melhor ou pior. É eventual.

Mas tem consequências, né? Estava pensando aqui o quanto uma sociedade coletivista, por exemplo, ela é menos apegada à autoria da ideia, por exemplo. Muito bem, isso. É o grupo. Então, até visitei muitos hospitais lá, né? Tipo, quando eles lançam um remédio, o remédio não é do pesquisador, o remédio é do hospital.

Esse é o lançamento do hospital tal, da fábrica tal, do que quer que seja. Claro que a pessoa é valorizada individualmente. Então, você tem uma estrutura hierárquica grande. Mas aí, tipo, você quem é valorizado? Porque você é o diretor do hospital. Não é porque você é o quem. Entendeu? Você está ali. Então, individualmente, você está no meio da foto. Sabe? Você não precisa mais do que isso. Sabe? Então, tem os dois níveis, né? O que não quer dizer, de novo, que nas sociedades coletivistas, as pessoas não pensam de forma individual, com os seus valores.

tanto é que tem um trabalho do ano passado muito interessante, falando sobre o isolamento existencial na China e no Japão e na Coreia também, então o que seria isolamento existencial? É uma sensação profunda e subjetiva de que estamos sozinhos em nossa experiência de vida, separados numa perspectiva única, isso é o isolamento existencial

Pense uma coisa mais moderna do que isso, é o isolamento existencial. Isso é próprio das sociedades individualistas. Então, mesmo uma sociedade tradicionalmente coletivista, mas com valores de mercado, mercado capitalista, isso estimula o individualismo nas pessoas. Quando você tem que trabalhar como funcionário numa empresa, e na China tem aquela expressão 996, 996, 9 da manhã até 9 da noite, 6 dias por semana. E coletivamente você é obrigado a fazer isso,

só que você não vê sentido para o coletivo fazer isso. Claro que você vai entrar em anomia, claro que você vai entrar em isolamento existencial. E isso é um grande problema lá, todas as nações asiáticas, isso é um grande problema, o isolamento existencial, que leva ao aumento de atentados contra a própria vida.

problemas de saúde e coisas do tipo. Isso é muito estudado. Então, não é que nações coletivistas tenham menos que a gente. Mesmo apesar de, em teoria, as pessoas se sentirem menos sozinhas e com mais suporte, não quer dizer que isso não aconteça na prática. Então, é um efeito da lógica econômico-política sobre a estrutura...

de cultura, da estrutura da cultura. Então esse conflito entre cultura, economia e política é sempre...

preemente, sempre constante. Indo agora para as sociedades individualistas. Então, o individualismo, esse termo, foi cunhado em 1980 pelo Gert Hofstede, que é um pesquisador da Holanda. Ele trouxe essa ideia. Então, basicamente, é a ênfase no indivíduo ao invés do grupo. Você desenvolve o pensamento abstrato, um pouco mais. E aí tem questionários que avaliam isso. Tem questionários que avaliam o grau de individualismo de pessoas e empresas. Aja,jajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajajaja

Então eles avaliam a sua orientação de longo prazo, avalia a incerteza que você vê referente ao perigo. E aí tem um conceito muito interessante que é as distâncias de poder. Ou law power que eles chamam. Então o quanto que você aceita a desigualdade?

Porque na sociedade coletivista isso não é um problema, mas na sociedade mais individualista, o quanto você aceita o fato da sociedade ser inerentemente desigual? Você tem uma maior tolerância a isso. Você tem uma maior tolerância à desigualdade. Por quê? Se você estiver do lado certo, entre aspas, não te afeta.

Percebe? Isso o brasileiro tem, não percebe? Percebe que a gente tem um pouquinho de cada? Porra, foda. Tem um pouquinho de cada. Então é tenso. O chinês não entende a gente. O japonês não entende a gente que tem esse negócio. Por isso vocês ficam em conflito. Por isso que a gente tem dois e meio de ninguém. Ninguém entende a gente.

Então, nem a gente mesmo. Nem a gente mesmo. Exato. Tem um exemplo muito legal que são os maias. Os maias existem até hoje, não é só aquela coisa estereotipada, mas os maias são mais comuns no México. Então a sociedade mexicana é muito interessante, porque é uma sociedade altamente coletivista que teve uma integração com o mercado, a educação e a urbanização, aumentou o individualismo.

mas os mexicanos tem uma cultura muito interessante, porque eles são coletivistas mais ou menos então por exemplo, parece que não aí você tem que conviver mais com a sociedade mexicana, eles são muito religiosos, eles tem uma religiosidade católica muito forte, mas ao mesmo tempo eles tem uma liberdade sexual muito maior do que outros países com o mesmo grau de religiosidade que eles incluindo a gente

E por quê? Porque esse comportamento sexual um pouquinho mais desenvolvido, elaborado, é uma herança maia. É uma herança cultural mesmo, que não pega as relações de trabalho, mas pega as relações de interface sexual. Muito interessante ter um trabalho sobre isso, muito interessante mesmo. Por isso que eles são pessoas mais afáveis.

É que as pessoas ficam falando de... Elas ficam falando de sexo, mas elas pensam em putaria. Não tem a ver com putaria. Não é isso. Também tem, mas não é isso. Quando você fala de sexo, é você ser afável. É uma pessoa a ter mais amabilidade. Sim, sim. Eu, pessoalmente, nunca vi pessoas tão amáveis quanto os...

tão próximos, com um coração tão amável quanto os mexicanos. Na minha experiência cultural, é muito interessante. E parece que essa interação maia... Por exemplo, eles são mistos também. Eles têm uma perspectiva mista igual ao Brasil. Só que eles são mistos diferente. Eles são mistos muito mais pelo contato. O contato intersubjetivo é mais coletivo.

mas as relações hierárquicas são mais individuais. Entendi. Aqui no Brasil é o contrário. As relações de família são mais coletivas. Se bem que agora as famílias estão ficando mais nucleares. Então até as relações familiares estão ficando mais individuais também. E aqui no Brasil a gente tem uma coisa que é chamada proviancinismo.

Sabe, pessoas provincianas. Você já ouviu esse termo? Sim, claro. Ser provinciano. Esse é um termo bem nacional.

O ser provinciano é bem brasileiro. Isso é um grande problema hoje para o isolamento existencial. Sabia quem? O provincianismo. É que a gente vive numa cidade grande. Mas quando você vai para cidades menores, quando você vai para cidades menores, o ser provinciano é uma coisa que afeta muito. É, o provincianismo. Afeta muito e aí tem muita interface com a escolaridade. E aí isso bate completamente no nosso episódio sobre transfuga de classe.

Então, quando você é de uma certa cidade, você se escolariza e sua escolaridade é grande o suficiente para se distinguir dos outros, você deixa de ser um pouco provinciano, você pensa as questões em perspectiva, você deixa de ser coletivista.

que é a lógica provinciana, e fica um pouco mais individual. Isso aumenta muito o isolamento existencial. A própria transfuga de classe tem a ver com isso. Então, de novo, indo para o final, a nossa sociedade brasileira é ambígua. E aí eu quero pegar uma coisa do último episódio sobre interdisciplinaridade, que é o grande desafio da nossa sociedade atual. E eu vou falar aqui de Brasil. Vale para outras. Mas aqui no Brasil...

O grande desafio, a grande educação, a grande competência que a gente tem que ensinar para as crianças e para os adolescentes e até para os adultos.

Não precisa soft skills, hard skills. Isso é bobagem. Isso é para ser empregado. Qual é a grande habilidade que a gente tem que desenvolver hoje? É a capacidade de entender a ambiguidade do mundo. Que o mundo é complexo. Ele é desigual. E ele é injusto. E ao mesmo tempo, do ponto de vista individual, você desenvolver um certo tipo de gratidão por viver.

Esse é o grande conflito hoje, sobretudo numa sociedade mista como a nossa. É você ter esse, entender, abraçar esse conflito do distante versus o próximo. Sabe? Ainda ser grato por viver, apesar de você não controlar quase nada, coletivamente, sobre o fato do mundo ser desigual, injusto. E a gente sabe que ele é. Porque hoje a gente tem muito mais informação.

mesmo que você não queira, a informação vem até você então esse conflito isso é interessante isso independe de privilégio independe do quão privilégio você eu vou pedir desculpas preemptivamente porque eu vou ser um pouco sem noção, mas é pelo é pelo argumento isso viralizou acho que na internet viralizou um tempo atrás acho que foi no Twitterпервперв

Mas foi por conta de um professor coreano que eu conheço. Ele falou numa aula uma coisa que eu concordo muito. Ele sintetizou uma coisa muito boa. Você sabe a diferença entre as pessoas inteligentes e as pessoas burras, Ken? Estou ansioso para ouvir sua resposta. A pessoa inteligente, ela vive para dentro.

A pessoa burra vive pra fora. O que isso quer dizer? A pessoa... Quando eu falo burro, é pra você pensar de um termo bem livre mesmo. Não tem a ver com cognição. A pessoa burra, entre aspas, eu tô falando do jeito brasileiro, tá? Tipo, é focado nessa cultura só. A pessoa burra é aquela que atende as demandas. Sabe? Não é que ela é incapaz. Muito pelo contrário, cognitivamente, ela pode ser muito desenvolvida. Mas ela atende as demandas sociais. Ela faz o que tem que ser feito pra atender o grupo. É o provincianismo.

é o provencionismo. A pessoa inteligente perde muito tempo fazendo as coisas que elas têm que fazer a despeito dela mesma. Porque ela pensa muito para dentro, ela tem muita profundidade. E por isso que eu falo, entre inteligente e burro, não é um elogio. Quando eu falo inteligente, não é um elogio. É um peso, é um custo. Tem muita gente, e aí é o problema da nossa sociedade, tem muita gente que é inteligente demais para o bem dela.

Isso não é um elogio. É desconstruir isso. E aí a gente chega numa conclusão muito importante, que é, entre aspas, você pode dizer esse nome o que você quiser. A pessoa inteligente, entre aspas, na verdade ela sofre muito. Ela cai no isolamento existencial. Ela é menos adaptada. A pessoa inteligente, nesse sentido. Sendo que a pessoa burra é a que tem sucesso.

Pensa quem? Você já foi burro N vezes. N momentos da sua vida, você foi burro. A despeito do seu sofrimento individual interno, da sua densidade sobre o pensamento do que você ia fazer, você abriu mão disso porque sabia que ia ter um ganho lá na frente. Ou pelo grupo mesmo. Várias vezes. Quando eu falo de ser inteligente e burro, nós dois temos... Você tem os dois dentro de você. É esse conflito.

sabe? E é por isso que, de verdade, não existe sociedade coletivista e individualista. É multicultural. Ainda mais no mundo globalizado que a gente vive hoje. Cada vez mais conectado. E é exatamente por isso que a gente nunca esteve tão conectado e, ao mesmo tempo, tão sozinho.

Porque você tem contato com uma multiesplicidade de zeros contextuais dos outros que você não dá conta. É por isso que você não consegue mais se relacionar. Você se sente sozinho. Você cai em isolamento existencial mesmo. Então esse episódio é muito legal pra gente encarar em nós mesmos que a gente não precisa ser... Não quer dizer que os axés, por exemplo, o Duarco e o Sexto, nos informam muito.

Eles são sociedades igualmente desenvolvidas com a gente. E eles passam por conflitos da mesma forma que a gente. E aí, voltando num ponto anterior, a única coisa que unifica todos esses tipos de sociedade multicultural é a morte. Porque é o bem comum a todos nós. A gente tem o episódio 98, e outros episódios falam sobre isso, mas a morte é o ponto, e aí eu concordo totalmente com a descrição do Levi-Strauss, que a morte é o retorno à ancestralidade.

e bate completamente no princípio de Lavoisier na química, que nada se cria, tudo se transforma. Exatamente isso. Verdade. O retorno à ancestralidade é muito importante, porque toda vez que alguém morre, ao mesmo tempo que é o final de um ciclo, também é o começo de outro. Por quê? Porque em toda cerimônia de morte, isso é universal. Em todas as cerimônias de morte, existe uma união.

que são as pessoas que vão lá, que são as pessoas que aparecem. Então, essas pessoas marcam uma união, apesar de um final de um ciclo. Então, é sempre um recomeço. Independente das dificuldades que as pessoas tiveram, a morte marca, é quando o indivíduo vira coletivo e o coletivo vira individual. Porque você pega aquela mensagem da pessoa e traz para o seu... O coletivo recebe.

o ancestral que aquela pessoa foi e é muito interessante pra encerrar o episódio eu gostaria de dedicar esse episódio a Isabela que é uma pessoa muito importante foi muito legal que ela tenha passado pela minha vida de alguma forma, me ensinou muito sobretudo me ensinou a ideia do conflito de lidar melhor com esse conflito eu lido muito melhor com o meu conflito agora com base nisso com base na experiência dela e na forma como eu fizпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервпервперв

Ela lidava com as coisas. Eu lembro de um caso. Ela detestava a minha comida. Com razão óbvia, porque eu cozinho muito mal. Eu realmente cozinho mal. Eu sou o único que come minha própria comida. Porque eu não me importo. Eu cozinho muito mal mesmo. E é interessante porque não quer dizer que eu não me importo pelo fato de eu não me importar com o fato de eu cozinhar mal.

que os outros têm que se importar também. Óbvio, sabe? Então, você se abre essa coisa. Os outros merecem mais do que o que eu faço por mim mesmo. Óbvio, sabe? Então, os outros sempre merecem mais. E ela merecia muito mais. Inclusive, ela ter a grande mensagem coletiva que eu pego para o indivíduo, que é assim, eu preciso aprender a cozinhar melhor.

Mesmo que seja só pra mim mesmo. Então, essa é uma grande mensagem. Vou começar a praticar. Porque eu não me importo muito, mas vou começar a praticar. Eu tenho que me importar mais. Então, assim, dedico esse episódio, claro, aos nossos ouvintes que mandaram as perguntas. De fato, eu tenho como hipótese, pelo fato deles serem niquês, e acho que você compartilha disso, o conflito está premente.

E na verdade ele constitui sua subjetividade Não é pra ser ruim e não é pra que ele suma Porque realmente ele O conflito é importante Você tentar viver as coisas meio do jeito Sabe, em banho-maria Sem atacar as estruturas das coisas É muito chato

é você se tornar burro não é ser burro, é você se tornar burro aceitar o privilégio por exemplo eu aceito o privilégio mas aí eu não vou não vou ser mais criativo não vou me desenvolver, não vou arriscar os meus limites não vou fazer nada disso eu acho muito triste eu sempre bati nisso um desperdício

É um desperdício pra algumas pessoas Tem pessoas que aceitam ser burros a vida toda E não tem problema O episódio 404 fala muito disso Mas pra quem Tenta ser um pouco mais inteligente E explorar essa Perceber que o mundo interno é muito maior que o mundo externo Tem essa possibilidade A gente vive Apesar dos pesares, a gente vive numa nação Muito interessante Uhum

Eu já fui para vários outros países. Tem coisas que a gente é capaz de falar e pensar ainda, ainda, que são inimagináveis em qualquer outro lugar. Inimagináveis. Só para você ter uma ideia. Então, a gente tem muito privilégio em geral. Privilégio coletivo, social, de poder falar.

só que a gente perde muito tempo falando mais dos outros do que tentando explicar o nosso próprio comportamento e aí eu encerro com uma coisa que me levou um tempo pra bolar e é muito interessante por exemplo, quando eu falo que eu gosto de você parece que é um sentimento, mas não é gostar de alguém não é um sentimento, é uma habilidade

Não adianta nada você falar que gosta de alguém. Isso aí é inútil. O que importa é o que você faz. Se você não sabe fazer, você não gosta. É só uma palavra vazia que você escreve numa mensagem no WhatsApp. Por isso que hoje é tão banalizado dizer eu te amo. Porque é uma coisa muito fácil de falar. Mas eu quero ver você bancar. Fazer mesmo. Colocar em prático. Então, essa é a grande mensagem. Como diz Bell Hooks, amar é um verbo.

Isso. Eu dou um peso maior pra isso. É uma habilidade. Tem que ser treinado. É igual aprender a levantar peso. É igual aprender a pular corda. Sabe? Você vai pular todo torto no começo, mas chega uma hora que você consegue, mas vai demandar tempo. Gostar de alguém é uma habilidade. O esforço. E treino. E treino. E tem que treinar direito. E é por isso que as pessoas não conversam mais. Porque elas só conversam pela porra da rede social. E acham que isso é relacionamento. Só porque você põe nome de rede social não quer dizer que é social.

é isso onde o coletivismo e o individualismo se unem na rede social, matando a experiência individual esse é o tipo de morte que eu não quero

a nossa morte tem que ser um retorno à ancestralidade e não ao resíduo do IPO de stakeholder para aumentar a PLR de final de ano. Então assim, esse episódio é homenagem aos nossos ouvintes e a Isabela, obrigado por tudo e também a você, que é obrigado pela sua experiência sempre compartilhada nesses 466 episódios. Ah, eu é que agradeço a sua companhia sempre.

Tá certo? E NARU RODÔ, ilustríssimo ouvinte! E você já sabe, aqui no NARU RODÔ, quem faz a pauta é você. Você tem alguma pergunta pra gente ou quer comentar algum episódio? Escreva pra nós. Podcast arroba narurodô.com.br Repetindo. Podcast arroba narurodô.com.br E lembre-se, mande nome completo, idade, profissão e a cidade de onde você está falando. É isso aí, mano.

Narihodo. Este podcast é apresentado por

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