Episódios de Naruhodo

Naruhodo Entrevista #67: Aline Ghilardi

11 de maio de 20261h42min
0:00 / 1:42:45

Na série de conversas descontraídas com cientistas, chegou a vez da Professora, Bacharel e Licenciada em Ciências Biológicas, Mestre em Ecologia e Recursos Naturais, e Doutora em Geologia, com ênfase em Paleontologia e Estratigrafia, Aline Ghilardi.

Só vem!

>> OUÇA (102min 45s)

*

Naruhodo! é o podcast pra quem tem fome de aprender. Ciência, senso comum, curiosidades, desafios e muito mais. Com o leigo curioso, Ken Fujioka, e o cientista PhD, Altay de Souza.

Edição: Reginaldo Cursino.

http://naruhodo.b9.com.br

*

Aline Marcele Ghilardi é Bacharel e Licenciada em Ciências Biológicas (UFSCar, 2008), Mestre em Ecologia e Recursos Naturais (PPGERN-UFSCar, 2010) e Doutora em Geologia, com ênfase em Paleontologia e Estratigrafia (PPGGL-UFRJ, 2015).

Atuou como professora substituta de Paleontologia na UFPE entre 2016 e 2017 e realizei pós-doutorado com foco em Paleoicnologia junto ao PPGERN-UFSCar entre 2017 e 2019.

Em 2018, foi para o Steinmann Institut da Universität Bonn, Alemanha, como pesquisadora convidada.

Desde 2019, é professora adjunta no Departamento de Geologia da UFRN, onde leciona disciplinas de Paleontologia e coordeno o Laboratório de Paleontologia e Paleoecologia (LPP) e o Grupo de Pesquisa em Diversidade, Icnologia e Osteohistologia.

Ainda na UFRN, pertence ao quadro permanente de docentes dos programas de pós-graduação em Geodinâmica e Geofísica (PPGG) e Sistemática e Evolução (PPGSE), onde orienta alunos de mestrado e doutorado.

Atualmente é Diretora Pro-Tempore do Museu Câmara Cascudo (MCC-UFRN) e pesquisadora associada do seu Setor de Paleontologia da mesma instituição, além de ser investigadora associada da Sociedade de História Natural de Portugal. 

Suas pesquisas concentram-se nas áreas de Paleozoologia, Paleoecologia, Paleoicnologia e Paleohistologia, com foco em arcossauros mesozoicos, além de temas sobre colonialismo na ciência.

Tem forte atuação em divulgação científica: é idealizadora e co-diretora da rede ''Colecionadores de Ossos'', vinculada ao Science Vlogs Brasil e Blogs de Ciência da Unicamp, com um blog e canal no YouTube com mais de 60 mil seguidores. 

Produziu inúmeros textos, vídeos, livros e jogos educativos.

Foi a idealizadora da campanha #UbirajaraBelongstoBR, que impulsionou debates sobre colonialismo científico e contribuiu para a repatriação de fósseis brasileiros.

Além disso, é cofundadora da rede Patrimônio em Pauta, voltada à proteção do patrimônio cultural brasileiro e também integra o coletivo ''Mulheres na Paleontologia'', que busca promover equidade de gênero na área.

Recebeu prêmios por suas contribuições à ciência, divulgação científica e ativismo, e participa regularmente de palestras, cursos e entrevistas na mídia nacional e internacional.

Lattes: http://lattes.cnpq.br/5761534317977568

*

APOIE O NARUHODO!

O Altay e eu temos duas mensagens pra você.

A primeira é: muito, muito obrigado pela sua audiência. Sem ela, o Naruhodo sequer teria sentido de existir. Você nos ajuda demais não só quando ouve, mas também quando espalha episódios para familiares, amigos - e, por que não?, inimigos.

A segunda mensagem é: existe uma outra forma de apoiar o Naruhodo, a ciência e o pensamento científico - apoiando financeiramente o nosso projeto de podcast semanal independente, que só descansa no recesso do fim de ano.

Manter o Naruhodo tem custos e despesas: servidores, domínio, pesquisa, produção, edição, atendimento, tempo... Enfim, muitas coisas para cobrir - e, algumas delas, em dólar.

A gente sabe que nem todo mundo pode apoiar financeiramente. E tá tudo bem. Tente mandar um episódio para alguém que você conhece e acha que vai gostar.

A gente sabe que alguns podem, mas não mensalmente. E tá tudo bem também. Você pode apoiar quando puder e cancelar quando quiser. 

O apoio mínimo é de 15 reais e pode ser feito pela plataforma ORELO ou pela plataforma APOIA-SE. Para quem está fora do Brasil, temos até a plataforma PATREON.

É isso, gente. Estamos enfrentando um momento importante e você pode ajudar a combater o negacionismo e manter a chama da ciência acesa. Então, fica aqui o nosso convite: apóie o Naruhodo como puder.

bit.ly/naruhodo-no-orelo

Assuntos6
  • Resiliência pessoal e institucionalExperiências de assédio moral e sexual durante o doutorado · Dificuldades em denunciar e a falta de apoio · Superação e busca por ambientes seguros · Formação de novas gerações de cientistas com foco em equidade · Conselhos para estudantes que enfrentam assédio
  • Infância e formação de Aline GhilardiCrescimento em Ribeirão Preto e contato com a natureza · Interesse precoce por dinossauros e cristais · Decisão de carreira e dificuldades financeiras familiares · Escolha de Ciências Biológicas como graduação · Experiência de vida universitária em São Carlos
  • Teoria da Evolução e Experimentos HistóricosEstudo de crocodiliformes terrestres da Bacia Bauru · Diversificação morfológica e ocupação de nichos ecológicos · Importância do Brasil na evolução dos crocodilos · Pesquisa sobre pegadas de dinossauros na Paraíba · Ameaças ao patrimônio paleontológico · Atuação em divulgação científica e criação de conteúdo · Coordenação do Laboratório de Paleontologia e Paleoecologia (LPP)
  • Megafauna do Quaternário e a convivência com humanosAnimais gigantes do período Pleistoceno no Brasil · Preservação de fósseis em cavernas e depósitos cársticos · Hipóteses sobre a extinção da megafauna · Interação entre humanos e megafauna no passado · Mudanças climáticas e ambientais como causa de extinção
  • Desmatamento da Amazônia e custos de energiaImpacto do desmatamento no regime de chuvas · Rios voadores e a manutenção da Mata Atlântica · Risco de desertificação em caso de destruição da floresta
  • DinossaurosAdaptação de crocodilos para ambientes terrestres · Diversidade de crocodiliformes no Brasil pré-histórico · Jacarés e caimãs como representantes atuais no Brasil · Hipóteses sobre a migração para ambientes aquáticos
Transcrição272 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Estudar o mundo natural, para mim, parecia incrível de qualquer forma. A vida sempre me encantou muito, as formas de vida, como elas interagiam com o ambiente. Então, lá fui eu viver a biologia.

Tu anda em São Carlos, no centro da cidade, onde você está, e tem pegada de dinossauro, cara. Com o CEP, lá na rua, por exemplo, João Gomes, número 35, tem uma pista de um dinossauro terópode. Na Pizzaria Mitty, lá no centro da cidade, tem uma laje com pegadas de um mamífero da época dos dinossauros.

O clima, o ambiente, a vegetação do sudeste depende muito da saúde da Amazônia. Se a gente mexer com aquilo lá, a gente vai voltar a ter condições mais secas, secas mais prolongadas localmente, o que vai reduzir a vegetação. E se você for hardcore e arrancar a floresta inteira, tu vai voltar, sabe aquele deserto da Era dos Dinossauros? É, a gente vai voltar a ter aquele deserto da Era dos Dinossauros.

Eu vivia sob ameaça da minha vida ali. Professor da universidade que me perseguia. Me perseguia dentro da rodoviária, me ligava, me escrevia e-mail, ameaçando e coisas terríveis.

A gente teve jacarés pré-históricos, parentes dos caimãs atuais, que viveram naquela região que tinham 13 ou 15 metros de comprimento, ou seja, chegavam a ser maiores do que um tiranossauro-rex, cara. Então o Brasil, em termos paleontológicos, é muito importante para a gente entender a história da evolução desse grupo dos crocodilos.

Ilustríssimo ouvinte, ilustríssimo ouvinte do Naruhodô, o Altair e eu temos duas mensagens pra você. A primeira é muito, muito obrigado pela sua audiência. Sem ela, o Naruhodô sequer teria sentido desistir. Você nos ajuda demais não só quando ouve, mas também quando espalha episódios pra familiares, amigos e, por que não, inimigos.

A segunda mensagem é, existe uma outra forma de apoiar o Narodô, a ciência e o pensamento científico. Que é apoiando financeiramente o nosso projeto de podcast semanal independente, que só descansa no recesso do fim do ano. Manter o Narodô tem custos e despesas, servidores, domínio, pesquisa, produção, edição, atendimento, tempo, enfim, muitas coisas para cobrir. E algumas delas em dólar.

A gente sabe que nem todo mundo pode apoiar financeiramente, e tá tudo bem. Tente mandar um episódio pra alguém que você conhece e acha que vai gostar. A gente sabe que alguns podem, mas não mensalmente, e tá tudo bem também. Você pode apoiar quando puder e cancelar quando quiser.

O apoio mínimo é de R$ 15,00 e pode ser feito pela plataforma Orelo ou pela plataforma Apoia-se. Para quem está fora do Brasil, temos até a plataforma Patreon. É isso, gente. Estamos enfrentando um momento importante e você pode ajudar a combater o negacionismo e manter a chama da ciência acesa. Então fica aqui o nosso convite. Apoie o Naro Rodô como puder.

Ilustríssimo ouvinte, ilustríssimo ouvinte, seguimos com a série Inaro Rodou Entrevista, que está trazendo conversas descontraídas com cientistas brasileiras e brasileiros que contam sobre suas trajetórias, seus pensamentos e seus campos de atuação. Neste episódio, vamos falar com a Aline Guilardi.

Aline Marcelle Guilardi é bacharel e licenciada em Ciências Biológicas, mestre em Ecologia e Recursos Naturais e doutora em Geologia com ênfase em Paleontologia e Estratigrafia.

Atuou como professora substituta de paleontologia na Universidade Federal de Pernambuco e realizou pós-doutorado com foco em paleoiknologia junto ao UFSCar entre 2017 e 2019. Em 2018, foi para o Steinmeier Institut da Universität Bonn, na Alemanha, como pesquisadora convidada.

Desde 2019, é professora adjunta no Departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde leciona disciplinas de paleontologia e coordena o Laboratório de Paleontologia e Paleoecologia e o Grupo de Pesquisa em Diversidade, Ecnologia e Histologia.

Ainda na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, pertence ao quadro permanente de docente dos programas de pós-graduação em geodinâmica e geofísica, e sistemática e evolução, onde orienta alunos de mestrado e doutorado. Atualmente, é diretora pró-tempória do Museu Câmara Cascudo e pesquisadora associada do seu setor de paleontologia na mesma instituição, além de ser investigadora associada da Sociedade de História Natural de Portugal.

Suas pesquisas concentram-se nas áreas de paleozoologia, paleoecologia, paleoiquinologia, paleoistologia, com foco em arcossauros mesozoicos, além de temas sobre colonialismo na ciência. Tem forte atuação em divulgação científica e é idealizadora e co-diretora da rede Colecionadores de Ossos, vinculada ao Science Vlogs Brasil e blogs de ciência da Unicamp, com um blog e canal no YouTube com mais de 60 mil seguidores.

Produziu inúmeros textos, vídeos, livros e jogos educativos. Foi idealizadora da campanha Ubirajara Belongs to Brazil, que impulsionou debates sobre colonialismo científico e contribuiu para a repatriação de fósseis brasileiros. Além disso, é cofundadora da rede Patrimônio em Pauta, voltada à proteção do patrimônio cultural brasileiro, e também integra o coletivo Mulheres na Paleontologia, que busca promover equidade de gênero na área.

Recebeu prêmios por suas contribuições à ciência, divulgação científica e ativismo e participa regularmente de palestras, cursos e entrevistas na mídia nacional e internacional. Vamos então para a conversa com a Aline.

Aline, muito obrigado por ter topado o nosso convite para conversar com a gente aqui no Naro Rodô. Aline, dê aí seu primeiro salve para as nossas ouvintes e para os nossos ouvintes, Aline. Salve, salve, ouvintes do Naro Rodô. É um prazer imenso estar por aqui. Eu sou fã desse pessoal. Então, vamos lá. Eu espero que a gente faça uma boa viagem aí, pelo tempo geológico da minha vida. Faremos, faremos.

E obrigado de novo pelo seu tempo, Aline. Aline, eu vou começar com você, como eu começo com todo mundo que a gente conversa aqui no Naro Rodô. Eu quero saber quando você nasceu, onde você nasceu e em que contexto familiar, sócio-econômico você nasceu, Aline.

Ok, então vamos lá. Idos do proterozoico. Brincadeira. 1986, auge da década de 80, um mundo muito diferente do atual. Uma menininha nasce em São Paulo, capital. Um lugar que não tem nada a ver com ela.

numa família típica de classe média, de pessoas misturadas entre uma família que chegou no Brasil há muito tempo atrás, com uma mistura de imigrantes europeus com povos originários, e uma outra família que tinha chegado muito recentemente da Europa, fugida da guerra, a família do meu pai.

Vinda lá da Itália e nesse contexto familiar ali desse pessoal tentando se virar e sobreviver na cidade monstro, que já era uma cidade monstro na década de 80, nasce a Lininha em 8 de junho de 86. Eu gosto muito da data do meu aniversário, tá? Porque ela é 8 de 6 de 86. Então é fácil lembrar. Todo mundo aí, por favor, garanta o meu parabéns no dia 8 de 6.

E nessa cidade, apesar de eu ter nascido, não foi nela que eu vivi, graças ao bom Deus. Logo, minha família me levou para o interior do estado de São Paulo para eu crescer. Por quê? Entendi. Eu nasci, fui a famosa raspa do tacho, cara. Eu nasci 12 anos depois da minha irmã, da irmã do meio da família e 14 anos depois da irmã mais velha. Uma temporã.

Fui uma temporã. Muito, o pessoal pensa assim, né? Muito mimado, né? Temporão, raspa do tacho. Mas não, levei chinelada, voando, briguei com as irmãs do mesmo jeito, mesmo elas sendo mais velhas. Mas fui mimada, eu acho que nesse sentido, né? De ter tido a oportunidade de sair dessa cidade monstro, ainda bebê, e crescer no interior de São Paulo, que eu acho que é algo que vai marcar e vai conduzir boa parte.

do ser humano que eu me tornei e das aspirações profissionais que eu tive daí em diante. Em que interior que foi, Aline?

Não foi no interior, é muito interior não, tá? Eu cresci em Ribeirão Preto, né? Ah, interior. Na porção interior ali. É interior ainda. É interior. Pois pronto. Cresci em Ribeirão Preto. Na porção mais periférica da cidade, então eu sempre interagi com a natureza, né? Meus pais, o que dava pra fazer era comprar um terreno longe da cidade. Então parecia um sítio.

Meu pai plantava milho, meu pai plantava de tudo. E aí eu cresci sempre com ele mexendo muito na terra, né? Então tinha cara de interior. Ribeirão Preto é uma cidadona hoje, né? Mas eu cresci na Ribeirão com cara de interior. Que legal. E você ficou em Ribeirão até que idade, Aline?

Toda a minha infância, adolescência e início da vida adulta, tá? Tanto que hoje eu tô muito longe de Ribeirão. Eu tenho uma saudade, foi difícil de me desconectar. Eu posso contar parte dessa história, mas a desconexão foi um pouco difícil. Eu imagino, porque esse contato com a natureza, ele foi de certa forma orientador nas suas escolhas de vida mais pra frente?

Ah, mas sem dúvida. Então, pensando assim, o que me orientou, né? Se eu fosse responder essa pergunta de uma maneira mais direta. Não só o contato com a natureza, mas o próprio estilo de vida que os meus pais me ensinaram, né? Meu pai sempre gostou muito da natureza e de mexer com a terra, de mexer com plantas. Minha mãe também sempre gostou muito da natureza e sempre me estimulou a interagir com ela, a aprender sobre ela.

Então eu me lembro, tem os flashes da infância, eu brincando no terreno enquanto meu pai plantava as coisas. E Ribeirão Preto não é uma terra com fósseis, isso era muito deprimente porque eu gostava de dinossauro desde muito pequena. E é óbvio, como toda criança, eu ia para o quintal esperando encontrar um fóssil, fazer uma grande descoberta. Mas não tinha fósseis, mas Ribeirão Preto é uma área de rochas e solo vulcânico.

E tem muitos cristais. Então eu ia para o quintal com meu pai, enquanto ele escavava ali para fazer a horta, a plantaçãozinha dele, eu encontrava os cristalzinhos de quartzo e para mim aquilo eram tesouros super preciosos. Então não só mexer com a natureza no sentido da parte biológica, da vida, das plantas, mas também mexer com o solo, com a terra, aprender a olhar para o chão e encontrar coisas no solo.

E aí eu acabei desenvolvendo esse gosto associado a um outro gosto que surgiu com o consumo de mídias que estavam muito em alta na minha época, que era essa história de dinossauro, né? Então pensa, a Lini pequenininha, ela encarou, logo quando ela nasceu, o lançamento de um filme muito famoso que marcou a vida de muita gente, que é Em Busca do Vale Encantado, e traumatizou muita gente por Itabela.

E logo depois, com poucos anos de idade, a estreia de Jurassic Park, que marcou gerações. Sem dúvida. Então, naquele início da vida da Aline, eu consumi muita coisa sobre dinossauros. E desde cedo, eu acredito que as minhas memórias mais antigas já envolvam a Aline gostando de dinossauros. Alguns dos primeiros brinquedos que eu tenho recordação é o Dino e o Sauro. Muito criativo, né? Que eram dois brinquedos de camelô de dinossauros.

Que eu levava pra lá e pra cá, brincando ali no jardim de casa. E assistindo o filme repetidamente, como muita criança, né? Em busca do Vale Encantado. Eu não entendia muito bem ali o que acontecia. Se ele perdia a mãe. O que que acontecia. Então eu não fiquei tão traumatizado a princípio. Fui aprender mais velho o que acontecia, né? Mas aí veio o Jurassic Park. Que me ensinou, assim, o nome de quem é que estudava os dinossauros. Que era o que eu gostava muito.

E como é que os dinossauros eram buscados. Daí eu ia para o quintal tentar achar essas coisas escavando. E fazendo muita bagunça, muita sujeira e deixando a minha mãe louca. Então eu ia para o quintal descalça, voltava com o pé. Para quem conhece Ribeirão Preto, aquele solo vermelho, né? Voltava com o pé vermelho, encardido. Ela me botava sentada no tanque para esfregar meu pé. Aqueles esfregão de lavar roupa.

porque eu vivia imunda imunda de escavar, então acho que assim desde cedo tinha uma sementinha ali da paleontologia e eu costumo brincar com os meus estudantes quando eles me perguntam coisas parecidas, sabe que eu no fundo talvez nunca tenha crescido, porque eu ainda me sinto aquela mesma menininha você continua brincando das mesmas coisas que brincava quando era criancinha, é isso?

exatamente, às vezes é até difícil me perceber assim, opa tô com quase 40, como assim passou muito rápido e continua escavando aqui

Pois é, e continuo com essa paixão, continuo apaixonada e curiosa pelos dinossauros como nunca. Legal. Até a parte engraçada, né, que eu falei que a tal do Ribeirão Preto, ela não tinha fósseis, tinha só rochas vulcânicas. Acabou sendo o meu trauma de infância, porque eu olhava ali para o redor de Ribeirão, tinha Monte Alto, tinha Peirópolis no Triângulo Mineiro, que eram todas cidades super famosas por causa de dinossauros, mas, pô, a minha cidade não tinha dinossauro, que vacilo!

ou pelo menos não deixaram pistas

Pelo menos não deixaram pistas, mas depois, mais velha, aprendi que talvez muito mais interessante, aquelas taís rochas vulcânicas, elas eram da idade dos dinossauros e elas marcavam um pedaço da história muito legal deles. Que é quando ali a América do Sul e a África estavam se separando e aí, assim, vulcanismos colossais aconteceram nessa região do estado de São Paulo.

E acabaram cobrindo o território onde eles viviam. Então, no fundo, tinha a ver com dinossauro também, vai? É verdade, é verdade. Aline, quando é que você decidiu o que ia fazer, o que ia prestar no vestibular, por exemplo? Como é que foi essa decisão? Foi tranquila? Foi fácil? Você só foi descobrir o que você tinha que fazer para estudar dinossauros?

Vixe, eu acho que esse toca num momento muito delicado do processo traumatizante da vida de muitas pessoas. Vou ser sincera por um lado, eu acho que eu sempre soube o que eu quis fazer. Mas tinham dificuldades no caminho. Eu não era de uma família privilegiada, então eu não tinha a liberdade completa de escolha daquilo que eu podia fazer da minha vida, porque eu precisava ajudar a minha família nesse processo.

Mas eu tinha alguns privilégios, que é minhas irmãs mais velhas, que vieram antes de mim, e que se esforçaram muito naquelas carreiras tradicionais, para conseguir dinheiro para ajudar a família. Então, das três, eu acho que eu fui a que tive mais liberdade de escolha, porque elas já estavam ajudando a família financeiramente.

Mas nesse processo ainda tem um peso muito grande daquele ambiente onde a gente cresceu, escutando as dificuldades. Meu pai não terminou o estudo e ele teve que trabalhar com vendas. Então meu pai viajava trabalhando com vendas e quem tem...

pais que trabalham com isso, sabe que o dinheiro, a entrada financeira, ela não é regular. Então, às vezes tinha dinheiro para pagar aluguel, às vezes não tinha. Às vezes tinha dinheiro para pagar a escola particular, que a minha mãe quis que eu estudasse, porque ela percebeu que eu gostava muito de estudar desde pequena, ela insistiu que eu só ia conseguir estudar muito se eu tivesse uma escola particular, mas às vezes não entrava o dinheiro para pagar a escola.

Entendo. E aí, vinha a luta por conseguir bolsa, por sobreviver aos períodos quando me chamavam na porta da sala pra falar assim olha, seu pai não pagou a mensalidade, a gente vai chamar sua mãe pra te buscar. E eu ficava sentada na salinha esperando a minha mãe me buscar. Oh, meu Deus. Terrível, né? É. Isso traumatiza. Vixe! Ó, o olho enche de lágrima.

Mas eu já sabia, mas ao mesmo tempo tinha aquele peso da escolha, né? Eu tenho alguma liberdade de escolha, porque agora minha família já está recebendo ajuda das minhas irmãs, mas nem tanto. Então, ali me pesou um pouco de, poxa, eu quero estudar o mundo natural, quero ser paleontóloga, mas eu também preciso ajudar em casa.

Eu me lembro que no vestibular eu prestei coisas totalmente aleatórias, assim. Eu prestei engenharia da computação, arquitetura, que é a computação. Todo mundo que viveu nessa época, nos 80 e 90, alguém falou assim, vai na computação que isso aí tem futuro e vai dar dinheiro, né? Então, por causa disso... Isso é garantido.

É ser garantido, é o que a gente ouvia. Arquitetura, porque eu sempre gostei de natureza e de arte. Tem uma intersecção minha aí que talvez eu possa explorar mais pra te contar, né? Então, desde pequena, gostava muito de desenhar, representar a natureza e pintar. Comecei a pintar quadros com tinta óleo acrílica desde cedo, assim. Minha mãe estimulou muito porque ela gostava disso. Enfim. Que legal. E a arquitetura veio por conta disso. E aí veio o azarão.

Que eu coloquei lá que era o que eu queria, mas não podia falar pra minha mãe que eu queria. Que era ciências biológicas. Tá. E por que ciências biológicas e não paleontologia, já que eu tô falando de paleontologia o tempo todo aqui? Porque no Brasil a gente não tem um curso universitário de graduação em paleontologia.

E eu descobri isso com muita dor. Porque a gente não tinha... Tinha internet. Eu cresci muito com internet já. Fora do Brasil, você não precisa fazer biologia e se especializar em paleontologia. Dá pra ser paleontólogo de cara, assim.

Tem alguns países que dá sim. Então, por exemplo, a Argentina hoje já tem curso de paleontologia, o México tem curso de paleontologia e alguns outros países, não muitos, tem curso de paleontologia. O caminho geral é fazer ciências biológicas ou biologia ou geologia, porque a paleontologia é o casamento dessas duas ciências.

Então nada mais natural do que ou tu entra nela por um lado ou você entra nela pelo outro. E aí você tem que complementar a sua formação com aquele lado que você não escolheu. E já adiantando aqui, você entrou por ciências biológicas, mas o seu doutorado, por exemplo, foi em geologia, é isso?

exatamente, precisei correr atrás bicho, coisa que a gente não tem, né, por não ter um curso de graduação nesse tema aqui no Brasil, não existe essa formação completa, não existe lugar que forneça essa formação completa você prestou então, ciência biológica foi USP, é isso? o vestibular?

Não, eu prestei para Ciências Biológicas, eu tentei a Federal de São Carlos. Ah, Federal, lógico. Eu estava relativamente perto de casa. Foi. Na USP eu tentei arquitetura, tentei outras coisas, sabe? Ah, tá. Na USP você tinha colocado X em arquitetura. Ainda bem que você não foi para a USP. Quem sabe? Aí, que pena, né? Mas uma coisa que eu tinha em mente, assim, é que eu queria sair de casa.

Por quê? Dentro de casa eu tinha a sensação de que, por ser a caçula, eu nunca ia conseguir desenvolver o meu próprio eu. Eu sempre ia ficar ali na sombra dos meus pais, cuidando dos meus pais e girando num mundo em que eu não ia conseguir abrir minhas asas.

E eu sempre fui muito, assim, desbravadorinha do mundo. Fui muito... Enfrentei muito meus pais por muitas questões. E nessa época aí da adolescência, a gente chegou a ter muitos conflitos sobre pensamento político, sobre visão de mundo.

E aí eu tinha na cabeça que valia a pena essa experiência fora, porque minha irmã mais velha tinha ido para fora e ela era assim, uau, minha referência de vida. Ela tinha feito direito na São Francisco e em São Paulo. Então eu olhava para aquilo e falava, pô, minha irmã estudiosa, que coisa incrível, eu quero fazer igual ela, quero sair daqui, morar num apartamento e fazer a minha graduação. Tanto que arquitetura tinha em São Carlos, que era perto de Ribeirão. Ciências biológicas tinha em São Carlos, que era perto de Ribeirão.

E eu acho que engenheira da computação tinha na Unicamp, e eu não me lembro se era Bauru, não me lembro. Então, tudo que eu tinha colocado pra prestar era fora de casa, pro contragosto horrendo da minha mãe. Mas, ela, mais que meu pai, ela me apoiava, porque eu me lembro de pequenininha, minha irmã do meio, namorava um cara que fazia odontologia em São Carlos, na Federal de São Carlos.

E ela me levava, quando ela ia namorar ele, ela me levava pra ficar lá brincando. E eu olhava tudo aquilo e falava, gente, isso é um máximo. Olha esse campus, olha tudo isso aqui, isso parece um parque de diversão. Aí ele me levava no laboratório de química, eu olhava aquelas coisas, ficava encantada. Então, desde pequenininha, eu passava na frente de São Carlos com o carro do meu pai, eu falava, pai, o Fuscar! E aí ficou na cabeça. Então, minha mãe falava, poxa, nada mais... E aí

Casual do seu destino do que vir parar na UFSCar. E assim foi. Ciências biológicas não por opção direta, mas por indireta, querendo paleontologia. Mas me acostumei com a ideia. Estudar o mundo natural para mim parecia incrível de qualquer forma. A vida sempre me encantou muito. As formas de vida, como elas interagiam com o ambiente. Então lá fui eu. Com a minha bolsa, com a minha mala de rodinhas. Viver a biologia.

E aí você mudou de cidade. Você foi morar o quê? Numa república? Num apartamento? Como é que foi essa mudança de vida aí? Eu sou filha de pais muito conservadores. Então morar em república? De jeito nenhum. Eu, menina, a filha mais jovem? Impossível. Então meu pai fez muito esforço das tripas coração pra conseguir um mini apartamento pra eu conseguir morar em São Carlos.

E desse ponto eu fui muito privilegiada também, porque eu consegui ter a minha vidinha ali e aprender muitas das dificuldades de viver sozinha. De cuidar da minha casinha, de fazer comida para mim mesmo, coisas que eu ajudava na casa da minha mãe, mas sempre tinha a minha mãe e meu pai ali, os adultos senior premium, que me ensinavam quando tinha alguma dificuldade.

Então aí vem as primeiras trocas da resistência do chuveiro, cuidar da casa, se desse algum problema no encanamento ou qualquer equipamento. Virar adulta mesmo, assim. Virar adulta. E pra mim isso foi maravilhoso, foi uma das melhores experiências da minha vida, né? Viver a universidade e experienciar a vida adulta em São Carlos, que é uma cidade que eu costumo dizer assim, que é quase a terra do nunca, né? É uma cidade segura.

É uma cidade cheia de jovens. É uma cidade que respira o ambiente universitário. Então, eu estava assim, acho que num ambiente fértil e super ideal para esse início da vida. Tanto que eu tenho muitas boas recordações com muito carinho, apesar de todo o esforço e de me partir o coração ver o esforço que meus pais estavam fazendo para que eu fizesse ciências biológicas.

Que era uma carreira que ninguém botava fé, que eu ia conseguir um emprego depois. Então, assim, me comoveu muito mesmo. Apesar de ter ouvido altos sermões do meu pai sobre você devia ter feito medicina, olha a nota que você tirou que é incrível, por que você escolheu isso daí? Mas... Você tinha tirado nota suficiente para passar em medicina, é isso? Teria tirado nota suficiente para passar em medicina. Eu passei em tudo e ainda escolhi ciências biológicas. É, porque tinha que ser, tinha que ser, Aline.

Eu odiava a medicina. Só de pensar, assim, corpo humano, pessoas, não, pelo amor de Deus. Eu não conseguiria lidar com aquilo. Olha, você sabe que o Altair, ele prega uma... Ele tem uma tese que, pra mim, só se comprova a cada ano. Que é o pessoal que faz biologia, os biólogos e as biólogas são as melhores pessoas.

Essa é a tese do Altair. Entendeu? São os cientistas mais legais, mais colaborativos, assim, sabe? E ele fala assim, e eu não sou biólogo, eu tô te falando isso porque eu já trabalhei com muitos cientistas de muitas diferentes áreas, né?

e eu concordo é boa, a teoria dele é boa eu gosto da teoria dele e eu vou ser sincera que eu já cheguei a falar coisa muito parecida talvez tenha uma explicação pra isso que é desde cedo na carreira, a gente aprende a lidar com a percepção de que

É, vai ser muito difícil. A gente tá fazendo biologia por amor mesmo, todo mundo sabe. E acho que tem uma coisa de uma empatia por todas as formas de vida. Isso, é onde eu ia chegar. E você aprende a ter uma empatia extraordinária por todas as formas de vida, das mais simples, as mais complexas. Entende que a gente tá todo mundo no mesmo passo evolutivo, não existe...

aquilo que, entre aspas, é mais evoluído ou menos evoluído, que estamos todo mundo na mesma jornada, e isso te dá humildade. Tu ainda olha para a vida no passado, aí eu vou inserir a pitada da paleontologia, porque a biologia também olha para a vida do passado, vê quão profunda a história da vida, que a gente é só um pedacinho dessa história, e, cara, isso é uma lição de humildade tanto.

É verdade. Enquanto que a medicina, por outro lado, sem querer julgar, mas já julgando, a medicina, por outro lado, acaba tendo elementos que incentivam ele a se achar superior às outras vidas. Eu concordo. Não estou dizendo que todos os médicos fazem isso. Pelo contrário, eu acho até que tem profissionais hoje...

que eu conheci, inclusive, que são bastante críticos em relação às próprias condutas médicas. Eu acho que tem uma galera aí que está querendo fazer diferente. Mas, voltando aqui para a nossa conversa... Deus é cancelado. Deixa eu voltar.

Ô Aline, você fez um trabalho logo na graduação. Você se enfiou na iniciação científica, é isso? Como é que foi? Cara, a minha relação com a iniciação científica é interessante. Eu entrei na universidade e já queria mexer nas coisas. Mas eu entrei na universidade e olha o meu azar. Estava sem professor de paleontologia.

Ah, não, você tá brincando. Não tinha nada, não tinha. Tava sem a aula de paleontologia? Tava. Aí eu falei, tudo bem que a aula de paleontologia no meu curso era só no último ano. Mas eu já entrei falando assim, pô, quero o paleontólogo daqui, não tem. Pô, que vacilo. Aí eu comecei a entrar em vários laboratórios. Botânica, micropaleontologia, comecei a fazer várias coisas.

Aí no meu segundo ano estava eu lá. Eu nem sabia que existia isso. Trata de dinossauros menores. Perdão, meti paleontologia no meio. Não, perdão, eu acabei colocando paleontologia no meio. Microbiologia. Eu fui mexer com coleção de protozoário. Tá bom. Imagina. Mas aí tá. Aí chega no meu segundo ano de graduação, estou eu lá na famosa instituição Xerox da universidade, tirando lá minhas cópias do conteúdo que os professores estavam passando.

E eu, como sempre gostei de desenhar, eu desenhava as capas dos meus cadernos. Aí meu caderno era tudo cheio de dinossauro. Aí tava eu lá com meu caderno apoiado na bancada, aí chega um senhor e fala assim, nossa, você gosta de dinossauro, né? Falei assim, pô, eu gosto muito. Ele, oi, eu sou o novo professor de paleontologia. Eu falei, quê? Como assim?

Pare tudo. Aí ele é, eu tô montando, tô estruturando o laboratório, se você quiser passar lá pra conhecer. Eu falei, gente, como assim? Uau! Logo no segundo ano de universidade.

eu tive o privilégio de já começar a trabalhar lá no laboratório de paleontologia com o professor Marcelo Adorna Fernandes, que além de um excelente professor, tutor e mentor, foi um grande paizão acadêmico. Que legal. Porque me passou muitas experiências de vida, né, sobre o que é a carreira acadêmica. E ali, num ambiente seguro, em paz, eu tive todo o privilégio de conseguir, assim, me...

me desenvolver, né? De novo, em um ambiente de segurança, com fósseis incríveis. São Carlos, pra quem não conhece, é uma região com fósseis. Surpreendentemente, os fósseis de São Carlos são encontrados nas calçadas. É mesmo? Assim? Pra quem ficou chocado.

Para quem ficou chocado com isso, não é que eles aparecem nas calçadas, gente. As rochas que usam para fazer as calçadas ocorrem ali em pedreiras da região. E essas pedreiras da região, elas representam um antigo deserto que existiu, em toda a região sul-sudeste quase do Brasil, e é um deserto da Era dos Dinossauros.

E esse deserto da Era dos Dinossauros, os dinossauros caminhavam para lá e para cá e deixaram as suas pegadas nas areias. Essas areias, você lembra lá aquela rocha vulcânica que eu falei de Ribeirão? Sim. Foram cobertas por lava durante a abertura ali do Oceano Atlântico, do afastamento da América do Sul e da África. E essa lava cozinhou a areia desse deserto, ajudando a preservar as tais pegadas.

Ó, Ribeirão tá no meio, hein? E aí, essas rochas são extraídas da pedreira, usadas pra fazer as calçadas, e tu anda em São Carlos, no centro da cidade, onde você tá, e tem pegada de dinossauro, cara. Com o CEP, lá na rua, por exemplo, João Gomes, número 35, tem uma pista de um dinossauro terópode. Na Pizzaria Mitty, lá no centro da cidade, tem uma laje com pegadas de um mamífero da época dos dinossauros. Então, é um baita privilégio crescer num lugar desse.

E esse foi um dos meus primeiros trabalhos, ajudar o professor Marcelo a estudar essas pegadas, inclusive nas calçadas. Que barato, que barato isso. Aline, e aí, você se formou em quatro anos, lá em São Carlos.

E você, com esse trabalho, essa iniciação científica, foi o estopim para você já pensar em emendar a pós-graduação, logo depois da graduação?

Foi sim. Foi com certeza, mas tem uma parte que eu não tinha muita escolha se eu quisesse realmente ser paleontóloga, sabe? Eu aprendi com o professor Marcelo e outros paleontólogos que eu acabei conhecendo nesse processo, nos meus primeiros eventos científicos e tudo mais, que se eu quisesse ser uma boa paleontóloga, não bastava uma graduação em ciências biológicas, que eu precisava aprofundar meus conhecimentos também em áreas de geossciências e outros tópicos.

Então, a pós-graduação é um caminho natural para quase todo mundo que quer ser paleontólogo. A formação de um paleontólogo no Brasil é um processo lento, porque envolve, além da graduação, desenvolvimento de uma dissertação e uma tese na área, com a inclusão de disciplinas de tópicos, tanto de biociências quanto de geossciências, que permitem, então, a gente entender e traduzir essa história de ter vida,

preservada na rocha. Então, a rocha conta histórias do ambiente, o fóssil também fala sobre o ambiente, mas fala sobre o organismo que viveu naquele ambiente do passado. Então, se eu quiser estudar esse organismo, digamos assim, sobre a ótica da paleobiologia, ainda assim eu preciso interpretar a rocha, porque ela me fala sobre o ambiente onde esse organismo viveu.

E mesmo que eu queira estudar aspectos, paleontologicamente, mas aspectos mais do paleoambiente do passado do que o do animal, eu preciso do animal, porque ele também me dá pistas sobre como era esse ambiente, como eram as relações entre o meio físico e biológico que transformaram esse ambiente ao longo do tempo. Então, é inevitável, não dá para fugir. Entendi.

Já na graduação, eu fiz algum esforço para buscar, perto de São Carlos tinha um curso de Geologia que fica ali em Rio Claro, na Unesp de Rio Claro, e eu já busquei fazer ali algumas formações em disciplinas na área das Geossciências. Aí no mestrado, eu fiz uma transição lenta, tá? No mestrado eu preferi primeiro dar um passo para a Ecologia, que é a parte da Biologia que mexe mais com o meio físico do que o biológico.

Então, meu mestrado foi em ecologia e recursos naturais, para eu começar a entender essas relações de vida, ambiente, como um interfere no outro e como são as relações também entre os organismos. E eu gosto muito dessa escolha. Hoje eu olho e falo, pô, eu fiz o caminho sem querer. Eu fiz o caminho perfeito. Sem querer por quê? Porque eu fiz, não por uma escolha ativa, a pós-graduação, o mestrado em ecologia, mas porque minha família não tinha dinheiro para me mandar para o outro lado.

E as bolsas de mestrado, por mais que ajudem, não eram lá aquelas coisas. Então, eu tive que ficar por ali em São Carlos mesmo. Não tive escolha. E dentro do leque de oportunidades que tinha em São Carlos, eu escolhi ecologia pelo fato de ser algo que me ajudaria nessa intersecção com a Palio. Perfeito. Aí fiz ecologia. Não fiz com o tal do professor Marcelo.

Fiz com uma querida orientadora, que a princípio foi uma barriga de aluguel, mas me ajudou muito. Que ela, quem me coorientava era o professor Marcelo Compáleo, mas eu fiz minha pós-graduação com uma professora especialista em cavernas, cara. E aí eu queria estudar dinossauro, mas eu precisei enfiar caverna no meio.

E fui acabar, como eu vou contar daqui a pouco, mexendo com outro tipo de animal pré-histórico, que são os grandes mamíferos que o pessoal conhece como os mamíferos da Era do Gelo. Mas não teve Era do Gelo no Brasil? Aham, sim. Teve os grandes mamíferos da megafauna aqui do Pleistoceno. Fui trabalhar com eles. E aí, no final, o doutorado que foi em Geosciências, né?

O título do trabalho aqui foi Megafauna do Quaternário Tardil dos Depósitos Cársticos do Alto Vale do Ribeira, Sudeste do Estado de São Paulo. Aperta a tecla SAB. Aline, explica pra gente aqui. Isso, quero saber o que é a megafauna, o que é o Quaternário Tardil e o que são depósitos cársticos.

Basicamente de uma forma muito simples, eu fui estudar osso véio de bicho grande que viveu na, entre aspas, era do gelo, ali aproximadamente 11 mil anos atrás, em cavernas.

Então a gente tem uma região no sul do estado de São Paulo ali, conectando com o Paraná, que ela é riquíssima em cavernas e ela é famosa porque ela é turística também, que é a região do Petar, do Parque Estadual Turístico do Vale do Ribeira, onde fica a famosa, para quem é de São Paulo aí, a Caverna do Diabo. Mas não só o Petar, a gente tem um outro parque ali, que também tem cavernas, que é Intervales. E aí o que eu fui me meter a fazer?

Então, esses ossos dessa fauna gigante que existiu no período Pleistoceno, o que seria a era do gelo no Brasil, eles se preservam em alguns tipos de ambientes únicos pelo Brasil. Eles podem se preservar em cavernas, que são ambientes super estáveis, com temperatura estável, umidade regulada, o que ajuda a conservar esses fósseis. Eles podem se preservar em umas estruturas naturais, que a gente chama de tanques, ou são as famosas cacimbas, para quem é aqui no Nordeste.

Aqui no Nordeste é a forma majoritária na qual esses fósseis ocorrem, além das cavernas. E aí você pode ter o acúmulo desses materiais também em depósitos de rio e lagoa. Em São Paulo, a gente não tem muito depósito de rio e de lagoa e definitivamente não tem os tais depósitos de tanques ou cacimbas naturais, que são pequenas depressões do relevo que acumulam água em período de chuva. Então a gente não tem isso em São Paulo. Mas a gente tem cavernas, muitas cavernas.

E os fósseis desses mamíferos gigantes de pouco tempo atrás, 11 mil anos e antes de ontem, gente. Já tinha gente morando aqui na América do Sul, já tinha povos originários aqui convivendo com esses bichos gigantes. É isso que eu pensei quando você falou 11 mil anos. Eu falei, nossa, não é tão antigo assim quanto eu pensava.

E já tinha hominídeos, assim, é isso? Já havia primatas e... Amigo, já tinha pessoas, aldeias, pessoas conversando, pessoas cozinhando, tranquilo. Já existiam pessoas no modo de vida absolutamente similar às comunidades de hoje. E ainda existiam esses animais grandes?

conviveram com esses grandes animais, inclusive se alimentaram deles. Daí uma das hipóteses com as quais eu trabalhei durante a minha dissertação, que é...

imaginava-se assim, bom, esses grandes animais se extinguiram. Pelo mundo, a gente tem evidências da extinção deles, talvez por diferentes causas. Como caça humana, isso é muito forte na América do Norte, porque existem vários sítios que o pessoal chama em inglês de overkill, a teoria do overkill, de matanças desses grandes animais para servirem de alimento para essas populações do passado, esses povos originários que ocuparam esses territórios, ali entre 40 mil.

11 mil anos atrás. Aí você tem evidências, principalmente na África, da extinção de alguns desses grandes mamíferos por mudanças climáticas. Mas a gente ainda tem grandes mamíferos na África, então vários deles não se extinguiram.

Inclusive tem uma teoria de que eles não teriam se extinguido, porque como a humanidade está presente na África há muito tempo, eles teriam tido tempo para aprender a conviver entre si e logo continuariam existindo lá. Diferente na América do Norte que existia essa fauna gigante. Aí um dia...

O ser humano caminhou por toda a Ásia, cruzou lá o Estreito de Bering, né? Entre a Rússia e a América do Norte. Chegou lá na América do Norte, tinha um monte de bicho esquisito, diferente. E falou, pô, comida. E aí começou a matar. E os bichos, quem é esse macaco pelado, boy? Ele oferece risco ou não? Não tinha tempo de descobrir, porque já tinha virado bife.

Então, existem essas teorias diferentes e aqui na América do Sul, a gente não tinha muitos trabalhos discutindo essas possibilidades. Então, parte do meu trabalho com esses fósseis de megamamíferos aí do interior do estado de São Paulo, era observar se existiam evidências de interação entre esses seres humanos do passado e essa fauna. Até encontramos, já havia sido descrito, eu redescrevi, não descrevi nada novo.

nesse sentido, de algumas evidências de interação de povos originários com, talvez, carcaças, não necessariamente tendo matado o animal, mas tendo encontrado aqueles ossos e tentado modificar eles. Ou seja, algum tipo de interação. Mas nenhuma interação direta, por exemplo, de que eles eram parte do cardápio deles com frequência. O que me levou a uma interpretação para esse local diferente do que a gente tinha em outras localidades da América, como a América do Norte, que é...

Bom, eu não encontrei muito essas interações, mas tinha muito marcado para mim uma mudança, uma diminuição gradual dessa fauna de grandes mamíferos ao longo do tempo. E uma mudança também, que era possível detectar a partir do registro geológico, do estudo das rochas, do sedimento, uma mudança do ambiente progressivo. Então, de um ambiente que era mais um cerrado, uma paisagem aberta, ou mesmo uma fisionomia de Mata Atlântica, mas mais aberta.

para uma floresta que foi se adensando ao longo do tempo. Por quê? Porque quando a gente teve o estabelecimento lá na região norte da floresta amazônica, isso começou a criar os nossos famosos rios voadores, né? Então a floresta transpira, essa água vai para a atmosfera, forma nuvens, essas nuvens são empurradas ali para o sudeste, e esse é o ritmo que tem hoje, né? Chove muito no sudeste, e aí no sudeste, que tinha uma vegetação mais aberta, por chover mais...

criou-se uma vegetação mais densa, a Mata Atlântica, que a gente conhece hoje. É um corredor que existe, assim, é isso? É um corredor que existe. Da Amazônia pra cá, assim.

É, na verdade, assim, essas nuvens vêm nesses rios voadores, elas vão perdendo velocidade, vão perdendo umidade no caminho e elas vêm descarregar essas águas na região sudeste. E esse é um mecanismo que mantém o clima hoje na região sudeste. Então, se cortar a Amazônia, tu vai ter um impacto no regime de chuvas no sudeste. Ponto. E é por isso que quando tem fumaça lá na Amazônia, ela pode chegar até aqui? É isso?

Bingo! Exatamente. Por isso que os céus de São Paulo, alguns anos atrás, se escureceram e se avermelharam por causa dos incêndios na Amazônia. A gente tem uma conexão direta da Amazônia. O clima, o ambiente, a vegetação do sudeste depende muito da saúde da Amazônia. Se a gente mexer com aquilo lá, a gente vai voltar a ter condições mais secas, secas mais prolongadas localmente.

o que vai reduzir a vegetação. E se você for hardcore e arrancar a floresta inteira, tu vai voltar... Sabe aquele deserto da Era dos Dinossauros? É, a gente vai voltar a ter aquele deserto da Era dos Dinossauros. Que só existiu porque a gente não tinha a tal da floresta amazônica construindo rios voadores.

Então, minha conexão foi essa, entender que esses fósseis desses grandes mamíferos, tigres dentes de sabre, preguiças gigantes, mastodontes, que eram tipos de elefantes próprios aqui da América do Sul, que existiram no estado de São Paulo no passado, sumiram porque...

o clima, o regime de chuvas mudou e aos poucos o número deles foi diminuindo até que eles desapareceram e no ambiente de mata fechada, quem sobrevive? Os mamíferos de poete médio e pequeno. Porque a mata fechada ela desfavorece animais maiores.

Exato. E aí no meu registro, o que eu encontro? Lá no passado, a gente já tinha, há mais de 11 mil anos atrás, a gente tinha, além daqueles grandes mamíferos, animais que a gente já tem hoje, tipo a onça-pintada, tipo a onça-parda, a anta. Mas ficou só vivo a onça-pintada, a anta, a puma, e os nossos preguiças gigantes, dentes de sabre e mastodontos todos desapareceram.

Quando você fala de mega mamíferos na África que existem até hoje, a gente está falando, por exemplo, dos elefantes, dos rinocerontes. Elefantes, girafas. Exato, elefantes, girafas, rinocerontes, os grandes antílopes, guinusos, os grandes bovídeos. A gente tem ainda essa mega fauna lá. Esses são parentes ainda bem próximos, é isso? Dos dinossauros ainda.

Esses não. Estão bem longe dos dinossauros já. Eles só são grandes, né? Tem essa, às vezes, percepção de que tudo que é grande é dinossauro. Não necessariamente. Teve vários grupos de animais que foram grandes no passado. Dinossauros só são um deles. Inclusive, dinossauros hoje, eles são bem pequenos. Aliás, a galinha, né? A galinha, por exemplo, que não é grande. Vou no almoço hoje comer um belo dinossauro.

Tá certo. Aline, você fez esse mestrado em Ecologia, que você julgou que era importante complementar a sua formação naquele momento, e pelo jeito você estava certa.

Mas o mestrado, ele mudou alguma coisa na sua visão sobre a paleontologia e sobre a escolha que você tinha feito profissional?

Durante o mestrado, ainda, eu me apaixonei mais. Eu passei a gostar mais da paleontologia e eu aprendi a abrir minha cabeça para outros tópicos. Então eu deixei de ser aquela pessoa chata que só gostava de dinossauro e de falar de dinossauro e aprendi que a paleontologia era muito maior do que isso. E tinha muita coisa legal para fazer. Aprendi também que se eu quisesse ser paleontóloga, inevitavelmente no Brasil, eu precisaria ser professora universitária.

Porque para eu poder pesquisar em paleontologia, eu preciso me vincular a uma instituição, e a gente não tem instituições próprias que estudam paleontologia no Brasil, pelo menos não tínhamos, agora a gente tem, se você quiser depois eu falo sobre isso, mas o jeito era me filiar a uma universidade como professora, para eu poder ter o meu laboratório, fazer minhas pesquisas, fazer minhas coletas e tudo mais. Então eu sabia disso, e sabendo disso, para ser professora, eu não posso me especializar...

e saber falar sobre apenas um único tema. Era legal, eu havia esse meu leque de percepção do mundo. Então, para mim, foi uma experiência muito legal trabalhar com cavernas. Eu esqueci de falar que eu trabalhei com fósseis de cavernas, principalmente verticais, que são abismos. Então, foi uma aventura também, tá? Porque a gente precisava descer de corda para ver os fósseis e, muitas vezes, assim, passar perrengues terríveis para chegar até as cavernas. Mais de cinco horas andando no meio da mata.

toda molhada, suja de lama, com fóssil nas costas. Então, foi uma grande aventura que também me trouxe experiências de vida. Sim, sim. Como lidar, por exemplo, com o campo numa área que majoritariamente é masculina, então vou para campo majoritariamente com homens, como essa mulher no meio desse.

como é lidar com essas dificuldades, como é aprender a lidar com isso. Ainda bem que eu tive uma orientadora muito forte, que é a Maria Elina Bichuete, a minha orientadora principal, que trabalhava com cavernas, trabalha com cavernas até hoje, com fauna atual de caverna, e ela me ensinou como ser uma mulher forte, como é ser uma mulher no meio acadêmico. Então eu tive a sorte de, ao longo de toda a minha formação, sempre teve lá presente o meu pai acadêmico Marcelo como meu co-orientador, mas minhas orientadoras foram todas mulheres.

E isso me ensinou muito sobre as disparidades de gênero na ciência, como lidar com elas, essas dificuldades e tudo mais. O mestrado ainda me apaixonou mais pela paleontologia, me amadureceu por outro lado, trouxe experiências novas, e aí eu estava preparadíssima para o doutorado. Vamos então para o doutorado, que você também emendou. A diferença é que dessa vez você sai...

De São Paulo, do estado de São Paulo. É isso? Vou pra minha próxima aventura de vida. É isso mesmo. Resolvi ir pro Rio de Janeiro. É a pior decisão da minha vida inteira. Como assim? Minha nossa, pra uma paulista do interior, como é difícil, cara. Imagina, uma menina do interior, sempre viveu no interior. Tinha aquele sotaque de porta verde. E aí, pro Rio de Janeiro... Ali vieram várias outras dificuldades. Primeiro, por que eu decidi ir pro Rio de Janeiro?

Me lembro de ter uma conversa muito séria com meu pai acadêmico dizendo, depois da minha defesa de mestrado, que foi, poxa, pra mim surpreendentemente muito boa, aprovada com distinção e louvor, meu trabalho tinha sido muito bom, eu nem acreditava nisso. Meu orientador me chamou e resolveu ter uma conversa séria. E falou assim, poxa Lini, você é muito boa no que você faz, você pode ter um futuro brilhante na paleontologia.

Mas você precisa ter experiências fora, porque senão a sua percepção de mundo vai ficar muito viciada aqui em São Carlos, nesse pequeno universo que você vive. Você precisa conhecer o mundo, Aline, e ir pra fora. E aquilo ficou na minha cabeça. E logo que eu terminei o mestrado, eu não fiz direto, direto, eu me recolhi por seis meses.

E nesses seis meses, eu fiquei pensando assim, cara, como é que eu vou fazer? Eu vou ir para fora. Isso implica num gasto financeiro. Mesmo se eu tiver bolsa. Bolsa é baixa. Eu não consigo me manter fora. E meus pais não podem me ajudar. O que eu faço?

E aí foi eu começar a pesquisar o que eu podia fazer. Mandei um monte de e-mail e carta para fora do Brasil, pedindo assim, olha, eu sou a Aline, esse é o meu currículo, se você tem algum projeto para me orientar. E cara, tive uma surpresa incrível. Assim, poucos dias depois eu enviasse essas mensagens e recebi um e-mail de um dos caras da paleontologia que eu achava assim, no máximo, que era um dos ídolos assim na carreira.

que é o professor Benton, lá da Inglaterra, que além de ser um comunicador científico excelente, ele publicava trabalhos excelentes, principalmente nessa área da paleoecologia, da percepção da macroevolução, da evolução dos organismos ao longo do tempo geológico. E ele escreveu, poxa Lini, estou super impressionada com o seu trabalho, com o seu currículo, e para mim seria um prazer te receber aqui.

Mas tem um problema, né? Eu tô com um tema de estudo muito legal, que é sobre a maior extinção de todos os tempos e como ela impactou a vida. Mas eu não tenho um financiamento próprio pra ela. Você teria que vir com financiamento aí do seu país. Mas você é bem-vinda, só que, assim, começa daqui três meses. Então você teria que vir imediatamente com o sino ou não bolso.

E aí começou a minha saga, né? Correr para tentar descobrir como é que eu conseguia uma bolsa pelo Brasil para ir estudar lá. Esse também foi um período da minha vida que eu estava me ajustando com o meu atual companheiro, que é o Tito.

E aí surgem outras dificuldades que é pensar a vida em conjunto. Quando a gente pensa a vida em conjunto, a gente não pode tomar decisões egoístas, né? A gente tem que pensar assim no companheiro também. E aí surgiram alguns conflitos, né? Como é que vai ser eu ir pra fora e você, Tito, o que vai fazer? Ele estava terminando a graduação dele em Geologia na UNB, em Brasília.

E ele não poderia me acompanhar. O que eu faço? Bolsa do CNPq não vai sair em três meses. É difícil. Mãe, pai, vocês conseguem me sustentar lá nesse período? Filha, que oportunidade incrível, mas papai e mamãe não conseguem. Pô, o que eu faço da minha vida? E aí fui buscar o meu mentor, meu grande mentor, professor Marcelo. Ele falou, pô, que baita oportunidade, mas tá difícil a sua situação, né, Aline? Você tem...

Outras oportunidades que talvez você possa aproveitar. Então, talvez não ir para fora do Brasil, que é muito caro e você não consegue. Viver em libras era muito caro mesmo. Que tal você ir para a capital da paleontologia no Brasil, que é o Rio de Janeiro? Onde nasceu a paleontologia brasileira, onde a gente tem o Museu Nacional, onde a gente tem grandes instituições renomadas que marcam o início da história da paleontologia. Tem ótimos profissionais lá e você pode tentar.

E aí eu olhei o nome de um cara que tinha escrito um livro de paleontologia no Brasil e falei assim, pô, esse cara aqui eu estudei paleontologia a vida inteira, por ele eu vou tentar ser orientada dele. E assim fui parar no Rio de Janeiro, lá no Fundão, na ilha do Fundão, na UFRJ, para fazer o meu doutorado. Consegui convencer o Tito também, que fazia geologia, a mudar lá da UNB, para tentar mudar lá para o Rio de Janeiro comigo, que tinha curso de geologia, e assim eu conciliei a vida pessoal e profissional. Meio triste...

Porque eu perdi uma baita oportunidade, que era ir pra fora estudar com um ídolo, que é o professor Ebenton. Mas, às vezes, nem todo mundo tem todos os privilégios à mão na vida. Eu fiz o que dava pra fazer e fui pro Rio de Janeiro sofrer. Morar na base do morro, porque era onde eu conseguia pagar. Sofrer o bullying lá dos carioca.

E aprender que a vida acadêmica não é só flores. Na verdade, também é muitos dissabores. Ali aprendi a sofrer pra caramba com pessoas que eram de fora do meu núcleo, que tinham uma percepção diferente da que eu tinha sobre ciência. E eu sempre fui muito, vou dizer uma palavra aqui, opiniosa. E muito, e defendia muito as minhas opiniões.

Isso me criou dificuldades. Eu conheço essa palavra porque é como o meu sogro define a minha filha.

Ela diz, a minha netinha é muito opiniosa. Pois é, eu sempre tive convicções da vida e do mundo e uma percepção de um senso de justiça que é muito difícil quebrar. E aí quando vem pessoas e tentam quebrar esse senso de justiça, eu não consigo não bater de frente, eu não consigo baixar a cabeça e fingir que está tudo bem, sabe?

Então, por exemplo, se alguém vem e me diz, vou dar um exemplo simples, e me diz assim, não, você não pode ir para o campo porque você é mulher. Ah, acabou, viu, bicho? Porque eu vou brigar até o final. Vou dar um exemplo que, para quem me conhece, sabe da história. Ah, esse fóssil não pode voltar para o Brasil, porque aí no Brasil ele corre risco. Ah, meu amigo, não diz isso para mim, não. Que a gente vai lutar até o fim.

Então eu sempre fui muito opiniosa nesse sentido e se qualquer tipo de instrução ou etc que quebrasse meu senso de justiça, do que é certo, do que é errado, do que é ético, do que não é, isso me quebrava e me tirava do meu centro de conforto. E foi no Rio de Janeiro também que eu experimentei, por mais que eu achasse que tivesse preparado, eu não estava.

O que eram verdadeiras situações de assédio dentro do ambiente acadêmico. E todo tipo de assédio. Moral e sexual. E ali, eu acho que o ser humano ali me quebrou. E eu só consegui continuar na paleontologia a muito custo. Muita terapia, porque eu tinha pessoas que eu amo em volta. Porque eu teria desistido. É mesmo. Então foi um processo extremamente doloroso e difícil. Eu só consegui terminar meu doutorado.

trocando de orientação para a orientadora que me acolheu, a professora Lílian, e sobreviver indo embora do Rio. Eu não terminei meu doutorado morando no Rio. No meio do doutorado eu resolvi sair de lá, porque eu não tinha condição de viver. Eu vivia sob ameaça da minha vida ali, com professor da universidade que me perseguia.

E me perseguia, assim, me perseguia dentro da rodoviária, me ligava, me escrevia e-mail, ameaçando e coisas, assim, terríveis. Então, eu não conseguia ir estudar, não conseguia fazer meu trabalho na universidade. Eu me lembro de chegar, assim, às vezes...

cinco e meia, seis horas da manhã, entrar correndo, o segurança sabia que eu entrava correndo, e me trancar na sala pra poder estudar em paz, e ficar assim, em silêncio, olhando pro trinco da porta da sala, se ia acontecer alguma coisa, pra eu tomar uma providência. Como assim? Como assim? Eu morria de medo. Eu me lembro de me esconder, pois é, várias vezes, de ver a pessoa, que era alvo ali dos assédios que eu tava sofrendo, sair correndo, entrar na secretaria de pós, e me esconder embaixo do balcão, e a secretária ficar assim pra mim, ó.

Mas ao mesmo tempo, de ouvir coisas como, Aline, não faz nada porque isso vai destruir a tua carreira, vai destruir a carreira dele. Aline, não faz nada, vai ser pior pra você. Aline, fica quieta, deixa isso passar. E aí pra mim isso é uma quebra muito grande da minha percepção que eu tenho de mundo. Me lembro de ir na polícia com meu esposo e a polícia ri do meu esposo falando, Ei, por que tu não toma providência?

Como assim? Caramba. Que doideira. Então eu resolvi ir embora. Resolvi pegar eu e o Tito, a Malinha. Aí o Tito conseguiu transferência do curso de Geologia pra Recife. E aí eu acho que foi uma das decisões mais bonitas e legais que eu fiz na minha vida. Que é vir pro Nordeste. Que eu já era apaixonada por. Já tinha feito campus no Nordeste.

Tem textos meus no meu blog falando como eu era apaixonada pelo Nordeste, meu coração morava ali. E aí eu fui para o Nordeste, no meio do doutorado, vivei em Recife com o Tito e terminei meu doutorado à distância. Na verdade, assim, eu estava convicta que eu não ia terminar, que eu ia abandonar tudo porque aquilo me causava uma dor absoluta, tremenda, e me não dava vontade de viver. Isso que eu ia te perguntar, você chegou, então, a pensar em desistir?

Com toda certeza. Então teve meses que eu não mexi em nada na minha tese. E eu ficava pensando, cara, o que eu vou fazer? Eu estou ganhando dinheiro da bolsa, mas eu não consigo mexer nisso. Quando eu encosto me causa uma dor tão profunda que eu não sei o que fazer. O que eu faço? Mas ao mesmo tempo eu continuava gostando de paleontologia, tá? Porque eu continuava escrevendo sobre paleontologia no meu blog.

Continuava falando sobre paleontologia na internet. Continuava fazendo estudos de paleontologia. Porque o Tito continuava fazendo trabalho de paleontologia. Eu fazia com ele. Eu só não conseguia mexer na minha tese. Naquele tema. Porque ele me machucava. Me trazia a dor, a lembrança de tudo que tinha passado no Rio. Sei.

E eu pensei em desistir da carreira acadêmica, não da paleontologia, mas desistir da carreira acadêmica por causa dessas dificuldades, porque eu não via, assim, eu via que o meu círculo estava fechado, aquela pessoa era uma pessoa grande na paleontologia, estava em todos os eventos. Como é que eu ia conseguir sobreviver com esse cara? Ele ia o quê? Revisar meus projetos? Não aceitar os meus artigos? Impedir meus financiamentos?

Como é que eu ia conseguir viver na paleontologia? Isso me causava uma dor profunda e uma vergonha por estar desistindo, porque eu nunca fui uma pessoa de desistir fácil. Mas hoje você consegue falar sobre esse trabalho? Porque eu queria te fazer perguntas sobre ele.

consigo, eu gosto muito dele, eu não consegui assim, cruzar uma única barreira, que foi pegar o que eu produzi e publicar na forma de artigo científico, mas eu olho pro meu trabalho e falo que baita trabalho e que resultado incrível que eu tive, eu tenho muito orgulho por ter conseguido terminar, então em algum momento ali

Virou uma chave, que foi uma ligação do meu paizão acadêmico, o professor Marcelo, que falou assim, Pauline, tu é brilhante, não faz isso, cara. Você já foi muito longe pra querer desistir agora, não faz isso. Isso me botou pra sentar, assim, tipo, umas duas semanas. E eu falei, cara, eu não quero decepcionar uma das pessoas que foi mais importante na minha vida. Pô, que bosta!

eu sentei na cadeira e só saí quando o trabalho tava pronto, foi muito difícil terminé assim no último segundo, com uma prorrogação mas consegui defender defendi comecei a defesa chorando, mas terminei muito feliz, porque eu olhava pro que eu tinha feito apesar de não ser perfeito

foi o melhor que eu consegui fazer e foi um excelente trabalho. Eu agradeço a professora Lilian pelo acolhimento, professor Marcelo pelo incentivo. O trabalho foi Diversificação Morfológica de Crocodiliformes Terrestres da Bacia Bauru, Implicações Paleoecológicas e Evolutivas.

Bom, aqui ficou um pouco mais fácil, tá? Porque eu sei o que é morfologia, porque eu imagino que crocodiliformes sejam... Crocodiliformes? Sim. Onde fica a bacia bauru? Onde fica a bacia bauru?

A Bacia Bauru é um conjunto de rochas que cobre uma boa parte do estado de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Paraná. São rochas do período Cretáceo, que é o último período da Era Mesozoica. E as rochas da Bacia Bauru datam entre 80...

90 milhões de anos da Amarapite, mas também algumas um pouco mais novas, de 70 a 60 milhões de anos. Então elas contam um pedaço final da história dos dinossauros. E no Brasil, surpreendentemente, eu costumo brincar que a gente tinha não uma terra de dinossauros, mas uma terra de crocodilos. Porque os dinossauros estavam lá.

Grande diversidade de espécies, mas muito maior em número de espécies, a gente tinha um grupo de crocodilos excepcional, que eram crocodilos terrestres. Hoje a gente tem aquela imagem fixa do crocodilo como um bicho que vive na água, que pode caminhar na terra, mas que vive na água, né? Sim. Isso é relativamente recente na história evolutiva deles.

Durante o Cretáceo Brasileiro, a gente teve um grupo que foi hiperabundante, que eram crocodilos que eram completamente terrestres. Caçavam em ambientes terrestres, se alimentavam em ambientes terrestres. Alguns eram herbívoros, completamente herbívoros, o que é surpreendente. Olha! A gente só pensa nisso como carnívoros, né? Sim. Alguns eram herbívoros, outros escavavam. Enfim, eles inventaram de tudo, viu? Eu brinco assim que só faltou voar, porque o resto todo eles fizeram.

E aí a ideia do doutorado foi estudar justamente essa diversidade. Então o que eu quis fazer? Eu usei esse grande número de espécies que a gente tinha nessa bacia sedimentar brasileira, comparei ela com de outras unidades do mundo.

Tive uma amostragem, então, no tempo sobre essas espécies e de número de espécies. E aí eu quis entender como é que a aparência deles mudou ao longo do tempo. E aí o que eu percebi como é o trabalho? Que ao longo do Cretáceo, a gente teve momentos diferentes de diversificação desse grupo, que eles especiaram, que eles se diversificaram, novas espécies surgiram.

e que eles passaram a ocupar novos espaços moefológicos. Então, exemplo, eles começam como animais ali, esse grupo de crocodiliformes principal que eu trabalhei foram os notossúquios, eles começam principalmente como animais terrestres carnívoros. De repente, eles se diversificam como animais herbívoros de pequeno porte.

Aí eles se diversificam por carnívoros de grande porte, inclusive alguns que imitam muito a forma do crânio de dinossauros carnívoros.

E assim eles vão conquistando os espaços ecológicos. Então eu mexi muito com isso, essa conquista desses espaços ecológicos e como é que ela aconteceu. Então eu queria entender, por exemplo, uma das perguntas do doutorado é se esses crocodilos evoluíram como competidores dos dinossauros ou se eles não competiram diretamente com os dinossauros, eles encontraram nichos vagos e foram se diversificando.

E aí, um dos resultados da minha tese é que o grupo, pelo menos aqui nos continentes do Sul, América do Sul e Gondwana, eles começaram a se diversificar sem competição. Então, eles começaram a ocupar vários espaços ecológicos sem competir com outros animais. Mas, em algum momento, eles se tornaram tão diversos que alguma competição começou a existir. E aí, eles começaram a, dentro daqueles novos espaços que eles já haviam conquistado,

a se diversificar um pouquinho, cada vez um pouquinho mais, o que demonstra uma competição ecológica. E eu consegui demonstrar isso quantitativamente. Por isso, para mim, foi um trabalho belíssimo, porque ele mostra não só a evolução da linhagem, mas como ecologicamente eles conquistaram esse ambiente, se diversificaram em um mundo que era dominado por dinossauros. Então, para mim, foi um trabalho muito legal.

Muito legal mesmo. E olha que eu nem sou biólogo. Aliás, me veio uma curiosidade. Você falou que é recente, então, essa adaptação de crocodilos e jacarés, imagino, também, para o ambiente da água. Qual a melhor hipótese de por que eles fizeram isso? Foi isso para se proteger?

Uma das hipóteses, né, e que eu acho que assim, a hipótese vigente hoje é que, cara, no ambiente terrestre, tu tá com, no final do Cretáceo, o dinossauro tava bombando ainda, né? Ele só se extinguindo por causa do meteoro mesmo. Não tava numa crise ecológica. Por isso eu imaginei que ele foi pra água pra dar uma escondida. Pra fugir, bicho, pra fugir da competição. E porque ele tinha ficado um nicho vago, né? Uma coisa assim que a gente tem forte na história dos dinossauros. Nicho vago, você falou bastante sobre nicho vago, né? É um conceito isso? Sim.

Esse é um conceito. Eu vou tentar reconstruir de uma forma simples essa ideia, tá? Então, quando a gente olha para a natureza, a gente tem animais que estão lá executando as suas tarefazinhas. Então, tem animal que é herbívoro, tem animal que é carnívoro, tem animal que voa, tem animal que se enterra.

Quando a gente combina os hábitos de vida desses animais, a gente tem o nicho deles. Então, os que voam e são carnívoros. Os que escavam e são herbívoros. Os que são muito rápidos, velozes e consomem carne. Os que são muito rápidos e velozes, mas consomem plantas. Essas caixinhas, essas funções ecológicas, é o que a gente chama de nicho na ecologia.

Então, quando você fala nicho vago, significa que existe um espaço ecológico que ninguém ocupou. Por exemplo, de predador voador. Então, aqui nessa área não tem nenhum animal que voa que está predando os outros. Então, se eu adaptar ativamente...

selecionar características que me permitam voar e consumir outros animais nessa região, cara, eu vou dominar essa área, eu vou ocupar esse nicho. Então, daí a história dos crocodilos, eles terem ocupado rapidamente nichos que estavam vagos, logo após uma extinção...

no final do período Triásco, que é o início da história dos dinossauros. Então eles ocupam vários nichos vagos ali, mas aí vem os dinossauros e começam a se diversificar muito, cara. E aí começam a gerar competição para esses nossos crocodilos parentes, extintos dos crocodilos.

E aí essa diversificação, essa ocupação de nichos para os crocodilos, ela começa a não ser mais tão assim, eles não dão saltos tão grandes. Eles começam a dar saltos menores. O que indica o quê? Que existe alguma competição que está impedindo eles de conquistarem um nicho totalmente novo. Então, beleza, eu começo com crocs, essencialmente carnívoros. Rapidamente, na história evolutiva dele, eu já tenho o aparecimento de framas herbívoros, o que é surpreendente. Mas aí...

Soma-se a diversificação dos dinossauros, que são herbívoros. O que acontece com os crocs e herbívoros? Eles especiam, eles diversificam em número de espécies, mas não mudam muito a sua forma de vida. Mas você tem muito mais espécies. Só que ali, são todas muito parecidas.

Deixa eu aproveitar que eu estou com uma doutora aqui em crocodilos e fazer a seguinte questão. Eu sempre tive uma... Ficou na minha memória, lá do primário, eu preciso refazer o segundo grau, que é o grande conselho do Altair, de vida. Ele fala assim, refaça o segundo grau depois de adulto, que você vai ver como o segundo grau é bem mais legal.

e útil mas uma coisa que eu guardei que eu não sei se é correta eu queria que você me confirmasse ou não o Brasil hoje tem jacarés mas não tem crocodilos isso é verdade? o Brasil acabou se tornando um lugar que tem jacarés mas não crocodilos, crocodilos a gente encontra na verdade mais fácil em outros continentes

É isso mesmo. Então, dentro desse grupo, que a gente chama de crocodiliformes, um ramo dessa grande árvore é o grupo chamado crocodília, que é o grupo que inclui os efetivamente crocodilos, os jacarés, os caimãs e outras formas.

Dentro dessas formas que a gente conhece, os crocodilos mesmo, eles não existem mais por aqui. Já existiram no passado, mas não existem mais por aqui. A gente ficou só com os nossos chamados jacarés e caimãs. E esses crocodilos ficaram confinados ali para a América Central, América do Norte e outras regiões. Mas a gente teve um passado... Austrália também é bastante famosa por crocodilos. Exato.

Mas se você gosta desse tema, tem uma curiosidade que talvez te surpreenda, é que o Brasil pré-histórico, não só na Era dos Dinossauros, mas num passado um pouco mais recente, de poucos milhões de anos atrás, ele foi um hub, um polo de grande diversidade desses crocodilhas, esse grupo mais recente. Principalmente ali na região onde hoje é um Acre, que existiu um Pantanal gigantesco, repleto de crocodilos gigantes. Uau!

A gente teve jacarés pré-históricos, parentes dos caimãs atuais, que viveram naquela região que tinham 13 ou 15 metros de comprimento, ou seja, chegavam a ser maiores do que um tiranossauro rex, cara. E tinham uma força de mordida que é a maior força de mordida conhecida entre todos os animais de quatro patas que já existiram na história do planeta.

Então o Brasil, em termos paleontológicos, é muito importante para a gente entender a história da evolução desse grupo dos crocodilos. Eu fiquei curioso, inclusive, enquanto você estava falando, de saber se já existem animações que tentam simular como era a época dos crocodilos no Brasil.

Porque a gente vê muito, né? Eu acho que não. A gente vê muito, né? Como que era na Ásia, na África, América do Norte. Eu acho que geralmente são essas regiões que produzem esses documentários. Mas a gente ainda não sabe, né? Como era o Brasil na época dos dinossauros. Alguma animação que... Na época dos crocodilos.

A época dos crocodilos, exatamente. Pois é. Aline, você... O que foi o aprendizado mais bacana dessa tese no doutorado aí?

Cara, eu vou puxar não para a ciência nesse sentido, eu vou puxar para a vida, que foi ser resiliente, que em momentos de crise acontecem, mas eles não são assim... Muitas vezes eu olhava e falava assim, isso não tem mais jeito, não tem saída, acabou.

Mas pra tudo tem um jeito, só não tem jeito pra morte, que é o que eu lidava todos os dias com o meu fóssil. Aquele bicho morreu, se extinguiu, isso aí não tem jeito, isso não vai mudar. Mas pra qualquer outra situação a gente consegue dar um jeito. Principalmente se a gente contar com o apoio de pessoas que estão ali sempre acompanhando a nossa jornada.

Então, mesmo no momento mais difícil da minha vida, eu não perdi o encanto pela ciência, nunca perdi. Teve um momento que eu perdi o encanto por esse trabalho específico, porque me gerava dor, né? Certo. Mas nunca perdi o encanto pela ciência. E aprendi a ser mais forte. Eu acho que isso me deu uma casca grossa, que foi o que me permitiu resistir até hoje e chegar onde eu cheguei. Certo. Então, assim, ter que encarar o monstro no olho.

E ter que encarar até hoje o monstro no olho em congresso e onde quer que eu vá. E, poxa, ao mesmo tempo servir de inspiração para outras meninas que a gente pode chegar ali, apesar dos pesares. Então, essa eu acho que foi a maior lição minha no doutorado.

É, que duro isso. Eu lamento muito pelo que você passou e espero que a justiça se faça de maneira invisível, incontrolável para essa pessoa. Ah, sabe? Eu acho que a justiça já está sendo feita quando...

quando eu mostro que eu resisti, que eu tô aqui, né? Eu acho que isso deve ser doloroso pra essas pessoas. Sim. E ao mesmo tempo, a justiça está sendo feita quando eu tô agora, né?

coordenando o meu laboratório. Meu laboratório é feito majoritariamente por mulheres, formando mulheres. Sensacional. Muitas mulheres que vão ocupar esses espaços, que vão ser orientadoras, que vão construir espaços seguros para os seus orientandos. Isso tudo que aconteceu no doutorado me mostrou o que eu não queria ser. Então eu me tornei uma professora melhor e eu acho que uma orientadora melhor. Eu não sou perfeita, longe de ser perfeita.

Isso aí não existe, isso é utópico. Aprendo todos os dias, batendo a cabeça, mas...

Mas eu acho que eu sou melhor do que essas pessoas foram comigo. Porque eu aprendi como não fazer. Então elas me ensinaram. Ah, disso eu não tenho dúvida. Então elas me ensinaram muito. E eu sou, de certa forma, grata. E curioso que, assim, que você é a segunda paleontóloga que a gente entrevista aqui no Naro Rodô. Yay! Foi! A primeira.

A primeira foi a B, que também é uma pessoa super forte, super que se posiciona. Com certeza. E muito legal ver duas paleontólogas. Tanto que a gente é super conectada. Então, muito legal ver duas paleontólogas, assim, sabe, encabeçando a paleontologia brasileira também. Acho isso sensacional. Ô Aline, é...

Logo depois do doutorado, você emenda com o pós-doutorado, é isso? Você volta para a UFSCar. E eu quero que você me conte um pouco sobre esse pós-doutorado, o que foi ele e o que você vem fazendo desde então. Porque você...

É uma divulgadora científica também, você produz conteúdo também, então eu quero que você fale um pouco também dessa faceta da Aline. Fechou. Então vamos lá. Não, eu não vou direto para o pós-doutorado, o que eu faço é, eu passo logo depois de me pegar o diploma no doutorado, eu passo em um concurso para professora substituta na Universidade Federal de Pernambuco.

E ali eu acho que eu tenho a experiência mais fantástica de docência, na qual eu aprendi muito com meus estudantes, porque eu peguei greve como professora substituta, greve de dissente. Eu peguei greve de dissente, participei das barricadas junto com eles, eles me ajudavam porque eu, como professora substituta, tinha um prazo definido ali, né? Se a gente não acabasse o tema, eles iam ficar sem professor novo, enfim. E...

desenvolvi muitas amizades com os meus estudantes, foi um ambiente muito acolhedor nessa perspectiva. Eu trabalhei na UFPE não de Recife, num campus da UFPE do interior, o campus de Vitória do Santantão. Então, um campo com muitas dificuldades do que é ser um campus de interior no Nordeste, numa região com baixo IDH.

e me percebi que eu tava no lugar certo pra ser docente, porque era um lugar que eu realmente conseguia fazer a diferença eu vim de São Paulo, São Paulo tem sei lá, às vezes você tropeça em paleontólogo em São Paulo, tem muito paleontólogo por metro quadrado, e no Nordeste a gente é mais raro

E, ao mesmo tempo, existem outras dificuldades e realidades socioeconômicas que quem vive no Sudeste nem sonha que isso existe. E para um docente, para um professor, lidar com isso é um grande desafio, porque a gente precisa se desdobrar por questões que não são só as pedagógicas.

Então isso foi muito, muito, muito desafiador, mas muito importante para mim. E aí, depois de cumprir ali um ano e meio como docente substituta, surgiu a oportunidade de pós-doutorado em São Carlos. E eu olhei e falei, poxa, dá tempo de matar a saudade.

E decidi, eu e o Tito, voltar para São Carlos por um tempo. E ali eu fiquei supervisionada pelo meu paisão acadêmico, Marcelo Adorna Fernandes, de novo. Certo. Fui realizar um sonho antigo que finalmente eu consegui fazer, que foi eu sempre quis ter seguido no estudo de dinossauros.

E aí, ei, eu voltei para os dinossauros. Então, depois de passear pela minha fauna, passear pelos crocodilos, voltei para trabalhar com os meus dinossauros e, sendo o Marcelo especialista em pegadas, mergulhei nesse universo incrível que são os fósseis que nem todo mundo sabe que é fóssil.

Todo mundo imagina o esqueleto, né? Mas pegadas, marcas de mordida e outras evidências indiretas da existência de seres do passado, né? Então, eu foquei meu estudo na região de Souza, na Paraíba, que talvez algumas pessoas conheçam. Ela é relativamente famosa, né? Pela ocorrência de pegadas de dinossauro.

É a capital, digamos assim, dos dinossauros do Nordeste Brasileiro. Quem não conhece, passe a conhecer, porque é incrível. Quem não visitou, visite, porque é maravilhoso. E lá você tem pegadas do início do período Cretáceo, pegadas relativamente antigas no contexto brasileiro. E me debrucei sobre isso, tentando entender esse registro. Durante o meu pós-doutorado, me deparei com uma dificuldade nova, que foi...

Eu fui lá para estudar os fósseis e os fósseis estavam desaparecendo sobre ameaça antrópica, ou seja, da ação do homem, ameaças humanas e ameaças do tempo mesmo, do clima. Mas nessa época, então, você ficava entre São Carlos e Paraíba, é isso?

continuava. Amigo, eu ia abandonar o Nordeste? Não, de jeito nenhum. Então tinha minha casa, eu mal vi minha casa em São Carlos, eu vivia no campo, fazia temporadas extensas em Souza. E você falou um ponto importante, que é o meu envolvimento com comunicação científica, que ficou pouco explorada no nosso bate-papo, mas ela existiu desde cedo, desde a graduação. Eu trabalhei com comunicação, criei meu blog lá ainda no final da graduação, início do mestrado.

Da onde veio esse seu ímpeto de fazer comunicação científica? Cara, eu sempre gostei de falar, acho que deu pra perceber. Então, foi só uma forma de se expressar e de extravasar? Você tinha algum outro objetivo com isso?

Foi inspiração por parte desse meu pai acadêmico, o professor Marcelo, que fazia muitas atividades de divulgação científica. Então, a gente sempre estava na praça, falando de paleontologia, etc. Foi eu gostar de falar. Eu sempre fui aquela pessoa que gostava de explicar as coisas. Eu me lembro do Eu Pequenininha, cara. Eu fiz um jornal do bairro para falar sobre natureza para as pessoas. Aí eu pegava e escrevia a mão e enfiava embaixo da porta das pessoas. O famoso spam.

do correio, falando assim a natureza do bairro está sob perigo cortaram uma árvore na rua de cima veja só, agora os passarinhos não tem mais onde fazer ninho esse tipo de coisa, então eu sempre gostei de falar e por outro lado escrever me ajudava a estudar e aí

E aí eu percebia que eu escrevia muita coisa, mas ficava no meu caderno. Pô, que besteira. Por que eu não jogo isso no mundo? E aí estava naquela época dos blogs, dos vlogs. Então eu falei, por que não jogar num blog, num vlog? E assim eu começo a minha joenada de divulgação científica nas redes. Eu já trabalhava com divulgação científica, digamos assim, no tete-a-tete, né? Na praça, no ponto de ônibus, no museu. Mas comecei na internet participando do Science Blogs Brasil.

Era vizinha do Atle e Amarindo. Exatamente. Vizinha de outros grandes, gigantes da comunicação científica no Brasil, popularização de ciência. E depois a gente foi pro YouTube quando eu comecei a namorar o Tito, que sempre teve essa vertente audiovisual. E a gente cria a vertente colecionador de ossos, só que agora com vídeo e som. Muito legal. Enfim, sempre existiu.

E eu estava falando do postdoc, né? Por que isso foi importante? Quando eu estava trabalhando ali com ciência hardcore e me deparo com algo que impacta a sociedade...

Eu olhei para aquilo e falei assim, cara, a sociedade tem que saber que eles têm um patrimônio incrível na mão, que está para ser perdido. E aí eu passei boa parte do meu pós-doutorado, ao invés de fazer o que eu tinha que fazer, me envolvendo em conversa com autoridades políticas, divulgação em rádio, divulgação em TV, divulgação na mídia, sobre o risco que as pegadas de dinossauros estavam de desaparecer, por mais que elas tivessem milhões de anos.

Então, se você procura, na época do meu pós-doutorado, tem eu falando em um monte de canto, assim, parece até alarmismo, né? As pegadas de dinossauro vão desaparecer, mas elas estavam. Então, tinha, por exemplo, trator passando em cima das pegadas, boi passando em cima das pegadas, gente usando as pedras onde estavam as pegadas para diversos fins. E o próprio clima, né? Que...

O intemperismo, a erosão das rochas, por causa da chuva, do calor, acaba destruindo a rocha onde estão as pegadas. Então, muitas pegadas que eu tinha visitado no início do meu doutorado, por conta de uma viagem para conhecer mesmo, já não existiam mais, cara. E eu tinha foto disso, eu tinha evidência disso. Então, eu produzi um relatório, entreguei para o Ministério Público, provoquei governador, enfim.

Fiz um bafafá por conta dessa minha veia muito forte de comunicação científica, de entender que não existe produção científica de verdade se você não entrega ela para a sociedade. Ainda mais numa área como a paleontologia, que é um tópico delicado, né? A gente está fazendo coisas que muitas vezes a sociedade não enxerga uma...

aplicação prática. Então, a gente tem uma responsabilidade ainda maior de entregar o que a gente faz, explicar o que a gente faz e por que é importante. Então, eu fiz exatamente isso. Fui falar sobre patrimônio paleontológico, a importância de preservá-lo, a identidade importante que eles tinham para aquela população, ajuda a girar a economia local, e fornecer o conhecimento técnico que eu tinha para como eles podiam ajudar a preservar esse patrimônio.

E aí, encerro o meu pós-doutorado. Fiquei de olho em todos os concursos possíveis e imagináveis, porque era um momento político no Brasil muito estranho, sabe? Aí, eu tinha certeza que eu precisava conseguir o meu cargo logo, porque senão eu não ia ter mais chance.

E aí eu consegui passar em alguns concursos juntos, mas decidi vir para o Nordeste, que é onde eu sempre quis estar. Passei aqui na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, bem perto até de Souza, na Paraíba. Então de carro é relativamente próximo, menos de 5, 6 horas de viagem. É na capital mesmo que você fica em Natal? Estou na capital. Eu moro onde as pessoas passam férias. Yay!

Pois é, que inveja. Então eu moro nesse lugar maravilhoso, a praia fica literalmente a cinco minutos de carro da minha casa. Vou pra universidade com aquele cenário belíssimo do Morro do Careca, da Praia de Ponta Negra. Tem uma reserva maravilhosa de dunas que fica do lado da universidade, que eu vejo da janela do meu escritório. Então nesse lugar lindo, belíssimo, maravilhoso.

Eu trabalho hoje, dou aula, coordeno meu laboratório de pesquisa, que é o Laboratório de Diversidade, Ecnologia e Osteoistologia, carinhosamente apelidado de DINOLAB. Oriento estudante de pós-graduação em temas tanto de biociências, pelo Programa de Sistemática e Evolução aqui da UFRN, quanto em Geociências, pelo Programa de Geodinâmica e Geofísica do Departamento de Geologia aqui da UFRN.

Tô lotada de orientado, não cabe mais. Socorro, pelo amor de Deus. Se quiserem vir, planejem-se com antecedência. Então, atualmente, tô com mais de 13 orientados e nem podia estar com tanta gente. Socorro, Deus. 13 orientados ao mesmo tempo.

Eu estou enlouquecendo, socorro. Você que está me vendo por vídeo está vendo o desespero nos meus olhos. Eu estou vendo seus olhos não piscando. Fora os de iniciação científica. Fora os orientados de iniciação científica, que eu gosto muito de trabalhar com eles. E as atividades no museu Câmara Cascudo, que eu tenho vínculo também. Sim. Tanto com a parte de divulgação, quanto pesquisa, curadoria e tudo mais. Então, atualmente essa é a Aline. Continuo trabalhando com as minhas pegadas de dinossauro.

Mas, descobrir que ser uma paleontologia no Nordeste, ser uma paleontóloga, perdão, no Nordeste, é muito diferente de ser uma paleontóloga no Sul-Sudeste, que é, cara, o próximo paleontólogo que tem aqui na região, fora o professor Claude, que tá quase se aposentando aqui em Natal, é o professor Clebson lá em Mossoró, a quilômetros de distância. Diferente de São Paulo, que tem outro assim na sala do lado.

Ou seja, isso é um convite também, né? Futuros paleontólogos ou até presentes que querem abrir a cabeça e sair do eixo Rio-São Paulo. Venham para o Nordeste.

é difícil por várias perspectivas, é, financiamento pra pesquisa não é igual, infraestrutura das universidades não é igual eu acho que a galera fica muito mimada com a FAPESP em São Paulo, visse? o pessoal muito mimado com a infraestrutura da USP e da Unicamp, aí vem pra cá, não aguenta volta correndo

Mas essas dificuldades fazem valer a pena. É muito bonito, muito gostoso ver um estudante que saiu, às vezes, a primeira pessoa que teve graduação na família, sair com o diploma de mestrado, doutorado. Isso é incrível. Enfrentar, apesar das dificuldades de financiamento e tudo mais, produzir trabalhos incríveis e publicar em revistas científicas de destaque internacional. Isso é incrível.

E como eu falei, as dificuldades locais são... Aqui eu não consigo me especializar em um único tema. Eu tenho que cobrir vários temas, porque sou eu em vários quilômetros de distância, num raio de vários quilômetros de distância. Mas aí a sua formação ampla, indo das ciências biológicas, passando por geologia, crocodilos, dinossauro... Quer dizer, aí...

É com você, né? Aí eu cheguei. Por isso que eu falei pra você lá atrás, hoje eu acho que eu fiz toda a decisão certa. Teve muita gente que criticou, tá? Teve gente que falou assim, nossa, a sua formação, você não tem uma linha condutora? Que coisa horrível. Isso é péssimo academicamente? É, amigo. E agora que eu tenho que trabalhar com fóssil marinho, pegada, megafauna e o escambau, eu me sinto preparada mais do que nunca.

ecóloga, geosscientista, trabalhei com vários temas desses, eu consigo me virar e orientar estudantes em diversas áreas. Por quê? Porque se eu ficasse aqui só orientando o paleontólogo para a pegada de dinossauro, quando é que a gente ia produzir paleontólogo o suficiente para cobrir todos os sistemas no Nordeste, cara? Nunca.

Verdade. Então agora a gente está produzindo o quê? Estudantes hábeis para trabalhar com diversos temas, que daqui a pouco serão meus queridos colegas. E aí assim a gente vai ampliando cada vez mais a paleontologia no Nordeste, apesar de todas as dificuldades. Ah, oportunidades.

Sensacional. Aline, antes de terminar, ou para terminar, eu quero voltar ao assunto que marcou bastante a sua vida e sua vida acadêmica, que é o regime de assédio que você sofreu durante o seu doutorado. Eu não sei se você sabe, mas eu fiz um trabalho sobre assédio moral e sexual.

em agências de comunicação, porque, infelizmente, isso não é privilégio de uma indústria só. Muito pelo contrário. Na indústria da comunicação, existe ainda um agravante, vamos dizer assim, que é o fato de ser uma área mais informal.

é uma área mais informal. E isso acaba fazendo com que a linha tênue entre informalidade e falta de respeito seja atravessada o tempo todo. Por isso, os números de assédio nas agências publicitárias eram bastante altos. Agora já faz nove anos que essa pesquisa foi realizada.

Mas a gente fez muitas apresentações dessa pesquisa, a gente, eu, Ana Cortá e Lara Tomazini, que são as pessoas que me acompanharam nessa empreitada.

E quando a gente fazia as apresentações, as pessoas perguntavam que se ia haver alguma dica que a gente podia dar para quem estivesse sofrendo por isso. Eu vou falar só a dica que eu dava e depois eu quero saber as suas. Para as meninas que estão na paleontologia ou não, passando por algo parecido. A minha dica era, ande com um gravador digital ligado o tempo todo.

É triste, mas é a melhor maneira de você produzir evidências caso lá na frente você resolva tomar uma providência jurídica. Eu queria saber quais são as suas dicas, principalmente para as garotas que estão vivendo a vida acadêmica e passando por algo assim.

Beleza. Eu acho que primeiro é legal até mostrar um aspecto que a paleontologia também tem de peculiar e que acaba se aproximando de vocês, que é algo comum na paleontologia é o campo. E no campo as coisas ficam mais informais. E aí na informalidade é o que tu falou, é quando geralmente acontece o assédio. Porque você está ali convivendo diariamente, dormindo junto e aí as pessoas passam a tomar liberdades.

E por ser uma área majoritariamente masculina, né? Trabalha-se com rochas, material pesado. E isso historicamente arrastou esse estigma de gênero, né? Tipo, isso não é coisa de mulher, entre aspas. Eu ouvi isso tantas vezes. Eu ouvi de pessoas, nossa, você devia, sei lá, ser modelo. Não trabalhar com essas coisas pesadas aí. E eu só torci o nariz, assim. E virava o olho lá atrás. Mas enfim.

Aumenta a questão do contato informal. Então o assédio é muito comum mesmo. Mas eu tenho uma percepção um pouco triste. Que é, por isso é muito comum, a gente tem muitos casos. Muitas coisas já aconteceram. E uma coisa horrível que eu percebi é, muitas vezes, realmente, quando a gente vai e denuncia, ainda dá ruim para a vítima, cara.

Porque às vezes eles conseguem virar o tabuleiro e dizer, não, você está me caluniando. E aí, como tu falou, a ausência de provas ou provas que não são tão fortes fazem com que a vítima sofra mais, além de ter que se revitimizar, ao contar toda a história, passar por aquele processo doloroso várias e várias vezes para explicar para a justiça.

Por que ela é uma vítima? O que ninguém devia ter que passar por isso? Ainda tem que trazer prova, ainda tem que passar por um segundo assédio que a pessoa ainda virar e falar assim, você está me caluniando. E isso é muito frequente. E isso já fez muitas vítimas desistirem de denunciar e ir atrás por conta disso. Eu fui uma delas. E aí o tempo passou e eu não consigo. Agora que eu sou forte, eu não consigo mais.

Então, assim, a minha dica é, no ambiente acadêmico, antes de você entrar em qualquer jornada que você imaginar, no seu mestrado e doutorado principalmente, com um orientador em algum lugar, busque outras pessoas que já trabalharam lá e converse sobre como é esse ambiente, como são as pessoas, como foi a sua experiência.

mesmo que as pessoas tenham experiências de vida diferente, às vezes até se dão super bem com uma pessoa e a outra não. Mas se você fala com várias pessoas, histórias surgem. Claro. Especialmente com mulheres, né? Exatamente. Conversar especialmente com mulheres. Aí surgem, falam assim, eu não tive uma experiência muito boa, olha para o currículo da pessoa, vê se alguma mulher que essa pessoa orientou continuou na carreira acadêmica.

Esse é um excelente sinal. Eu devia ter feito isso. Eu teria rapidamente descoberto, poxa, olha só, pouco ou mal orientou a mulher e as mulheres que orientou não conseguiram ir pra frente. Por que será? Não é o problema da mulher não, Boi. Então, assim, tem vários sinais, vários sinais que a gente pode aprender a observar. Redes de apoio são muito importantes. Na paleontologia, a gente teve casos de assédio tão famosos que foram parar no Fantástico.

de tão graves que foram. E isso é recente. Quem tiver curiosidade procura no Google. Paleontólogo do Rio de Janeiro, que incorreu em casos de assédios gravíssimos, denúncias gravíssimas das vítimas.

que criaram-se grupos de apoio entre os estudantes, grupos de cochicho para contar histórias. E aí você, óbvio, não escuta cegamente as histórias, mas soma várias histórias, porque, óbvio, sempre vai ter alguém querendo falar mal um do outro, né? Por questões, às vezes, de opinião pessoal, não necessariamente porque, sei lá, tem algo errado. Então, ouça, some todas essas histórias.

E veja se aquele é um ambiente saudável, eu ou não. E o que a gente tem feito na paleontologia é movimentos frequentes dentro dos eventos científicos para falar sobre esses temas. E alertar as meninas que esses problemas existem. E a gente entender o que é assédio. Porque olha que loucura. Tem muitas vezes que o assédio acontece com a gente e tu chega em casa pensando. Será que isso foi assédio? Meu Deus, será que eu passei por assédio?

Mas isso me incomodou. E se não for assédio? Isso eu estou ficando louca. Isso foi coisa da minha cabeça.

então até entender o que é assédio até onde pode ir, o que não pode ir brincadeira que não é legal fazer qualquer coisa que te deixa desconfortável no fundo é alguma forma de assédio, te deixa desconfortável sobre aquele ambiente, te faz não querer voltar para aquele ambiente, então a gente construiu esses grupos de cochicho, esses momentos da gente falar sobre essas questões tudo isso ajuda

ajuda ter um gravador sempre à mão, né? Ajuda você também, tudo que você foi fazer com seu orientador e colegas, ter documentação por e-mail. Eles vão querer praticar o assédio sempre pessoalmente e verbalmente, por telefone, nunca por mensagem de WhatsApp e e-mail. Aí você força. Você escreve, o que você me quis dizer, o que você quis dizer foi isso aqui mesmo, o que você disse? Força essa pessoa a produzir provas contra ela, cara. E busque Ito!

Alguém que te apoie nesse processo. Então, exemplo, na geologia aqui da UFRN, a gente tem muitos casos de assédio também. As alunas sabem que eu luto nessa frente porque eu falo muito sobre isso.

Elas sabem que elas têm um ambiente seguro na minha sala. E quando elas precisam, elas fecham a porta e elas falam. E aí a gente pensa junto qual é o melhor jeito de fazer. Então procurem essas pessoas, essas referências na proximidade de vocês, as quais vocês possam ter suporte. Porque quando a gente se sente só, que foi o que aconteceu comigo no Rio, ninguém me apoiou. Até as colegas mulheres. Ninguém me apoiou.

Por quê? Porque era uma pessoa conhecida. E era importante. Então ninguém queria se voltar contra ela. E eu tive sozinha. Ficar sozinha é horrível. Isso empurra você para o fundo do poço. Então procure alguém que te ajude a lembrar que você é a vítima e que você não está... Aquele processo, você não está sozinha, que tem mais gente para lutar com você e tudo mais. Eu acho que essa talvez seja a melhor dica que eu tenho para passar.

Poxa vida, Aline. De novo, eu sinto muito isso tudo pelo que você passou, mas espero também que essa conversa ajude outras meninas, mulheres que estão nessa luta. A gente está...

passando por um momento lamentável de uma normalização da violência, especialmente a violência contra as mulheres, e a gente precisa fazer algo sobre isso, especialmente nós homens. Acho que a gente precisa fazer algo a respeito disso, porque...

Já deu, e não é porque eu tenho uma filha mulher, mesmo que eu não tivesse, isso seria uma obrigação de todos os homens. Aline, foi um prazer danado conversar com você. Eu sinto que eu ficaria aqui com você horas conversando. Então, mais uma evidência de que a tese do Altair sobre biólogos e biólogas está correta.

eu queria só que você deixasse aí sua mensagem final para as ouvintes e para os nossos ouvintes e como é que eles te encontram na internet caso queiram trocar ideias

Tá bom, primeiro me deixando agradecer, né, obrigada pelo espaço, eu amo muito o trabalho que vocês fazem, pra mim é uma honra estar aqui, é gostoso falar sobre paleontologia, foi legal falar sobre minha vida, eu fiquei às vezes meio assim, será que eu deveria falar sobre alguns aspectos, como a própria questão do assédio, né?

Claro que sim. Isso pode assustar algumas pessoas, né? Falar assim, nossa, mas existe isso na panesotologia, eu não quero mais seguir isso. Não, pelo contrário, tem que ser um ambiente convidativo. A gente tá aqui fazendo um esforço danado pra mudar, né? Esse ambiente, pra mudar essas questões. Então, que isso não faça as pessoas desistirem. Mas foi um momento catártico também, então muito obrigada. E eu acho que assim, de mensagem final...

A paleontologia me ensinou várias coisas que hoje eu consigo enxergar refletidas na minha vida. A vida no planeta Terra surgiu há talvez mais ou aproximadamente 3,5 bilhões de anos. E passou desde então por vários processos muito severos, que são as chamadas extinções em massa.

Inclusive, em alguns momentos, a vida quase acabou, tá? Mais de 95% da vida chegou a ser ceifada da face do planeta, há mais ou menos 252 milhões de anos atrás. Mas a vida sempre persistiu. E ela sempre se diversificou novamente em formas incríveis de grande beleza.

depois desses momentos de extinção. E a vida é assim também, tá? Ela tem altos e baixos. E nos momentos de extinção em massa é quando a gente aprende mais a florescer mais bonito nos momentos logo em seguida. Então é isso, pessoal. Que a paleontologia passe essa lição pra vocês também. E que um pedacinho da minha história tem ajudado vocês na jornada de vocês.

Aline, sua jornada é maravilhosa, espetacular e um tapa na cara da sociedade patriarcal. Espero que você continue voando e a gente se encontre pessoalmente, quem sabe na Praia de Pipa.

pode vir pra cá e vamos visitar a Souza, hein? na Paraíba fiquei com muita vontade de visitar a Souza também, queria agradecer demais pelo seu tempo, pela sua generosidade pela sua franqueza, foi uma delícia conversa, muito obrigado muito obrigado, de verdade eu que agradeço Inaru Rodô Ilustríssimo 20

E você já sabe, aqui no Naruhodô, quem faz a pauta é você. Você tem alguma pergunta pra gente ou quer comentar algum episódio? Escreva pra nós. podcast.naruhodo.com.br Repetindo. podcast.naruhodo.com.br E lembre-se, mande nome completo, idade, profissão e a cidade de onde você está falando. É isso aí. Naruhodô.

Este podcast é apresentado por

Naruhodo Entrevista #67: Aline Ghilardi | Castnews Index — Castnews Index