T2: Edimilson Andrade | Episódio 15 | Podcast Vozes do Palco
Nosso convidado do episódio 15 é Edmilson Andrade, ele encenador, diretor teatral, cenógrafo, amplamente reconhecido por direção do Drama da Paixão de Cristo de Santana de Parnaíba, um dos maiores espetáculos teatrais a céu aberto do Brasil e focalizador de danças circulares desde 2001. O podcast existe graças ao trabalho em equipe de:Hellen Almeida: @hc.kryzGiovanni Felipe: @naturezaamorosaLaila Oliveira: @wtf_lailaoSereia Chagas: @sereiadeaguadoceValdeir Santana: @valdeir.vsfProduzido por Coletivo Teatro, Memórias e Além.Com apoio do CEU UirapuruVozes do Palco é um Projeto Contemplado na 22ª Edição do Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais do Município de São Paulo - VAI @ProgramaVAIsmc
- A evolução do Drama da Paixão de Cristo em Santana de Parnaíba e sua importânciaNova Jerusalém·Oberammergau·Jerusalém·Paixão de Cristo
- A trajetória artística de Edimilson Andrade desde a infância no circo-teatroCirco-teatro mambembe·Marcelino Pão e Vinho·Teatro amador·Antunes Filho·Peter Brook
- A conexão entre espiritualidade e arte na vida e obra de Edimilson AndradeXamanismo·Gurdjieff·Egito·Pirâmide de Quéops
- A prática e os benefícios das danças circulares sagradasComunidade Findhorn·Bernhard Wolsin·Renata Ramos·Danças terapêuticas
- As dificuldades e desafios na direção do Drama da Paixão de CristoLicitações·Voluntariado·Gestão pública
- A importância da pesquisa e da vivência do momento presente na arte e na vidaFilosofia hermética·Shiva Nataraj·Xamanismo
Começa agora Vozes do Palco.
Olá, você está assistindo ou ouvindo o podcast Vozes do Palco. Este podcast visa entrevistar artistas independentes. Nesta segunda temporada estamos entrevistando artistas da dança. Meu nome é Sereia Chagas, eu sou uma pessoa não binária, Ultimamente, tenho atendido pelos pronomes ela, dela. Sou uma pessoa parda, tenho cabelo Black Power, tenho um bigode e cavanhaque. Estou usando um colete preto e uma calça preta com detalhes brancos e cinza.
O nosso convidado de hoje é muitas coisas. Ele é encenador, diretor teatral, cenógrafo, palhaço, amplamente reconhecido pela sua direção no drama da Paixão de Cristo, lá de Santana de Parnaíba, que é um dos maiores espetáculos teatrais a céu aberto do Brasil e focalizador de danças circulares desde 2001. Seja muito bem-vindo, Edmilson Andrade.
Eu que agradeço aqui pelo convite. Para mim é uma grande honra estar participando aqui com vocês. Posso fazer minha apresentação agora? Eu sou uma pessoa branca, meio gordinho, saliente, estou usando uma calça xadrez, né, e tô usando também uma camiseta preta com a estampa do Drama da Paixão, o espetáculo que eu faço. Estou, eu utilizo também esse colar que é um colar xamânico, né, que é muito importante para mim. Também tenho minhas correntinhas aqui também ciganas, que eu venho de descendência cigana, né.
Estou usando também um chapeuzinho turco que eu trouxe da Turquia, que me dá muita força. Eu gosto muito dele.
Seja muito bem-vindo. E para quem tá aí assistindo, já vou pedir agora no começo: se inscreve no nosso canal, já dá aquele like. Se você tiver nos ouvindo em alguma plataforma de áudio, segue a gente, dá 5 estrelas. Segue a gente nas redes sociais, @vozodopalco. A gente tá no Instagram, no X, no TikTok. E é isso, e vamos lá, nossa entrevista, né? A primeira pergunta, super simples, é: quem que é Edmilson Andrade?
Ó, que pergunta super simples, mas ao mesmo tempo complexa, né? Que até hoje tô tentando descobrir quem é Edmilson Andrade, porque tantas facetas que a gente tem, né? Tantas máscaras sociais que a gente acaba utilizando no dia a dia e que nos é passada desde a infância, né? Mas assim, ao meu compreender, né, Edmilson Andrade, no que eu sinto dele, é uma pessoa sonhadora, batalhadora, que desde criança foi aí na luta em busca dos seus sonhos.
E até hoje, né, essa criança que não cresceu, e não cresceu mesmo nem de tamanho, mas sobretudo de coração, que mantém essa inocência espontaneidade, e que a cada dia quer se descobrir mais ainda, e eu uso a arte para isso.
Conta para a gente um pouquinho da sua trajetória, de onde você vem, quais são suas formações, o que que você fez no seu percurso como artista até hoje, que é uma grande trajetória, né?
É, na verdade, assim, eu falo que eu nasci num berço de ouro. Quando se fala berço de ouro, as pessoas remetem a riquezas, bens materiais, mas o meu berço de ouro foi um circo-teatro mambembe. Eu venho de família circense, meu pai, né, ele tinha esse circo-teatro e eu nasci nesse meio. Aos 3 meses de idade eu fiz a minha primeira peça de teatro, que foi Marcelino Põe Vinho, um clássico do cinema que fez muito sucesso na década de 50.
E o circo-teatro ensinava, né, muito sucesso no cinema, ele se transformava em peças de teatro. E apresentavam lá para aproveitar o sucesso. E aos 6 meses estava eu lá fazendo bebê. Então a minha primeira formação é o psicoteatro. Aos 3 anos de idade eu já era palhaço mirim, fazia lá as palhaçadas sempre guiadas pelo meu pai. Na infância também fiz pequenos papéis, né? Mirins, né, nos dramas, as comédias. Porque o circo-teatro assim é um circo, tem palco e tem um repertório de dramas, os dramalhões e as comédias.
E daí quando tinha papel mirim, né, eu fazia. Teve um caso que foi encenado O Céu Uniu Dois Corações, que é um clássico do circo-teatro, e precisava de uma menina, e não tinha menina na ocasião, né. Me vestiram de menina para fazer a criança, essa criança mini, que é a coisa do circo-teatro. Então assim, a minha primeira escola é o circo-teatro, lá onde eu aprendi, foi a minha base, né? E tendo como um grande mestre meu próprio pai, a minha mãe.
Depois, como eu tinha que estudar, e o circo-teatro naquela época, quer dizer, os circos em si é os filhos de circenses, eles quando iam numa cidade Eles não podiam estudar, a escola não aceitava, não tinha uma lei para isso. Hoje tem, hoje as escolas são obrigadas a aceitar os filhos de circenses enquanto, né, o circo está naquele local. Na época não tinha. Daí eu fui morar com meus avós em Piracicaba, que por sinal é a cidade que eu nasci, que eu sempre falo, né, que eu sou caipiracicabano com orgulho, porque também trago essas raízes caipiras.
E lá eu moro com meus avós. Aos 11 anos de idade, daí eu comecei a entrar no teatro amador, já criança, que daí foi a minha segunda grande escola, o teatro amador. Fui muito atuante, fiquei muitos anos trabalhando com teatro amador, cheguei a ser uma liderança em Piracicaba lá na ocasião a gente formou a Federação de Teatro, onde eu fui presidente por duas vezes da FEPITA. Que é a Federação Piauiense Cabana de Teatro Amador. Nesse meio todo, cheguei a participar da COTAESP, que é a Confederação Estadual, depois da CONFENATA, que é a Confederação Nacional.
Enfim, eu tive uma vida muito extensa, tanto a nível, né, artístico como a nível político mesmo, a gente tentar ganhar mais notoriedade, ganhar mais força, porque até então, infelizmente, Não sei se mudou muito, mas naquela época os grupos pareciam que eram rivais, né? Aí um grupo parece dava ideia que tava concorrendo com outro. E eu sempre defendi que teatro não tem isso, porque são peças diferentes. Mesmo se, por exemplo, eu vou montar Romeu e Julieta, eu vou fazer de um jeito, você vai montar Romeu e Julieta também, vai ser outro jeito, são duas peças diferentes.
Vai ter tanto público para mim como para o seu espetáculo. E quando um espetáculo, um grupo é fortalecido, os outros também são. Então essa foi a minha grande luta na época. Fiquei muitos anos, né, até que daí eu vim para São Paulo, né. Na ocasião, meu pai tinha falecido. Ele morava com a minha mãe em Santana de Parnaíba, que nessa ocasião ele já tinha parado com o circo. Ele trabalhava, né, na prefeitura. Daí ele faleceu, infelizmente, num acidente lá, uma festa de Corpus Christi.
E daí eu vim ficar um tempo com a minha mãe. Né? E daí, estando próximo a São Paulo, daí eu fiz a faculdade de teatro, né? Depois fiz a escola técnica de teatro e todos os cursos. Eu durante muito tempo eu fui rato, né? Apareceu curso de teatro, tava fazendo tudo que é de todas essas áreas. E até hoje eu estudo, até hoje eu busco. Depois com o tempo também, porque é muito incrível, porque uma coisa leva a outra, né? Uma coisa vai levando a outra.
Eu sempre busquei assim, é uma coisa que tem dentro de mim desde criança e depois adolescência, na idade adulta, né, uma necessidade espiritual muito grande através da arte. Eu sentia que a espiritualidade e a arte estava ali conectados, e esse caminho que eu buscava, sempre busquei, mas inicialmente era uma forma inconsciente. E daí eu lembro que eu tive acesso a um livro dos maiores diretores que a humanidade já teve, tanto que ele foi considerado o maior diretor de teatro mundial do século 20, que é o Peter Brook.
Que daí eu estudei ele, nossa, todos os livros que ele publicou, né? Eu acabei comprando, cheguei a fazer um curso com discípulo dele, o Yoshihoida. Quando veio para o Brasil. Enfim, né, para mim assim se tornou um mestre indireto. Ele tinha essa pegada espiritual também, porque o Peter Brook, ele foi um diretor muito convencional, fazia grandes produções, sabe, aquelas coisas de, né. E houve um período que ele conheceu um grande mestre oriental, que também hoje é meu mestre indireto, porque daí uma coisa, como eu falei, leva a outra.
O Guruji, que foi um grande mestre oriental, que traz uma filosofia aí que praticamente muda muitos paradigmas e que mudou o trabalho do Peter Brook, aquelas grandes produções que ele fazia, aquela coisa toda. Ele foi para uma outra vertente, uma vertente mais espiritual, que era o caminho que ele tava buscando. Falei, nossa, falei, preciso conhecer o Gurdjieff, né, o Gurdjieff, que alguns falam. E foi um caminho Também comecei a pesquisar, a buscar.
Depois eu descobri também que o Peter Brook, através do Gurdjieff, que o Gurdjieff ele fazia umas danças sagradas, né, no trabalho dele. E o Peter Brook daí ele também desenvolvia danças curais. Nossa, que que é isso, né? Na época eu falei, bacana, eu também vou pesquisar. E houve um dia que do nada apareceu um livro chamado Danças Seculares Sagradas, uma proposta de educação e cura. Nossa, é o que eu tô buscando, gente! Que é isso aí?
Eu lembro que eu tava em São Paulo, tava lendo um livro inclusive do Peter Brook, o mais novo dele. Na ocasião comprei esse livro e daí eu tive contato, eu acho, acho não, com certeza, né, a maior mestra das danças seculares do Brasil, que é Renata Ramos. Vim aqui da mestra Ela que praticamente fez todo um trabalho aqui no Brasil e até hoje faz. E daí eu conheci as danças que eu trago no meu trabalho também, entendeu? Que tudo tá ligado, teatro ligado com as danças, que tá ligado ao trabalho do palhaço, que eu comecei quando era criança também no circo fazendo, como eu já falei.
Depois eu fui fazer clown, né, com grandes mestres que eu sempre tive aí, grandes mestres nesse sentido. Então Praticamente é essa minha trajetória e até hoje eu tô aí em busca, né? Posso estar falando mais coisas depois aí, né?
Caramba, é uma trajetória muito rica assim. Tipo, você subiu ao palco pela primeira vez aos 3 meses de idade, assim, é um, nossa, um privilégio enorme isso.
Eu não lembro da ocasião, né?
Mas se tivesse um texto, o meu texto devia ser: Mas imagino que crescer no meio artístico tenha sido tipo maravilhoso assim. Como que você enxerga que crescer nesse meio estruturou a sua visão de mundo?
Ah, eu acho que sobretudo, né, pela criação do meu pai, as coisas todas, isso tornou meu caráter, né, que eu tive uma boa formação, tive um pai maravilhoso assim. E depois na parte artística, né, que meu pai sobretudo, né, Ele foi a grande inspiração, que minha mãe também fazia, ela fazia as peças, mas o negócio da minha mãe era mais vender os doces no circo e cuidar da parte estrutural. Meu pai é aquele que possa se dizer que ele fazia tudo no circo, né?
E o que não sabia fazer, ele ia atrás e fazia também. Todas as atividades, tanto de picadeiro, o circo dele não era de picadeiro, era circo teatro, que só tinha um palco, né? Mas eles também trabalham em circos de picadeiro, como nas peças que ele fazia, né, quando ele vinha atuar como palhaço, quando ele vinha fazer os grandes vilões que ele fez, né. Então assim, ele foi a minha grande inspiração e isso acabou me moldando. Eu levei a vida toda isso, trago ainda até hoje.
O circo tá muito presente em mim. Eu lembro que um dos meus grandes mestres que realmente assim foi também muito importante na minha vida foi o Antunes Filho. Antunes Filho, ele foi um diferencial na minha vida assim, é que a primeira vez que eu passei por ele, o Antunes é considerado um dos maiores, né, diretores do Brasil, que infelizmente já nos deixou. Deixou um grande legado, grandes nomes da dramaturgia começaram com ele, né, Raul Cortez, Laura Cardoso, Reja Duarte, e por aí vai.
O Steno Garcia. E eu era muito novo ainda quando eu passei pelo Antunes em 86. Eu vinha, imagina, do teatro amador, aquela coisa toda ainda, não tinha nem feito a faculdade. Eu vim do teatro amador. E daí já nos primeiros dias com Antunes, em vez de ele mandar livro, em vez de ele mandar ler livro de teatro, ele mandava ler livro de filosofia, de física quântica. Falei, caramba! Eu falei Eu nunca gostei de matemática, nunca gostei de física, nunca gostei de química, e ele mandando livro de física quântica, mandava ler livro de Zen budismo.
Imagina, a minha cabeça na época pirou. Eu lembro que eu tava numa livraria uma vez, né, daí eu tava vendo livros de chato lá, que eu sempre quando vou em livraria, primeiro lugar que eu vou é na estante de livros chatos. Ele chega com o livro da astrologia. Quem entender teatro, leia isso aqui. Eu olhava, eu era muito imaturo, né? Acabei não concluindo, né, o processo com ele na Criano. E a gente acabou brigando aí porque era, nossa, né, eu era muito ainda moleque.
Eu sei que depois, quase 20 anos depois, né, acabo retornando com ele já com outra nossa mentalidade. Até porque esses anos que eu fiquei distante dele, tudo aquilo é incrível, né? Porque tudo aquilo que ele quis ensinar na época e tava ensinando é que eu tava buscando. Só que eu não tinha essa compreensão que ele tava me dando exatamente aquilo que eu tava buscando, né? E depois que eu saí de lá, que essas coisas começaram a cair as fichas, e daí foi.
E eu confesso que foi uma coisa que mudou muito a minha vida, né, Taqui? Isso aqui inclusive até fiz questão de trazer aqui porque é uma grande simbologia. Essa aqui é uma corrente que eu trouxe do Egito. É, o Egito é um país assim que eu tenho uma ligação espiritual muito forte. Né, já fui duas vezes para lá. E a primeira vez que eu fui para o Egito, é uma— você vê como as coisas vão se intercalando, né? Eu tava lá diante da Pirâmide de Quéops, né, aquela— nossa, maravilhado!
Porque você vê em livros, vê em filmes, mas aí quando você está lá, nossa, isso existe de verdade! E eu lá Nossa, abismado, né? Encantado. Eu lembro que tinha uma mulher do lado, jamais vou esquecer, uma, ela era beduína, mas tinha um jeito meio cigana. Até hoje não sei, e até hoje eu vou saber se era uma pessoa real, se é espírito, sei lá. Mas ela tava ali, eu vi certinho. Eu olhando para a pirâmide, ela falou assim: tá gostando?
Eu falei: sim, né? Ela falando espanhol, mas um espanhol que dava para entender. Mandou eu mirar, né? Mira as pirâmides, conversa com elas. Se conversar com ela, ela vai conversar com você. Eu olhei, mulher maluca essa aí, né? E daí veio também na minha cabeça que os guias falam que os beduínos são muito espertos, eles vêm com historinha para te roubar depois. Tem uns lá que é meio fria. Vixe, essa mulher tá ou é louca ou tá querendo me roubar.
Eu fiquei meio amedrontado. Ela falou, não, não fique com medo, converse com a pirâmide E ela vai conversar com você. Eu dei um jeitinho meio educado assim, saí de perto e vazei, né? Daí eu fui no grupo que eu tinha me distanciado, daí fiquei com eles lá e beleza. Depois desse dia eu lembro que eu fui fazer um cruzeiro pelo Rio Nilo, né? Fiquei, fui conhecer Alexandria, outros locais, mas essa coisa da mulher não saía da minha cabeça.
Não saía, não saía mesmo. Até que no último dia, já de volta ao Cairo, eu tinha um dia livre e resolvi sozinho lá nas pirâmides. Ó, quem for para o Egito, não faça isso, gente. Pega um guia, porque quando você vai sozinho é fria. Porque, nossa, mas enfim, eu fui, né? E daí sentei de novo lá na frente daqui, ó, da Pirâmide de Quéops. Essa mulher não estava e fiquei olhando. E qual foi a minha surpresa? Comecei a conversar com a pirâmide e a pirâmide conversou comigo.
Lógico que ela não abriu a boquinha, nada disso, mas ali, ó, pela primeira vez, através do meu coração, sabe, da minha intuição, da minha percepção energética, espiritual, ela conversava comigo. Para mim foi, nossa, um grande, sabe, porque eu me abri para isso. Consegui se abrir é sair daqui e entrar aqui, que é ilimitado. E daí eu falei, né, engraçado, por mais maluco que pode parecer, na época eu vi algumas histórias que vinha, que eu ia sentindo ali, realmente já estava acontecendo comigo, que eu nunca tinha ouvido falar.
Depois eu fui pesquisar e essas coisas existiam de fato. Foi a primeira vez que eu ouvi falar sobre Akenaton, que foi um grande faraó egípcio, que hoje aí tem muitas histórias dele. Ele foi, mesmo antes de Abraão, ele foi o primeiro a intuir um Deus único, entendeu? Criador de todas as coisas. E daí essa ligação foi tão forte, daí eu falei, nossa, sabe? E para mim, eu falo que foi uma grande iniciação, que essa iniciação Ela foi assim espiritual, ela foi artística, ela foi transcendental, ela foi cósmica.
E essa experiência eu trago meu trabalho até hoje, essa coisa ao mesmo tempo de ouvir uma pirâmide, ouvir uma flor, ouvir uma pedra, ouvir um espaço vazio onde acontece a cena, ver esse espaço vazio. Então Para mim, saiu daquela limitação cotidiana. Nossa, aí que eu me baseio todo o meu trabalho. Não sei se dá para entender.
Nossa, muito louco que você tava falando, várias vezes você falou assim, apareceu um livro que já que eu tava estudando, chegou o Antunes Filhos e tava te entregando exatamente o que você procurava, só que você não sabia, né? E aí, tipo, a espiritualidade o tempo todo tava, tipo, já te guiando, né? E até você foi para o Egito, teve essa pessoa que você não sabe se existe, se foi, né, tipo, uma manifestação, né, que falou contigo. Nossa, eu até arrepiei aqui.
É, eu assim, eu acho que quando a gente se abre para o universo, essas coisas acontecem. É o que eu sempre falo, que Eu dou a imagem de um grande quebra-cabeça cósmico, existem as peças e elas vão se encaixando, elas vão se encaixando, se encaixando, se encaixando, entendeu? E é muito maluco, realmente você vê as coisas vão aparecendo, você vê uma coisa que você sente a importância daquilo, antes que você peça vem o material para responder aquilo que você tava buscando.
E aí vai, sabe, as coisas vão acontecendo. E aí eu fui, você vê, depois é tudo que eu faço, por exemplo, Começando pelo teatro, né, começando pelas danças, começando pelo palhaço, que também, né, meu, as coisas vão se intercalando, você intercalando, você, e vai surgindo, e vai surgindo conforme você vai buscando e buscando com o coração de verdade. O universo vai te dando, é incrível, acontece coisas assim que eu falo, meu Deus, como que até eu Eu pratico xamanismo, que é outra coisa, que é onde fui buscar o teatro, para poder compreender o teatro e essa busca da espiritualidade.
Fazendo minhas pesquisas, eu descobri que a mesma fonte que vinha o teatro também vinha o xamanismo. Um vai para o caminho da arte, outro vai para o caminho da espiritualidade, só que essas coisas elas se encaixam. E daí eu falei, nossa, eu vou pesquisar o que que é essa coisa de xamanismo aí, porque alguma coisa tem aí. Foi quando eu entrei, comecei a praticar xamanismo, né? Daí, lógico, o buraco é muito mais embaixo, que daí tem um lance espiritual que daí é muito mais profundo.
Mas daí é incrível, porque quanto mais eu buscava esse buraco profundo, que é o buraco, eu posso dizer que é o buraco da Alice quando ela se joga no País das Maravilhas, né, meu? Quanto mais eu buscava o xamanismo, mais eu encontrava o teatro. Quanto mais buscava o teatro encontrava o xamanismo, entendeu? E daí eu falei, nossa, tá ligado isso, como que as coisas se encaixam, né? E eu pratico já mais de 20 anos xamanismo, e essa noite participei de um ritual xamânico, né?
E tava lembrando que como as coisas são ligadas, que eu dirijo o Drama da Paixão em Santana de Parnaíba. Esse ano foi um pouco difícil no dia da estreia, era um momento que tava muito tenso, sabe aquele momento que você quer abandonar tudo, ir embora? Porque imagina, Você dirige quase 1000 pessoas, entendeu? E tava aquela, nossa, primeiro dia, e tinha uma empresa lá que não tava dando, as empresas contratadas não tava dando o que eu queria, e eu tava ali num nervo só.
E daí eu cheguei, né, para um amigo meu. Eu tenho uma medicina sagrada lá que tem no xamanismo, que eu pedi para um amigo meu aplicar, mas ele não é muito no ramo, mas ele que tava naquele momento ali, né, para poder acalmar. Diz que eu vou no carro lá, quem é? Do nada, do nada, sem combinar, sem nada, quem aparece lá? O meu mestre, no estacionamento que eu tava, entendeu? E daí, lógico que ele daí aplicou essa medicina sagrada.
Até ontem eu relembrei isso, falei, pô, aquele momento foi você a tua força juntamente com essa medicina ancestral, sagrada, indígena, que me sustentou. E eu fui, porque senão teria ido embora. Aquele dia foi terrível. E você vê então como as coisas vão, sabe, se encaixando. Isso, aquilo é incrível, né? É incrível e é maravilhoso, né?
A base do teatro vem, né, da espiritualidade, né? O início do teatro era tipo um ritual, e que em algum momento separou isso, né? Ainda bem que existem agora vários trabalhos que têm buscado juntar os dois novamente, né?
E das duas formas, você vê, por exemplo, a gente costuma falar que o teatro nasceu na Grécia, né? Que é o berço do teatro, é a Grécia, que vem de tirâmbulo, do canto das procissões em honra ao deus Dioniso, que era o deus a princípio do vinho. E quando se fazia boas colheitas, fazer aquelas procissões dionisíacas para celebrar esse deus, né? E que até então é o deus do vinho, depois passou do teatro, a ser do teatro também. Você vê, então vem de uma certa forma dessa atividade religiosa dos gregos.
Mas anterior a isso, lá nos primeiros homens, quando descobriu o fogo, que eles ficavam em volta da fogueira e eles acreditavam que imitando os animais, eles iam aprisionar o espírito daquele animal para ser mais fácil a caçada no dia seguinte. Ali tá começando a fazer teatro. E você vê, junto com a espiritualidade, o que— e eu pergunto: até onde é teatro e até onde é espiritual de verdade? E até onde é espiritual de verdade e onde é o teatro?
Então tá ali, ó. Por isso eu falo, é o grande teatro cósmico, né? Teatro cósmico e sagrado.
Você mencionou um pouquinho, né, sobre o Drama da Paixão. Como que surgiu o Drama da Paixão lá de Santana de Parnaíba? Você foi um dos idealizadores, né?
É o idealizador, posso dizer, né? É lógico que tem toda uma equipe por detrás, porque a gente não faz nada sozinho. Mas se falando, né, do Drama da Paixão, né, eu pego essa palavra paixão E o termo paixão no sentido universal, não só paixão de sofrimento, mas a paixão de amor, a paixão de entrega, de dedicação. A primeira experiência que eu tive com esse tipo de espetáculo foi no circo-teatro do meu pai, porque como eu já falei, né, o circo-teatro ele tinha um repertório de dramas e comédias, e quando chegava a Semana Santa se parava, né, esse repertório, e durante a semana toda apresentava A Paixão de Cristo, né, um texto muito antigo inclusive que o circo usava, que é do Eduardo Garrido, né, que é um clássico do circo-teatro.
E eu via aquelas encenações da Paixão de Cristo do circo já criança, que não me fascinava muito, né, até porque a gente tá entrando num grande mito da humanidade que é o Jesus Cristo. E aquilo me encantava. E eu, criança ainda, e depois na fase de adolescência, eu pensava comigo: nossa, um dia quero fazer isso ao ar livre. Comecei a fazer ao ar livre, construir um cenário ali ao ar livre, achando que a ideia era minha, né? Que até então nunca tinha ouvido falar nada a respeito.
O meu repertório era A Paixão de Cristo no circo. E essa ideia foi ficando em mim, né, esse sentimento de um dia fazer A Paixão de Cristo ao ar livre. Daí, já nos meus 16, 17 anos, vendo uma reportagem do Fantástico, eu ouço falar pela primeira vez de Nova Jerusalém, lá no Agreste pernambucano, né, lá no Brejo da Madre de Deus. Que há muitos anos eles faziam a Paixão de Cristo, construíram uma cidade cenográfica feita de alvenaria, de pedras, remontando como era Jerusalém na época de Jesus, e que eles ensinavam essa paixão.
Daí foi um misto de alegria e decepção. Decepção porque a ideia não é minha, já existe, mas alegria também porque eu tinha uma referência Eu tinha um norte, né? Eu vou em busca disso. E antes de me formar em teatro, me formei em jornalismo lá, porque em Piracicaba tinha faculdade de teatro e eu não tinha condições de vir para São Paulo na ocasião ficar aqui. Meus avós não tinham condições de me manter. Lógico, se naquela época eu tivesse a maturidade que eu tenho hoje, que eu conquistei depois, eu até saberia.
Teria como me manter, mas na época não tinha, era um caipira se acabando bem, bem, né? Nossa, vim para São Paulo, era muito distante para mim. E daí eu fiz jornalismo, né? E daí eu tinha que fazer o TCC, ocasionou que eu falei, pô, eu vou falar sobre Nova Jerusalém, vou aproveitar, vou para Pernambuco e vou pesquisar sobre isso aí. E foi em 88, eu fui pela primeira vez em Nova Jerusalém. Assistir a Paixão de Cristo lá. E fui muito bem recebido pelo Plínio Pacheco.
O Plínio Pacheco, ele foi que idealizou essa cidade cenográfica, porque até então a esposa dele, a Diva Pacheco, ela era desse município lá do Brejo da Madre de Deus, e a família dela ensinava na praça ali, uma coisa mais simples, a Paixão de Cristo. O Plínio, quando foi lá, ele era um grande jornalista, ele viu aquilo Ele viu o potencial naquilo, daí se apaixonou pela diva, elas se casaram. Foi quando ele teve a ideia de, opa, por que a gente não faz um teatro ao ar livre?
E daí eles construíram, né? E hoje Nova Jerusalém é o maior teatro ao ar livre do mundo, né? E na ocasião daí ele foi muito simpático, tanto ele como a diva Pacheco, assim, me receberam muito bem. Eu fui apenas como mero espectador, só que eu tinha essa coisa da pesquisa e procurei todos eles. Procurei na época também o José Pimentel, que na ocasião era o diretor do espetáculo e ele fazia Jesus. Naquela, ó, em 88, o José Pimentel estava com 50 anos e fazendo Jesus.
Olha, eu nunca vi um Jesus como esse Pimentel fazia. Maravilhoso, maravilhoso. Eu fiquei encantado, né? Eu pesquisei, fiz, né, tudo que eu pude ter informações eu fui atrás. E 89 voltei para lá, daí cheguei a fazer uma participação como figurante, entendeu, na Paixão de Cristo lá, chamado Paixão de Cristo. Intensificou a minha pesquisa. E daí, na época, eu fazia teatro e Piracicaba, lá no Sesc Piracicaba, tinha um grupo lá. E daí eu conversando com as pessoas, eu falei, nós podíamos fazer aqui em Piracicaba, né?
Acho que dá para fazer uma paixão, não tanto como é Nova Jerusalém, mas a gente pode começar aqui. E esse grupo de amigos, né, me acompanhou nessa jornada. Em 1990 nós fizemos a primeira Paixão de Cristo em Piracicaba. Muito simples. Na época não tinha estrutura, né? Eu lembro que os palcos eram carros alegóricos de carnaval, eram 3 palcos. E foi lá na ISALC, que é a Faculdade de Agronomia da USP, que fica lá em Piracicaba, que tem um campo maravilhoso, né, cheio de árvores, aquilo.
E muito ainda simples, muito, né, os atores, né, o O Enéas, como fala, usava os figurinos. Daí o restante não tinha figurino, usava lençóis, sabe, dois tipos de lençóis que amarrava no corpo de uma tal maneira que parecia roupa da época de Jesus, né. E foi um grande sucesso, mesmo na simplicidade, foi um grande sucesso. Daí nos anos 90, 91, eu acompanhei. Já nessa ocasião eu já tava trabalhando em Parnaíba, morava ainda, eu ficava em Piracicaba Em Santana de Parnaíba. 92 também fiz lá, 93 também acompanhei. 94, daí foi quando eu tive a ideia de trazer para Santana de Parnaíba.
Por que não fazer aqui? E também enquanto Pescaba já tava crescendo mais o espetáculo, Parnaíba nós começamos também de uma forma bem simples atrás da Igreja Matriz. Passei essa ideia na ocasião, né, e fizemos. E no mesmo molde, os personagens principais usavam roupas que eram, né, figurinos que eram fabricados, e os figurinos usavam lençóis. E também foi um grande sucesso, na simplicidade, que foi mais simples por esse cabimento quando começou, mas foi um grande sucesso.
As pessoas nunca tinham visto. E nós começamos aí a fazer a paixão. Daí, no ano seguinte, 95, me desentendi com a administração na época. Né, aquela falta de apoio que às vezes eles pedem para a gente fazer, mas as condições às vezes é zero. Daí eu saí de Parnaíba e fui fazer em Pirapora de Bom Jesus, que é uma cidade próxima a Santa Ana de Parnaíba e que tem a tradição, né, de ser o Bom Jesus de Pirapora, aquela coisa toda. Fiz 2 anos em Pirapora também com grande sucesso.
Depois eu retornei para Parnaíba, a administração tinha mudado, daí me chamaram de volta. Me deram as condições que eu precisava, né, começaram a dar. E a cada ano daí eu fui pesquisando, buscando, fui buscando. Daí mesmo em Nova Jerusalém, para quem achava que a ideia era minha, né, da Paixão de Cristo, descobri Nova Jerusalém que já fazia. Só que eu fiquei mais frustrado ainda quando descobri que isso existia desde a Idade Média.
Falei, nossa, que novidade! E daí foi quando eu descobri, através do Plínio Pacheco, né, que foi a fonte de inspiração dele também, de Oberammergau na Alemanha. Oberammergau é uma cidade ali na Bavária, é um vilarejo que eles ensinam a Paixão de Cristo, que é considerada a maior do mundo. Começou, né, a história é muito interessante, que quando houve aquela peste que devastou a Europa, né, acho que era bombônica, né, que nossa, morreu milhares, milhões de pessoas.
Essa comunidade fez uma promessa que se a peste atingisse a comunidade, eles começariam a encenar a Paixão de Cristo todo ano. E aquelas coisas, né, os milagres da vida, realmente praticamente não atingiu essa comunidade. E eles começaram daí a fazer a Paixão de Cristo todo ano. Desde a Idade Média, né? E depois é todo ano sozinho, envolvia a comunidade. Depois acho que foi na Primeira Guerra Mundial que daí eles começaram a fazer de 4 em 4 anos, né?
Porque daí, e hoje eles fazem de 10 em 10 anos, entendeu? Mas assim, é de 10 em 10 anos, mas se resume só a Semana Santa. Geralmente eles começam em março apresentar e vai até agosto. É quando eu descobri que é aquela história que eu falei para você lá atrás. Eu fui atrás de Gutenberg, descobri Goethe e fui indo. A mesma coisa acontecendo com a Paixão de Cristo. Descobri Nova Jerusalém, descobri o Berenbergau, sabe? Você vai indo sempre nas fontes, né?
E daí eu tive alegria, honra o enorme prazer do ano 2000 ir para Alemanha, Gilbermeier-Gau, assistir A Paixão de Cristo lá. Para mim foi um grande presente. É, quando se fala no sentido da maior do mundo, não é a maior em questão de estrutura, porque Nova Jerusalém é maior, porque lá é um teatro, né, ao ar livre. Nossa, e Cercada por muralhas de pedra, o cenário, tudo, sabe? O Palácio de Herodes ali construído tudo de alvenaria, o Pilatos, tudo isso, né?
E o Beni Bergau é um grande ginásio enorme e é um palco único que remete um pouco ao teatro grego, né? Aquele cenário único lá onde acontece tudo. Ela é extensa, né? E no ano 2000 teve 6 horas de oração, com intervalo, lógico, né? Mas assim, foi uma experiência muito incrível, porque realmente ali você vê uma força ancestral de muitos anos, de uma comunidade que se prepara e apresenta aquilo. Foi estranho porque o alemão tem aquela língua meio, né, pesada, e às vezes você viu Jesus Cristo, mas ele tava xingando e não pregando.
Mas ao mesmo tempo, lógico, não entendi nada alemão. Mas era incrível, porque à medida que ocorrendo as cenas, mesmo você sem entender o diálogo, você sabia que cena era aquela. E para mim foi uma experiência incrível. Depois que eu fui para Oberbergau, na Alemanha, daí trouxe mais elementos para Paixão de Cristo em Parnaíba, e a paixão começou a crescer. Só que diferente, por exemplo, de outros locais, que nem Nova Jerusalém.
Nova Jerusalém tem essa cidade, esse cenário, que é Como eu já disse, é o maior do mundo essa cidade cenográfica. Só que lá eles têm uma recriação artística, que nem, por exemplo, você pega o Palácio de Pilatos lá. O Palácio de Pilatos de Nova Jerusalém é um templo romano, né? Esses templos que a gente costuma conhecer. E também depois eu fui, né, que o prazer— eu falo, Deus, o universo vai te instrumentalizando. Acabei indo para Israel e quase um mês lá, entendeu?
A princípio fui meio como turista, mas já buscando fazer uma pesquisa. E, gente, quando eu chego em Israel, eu, para começar, eu tive um guia maravilhoso que devo muito a ele, mas as pessoas começaram a aparecer. Ó, eu tive contato com arqueólogo, com historiador, e pasme, Quando não fala português, tá errado. Eles falam espanhol, espanhol que dá para entender. Gente, essas pessoas apareceram, parece que, ó, você veio para cá, nós vamos te instrumentalizar.
O que eu tive de acesso a conhecimento, que daí quando eu de volta ao Brasil de Israel, eu falei, não, eu, se eu fizer uma cidade cenográfica em Parnaíba, um projeto cenográfico, eu não quero que seja artístico. Eu quero que seja arqueológico, até porque, por exemplo, como eu falei, o templo romano, esse tipo de templo, essa arquitetura não existia em Jerusalém. Os judeus na época permitia, entendeu? Não tinha nada de coisa assim de uma estrutura romana em Jerusalém, tanto que foi construída uma cidade chamada Cesareia, né, que também é Israel, em homenagem a César.
E lá sim, nessa cidade, é basicamente muitas construções romanas. Inspirado em Roma, mas Jerusalém não tinha. Tanto que você pega o Palácio de Pilatos mesmo na época, isso eu falo porque eu tive acesso a um projeto arquitetônico em Jerusalém, tinha lá uma maquete enorme do Hotel Holy Land lá, que segundo historiadores, arqueólogos, é o que mais aproxima do que era na época de Jesus. E o Palácio de Pilatos, até então chamado de Fortaleza Antônia, não correspondia nada à arquitetura romana.
E nessa pesquisa aí eu percebi que tudo é muito diferente. Falei, não, essa pesquisa é essa cenografia que eu quero trazer para Parnaíba. Eu quero reproduzir Jerusalém não de uma forma artística, mas como era realmente, né, na época de Jesus. E com todo esse material vim, e hoje a nossa pesquisa em Parnaíba é exatamente isso. Hoje eu posso dizer que Santana de Curitiba é o único lugar no mundo, isso posso falar com uma honra, com a maior segurança, que reproduz fielmente, segundo esses historiadores, arqueólogos, como era Jerusalém na época de Jesus.
Existe um projeto, ainda é feito, né, de madeira, né, com revestimento. Todo ano constrói, depois desconstrói, arruma. Mas isso projeta na gente também fazer, não sei quando isso vai acontecer, não depende de mim, mas de fazer também de alvenaria, que daí fica além de abrigar o Dama da Paixão normalmente, vai ser também, vou falar mais, um ponto turístico em que as pessoas poderão durante um ano ir, tá lá, né, e ter acesso a isso.
Então, Dama da Paixão assim é, quando eu falo de mudança espiritual, né, daquela coisa toda que sempre notou minha vida, isso, aquilo. É, começou dessa forma, desse desejo artístico, esse anseio artístico. Mas com o tempo eu comecei a perceber, né, já estando no xamanismo, desenvolvendo cada vez mais a minha espiritualidade, que na verdade era muito mais que um anseio artístico, tinha todo um trabalho espiritual por detrás. E é muito incrível que eu trabalho isso.
Diferente de muitas outras paixões que ficam na parte artística, sobretudo com os atores que vêm, que são pessoas da comunidade, não são atores formados. A grande maioria é da comunidade. Muitos começaram na paixão, depois foram fazer escola de teatro, se formaram, voltaram a fazer paixão. Mas basicamente a comunidade que faz, né? E a minha preocupação é sempre essa. Eu sempre falo assim, ó, eu procuro fazer o drama da paixão que transforme as pessoas, que mude.
Agora, se é para transformar, se é para mudar, o primeiro que tem que sair transformado e mudado sou eu. E daí tudo aquilo que eu aprendi, todo aquele aprendizado, né, incluindo as danças circulares, enfim, tudo eu acabo, né, direcionando para o drama da paixão, né. Sobretudo é, e tanto que eu falo que o drama da paixão de Cristo, que eu falo, porque as pessoas falam, ah, o espetáculo religioso Falei, não, não é religioso, entendeu?
Ele é cheio de religiosidade, ele pega a figura de Cristo, mas nós não ficamos no plano religioso. Eu lembro quando comecei, eu tive assim alguns atritos com padre local na época, que queria que eu fizesse, consultasse o padre, isso, aquilo. E olha que eu venho, eu sou de uma família também que é da Igreja Católica, né? Mas daí eu falei, não, você consultar o padre, vou ter que consultar o pastor, o pai de santo, todo mundo, porque, né, acho que eu tava comênico.
É, aí eu nem fico na figura religiosa, eu tenho meu lado cristão que pega isso, mas ali quando traz Jesus Cristo no plano teatral, ali ele é um mito, né? Então eu vou no plano mítico, arquetípico da coisa. Que daí vai ser muito mais abrangente. E daí é nisso, e sempre batendo nessa tecla, trabalhando na espiritualidade do espetáculo, sabe? E é incrível, gente, é incrível como isso realmente transforma as pessoas que se permitem também, né?
Tem que estar aberto para isso. Eu lembro, teve um depoimento de uma senhora que foi uma das— a gente tem muitos depoimentos do Drama da Paixão, né? Ah, e falando do Drama da Paixão, né, porque até então era Paixão de Cristo, e o Beni Bergau lá traduzindo, não vou saber dizer agora em alemão, mas traduzindo para o Brasil dá Drama da Paixão. E daí, em homenagem ao Beni Bergau, a toda essa história, daí que comecei a chamar Drama da Paixão.
Até então não tinha no Brasil, era tudo Paixão de Cristo. Hoje outros locais já chamam de Dama da Paixão também, porque Parnaíba se tornou referência desse tipo de espetáculo. Mas voltando o que eu tava falando, né, dos grandes depoimentos que a gente ouve. Uma senhora, uma vez, quando terminou uma apresentação do espetáculo, ela me procurou, pediu para mim dar um abraço, e chorando ela contou uma história que até hoje, que um ano antes Ela tinha um projeto, ela tava assim muito desgostosa da vida, e aí ela tinha um projeto disso mesmo, ela tava, a ideia estava muito forte na cabeça dela.
Daí ela saiu do SPTV, sempre sai, a Globo sempre deu uma boa cobertura, ela viu A Paixão de Cristo lá e já tinha comprado uma arma. Nossa, é uma história meio longa, mas ela ia Daí ela viu aquelas imagens do espetáculo, ela resolveu assistir. Daí ela veio assistir o espetáculo. Segundo ela, ela chorou o espetáculo inteiro. Ela falou que nunca chorou na vida como ela chorou aquele dia, tendo esse contato vivo com o espetáculo, né?
Porque em cenários naturais, que a ideia do Drama da Paixão é isso, é fazer com que o público se sinta que voltou há 2000 anos atrás, que eles não vejam uma encenação teatral. É como se estivesse na época. Ele acaba imediatamente sendo um personagem da época, assim que Jesus viveu, né? Essa é a ideia do espetáculo. Tanto que eu sempre falo que o grande público de assistir um espetáculo não é público de teatro, é o público que tem essa religiosidade, entendeu?
Vai em busca disso, entendeu? E Ela desistiu da ideia, mexeu com ela, entendeu? E, meu, quando eu ouço esse tipo de depoimento, que é, eu vou dizer nem prêmio, porque prêmio entra uma coisa de ego, né? Não, mas que a honra maior que isso, sabe? Que aquilo que você tá fazendo, da forma que você tá fazendo, buscando mais do que uma encenação teatral, mas buscando algo que transcenda isso, A origem do teatro é isso. Quando o teatro começou lá atrás, era para transcender mesmo.
Foi se perdendo. É, o teatro não pode ficar ligado só a um mero entretenimento. Ela conta quem faz, mas, meu, essa coisa pulsante, ela não pode se perder. Não importa de tipo de peça que você faz. E o drama da paixão, nesses anos todos, ele vem conquistando, cada vez mais aumentando o público. E se eu contar os depoimentos aí, né, só para fechar esse ciclo, ela traz a igreja matriz ainda. Eu lembro que logo que eu voltei de Israel, eu trouxe umas pedrinhas, nada, não delapidei nenhum monumento lá.
Mas em Jerusalém, por exemplo, onde Jesus foi crucificado, diz que ele foi crucificado, tem umas pedrinhas locais. Eu pegava umas pedrinhas, como assim? Eu vou levar pedrinha daqui e de lá, né? Não vou dizer que nem a pedrinha da época, mas é do local. Onde Jesus nasceu, lá em Belém, também é a mesma coisa. Em Nazaré também é a mesma coisa, sabe? E quando a gente fazia o cenário atrás da igreja ainda e pegasse as pedrinhas, o local da crucificação, a pedra que eu trouxe do local que ele foi crucificado, eu colocava no cenário.
No nascimento, colocava no cenário. E naquele ano também eu trouxe água do Rio Jordão Esses dois dedos que eu misturei com água do cenário. E no programa Gugu Liberato, que ele tinha ainda no SBT na época, lá o Domingo Legal, ele fez uma cobertura maravilhosa do espetáculo. E sabe como é a imprensa? A imprensa sempre exagera, sempre se passa uma coisa e eles dão outra. E daí eles falaram que todas as pedras do cenário tinha vindo de Israel.
E lá tinha um aqueduto, porque diferente de onde acontece o drama hoje, é um local bem maior, né? O público fica mais distante. Atrás da igreja não, ficava tudo juntinho. E nós fizemos um cenário de um aqueduto e tinha um monte de umas pedras, tudo embaixo desse aqueduto, né? Que era pedra do Brasil mesmo, é só para enfeitar o cenário. Não ficou uma pedra, o pessoal levou embora achando que era de Israel. Eles não sabiam da minha história, aquelas pedrinhas pequenininhas, porque eu contei a história das pedrinhas, mas já viu, né?
E também eu lembro que tinha o cenário da Samaritana que é da onde Jesus, enquanto estava gritando, que pegaram no poço. E lá era cinográfico e tinha, como fala, essas latas, né, de água cortada, que ficava dentro do poço com água, mas era cinográfico. E eu lembro que tinha acabado a encenação, tinha uma senhorinha lá que ficou olhando de um lado, olhou de outro, sabe, como quem fosse fazer arte. Já tinha acabado, ela foi lá, pegou a garrafinha dela, pegou essa água e levou para casa.
É água normal, mas você vê, é como quem de repente nesse plano imaginário, nesse plano, como fala, arquetípico, as pessoas, né? E é isso, meu. Eu acho que quando eu falo da questão transcendental, espiritual, que move o coração, que move os sentimentos, é isso, entendeu? E o drama, paixão, é nessa vibe nessa carga que até hoje eu vou. E hoje eu sei que mais do que qualquer outra coisa é uma missão de vida, sabe? Hoje assim, é dentro da alquimia, porque assim, no teatro eu— isso começou com Antunes, depois que eu comecei a comer dele.
Aí você vê, eu fui estudar magia Né? E quando eu estudei magia, fui até para Escócia, porque eu vou, né? Fui para Irlanda. Eu, eu vou a fundo quando eu pego uma coisa. Tive contato com druidas lá, passei por uma iniciação para tentar compreender essa coisa da magia, porque a magia tá ligada no teatro. Eu acredito no teatro cheio de magia, porque magia tá ligada à transformação, né? Alquimia, a mesma coisa. Quando você fala transformar o chumbo em ouro, Né, fui estudar alquimia, mas é os nossos sentimentos negativos, toda aquela coisa toda, opa, e sentimentos positivos.
E também lida transformação, que o chato também lida. Então eu vou buscando, vou buscando, buscando. E uma das coisas que tem na alquimia, que é a Missão Magna, né, que fala que a gente vem ao mundo com uma, sabe, que até o Paulo Coelho, no livro Alquimista dele, ele chama de lenda pessoal, né? Mas que essa missão magna, que aquilo que você vem e o universo todo conspira a favor para aquilo acontecer, quando, lógico, quando está aberto.
E no drama Paixão foi isso, porque, gente, de uma ideia que começou no circo-teatro, ela foi desenvolvendo. E você vê Eu fui sendo instrumentalizado de uma tal forma que é isso, né? É mágico.
Você falou que no começo, né, as maiores dificuldades era de estrutura, né? Agora a estrutura é muito maior, são muitos atores. Quais são as maiores dificuldades hoje assim, tipo, dirigir? Tipo, quantos atores são? Esse ano teve cavalo, eu vi que tipo foi tipo algo tipo É muito grandioso, né?
Entre atores, figurantes, bailarinas, é o pessoal que faz a guarda romana, que durante um certo período foi o pessoal do exército que ia. Hoje aí são, eles disponibilizam lá uma parte da guarda municipal para fazer o exército romano. Somando dá uma média de 500 pessoas. A gente chegou a ser quase 1000 só de figurantes. Antigamente tinha 500, que é uma loucura. Daí eu cheguei à conclusão que precisaria tanto, até porque não são pessoas treinadas, são pessoas da comunidade.
E como são pessoas da comunidade, vinham muita molecada que vinha fazer bagunça, para arrumar namorada, namorado. E aquilo me cansava muito, porque eu falo, pô, eu sou diretor de teatro, não sou babá, pô. Né? E realmente eu perdia mais tempo em tentar educar muitas pessoas que viam pessoas que, imagina, vinha o Léo, né? Vinha o Léo. Então assim, era uma grande dificuldade. Depois deu uma enxugada, né, boa nisso. Mas hoje eu acho que a maior dificuldade, como se trata de prefeitura, né, Muitas empresas que vêm prestar serviços, elas são assim contratadas por licitações.
Lá atrás tinha um jeito de contratar as empresas que você queria, e daí você indicava aquelas que você confia, que já tem um trabalho legal, bacana. Hoje, infelizmente, as empresas ganham, e quando elas chegam, nem todas elas estão lá para fazer aquilo. É que na hora de estourar no papel, eles mandam tudo perfeito, mas quando chega lá, a bomba vai estourar na minha mão. Meu Deus! Quando a empresa ainda é humilde e chega lá, que não é fácil também, eu acho que, meu, a empresa tem que prestar o serviço dela que ela se propôs, mas ainda entra um lado franciscano, um lado cristão, que você vai tentando Mas às vezes essas mesmas empresas têm pessoas que chegam arrogantes, achando que sabem uma coisa que elas não sabem, e querem discutir comigo, que é uma pessoa que há muitos anos faz esse espetáculo, há 30, contando para esse cabra, posso dizer, há 37 anos, sabe?
Quem não sabe? E aí a minha maior dificuldade, minha maior dificuldade mesmo, e daí você tem que lidar com esse tipo de empresa E a prefeitura também fica refém, porque a não ser que tenha um motivo bem maior, ela ganhou a licitação. Pode simplesmente, para eliminar a empresa, tem todo um processo jurídico. E esse ano mesmo assim foi muito desgastante para mim, porque uma das empresas aí, a de som de luz, me deu um grande trabalho, sabe?
Porque você faz um espetáculo lindíssimo, tem os meus atores lá, são voluntários, não recebem nada. Eles estão desde janeiro ensaiando direto, com o maior amor, carinho, dedicação. Você ganhar um tostão. Daí vem essas empresas e muitas vezes estão ganhando bem, elas não dão o que é preciso. E daí, lógico, vai entrar em choque com o diretor. E daí é desgastante, porque daí vem aquela coisa: ah, o diretor é chato, ah, o cara não é isso.
Porque, meu, eu prezo pelo bom espetáculo. Então isso é umas coisas assim que Me cansa um pouco. Sempre peço a Deus que, ó, me fortaleça nesse sentido, porque esse ano até pensei, não vou fazer mais não, porque, pô, a gente prepara, prepara, prepara, sabe? É igual, vou dar uma metáfora de um quadro. Você faz um quadro bonitinho, isso, aquilo, pinta, coloca carinha, ficou bonito. Daí você vai entregar para alguém fazer uma moldura, vem aquela moldura que acaba estragando.
Que a turma vai ficar olhando aquela moldura horrível e deixa de prestar atenção no quadro, que isso acontece. Então a minha maior dificuldade é isso, é trabalhar, infelizmente, porque uma coisa é quando você trabalha com pessoas que tá fazendo aquilo por amor, sabe, estão se entregando àquilo, seja por anseio artístico, seja por anseio espiritual. Mas quando você é obrigado a trabalhar empresas que na verdade tá preocupando, preocupada só de ganhar o dela e da maneira mais fácil, entendeu?
Aí é triste. Então a maior dificuldade é isso, é trabalhar com essa, né, que infelizmente nós não temos essa liberdade de escolher as empresas. É diferente de uma, por exemplo, eu já trabalhei dentro do Globo, já trabalhei com umas produções de TV, né, e tinha ligação com produções teatrais, essa coisa toda. Quando não tem senância de prefeitura, que é algo público, daí você tá ali, você pode escolher quem você quiser, que tudo bem, aí é legal, é bacana, se funciona, troca.
Mas infelizmente algo público não é assim, né, porque tem todo. E às vezes uma das coisas que me desanima também, essas leis que as pessoas inventam, porque mesmo em Parnaíba tem muitas pessoas boas que lá atrás faziam drama, empresas que prestam serviço. Hoje tem uma bendita lei aí que quando abre essa licitação, abre para o Brasil inteiro, entendeu? E de repente vem, por exemplo, uma empresa de outro estado. Teve uma empresa que veio fazer gravação do espetáculo, né, dos áudios, o ano passado, que era lá de Natal, pô.
Quando na verdade na cidade nós tínhamos antes pessoas que têm a mesma empresa, que faziam por amor tem um trabalho bonito, é a mesma coisa também, figurino, entendeu? Tem as pessoas de Catarina que tem empresa que fazem, mas quando entra em licitação elas perdem para essas outras empresas. Nada contra essas outras empresas, mas eu fico pensando, pô, essas empresas da cidade não paga imposto aqui, o dinheiro da empresa não fica aqui, né?
Mas infelizmente é lei, né, que de repente as pessoas da cidade perdem oportunidade Porque vem pessoas de outro estado, compreende? Então assim, e não é culpa da prefeitura, é essa lei aí que inventaram aí, que eu não entendo de lei, entendo de teatro, né, que dificulta muito espetáculo. Isso aí é uma coisa que vai cansando, que você fala, pô, até quando, né? A gente empenha, empenha, empenha, empenha, empenha, e no final ser obrigado a ver algumas coisas destruídas porque a empresa às vezes não tem a capacitação necessária. Não são todas, né?
São só algumas. E com os atores assim, você tem que lidar com 500 pessoas, né? Como que você faz para conseguir, tipo, dar conta disso? É muita gente. Imagino que o trabalho seja, tipo, muito exaustivo. E deve ser, tipo, incrível no final, quando deu tudo certo assim, de, tipo, você, caramba, meu trabalho deu certo! Mas como que você faz esse manejo assim de toda essa carreira, é muita gente.
Às vezes as pessoas me perguntam sobre isso, né? Como você faz tudo isso? Como você consegue isso, aquilo? Eu costumo brincar, eu falo: eu nunca parei para pensar, sabia? Porque o dia que eu pensar, acho que eu vou sair correndo, né? Que é uma brincadeira que eu faço, lógico. Mas eu acho que é a experiência de todos esses anos, até esse fortalecimento espiritual que fez entender muitas coisas, me ajuda nesse sentido, que não é fácil.
Até porque realmente vem pessoas assim que muitas delas no início elas vêm com outro propósito, porque é muita gente, entendeu? Então até fazer elas engrenarem nesse objetivo ali eu tenho um pulso desde o início, até porque eu sempre fui um diretor exigente. Sempre, sempre saía, sabe? Eu sempre falo para os atores, para o pessoal que vem fazer comigo, meu, aqui vocês não vão brincar de fazer teatro não, vocês vão fazer teatro.
Embora o teatro seja uma grande brincadeira, pense paradoxo, mas uma brincadeira séria. Então não vem aqui para querer, né? Então é uma postura que eu fui assumindo, que alguns acham que até ditador, isso, aquilo, né? Isso, aquilo, as pessoas aparecem que tem medo muitas vezes de mim. Bem, se para fazer certinho tem que ter medo, tudo bem, que lá então. Mas sobretudo eu falo, não, é o respeito que eu quero, né? E as pessoas acham que tem medo, mas no fundo elas nem sabem o que estão dizendo, porque na verdade é o respeito.
Porque muitas delas que eu pego no pé, isso aqui, ele voou, porque a coisa tem que sair, é. E o tempo é pouco que a gente faz esse tipo de ensinação. Quando vê tudo pronto, fala, nossa, parece que ele ficou o ano todo ensaiando. Não, são 2 meses e praticamente finais de semana só que a gente ensaia. Então tem que ser um pulso firme, né? Mas todo ano as pessoas, a grande maioria, vai no ano seguinte, tá lá junto, entendeu? E na hora que você tem que dar aquele carinho no final do espetáculo, eles reconhecem, né, tudo, tudo que eu fiz.
Isso que é maravilhoso, né? Porque Eu acho que essa sustentação, né, que faz o sucesso do espetáculo, entendeu? Lógico, uma equipe maravilhosa, que eu sempre vou realçar essa equipe. Durante esses anos eu fui formando uma equipe de pessoas que começaram comigo, aprenderam. Sem eles não sou nada, né? E depois tem, há um tempo atrás, logo no início, eu tinha uma dificuldade também, porque às vezes as pessoas assim, as pessoas da prefeitura às vezes vinham E pensava em cenário, naquela coisa toda, uma parte estrutural.
Na parte humana, nos atores, não tinha. É se vira aí, Edmilson. E no início é muito obrigado, eu era obrigado a ser diretor, produtor. Às vezes tinha época, né, que eu tinha que ir para ensaio porque o pessoal do cenário: Edmilson, faltou prego aqui. Que eu tenho que ver com prego, mas é eu que tinha que ir atrás, entrar em contato com alguém da secretaria para providenciar emprego. Tava dizendo, acabou a água, Edmilson, pelo amor de Deus, sabe?
Então era até hoje, não. Hoje, graças a Deus, tem um pessoal que reconhece, sabe, que eu preciso ser o diretor. Hoje é um pessoal de apoio da própria prefeitura que tá do lado de fora, que toda essa parte estrutural eles que vem, entendeu? Eu não me preocupo com isso, que é importante, porque sabe, o atual secretário ele fala, você tem que dirigir. É isso, tem que dirigir. Eu tenho, não sou produtor de espetáculo, entendeu? E hoje, graças a Deus, eu tenho essa liberdade para, né, e uma liberdade de trabalho também que para mim é muito importante.
Porque, ó, já passei por várias gestões aí, vários, vários, né, vários prefeitos, né. E desde que eu comecei lá atrás, que na questão artística ninguém veio Nunca opinar. No início até tentava, mas aí eu botava, eu mantinha ali firme. Falei, ó, pera lá, o diretor sou eu, é você. Eu não vou dar palpite para você conduzir a cidade, não vem dar palpite aqui. Então, lógico, correndo riscos, riscos, porque você sabe que corre. Mas eu fui daí ganhando respeito.
Então, neste momento assim, o que eu faço Às vezes pode até ser o que eles não queriam naquele momento, mas deixa eu ir. Então essa liberdade para mim é importante, sabe? Em relação ao tema do drama da paixão, cada ano tem um tema, é eu que escolho. E sempre nessa conexão espiritual que eu sinto o tema que vai ser aquele ano e vem, né? Então é isso para mim é importante, né? Porque até eu sempre falo, né, que não é demagogia, não é que quando eu descobri que o Drama da Paixão era uma missão, eu falei, ó, o grande diretor desse espetáculo é Deus, eu sou assistente dele, né?
E é porque, gente, é as coisas que acontecem, o espetáculo, nossa, muitas histórias, sabe? Tudo que eu vivi, tudo que eu senti, vivo e sinto até hoje. Eu falo, não tem outra explicação, gente, sabe? E é isso que me fortalece, porque não é fácil, não é fácil, entendeu? A turma costuma ver aquele famoso ditado, as pingas que a gente toma, né? Mas os tombos que a gente leva, e são muitos, ninguém vê. E já levei cada tombo e levo, né?
Então, mas assim, ó, você sente essa força, você sente assim que, sabe, que eu falo, não, Eu lembro que teve uma vez, só essa história, teve outras também, que acho que foi numa quinta-feira. A partir daqui, chuva, chuva, chuva, chuva, chuva, chuva, chuva, né? E eu falei, caramba, né? Naquela época tinha assim, né? Na época que eu contei do padre, que no início de dificuldade, daí tinha umas birratadas, tá tudo contra mim, porque ela tava ouvindo o padre, não sei o quê, ela tava achando que eu era, né?
E daí deu uma chuva à tarde que eu vi que aquela chuva ia atravessar. Falei, meu Deus, se chover à noite vão falar que foi castigo, foi castigo. Falei, meu Deus, olha, eu te juro, fui no canto lá, falei assim, me ajuda aí nesse sentido aí, porque, né, senão também vão achar que eu tô errado, né? Sabe quando vocês quietinho lá no meio da mata fazendo essa sintonia incrível. O tempo limpou e foi, fez uma noite estrelada. É claro, a história, se quiser que seja coincidência, vai ser coincidência, mas se quiser que seja outra coisa muito mais forte, vai ser também.
E eu escolho para essa coisa muito mais forte. Então Então são as coisas que a vida vai nos dando.
Tá tudo conectado, né?
Perfeitamente.
Agora a gente vai mudar um pouquinho de assunto, a gente vai para as danças circulares. Para quem tá assistindo e não conhece, explica o que que são as danças circulares.
As danças circulares é um movimento que surgiu há 50 anos atrás na comunidade Findhorn, na Escócia, que é uma ecovila, a maior ecovila do mundo. E é uma comunidade que trabalha muito o autoconhecimento também. Ela foi criada lá, né, por dois casais de amigos e buscando uma sustentação ecológica. E tem toda uma história que se contar é meio longa, mas é uma história muito bonita. E lá, né, 50 anos atrás exatamente, um bailarino alemão famoso, bailarino alemão, é o Bernhard Wollzin.
Ele começou a pesquisar danças folclóricas e danças de roda. A princípio que ele se interessou, e ele levou para essa comunidade. E ao dançar com as pessoas, eles começaram a perceber o que essa dança trazia. Que além dos gestos, movimentos, você vai perceber a transcendência da dança, né? O que elas ensinavam através da música, da partitura, enfim, dos movimentos gerais. E foi um trabalho forte o que ele fez. Acho que ele deve ter levado, não sei se 10 ou 12 danças a princípio.
Deu um grande resultado, ele começou a levar mais. E daí costuma-se dizer que através do Bernardo Wolsin, né, e a comunidade Finron, até fala que ele é o pai do movimento das danças e a comunidade Finron é a mãe. Daí nasceu esse movimento das danças circulares sagradas, né, que se espalhou pelo mundo e tem um crescimento cada vez maior porque Elas são danças assim, posso dizer, muito terapêuticas, que realmente trabalham o ser, né?
E ela traz um legado assim, né, de uma certa ancestralidade que vem de povos antigos. Até porque a dança secular, deixar bem claro, começou o movimento em Finro, mas as danças seculares sempre existiram. Os povos Eles tinham essa, como fala, essa tendência a dançar em círculo. Se você pega os indígenas, eles têm as suas danças em círculo. Você pega, por exemplo, os gregos, eles dançavam em círculo. Os israelitas dançavam em círculo.
Quando eu fui para o Egito, né, que até então não tinha um repertório assim dos egípcios dançarem nessa circular, mas lá eu descobri que também Tinha danças circulares. Então você vê que é uma coisa que, imagina, há milhares de anos atrás, quando não tinha internet, não tinha nada, era tudo distante, um país não conhecia o outro direito, uma comunidade não conhecia, e eles tinham essa tendência a dançar em círculo. Então ela faz parte mesmo, né, dessa essência.
E a princípio essas danças eram dançadas em festividades, casamento, às vezes quando tinha boas colheitas, aniversários, né? É igual teatro, eu citei lá atrás quando começou, né? Então começa, mas até pouco se sabe se é teatro ou se é uma coisa mais espiritual, que as coisas confundem. Mesma coisa na dança, eles sentiam esse prazer, essa alegria que dava, mas ele não tinha consciência. Eu falo isso que a primeira vez que eu tive contato com uma dança circular, né, foi quando eu fui para Israel, e lá tinha dança circular, era apenas a dança circular, e eu dancei a dança circular, beleza, bacana, os movimentos achei gostoso, mas não tinha essa clareza do que significa o movimento, desse significado que tem por detrás, né.
E daí eu comecei a Vou falar, quando eu comecei o movimento, e foi através daquele livro que eu falei, que eu vi numa livraria, que é uma história muito interessante, porque você vê, pesquisando Gurdjieff, descobri as danças sagradas, que eu vou nas danças circulares, e lendo esse livro, eu lembro que o que tem nesse livro em comum, que eram vários capítulos, e cada capítulo era um depoimento de um focalizador. Que quem ensina danças circulares é chamado de focalizador, né?
E eles contavam suas experiências, essa coisa toda. E todos eles tinham algo em comum: eles tinham participado dos 20 anos das danças circulares em Finrow, que a Renata Ramos, minha mestra, levou todos eles para lá. E foi através desse livro que eu ouvi falar da comunidade, da história das danças, pela primeira vez. E é incrível que eu li esse livro basicamente em 2 dias Eu tava lendo um livro do Petit Bruque, que eu dei uma parada, li ele, e a sensação que eu tinha é que eu dançava com todos eles.
Daí eu falei, ah, vou fazer esse curso, né? E aí demorou um tempo para eu— eu lembro que daí tem a Editora Triomf, que a Renata, ela é a proprietária, é responsável, é uma editora que publica muitos livros de autoconhecimento, e vira e mexe ela dava esses cursos. Daí nunca deu certo de fazer, até que um dia eu vi que ia dar um curso em Nazaré Paulista de 4 dias. Falei, ah, vou fazer esse curso aí, né? Chegou o momento, entrei em contato, estava esgotado.
Caramba, né? Daí consegui o rapaz lá que me atendeu por telefone, falou, vou colocar o seu nome na lista de espera, mas espera muita coisa não, porque tem várias pessoas na sua frente. Falei, ixi, né? Vai ficar para uma próxima. Acho que deu uma hora, ele me ligou novamente, falou: surgiu uma vaga, eu ia dar para outra pessoa pela lista, mas eu senti que devia dar para você. Não sei, algo, as coisas, né, que vão acontecendo. Ai, que legal!
Então eu vou. E lá vou eu para Nazaré Paulista, aquela é uma comunidade, a Uniluz, que tem lá. É que é uma comunidade que trabalha também várias coisas. Fui sem saber onde era, gente. Na época não tinha carro, fui de ônibus. Peguei ônibus até Campinas. De Campinas eu peguei, olha, eu fiz todo um trabalho inverso, porque se eu fosse para São Paulo era mais fácil, mas eu às vezes escolho o caminho difícil. Fui até Campinas, depois de Campinas peguei um ônibus que ia para São José dos Campos, porque ele ficava ali no Dom Pedro, na Zé Paulista, e tinha que descer 1 km lá, mesmo quilômetro E eu lembro que à noite eu falei, nossa, amanhã eu nem sei onde é esse local aqui.
Falei, eu vou chegar lá e tudo escuro. Ó, o medo, né, o medo. Por isso eu falo sempre ali, né, as sombras ali. Eu falei, quer saber uma coisa, eu acho que eu vou para São José dos Campos, vou até o final do ônibus mesmo, volto para São Paulo e volto para minha casa, que eu não vou parar na estrada, não sei onde é. Ah, mas quando chegou o quilômetro, que coragem em si, umbreu. Era para pegar uma estrada de terra. Eu não sabia, daí eu vou pegar essa estrada, né?
E fui andando aquela cidade de terra onde tava marcado lá. Daí eu andando e nada, meu, mata, aquelas árvores, aquelas árvores parecia que viravam gigantes. Nossa, ali, sabe, o delírio é total, meio sozinho. Daí eu estava andando, pô, será que não é do outro lado não da estrada? Né, meu Deus, com uma bala! Falei, tô aqui, né? Daí fui, fui, fui, fui, até que veio um carro. Quando, ó, um carro vindo, falei, meu Deus, será que é bandido?
Vai me assaltar aqui agora? Que, meu, medo tem essas coisas. Daí eram duas moças perguntando se eu sabia onde era a ONU News. Falei, tô indo para lá, vocês vão fazer uma coincidência? Vamos! Aí daí falei, agora vou me implorar para elas ir com elas, né? Daí, onde será que fica? É um portão verde. Era escuro, não dava para ver nada. E a sorte que elas estavam lá, ó, e parou o carro exatamente na frente do local. Daí ela acendeu o farol, era o portão verde.
Se elas não tivessem aquele momento acendendo o farol, eu tinha ido embora. E daí acho que, né, daí opa, chamo, daí entramos. Eu falei, graças a Deus, cheguei. Daí eu lembro que comecei o curso das danças. Tem outras histórias interessantes, mas eu comecei o curso das danças com a Renata. Gente, terrível! Eu errava tudo. Observava a direita, eu ia para esquerda. Nossa, foi terrível! Isso que é as danças circulares sagradas, gente, que eu tô fazendo aqui.
Eu tinha a coordenação motora zero naquele momento. Daí eu lembro que queria ir embora, mas não tinha como ir embora, porque para ir eu fui de ônibus, mas para voltar tem um esquema de carona. E as caronas vinham embora só no último dia. Falei, vou ficar, né? Eu lembro que errava, errava. Renata, depois, na sua sabedoria, chegou para mim e falou, calma, você tá muito ansioso, pousa comigo. Tinha uma boa conversa. E daí ela explicou realmente essa função transcendental da dança, isso, aquilo, enfim, deu uma longa explicação.
Daí realmente eu fui, ela falou, ó, fica aqui que você vai aprender praticamente todas. E eu aprendi daí. Realmente eu sosseguei, sosseguei a mente, o ego, aprendi. E depois desse curso, já entrei no curso regular que ela dava lá na Trion, que ela dava um curso que era uma vez por semana, e não parei mais, né? Ela me norteou nesse sentido, porque a dança veio nessa complementação, essa grande busca espiritual. Até quando eu conheci, se chama Dança Circular Sagrada.
As pessoas têm uma tendência a colocar o termo sagrado ligado à religião, e não é isso. O sagrado é a importância total que você dá àquilo, de viver o momento presente, no aqui e no agora, né? Um escovar de dentes pode ser um momento sagrado se você estiver inteiramente presente nesse escovar de dentes, mas geralmente não acontece isso. Tá escovando dentes e tá A mente no outro lugar, é, tá almoçando, tá pensando na janta, tá jantando, tá pensando no café da manhã.
E aí a gente não tá presente, é difícil. A mente é assim, né? E daí, nesse sentido, eu comecei a compreender, né? Nossa, que maravilhoso é isso! Que daí comecei, gente, a cada dança, porque são danças de vários povos, né? Hoje o movimento traz danças israelitas, grega, indígena e de outros povos. E também são as danças que hoje são criadas, né, por focalizadores, que daí começam a fazer parte do movimento também. Eu mesmo já criei várias, né.
E como eu falei, é um potencial muito forte no trabalho teatral. Por quê? Porque a partir do momento que a gente tem a ideia do círculo Que o ciclo você sabe que é o símbolo da totalidade e da unidade. E o ciclo é o símbolo mais forte que nós temos, que representa o próprio universo, né? E quando se fala de ciclo, remete à ideia também da Távola Redonda do Rei Arthur, né, que nas histórias da cavalaria medieval do Rei Arthur, né, diz que ele tinha, né, a mesa, tábua redonda, que onde todos eram iguais, estavam em posições diferentes, mas eram todos iguais, que não tinha aquela mesa reticular que o rei ficava na cabeceira e pronto, né?
E a dança, ela traz essa coisa da harmonia mesmo, de pertencimento. Tem uma coisa que eu sempre defendo, né, que daquela frase: somos todos um. Isso, um é Deus, assim, um é o universo. E somos, respeitando, sim, lógico, cada um tem a sua individualidade, não é igualzinho ao outro, mas todos pertencem a uma coisa só, a uma energia única. E é nesse sentido que somos todos um. E a dança, quando ela traz isso para nas mais diferentes esferas, no teatro é isso que eu sempre defendo.
Quando a gente tá numa montagem teatral Poxa, nem importa se meu papel é pequeno, se é grande, se eu sou diretor, meu, tá todo mundo no mesmo barco, em posições diferentes, mas é a mesma coisa. E essa coisa assim de totalidade, né, a dança ela trouxe muito isso mesmo. E você vê, ela é tão importante hoje Nessas coisas do pertencimento, de tudo isso, que hoje ela é usada para empresas. Tem empresa que contrata focalizadores para trabalhar os funcionários, para buscar uma harmonia.
Professores de educação física hoje levam as danças circulares para sair daquela coisa só do esporte, essa coisa toda. Terapeutas uso uma dança, porque tem danças as mais variadas. Tem as danças assim mais folclóricas, né, que remetem aos povos. Tem as danças meditativas, né. Por exemplo, um trabalho de danças que eu acho fabuloso, não sei se você já ouviu falar dos Florais de Bach, né. Os Florais de Bach são remédios feitos de flores, criado pelo Dr.
Bach, né, que é uma medicina alternativa. Que é muito usado, né, no mundo. E teve uma senhora, né, a Nastassí Yang, lembro bem, né, que ela, estudiosa que é das danças, para cada floral, esses florais, porque são florais para vários tipos, né, de doenças espirituais, físicas até, ela criou uma dança, ela escolheu uma música, uma dança com passos que remete aquele floral. São 36 florais, ela criou 36 danças. Gente, é maravilhoso.
Então ela traz, né, por isso que o livro que eu, o primeiro livro que eu comprei de danças era Danças Seculares: Uma Proposta de Educação e Cura. Ela, meu, ela traz muita cura. Trouxe para mim, quando eu relato para os alunos assim e ouço os seus depoimentos, Eles dão depoimento de cura. Quantas vezes a gente vai ensaiar que você chega lá e fala: nossa, por mais que eu te ame, teatro, gosto, mas tem dia que você tá cansado. Rapaz, eu queria estar na minha casa hoje.
Você faz umas 2, 3 danças circulares, muda totalmente a energia, muda totalmente para melhor, né? Muda assim, é incrível, é incrível como ela sabe A dança já floresceu melhor, tá, gente? Eu lembro que eu tinha um trauma de dirigir carro. Você dirigir com quase 40 anos, tinha medo, né? Não tirava carta, isso, aquilo. E tinha uma dança circular que a Renata tentava me ensinar e não aprendia nem a pau.
Difícil.
E eu criando coisas, né? E de volta ansiedade que eu tive lá no início com ela, mas voltou nessa dança. E eu não tinha como aprender essa dança. Um dia falou de mim: vem mais cedo aqui amanhã, com calma, que aí você vai saber que você tá errando. E conforme você vai mais errando, você vê as pessoas ali, você começa a ficar mais fechado. Daí eu fui com ela, daí, né, fui. Meu, aquilo que eu aprendi em 2, 3 meses, uma manhã eu saí dançando.
E eu morria de medo de dirigir, né? Tinha tirado carta, mas não dirigia. Eu pagava motorista na época, tinha comprado um carro, mas eu tinha medo de dirigir. Contratava um motorista para me levar para os locais. E daí eu lembro que naquela mesma ocasião ia ter o Encontro Nacional de Danças Escolares, que eu já participei de muitos anos, e eu não arrumei nenhum motorista para dirigir para mim no carro, para me levar até lá. Nossa, daí, ó, você vê as pontes, né?
Que eu falei, poxa vida, se eu aprender essa dança aí, eu vou dirigir o carro, pô. Pela primeira vez peguei o carro e fui estrada afora, pedi o meu de dirigir. Você vê que uma coisa, então essa força da dança que transcende, nossa, sentimentos, transcende histórias. Ela é muito importante. Até recentemente a Renata, porque é um movimento que geralmente muitas mulheres, é mais mulheres que participam do movimento do que homem, entendeu?
E daí a Renata ela fez um livro, né, que ela chamou vários focalizadores homens, né, para escrever um capítulo. E eu tive a honra de escrever um capítulo nesse livro que foi lançado Recentemente sobre danças circulares. Então assim, falar das danças circulares é falar do infinito mesmo de possibilidades, né, energéticas, emocionais, né, e de muita cura, né. Então assim, o que eu posso falar é muita cura mesmo. E aconselho, né, quem não experimentou as danças circulares Pelo menos experimente uma vez na vida, que, ó, é apaixonante.
É muito bom. Inclusive participei de algumas rodas.
Ah, você dançou comigo lá, né? E não sentiu essa energia boa?
É muito bom, é muito incrível. Você falou sobre dança folclórica. O que diferencia uma dança circular de uma dança folclórica?
É lógico, tem danças folclóricas das mais diversas formas, que não é só circular, né? Danças mais soltas, mais livres, né? Aqui no Brasil tem o maracatu, o bumbum boy, que são espécies de danças misturadas com teatro também. Tem tudo isso, mas a dança folclórica, no sentido, quando vem no sentido secular, é porque ela tá ligada à história, a tradições assim daquele povo bem específico. Sabe, que às vezes vai ligar, vai ser ligado a lendas, a mitos, né, que daí que nasce um folclore, né, opa, desse material todo, entendeu.
Então seria assim, essa manifestação viva da cultura cultural de um povo, né, né. A cultura muitas vezes ela produz o folclore que vira folclore, né. E o que deve ser dado a esse Por exemplo, se você pega uma dança, deixa eu ver lá, uma dança foi criada recentemente, criada por uma grande amiga minha, a Cristina Bonetti, que tem uma pesquisa muito grande até de danças folclóricas, que depois passada para danças escolares, né? Tem uma pesquisa linda sobre isso, ela é de Goiânia, e ela criou uma dança que é em cima de uma música folclórica.
Que tá no nosso regionalismo, que é o Escravos de Jó. Aqui tem até a brincadeirinha dos sapatos, lembra? Ele vai passando. Ela criou uma dança, a princípio é uma música folclórica, seria uma dança folclórica no primeiro momento porque tá trazendo essa música folclórica, mas a consciência dos passos, do que ela fornece além É o que daí vai dar nessa dança escolar sagrada. Porque os carros de joelho, você pode dançar, isso é só uma dança folclórica gostosa, bonitinha, de roda.
Mas quando essa dança do jeito que ela criou, ela vai trabalhando ritmos, várias coisas, você percebe na dança o ritmo da vida, sabe? Você percebe, sabe, alguns passos que ela vai fazendo, que são coisas simples, que a princípio parece infantis, mas vou falar, a redundância disso tudo, a ligação que ela tem com algo a mais, você fala, meu, você começa a perceber coisas nesse espaço simples que você faz uma analogia com a tua vida, só, meu, e é isso que é a dança sagrada.
E eu gosto de usar hoje o sagrado, a dança sagrada, as pessoas não falam tanto dança sagrada Fala dança secular mais, porque se criou um preconceito. Ai, porque a turma misturou com uma coisa meio religiosa, essa coisa toda, né? Mas eu gosto do termo sagrado. É lógico, às vezes você vai numa empresa, ou dependendo onde você vai, sagrado assusta um pouco. A turma acha que tá ligado à religião e não tá, né? Mas quando eu coloco a dança secular sagrada, o teatro sagrado, é nesse sentido, é comprometimento Total.
Sim, você mencionou, né, que as danças circulares foi tipo uma galera que se juntou e sistematizou dança de várias partes do mundo, né? Recentemente eu fui para Pernambuco e lá minha família dança ciranda, que foi muito incrível. Para você, por que que em várias partes do mundo os povos e culturas, de culturas totalmente distintas, por que elas se reúnem em roda para dançar?
É uma boa pergunta, né? Uma pergunta, porque talvez essa conexão de sentir que tá no nosso DNA, que eu tenho aquela definição muito própria, que quando nós nascemos, a gente nasce com DNA do universo. Todas as informações, elas estão em nós, todas, né? Todas as informações estão em nós. E aí você vai até entrar dentro do cristianismo, quando Jesus falava lá: o reino de Deus está dentro de vós, né? Que a gente vai buscar nas alturas.
E isso também em várias religiões, de formas diferentes, fala a mesma coisa. Então, uma vez, a coisa que, meu, se o reino de Deus é o universo, tá dentro de nós, é o universo dentro de nós. Então a gente tem todas essas informações. Que de acordo com as suas experiências, a sua vivência, né, a sua cultura, você vai conectando algumas coisas, né, você vai conectando, vai, lógico, nem tudo, né. E como, por exemplo, né, o ciclo, hoje eu falei, ele é o maior símbolo do universo que tá em comum em todos, é isso que funciona.
Que nem tem a dança circular, né, que Quando você vê um país, um povo que nunca conheceu outro, fazendo em círculo. Então é esse DNA mesmo circular, essa coisa que tá embutida em todos nós, que as pessoas de uma certa forma vão percebendo e não precisa ensinar. Qualquer coisa que a gente faz na vida, ninguém ensinou, a gente tá fazendo, entendeu, né? Então, de uma certa forma, conecta com isso, com esse símbolo maior, que o símbolo ele tem vida.
É um símbolo, ele não é um símbolo morto. Muitas vezes a gente acha que é uma coisa, mas cada símbolo tem sua vida, né? Então acho isso. E uma das coisas muito também eu acho maravilhosas é que eu faço a dança circular, mas também eu tive acesso ao que eu também fui iniciado aí, a dança dos derviches. Você já ouviu falar? Assim como a dança circular é pessoas de mão dadas, uma roda, né? Ou tem danças que nem dão as mãos, mas estão sempre em círculo, seja espiral também.
A dança dos derviches é uma tradição bem antiga do Mestre Rumi, que vem de um braço do islamismo, entendeu? Que depois o próprio islamismo, as pessoas mais, como fala, conservadoras não gostaram muito, mas que criou um sistema dentro do islamismo que através de grande Mestre Rumi É que, nossa, tem escritos maravilhosos, que ele criou o giro, que o que difere na dança circular, eu acho que esse cumprimento das coisas é maravilhoso.
A dança, você tá em círculo de mãos dadas. A ideia, às vezes eu faço a ideia, né, assim como no livro que eu, que para mim é, eu gosto muito da filosofia hermética, né. Eu gosto muito da filosofia hermética, né, de Hermes Trismegisto, que fala tudo que tá em cima tá embaixo, que é correspondente, as coisas toda, né. Eu sou, por exemplo, você pega lá o sistema solar, o Sol e os planetas em volta. Você pega o átomo, o núcleo, elétrons e prótons em volta.
Quer dizer, não é igual, mas é correspondente energeticamente. Posso dizer que é a mesma coisa. E os derviches é uma dança que você gira em torno de você mesmo sozinho e vai girando e vai girando. E eu trago essa ideia que quando eu faço isso é o núcleo, é o centro, e quando eu tô na dança lá é os elétrons e prótons. Então quando eu associo essas duas coisas é maravilhoso. E eu, quando descobri as danças dos derviches, cheguei para Turquia, para Cônia, Né, onde se iniciou esse movimento, que é a dança circular, a dança escolar em roda.
E daí o sufismo, né, que daí o sufismo, criado pelo Mestre Rumi, né, que essa dança que sai girando tem toda uma técnica. E depois, porque assim, outro grande mestre assim indireto que eu tive também, que eu acabei descobrindo depois, pelo menos a obra dele, Depois você vai ver que a história dele é— mas aí você vê a obra, não vê a pessoa. Não vou entrar nesse contexto, mas que tem um trabalho maravilhoso, que é muito usado em grupos teatrais também.
O Osho, que é um mestre oriental, que ele traz umas meditações energéticas muito fortes, muito boas, que eu aplico nos meus grupos de teatro também, dá um resultado grande. Ele tem uma filosofia bonita também, entendeu? Se ele seguiu ou não, é problema dele, mas a Os ensinamentos, né? Se foi canalizado, mas o ensinamento tá bom. Você vê que tem muitas coisas coerentes ali. E a primeira vez que eu tive contato com esse giro foi numa meditação dele.
Depois que eu fui descobrir o giro dos revistes, lá já é uma técnica. Porque quando você tá num giro normal da meditação Osho, você vai 1, 2, 1, 2, você vai girando assim, né? Agora, no giro do reviste Não tem um, dois, é um, é um, é um. Mas tem uma técnica aí que não é fácil de conquistar essa técnica. E vai, né? E vai, e vai. E tem toda uma ritualística, né? Que uma disciplina férrea para você atingir, né? Quando eu fiz o curso, eu prefiro as meditações hoje, que é só um, dois, um, dois.
E mas é maravilhoso assim, porque quando você, gente, é, eu acho que é assim, ó, Manifestação é uma metáfora. Quando você dança a dança circular, você passeia pelo universo, entendeu? Quando você pratica, né, a dança sufi, dos derviches, você se torna o próprio universo, sabe? Então assim, é isso. E vê essas coisas vão aparecendo e praticando dá um resultado maravilhoso, né? O crescimento espiritual é tudo, né? Você vê quantas ferramentas não existe por aí, né?
E você vê, e povos diferentes. Ué, eu preciso ser, vou falar, muçulmano para praticar, entendeu? Eu posso de qualquer religião. E aconteceu uma coisa muito interessante, que logo que eu voltei da Turquia, de Konya, né, que é considerada a cidade dos derviches, quando eu fui para lá, porque como eu falei para você, todo ano eu tenho que fazer um tema do Drama Paixão. Esse tema, ele vem como inspiração, ele é me dado. Eu sempre espero o momento certo.
Às vezes uma situação, um momento, uma história, opa, eu sinto que é aquele tema que eu tenho que fazer. E daqui nesse ano veio o tema de eu fazer uma história sobre o Apocalipse. Na primeira parte, o Apocalipse de João lá, que fala, né, do fim do mundo, essas coisas. Nossa, que coisa mais complexa! Como eu vou fazer isso? Engraçado, antes eu vou para Turquia, que naquela ocasião eu fui para Turquia, voltei para Grécia e voltei para também para o Egito.
Eu falei, como que eu vou fazer isso aí, né? Eu lembro que eu vi um DVD que foi o primeiro sinal que eu devia fazer a história do Apocalipse. O DVD falava João Apocalipse, que ali eu senti que tinha que ter esse tema. Falei, nossa, não, não, não, não, né? Daí fui embora para Turquia. Daí eu, nas Ilhas Gregas, já que eu fiz o cruzeiro para as Ilhas Gregas, eu sabe, o único, as únicas ilhas que eu sabia que conhecia mais era lá na Mykonos e Creta, a ilha de Creta, que na primeira vez que eu tinha ido não tinha conhecido, tava louco para conhecer.
As outras ilhas eu ia, mas não tava ligado direito. Daí eu vou, né, para uma ilha lá, né, que é onde João escreveu o Apocalipse. Quando eu cheguei lá, lembrei do DVD, falei, meu Deus! Daí eu acabo indo no local, na gruta que ele ficou preso, que ele escreveu o Apocalipse. Ali a gente, muito forte, tinha que ser. Isso foi a Grécia, para o meu país. Depois fui para o Egito, aí fui para a Turquia. Na Turquia eu acabo voltando nesse mesmo lugar, porque quando eu fui para Grécia, aí, né, a gente foi lá para os locais, né, e o passeio da Grécia tem um passeio similar na Turquia.
Voltei de novo para lá, duas vezes aquele local. E daí eu fui para Éfeso, onde ele viveu, escreveu as cartas, então é uma história. Daí veio o fato que eu devia escrever, daí pesquisei, quanto mais pesquisava, menos eu entendia. E você vê como são as coisas, isso é uma coisa muito interessante assim, que tinha um momento que eu falei, ah não, eu pesquisava acho de uma forma errada, falei, não vou fazer esse tema não, muito complexo, né?
É um tema que em vez de dar esperança eu vou dar temor para o povo, né? Até porque a história é feita por metáforas, eu nem entendo essas metáforas direito. E daí eu tenho desistido, falei, vou fazer a história de João Batista, vamos fazer, né, contar a história dele e depois entra com a história de Cristo. E naquela noite eu sonhei, tive um sonho, né. Quando você vê essas histórias bíblicas que, lembra, que fala que Deus apareceu num sonho para José, apareceu para outros, né.
Comigo aconteceu uma coisa similar. Eu sonhei que eu tava fazendo, né, A Paixão de Cristo em Éfeso, aonde tá as ruínas, a cidade lá que João viveu, apaixonado, totalmente perdido. E uma pessoa que eu vou chamar de anjo no meu sonho, né, não tem uma forma definida, ela me falou para não ter medo de eu fazer a história, que tinha que ser aquela história, né, que eu ia receber a ajuda, inspiração, mas que eu não podia mudar de história.
Eu acordei com esse sonho nítido na minha cabeça. Ao mesmo tempo você fala, não, isso aí foi coincidência. Não, mas como eu conheço nessa, já desde o Egito que eu falei a primeira vez, já comecei a ver esses sinais. Eu falei, ah, vou fazer, né? E realmente daí as coisas começaram a vir e vir uma forma que realmente assim foi para trazer esperança, foi para ver que, por exemplo, a ideia dos 4 cavalinhos do Apocalipse, essa metáfora aí, né, que O que eu quis passar aqui: os 4 Cavaleiros do Apocalipse somos nós mesmos.
Nós podemos ser os causadores, ser eles, ou ser vítima deles, mas nós também somos eles, porque nós ajudamos sim. Vamos pensar, os governantes é muito fácil, mas a gente também, na nossa omissão, a gente ajuda a propagar a fome, a peste, a guerra e a morte. Tá aí, ó, tantas coisas acontecendo no mundo, sabe? Guerras, é tudo aí, sabe? Meu, e o resto da humanidade fica omisso. Então nós temos, então assim, e eu criei uma cena, acho que foi uma das cenas, é por Deus, é uma inspiração, que numa mesma cena, quando termina a história, o Apocalipse, Eu coloco uma menina cantando uma música evangélica, é maravilhosa, da Damares, é uma música linda falando do Apocalipse, né?
Ao mesmo tempo eu faço uma projeção, uma piada nos cenários, sabe? A projeção, uma piada que dá aqueles efeitos de enchentes, guerras, pessoas passando fome, tudo ela cantando, essas imagens aparecendo. E o que eu faço? Eu faço 7 atores vestidos de derviches descendo e fazendo o giro dos derviches. Na época, ó como é incrível, podia ser 5 derviches, podia ser 10 derviches, poderia ser um monte, né? Mas eu lembro que quando eu intuí isso, eu cheguei para o figurino e falei, faz 7 roupas.
Então, 7 roupas, entendeu? Faz 7 roupas aí. Não quer que faça mais? Falei, não, é 7 que eu tô sentindo. Mas vai, tá bom, meu. Ó, tradições diferentes, sabe, culturas diferentes. A música evangélica, as imagens, aquilo, os derviches, que, meu, é de uma tradição, né, muçulmana, do Islã. E depois eu vim compreender que esses 7 derviches, ó, fui compreender depois que quando João em Éfeso escreveu as 7 cartas E cada devoto representava essas cartas.
E hoje eu não tenho porque quando eles giram, não girando, no primeiro momento eles começam meio com a mão, né, aqui no peito assim, as coisas todas, depois vai soltando e vai fazendo e girando, né, uma mão para terra, outro céu, e vai girando, girando, girando, girando, girando, girando. Estavam girando toda a energia, sabe, que era preciso para Essa construção desse tempo, né, que a gente precisa ir construir energias boas, porque senão a humanidade vai parar, compreende?
Então assim, dali eu compreendi. Eu falei, então você vê como as coisas vão se ligando, isso, aquilo. Então, e o giro do serviço também é maravilhoso. É uma, não é fácil assim. É, eu já cheguei a ficar 2 horas girando em torno de mim mesmo.
Misericórdia.
E parece que foi 2 minutos. Aí tem a questão do transe que você entra também, entendeu? Então assim que— e o transe, a tua fala, às vezes uma coisa que eu levei a tempo para perceber, que transe, tu vai falar, tudo mais boa, animadade, entendeu? Ah não, transe é quando você tem o momento presente, o aqui agora, na sua totalidade. É o inverso.
Entendeu?
Isso é compreensão que vai dando, né? E conforme vai vindo essa compreensão, eu vou levando para o teatro, vou levando para arte, vou levando para tudo, né? No teatro tem o Arthur, Antônio Arthur, que é um diretor francês, né, que deixou um grande legado. Ele começou essa pesquisa lá atrás buscando, né, os povos primitivos. Ele teve toda, né, ele Foi internado como louco, né? O conhecimento dele é maravilhoso, revolucionou o teatro moderno.
Grandes diretores vão beber da fonte dele. Mas é aquela coisa, o conhecimento vem, mas tem que ter uma estrutura também para suportar tudo isso.
Com certeza.
E ao mesmo tempo, eu—
opa, opa, tudo certo, continua.
Tem que ter conhecimento a tudo isso, mas ao mesmo tempo eu busco uma estrutura Entendeu? Para suportar tudo isso. Porque por isso que eu pratico xamanismo, busco ferramentas, porque você trabalha com energias sutis, energias densas, entendeu? A gente tá aberto, né? Tá vulnerável. Sim. Então, mas você tem que ter uma sustentação por detrás, porque senão, né? Vem aquela frase, né, que veio agora da Fernanda Montenegro, né? Que ela fala que O ator, o artista, atriz, né, tem que ter chumbo nos pés e asas na cabeça.
Deu asas na cabeça para voar, mas tem que ter chumbo nos pés para segurar, porque senão você voa, voa, mas sabe onde você vai parar? Nunca mais.
Dentro das danças circulares, vocês se usa o termo focalizar ao invés de ensinar, né? Isso. Qual que é a diferença de ensinar uma dança e focalizar para um círculo, se focalizar na dança sagrada?
Sabe que, ó, nesses anos todos, mais de 20 anos, eu nunca vi essa pergunta. Porque eu tenho que focalizar, sou sincero de falar, ah, porque focalizador e não professor, né? Mas assim, ó, focalizador, eu acho que tá ligado muito ao foco, porque a dança circular ela vai buscar o foco. Sim, né? Esse centramento, entendeu? Que não é fácil. Entendeu? Então eu acho que vem do termo foco. Opa, você vai colocar o foco aqui, entendeu, né?
E vai ficar nisso. Então acho que com certeza, né, o termo focalizador ele vem daí, não tem outro, entendeu, né?
Sim. E dentro da dança circular você se alimenta de muitas fontes, né? Como que você faz para escolher as músicas quando você vai focalizar um círculo nas aulas que você dá de De dança circular é muito intuitivo isso, né?
Por exemplo, tem danças, por exemplo, que eu vou dar um curso que eu fiz, por exemplo, que às vezes tem matemática, às vezes o Surajibá. Então ali são 36 danças que às vezes você vai fazer em vários cursos, porque não vai ser num curso das 36. Quando eu fiz com a Renata, foram 3 módulos, era 12, 12, 12. Por exemplo, a Renata, ela criou várias, né, temas de dança escolar. Ela criou um que eu gosto muito, que é os 12 trabalhos de Hércules, né, que para cada trabalho do Hércules ela estudou uma pesquisa, escolheu uma música que tivesse ligada àquele trabalho do Hércules, que tem toda uma simbologia.
E daí ela criou a dança escolar para cada trabalho. E daí quando a gente faz o curso com ela, não fica só na dança, é estudada toda a simbologia, é passado Entendeu? Depois que você vai dançar, entendeu? Para ter a compreensão maior, a consciência do que você tá dançando. E é isso que faz a diferença, né? Que volto lá atrás, ah, uma dança pode ser folclórica, ou pode ser uma dancinha de roda, entendeu? Posso ficar ligado a uma dancinha de roda, mas não é isso.
É uma coisa aciranda lá que eu tô de Pernambuco, que eu adoro, né? Cheguei a conhecer a Ilha de Itamaracá quando estive lá. Fabulosa! Eu amo ciranda. Ela pode ser uma ciranda, uma festa popular, mas opa, cada, mesmo cada ciranda tem uma história ali, tem uma energia que você pode se conectar e transcender. É isso que faz a diferença. Deu para entender? E então daí a Renata fez cada trabalho, daí tem os cursos também de outros temas que são inventados.
Eu criei, por exemplo, em Parnaíba tem um caminho que é o Caminho do Sol, que é um caminho inspirado no Caminho de Santiago de Compostela na Espanha, que foi criado aqui no Brasil por peregrinos que fizeram esse caminho, que sai de Santana de Parnaíba e vai até Água de São Pedro. E por incrível que pareça, né, tô há 37 anos em Parnaíba, eu sou de Piracicaba, que é a cidade próxima à Água de São Pedro. E Água de São Pedro, por ser muito próximo aí de Piracicaba, eu passei minha infância, né, acabei casando lá, né.
Enfim, toda uma história. Você vê, então, de repente, quando se criou esse caminho— nossa, não fui eu que inventei o caminho, foi um senhor que fez o caminho de São Tiago, toda essa história, o Palma. Mas parece que foi um caminho para mim. Porque eu ia fazer o caminho inverso, eu ia voltar de Parnaíba andando a pé para minha origem. Então, de todos que participaram, aquilo para mim, nossa! E eu fiz caminho a pé. E a hora que eu tinha voltado, acabado de voltar, de regressar de Ouro Preto, onde eu fiz um curso de dança escolar, quer dizer, dois cursos de dança escolar com a filha do Bernardo Wouzin, que criou o movimento, a Gabrielly Wouzin, uma outra grande mestra.
Eu tinha feito o curso Labirinto, que era danças trabalhando essa simbologia do labirinto, e eu tinha feito a dança do Anjo e Serpentes também, trabalhando a questão do anjo e serpentes, até quando é anjo, até quando é serpente, ou anjo demônio, né? Eu tinha acabado de voltar de lá, eu nunca esqueço, eu cheguei de manhã aqui em São Paulo, fui para Parnaíba Né, que ela terminou domingo à noite. Daí peguei o ônibus, vim de Belo Horizonte até São Paulo, fui para Ubernaíba.
Foi o tempo de eu deixar aquela malona que eu tinha levado por 5 dias que eu fiquei lá em Ouro Preto, tomar um banho, pegar minha mochila pequena, porque para essa caminhada você tem que ir com o mínimo de coisas, né, que é um caminho, né, e fazer o caminho. Nossa, e é maluco, você vê como as coisas são. Porque eu fiz esse caminho, não é fácil não, são 220 km você andar a pé ali. Mas ali eu falei, nossa, tô refazendo a minha origem, sabe?
Tô voltando. E muito engraçado porque eu tinha feito o Anjo dos Demônios, né? Anjos ou Anjo de Serpentes. E o caminho, o primeiro, a primeira, esse primeiro grupo tava iniciando, acho que tinha umas 90 pessoas participando, que muita gente se inscreveu. E só podia se inscrever pessoas que fizeram o Caminho de Santiago. Mas para o meu grupo eu tive uma permissão porque eu era da Secretaria de Cultura, trabalhava lá. O Paulo me deu uma permissão, né?
Então eu e mais uma senhora éramos os únicos que eu recordo que teve essa permissão. E daí esse caminho é engraçado porque assim, ó, você tá caminhando a pé, né? E assim, você tem que chegar e tem as setas amarelas que vão indicando. Você vai caminhando, você encontra uma setinha amarela que vai indicando o caminho. E às vezes você tá com uma pessoa, você vai conversando com ela, depois você cansa um pouquinho, resolve descansar, essa pessoa vai embora, não se fica, entendeu?
Depois você caminha muito tempo sozinho, depois vem outras pessoas, enfim, é um rodízio, né? E eu lembro que por ser o primeiro ano tinha um carro de apoio, sabe? Porque tinha muita gente inclusive que caminhava lá, que não aguentava, daí a perua pegava os carros de apoio e levava já para o próximo alojamento, que a gente dava uns 20, 30 km ao dia, dormindo no alojamento. Depois, no outro dia, continuava e dormia num outro alojamento.
E o que aconteceu aí, né? Eu via esse carro de apoio, isso aqui, nossa! Engraçado que eu ia trocando, né, com as pessoas que fizeram o Caminhão Thiago, né, ouvindo as histórias deles, eles ouvindo a minha. Eu lembro que eu comentei com o senhor lá, falei, nossa, olha, Eu tô encantado com essa, com essa pílula de apoio, isso, aquilo. Eles são anjos do caminho, isso, aquilo, né? São os anjos. Daí o rapaz vira, esse senhor fala, é um senhor na verdade, né?
Fala assim: anjos que nada, eles são demônios. Por quê? Não, os cara fazendo, né? Falou: todo mundo que se inscreveu tinha um objetivo de caminhar. A partir do momento que eles cedem a ir lá no conforto, achar mais rápido, porque tá cansado. Eles desviaram desse objetivo. Então eles não estão aqui para ajudar, não. Eles estão aqui para desviar. Aí você vê como tudo tem vários lados. Eu falei, meu, também é um lado. E aquilo que eu tinha aprendido das danças, tava, eu tava vivendo ali.
Seria essa questão. Até quando é um anjo, anjo pode ser serpente. Até quando é serpente pode ser anjo, compreende? Então nessa, e é isso, né? As coisas paradoxais que a gente tem, que vou nem colocar em discussão aqui porque senão daí também dá muita polêmica. As coisas que eu penso, é muita coisa, né? Mas é, vou falar Como dizia o compadre Shakespeare, né, o autor que eu reverencio, meu autor predileto: há mais mistérios entre o céu e a terra que estuda a vã filosofia.
Aí, com certeza, quem sou eu, quem compreender? Eu procuro é sentir, sobretudo, né?
Nesses muitos anos, né, de trajetória e tudo mais, o que que você falaria que foram os piores perrengues que você já passou assim como artista?
Posso dizer que o pior perrengue foi esse ano, Dona Paixão, né? Primeiro dia, isso aí foi nossa mãe, ó, a paixão, a primeira apresentação esse ano, como eu já citei aqui, foi terrível, até pelos motivos que eu já elaborei, né? Foi um dia que realmente para mim, nossa, foi muito, né? Mas assim, é engraçado, né? Porque lógico que eu passei perrengues, essa coisa toda, isso, aquilo. Mas parece que trava, né? Porque por mais que eu tenha passado, talvez esse eu lembro porque foi mais recente, eu tinha passado perrengues, mas acho que o amor, o prazer que eu sentia de estar fazendo aquilo, é por causa dos perrengues, né?
Eu acho que isso vale tudo. Talvez o outro perrengue que tá ligado também, história da A partir de que isso, minha vida foi quando eu fiz o primeiro ano em Piracicaba, né? Isso é um perrengue que eu passei, que eu guardava uma grana que eu nunca, até então, nunca tinha feito uma viagem internacional. Eu nunca tinha feito. E na ânsia de fazer o projeto, eu que tinha começado lá também, trazido esses amigos, eu queria que acontecesse.
A prefeitura deu um apoio, algumas coisas que a gente conseguiu, e depois tinha outras coisas que precisava Daí ela falou assim, ó, Edmilson, vai vendo o que você precisa, vai comprando aí, você pega nota e a gente reembolsa você depois, entendeu? E eu, na minha inocência da época, fui, pá pá pá pá pá pá pá, e tirando dinheiro da poupança, tirando dinheiro da poupança, pá pá pá, tem que acontecer. Até hoje tô esperando, entendeu?
Então esse é um perrengue assim que eu falo, pô, meu, mas assim, ó, mas ao mesmo tempo acho que Eu sou muito da energia franciscana, né? Eu sou muito devoto de São Francisco de Assis, né? Assim, ele tem a frase numa oração dele que hoje a gente sabe que não é dele, mas é inspirada nele, que é dando que se recebe. Ó, eu já dei muito, às vezes dou. Eu falo que tem uma energia franciscana. Às vezes, por exemplo, eu tenho, é quando eu fui para o Acre lá, que eu fiquei com os índios lá, que eu fiquei 10 dias lá no Acre, lá bebendo da cultura deles, aquilo.
Eu lembro que eu tinha acabado de comprar uma câmera, aquelas épocas digital, tudo era novo, isso, aquilo, tá, pá pá pá. Comprei em 12 vezes, tinha pago só 2 ainda, né. Eu fui para o Acre com ela, né. Daí lá, isso, aquilo, cozinha, nas danças, na alegria. Daí o Whindersson chega para mim, né, fala, nossa, meu sonho é ter uma câmera dessa, eu queria fazer um registro disso, tá, tá, da minha cultura, né, um dia eu vou ter. E eu ouvindo a história dele Sem pensar duas vezes, é sua.
Depois eu falo, nossa, que eu fui fazer, gente? Falta mais 10 de prestação a pagar e eu dei para ela. Mas daí já foi feito, respiro, vem aquela coisa toda. E assim foi, quantas coisas eu já fiz. Mas, ó, dessa grana que eu dei, mesmo quando começou em Parnaíba, muito dinheiro no meu bolso. A prefeitura ajudava, apoiava. Eu coloquei muito dinheiro no bolso mesmo, foi na IMA, né? Mas acho que o universo me deu tanto, ele me deu tanto, tanto que quando eu fui para Firro, que eu sempre atrás, né, que aquele primeiro livro, as pessoas elas falavam que assim, nos 20 anos em Firro, e ali eu tenho uma sensação que eu ia nos 30, do nada senti Sem saber, levou nos 30.
E a Renata, ela escreveu o último capítulo do livro, essa minha mestra, e vi uma sensação que eu ia ser amigo dela. Ó, isso, né, bem antes. E ela tá numa fábrica com cachorro dela, né? O cachorro, eu senti que ia ser meu, mas foi muito forte aquela imagem. Acredita? Eu fui para a FIROM nos 30 anos, virei amigo dela. Aquele cachorro quase ela deu para mim porque ela morava em apartamento. Não era morava em casa, mudou para apartamento, não podia ter o cachorro.
Você vê. E, ó, e quando eu comecei a dançar com ela, eu falava que nos 30 anos, daí eu vou nos 30 anos. E quando chegou aos 30 anos, eu comecei o ano quebrado e tinha que já pagar. Eu falei, você vai, Dimas? Falei, acho que, ó, não vai dar. Eu queria muito, mas não vai dar, não vai dar. Né? E dançando com ela, no curso que eu fiz com ela, veio aquela energia: não, eu vou para a FIROM. Eu tinha um ninho velho na época lá, fiquei ouvindo ele.
O ninho não ia dar muita coisa não, mas eu decidi, ó. Quando você decide, meu, de verdade, aquela velha frase: o universo conspira a favor. Eu decidi a partir do momento que eu decidi, sem ter grana nenhuma. Eu dançando com ela, veio aquela intuição de eu pedir para o prefeito. Falei: meu, prefeito nunca me deu nada. Você acha que eles vão dar essa viagem para Finro? Só que na época eu era contratado, mas funcionário naquela ocasião, eles estavam me devendo uma grana que daí ficou perdida por falta de contrato bem elaborado, né?
Que eu já tava até desanimado com isso já, né? Daí foi quando eu tive a reunião com o prefeito então na época, né? Que daí para ver minha nova contratação para o drama. Daí eu falei, é, Clasévia, Clasévia, não tem mais como a gente aceitar com você. Aí eu vou sair perdendo? Daí foi quando eu entrei. Ó, eu trabalho com dança aqui no município. A dança nem faz tanta parte assim. Vocês me contratam para dar aula de teatro, mas eu introduzo as danças.
Ó, esse curso que eu vou fazer lá, se ver o valor, quase vai dar o que eu perdi. Você não paga para mim? Meu, não. Eu falei, tá certo, você vai para a Phil, você trabalha. Olha só, eu fui, pô, uns 30 anos. Você vê, então quando você quer uma coisa de verdade, é que ele é de verdade. Porque muitas vezes na vida, e aí tá, você acha que você quer aquilo, mas você não quer no fundo de verdade. Porque hoje tem consciência, todas as coisas que eu quis de verdade eu consegui.
Isso é, eu falo, é um legado que eu passo para as pessoas, né? Quando queira de verdade e perceba se você quer mesmo. Se você quer mesmo, pode ter certeza, é confiar que as coisas vão acontecer, né? Mas nem sempre o que a gente acha que quer, a gente quer realmente, né?
Eu fiquei com uma dúvida assim: você chegou a ver os registros dessa máquina que você deu de presente? Chegou a ver algum registro que essa pessoa fez?
Nunca. Depois eu vim embora do Acre, né?
Trocou contato com a pessoa?
Lá no Acre acabei tendo o contato que eu tinha mais é com liderança, que no caso o termo liderança seria o cacique moderno, né? A gente fala cacique, fala liderança, né? Que também faz tempo que eu converso com ele, então acabei perdendo contato, entendeu? Assim é, e foi, né? Mas eu acho que quando eu fui para lá, a maior alegria que eu dei para aquela tribo lá, quando meu mestre xamã me convidou para acompanhar ele, aquele que tinha ligação com a tribo, porque você não entra na tribo assim de graça, Tem que ter toda uma permissão.
Como ele era conhecido, ele me levou, né? E quando eu fui para lá, do nada, ó, então isso é aquelas coisas, eu senti que devia colocar minha roupa de palhaço na mala. Porque eu vou levar uma roupa de palhaço na mala para uma tribo de índio? Mas hoje é assim, eu falo, é loucura, é santo. Se tem essa loucura, tá queimando lá. E lá tava tendo festividade, várias festividades, né? Isso, aquilo, tá. Então cheguei para o liderança lá, acho que eu vou aí fazer uma Expliquei para ele, falei, nossa, as crianças vão gostar que eles nunca viram palhaço aqui mesmo, né?
Viram, né? E viste a roupa, gente, foi maravilhoso! Alegria que ele veio para cá, as crianças, até dei curso de palhaço para elas, vesti elas de palhaço. Eu acho que essa foi a maior riqueza assim, foi uma riqueza, uma troca muito linda, uma troca muito linda, né?
A gente agora tá chegando no finzinho do nosso papo. E uma pergunta que eu gosto de fazer sempre é: por que dançar e pesquisar dança circular em 2026?
Eu acho que a dança para mim hoje ela se tornou assim, né, a minha respiração total, né, corporal, espiritual, né, porque o universo dança. Tudo é uma, você vai ver, tudo é uma dança. Os planetas estão lá dançando nos seus movimentos solares. Então assim, o vento ele dança, as folhas dançam. Se você perceber, a dança tá presente em tudo, entendeu, né? Eu acho que ela é hoje para mim numa concepção muito muito pessoal, né? A própria essência do universo, ela está na dança.
Até nós temos, por exemplo, dentro da cultura daí hinduísta, nós temos, né, o Shiva. Que o Shiva também, essa imagem apareceu numa forma mágica e necessária da minha vida. Ela apareceu no primeiro momento com o Trunis Filho no teatro. Que até então se fala que no teatro, né, por ter Dionísio, né, sendo a vertente que trouxe o teatro através das suas procissões, né, como já citei aqui, das suas festividades, né. Então se falava, você é um ator dionisíaco, né, aquela coisa toda, Dionísio, aquilo todo, aquele que vai, se entrega e joga.
Depois vem Também uma ideia de um ator apolíneo, que é a ideia do deus Apolo, que jamais tem razão, aquela coisa toda, isso, aquilo, que vem depois do ator dionisíaco, né? Mas Dioniso é aquela coisa que é a simbologia grega do teatro, e fundamental e importante. Daí o Antunes, ele começa a trazer na época a ideia do ator shivaísta. Né, o que que é o ator shivaísta? Voltando no Shiva, Shiva, ele é aquele deus que constrói, destrói e reconstrói, constrói, destrói e reconstrói.
E que é o teatro senão isso? O que é a vida senão isso? Porque quando parece que é tudo a mesma coisa, não é. A gente tá se construindo destruindo e se reconstruindo a cada dia, a cada momento. A gente não percebe, entendeu? Não tem essa consciência, porque fica tudo no automático, entendeu? É aí que eu falo das danças. Quando você faz uma dança alegre, bonitinho, sabe, gostando, mas é, tá no automático. Agora, quando você entra na profundidade da percepção, né?
E essa ideia foi maravilhosa. Quando eu levei, eu falei, nossa! E depois você vai pesquisar, Shiva, ele tem De acordo com a filosofia hinduísta, história hinduísta, tem mil encarnações, né? E daí nós vamos bater no Shiva Nataraj, que ele é simbolizado com Deus dançarino, que é o Deus que dança o universo, compreende? E daí eu falo, nossa, que forte isso aí! E daí essa outra consciência para o lado do ator, que o Antunes queria que a gente trouxesse, que é maravilhosa, para mim abriu muitos leques.
E quando, como isso não se bastasse, né, quando eu entro no xamanismo, que eu começo a pesquisar, eu com a Caetia Aramana, meu primeiro grande mestre xamã, fui lá, curso xamanismo. Ah, é isso aí que eu vou fazer. Eu queria pesquisar sobre o xamanismo, queria tentar coisa dos índios, aquelas coisas todas. Tinha uma coisa que eu não entendia, mas queria entender. Ele tem uma vertente no xamanismo que tá ligado ao hinduísmo também.
Na pesquisa dele, ele fala que o primeiro, o primeiro xamã é Ganesha, mas o Shiva, que daí é uma outra personificação do Shiva, né, que tá o Egito no fim. Nossa, as coisas estão ligadas, entendeu? Então assim, quando você começa a pesquisar, essas coisas vão vindo até você. Porque aquilo que você muitas vezes intui, você sente de uma forma, a gente precisa encontrar respostas, entendeu? E aí você vai nas viagens, nos livros buscar essas respostas, entendeu?
Então por isso é muito importante pesquisar, e não só pesquisar nisso tudo não, a pesquisa ela se torna muito mais fundamental no momento que você tá dançando. Porque conforme você está aberto para aquilo, é ali que a pesquisa tá acontecendo. Porque cada momento é um momento, cada dia é cada dia. O que uma mesma dança te ensinou algo hoje, amanhã tá ensinando outra coisa diferente para você. É a mesma coisa uma aula de teatro, né?
Às vezes você faz um exercício que você fez Beleza, bacana. E muitas vezes você arrasou, foi maravilhosamente bem. Passa um tempo, você vai fazer esse mesmo exercício no outro grupo e dá tudo errado. Era o mesmo exercício. E aí você percebe? Então é coisa, porque o que dita mesmo tudo é o momento que você tá vivendo, é a entrega total naquele momento. Precisa dar a ideia de repetir o que você fez atrás, não acontece. Então eu acho que a grande pesquisa, e pesquisar isso é sobretudo, é, eu acho que a grande pesquisa mesmo tá vivenciar esse momento.
E esse momento pode ser teatral, pode ser uma dança circular, pode ser qualquer coisa que você faça na vida, da gente estar presente total. Eu acho que a grande pesquisa que muita gente vai buscar fora, no externo, que é importante, também faz parte, mas a grande pesquisa é no momento aqui agora que você tá aberto. Você tá aprendendo, esse momento tô com você, só tô aberto para uma pesquisa da onde eu posso ir, não posso ir, do que eu tô sentindo.
E muitas vezes a gente não tá conectado a isso. Eu acho que mais ou menos dá para entender um pouco Com certeza.
Agora a gente tá chegando na última pergunta, né, do podcast, que é uma pergunta que vai perpetuando todos os episódios do podcast desde a primeira temporada, que é: imagina que a pessoa que tá assistindo, ela tá com vontade de entrar no mundo da arte, de ser artista, mas ainda falta um impulso ali. Qual o conselho que você daria para essa pessoa que você gostaria de ter escutado lá no começo? É que você vem de uma família que já artista, né?
Então, tipo, acho que provavelmente você vem de um outro lugar do que essa pessoa, né? Mas qual conselho que você daria para pessoa que tá iniciando na arte e que quer viver disso?
Ó, eu podia falar mil coisas aí, dar, fazer umas frases e efeitos aí, né, para responder essa pergunta. Mas eu, as pessoas falam que eu sou fora da caixinha, e sou mesmo, e me orgulho disso. Você perguntando isso, veio uma, eu quero terminar com uma história Que inclusive ouvi dentro de um dos livros de dança circular que eu li, né? Tava no prefácio, que diz que Deus, quando criou o mundo, né, se ele criou todas as coisas, aquilo, criou tudo, e ele daí ele criou o homem, e tinha, ele deu tudo ao homem, mas tinha um presente maravilhoso Queria dar de bandeja para o homem, mas falou, não vou dar dinheiro, né?
Como que eu posso fazer isso? Daí falou, o homem vai ter que lutar para achar esse tesouro. Daí ele falou, ah, vou no céu? Não, no céu ele sabia que o homem ia inventar foguetes, aviões, e além não podia achar. Daí ele falou, não, No fundo do mar? Não, também ia inventar submarinos, aquelas coisas todas. Enfim, em todo lugar o homem poderia achar, até que Deus, na sua infinita sabedoria, que é a própria sabedoria, ele falou: já sei onde eu vou esconder esse tesouro, dentro do próprio homem.
Então você que tá assistindo aí, temos todo Né, esse tesouro tá em nós e depende de você, de sua atitude. Não importa o que você faça, pode ser arte, pode ser esporte, entendeu? Porque de uma certa forma a arte tá em tudo, né? Pode ser, vou falar, numa cozinha você preparando o alimento, né, que nós temos grandes artistas lá da culinária. Não importa. Mas é acreditar nesse tesouro que dá dentro de você, você ter coragem, né, saber que ele tá dentro de você, ele te pertence, e de você em busca dele, né.
E aquilo que eu falei, quando você acredita e você quer de verdade, o universo conspira a favor. Muitas vezes a gente não quer de verdade, entendeu. E muitas vezes a gente faz acreditar que não quer de verdade, mas tem uma luzinha lá dentro que te impulsiona a buscar isso. O comodismo hoje, né, tudo que nós temos, as facilidades do mundo atual, leva a gente ficar uma pessoa cômoda. Mas será que não tá na hora de você ir em busca desse tesouro, de buscar o que você, né, tem de melhor?
Do que lhe pertence. E a arte é um grande caminho para isso. E lembrando que a arte tá aí.
Disse tudo. Te agradeço muito por ter aceitado o nosso convite, por esse papo gostoso. Diga para a galera onde eles te acham nas redes sociais, como te segue. Faz seu jabá agora no Facebook.
É Edmilson Andrade, né? Agora no Instagram é, acho que é Edmilson, aí chegamos, não sei se é 5562, mas é Edmilson Andrade, né? Estou em Santana de Parnaíba, quem quiser me procurar lá para uma visita, para uma conversa, sempre estarei aí disposto. Lembrando também que eu dou cursos de danças escolares, se quiser me contratar para contratar cursos temáticos né, curso de teatro, trabalho com Klaus Schaman, enfim, né, tô aberto aí para negociações, né, e para levar todo esse conhecimento, né.
E eu falei tanto de drama, falei tanto da paixão, falei de Israel, posso terminar com uma musiquinha? Deu vontade, né. Então assim, ó, uma música que, por incrível que pareça, foi a primeira dança secular que aprendi quando tava em Israel. Tem que ter a consciência, né, que nós vivemos, somos um mundo que precisa paz, paz, muita paz, né. E não é só paz entre os povos, a paz com você mesmo, a paz com a sua família, com seu vizinho, né.
E ela chama-se Shalom Monachem, que traduzido é a paz em você, né. E Ela é dança inicial, é só Shalom Alaikum. Mas daí depois foi criada uma melodia que Essa Paz em Você é falado em várias línguas. Aqui eu vou falar em duas línguas só, ela é curtinha só, que é em israelita, né, na linguagem judaica, e na linguagem árabe, que são dois povos primos, irmãos, que desde a antiguidade brigam. Levar paz a esses povos e levando a eles levar também para todos os povos que estão em guerra.
Então, ó, shalom ala rei, shalom ala rei, shalom, shalom, shalom ala rei, shalom ala rei, shalom, shalom. Judaico. Salam aleikum, salam aleikum, salam, salam, salam aleikum, salam aleikum, salam, salam. Não importa que língua seja, mas é a paz em você, a paz em mim, e a paz no mundo.
Gratidão, gratidão. E assim encerramos o nosso episódio de hoje. Se você tá aí no YouTube, já deixa aquele like, se inscreve no nosso canal, vai nas redes sociais e segue a gente. A gente tá como @vozesdopalco no Instagram, no TikTok e no X. E se você estiver nas plataformas de áudio, já segue a gente, dê 5 estrelas, comente, mas só se for algo bom. Se não for algo bom, guarde para você no seu coração, que isso amargure a sua vida. Brincadeira, mas enfim, não comente coisas ruins. Beijinhos na bunda de todos!
Esse podcast a um projeto aprovado na 22ª edição do Programa para Valorização de Iniciativas Culturais do Município de São Paulo, o Programa VAI, com apoio do Centro Educacional Unificado, CEU Uirapuru. Este podcast é uma realização do coletivo Teatro Memórias e Além. Prefeitura da Cidade de São Paulo. Você ouviu Vozes do Palco.
CEU Uirapuru
Coletivo Teatro, Memórias e Além
Programa VAI
Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais do Município de São Paulo