Episódios de Vozes do Palco

T2: Arm'ore | Episódio 12 | Podcast Vozes do Palco

24 de julho de 20261h24min
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Neste episódio recebemos Armr’Ore Erormray, ele é é profissional multidisciplinar das Artes Cênicas, com atuação como educador, performer, dançarino, produtor e intérprete.O podcast existe graças ao trabalho em equipe de:Hellen Almeida: @hc.kryzGiovanni Felipe: @naturezaamorosaLaila Oliveira: @wtf_lailaoSereia Chagas: ⁠⁠⁠⁠⁠⁠@sereiadeaguadoce⁠⁠⁠⁠⁠Valdeir Santana: @valdeir.vsfProduzido por Coletivo Teatro, Memórias e Além.Com apoio do CEU Uirapuru Vozes do Palco é um Projeto Contemplado na 22ª Edição do Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais do Município de São Paulo - VAI ⁠ @ProgramaVAIsmc ​

Participantes neste episódio2
S

Sereia Chagas

HostApresentadora
A

Armr’Ore Erormray

ConvidadoArtista multidisciplinar
Assuntos7
  • Arte e PoliticaImportância de editais e fomentos culturais · Desafios de acesso e desmonte de políticas culturais · Perrengues financeiros e a dificuldade de viver de arte · Bolsas de estudo e programas de apoio a artistas trans
  • Trajetória artística de FaíscaInfância e religião · Saída da religião e autoconhecimento · Mudança para São Paulo e início na arte · Formação em Artes Cênicas na USP
  • Roda Viva e autismoDiagnóstico de autismo na vida adulta · Impacto do autismo na socialização e masking · Transição de gênero e hormonização · Relação familiar e religiosa após transição
  • Carreira artística de PedroInfluência da transição na arte · Impacto do diagnóstico de autismo na arte · Acessibilidade em espaços artísticos para neurodivergentes
  • Arte e Expressão PessoalDança como força vital e motivacional · Dança como ferramenta para consciência corporal · Dança como forma de expressão mais potente que a palavra · Superando o medo de dançar e a ideia de dançar bem ou mal
  • Processo CriativoCriação individual e em coletivo · Diálogo e experimentação em processos criativos · Horizontalidade e ausência de hierarquia na criação · Referências estéticas e artísticas
  • Cultura Popular e a CidadePrimeiro contato com a dança de salão · Vivência com danças urbanas e Fragmento Urbano · O que é Popping · Popping como base formativa na dança
Transcrição69 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
SCSereia Chagas

Começa agora Vozes do Palco. Olá, você está assistindo, ouvindo o podcast Vozes do Palco. Este podcast visa entrevistar artistas independentes. Nessa segunda temporada estamos entrevistando artistas da dança. Meu nome é Seria Chagas, eu sou uma pessoa pada, sou uma pessoa não-binária que não tenho preferências de pronome. Estou usando um macacão verde, uma blusa cinza prateada com detalhes pratas, estou com um brinco de crochê de gatinho, um colar com detalhes brancos e tenho Cabelo Black Power, uma barba meio rala.

E antes de falar do convidado, você que está aí assistindo, já se inscreve no canal, já dê o like, já deixa aquele like. Se você está ouvindo no Spotify, já segue a gente, já coloca 5 estrelas. Ou se você estiver ouvindo em alguma outra plataforma de streaming, também já segue a gente, já avalia, já comenta. E o nosso convidado de hoje é muitas coisas. Ele é profissional multidisciplinar das artes cênicas, com atuação como educador, performer, dançarino, produtor e intérprete. Seja muito bem-vindo, Armiori Heror Mirai.

AEArmr’Ore Erormray

Olá, muito obrigado pelo convite, muito feliz de estar aqui. Bom, eu sou Armiori, eu sou uma pessoa indígena de pele bege clara, Cabelos cacheados curtos, tenho os olhos castanhos, tenho um cavanhaque, tô com uma blusa de frio de pelinhos bege e uma calça rosa com roxo.

SCSereia Chagas

Seja muito bem-vindo, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. E a pergunta, a primeira pergunta é aquela super básica, fácil, né? Quem que é a Miuri?

AEArmr’Ore Erormray

Bom, vamos lá tentar falar um pouquinho Sobre quem sou eu, uma pergunta difícil. Eu sou uma pessoa que sonha muito e muitos sonhos impossíveis, assim. E eu acho que historicamente pessoas como eu são pessoas que foram impossibilitadas de sonhar pelos recortes, né, que eu ocupo enquanto uma pessoa trans, não-binária, afro-indígena, também sou uma pessoa autista. Então todos esses recortes vão se somando, né? Eu nasci na periferia de Campinas, cresci nessa periferia, e eu acho que eu sempre tive esse lugar de não poder sonhar muito alto.

E virar um artista, né, ser artista hoje é um desses sonhos que eu tinha quando criança assim, só que quando eu fui ficando adolescente, ficando um pouco mais velho, era uma coisa totalmente fora do imaginado para mim assim. Então eu acho que eu sou essa pessoa até hoje, uma pessoa que tem sonhos impossíveis e que busca alcançá-los.

SCSereia Chagas

Acho que sonho, quando a gente sonha, não é impossível não.

AEArmr’Ore Erormray

É verdade.

SCSereia Chagas

Acho que principalmente a gente que é artista, a gente sempre tá criando, pensando, né? E apesar de sermos, né, da periferia e tudo mais, tipo Acho que é bom sonhar, né, e a gente correr atrás dele mesmo. Acho que esses impossíveis são os mais divertidos da gente alcançar, né? Conta um pouquinho para a gente da sua trajetória, assim, de onde você vem, o primeiro contato com a arte, como chegou no Amary de hoje, assim, vai contando um pouquinho dessa sua história.

AEArmr’Ore Erormray

Bom, é isso. Eu nasci lá em Campinas, né, eu cresci no São Marcos, ali numa periferia da cidade de Campinas. Eu nasci em 1997, tenho 28 anos hoje, e a minha infância foi muito marcada pela presença da religião. Minha família é Testemunha de Jeová, eu fui Testemunha de Jeová até os 18 anos. Então eu cresci muito nesse mundinho, que era uma coisa muito restrita, né, uma religião muito restrita. Então Conforme eu fui crescendo, eu tive uma adolescência que foi se tornando muito difícil.

Então eu comecei a lidar com as questões da minha neurodivergência, mesmo sem saber ainda, né? Fui entender a minha neurodivergência já adulto, mas eu já tava lidando com ela também de alguma forma, agravado pelas questões da religião, da minha família, né, que me cobravam muitas coisas. Que não fazia sentido pro meu corpo, pra quem eu era. Então, durante minha adolescência, na escola, tudo que ia acontecendo me gerava um processo muito de culpa, assim, né, de um sofrimento interno muito grande.

Até que quando eu fiz 18 anos, eu passei por um episódio, inclusive, muito complicado, assim, de tentar suicídio. E aí foi quando eu fiquei internado que eu consegui, de certa forma, me livrar um pouco dessas amarras. Porque eu nunca tinha saído do espaço da minha casa, da minha família e dessa religião. Então foi um momento horrível, mas foi um momento que eu tava um pouco distante de tudo isso e consegui pensar um pouco mais por mim mesmo.

Então eu tava muito, muito debilitado assim por tudo que aconteceu. Mas foi o momento que eu comecei a entender, assim, que essa religião não era pra mim. E aí, alguns meses depois, eu saí das Testemunhas de Jeová e comecei a realmente me entender, né. Já tinha tido algumas situações, assim, de questionar a minha sexualidade na época, né. Então, que foi uma das questões que pegou muito forte ali também pra agravar a minha depressão.

E aí eu pude começar a me aceitar e a entender que tava tudo bem assim. Então saí da religião e eu tava me relacionando com uma pessoa na época que me auxiliou de certa forma a sair da casa dos meus pais, porque era muita briga, era muita discussão pela questão da religião. Eu já tinha saído, né, mas eles ainda são até hoje. Então Coisas simples assim se tornavam uma situação horrível, sabe, de discussão. Então, quando eu tava fazendo 19 anos, eu saí de casa, fui morar com essa pessoa e comecei a ter um contato maior com a arte nesse momento, inclusive, né.

Ali eu comecei a fazer um curso de teatro, ainda em Campinas eu fiz esse curso, assisti minha primeira peça de teatro, fiz algumas aulas de dança também nessa época. Foram as minhas primeiras aulas, foi de dança de salão na época, era sertanejo, forró, e eu amava, assim, era incrível ter essa vivência. E aí saí de Campinas, vim pra São Paulo morar aqui com essa pessoa e a família dessa pessoa, então fui acolhido, assim. E tava estudando e tal, eu tinha prestado a Unicamp, não tinha passado, tinha prestado pra teatro.

E aí continuei estudando e consegui passar na USP e na Unicamp pra teatro. E aí acabei escolhendo a USP porque Campinas realmente tava nesse lugar de... da minha família, de tudo que tinha acontecido lá, né. Então queria uma certa distância, assim. Então eu acabei vindo pra cá, estudando artes cênicas aqui na USP. Comecei em 2018 a minha formação. E fui tendo contato com muitas coisas, muitas coisas novas, assim. Eu lembro que no início eu me sentia muito perdido, porque a maioria das pessoas tinham um contato mais forte com o teatro, né.

Então os professores às vezes citavam o nome, assim, de algum autor, de algum artista que era super conhecido. E eu ficava, tipo, não tô entendendo nada. E aí, o primeiro ano foi um pouquinho caótico quanto a isso, assim, porque eu não tinha muitas referências. Mas aí eu fui pegando, fui me adaptando e deu tudo certo assim. Tive a pandemia no meio da minha formação, que foi um momento também que a gente acaba perdendo, né, porque as matérias online e tudo mais, tipo, foi um momento assim.

E me formei em 2023 no bacharel e comecei a atuar já durante a minha formação, já tava com alguns trabalhos, né? Entrei pro História do Olho, que é um projeto que é muito importante pra mim, que eu faço até hoje. Apresentei mês passado, inclusive. Menos de mês passado, algumas semanas atrás. E aí, comecei nesse projeto, comecei em alguns outros projetos. A gente tem o coletivo Iavertéri também, que iniciou aí nessa época da graduação.

Aí, depois que eu me formei, eu comecei a licenciatura na mesma área, Artes Cênicas também. E acabei trancando a licenciatura e agora voltei de novo. E durante todo esse tempo da minha formação acadêmica, né, em artes cênicas, eu buscava sempre fazer as matérias que eram mais relacionadas com a dança, com o corpo. O meu TCC foi focado nessa parte do corpo e da performance, né? Então eu sempre fui um pouco pra esse lado. E ao mesmo tempo, fora da faculdade, eu fazia outras movimentações pra ter esse contato com a dança também.

Eu fiz várias formações e vivências com pessoas das danças urbanas. Então, o popping foi muito presente, as funk styles como um todo. E foi os meus primeiros passos ali que eu tive mais presente dentro da dança, né, num estilo que faz mais sentido pra mim. E aí eu conheci o Vogue, que foi em 2019, quando eu, pelos meus próprios contatos com outras pessoas trans, né, ah, vai ter um evento e tal, não sei o quê. A gente foi e eu conheci a comunidade, a cultura ballroom, e comecei a colar nos treinos, colar em oficinas, aulas, tudo que acontecia assim eu ia colando para isso ir incorporando assim, né, no meu corpo mesmo.

E com isso eu comecei a caminhar em runway, bizarro, são duas categorias estéticas, e também de baby vogue, que é a categoria dançada. Tem essas divisões assim, né? E baby é uma categoria que é para quem é iniciante, né? E tem as categorias outra, por exemplo, Que são as categorias pra quem já caminha há bastante tempo, já tem a sua performance bem estabelecida, né. E foi isso, até hoje eu também me interesso bastante pelo popping, principalmente, né, pra além do voguing.

São duas danças que eu me interesso e busco estudar, ter contato, né, e vivenciar, assim.

SCSereia Chagas

Caramba, uma jornada bem extensa e muitas coisas, né, muitas informações, muita coisa pra comentar. Quando que você foi diagnosticado com autismo?

AEArmr’Ore Erormray

2024.

SCSereia Chagas

É, bem recente, né? E para você fez sentido o diagnóstico? E pensando na sua vida toda, né, as coisas começaram a se encaixar, tipo, nossa, que o meu companheiro tem autismo, ele também foi diagnosticado adulto faz pouco tempo também, acho que foi em 2024 também. Que ele foi diagnosticado e também tem isso, né? Tipo, ele começou a entender, tipo, nossa, por isso que na infância eu era de tal jeito, agora entendi o porquê que me sentia deslocado.

Tem toda a história do masking, né? Eu acho que para alguém que também é uma pessoa trans também tem, tipo, tinha mais de um tipo de masking, né, que você performou durante parte da vida. Como que foi isso? Como que foi também essa sua— muitas perguntas, meu Deus, desculpa.

AEArmr’Ore Erormray

Tudo bem.

SCSereia Chagas

Como que foi também essa transição? A família, você falou, né, família religiosa, essa questão das brigas, né, de você ter distanciado. Como foi também é ter vindo para São Paulo? Muitas e muitas perguntas.

AEArmr’Ore Erormray

Então, foi isso assim, quando eu tive o diagnóstico, eu que fui um pouco atrás assim, eu comecei a ter contato com algumas informações sobre, né? Aí eu falei, não, vou pesquisar isso aqui, porque eu já tinha tido outras hipóteses diagnósticas, mas não fazia muito sentido ali, até fazia um pouco, mas ainda tinha alguma coisa que tava meio fora, que não tava se encaixando. Então eu fui atrás e Consegui uma psiquiatra incrível que fez valor social pra mim na época, tipo, super me fortaleceu assim pra eu conseguir ter o diagnóstico mesmo, que é um processo muito difícil.

E que pra nós que temos também esses recortes que eu citei, né, muitas vezes é mais difícil de conseguir um diagnóstico. Porque muitas vezes esse acesso, né, a um tratamento psicológico, terapia, todos esses processos da saúde mental é mais difícil da gente acessar, né. Então, foi um processo que demorou pra acontecer. Mas quando veio o diagnóstico, eu senti mesmo que muita coisa fazia sentido. E entendi esses momentos lá atrás, quando eu era criança, né?

De como eu agia na escola, de como era o meu jeitinho, de que eu era muito fechado, muito ali, muito quieto, né? Não tinha muita interação. E como que eu fui mascarando essas coisas. E coisas que me ajudaram também, né? Pra... Pra desenvolver mesmo minhas habilidades de socialização, de comunicação. E uma delas que ajudou muito, assim, foi a formação em artes cênicas, né. Porque o teatro realmente ajuda muito, assim, nessas duas questões que pro autismo costuma ser bem forte, assim, né.

E aí, é isso. Eu mascaro muito, muitas coisas. Então, quando eu tô com pessoas mais próximas de mim, eu me sinto mais aberto pra não mascarar o tempo inteiro. E eu posso dar uma descansada assim, né? Mas é uma coisa que desgasta muito a gente, né? A gente viver nesse constante masking assim. E aí eu consegui fazer a avaliação neuropsicológica pelo convênio de uma empresa que eu tava trabalhando numa época. Inclusive era uma empresa que era um trabalho que era 30 horas semanais, muito tranquilo assim.

Só que pra mim, enquanto pessoa autista, era puxado. Eu não conseguia fazer mais nada assim, me esgotava, sabe? Então são algumas das necessidades, dos suportes que a gente enquanto autista às vezes acaba precisando, né? Quanto à transição, foi um processo que também a arte teve uma influência, porque eu não entendia muito bem essa questão do gênero ainda pra mim. Era uma coisa que tava meio nebulosa, assim, e guardada. E teve um processo de uma peça de teatro que chama Tremores, Sob a Luz dos Vagalumes, que é do Coletivo Evarterie, a qual eu faço parte até hoje.

Que a gente estudou muita teoria queer, né, estudos de gênero. Então foi onde eu consegui, tipo, me aprofundar nesse tema e me entender também, porque Lendo aquilo assim que eu comecei a pensar e me questionar, falar, não, isso daqui faz sentido pra mim, pra minha vivência, pra minha identidade. E aí que eu comecei a identificar algumas coisas e me entender. E foi um processo... Eu transicionei no final de 2018. E depois passei pela questão da hormonização, que...

Foi gerando um efeito sobre o meu corpo que me deixa mais confortável com a minha aparência, tudo isso. E foi um processo muito doido, porque de início eu ficava assim, né, será que eu quero tomar hormônio? Tá tudo bem não tomar também, sabe? E aí acabei decidindo por tomar. E aí fui vendo os efeitos que me agradaram e tal, tudo isso. Aí, ah, será que eu quero fazer mastec? Não sei se eu quero fazer mastec. E aí eu vou fazer, minha mastec tá Tá marcada agora pra setembro.

E é um processo que, tipo, de descobrir mesmo, assim, sabe? De experimentar. E como que eu quero experimentar meu corpo, assim, né? Tipo, eu tenho essa vida pra viver como eu sou. Então, como que eu quero ser, assim? E aí, foi um pouco isso em relação aos meus pais. Eu demorei muito pra contar, porque a gente não tinha contato. Então... Às vezes minha mãe mandava alguma mensagem assim, falava alguma coisa ou outra. Às vezes eles me mandavam coisa da igreja também, de novo assim, sabe?

Tipo, tentando me convidar pra alguma coisa assim. E aí teve um episódio que... Aí eu tenho família na Bahia, né? Minha avó é da Bahia. Minha mãe voltou pra Bahia também agora, ela tá morando lá. E a minha avó tinha mandado um tempero. Que eu amo, assim, que é tipo comida da minha avó. E tava em Campinas, na casa da minha mãe. E ela me passou, ah, você quer vir buscar e tal? Eu assim... E ia ser uma coisa meio assim, né? Ai, meu Deus, como que vai ser?

E eu precisava contar, porque eu tava usando hormônio. Então eu falei pra ela que eu tinha transicionado, expliquei pra ela tudo e tal. E ela ficou tipo assim, ah, não quero te ver. Aí não fui buscar o tempero, fiquei sem tempero. E aí fiquei mais um tempo também nesse afastamento, também foi um episódio meio assim, né. Aí depois um tempo passa, tal, ela mandou mensagem. Aí a gente de certa forma foi ficando um pouco mais tranquilo.

Aí teve um momento que eles já estavam na Bahia, aí eles vieram para Campinas, né. Eles estavam em Campinas, aí eu falei de ir pra Campinas e tal. Não lembro exatamente como que foi essa conversa, assim, sabe? Mas aí acabou rolando e eu fui pra Campinas e vi eles. Aí a gente conversou, tipo, eles não entraram em assuntos, eles meio que aceitaram um pouco assim, sabe? Mas ainda, de certa forma, eles não podem conversar muito comigo porque é uma restrição da religião, né?

Quando uma pessoa é desassociada, quem tá dentro da religião não pode conversar. Então, de certa forma, a gente não poderia ter uma relação muito próxima. Mas eu sinto que melhorou, assim, sabe? Que teve um avanço. E aí é isso, tipo, agora eles mandam mensagem às vezes, tipo, pergunta se tá tudo bem. Eu, ah, tudo bem, como tá aí? E é basicamente isso. Tinha mais alguma pergunta?

SCSereia Chagas

Não sei, esqueci. Eu fui soltando muita coisa, né? A outra pergunta é como que tanto a transição quanto o diagnóstico do autismo, que veio depois, mas como que isso afeta a sua arte? Como que isso reverbera na sua arte hoje?

AEArmr’Ore Erormray

Eu acho que a transição, principalmente as questões LGBT me influenciou muito na minha arte, é um tema que eu gosto muito de trabalhar nas minhas produções e tá muito presente, né, na peça que me auxiliou no processo de me entender, que é Tremores. A gente fala sobre não-binaridade em um universo distópico e ali a gente traz um pouquinho das nossas vivências também, né, de uma de uma forma lúdica, de uma forma da representação, né?

Não chega às nossas pessoas individuais aparecerem em cena, mas é uma peça que discute bastante esse tema e que é muito importante pra mim por realmente trazer isso, porque eu acho que são assuntos muito latentes mesmo, que precisam estar em cena, que precisam estar em todos os espaços possíveis assim pra que a gente possa avançar, né, de alguma forma. E a questão do diagnóstico, tem uma coisa que é interessante que eu ouvi falar sobre isso, né, que até a psiquiatra me falou, que é que nós no espectro autista temos uma questão, uma rejeição a se encaixar em caixas.

E o gênero é uma caixa também socialmente imposta, né. E da mesma forma, trabalhar com arte, ser artista, é também, de certa forma, fugir desse lugar que nos é imposto, né, de ter um— muitas vezes, né, as nossas famílias, o que foi sonhado pra gente não é que sejamos artistas, né, que a gente seja essas outras profissões que já se espera um pouco mais. Que quando pergunta lá, né, pra criança, ah, o que você quer ser? Se a criança falar, ah, quero ser artista, artista, muitas vezes a família já vai ficar meio assim, melhor não, né?

Deixa quieto, esse sonho não é tão legal. Então eu acho que também tem a ver com fugir um pouco disso que nos é imposto, assim. E eu gosto bastante de pensar, principalmente como educador também, como tornar esses espaços acessíveis, né? E confortáveis pra pessoas neurodivergentes também. Acho que enquanto uma pessoa neurodivergente é muito mais viável pra mim pensar em dinâmicas que sejam acessíveis pra outras pessoas neurodivergentes.

Então acho que isso é quase uma facilidade, uma... Não é uma cobrança exatamente, mas é algo que eu tenho que fazer, assim, sabe? Então eu sempre penso nesse caminho também, em tornar tudo mais confortável pra outras pessoas neurodivergentes também de assistir uma peça que eu esteja em cena, né? Ou de construir criações artísticas mesmo junto comigo, assim.

SCSereia Chagas

Caramba, isso é muito legal. Tem um podcast que eu escuto, chama Introvertendo, não sei se você já escutou. Não. É um podcast que é produzido e as pessoas que apresentam também são autistas e eles falam sobre a vivência autista, sobre muitas pautas, inclusive nesse mês de junho, nos meses de junho, eles fazem sobre a pauta LGBT e tá sendo bem legal. Cada episódio tá sendo focado em uma sigla, tipo pessoas autistas bi, pessoas autistas trans, e tá sendo muito legal.

E eles falam também sobre esse lance do autista estar fora da caixinha, de ter essa questão do autista precisar, não precisar, né, acho que não é essa palavra, mas do autista não tá enquadrado nessa caixinha que colocam a gente. E aí por isso que muito autista LGBT, muito autista é artista também, apesar de quererem colocar também o autista dentro de uma caixinha, de colocar que o autista é super inteligente, que o autista vai ser a pessoa da tecnologia, e muitas vezes o autista foge disso.

E tá sendo muito legal, eu escuto esse podcast junto com o meu companheiro, e é muito legal de estar escutando junto com ele, porque a gente vai aprendendo juntos sobre o autismo. É muito legal isso que você faz, né, de criar as peças pensando também nas pessoas neurodivergentes que forem assistir, para não ferir essas pessoas, né? Eu acho um toque especial, um carinho, né? Porque acho que muitos trabalhos não pensam nas pessoas neurodivergentes.

Às vezes você vai assistir, tipo, você sai meio atordoado assim. Enfim, mas voltando às pautas, né, outra coisa que você falou da sua trajetória foi quando você começou a estudar na USP sobre esse lance das pessoas já terem muita referência. É uma coisa que sempre me incomodou, tipo, para você entrar na faculdade de arte você já precisa saber. É uma coisa que me incomoda muito assim, tipo, você tá entrando numa instituição para aprender, mas você já precisa ser ator, você já precisa.

É, fica assim, Qual que é o sentido disso, né? Que era uma coisa que me incomodava muito e que vejo que pessoas sofrem com isso, né? Porque apesar de ter uma galera que entra que já tá no teatro desde que saiu do útero, tem a galera que não tem esse privilégio, né? Que vem de família pobre, que a família fica falando, não, não vai ser artista porque você vai passar fome. E aí chega dentro da instituição, encontra tipo um monte de barreiras, né? E muita gente não consegue terminar o curso muito por isso, né?

AEArmr’Ore Erormray

Sim, exato. Eu acho que o vestibular também já é uma barreira, né? Porque você precisa também ter um conhecimento prévio ali para conseguir acessar um espaço que seria só para sua educação, para sua formação, né? Então você tá tentando se formar em algo, tá tentando aprender E para aprender você já tem que saber também. E muitas vezes um conteúdo que é, principalmente quem estudou em escola pública, né, assim como eu, a gente não tem acesso.

Então a gente tem todo um processo para conseguir acessar, né. Tem matéria que cai no vestibular que até hoje eu não sei, e eu fiquei tipo assim, nunca vou conseguir entrar, sabe. Então, e infelizmente tem muita gente que realmente não consegue por causa dessas barreiras, né, porque ainda é mesmo com as cotas, com as questões de pontuação para escola pública, não é o suficiente, né? Precisa ainda de reformas ou de uma revolução mesmo assim nessa área para que seja um espaço acessível e para que a pessoa entre confortável, né?

Não tô aqui para aprender, não tô aqui tipo para trazer toda uma bagagem e falar das mil peças que eu já fiz, que já atuei, personagens que eu já sei fazer, não, tipo, estamos aqui todo mundo de igual para igual, né?

SCSereia Chagas

E sendo uma pessoa trans dentro da instituição, você sofreu transfobia? Provavelmente sim, né? Dos professores, dos alunos, como que você lidou com isso?

AEArmr’Ore Erormray

Acho que o Departamento de Artes Cênicas, e no ano que eu entrei assim, já tinha avançado bastante. É um departamento que é mais acolhedor pra diversos tipos de questões. Ainda teve uma questão com banheiro, assim, eu lembro, no departamento, não diretamente comigo, assim, mas como os banheiros eram divididos por gênero e tal, acabavam rolando situações desconfortáveis, assim. E aí depois, com a luta das pessoas, dos estudantes, aí isso foi mudando, assim.

Mais diretamente comigo, já tive questões de errar pronome, de alguma coisa assim, principalmente no início. Mas eu sinto que foi um processo bastante ok assim, de eu conseguir mudar o nome ali na lista, tal. Tudo isso foram coisas que aconteceram assim, que eu fui atrás de pedir, já tava disponível para fazer, né. E eu acho que alguns anos atrás era muito mais difícil, porque tiveram outras pessoas trans que vieram antes de mim e que alcançaram isso também, assim.

Então é sobre essas pessoas também que fizeram um caminho, assim, né, pra quando eu cheguei já tava um pouco mais estabelecido.

SCSereia Chagas

Você contou um pouquinho quando estava falando sobre a sua trajetória, mas qual que foi o seu primeiro contato com a dança? E depois, quais foram os passos que você teve dentro da dança?

AEArmr’Ore Erormray

É, o primeiro contato foi na aula de dança de salão que eu fiz ali quando eu tinha 18 anos, ainda em Campinas. E foi realmente uma descoberta assim, porque eu fiquei apaixonado assim e me divertia muito. Era tipo o melhor momento da semana assim. E a partir daí eu já fiquei sempre muito atrás de fazer coisas com meu corpo, de estar movimentando, de estar movimentando isso mesmo assim, né? Tudo, tudo que fizesse com o corpo era interessante para mim.

Eu ia atrás de fazer oficinas, aulas, tudo isso. E aqui em São Paulo eu comecei a ter contato principalmente com o grupo Fragmento Urbano, que foi um grupo muito importante assim para mim com contato com as danças urbanas. E aí eu fiz uma vivência com eles e tal, a gente fez um espetáculo que é o Balada Manifesto, foi o primeiro espetáculo de dança que eu participei. A partir daí eu fiz algumas oficinas com outras pessoas desse mesmo coletivo também, que eu fui aprofundando no popping, E aí eu tive o primeiro contato com a Ballroom, que foi em 2019.

E a partir desse primeiro contato eu também já fiquei de olho em tudo que tava rolando pra colar nos espaços e treinar e desenvolver a minha caminhada dentro da Ballroom, assim. Aí eu tenho um outro espetáculo também que surgiu no CAC também, que também é um espetáculo de dança que chama Vórtex. Esse espetáculo foi TCC de uma amiga e eu assisti as primeiras aberturas desse TCC e tinham pessoas incríveis, né, nesse projeto. Então já era um projeto que os meus olhos brilhavam assim, eu ficava, não, esse vai ser incrível.

E eu gostava muito da dança, então tipo, eu já tava dando jeitinho de colocar a dança no meu TCC, mas esse abordava a dança também de forma muito presente. O meu TCC foi um show musical, minha amiga cantava e eu performava, dançava e cantava um pouco também. Então tava ali numa linguagem híbrida. Esse TCC dessa amiga, da Viviane, era um TCC mais para dança mesmo. Então eu ficava tipo assim, quase que, meu Deus, eu quero estar, eu quero muito estar nesse projeto, sabe?

Então eles fizeram uma abertura e eu fui conversar, né, como que foi a abertura, o que que eu tinha achado e tal. E eu já joguei um verde, tipo assim, ó, gente, se precisar de mais gente aí, pode me chamar que eu tô por dentro, assim, que eu quero entrar. E aí todas as pessoas que faziam parte, eu já tinha uma certa relação de amizade e tudo mais. Então a gente já tinha essa proximidade assim, e eles acabaram me convidando também.

Então a gente se apresentou na USP, né, na finalização do TCC. Apresentamos na Unesp, numa mostra também que teve lá. Por agora a gente tá um pouquinho parado assim, mas de vez em quando a gente vai atrás de escrever algum edital, alguma coisa. Mas infelizmente a gente não conseguiu ainda. Mas é um espetáculo também que eu tenho um carinho muito grande assim. E no Avertere, né, que é esse outro coletivo, o Tremores, a gente também usa bastante a dança em cena.

Então, mesmo que tenha cenas ali um pouco mais dramáticas, né, assim, tem os momentos de dança e tem algumas coreografias que a gente faz dentro da peça. E a gente tentou pesquisar bastante danças LGBTs. Então já envolvi ali o voguing, mas também o wacking e toda essa presença de um corpo LGBT, né, como que Essas pessoas estão nos espaços, estão nas festas, estão dançando, performando ali naturalmente também, né? Então é um pouco o que a gente coloca nessa peça.

No História do Olho, eu também tenho um momento do intervalo que eu danço. Então, tipo, todos os trabalhos, mesmo os trabalhos que não são diretamente de dança, eu vou colocando um pouquinho a dança ali no meio, assim. E eu acho que é isso.

SCSereia Chagas

É bastante coisa. Quais são as vertentes que você dança? Você falou que no começo era mais ligado às danças urbanas, né? Então hip-hop, você falou do popping. O que que seria o popping?

AEArmr’Ore Erormray

Popping é uma dança dentro das danças urbanas que trabalha a contração e trabalha linhas também, direcionamentos, né? Então às vezes a pessoa vai se movimentando pelo espaço e tem a contração. Não sei se você já viu algum vídeo assim, mas é essa dança. E é uma dança assim que foi bastante base para minha formação em dança, que eu dei uma aprofundada boa ali em 2019. Não, 2019 eu comecei, que que eu aprofundei mais foi até no período da pandemia, que eu fiz aulas online.

E aí depois fiz algumas presenciais também. E aí hoje em dia eu sinto que eu queria também voltar um pouco a treinar mais o popping assim, para voltar ali às origens. Mas o voguing tem um lugar que é muito confortável por ser das pessoas trans assim, né? Então os espaços são sempre mais acolhedores assim. Muitas vezes os espaços de danças urbanas você tem que encontrar os seus grupinhos assim para conseguir se encaixar mais, porque tem alguns espaços que não vão ser, não diretamente que vai ter alguma situação de preconceito, não isso assim, mas não são fomentados por pessoas trans de forma mais forte assim, né?

SCSereia Chagas

Então acaba me afastando um pouco. Quanto o Ballroom, né? Conta um pouco sobre o Ballroom também, para quem não tá, para quem tá assistindo, não conhece sobre essa cultura Ballroom. Como que você explicaria para essa pessoa o que que é a cultura Ballroom?

AEArmr’Ore Erormray

A Ballroom é um espaço de arte, de cultura, de comunicação também, criado por pessoas trans e para pessoas trans, né? Para realmente acolher essa população. Ela surgiu no final da década de 60 nos Estados Unidos e foi criado por transfemininas pretas e latinas lá. Então já haviam os espaços LGBTs, inclusive já haviam bailes, a gente chama de ball, né, em inglês. Tem muitas palavras em inglês que a gente continua utilizando aqui no Brasil para criar uma unidade entre a comunidade internacional também.

Porque tá tudo muito conectado assim, né? A comunidade ballroom de lá com a comunidade daqui, tipo, tem todo esse intercâmbio assim. E aí, enfim, surgiu lá pra acolher as pessoas LGBTs e principalmente trans, latinas e negras. Porque os espaços LGBTs muitas vezes eles acabavam por também reproduzir o racismo, reproduzir tudo isso, reproduzir transfobia. Então, mesmo que eram espaços LGBTs, não eram tão acolhedores para essa comunidade em si.

Então, esses primeiros bailes que aconteciam tinham performances drags, por exemplo. Muitas vezes acabavam por nunca dar um prêmio pra uma transfeminina negra. Acabava sempre indo pra outras pessoas, né, já nessa reprodução disso. Então as transfemininas vieram nesse resgate mesmo de, não, vamos fazer uma coisa pra gente, da gente pra gente, assim. E aí surgiram as primeiras balls e o voguing surgiu nessa referência muito forte das poses, né?

Então é tudo muito partindo dessas poses pra dança. Então trabalha bastante as linhas também, né? E aí surge com o Vogue Old Way, que é a velha forma, né, que é a primeira que existe. E ela é um pouquinho mais quadrada também, ainda nas poses, nas outras referências das linhas e tudo que vem ali no Old Way. Ela ainda é um pouquinho mais durinha, digamos assim. E as, as femme queens, né, que são essas pessoas transfemininas dos Estados Unidos que dançam o voguing vão sentindo essa necessidade de trazer essa coisa mais quebrada, mais feminina que tá presente no corpo delas para dança.

E aí surge o Vogue Femme, que é mais conhecido, mais forte também, assim, de certa forma. E tem também o New Wave, que surge depois, que tem uma relação ali também com o alongamento, com ser ser muito alongada assim. As linhas também vêm muito forte, diferente do Old Way, mas também nessa questão do corpo alongado, né? Para além disso, tem as categorias estéticas que também fazem parte das balls. Então vão ter categorias que as pessoas vão caminhar como num desfile, se chama runway.

Tem as categorias de face, que é para pessoa mostrar sua beleza do seu rosto. E tem toda uma performance. Cada categoria dessa tem uma performance que vai ser pedida e elementos que os juízes, né, da Ball vão julgar para direcionar essas batalhas. Então geralmente entram todas as pessoas que vão caminhar, aí os juízes vão dar tens ou vão dar chop se a pessoa não estiver preparada para caminhar naquela categoria naquela noite, seja por um motivo da temática.

Sempre tem os temas também, você tem que ir com uma roupa dourada por exemplo, não tá no tema, é chop. Ou a sua performance precisa de mais uma coisinha, sua performance ainda não tá dentro daquela categoria completamente, faltou um elemento, aí é chop. E aí depois que todo mundo entra nos tens, que é esse primeiro momento, começam as batalhas. Então vem duas pessoas, batalham entre si, e as pessoas que estão julgando, né, vão indicando quem que tá, quem que vai passar para a próxima, até que sobra uma pessoa.

Essa pessoa vai levar o grand prize e talvez um cash prize também. Essa é mais ou menos a dinâmica que acontece nos bailes, né? Dentro das categorias estéticas tem uma categoria que eu caminho e que eu gosto muito de experimentar, que é a bizarra, que é uma categoria ali de seres bizarros, monstruosos, Que legal! É, então, e é uma categoria muito performática assim, né, porque as pessoas chegam com roupas enormes, construções assim, máscaras hiper mirabolantes assim mesmo, é para mostrar sua caminhada dentro desse personagem, digamos assim, que foi criada dentro do tema também.

Sempre vai ter um tinha um tema para categoria tipo bizarro, alien. Então você vai criar um alien muito doido e vai chegar lá e vai caminhar. É uma categoria que eu gosto muito, que eu já caminhei algumas vezes.

SCSereia Chagas

E você mais gostou de preparar, de fazer?

AEArmr’Ore Erormray

Mais gostei, eu acho que essa bol foi na Bienal, que era, era uma bol que falava sobre o tempo Eu não vou lembrar o nome agora. Ai, que ódio, devia ter olhado todas as minhas caminhadas para lembrar de falar. Enfim, e aí nessa Ball eu fiz toda uma montação que tinha vários tecidos assim, tinha os tecidos principais, e aí tinha uma parte de baixo que tinha um cabelo assim na roupa. Então meus braços eram cabelos assim, aí tinha uma máscara também.

Eu achei muito divertido de criar essa roupa assim, esse figurino todo. E foi uma que eu achei bem legal. E foi uma ball linda assim, que foi de tarde, então ela começava cedo, então tava ainda dia lá fora, sabe, as pessoas caminhando. E enfim, foi muito bonito assim. Acho que essa foi uma das que eu gostei bastante.

SCSereia Chagas

Como foi a primeira vez assim que você foi na ballroom? Você falando, eu nunca fui no Bar Room, preciso muito ir. Você é o segundo convidado que vem aqui que fala sobre a cultura Bar Room. E aí a pessoa tá falando, eu fico assim, meu Deus, eu preciso conhecer, preciso ver. E eu imagino que quando eu for ver a primeira vez, eu vou ter esse maravilhamento assim de tá vendo os olhos brilhando assim e falar, meu Deus, encontrei meu lugar no mundo. Como que foi para você essa primeira vez que você foi?

AEArmr’Ore Erormray

Acho que é essa sensação mesmo, assim, dos olhos brilharem, né? É um lugar, e quando surgiu também tem esse sentido, né, das pessoas trans, as pessoas marginalizadas se verem no lugar de destaque. Tipo, eu também posso, eu também posso ser bonita e ter uma face bela, eu também posso entregar uma caminhada de passarela, sabe? Eu também posso estar nesses lugares. E a Ballroom é esse lugar das pessoas serem vistas, né, num lugar de destaque que antes elas não podiam ter, né.

Então ver outras pessoas como eu caminhando ali era esse maravilhamento assim mesmo de poder se ver um pouquinho na outra pessoa e falar, nossa, eu também quero fazer parte disso assim, sabe. E também de ver a excelência assim das performances que as pessoas entregam. De ver uma pessoa caminhando, dançando ali e falar, nossa, que incrível, olha esse movimento que a pessoa fez, sabe? Então era um pouco isso assim, de estar assistindo um show incrível, sabe?

A primeira vez, acho que é um pouco essa sensação. E aí, conforme você vai indo, caminhando, vai chegando em vários lugares assim, porque é uma comunidade que é pautada no acolhimento. Mas que acontecem muitas coisas também e não é sempre o acolhimento que vai acontecer, porque são pessoas e todas as pessoas têm as suas questões, têm os seus problemas. E aí você vai encontrando a realidade também, né, do que é a vivência assim.

Então acho que vai chegando algumas barreiras, algumas questões, né, e você vai lidando com isso, mas acho que sempre Lembrando desse objetivo comum que todo mundo tem ali, sabe, de criar um espaço de arte que seja para nós, assim.

SCSereia Chagas

E como a Barroom, essas experiências que você tá tendo na Barroom, impacta nos seus espetáculos, impacta no que você cria?

AEArmr’Ore Erormray

É bastante, assim, impacta bastante, porque como essa movimentação tá no meu corpo Eu tava até falando com uma amiga esses dias assim, né, que tava tipo, nossa, preciso treinar, eu sinto que eu tô meio distante assim, sabe, que a minha movimentação— eu ainda tô num processo de limpar os meus movimentos mesmo, né, eu ainda caminho baby, eu não caminho na categoria, né, outra. Então eu tô nesse processo e acho que é um processo Também por eu ser uma pessoa neurodivergente, que leva um tempo maior de caminhar nesse lugar de destaque assim, né?

Tipo, na frente de todo mundo, tem todas as questões. Mas aí, enfim, eu tava falando com ela sobre isso e ela falou assim, ah, mas isso tá nos seus movimentos. Mesmo quando você não tá dançando voguing, o voguing tá ali, sabe? Tipo, tá presente no seu corpo. Aí eu fiquei tipo, nossa, é verdade, né? Porque Foi uma dança muito formadora assim para mim, assim como o popping também foi. E aí nos espetáculos eu busco sempre trazer a dança, né?

Então quando tem a dança em cena, muitas vezes passa por esse caminho de trazer uma movimentação, um hands performance, uma coisinha que vem do voguing, mesmo quando eu não quero trazer o voguing como um todo ali, né? Então no Tremores tem, era uma pesquisa que já era nossa mesmo também. Então tem o Vogue e nos outros espetáculos também. E aí eu tô com um projeto agora que é com essa minha amiga que acabou de comentar sobre isso comigo, que é Invólucro, que é um projeto que é meio um duo assim.

Que sou eu e ela, mas só eu tô em cena, ela tá na sonoplastia, né. E nesse processo eu falo bastante sobre gênero, sobre essa metamorfose, sobre esse corpo monstruoso também, reivindicando esse lugar da monstruosidade baseado no Preciado e na Suzy Choque. E que tem uma relação com a dança muito forte, né. É meio um espetáculo de dança barra performance nessa linguagem meio híbrida. E aí eu coloco um pouco do popping e um pouco do vogue também.

Tem momentos assim, né, que eu vou trazendo alguns passos, algumas coreografias dessas duas linguagens.

SCSereia Chagas

E a cultura ballroom tá crescendo bastante, né, no Brasil. Como que você vê esse crescimento e como esse espaço é importante de acolhimento para a população LGBT? Muitas vezes, eu acho que das referências que eu tenho, né, antigamente as barons tinham essas casas de acolhimento. Então as pessoas, quando— não sei se ainda tem hoje em dia, né. Então quando a pessoa se assumia, transicionava, era expulso de casa, às vezes se assumia se assumir como uma pessoa LGBT acabava sendo exposto de casa, não tinha para onde ir, ia para uma Ballroom, para um desses espaços onde conseguia um acolhimento. Como que você vê esses espaços hoje em dia?

AEArmr’Ore Erormray

A Ballroom surgiu aqui no Brasil, né, veio para o Brasil mais ou menos ali em 2015 por algumas pessoas que a gente chama de pioneiras, né, que vem estudando e trazendo para cá, movimentando, construindo balls e criando mesmo esse espaço aqui no Brasil, né? É uma comunidade recente, uma dança recente, né? Surgiu na década de 60. Então aí demorou alguns anos para vir para cá, assim como outras danças, né, quando surgem em outros lugares para chegar em outros espaços.

É meio esse processo mesmo. E aí com o tempo ela foi ganhando seu espaço, né? E eu acho que agora, nos últimos anos, tá atingindo realmente o lugar que eu acho que é mais do que merecido. Acho que ainda falta alguns passos assim, mas realmente ter uma visibilidade, ter a oportunidade de estar presente nos espaços, de estar conseguindo editais, né, de estar conseguindo se produzirem pelos espaços. E eu acho assim que é muito importante para a comunidade LGBT ter isso aqui também, porque realmente surgiu nessa intenção, né, das houses que acolhiam as pessoas expulsas de casa, as pessoas que tinham as suas relações conturbadas em casa encontravam esse outro lugar de identificação, de acolhimento nas houses e na cultura ballroom.

Tem pessoas que são 007 que não tem house Mas que da mesma forma estão presentes na comunidade e têm o seu espaço para se desenvolver ali e criar suas conexões. Então eu acho que a comunidade como um todo já é como se fosse uma grande casa assim, sabe, das pessoas ali terem as suas relações, as suas amizades, né. E aí essas outras houses vão se criando, né, e aqui com o passar dos anos foram surgindo várias houses, né? Hoje em dia a gente tem um grande número de houses e cada uma com a sua, o seu jeitinho próprio assim, né?

Mas eu acho que todas elas com essa intenção do acolhimento. Aqui no Brasil até tem uma pessoa ou outra que realmente mora junto. Eu já morei junto com a minha mãe da Mamba Negra, quando eu era da Mamba Negra, a gente dividiu casa, né? Mas É uma realidade que é um pouco mais não da casa física em si, né, que pode acontecer também, que acontecia bastante também nos Estados Unidos, mas que às vezes acontece de uma outra forma, que é cada uma tenha o seu, a sua casinha, mas se encontram sempre constantemente, né.

E aí eu acho que toda essa movimentação, tudo que tá acontecendo ultimamente, dando uma visibilidade maior pra comunidade é muito importante pra que ela se mantenha, se fortaleça e continue crescendo, atingindo outros espaços, pra que todos os lugares assim no Brasil, as cidadezinhas, né? Porque tem algumas cidades que ainda não tem, né, comunidade Ballroom, que é realmente uma referência de espaços possíveis pras pessoas trans, pras pessoas LGBTs, né?

Então acho que é uma forma da gente criar um coletivo que realmente une essas pessoas, né?

SCSereia Chagas

E qual que é a Ballroom que você frequenta?

AEArmr’Ore Erormray

Assim, a Ballroom, a gente fala Ballroom, se refere ao todo, né?

SCSereia Chagas

Mas são casas diferentes, né? Qual que é a casa?

AEArmr’Ore Erormray

A minha casa agora é a Casa de Clandestina. Eu já fui da Mamba Negra, agora eu tô na Clandestina. E eu entrei recente, foi nesse ano que eu entrei. É uma house recente também que começou ano passado. E enfim, agradeço muito a Mamba Negra, né, pela minha caminhada na Mamba Negra. Foi um momento muito formador ali para mim, né, de acompanhar os treinos, de crescer assim. Foi incrível. E agora eu tô tendo um momento muito lindo também de me aproximar de uma outra família, né, de ter essas novas conexões assim se formando. Então tá sendo muito, muito gostoso assim.

SCSereia Chagas

Voltando para o seu processo de criação, como que funciona o seu processo de criação individual e também coletivo, em grupo? Você tá em algum coletivo? Você falou, né, que tá em alguns coletivos. Como que funciona essa dinâmica das criações, né, quando é um espetáculo solo ou tipo em dupla, ou quando é um espetáculo com mais pessoas, em coletivo?

AEArmr’Ore Erormray

Eu gosto muito de criar em coletivo, assim. Então acho que mesmo quando é um solo, acho que todas as outras áreas que vão ter ali também, né, que sempre vai ter mais gente junto, eu acho isso incrível, assim, né, de estar construindo com outras pessoas. Então o meu processo é sempre com esses outros olhares, assim. Se eu tenho uma uma ideia, uma coisinha assim que eu quero criar, né, como foi no invólucro, por exemplo. Eu já tinha uma ideia de algumas coisas que eu queria experimentar, coisas que eu queria fazer, o que que eu queria botar.

Eu fui meio montando uma proposta assim até de roteiro de ações, né, de dramaturgia, e experimentando algumas coisas. E fui junto com essa minha amiga que é a Alexis A gente foi ensaiando junto. Então eu mostrava pra ela o que eu tava criando, ela vinha, trazia um som pra eu experimentar em cima. E a gente ia nesse diálogo, ouvia o som, experimentava junto, experimentava a cena. Ah, eu acho que isso daqui tem que mudar no som.

Ah, eu acho que isso daqui dá pra acrescentar na performance. Tipo, isso que você fez foi legal, mantém. Isso daqui, tipo, acho que tem que fazer uma mudança, né? É sempre muito nessa conversa, assim, muito diálogo mesmo. Eu acho que... Que é um processo de experimentação de corpo, mas também de muita palavra, de entender o que que tá comunicando ali, né, para definir essas coisinhas. E em coletivos maiores, eu passei por alguns processos coletivos e eu tive uma, não sei se é uma sorte, muito processos muito bons assim, né, processos que sempre foram uma direção muito, muito atenta, muito prestativa, muito cuidadosa assim.

Então estive em processos que eu me senti bastante contemplado enquanto artista assim da cena, na direção que vinha de fora, né? Porque também sempre foi bastante no diálogo, na experimentação e nessa troca assim mesmo. Recíproca, sabe, sem estabelecer uma hierarquia, sabe. Eu acho que isso para mim é muito importante, não ter essa hierarquia que pode acabar acontecendo, né. Para mim isso é uma coisa que afasta as pessoas, que prejudica o processo.

Acho que é sempre essa horizontalidade, é um ponto que é importante para mim. E aí quando eu tô conduzindo o processo também, né, como educador, por exemplo, eu tento construir também dessa forma, né, de trazer propostas, mas escutar também o que tá sendo sentido ali em cena, para ser esse diálogo mesmo, essa troca.

SCSereia Chagas

E você é uma artista de múltiplas linguagens, né? Como que você pensa para juntar elas, né? Você tá no teatro, na dança, Falou de um espetáculo que você cantou também, então já tem mais uma arte aí. Dentro da Barroom você se apresenta nessa categoria que é o bizarro, né, que você constrói também, já tem mais uma habilidade aí. Quando você tá criando, de onde você pega suas referências? De onde você busca as referências estéticas do que você cria?

AEArmr’Ore Erormray

As minhas referências vêm muito de pessoas que, de certa forma, Eu vejo a potência nelas ali enquanto pessoas dissidentes também. Essas pessoas que estão vivendo esses sonhos, digamos, impossíveis ali, né, são pessoas que eu tenho como referência, né, outros artistas trans principalmente. Então tem uma referência teórica que eu tô usando no processo de Invólucro, que é a minha produção mais recente, que é o Paul Preciado e a Suzy Choque, né, que são duas pessoas trans Também artistas e também da escrita, também da palavra, né?

E essas são duas referências importantes pra mim nesse último projeto. Mas esteticamente, eu tenho, por exemplo, o Coletivo Tramóias, que é uma referência que me vem na mente, assim. Esteticamente, eu acho incrível o que eles criaram em Tramar. E é uma das referências pra mim. O diretor é o Jota. Que é uma referência, e ele também caminha em bizarro. E o que ele caminha em bizarro é incrível, assim, tipo, as construções dele, enfim, maravilhoso.

Eu acho que eu vou buscando essas referências de pessoas que estão no meio, assim, né, que estão dentro da comunidade, que são outras pessoas trans, outras artistas trans, porque eu acho que isso vai alimentando a gente também, né, de Essa troca assim de poder conversar com uma pessoa que tá criando arte também no mesmo tempo que você, assim.

SCSereia Chagas

E é bonito, né, porque provavelmente é uma pessoa que tá próxima, que você pega referência, talvez em algum momento a pessoa também pega uma referência sua, em alguma criação sua, né. Então acaba sendo algo circular ali, né. E acaba sendo algo muito bonito, né?

AEArmr’Ore Erormray

É. E aí você falou também, né, de como juntar essas linguagens. Eu acho que eu fui fazendo um processo muito natural de, por exemplo, me juntar com pessoas que já se interessam pela dança em cena, dentro do teatro, digamos assim. E essas barreiras vão ficando meio fluídas mesmo. Então não tem mais Ah, isso é teatro, isso é dança, isso é performance. Tipo, vai tudo se misturando, assim. Então, acho que já é um processo que tá um pouco comum, assim, nos espaços que eu faço parte, nos coletivos que eu integro.

Então, foi muito natural, por exemplo, ter a dança em Tremores. Era uma vontade de todo mundo, né. Então, a gente trazia as cenas ali, mais diálogos e tal. E trazia, ao mesmo tempo, a dança também e as cenas com coreografias, com dança. Então foi muito fluido mesmo esse processo de juntar as linguagens. E em Invólucro, que é o meu último projeto, a dança eu acho que é a linguagem principal, assim. Mas a performance também vem bastante.

E eu acho que é um espetáculo que realmente não dá pra você identificar muito bem e falar, tipo, tá, é dança com performance, não é performance com... Eu acho que é essa linguagem mais expandida assim que vem surgindo mesmo, que vem ressurgindo, né?

SCSereia Chagas

Se a gente pensar no início da história da arte, né, que não sei se existe realmente esse início, né, que a gente aprende, tudo era junto, né? Alguém aí foi e falou, não, vamos separar as coisas. Então queria também que essa pessoa nem tava viva, mas tipo, e aí hoje tá tendo essa, parece que vai fazendo um círculo e voltando às origens. E tipo, só, e as pessoas que estão criando estão pensando tipo, a dança e o teatro estão bem próximas, né?

A performance também. Vamos pegar elementos, elementos da dança, elementos do teatro, elementos da performance, costurar eles, recosturar eles, né? Alguém separou. E tá sendo muito bonito assistir alguns espetáculos que tem tipo essas multilinguagens que você assiste, você fica: é isso, é isso! Tem música, tem teatro, tem tudo. E querendo ou não, tipo, se a gente for pensar na dança, a dança sempre vai ter a música junto, né? Quer dizer, não sempre, né?

Porque às vezes a dança pode ser em silêncio. E eu, enfim, eu já fui virando aqui, né? Porque tem outras formas, né, de fazer dança que pode não ter a música como o o elemento que ajuda ali, né, o elemento que guia. Era essa palavra que eu queria buscar, que é esse elemento que guia, né. Mas pode ser que tenha dança de outras formas, né. Mas é muito legal de pensar que, querendo ou não, as coisas já estão ali, tipo, alinhadas, já estão um pouquinho juntas, e que existem pessoas criando cada vez mais costurado, né.

AEArmr’Ore Erormray

Sim, é uma retomada mesmo.

SCSereia Chagas

E pensando, você também é arte educador, pensando nessa sua trajetória com a dança, como que você percebe que a dança reverbera no que você ensina, reverbera em como você é um professor em sala?

AEArmr’Ore Erormray

Foi um processo muito massa assim da minha formação mesmo, de ter esse contato com a dança tanto dentro da academia quanto por fora, porque eu sinto que enquanto arte educador, geralmente de teatro, eu incorporo muito a dança, assim, tá muito, muito presente, né? Até nos aquecimentos, nos jogos, nas propostas, eu penso sempre em trazer bastante do corpo, assim, muitas vezes pela dança. Eu acho essas interlinguagens, assim, né, muito interessantes.

E aí foi uma das coisas que aconteceram, né, quando eu tava no vocacional, de trazer esses momentos de dança, do próprio voguing também, pra dentro desse espaço. Que eu acho que a gente consegue formar um diálogo com essas turmas também, de ter um primeiro contato com isso, né, de trazer pessoas novas pra conhecer esse espaço. Muitas vezes tem pessoas LGBTs também ali na formação, né? E essas pessoas acabam tendo a oportunidade de ter um primeiro contato e se juntar também, acabar colando em outras balls, em outros espaços, né?

Pra conhecer de fato o que é a comunidade, assim. Então eu acho que é um meio muito, muito interessante de usar esse tempo que a gente tem pra compartilhar dentro de uma formação, trazer essas movimentações da dança, assim, né? Para além de ser interessantíssimo para uma construção de corpo, de consciência corporal, né? Acho que a dança enquanto ferramenta para consciência corporal, mesmo que a pessoa não queira ir para a área da dança, ser dançarino, seja para um ator, seja para outras áreas mesmo até mais teóricas, por exemplo, dramaturga, fazer as movimentações, as oficinas de dança é um caminho para entender o seu corpo, para se localizar dentro disso que a gente tá ocupando enquanto forma no mundo, assim.

Então eu gosto bastante de trazer mesmo esses momentos dançados para dentro das minhas formações.

SCSereia Chagas

Você falou sobre a galera, né, que é dramaturga, que escreve. Recentemente eu vi um estudo que fala, que falava sobre como movimentar corpo estimula o cérebro. Então, tipo, eles fizeram testes em dois grupos. Em um grupo que ficava sem fazer nada e depois tinha que, tinha estímulos para escrever. E depois um outro grupo que tinha movimentação corporal e depois precisava escrever. De como a galera que tinha movimentação do corpo tinha muito mais criatividade, tipo, tinha muito mais estímulo, tinha muito mais energia para escrever do que a galera que não tinha.

Então faz muito sentido, né, galera também que é da dramaturgia, que vai estar meio que por trás, né, tipo não vai estar no palco diretamente, mas vai estar escrevendo, de também se movimentar, né? Sim, porque acho que é mais muito, né, da nossa cultura aqui do Ocidente de separar o cérebro do corpo, né, sendo que é uma coisa só. E aí tipo a gente quer estimular só o cérebro e não quer estimular o corpo. E as coisas estão conectadas, se você estimula um, você estimula o outro.

Você dá aula para públicos bem distintos, né? Como que você faz para adaptar a aula para, por exemplo, numa turma antigamente que você tava no vocacional, sei lá, numa turma tinha tipo um idoso e uma criança? Como que você fazia para dar aula para essas duas pessoas de forma equivalente, mas se adaptando para cada um.

AEArmr’Ore Erormray

É um processo assim. Eu dei aula no vocacional para adolescente de 14 anos até todas as idades, e agora eu tô estagiando numa escola, né, que é o segundo, a segunda parte do fundamental, fundamental 2. E aí agora eu tô sentindo uma dificuldade, uma um processo maior assim, porque a minha experiência foi com pessoas já interessadas em teatro, né, jovens ali e adultos e idosos. E tinha algumas questões de adaptação, né, por algumas questões geracionais.

Por exemplo, tinha uma pessoa trans na turma que eu lecionava e tinha outras pessoas mais idosas. Então Às vezes tinha uma questão assim, acho que teve uma vez que rolou uma questão com pronome. Então aí abriam espaço pra gente dialogar, pra falar, né, pra corrigir também. Mas no geral foi sempre muito tranquilo assim. No vocacional eu acho que tudo ia se encaixando assim. Eu tinha duas turmas que eram mais jovens e uma turma que era mais de idosos.

Então eu conseguia também me adaptar melhor nisso, porque como eu fazia muitas coisas corporais, eu fui tendo que entender também como que era os exercícios corporais para cada faixa etária e adaptar isso para que fosse— no início eu fiquei meio perdido assim, porque eu queria passar tudo Tipo, os alongamentos doidos assim. Eu tipo, não, pera, não é assim também. Aí depois eu fui pegando o jeito. E agora na escola é um processo que tá sendo muito doido assim, porque eu sinto que eu tenho um pouco mais de dificuldade com as crianças assim, um pouco mais jovenzinhas.

E aí tô entendendo como que é, aprendendo assim. E vamos ver o que vai dar assim, porque eu acho que é natural também acontecer da gente ter um público que acaba fazendo mais sentido para o que a gente quer construir ali, né, enquanto arte educadora, e acabar focando em algum público assim, né. Tem pessoas que se adaptam melhor com uma faixa etária, outros com outra, e tá tudo bem também assim.

SCSereia Chagas

Sim, e são coisas distintas, né, no vocacional as pessoas buscavam, né? É tipo, na escola, tipo, ver que as pessoas são quase obrigadas, né, a estar ali. Aí, tipo, acho que de lidar com isso, né, de saber pegar atenção da criançada para falar, bora focar nisso daqui, fazer que ela se interesse ainda, seja muito mais difícil, né? Muito mais desafiador.

AEArmr’Ore Erormray

Sim, é loucura.

SCSereia Chagas

É nessa sua jornada, tiveram políticas públicas Você, né, foi orientador do vocacional, obviamente a resposta é sim, né? Mas quais foram as políticas públicas que foram importantes na sua jornada?

AEArmr’Ore Erormray

Já participei de alguns editais, alguns de formas diversas, né? Então já participei de edital que tava com o Fomento, com o Zé Renato, Já participei é do Fomenta a Periferia, aí o outro acho que foi o Fomenta ao Teatro. Então esses editais assim são essenciais, né? São políticas que infelizmente a gente tá tendo um declínio, tá tendo, encontrando uma situação muito difícil de acessar, e eles tentando cada vez tirar mais, né, a existência mesmo desses editais assim.

O o fomento tá passando por uma situação horrível de eles não pagarem, não atenderem ali o que já, as pessoas que já foram selecionadas, já passaram no edital, já tá tudo certo. Eles estão cobrando novas coisas que surgiram depois para tentar barrar mesmo, né? E enfim, o desmonte, né, do edital assim. E é um processo muito complexo porque esses editais são o que garantem a construção de processos artísticos e a continuidade, apresentação de temporadas de espetáculos teatrais, a cultura, né, que ela aconteça como um todo, tanto aqui em São Paulo quanto em todos os lugares assim, né.

A gente depende, a gente da cultura depende desses editais, desses fomentos assim. Então eu pessoalmente já tive vários momentos mesmo de ser o que salva assim, porque se não fosse dessa forma eu teria tipo que entrar diretamente num trampo CLT, como já aconteceu também, né? E também tá tudo bem de estar no trampo CLT e continuar fazendo a sua arte, também é um processo super possível e que muitas vezes vai fazer mais sentido para gente que não tem tantos acessos assim.

Só que Quando a gente consegue só fazer, focar na nossa arte, é perfeito, né? Quando tá com edital, quando consegue um edital. Quando eu tava no vocacional, foi um momento incrível da minha vida, assim, profissionalmente, artisticamente falando. Porque eu fazia o vocacional, era uma carga horária que fazia muito sentido pra mim enquanto pessoa autista também. Tipo, era tranquilo, dava pra eu me planejar, fazer tudo. E eu fazia um outro processo também com a Estúdio de Cena, que é a peça Objeto, uma exposição teatral do passado.

E aí eu consegui viver todo o processo dessa peça, apresentar também por um edital. E eu tava, né, conseguindo me movimentar artisticamente de uma forma perfeita nesse momento, porque eu conseguia realmente criar e e movimentar a criação de outras pessoas, né, no educacional. Então eu acho que é isso, são essenciais assim esses editais, que eles continuem existindo, que eles realmente aconteçam, né, que não fique que nem a gente tá nesse momento agora deles estarem sendo barrados assim.

SCSereia Chagas

Inclusive eu ouvi o relato de um dos coletivos que foi um coletivo que criticou a Secretaria de Cultura e a Secretaria de Cultura Desclassificou eles depois, logo depois, assim, de tipo, ah, inventou um documento lá e falou, ah, vocês não entregaram tal documento. Eles desclassificaram eles assim, eles ficaram assim, tipo, meu Deus, muito absurdo. E apesar, né, de estar acontecendo todos esses desmontes, né, da cultura aqui em São Paulo, aqui ainda é um lugar que tem muito incentivo à cultura, né.

Eu tava recentemente lá em Pernambuco E eu conversei com uma das pessoas responsáveis por um grupo de maracatu lá. Ele tava falando sobre a dificuldade de acesso às políticas públicas lá, principalmente que eles fazem umas políticas públicas lá em Pernambuco e focam muito mais na capital, que é Recife. E aí a galera que faz arte nas outras cidades acaba tipo comendo poeira assim, porque quem escolhe tá lá Em Recife, normalmente são os coletivos de Recife que recebem o dinheiro e os outros coletivos têm que se virar nos 30 para conseguir se alimentar, para conseguir sobreviver.

E aí, tipo, existe várias culturas, né, tipo maracatu, existe boi marinho, que são reconhecidos como culturas imateriais, como essas culturas de raiz. E que não são valorizadas. E que aí, tipo, eles só conseguem realmente ter trabalho durante as épocas em que essas culturas são valorizadas, né? Tipo, a maracatu é mais no Carnaval, mas no restante do ano eles têm que, tipo, caçar outro emprego, porque senão eles não têm como sobreviver. É muito loucura isso, né?

AEArmr’Ore Erormray

Sim.

SCSereia Chagas

Corrigindo o que eu falei, eu falei boi-marinho, mas é cavalo-marinho. Confundi com outra festa lá que tem a festa do boi. Muitas culturas maravilhosas. Ai, saudades de Pernambuco. Enfim, voltando às perguntas, na sua trajetória como artista, quais foram os maiores perrengues que você passou?

AEArmr’Ore Erormray

Bom, alguns. Acho que alguns ainda venho passando, que é de conseguir sobreviver de arte, né? Fazer a arte acontecer e receber, ser remunerado por isso, né? Teve alguns perrengues específicos assim, né? Por exemplo, teve uma vez que a gente foi apresentar Tremores numa fábrica de cultura, era mais afastada, agora não lembro o nome da fábrica de cultura, qual que era, e A gente fez uma divulgação, só que não era do nosso território.

Então, quando chegou lá, não tinha ninguém, tipo, pra assistir, assim. A gente apresentou pra uma pessoa que era da fábrica de cultura. Então foi uma coisa meio assim, um perrenguezinho de, tipo, como que a gente faz a peça nessa condição, né? De que vai ter uma pessoa assistindo e, tipo, que é uma coisa que geralmente abaixa um pouco a energia, né? Mas a gente ficou, não, é sobre isso, vamos apresentar. Eu acho que tá tudo bem ter uma pessoa só.

A gente só ficou meio assim, né, de tipo meio triste, né, de que não tinha ninguém de fora, só uma pessoa da fábrica de cultura mesmo. Enfim, mas deu tudo certo, a gente apresentou e a pessoa gostou, e foi isso. Aí eu fiz o bacharel em artes cênicas, né, e eu tentei conseguir trampos com o diploma de bacharel. Só que tava muito difícil assim. Eu tinha abrido a licenciatura e tranquei, falei não, vou ficar só com bacharel, tá tudo bem, cansei da USP.

Mas como é muito difícil conseguir trampo, e conseguir só trampos artísticos é muito difícil também, então você tem que equalizar com alguma outra coisa, eu voltei para licenciatura agora. E eu voltei para licenciatura também um dos grandes motivos foi pensando numa bolsa que eu poderia conseguir, que é uma bolsa para quem tá cursando técnico. E na verdade é uma bolsa para qualquer pessoa que esteja estudando em qualquer nível.

Na verdade, antes ela era só para o ensino médio, que é o Transcidadania, voltado para pessoas trans. E agora é um pouco mais recente, abriu para pessoas que estejam cursando técnico e a graduação. Aí eu falei, vou pegar a bolsa, vou conseguir me manter, vou terminar a licenciatura, eu posso conseguir emprego melhor. Esses eram os meus planos. Beleza, entrei na fila, nada de chamarem, não consegui. Aí depois tem que ter 2 anos sem ter carteira assinada.

Aí eu tava para fazer esses 2 anos, aí eu voltei lá agora, tipo, ah, vou fazer os 2 anos, né, sem carteira assinada, posso entrar agora. Prefeitura esbarrou, congelou, não tá rolando, não se sabe se vai voltar, se não vai, o que que tá acontecendo, se é também sobre esse desmonte assim, né. E era um dos grandes motivos para eu voltar, para voltar a estudar assim, porque ia me salvar mesmo essa bolsa, sabe, porque tá muito difícil sobreviver de arte assim.

Então tô nesses perrengues ainda tentando construir a minha caminhada profissional artística assim. Mesmo é isso, né, tendo mais oportunidades aqui em São Paulo e tal, tem um acesso maior, tem momentos que rola e aí surge um projeto massa, acontece e tal, não sei o quê. Mas tem momentos que não tem nada acontecendo, então nesses momentos é complicado.

SCSereia Chagas

Nossa, acho que para os artistas aqui, acho que do Brasil todo, né? Esse é o maior perrengue, assim, porque parece que tipo acham que o artista vive de luz, né? E aí tipo tem tipo um trabalho por um pequeno período e depois é tipo, ah, sobrevive aí, vamos ver se você, vamos ver se você vive até a próxima, próxima vez que a gente vai te dar uma migalhinha aí. E aí é tenso, né, isso. Tenso demais.

AEArmr’Ore Erormray

É bem assim.

SCSereia Chagas

A gente tá chegando no finzinho do nosso podcast. Muito obrigado por ter aceitado o convite para essa conversa.

AEArmr’Ore Erormray

Obrigado eu.

SCSereia Chagas

E a pergunta que vem próximo do fim é: por que dançar em 2026?

AEArmr’Ore Erormray

Eu sinto que a dança é uma coisa que Pra mim, e eu imagino que pra qualquer pessoa, movimenta muitas coisas internamente que nos devolve a força de viver, nos devolve essa vontade de desenvolver outros projetos também. Então acho que pra quem não é artista da dança, né, não é no sentido profissional, dançar sempre vai ser uma coisa que vai movimentar a pessoa e vai trazer de volta a vida, assim, sabe? Vai dar essa vontadezinha de viver.

E eu acho que para tudo assim, até para saúde assim mesmo também, a dança é uma coisa que pode, pode ser muito essencial mesmo para movimentar todos os campos ali, até questão de adoecimento psíquico, psíquicos também assim, né. Eu acho que a dança é uma ferramenta muito interessante para tudo isso assim, que realmente Pode estar solicitando várias coisinhas que às vezes a gente não se dá conta, né? A gente fica tipo, muitas vezes as pessoas têm esse afastamento, não, dança não é para mim, não sei dançar.

Mas é sobre isso, ninguém nasce sabendo dançar, né? Todo mundo experimenta mesmo. E dança não é sobre dançar de um jeito ou de outro, dançar bem ou dançar mal. Acho que é sobre se movimentar e colocar esse corpo para estar no espaço mesmo dessa outra forma, sabe? E trazer essa vida de volta, assim. Pra mim, pessoalmente, eu me sinto muito, muito próxima dessa linguagem pra me expressar. Eu sinto que a forma que eu mais me expresso é pela movimentação corporal dentro da dança, assim.

Às vezes faz mais sentido pra mim falar com o corpo do que falar com a palavra, sabe? Porque eu digo coisas que eu nem sei o que significa, mas eu tô dizendo alguma coisa, eu tô colocando isso para fora assim.

SCSereia Chagas

A dança é algo espetacular mesmo, né? E eu não sei quem inventou isso de tipo, ai, a pessoa dança bem, dança mal. Dança. Se alguém acha que você dança ruim, ela que se lasque, né? Cada um com a sua dança, os movimentos. Importante é se sentir bem com o que você tá fazendo, né? E agora a gente tá na última pergunta, que é: qual o conselho que você daria para uma pessoa que tá iniciando na arte, na dança, no teatro? Um conselho que você gostaria de ter escutado lá no começo, quando você tava iniciando, ou até quando você sonhava em estar dentro da arte?

AEArmr’Ore Erormray

Acho que para pessoa buscar esses espaços coletivos de criação, né, as casas de cultura, céu, os espaços públicos onde acontecem as oficinas, onde você vai poder encontrar outras pessoas que estão querendo criar também para você se juntar. Porque eu acho que o mais importante da arte, principalmente do teatro, da dança, é estar em coletivo. São essas comunidades que se criam que é o que vai dar força para você continuar criando, continuar buscando esse esse caminho seu assim, porque acho que dançar sozinho, fazer teatro sozinho não existe, não faz sentido.

Acho que é sobre realmente tá junto, tá com outras pessoas construindo isso. Então encontrar esses espaços eu acho que é o mais importante, encontrar sua comunidade, pesquisar, tipo, por exemplo, se você é uma pessoa LGBT já vai ter um cantinho que vai ser ótimo para você, que é a Ballroom. Se você tem outros recortes, tipo, será que tem outros coletivos com os mesmos recortes que eu, que estão criando alguma coisa, já vai se juntando também com essas pessoas, porque vão ser pessoas que vão entender o que que você vivencia para produzir sua arte e talvez saber como te direcionar também, falar: não, a gente foi por aqui, ó, a gente construiu essa peça sobre esse tema que abarca você, sabe? Então é muito interessante entrar em contato com essas outras pessoas mesmo.

SCSereia Chagas

E chegamos ao fim de mais um episódio. Novamente te agradeço por ter vindo, por ter aceitado para essa conversa gostosa. Já aproveita, faz o seu jabazinho, fala para a galera onde acha seus trabalhos, fala para a galera, contrata! Então já fala suas redes sociais, onde acha seus trabalhos, se vai ter algum espetáculo que vai acontecer aí em algum momento.

AEArmr’Ore Erormray

Gente, muito, muito obrigado! Foi incrível essa conversa, muito feliz de estar aqui. É muito bom ter um espaço para compartilhar, né, tudo isso. E é aquilo que a gente tava falando, que é um espaço também que às vezes a gente acaba enxergando coisas em si mesmo, né, que a gente não costuma falar sobre isso. Então foi muito massa. É bom, eu tenho o Instagram, que eu acho que é o principal meio de contato onde eu vou estar postando tudo que acontecer, divulgando tudo.

É @armiore, se escreve A-R-M-I-O-R-E. Meu nome é um pouquinho difícil. E aí lá eu sempre tô divulgando alguma coisa que vai estar rolando, alguma apresentação. Agora eu tô com invólucro, então tô buscando apresentar invólucro em tudo quanto é lugar. Então talvez esteja lá alguma divulgação nova de apresentação de invólucro. Se tiver, colem que vai ser tudo, tudo.

SCSereia Chagas

Muito obrigada. Você aí que tá assistindo, que tá no YouTube, que tá escutando pelo Spotify ou qualquer outra plataforma de áudio, já deixa aquele like, se inscreve, segue, comenta, comenta coisas boas. Não só, né, às vezes aparece uma galera aí comentando umas coisinhas ruins. Então bora lá comentar coisinhas boas. Antes eu tava falando fale bem ou fale mal, mas fale da gente. Não fale mal não, fale bem. Se for falar mal, não comenta não, vai para outro lugar.

Nas redes sociais, no Instagram, no TikTok e no X, estamos como @vozesdupalco. É muito facinho de achar a gente, vai lá, segue a gente, engaja um pouquinho a gente. E é isso, beijinhos na bunda de todos. Este podcast é um projeto aprovado na 22ª edição do Programa para Valorização de Iniciativas Culturais do Município de São Paulo, o Programa VAI, com apoio do Centro Educacional Unificado, CEU Uirapuru. Este podcast é uma realização do coletivo Teatro Memórias e além. Prefeitura da Cidade de São Paulo. Você ouviu Vozes do Palco.

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CEU Uirapuru

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Programa VAI

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