Episódios de Vozes do Palco

T2: Episódio 7 - Jô Gomes

08 de maio de 20263h9min
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No Sétimo episódio conversamos com Jô Gomes, ela é produtora cultural, bailarina, coreógrafa, pesquisadora e professora de danças negras, tradicionais e urbanas, é mestra em Dança pela Universidade Federal da Bahia onde pesquisou sobre Matriarcado e Oralidade nas Danças Negras e pós-graduada em Dança e Consciência Corporal.Nesse papo conversamos sobre vários temas que nós, artistas independentes, precisamos ouvir e conversar.O podcast só existe pelo trabalho em equipe de:Hellen Almeida: @hc.kryzLaila Oliveira: @wtf_lailaoSereia Chagas: ⁠⁠⁠⁠⁠⁠@sereiadeaguadoce⁠⁠⁠⁠⁠Valdeir Santana: @valdeir.vsf Giovanni Felipe: @naturezaamorosa Produzido por Coletivo Teatro, Memórias e Além.Vozes do Palco é um Projeto Contemplado na 22ª Edição do Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais do Município de São Paulo - VAI ⁠ @ProgramaVAIsmc ​

Assuntos5
  • Funk brasileiro como ferramenta de propaganda geopolíticaOrigem e desenvolvimento do Passinhos do Brasil · Funk como cultura de resistência preta · Diferença entre movimento e dança no funk · Brega funk e suas variações · Importância da pesquisa e valorização das danças funk · Criminalização do funk e políticas públicas · Expansão internacional do funk e a dança · Desvalorização da dança funk em comparação com a música · Profissionalização e remuneração dos artistas de dança funk
  • Caminho do coraçãoFormação em jornalismo e migração para a dança · Reconhecimento como mulher negra e busca por conhecimento · Primeiros contatos com a dança: dança do ventre, dance hall, hip hop · Experiência no Grupo Cultural Obará e conexão com ancestralidade · Carreira profissional como artista e arte educadora em dança · Desafios de ser artista independente em Brasília · Experiência em Portugal durante a pandemia e racismo · Retorno ao Brasil e adaptação em São Paulo · Ser artista em São Paulo e lidar com a burocracia
  • Curso Heroínas NegrasResgate de histórias de mulheres negras invisibilizadas · Resistência e protagonismo das mulheres negras · Uso da dança para contar e sentir histórias · Tradução de histórias e movimentos ancestrais para o corpo contemporâneo · Matriarcado e a importância do corpo na sua concepção
  • Jornalismo e DançaInfluência do jornalismo na pesquisa e organização de conteúdo · Jornalismo como contação de histórias e tradução de linguagens · Capacidade de filtrar informações e saber procurar fontes · Simplificação de linguagens complexas (palavra e dança) · A importância de tornar o conhecimento acessível e compreensível
  • Perrengues do Artista IndependenteAdministração do tempo e a burocracia · A necessidade de saber vender e gerenciar a própria arte · A invisibilidade do trabalho burocrático do artista · A falta de compartilhamento de conhecimento sobre gestão e políticas públicas
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Começa agora Vozes do Pau.

Olá! Você está assistindo ou ouvindo o podcast Vozes do Palco, um podcast que visa entrevistar artistas independentes. Nesta segunda temporada, estamos entrevistando artistas da dança. Meu nome é Seria Chagas, sou uma pessoa não binária, não tenho preferências de pronome, sou uma pessoa parda, tenho cabelo black power, uma barba meio rala, estou usando um brinco redondo com detalhes marrom e dourado, um colar...

com os mesmos detalhes, tenho um bracelete no braço esquerdo com pedrinhas brancas, douradas e transparentes. Estou usando uma regata laranja e uma saia marrom. A entrevistada de hoje...

É, produtora cultural, bailarina, coreógrafa, pesquisadora e professora de danças negras, tradicionais e urbanas. É mestra em dança pela Universidade Federal da Bahia, onde pesquisou sobre matriarcado e oralidade nas danças negras. E pós-graduada em dança e consciência corporal. Seja muito bem-vinda, Diogo Gomes. Muito obrigada, gente. Muito obrigada pelo convite. Muito obrigada por estarem nos assistindo, nos ouvindo.

Eu sou o Jogome, sou uma mulher negra de pele clara. Eu estou usando tranças marrom, uma parte fixa na cabeça, uma parte solta. Elas estão caídas no meu ombro direito. No braço esquerdo eu tenho duas pulseiras nas cores preta, vermelha e branca. No braço direito outras duas pulseiras, branca e outra bem coloridinha. Estou usando uma blusa, uma regata do Passinhos do Brasil.

Que ela é preta, tem detalhezinho amarelo, verde e um short também colorido, laranja, azul, verde e preto. Ah, é um prazer te ter aqui. Eu que agradeço pelo convite. E a primeira perguntinha é super fácil. Quem que é, Gio Gomes?

Olha, essa é uma pergunta profunda, filosófica, ética, mas eu sempre gosto de me apresentar como uma mulher negra, brasiliense, escorpiana, filha de maranhenses. Eu acho que a diáspora não só africana, mas a própria diáspora minha aqui dentro do Brasil, a partir mesmo da minha própria família.

que parte de pai e mãe, saiu do Maranhão, foi pra Brasília, aí eu saio de Brasília, morei um tempo em Portugal, aí agora tô morando em São Paulo, então, acho que eu sou uma pessoa do movimento, e aí do movimento em vários sentidos, assim, movimento do corpo, movimento das palavras, movimento das...

transições mesmo de lugares, né? Aqui em São Paulo já morei em vários lugares, em Brasília já morei em vários lugares. Eu já mudei muito de profissões também, assim, a minha formação original é em jornalismo, e aí eu migrei para a dança, mas assim, já vendi pão, já vendi brinquedo, já fiz muita coisa, né? Então, acho que eu me defino como uma pessoa do movimento.

Tudo. Já pensando nessa sua trajetória, como que foi o seu primeiro contato com a dança? Em que momento que você percebeu que ela iria ser a sua carreira e também o seu objeto de estudo? A minha primeira formação foi em jornalismo.

Mas eu sempre gostei muito de dançar. Assim, a minha família inteira, a gente sempre ouvia muita música, tinha muita festa na casa da minha tia. Eu morava no quintal da casa da minha tia quando eu era criança. E eu via ele sempre dançando reggae. E aí, no Maranhão, você dança reggae coladinho, né? Então, eu via aquelas pessoas dançando e eu...

passava assim por entre aquele monte de adultos dançando, então assim, eu assistia muita televisão, muito programa de auditório, então eu sempre ouvia os discos do meu pai, né, ele colocava no final de semana e eu ficava fazendo como se eu fosse as backing vocals dos discos que ele tocava, então, dançar, fingir ser artista, sempre foi algo que eu fiz, né, então...

Eu não lembro exatamente em que momento que eu comecei a pensar assim, eu gostaria de ser isso. Porque eu honestamente não imaginava isso como uma profissão quando eu era criança. Porque eu assistia televisão e eu não via muitas pessoas parecidas comigo. Então eu imaginava assim, bom...

Ser paquita, ser dançarina, ser cantora, não é uma coisa para pessoas que se parecem comigo. E isso muito num nível muito inconsciente, né? Porque ser uma criança negra que cresceu nos anos 80, 90, é você não ter um espelho, é você não se sentir representada, né? Então...

Quando eu comecei a crescer, quando eu entrei na faculdade, assim, eu não me reconhecia como uma mulher negra, né? Então, eu não me reconhecia também possibilidades visuais, possibilidades como artista, possibilidade de palco, essas coisas eu sempre imaginava que era um lugar de festa, era um lugar de casa, era um lugar praticamente ali da vida privada e não da vida pública, né?

E aí eu entrei na faculdade em 2005, né? Eu tinha 17 anos. Quando eu saí da faculdade foi quando eu entrei no meu primeiro emprego e foi quando eu sofri um caso muito direto, assim, de racismo. E aí que eu fui me reconhecer como uma mulher negra. E a partir desse momento eu falei, bom, agora eu quero saber tudo. Eu quero estudar tudo.

Tudo que disser respeito à cultura negra me diz respeito e eu quero saber. E foi aí que eu comecei a estudar a cultura negra, que foi quando eu entrei como jornalista, né? Eu comecei a trabalhar na Fundação Cultural Palmares. E aí a Fundação Cultural Palmares me colocou em contato com muitos artistas de muitas vertentes, de muitas linguagens, de muitos países, né? E isso expandiu completamente, assim, a minha percepção do mundo mesmo.

E aí eu comecei a fazer aula de dança. A primeira vez que eu fiz aula de dança, eu estava na minha primeira pós-graduação, que foi em revisão de texto. Eu ainda estava muito, muito dentro do jornalismo mesmo, e essa era uma parte que poderia me ajudar muito, né? E aí, nessa instituição, né? Nesse centro universitário onde eu fiz essa primeira pós-graduação, eles tinham um combinado, né? De que alunos...

ofereceriam aulas de habilidades que eles tivessem e eles teriam descontos em suas mensalidades. E aí, uma estudante estava dando aula de dança do ventre. Então, a primeira aula de dança que eu fiz na minha vida foi de dança do ventre.

E era uma aula de graça, porque é isso, assim, eu trabalho desde os meus 17 anos, desde que eu entrei na faculdade, mas o dinheiro, assim, pagar aula de dança tava totalmente fora da minha realidade. Então, ah, tem essa possibilidade de aula de graça? Por que não, né? E aí a minha primeira aula foi de dança do ventre, e aí eu fiz um semestre inteiro de dança do ventre, e eu amei.

Mas aí já era o último semestre da pós-graduação. Então, quando eu saí, procurei uma academia de dança. E aí é isso. Paguei por um tempo, mas depois de um tempo já não tinha mais como pagar. Parei. Aí depois eu fiz aula de dance hall com um amigo meu, assim, que é uma referência também lá em Brasília. E aí o dinheiro acabou e eu parei.

Aí, comecei a fazer aula de hip hop, né? Na verdade, de danças urbanas, de uma forma mais ampla, né? Mas, assim, comercialmente falando, chamam de street dance, de hip hop, né? E aí, eu fiquei nessa academia por dois anos. E foi a primeira vez que eu subi num palco.

aquelas apresentações de final de ano das academias de dança e a primeira vez que eu subi num palco eu falei olha, eu acho que eu não vou mais sair daqui e aí foi ali assim, foi 2012 a primeira vez que eu subi num palco eu falei agora ninguém mais vai me tirar daqui, só que

Brasília tem uma cena cultural e uma cena artística muito forte, muito viva, muito pungente, muito potente, mas, infelizmente, não é tão reconhecida e não é tão valorizada, e a maioria dos artistas precisam ter dois, três empregos para conseguirem sustentar exatamente suas artes. Então, ao mesmo tempo que eu estava fazendo essas aulas de dança, que eu me apresentava com essa academia e tudo, eu falava assim, tá, mas...

É isso, vai ficar nesse aspecto da aula de dança, da apresentação de final de ano, da apresentação de meio de ano. Só que em 2014, não tinha mais dinheiro novamente para pagar as aulas. E aí, parei de novo. Só que em 2015, eu entrei para a Secretaria de Cultura de Brasília como jornalista.

E lá, o prédio mesmo da Secretaria de Cultura fica no anexo do Teatro Nacional. E tem a sala de dança, que é a sala de ensaios. E essa sala de ensaios estava tendo aula de dança afro-brasileira com o Grupo Cultural Abará. E era de graça. Então, eu literalmente saía do meu trabalho, só descia uma escada e eu estava na aula de dança. Então, eu não tinha problema com deslocamento, com horário, com trânsito, com atraso. E era de graça.

Então, eu desci e aí, na minha primeira aula lá, o diretor, né, Jorge Ângelo, virou pra mim e falou assim, senta aqui e fala esse texto. Aí, eu peguei o texto, falei o texto ali, pronto, você vai ser a protagonista do nosso espetáculo. Assim. Oi, só na primeira aula. Então, assim, eram duas horas de aula, só que a primeira hora era a aula e a segunda hora era o ensaio desse espetáculo.

E eu não sabia. Eu fui achando que era só aula. E aí fiz a aula e na segunda hora dá esse texto aqui. Nossa, ficou muito bom. Você vai ser essa personagem. E aí eu entrei numa companhia profissional de dança afro-brasileira, de cultura negra. Assim, sabe?

E esse Grupo Cultural Obará, em 2015, eu sempre falo sobre essa história, porque foi ali, até mais do que quando eu trabalhei na Fundação Cultural Palmares, foi no Grupo Cultural Obará que eu entendi que a arte e a cultura negra é o que nos conectam realmente com a nossa ancestralidade.

Então, a partir daquele momento, a minha dança, a minha busca, os meus estudos, tudo passou necessariamente pelo corpo, pela arte, pela interpretação da cultura e da arte negra por meio das minhas próprias vivências. Então, eu tive contato com muito conteúdo que, nos meus estudos de livros, nos meus estudos acadêmicos, nas coisas que eu assistia, nas coisas que eu lia, nas coisas que eu ouvia,

Eu não tinha porque não estava necessariamente passando pelo meu corpo. E a partir do Grupo Cultural Bará, estava. Então, assim, eram duas horas de espetáculo. A gente tocava, a gente atuava, a gente que fazia alguns textos de algumas das cenas. Então, a gente tinha aula de capoeira, de teatro, de percussão.

de dança, né, então a gente dançava, atuava, escrevia os textos das cenas, então assim, foi uma imersão completa, assim, foi um ano, né, na verdade foi menos de um ano, porque a gente apresentou ali outubro, novembro, e a gente, eu comecei, né, a frequentar as aulas, acredito que no primeiro semestre, finalzinho do primeiro semestre, então foi uma imersão muito profunda.

E os diálogos que a gente tinha entre elencos, os diálogos que a gente tinha com a direção, com os nossos mestres da dança, com Calisto, com Jairo, era tudo muito profundo e muito intenso. E era um elenco de maioria negra. Então, foi um espetáculo que abriu minha percepção como artista negra que quer trabalhar com cultura.

Então, foi ali no Grupo Cultural Obará que eu entendi como que a arte e a cultura negra poderiam ser usadas realmente para me conectar com essa ancestralidade. Então, tinham cenas que a gente dançava e falava, interpretava sobre os orixás, sobre a nossa ancestralidade que infelizmente veio para esse país de uma forma muito violenta.

e tinha outras cenas já super contemporâneas em que a gente estava falando de temas como a aceitação do nosso próprio cabelo, como a solidão da mulher negra, como o extermínio da juventude negra. Então tinha esse momento, esse tempo espiralar de que fala...

Além da Maria Martins, que a gente ia no passado e voltava pra cá. E no passado, voltava pra cá. E projetava futuro e voltava. E falava de Orixá e falava de Elza Soares. E, sabe? Então, assim, a gente tava o tempo inteiro dialogando com o tempo e vivendo essa espiral do tempo ali durante aquelas duas horas.

E aí, no final daquele espetáculo, a minha mãe foi assistir e aí ela falou assim, nossa, a gente cantava muitas músicas, muitas canções, muitas cantigas, que se cantam nos terreiros, né, para alguns orixás. E aí, no final do espetáculo, minha mãe falou assim, nossa, eu ouvia algumas dessas músicas que vocês cantaram, eu ouvia no quintal lá da casa do meu pai.

E eu nunca, nunca tinha conversado sobre isso com minha mãe. Eu falei assim, peraí, como assim? Como assim? Ela, não, não, não, não. Aí já mudou de assunto, porque ela é muito católica e tal. Mas assim, aquilo faz parte da ancestralidade da minha família de alguma forma. E eu ainda não acessei essas informações, mas eu sei que tá lá, porque tá em mim. Então...

estar comigo desde muito tempo, e minha mãe ter dado essa dica, já me fez abrir os meus horizontes mesmo, ampliar a minha percepção de que não começou comigo. Não começou comigo.

Essas músicas já foram ouvidas antes, já foram cantadas antes, já foram dançadas antes. E eu sou continuidade de algo que eu preciso ir lá no Maranhão para saber do que exatamente. Mas foi no Grupo Cultural Bará que eu falei, bom, agora eu estou no palco com uma companhia profissional.

falando sobre cultura negra, sobre arte negra, dançando a minha história, dançando a história de pessoas que vieram antes de mim. E foi ali que eu acordei mesmo pra isso. Então, em 2016, eu entrei numa companhia de danças urbanas, o Rota Brasil, entrei numa companhia de mulheres negras, chamada Xantes Negras, que a gente dançava danças afro, tanto africanas do continente, quanto africanas da diáspora, né? E a partir de 2016, eu falei, agora eu quero viver de dança.

Aí eu procurei esse meu amigo, o Hudson Oliveira, falei, amigo, você é uma referência pra mim, você já é uma referência no dancehall, quero saber como que eu posso viver de dança. E aí ele falou, em Brasília você tem duas opções, ou você dança pra uma festa, pra um artista específico.

Ou você vai dar aula? Eu falo assim, bom, eu amo dar aula, eu estudei pra caramba, eu gosto muito de estudar, então eu acho que é por esse caminho, né? E aí nessa época eu já tinha terminado a pós-graduação em gestão de políticas públicas em gênero e raça, que foi minha segunda pós-graduação na Universidade de Brasília.

Então, eu de fato estava muito imersa mesmo em juntar, não que estejam separados, porque não estão de forma nenhuma, mas assim, a teoria e a prática, a intelectualidade, o corpo, mostrar que a gente trabalha sempre os dois juntos. Então, eu tinha bastante conteúdo para fazer essa junção. E eu falei, bom, ser professora, então, é o que eu vou querer. Ele falou, beleza, eu vou te colocar como monitora das minhas turmas.

E aí ele me colocou como monitora, e aí, assim, uns três, quatro meses depois, ele falou, olha, eu preciso de um tempo, então eu vou te passar todas as minhas turmas, e aí você começa a dar aula. E aí, em 2017, começando a dar aula nas turmas que eram do Hudson, foi assim que começou a minha vida, a minha trajetória profissional como artista e arte educadora em dança, em cultura negra. Caramba, uma jornada, assim, você caiu, tipo, na aula, né?

Num prédio onde você já trabalhava, que aí foi desembarcando em um monte de oportunidade, quando você viu o universo falando, você vai dançar sim. Vai. E foi te puxando, te colocando nesse caminho, né? Que gostoso isso. E aí, a partir desse momento, foi que você decidiu que não ia continuar no jornalismo.

Bom, em 2017, quando eu comecei tudo isso, eu ainda estava trabalhando como jornalista, né? E aí, em 2017, que eu comecei a dar essas aulas, eu dava aula no horário do almoço, eu dava aula à noite, eu dava aula no final de semana. E estava ficando realmente muito puxada essa rotina.

E aí, em 2018, eu falei assim, não, eu vou mudar de emprego, eu vou pra um trabalho que é meio período, porque eu consigo me dedicar com mais tranquilidade pra dança. Só que aí, nesse trabalho de meio período, eu fui demitida. E aí, quando eu fui demitida, eu falei, agora eu preciso fazer virar. Só que, como eu falei anteriormente...

é muito difícil você ser apenas artista em Brasília, né? Então, teve dias que eu estava dando nove aulas, sabe? Entre aula particular e aula coletiva, e aula de academia, porque, assim, a remuneração por essas aulas, por essas atividades, não completavam a minha renda, né? Não completavam.

os meus gastos, né, pra me manter minimamente. Então, assim, foi um período muito difícil ali, 2018, 2019, pra eu fazer virar somente dando aula de dança. Então, assim, teve academia de dança, que assim que eu entrei, como os alunos ainda não estavam muito familiarizados comigo, tinha poucos alunos, eu recebia por um trabalho de um mês, dando aula duas vezes na semana, à noite, teve mês que eu recebi 160 reais. Meu Deus!

E, assim, 160 reais não era nem uma mensalidade que um dos estudantes pagava pra fazer aula. Eu recebia menos do que uma mensalidade. Que absurdo isso. Então, assim, com o tempo que foi vindo mais estudantes, porque era isso, né? A porcentagem da academia...

Era 60% pra academia, 40% pra mim. Então, eu precisava estar com a sala muito lotada pra eu realmente conseguir tirar uma renda e um lucro positivo da aula. Então, assim, até eu conseguir conquistar mesmo essa audiência, conquistar esse público, demorou muito. Então, assim, 2018, que eu ainda tava trabalhando, eu fui fazendo esse trabalho de divulgação, esse trabalho de formiguinha mesmo, sabe? Nas redes sociais, no boca a boca, chamando as pessoas, chamando os amigos, amigos, amigos, amigos.

Mas aí em 2019, assim, é isso, você vai ter que fazer virar somente com a dança. Aí eu tava a aula, nove aulas por dia, e tinha que pegar bicos e trabalhos por fora, e faz clipe, faz gravação, e faz propaganda, publicidade e tal, mas assim...

Não tava dando. Simplesmente não tava dando. Não tava complementando. Eu tava o tempo inteiro pedindo dinheiro emprestado. Foi assim, foi um período bem, bem difícil. E aí surgiu uma oportunidade em 2020 de eu ir pra Portugal dançar numa banda, numa banda cover. Uma amiga minha, que também era de Brasília, que também é uma mulher negra, tava lá. E aí ela era a coreógrafa da banda. E aí ela me chamou. Ela falou, só que você tem que estar aqui em duas semanas.

Meu Deus. E aí, assim, eu abri mão de tudo. Eu saí doando minhas coisas, vendendo minhas coisas, sabe? Assim, alugo apartamento com tudo dentro, entendeu? Todo mobiliado e vai, sabe? Eu fui e aí eu cheguei lá. E duas semanas depois que eu estava lá, pandemia. Nossa.

Duas semanas. Eu fiz dois shows. E aí, pandemia. Como que foi estar na pandemia em outro país? Gente, foi assim. Eu tô rindo agora, mas definitivamente não foi nada, nada engraçado. E uma coisa que as pessoas não costumam falar tanto sobre Portugal é que eles são extremamente racistas. Assim, não tem palavra.

no português pra descrever os olhares que eu recebia, sabe? A forma como eles me tratavam. Já teve uma situação na nossa segunda apresentação a gente tava esperando pra entrar no palco aí veio uma senhorinha assim, ó branquinha, cabelo branquinho deste tamanho ficou olhando assim pro meu cabelo e eu assim, ai meu Deus do céu

Por favor, não vem, sabe? Mas ela era tão fofinha, ela era tão... Só por fora, né? Aí ela veio vindo assim, ó. Ah, não. Ah, sabe? Uma senhorinha, né? Eu não vou fazer nada, não vou falar nada. Aí ela pegou o meu cabelo, puxou assim, ó. Aí falou, parece uma palha de aço. E saiu.

Meu Deus. E aí, tava eu, tava essa minha amiga aqui também. Nós éramos as únicas negras do elenco, né? E mais umas outras mulheres. Todo mundo riu. Eu e minha amiga ficamos assim, ó. Não tô acreditando que isso acabou de acontecer. Aí a gente ficou assim, eu assim, tá, mas... Aí na minha cabeça veio esse pensamento. O que você esperava da terra do colonizador?

O que você esperava? Por que você achou que seria diferente? E esse foi o nosso último show. E aí depois disso a gente estava ensaiando para outro show. E aí durante essa semana até o próximo show, lockdown, pandemia, acabou tudo, fechou tudo.

E aí eu tava do outro lado do mundo recebendo as piores notícias possíveis sobre o Brasil. Mas assim, as notícias que a gente recebia eram cenário pós-apocalíptico de filme de distopia de Hollywood, sabe? As pessoas estão se arrebentando no supermercado, as pessoas estão acabando com o papel higiênico.

O que está acontecendo no Brasil? Ah, porque vai acabar a comida. Nossa, as pessoas estão saqueando os supermercados. Então, era um cenário assim. Acabou o mundo e o Brasil está se acabando antes do restante do mundo, sabe?

E aí eu fiquei assim, mano, o que eu tô fazendo aqui, sabe? Mas é isso, eu recebo um salário fixo, eu tenho como pagar minhas contas, era isso que eu queria, eu vou segurar, vai acabar logo, vai passar rápido.

E aí foi vindo uma semana, duas semanas, três, quatro, cinco, seis, e aí dois meses. E aí, assim, pelo menos na região da União Europeia, Portugal estava sendo, assim, um exemplo de práticas da pandemia, né? Então, eles suspenderam o pagamento de contas de luz, gás e internet.

Exatamente para estimular as pessoas de ficarem em casa. E isso fez as pessoas ficarem em casa e tinha que pagar multa quem estivesse na rua e não tivesse uma justificativa de algo essencial para fazer na rua. Então, essas práticas fez...

as políticas de lockdown serem flexibilizadas mais rápido. Então, assim, estabelecimentos com sei quantos metros já podem abrir desde que não sei o quê, não sei o quê, não sei o quê. Enfim, aí o proprietário, digamos assim, da banda, a gente tinha um espaço físico, onde ficavam os caminhões que montavam os palcos e tudo, a nossa sala de ensaio.

E tinha que se refazer todos os contratos dos shows que a gente iria fazer, porque passamos um tempo parado e não sabíamos quando que poderia retomar a estrada e os shows, etc. Então, eu e minha amiga, a sugestão que nos foi dada foi, vocês vão se revezar em atender telefone.

em responder e-mail, e aí a gente falou assim, tá, então enquanto uma fica nessa função burocrática, a outra vai cuidar da sala de ensaio, porque tinha uma pilha de roupas, assim, de figurinos antigos, que era pra gente jogar fora. Aí falaram assim, então, tudo que está no chão, se você quiser pegar alguma coisa, você pode pegar, porque a gente vai jogar fora. Beleza, então a gente ia organizando, aí uma ficava organizando, a outra ficava atendendo o telefone. Ficava organizando, ficava... E aí

E aí chegou um determinado dia que ele falou assim, olha, vou abrir uma nova empresa. Vou abrir uma empresa de serviços domésticos.

E aí vocês duas vão ser cuidadoras de idosos, fazer faxina. E eu falei assim, mano, eu não tô botando fé nisso, não. Assim, meu pai e minha mãe me falaram a minha vida inteira que era pra eu estudar exatamente pra eu não cair nessas profissões, porque a minha mãe foi empregada doméstica por muito tempo.

E aí eu lembro que teve uma vez que eu escrevi uma poesia para um livrinho da escola e tinha um cartaz no fundo assim, nome, apelido, idade, o que quer ser quando crescer. E aí tinha uma pergunta assim, o que você quer ser quando crescer? E eu respondi assim, é trabalhadora e honesta, empregada doméstica que nem minha mãe.

E aí a minha mãe viu aquilo e falou assim, então, filha, parece que é legal, mas não é legal. Você não vai trabalhar com isso. Você vai estudar. E você não vai trabalhar com isso. E aí, quando veio essa sugestão, eu falei assim, não, mano, eu não estudei tudo o que eu estudei. E aí, nessa época, eu já estava com duas pós-graduações, né?

eu falo assim, mano, eu estudei tudo o que eu estudei, eu estou com duas pós-graduações, eu sou uma artista, eu estou aqui como artista, eu vim pra cá para ser artista em tempo integral, eu não acredito que isso está acontecendo, e aí ao mesmo tempo veio a outra voz, Joceline, você está sendo mimada, olha a situação do mundo, você vai ter que dar conta, porque é isso, é o que sobrou, é o que restou, vamos embora.

Aí, tá bom. Então, tá bom. Então, vocês vêm pra cá de manhã e vão pra lá tarde. E nos sábados vocês se revezam. Aí a gente disse, tá. E o salário? Aí eu falo assim, não, vocês já estão recebendo por aqui. Vocês não vão receber por lá. Aí a gente, não, meu queridão. Duas empresas, dois salários. Não, vocês brasileiros, vocês querem a vida fácil.

Vocês não querem trabalhar. Vocês querem ganhar dinheiro fácil. Eu estou... Gente, eu ouvi isso. Eu estava na sala. Porque, assim, se me dissessem, eu não acreditaria. Mas eu estava na sala quando eu vi isso. O que eu estou fazendo é caridade para vocês. Ah, não. E vocês não estão reconhecendo o que eu estou fazendo. Vocês deveriam ser gratas por essa oportunidade.

Falei, mano... Aí veio de novo a mesma voz. O que você esperava do colonizador? O que você esperava do colonizador? E aí eu fiquei assim... Isso piora, né? Calma! Em detalhe. E piora. Até aí tudo bem. Aquele clássico do bar, né? Até aí tudo bem. Aí a minha amiga falou assim, olha só.

a gente quer voltar pro Brasil. Aí ele falou assim, vocês querem voltar pro Brasil? Voltem. Aí a gente, não. Você trouxe a gente pra cá, você vai ter que ajudar a gente a voltar, ainda mais numa situação de lockdown, de pandemia. Como é isso? Não.

O contrato era pra vocês permanecerem aqui, trabalhando com a gente, se vocês quiserem voltar, eu não tenho nada a ver com isso. A gente... Tá, não, tudo bem. Então a gente vai avaliar as possibilidades, tá bom? A gente conversa de novo na segunda-feira. Isso era uma sexta-feira. A gente conversa de novo na segunda-feira, tá bom? Tá bom. Aí, a minha amiga abriu o celular dela, o aplicativo lá do banco, que a gente recebe o pagamento a ela.

Por que a gente recebeu esse pagamento aqui a menos do que foi combinado? Não, esse aí foi exatamente combinado. Não foi não. Combinado foi outro. Não, esse foi combinado. Aí minha amiga botou a mão na mesa assim, você tá me chamando de louca? A gente conversou nessa mesa aqui, combinado era outro.

Não, porque não sei o quê. E aí eles começaram a discutir. E eu assim, ó. Meu Deus. Aquela cena de filme. Você deve estar se perguntando como que eu vim parar aqui, sabe? E eu assim, véi, o que que tá acontecendo? O que que tá acontecendo? E aí a gente saiu. Quando a gente saiu, a gente falou, e agora, amiga? O que que a gente vai fazer? A gente vai fazer o seguinte.

a gente vai levantar todas as regras, tudo que eles possam ter quebrado em relação à direita trabalhista com a gente e tentar fazer uma negociação. Olha, a gente não vai denunciar vocês por isso desde que a gente consiga voltar para o Brasil. Aí a gente fez isso. Chegamos lá na segunda-feira, olha...

Temos isso aqui, levantado, mas a gente quer outra... Não. Eu não tenho nada a ver com isso. Se vocês quiserem, eu vou trazer o problema de vocês. Então tá bom. Então a gente vai ter que ir na justiça trabalhista. Então tá bom. Aí beleza. Fomos pra casa. E aí a...

A grande questão da pandemia é que a gente não tinha como voltar para o Brasil, porque as companhias aéreas não queriam voar para o Brasil. A gente estava falando de um contexto político, governamental, que não estava se importando com nenhuma prática em relação aos lockdowns, à pandemia e tudo mais. Então, assim, ninguém queria voar para o Brasil.

então as passagens estavam absurdas de caras e a gente tava muito preocupada como que a gente ia fazer pra voltar eu falei assim, mano, é isso, todo o dinheiro que eu ganhei aqui vai ficar nessa passagem eu quero voltar, eu preciso voltar eu vou voltar eu comprei naquele mesmo dia assim, pra dois dias depois e aí falaram assim então sabe as roupas que vocês pegaram?

Se vocês não devolverem, eu vou denunciar vocês de roubo. Ah, não.

Meu Deus. Só piora. Só piora. Aí, véi, caos. Amiga, vai embora. Vai, volta logo pro Brasil. E a minha amiga comprou passagem por esses sites de... Enfim, né? Que intermediam compras de passagem. E a passagem dela era sempre cancelada, cancelada, cancelada, cancelada. A minha, eu comprei direto da empresa. Então, realmente, era dois dias. Dois dias eu voltei pro Brasil, sabe?

Mas assim, eu voltei e eu... Eu não vou dizer que eu entrei em depressão, mas eu vou dizer que eu fiquei num estado bem depressivo, sabe? Porque esse é o fim de um sonho. Meu sonho de viver de arte, de ser artista 24 horas do meu dia, foi assim, sabe? E isso... Ai, país de primeiro mundo. Gente. Gente, aí eu repito, né? O que vocês esperam do colonizador.

Ah, é porque minha amiga vive lá em Portugal e ela nunca teve problema. Você realmente sabe como é a vida da sua amiga? Qual é a cor da sua amiga? Porque assim, se a sua amiga for preta, as chances dela estar sofrendo racismo 24 horas por dia são enormes.

E ela não vai te falar sobre isso exatamente porque ela tem que sustentar o personagem do A vida na Europa é muito boa. Nossa, como é boa a vida na Europa. Gente, parem com isso, sabe? E aí eu voltei pro Brasil em 2020. E assim, gente, o artista que sobreviveu de live na pandemia, até o diabo tem medo dessa pessoa. Tá? Tô falando sério aqui pra câmera.

A gente participou de festa no Zoom. Nossa!

A gente gravou show em festival, em estúdio fechado, tá? Então, assim, nós, artistas que sobrevivemos a esse período da pandemia, saibam, não tem nada nesse mundo que a gente não consiga fazer, ok? Sobrevivi à pandemia, dando aula, fazendo live, fazendo um monte de coisa. Isso 2020, 2021. E aí, em 2022, me mudei para São Paulo.

E era algo que eu tava sempre protelando, assim. Ai, talvez eu mude pra São Paulo. Ai, sabe, seria muito legal. Eu tenho muitos amigos aqui em São Paulo. Ah, por que você não mudou pra cá? Um dia, um dia eu venho, um dia eu vou. E ficava sempre nesse dia, um dia. E aí, em 2022, eu vim.

E assim, desde 2022, eu tenho vivido coisas em São Paulo que eu fui para a Europa para tentar viver o que eu vivo em São Paulo. Em São Paulo, eu sou 100% do meu tempo artista.

artista que também é produtora, que também tem que lidar com as burocracias e escrever de tal, escrever projeto, fazer prestação de conta, nota fiscal, o artista multilinguagem, que a gente tem que ser. Mas ser essa artista multilinguagem e poder lidar com todos os aspectos da cadeia produtiva do meu trabalho.

assim, me enche de prazer, sabe? Me enche de tesão mesmo. Eu amo o que eu faço. E eu faço isso, eu acordo e eu durmo sendo artista, trabalhando com os meus projetos, trabalhando naquilo que eu desenvolvi e que eu desenvolvo com todos os meus anos de estudo.

com tudo que eu vivi no meu corpo, sabe? Então, quando eu tô nas minhas aulas e que eu tô falando de alguma situação, de alguma coisa relativa à Europa, não sei o que, eu não tô falando de um lugar de abstração, tô falando de um lugar... O meu corpo viveu o que eu estou te falando, sabe?

Então, hoje, aqui em São Paulo, eu falo pras pessoas, assim, gente, com todos os problemas que São Paulo possa ter, eu consigo ser artista aqui. Eu consigo viver da minha dança, eu consigo viver da minha arte, eu consigo viver dos meus estudos, eu consigo viver das minhas habilidades. E isso não tem preço, sabe? Porque, assim, eu estou falando o meu idioma, eu estou convivendo com a minha família, eu estou convivendo com os meus amigos, sabe?

Eu sei me desenrolar aqui, sabe? Assim, você ser uma pessoa imigrante, e aí assim, de outro país, né? É uma realidade que eu acho que a gente só entende quando a gente vive, sabe? É realmente muito complicado você imaginar assim, mano, eu não tenho a menor dimensão de quando que eu vou estar na presença da minha família novamente. Isso é um rolê, assim...

me desestabilizou muito, sabe? Então, você vê pessoas que passam anos sem conseguir voltar nos seus países de origem por conta de dinheiro, por conta de questões políticas, por conta de guerra, por conta de várias outras questões. Então, assim, com todos os problemas que o Brasil possa ter...

Eu não me imagino morando em nenhum outro país. Eu posso visitar, eu posso conhecer, mas assim, morar, eu só moro no Brasil, sabe? E assim, com tudo que possa ser dito, com tudo que possa ser problematizado a respeito da vida em São Paulo.

São Paulo me proporcionou que eu saí do país procurando. Entendeu? Então, assim, a vida cultural, a vida artística, os incentivos públicos e privados que a gente tem para produzir a nossa arte aqui é algo que eu, pelo menos, não conheci em nenhum outro lugar. Então, assim, vindo de Brasília, tendo passado por essa experiência em Portugal, posso dizer, aqui em São Paulo, a gente tem uma possibilidade de ser artista que a gente tem em pouquíssimos lugares.

Misericórdia, estou aqui. Até sem saber o que falar. A história foi escalacionando. Você fica assim. Deus, como que ela vai sair disso? Aí fica pior. E aí vai ficando cada vez. Ainda bem que você conseguiu voltar. Você conseguiu. A pandemia foi realmente caótica. Eu acho que essa visão que você teve quando você estava lá dos mercados sendo sucateados, das pessoas correndo no mercado para comprar para a higiene porque todo mundo achava que ia acabar. Isso realmente aconteceu. Eu senti ele.

Foi caótico, porque todo mundo achou que era o fim do mundo. Eu fui uma dessas pessoas que achei que o mundo ia acabar. Eu fiquei numa depressão durante a pandemia, porque eu ficava consumindo muita notícia, e aí você achava realmente que estava numa situação horrível.

Mas acho que o que eu achava estava na minha cabeça, a gente estava numa situação muito pior. Não que não tenha sido horrível a pandemia, mas, nossa, muita loucura. Nossa, e viver, eu fiz aulas, muitas e muitas aulas, por Zoom, por outras plataformas também.

Nossa, era... E aí eu lembro que às vezes, tipo, o lance de você estar fazendo online, você tinha que conviver com as pessoas que estavam na sua casa, às vezes, tipo, eu sou do teatro, da música, às vezes tinha que cantar, e você falava, meu Deus, como que eu vou cantar, sem perturbar as pessoas que estão na minha casa?

E aí você ficava, tipo, vou cantar pouquinho, mas não dá pra cantar pouquinho, não dá pra fazer as coisas pouco porque eu quero me entregar. E você ficava nessa, tipo, era muita loucura. E ainda bem que a gente passou, espero que nunca tenha nenhuma outra pandemia. Nossa, por favor. Por favor. Lavem as mãos. Lavem as mãos.

E que se aprenda, as pessoas que estão nesses cargos de poder, que aprenda, quando tiver sinais de alerta, faça alguma coisa, não deixe chegar no estado que chegou ao Brasil durante a pandemia.

A gente estava com um senhor aí, presidente, que falava várias e várias asneiras, que eu não vou chegar a mencionar nomes nem nada, porque YouTube barra fala, não, a propaganda está fazendo propaganda. E a gente fica assim, meu Deus, não pode falar? Fatos, apenas fatos. É, apenas fatos que a gente estava num momento caótico. Mas, enfim, vamos voltar.

E depois que as coisas se normalizaram, normalizaram entre muitas e milhões de aspas, acho que meio que voltaram antes da pandemia, como foi que você seguiu? Você criou o Passinhos do Brasil. Como você chegou a idealizar o Passinhos do Brasil? O que é o Passinhos do Brasil?

O Passinhos do Brasil, a primeira oficina que eu dei, porque assim, eu já estudava e já dava oficinas especialmente de Passinho Foda, que é o Passinho do Rio de Janeiro, né? Porque eu comecei a estudar o Passinho Foda em 2015, e em 2017 eu passei um tempo lá no Rio, e aí eu entrei para o Imperadores da Dança.

Então, desde 2017, eu já dava oficinas de passinho foda, que é o passinho do Rio de Janeiro. Mas, em 2018, 2019, eu comecei a estudar outras vertentes de passinho. E aí, em 2018, 2019, 2020, 2021...

exatamente por conta da pandemia, o Centro de Referência da Dança daqui de São Paulo abriu um edital para aulas online, para você dar oficinas de aulas online. E aí eu escrevi essa oficina, Funk Passinho Cultura de Resistência Preta, em que eu ia passar as bases dos vários passinhos do Brasil. Mas ainda não tinha esse nome, Passinhos do Brasil. Era Funk Passinho Cultura de Resistência Preta.

E aí, durante a pandemia, eu dei várias dessas oficinas de passar as bases dos vários passinhos do Brasil. E aí, dei essas aulas em 2021, 2022, aqui em São Paulo. Eu dei o curso, um módulo, né? Um módulo de danças urbanas e aí eu dei um módulo de passinho e suas vertentes.

Isso em 2022. E aí, quando foi 2023, foi surgindo outras oportunidades de dar oficinas de passinho nesse conceito, né? Os vários passinhos.

E aí quando foi 2024, estava a proposta de lançar o Dia Nacional do Funk, que é uma proposta que estava rodando há muito tempo lá no Congresso Nacional. E aí em 2024 eu falei, eu não sei de onde que eu tirei exatamente isso, mas assim, já foi aprovado, vamos celebrar, mas ainda não tinha sido aprovado.

Vamos celebrar o Dia Nacional do Funk. E aí eu desenvolvi uma programação, assim, bem extensa, que durava o mês inteiro de julho. Que incrível. Lá no Sesc Consolação. E aí, fiquei pensando o nome. Eu pensei, ai, Brasil Dance Funk Camp Festival. Eu pensei um nome, assim, bizarro, em inglês, sabe? Essa coisa assim, bem, ai, Dance Camp, blá, blá. E aí...

Sabe assim, você vai tentando... Gente, vamos simplificar, vamos simplificar, vamos simplificar. Passinhos do Brasil. Autoexplicativo. Não tem que se preocupar com nada. Você só vai ter que explicar assim. Mas é passinho de charme ou é passinho de funk? Passinho de funk. Pronto. É essa a única explicação que você vai ter que dar. Então, ficou Passinhos do Brasil. E aí foi o festival, as oficinas. Consegui trazer representantes de vários passinhos direto dos estados. Onde esses passinhos foram desenvolvidos.

Teve cine-debate, teve oficina específica para mulheres, teve oficina específica para professores, para colocar passinho funk dentro de sala de aula. Teve roda de conversa sobre as mulheres no passinho. Teve batalha, teve cine-debate com o filme A Batalha do Passinho. Então, assim, teve uma série de atividades o mês inteiro. E aí, assim, no dia, sei lá, acho que foi dia 30, dia 29 de julho, não lembro direito agora. Aí, o presidente sancionou o Dia Nacional do Funk.

Então, assim, eu já estava celebrando algo que na minha cabeça já tinha acontecido, mas era, na verdade, uma antecipação, que aí naquele mês, no final do mês, foi sancionado o Dia Nacional do Funk. Então, eu costumo dizer que foi uma celebração de grande impacto que já estava celebrando algo que eu sabia que ia acontecer, era uma questão de tempo, né?

E aí aconteceu, então desde 2024, que eu uso o nome, né, Passinhos do Brasil, mas ele na verdade começou como uma oficina, né, em 2021, no CRD, no Centro de Referência da Dança de São Paulo. Então, eu costumo dizer, o Passinhos do Brasil é uma iniciativa que surgiu aqui em São Paulo, né, primeiramente online, como essa oficina, e aí o desenvolvimento e a pesquisa e o aprimoramento e o nome já surgiu aqui nesse contexto, meu como migrante aqui na cidade.

Que se tornou um festival e depois você foi para outros estados com ele. Inclusive, você chegou a ir para a Argentina com ele também. Como que foi esse processo de levar ele para outros estados e de levar para um outro país? Foi muito interessante, porque as pessoas costumam dizer de uma forma negativa, o Brasil não conhece o Brasil, mas as pessoas esquecem que o Brasil é enorme.

O Brasil é enorme, sabe? Então, às vezes, o Brasil não conhece o Brasil, não é por não querer. Às vezes, é sim, né? Que tem meio que um complexo de vira-lata ali, tipo, ah, é muito melhor o que vem da Europa, é muito melhor o que vem dos Estados Unidos. Às vezes, existe uma ignorância de não querer conhecer mesmo, mas, às vezes, existe uma ignorância no sentido próprio da palavra, assim, de simplesmente você não saber e não conhecer, né?

Então, aqui em São Paulo, por exemplo, as pessoas conhecem os passinhos de São Paulo e do Rio.

Só que também tem os passinhos de Minas Gerais e de Pernambuco. E aí tem pessoas daqui de São Paulo que conhecem o movimento, mas não sabem o nome da dança. Então, assim, é muito comum também, às vezes, as pessoas confundirem nome de movimento com nome de dança. Então, uma coisa que eu tenho tentado explicar muito para as pessoas, por exemplo, uma coisa que estourou nas redes sociais agora em 2026, o passinho do Jamal.

Aí as pessoas falam, ah, passinhos do Brasil, você ensina passinho do Jamal? Aí eu, então, vamos com calma. Passinho do Jamal é um movimento. Ele não é uma dança. O passinho do Jamal é inspirado em movimentações do brega funk. Aí sim, o brega funk, um passinho do funk. E aí o exemplo que eu gosto de dar, por exemplo, é assim, o Siguru-chan. Siguru-chan é um movimento.

Ele não é uma dança, a dança do tchan. Não, é o movimento daquela música. Então, por exemplo, aquela música... Ah, leleque, leque, leque. O nome daquela música é Passinho do Volante. No passinho do volante quero ver o baile todo. É um passinho, mas passinho no sentido de movimento.

E não no sentido de um passinho novo, uma dança nova, né? Então, assim, quando a gente tá falando do passinho do Jamal, a gente tá falando de um movimento que viralizou, que surgiu a partir de uma música específica, num momento específico, e viralizou. Só que ele não é uma dança nova. Ele é um movimento derivado do brega funk. Essa, sim, uma dança já consolidada, com repertório, e, inclusive, com variações. O Christian Gabriel...

Ele esteve aqui em São Paulo, em janeiro de 2026, para várias aulas do projeto do Passinhos do Brasil. E eu perguntei para ele sobre essa variação, sobre essa questão do brega funk ter a possibilidade de você dançar tanto com movimentações de quadril, com rebolado, com movimentações intensas de quadril, quanto com o passinho.

Que é uma postura mais em pé. E aí as pessoas até costumam dizer que o rebolado é a das mulheres e o passinho é o dos homens. E ele falou que não tem nada a ver. Não existe dança isso ou dança daquilo. Mas no começo do brega funk, as pessoas chamavam base feminina os movimentos de quadril e base masculina os movimentos em pé e de frente. E aí ele falou assim, a diferença é uma você dança de costas e a outra você dança de frente.

Então, assim, não tem essa de homens que dançam assim e mulheres que dançam assim. Hoje, qualquer pessoa pode dançar de qualquer forma como ela preferir. Mas a diferença é basicamente essa, porque as companhias de brega funk são companhias muito grandes, assim, são 30 pessoas, 40 pessoas, sabe?

E aí, o efeito visual de ter pessoas dançando em pé, pessoas dançando abaixadas, pessoas dançando de costas, pessoas dançando de frente. Um momento só de movimentação de quadril, um momento só de passinho. Então, é uma... aquelas mega-crues, né? Que a gente vê concursos, campeonatos de dança, especialmente no exterior. Sendo que a gente tem esses mesmos concursos aqui, né? No Recife, aqui em várias capitais do Nordeste Brasileiro, só com brega funk.

Então, assim, a galera tem feito uma mistura muito massa com Vogue, especialmente, sabe? Mas é o brega funk que domina esses concursos, esses campeonatos, e a criatividade da galera é absurda, sabe? Então, quando a gente fala do brega funk, das possibilidades de variações do brega funk, o Passinho do Jamal é uma dessas variações, mas não é uma dança nova. É algo dentro do brega funk. Então, qual que é a importância da gente falar sobre isso?

Porque a gente vê muitas academias, muitos estúdios, muitas aulas de dança, que você entra e você é movimento, movimento, movimento, 5, 6, 7, 8, 5, 6, 7, 8, e você não para para conversar sobre aquilo, você não sabe a história daquela dança, você não sabe a cultura daquela dança, você não sabe de onde veio, como que surgiu, qual foi o momento que começou a ser assim ou assado. E o Passinhos do Brasil tem esse propósito, especialmente, né?

Eu costumo dizer que são três os nossos valores, a nossa missão, o nosso propósito. Formação, com oficinas, aulas, cursos, debates, apresentações, enfim, uma série de eventos. Profissionalização, os artistas que já trabalham com o Passinho conseguirem se inserir no mercado de trabalho.

produzir materiais, conseguir falar sobre sua arte, conseguir dar uma aula, conseguir aprender o que é didática, conseguir desenvolver formas de se manter no mercado da arte profissionalmente, e empregabilidade, que é garantir uma remuneração adequada, garantir uma sustentabilidade mesmo dentro do mercado do trabalho artístico, cultural, com funk, especificamente com o passinho.

Porque o que eu percebo é que, o que eu percebo não, é fato, né? A dança é produção de conhecimento, mas as pessoas não consideram as danças da cultura funk como produção de conhecimento. As pessoas não respeitam, as pessoas não reconhecem, as pessoas não valorizam, as pessoas não remuneram adequadamente.

Então, assim, tem pessoas ganhando cem reais pra fazer o show de uma hora, e aí ela viaja e não sei o que, ela recebe cem reais pra fazer shows a noite inteira, sabe? Então, assim, o esforço, o estudo, a dedicação, o treino, isso tudo precisa ser remunerado, né? Isso tudo precisa ser reconhecido como parte de um trabalho. Então, assim, a gente entende que um médico, ele não chegou lá em um dia.

Ele não aprendeu na internet, né? E assim, tem muitas pessoas que acham que fazendo uma... Vendo um vídeo de internet já... Ah, eu já sei dançar essa dança, eu vou dar aula. Então assim, a dança é uma área de conhecimento. Como área de conhecimento, tem um estudo, né? Então assim, pra mim, o que faz uma pessoa já estar capacitada, qualificada, preparada pra dar aula, são duas coisas. Técnica e vivência.

A vivência, falando especificamente do funk, você vai ter no baile, você vai ter no encontro, você vai ter na festa, você vai ter dançando, você vai ter vivendo a cultura. A técnica, você vai estudar, você vai treinar, você vai conversar com pessoas, você vai assistir coisas, você vai ler livros, você vai acessar muitas coisas. Ah, mas não tem livro do funk, gente. A gente não precisa ler só sobre especificamente a dança para você aprimorar a sua dança.

Então, se, por exemplo, você lendo sobre diáspora africana no Brasil, você vai entender muito sobre as origens do funk. Você entendendo o processo de criminalização do samba e da capoeira, você vai entender o processo de criminalização do funk e você vai conseguir se posicionar politicamente em defesa do funk. Então, a gente tem que ampliar os nossos horizontes sobre quando a gente fala de área de produção de conhecimento.

Se a dança é uma área de produção de conhecimento, eu posso escrever sobre dança, eu posso falar sobre dança, eu posso dançar. Então, a dança não é só o movimento, especificamente falando. A gente tem várias possibilidades, a gente tem várias oportunidades de produzir dança por meio do nosso corpo e os produtos que vão ser gerados a partir dela.

escritos, audiovisuais, falados, né? Eu posso falar sobre dança, a gente tá aqui conversando sobre dança. Então, isso é produzir conhecimento em dança também, né? E o Passinhos do Brasil vem nesse propósito de valorizar o passinho, as danças passinho da cultura funk como produção de conhecimento e a dança como produção de conhecimento, como contação das nossas próprias histórias, né? Essa história preta, essa história favelada, essa história afrodiaspórica dentro do Brasil.

que foi criado por corpos negros, foi criado por pessoas pretas, especificamente faveladas, que já estão em uma situação de desigualdade, assim como todas as que a gente considera, as que a gente chama hoje, danças urbanas. Todas as danças urbanas foram criadas por pessoas pretas periféricas.

Então, a gente já parte daí. Então, isso já nos coloca numa situação de que a gente faz parte de algo maior. Então, eu preciso estudar esse algo maior também. Se eu estudo funk, eu preciso ampliar o meu olhar até para eu compreender as influências que nos trouxeram a esse momento. Então, assim, o hip hop é muito forte, muito presente.

aqui em São Paulo, o hip hop é uma influência direta dos passinhos do funk paulista. Então, se eu quero aprender mais sobre o funk paulista, sobre os passinhos de São Paulo, se eu for atrás da história do hip hop em São Paulo, se eu for atrás das pessoas que dançam hip hop em São Paulo, eu vou entender muita coisa dos passinhos daqui de São Paulo. Então, aqui faz mais frio do que no Rio de Janeiro, por exemplo. Então, o corpo vai se mover de outra forma. É um outro corpo.

Então, cada estado produziu o seu funk, cada funk produziu o seu passinho. Cada funk, cada estado tem o seu jeito de se vestir, tem o seu jeito de curtir o baile, tem o seu jeito de fazer sua música. E tudo isso vai interferir na forma como a gente vai dançar esse funk também.

Então, compreender tudo isso vai fazer você dançar melhor. E aí, melhor não no sentido de, ai, fulano dança melhor que Beltrano, mas dançar melhor no sentido de mais consciente. Eu sei o que eu estou dançando, eu sei porque eu estou fazendo essa escolha, eu sei porque eu estou usando essa roupa, eu sei porque, eu sei porque. E isso é muito importante, porque tem muitas pessoas que dançam excelentemente bem.

Mas aí você vai perguntar, por que você usa esse movimento? Por que você usa essa roupa? Por que você se apresentou em tal lugar? E a pessoa vai te dar uma resposta genérica. A pessoa vai falar, eu sei fazer isso, eu consigo fazer isso. Então, sabe? Então, acho que quando a gente se apropria no sentido de saber aquilo que a gente está fazendo, a nossa tendência é fazer melhor. Então, sempre colocam a dança nesse lugar do...

Ah, você dança, dança aí pra eu ver. Ah, você dança, faz não sei o que aí pra eu ver. Como se apenas a dança encerrasse, apenas a movimentação encerrasse um conhecimento sobre dança. E você saber mais sobre aquela dança, você saber falar sobre aquela dança, você saber a história da cultura que deu origem àquela dança, isso vai te colocar em um outro patamar.

porque dançar é sim o movimento, óbvio, mas dançar também é você saber as escolhas corporais, as escolhas intelectuais, as escolhas sócio-histórico-culturais que você fez.

Então, quando você leva o Passinhos do Brasil para os outros estados, você está fazendo esse intercâmbio, levando um conhecimento daqui, buscando também o conhecimento de lá e juntando. Como foi criar essa movimentação?

Quando eu comecei a estudar os outros passinhos, né, eu senti essa necessidade de fazer exatamente esse intercâmbio, de ir nos estados, conhecer as pessoas, né, ver como elas vivenciam esses passinhos em seus respectivos territórios.

E aí me deu essa vontade assim, se o corpo desse território se movimenta de outra forma, eu quero trazer esse corpo desse território pra ensinar. Porque uma coisa é, eu aprendi e eu vou repassar. Outra coisa é, a pessoa que nasceu naquele lugar, cresceu naquela vivência, está ensinando aquilo que ela vivencia literalmente na pele, sabe?

Então, quando eu fiz o festival pela primeira vez em 2024, eu pensei assim, eu preciso trazer as pessoas desses outros estados para mostrar como que é. Como que é? Você, esse corpo que dança lá no Recife, como que é você dançar aqui? Você, esse corpo que dança lá em Belo Horizonte, como é dançar aqui? E aí, o sotaque, as gírias, a forma como você explica o movimento, tudo é diferente.

porque parte de uma outra vivência, de um outro corpo, de um outro clima, de um outro território. Então, assim, eu como pesquisadora em dança, eu me interesso muito em compreender como que o território constrói esse corpo, como que esse corpo existe nesse território e como que esse corpo nesse território criou essa dança. Como que esse corpo nesse território desenvolveu essa dança. Como que esse corpo nesse território ensina essa dança, aprende essa dança.

apresenta essa dança. Então, assim, essas mega crews, né? Essas mega companhias do brega funk, como que seria trazer uma mega crew dessa pra se apresentar no Teatro Municipal de São Paulo, por exemplo? Que o palco cabe, tem espaço, né? Então, assim, os campeonatos lá em Recife acontecem numa quadra, entendeu? Não é um palco, é uma quadra. Só que naquele momento, aquela quadra é o palco. E aí

sabe? Mas como seria pra eles, pra essa companhia se apresentar num palco gigantesco, com uma iluminação adequada, com projeção com, sabe, com tudo que eles têm direito, sabe? Porque se eles já fazem coisas absurdas lindas, criativas com poucos recursos e estrutura imagina!

se eles tivessem esses acessos, essas oportunidades que uma cidade como São Paulo, como eu já falei antes, podem proporcionar. Então, por exemplo, que a gente falou sobre eu ter ido para a Argentina com Passinhos do Brasil, foi até uma situação muito engraçada, porque a gente estava treinando a nossa coreografia no Vale do Anhangabaú. E aí chegaram duas pessoas e falaram, a gente veio...

dançar com vocês hoje. E aí, assim, todo mundo ficou se olhando porque era um treino fechado, né? E aí a gente, assim, será que elas estão com você? Será que elas estão com você? Será que elas estão com você? Mas ninguém se falou, sabe? Aí todo mundo ficou assim...

Tá, ok. Tá bom. E aí, a gente treinou a sua coreografia, essas duas pessoas aprenderam a nossa coreografia, que era uma coisa fechada, e todo mundo achando assim, não, ela deve estar com ela, mas ninguém se falou. E beleza, quando chegou no final, é muito legal, gente, olha, eu sou da Argentina, e aí, é isso, assim, vamos manter contato, quero levar vocês lá pra Argentina, tá bom? Tá bom. Gente, como assim?

Ela era sua amiga? Não, era sua? Não, era sua? Não, achei que era sua, não. Gente, como assim? Não, beleza. E aí, era exatamente o... Era maio de 2024, e em julho de 2024 teve Passinhos do Brasil.

E aí, quando teve o Passinhos do Brasil, essas pessoas ficaram, viram a gente se apresentando na virada cultural, participaram de algumas atividades do Passinhos do Brasil, antes mesmo dele ter esse nome de Passinhos do Brasil. E aí, quando saiu o festival Passinhos do Brasil, entraram em contato novamente. Falaram, lembra que eu estava lá? Então, o que eu falei que ia trazer vocês para a Argentina vai rolar. E a gente assim...

Caraca, era de verdade, então, né? Que a gente pensou assim, uai, tá, sim, vai levar a gente pra Argentina, claro, sim, sabe? A gente desacreditou no primeiro momento, porque assim, foi tão simples, foi uma coisa tão orgânica, tão natural, a rua.

A rua proporciona esses encontros, e isso é vivência também. Você tá vendo ali a galera dançando, você já chega, já cola junto, já troca uma ideia, já pega contato, sabe? Então assim, e aí elas chamaram, aí fomos eu e Ju Martins, ela representando a dança funk, a dança com as movimentações de quadril da cultura funk, e eu fui com Passinhos do Brasil. Então foram três dias, foi chamado Semana Funk Brasil.

E aí, o primeiro dia foi a oficina da Ju, né, com a oficina de funk, né, que é o nome da dança das movimentações de quadril. Aí, eu dei a oficina Passinhos do Brasil e no terceiro dia a gente fez uma oficina collab, né, misturando as diferentes formas de dançar funk no Brasil.

E aí, no quarto dia, né, teve, que era um sábado pela manhã, a gente deu uma palestra teórica mesmo, falando sobre o funk e sobre o passinho para as pessoas que participaram das aulas. Então, foi muito legal, porque, assim, a gente acha que o espanhol é muito parecido, então você vai conseguir falar e não tem nada a ver, tá, gente? É um outro idioma, é difícil igual o português, sabe? Então,

A gente tinha essa barreira da língua em alguns momentos, mas a dança, o corpo, o interesse, a vontade de aprender, essa troca de você olhar a pessoa e conseguir entender e minimamente reproduzir no seu corpo, foi uma troca muito legal e a gente se conectou com artistas periféricos, com artistas que também lutam pela preservação de culturas e artes e danças negras lá em Buenos Aires e que a gente sabe.

todo o apagamento histórico da cultura negra que aconteceu na Argentina. Então, a gente ter se conectado com essas pessoas foi muito especial. Eu converso com várias delas até hoje, sabe? Foi em 2024 o evento. Então, foi muito especial estar lá. E essa ida para lá foi em 2024.

Em 2025, eu estive na Bahia, na FUNSEB, que é um espaço do estado da Bahia, um espaço público de dança, e é um espaço só de aulas de dança. E eu estive lá numa aula de sapateado, numa aula de tap dance, da minha amiga Ana Gore, e ela estava com esse curso.

E ela mostra exatamente como que o TEP, como que o sapateado, ele é preto, ele é africano. Então, a gente tem essa imagem de Fred Astaire, de Hollywood. E, gente, isso é um apagamento da história e da memória das pessoas pretas que criaram, desenvolveram, que trouxeram o TEP do continente africano para os Estados Unidos.

Então, ela traz essa história e ela me convidou para levar o Passinhos do Brasil também para mostrar. Olha só, tá vendo esse pé do passinho? A gente também tem isso no TEP. Tá vendo esse pé do TEP? Também tá lá no passinho. Porque é isso, em última instância, todas as danças e culturas negras, elas se encontram em algum lugar. Porque é um corpo que foi atravessado há séculos.

basicamente pelas mesmas violências. Então, assim, salvas as devidas proporções e diferenças de território, de intensidade, de gênero, de classe, o corpo preto sofre com racismo em qualquer lugar do mundo.

E exatamente essas opressões que a gente passa deu origem a muitas danças. Então, por exemplo, quando a gente fala do breaking, o breaking eram as gangues que realmente se enfrentavam com violência nas periferias de Nova York. E a partir de um determinado momento, essas gangues viraram crews e falaram, ao invés da gente trocar soco, ao invés da gente trocar tiro, vamos resolver uma batalha de dança. Então, tem muitas movimentações de arma, de cotovelada, de porrada e tal.

porque eles estão dançando aquilo que eles de fato viviam. Então, a dança vai refletir a cultura, aquele momento histórico, aquele território e tudo aquilo que perpassa. Então, é muito importante, por isso, também a gente compreender o contexto sociocultural, histórico das danças que a gente dança.

até para compreender por que a gente faz determinados movimentos, de determinada forma. Então, a Jamaica, no Denzho, tinha uma guerra civil acontecendo. Kuduro, em Angola, tinha uma guerra civil acontecendo. Então, tem muitas movimentações que falam sobre minas terrestres no chão, que você tem que pisar com cuidado, você tem que pisar diferente. Então, tem movimentações também no Vogue, que falam sobre a trajetória de chamar pessoas para irem para o exército.

Então, faz um deboche com aquelas medalhas, com aquelas franjas no ombro. Então, a galera dança mexendo o ombro pra balançar essas franjas, sabe? Então, existe uma crítica a uma situação, a uma pessoa, a uma personalidade, a um momento histórico, que se você não entende isso, você... Ah, isso aqui é ombro, é close, isso aqui é a franja militar mexendo, sabe? Então...

no Vogue tem muito esse movimento, né? Que é o flat top, que é um cabelo crespo que você corta reto e que você tá arrumando o seu flat top, você tá arrumando o seu cabelo. Então, assim, tem movimentações que se você não tiver a referência ou se você não tiver aquele corpo talvez não faça sentido pra você. Por que que eu tô fazendo isso, né? É o meu cabelo e eu estou arrumando o flat top do meu cabelo. Entendeu? Então...

saber o que você está dançando, por que você está dançando, quem criou isso que você está dançando, vai fazer você dançar de uma forma mais consciente. E esses intercâmbios ajudam a gente a se conectar com outras histórias, com outros corpos, com outras possibilidades, que ajudam a aprimorar exatamente essa trajetória de expandir.

a atuação, a valorização, o respeito mesmo pelo passinho. Então, a gente esteve na Argentina, a gente esteve na Bahia, aqui em São Paulo, capital interior, já fui em várias cidades do interior, estive também em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, numa iniciativa de um componente curricular específico de dança, que a galera... ...

Tinha, inclusive, foi defendido um mestrado lá que mostra movimentações de danças de simbologia dos orixás que possivelmente influenciaram na criação de vários passinhos, tanto do funk carioca quanto do funk paulista. E isso foi muito legal, me conectar com essa pessoa lá, né?

E em Brasília, foi a minha primeira atividade na minha terra natal, que foi muito emocionante, que foi um dia antes do meu aniversário. Caramba, que legal! Foi em 2005, foi incrível, porque o Instituto Cervantes é como se fosse um...

um espaço de estudo do espanhol, da cultura espanhola e da cultura hispânica, e é uma organização do governo da Espanha no Brasil. E aí eles estavam criando uma programação para o Dia da Consciência Negra, em novembro do ano passado, e eles nos convidaram com a performance Nossos Passinhos Vem de Longe. Então, em novembro de 2025, a gente foi para Brasília na programação do Mês da Consciência Negra.

com a performance Nossos Passinhos Vem de Longe, que fala exatamente sobre a caminhada histórica de várias danças, de vários períodos históricos, de vários territórios diferentes, como que elas influenciaram nos nossos passinhos.

Então, a gente mostra como esse processo de criminalização do funk foi o mesmo que passou o samba, foi o mesmo que passou a capoeira e as influências do samba e da capoeira no passinho. E a gente mostra cada um dos passinhos e ensina bases desses movimentos. Então, tem sido uma trajetória incrível e é muito bom se conectar com pessoas de diferentes estados, de diferentes territórios, de diferentes corpos.

E também teve Paraty, que eu fui na Feira Literária Preta de Paraty, a Flip Preta. E eu fui com a performance, não, com a oficina Passinho ao Som do Tambor. Então, como o funk carioca, a batida dele é a mesma do Makulele, tinha um bloco afro, que é o bloco afro do quilombo, do quilombo do campinho.

E o Bloco Afro tocou o Congo de Ouro e eu ensinando os passinhos do funk carioca. Então, foi muito, muito legal. É uma trajetória muito bonita que você estava traçando com o Passinhos do Brasil. E me vem na cabeça, assim, quais foram as maiores dificuldades de levar esse projeto, esse festival para outros estados. E quais também as facilidades que você teve, essas trocas, quais foram as trocas mais legais que você teve.

Bom, a maior dificuldade, com certeza, é remuneração, é verba. Porque, assim, não é fácil você trazer pessoas de diferentes estados pra cá e nem sair com muitas pessoas daqui pra outros lugares. Então, por exemplo, essa ida pra Argentina foi totalmente financiada pela pessoa que nos chamou. Assim, mas ela financiou as nossas passagens, mas a gente teve que cuidar da nossa alimentação lá, por exemplo.

então a gente teve essa oportunidade nesse momento, mas se a gente não tivesse, talvez a gente não teria ido então para Brasília, o Instituto Cervantes teve que financiar 5 pessoas então assim, é um instituto do governo da Espanha no Brasil

Eles têm essa verba, mas a gente não conseguiu sair com essa performance para outros estados, talvez também por conta disso, né? Porque são cinco pessoas, então é cinco passagens, é cinco hospedagens, é alimentação. Então, assim, realmente a gente entende a complexidade de conseguir gerenciar isso. Mas, assim...

As trocas todas são muito especiais, mas de fato a gente ter se conectado com uma cena artística que valoriza, que preserva, que respeita, que reconhece a cultura negra, que quer saber mais, que quer se envolver mais.

Foi muito especial estar lá na Argentina, sabe? Até porque a gente ouve muito sobre como que opera esse racismo e esse apagamento lá em Buenos Aires, mas a gente se conectar com pessoas que resistem a isso, que buscam lutar contra isso, que reconhecem o valor da arte, da cultura preta, isso foi muito, muito especial.

sabe? E tá também na Flip Preta, lá em Paraty, no Quilombo do Campinho, o primeiro quilombo a ser reconhecido e ser titularizado no Rio de Janeiro, foi muito especial. E tá ali no Quilombo do Campinho, um espaço que já viu, assim, tanta coisa, de tantas formas, em tantos períodos históricos diferentes, né, pensar tudo que aquele território já deve ter visto.

Então, estar ali foi uma experiência muito, muito especial. E tudo que eu vivi ali naqueles dias da Flip Preta me levou para produzir coisas, para pensar coisas, escrever coisas, pensar possibilidades de agregar tudo aquilo que eu vivi, tudo aquilo que eu senti, tudo aquilo que eu assisti, que eu ouvi, que eu escrevi naqueles dias, transformar em mais arte.

em mais cultura, em mais possibilidades, para que as pessoas que não tiveram a oportunidade que eu tive de vivenciar aquilo ali presencialmente, que elas possam experimentar trechos, fragmentos daquilo que eu vivi ali em outras criações artísticas. Então, eu acho que o mais importante para qualquer artista é permanecer em contato com a arte.

E não só a arte que pratica, no meu caso, a dança. Eu não vou assistir só dança. Eu não vou falar só sobre dança. Eu não vou ler só sobre dança. Eu preciso vivenciar as artes o máximo possível. O mais diferentes possível.

porque é muito importante que a gente consiga se manter inspirado, especialmente no mundo que a gente vive hoje, em que tudo muda tão rápido, em que as nossas referências deixam de ser referências tão rápido, em que novas referências surgem tão rápido. Então, a gente precisa estar o máximo possível em contato com coisas que nos inspirem, com coisas que nos movimentem, que nos tirem do lugar comum.

Porque não se trata mais de uma zona de conforto, porque eu acho que ninguém mais está confortável em lugar nenhum no mundo que a gente vive, né? Mas assim, que nos tire do lugar comum, do pensamento comum, dos lugares rasos, dos comentários rasos, da arte rasa, da arte comercial, sabe? Que nos leve para outras formas de produzir, de trocar, de colocar, de criar arte no mundo, sabe? Acho que a gente precisa compreender-se.

parte de algo muito maior do que nós, e que essa arte, quando nós não estivermos mais aqui, ela vai falar por nós. E aí, o que a nossa arte vai falar sobre nós? Qual que é a arte que a gente está produzindo? O que essa arte diz sobre o que estamos vivendo aqui nesse momento, sabe? Tem uma frase da Nina Simone que ela fala que todo artista tem que refletir sobre o seu tempo. Quando a Nina Simone diz isso, é para a gente refletir também na nossa arte sobre como que nós estamos lidando com esse tempo.

Então, por exemplo, eu que sou uma artista da cultura funk, eu que trabalho com as danças da cultura funk, como eu posso não me posicionar, não falar sobre a criminalização do funk? Como eu posso não me posicionar, não falar sobre as muitas formas de criminalizar direta e indiretamente a nossa cultura?

quando não nos aceitam em determinados espaços, quando não nos colocam em determinadas programações, quando preferem que a gente mude o nome da nossa dança, quando preferem que a gente só leve um determinado tipo de música e não outro, como que isso reflete no meu trabalho e como que eu tenho feito com o meu trabalho para que eu consiga superar esses obstáculos.

Isso é muito importante. Então, por mais dificuldades financeiras, por exemplo, como a gente já falou, de sair do estado de São Paulo, de trazer outras pessoas para cá, como que eu tenho contornado isso e mesmo assim mantido a ideia original de trazer essas pessoas dos outros territórios, de levar essas pessoas daqui para outros lugares, porque isso é importante. Então, as voltas que eu consegui dar nessas dificuldades, nesses obstáculos, isso diz muito também sobre a arte que eu produzo.

A arte do povo preto é uma arte criada em tempos de crise. A gente sempre esteve em crise. Então, crise e criatividade têm o mesmo prefixo por um motivo. Porque você precisa ser muito criativo para sair de uma crise. Você tem um salário mínimo e você precisa pagar aluguel, comprar comida, pagar a internet, se deslocar. Você precisa ser muito criativo para conseguir distribuir esse dinheiro. E aqui eu não estou romantizando a pobreza.

Eu estou falando que, assim, criatividade as pessoas associam automaticamente à arte, cultura e criatividade é sobre você se manter vivo com os recursos que você tem. Então, assim, se o que eu tenho para sobreviver é isso, eu preciso garantir minha sobrevivência com isso. Como? Eu vou ser criativa.

Eu vou dar um jeito. Então, a criatividade que os artistas pretos, favelados, periféricos, usaram para criar o funk, para criar as danças da cultura funk, fala sobre como se manter feliz, sorridente, animado, excitado, mesmo com o estado que quer te exterminar. E isso no sentido literal da coisa. Um homem negro morre a cada 23 minutos no Brasil.

E foram os homens negros que criaram o passinho. Então, como que eu desafio o meu próprio corpo? Como que eu desafio o meu corpo a dançar nessa música que é rápida? Como que eu desafio a dançar descalço nesse asfalto? Mano, eu tô desafiando a morte só de eu estar aqui. Eu ia falar só de eu estar em casa, mas às vezes, assim, as pessoas invadem a sua casa.

Na rua, você é confundido com um bandido. Então, assim, se eu desafio a morte só por eu estar vivo, você me desafiar numa batalha de dança, isso não é nada. Isso é o menor dos meus problemas. Dançar descalço no asfalto, isso é o menor dos meus problemas. Eu preciso ser criativo com muitas outras coisas. Eu preciso ser criativo quando o morro está tomado por uma operação policial e eu não consigo sair de casa ou eu não consigo voltar para casa.

Eu preciso ser criativo. Onde eu vou dormir hoje? O que eu vou fazer? Como que eu vou voltar para a minha casa? Como que eu consigo informações sobre a situação do morro? Isso exige um nível de criatividade muito mais complexo do que dançar descalço no asfalto. E eu não estou dizendo que isso não é complexo. Eu estou dizendo que os níveis de complexidade que exigem de uma pessoa preta, que mora numa comunidade, que mora numa favela...

e que ela dança, e que ela cria, e que ela trabalha, e que ela é CLT, e que ela é artista ao mesmo tempo, são tantas camadas que a criatividade já se tornou uma forma de ser no mundo. Ela não é sobre criar arte, ela é sobre sobreviver, sendo tudo isso numa sociedade racista, sendo tudo isso numa sociedade que não te quer vivo. Se eu preciso me manter vivo, a minha criatividade vai se derramar em tudo aquilo que me mantém vivo.

E aí a arte, a dança, o baile, o bazinho, tudo isso vai me manter vivo. Então eu vou ser criativo para que eu consiga acessar tudo aquilo que pode me manter vivo. Falando sobre a criminalização do funk, você acredita que está tendo mudança nesse cenário? Acho que o funk está conseguindo alcançar novos espaços e que isso tem sido positivo? Porque a gente pode pensar que o funk está alcançando novos espaços, mas quem que está alcançando esses novos espaços com o funk?

Excelente pergunta, porque uma coisa que eu costumo dizer é que o funk música, ele de fato dominou o mundo, e ele chegou em todos os lugares, e já tem até veículos da imprensa que consideram que o funk é o novo samba, é a nova bossa nova.

O funk é a identidade do Brasil no exterior hoje, ponto. E isso, de fato, é indiscutível. Só que uma coisa que eu tenho observado é que os artistas, quando vão para fora do país, eles vão sozinhos, os artistas da música. Vai ele e o DJ e acabou. Sendo que, assim, aqui no Brasil, a alma do show é a dança.

Todo artista, todo DJ tem lá o seu par, o seu coletivo de dançarinos, o seu balé. E aí, na primeira oportunidade de ir para fora do Brasil, eles vão sozinhos. Porque eu sou artista, porque eu canto, porque se não fosse a minha música, sendo que a gente sabe que quando a gente fala de cultura preta, música e dança não se separam. Você faz a música para a galera dançar e você dança porque tem uma música tocando.

Então, na cultura preta, no geral, não tem essa hierarquização das artes. Essa é melhor do que aquela. Essa existe sem aquela. Isso aqui a gente faz. Não. Não existe nem esse próprio conceito da arte, como essa coisa que os escolhidos fazem. Não, a arte eu faço na minha vida.

Nasceu alguém dança, nasceu alguém canta, alguém tá indo embora, vamos dançar, cantar pra essa pessoa, vamos fazer uma lembrancinha, vamos fazer uma pulseira, vamos fazer uma escultura. Então assim, a arte faz parte da vida, né? Mas quando a gente vê o funk como música sendo reconhecido, sendo exaltado, sendo bem remunerado...

e a gente vê o funk como dança, não acessando esses espaços, a gente percebe uma hierarquização, sim. E a gente percebe que os corpos que criaram as danças da cultura funk, os corpos pretos, os corpos favelados, os corpos periféricos, que criaram o funk, a cultura funk no geral, são esses corpos que não estão sendo vistos, que não estão sendo visibilizados nessa expansão internacional do funk.

Então, quando a gente vê uma arte, a música, sendo mais valorizada, mais visibilizada, melhor remunerada do que outra, como a dança, especialmente quando a gente fala de arte e cultura preta, isso é muito prejudicial para o próprio mercado criativo, para as próprias pessoas que se alimentam dessa economia criativa do funk. Então, assim, quem que está lucrando com o funk?

Quando você pergunta isso, assim, eu penso especificamente aqui em São Paulo, tem uma série de produtoras que fazem, assim, oito shows por noite e que estão pagando cem reais pra dançarinos. Não, não é possível. Então, assim, os dançarinos ganham cem reais e aí você vai ver o orçamento do artista, tipo, vinte e cinco mil, trinta mil.

Você fala assim, gente, pra onde tá indo esse dinheiro? E aí se esses dançarinos falassem, tipo, não vou dançar. Como que ia acontecer o show? Aí que vem a tristeza da falta de profissionalização, que é um gap aí do mercado que o próprio Passinhos do Brasil pretende organizar melhor. A falta de profissionalização faz muitos artistas pensarem assim, essa é a única oportunidade que eu tenho de ser artista.

Essa é a única possibilidade que eu tenho de ser artista. Eu só posso ser artista se eu estiver em cima de um palco. E aí não interessa se eu estou ganhando 100 reais ou se eu não estou ganhando nada. O importante é que eu estou num palco dançando com um artista do funk, eu amo dançar, eu amo esse contato com o público, então é isso, eu vou fazer isso por 100 reais mesmo.

Sendo que o artista está recebendo 20, 30, 40, 50 mil e você está recebendo 100. Então, quando a gente compreende o tamanho da importância, da criatividade, da intelectualidade envolvida naquilo ali, isso também nos capacita melhor para nós sabermos como precificar o nosso trabalho. Quanto que vale o meu trabalho?

E os anos de pesquisa, os anos de estudo, de curso, de oficina, de treino, de vivência, de aula, isso também é um investimento. E isso precisa também estar lá na nossa remuneração, sabe? Então, quem que tá ganhando com o funk? As grandes produtoras, as grandes gravadoras, os grandes artistas nacionais que já tiveram toda essa repercussão, mas eles começaram de alguma forma.

E aí, assim, eu querendo começar hoje, eu vou ter que competir com essas pessoas, sabe? Então, assim, os artistas da dança, muitos deles pensam, eu só vou ser artista se eu conseguir estar num palco. E, às vezes, esse estar no palco é o que exatamente derruba o valor da remuneração. Porque, assim, ah, você não aceita cem reais? Tem um bem ali que aceita. Ah, você tá achando que é muito pouco? Tem um bem ali que tá dando graças a Deus.

Inclusive, já teve esse debate nas redes sociais, um grande artista, um grande MC de funk, né, teve um dançarino que falou, olha, gente, tal artista pagava pouco. E aí, veio outras pessoas do balé comentando assim, nossa, realmente, ou então assim, só curtindo a mensagem. E aí, esse grande artista veio e falou assim, você acabou de dar um tiro no pé. E demitiu todo mundo.

Então, assim, você realmente, mano, tá fazendo o que você faz pela cultura? Você realmente sabe quem são as pessoas que movimentam a cena do funk? Porque você já foi um artista que tava começando.

Aí agora que você tem esse renome nacional, internacional, é assim que você trata os seus dançarinos? Por que você acha que você é mais artista do que os dançarinos? Então assim, é como se a dança fosse sempre esse primo pobre das artes, sabe? Ai, dança por amor, porque dança é movimento, porque dança é tudo, porque ai, é expressão. Dança é trabalho, dança é profissão, dança é estudo, dança é dedicação.

Dança é alta performance. Os atletas têm uma equipe multidisciplinar com eles. Eles têm nutricionistas, fisioterapeutas, personal, eles têm técnico, eles têm psicólogo. O artista, ele dança numa intensidade, o artista da dança, ele dança numa intensidade equivalente a muitos atletas olímpicos. E ele não tem ninguém. E às vezes ele recebe cem reais por show.

Então, assim, o funk realmente está dominando os mercados culturais do Brasil, do exterior, mas o funk como música, porque o funk como dança, ele ainda se quer reconhecido como dança.

Então, a gente tem várias políticas públicas de dança que às vezes completamente ignoram os artistas do funk, ignoram toda a criatividade, todo o esforço, todo o tempo, todo o investimento que esses artistas fizeram. Então, se as pessoas olham para uma bailarina de balé clássica e falam, nossa, ela estudou muito.

Ela estudou muito tempo. Ela se dedicou muito. As pessoas olham para um artista de danças da cultura funk e falam, ah, vai estudar. O que isso está fazendo? Ah, na minha época, a gente dançava muito melhor. Gente, do que vocês estão falando? Sabe? Então, assim, é sempre uma desvalorização. Isso é racismo também. Entendeu? Porque o tempo de investimento do balé clássico pode ter sido o mesmo ou até maior do que o tempo...

Pode ter sido maior o tempo de investimento de um dançarino da cultura funk, que pode ter investido em curso, em viagem. O meu próprio caso, eu saí de Brasília para estudar o funk carioca, para estudar o passinho foda. E eu fiquei um tempo lá com a galera, eu conheci várias comunidades, eu conheci vários bailes, eu fui em vários lugares. E isso, isso também é investimento. Então, assim, a gente precisa começar a dar os nomes corretos para as coisas.

Eu não estou indo curtir a vida no Rio de Janeiro, eu fui estudar dança, eu fui conhecer pessoas, eu fui conhecer as referências, eu fui ver quais são os bailes que as pessoas vão, eu fui vivenciar aquilo que eu não conseguiria vivenciar em Brasília pela internet.

E isso é estudo, isso é pesquisa também e merece ser valorizado, remunerado, reconhecido, porque todas as danças envolvem esforço, dedicação, investimento, estudo, treino. Mas quando a gente fala das danças da cultura funk, as pessoas acham que é só ligar uma rede social e você assistir e reproduzir. E isso não é aprender dança. Reproduzir movimento não é aprender dança.

Aprender dança é muito mais do que isso. Então, como eu já disse aqui várias vezes, eu vou repetir. Precisa estudar a cultura, precisa estudar o contexto histórico, precisa estudar tudo o que propiciou o surgimento, o desenvolvimento, o aprimoramento daquela dança até chegar em você. Até chegar em você. E depois que chegou em você, você tem que se preocupar em como você também vai manter esse legado vivo para quem virá depois de você.

Porque se você aprende uma coisa errada, e você repassa errado, e aquela pessoa repassa errado, e repassa errado, você acabou com uma dança, você acabou com um movimento, você acabou com toda uma possibilidade das pessoas serem mais reconhecidas e valorizadas por aquilo. Então, a responsabilidade de qualquer pessoa, de qualquer profissional que se pretenda ensinar algo, qualquer pessoa que se pretenda ensinar algo tem uma responsabilidade enorme.

E essa responsabilidade de manter o legado vivo de pessoas, e também, claro, claro, claro, claro, claro, claro, claro, claro, claro, claro claro, claro claro, claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro

que lutaram muito para que essas culturas, essas danças chegassem em nós. O que você pensa que pode ser possível para mudar esse cenário, para que a dança do funk seja mais valorizada? Você acha que é uma política pública ou algum outro movimento? Eu acredito que políticas públicas culturais têm um poder e um alcance enormes e que precisam ser mais aproveitadas. Como assim?

São Paulo tem a primeira coordenadoria de políticas do funk, do Brasil.

Só que a gente não vê essas políticas chegando em nós, da cultura funk. Então, o que está acontecendo lá dentro? Por que não chamam a gente para reunião? Por que não lançam um edital? Por que não nos consultam sobre o lançamento de um edital? Teve uma consulta pública para o lançamento de um edital no ano passado e até agora não aconteceu nada. Teve um cadastramento, um credenciamento de artistas e até agora não aconteceu nada. Então, a gente fica assim.

O que está acontecendo? Como a gente consegue se apropriar dessas estruturas que foram criadas e que usam o nome da nossa cultura, mas que a gente não vê na prática uma aplicação e um uso fruto dessa estrutura que foi criada teoricamente para nós?

Então, assim, São Paulo tem essa vantagem de ter iniciativas públicas e privadas culturais. A gente tem uma enormidade de instituições culturais que disponibilizam suas estruturas, que lançam editais, que oferecem aulas e atividades gratuitas ou pagas, mas que, assim, estão sempre movimentando a cena e garantindo essa sustentabilidade dos artistas. Mas quando a gente fala de política pública...

precisa chegar no público, primeiro no público que está fazendo, que está desenvolvendo. Então, assim, eu sinto que o poder público não sabe conversar com o funk, não sabe conversar com as pessoas da cultura funk. E quando a gente fala de dança, isso é ainda mais difícil.

Porque, como eu falei, a música é como se ela já tivesse um lugar consolidado no imaginário do público. E já a dança, é dança por amor, dança legal, dança divertido, dança festa, dança diversão. Sendo que dança também é preservação de patrimônio cultural.

Dança também é contar as nossas histórias e repassar essas histórias. Então, assim, o funk tem contado histórias sobre a cidade, sobre as periferias, por toda a sua existência, especialmente aqui no Brasil. Só que as políticas públicas, quando vão falar de funk, falam da música e esquecem que existe toda uma cadeia produtiva por trás.

E que também já não é mais só a dança. A gente tem designers pensando possibilidades visuais, a gente tem a moda, a gente tem pessoas levando o funk como música e como dança para alfabetizar pessoas nas escolas. Então, sim, por que não conversar com toda essa cadeia produtiva da cultura funk na hora de criar uma política pública, na hora de desenvolver uma política pública, na hora de garantir um espaço institucional do funk?

Porque a sensação que nós da cultura funk temos é as pessoas amam usar o funk como parte de um projeto político, como parte de um discurso político, mas ninguém chama o funk para construir política pública. Porque assim, se você vai usar o nome do funk, você precisa nos considerar na hora de conversar sobre isso. Você precisa chamar a gente para conversar sobre isso.

E a gente não sente que a gente é chamado nem ouvido. Nossa, é muito triste ouvir isso. E eu acredito que isso não acontece só com o funk. Acredito que com o funk seja muito pior. De que realmente as pessoas não são ouvidas. Ou quando são ouvidas, é só para... A gente está te ouvindo, tá? Mas não acontece nada, nenhuma movimentação.

E é muito triste de saber que tem essa secretaria que está lá e que eles não falam o que está acontecendo ali. Qual é a movimentação que eles estão fazendo? Que ninguém consegue ver, que as pessoas do funk não estão sabendo o que eles estão fazendo. E aí, o que vocês estão fazendo? Cadê?

Cadê que existe um veículo onde vocês vão falar, olha, a gente está movimentando isso, movimentando aquilo, a gente está tentando chegar nesse lugar e não tem. Não tem, não tem, não tem. Fica parecendo que é só para fingir que tem uma política pública, que de fato não tem.

E a gente queria muito ajudar na construção dessa política pública, sabe? Porque é isso, a gente não se sente ouvido, a gente não se sente reconhecido. E na hora de usar o nome do funk, na hora de falar, ah, que nós somos do funk, porque o funk é São Paulo, porque não sei o quê. Aí usa o nome do funk como plataforma, mas não ouvem as pessoas do funk para realmente construir as coisas.

Então, como que a gente pode também construir as nossas próprias coisas de forma independente? Só que assim, o funk a gente já faz tudo de forma independente desde sempre. Aí a gente vai ficar sempre fazendo as coisas de forma independente. A gente vai estar sempre gravando no nosso quarto um microfone conectado no computador. A gente vai estar sempre colocando caixa de ovo para criar o estúdio para a gente conseguir gravar nossas coisas.

Sendo que assim, tem tantas possibilidades e tantos recursos que podem ser acessados para a gente conseguir fazer as nossas coisas com qualidade, sabe?

Por que que já esperam uma qualidade baixa das nossas coisas? Por que que falam que as nossas coisas tem qualidade baixa quando nunca param pra avaliar a estrutura que a gente tem pra fazer as nossas coisas, sabe? Então, estão sempre colocando o funk nesse lugar de cultura inferior, de música inferior, de dança inferior. E aí, não param pra pensar nas estruturas que a gente usa pra criar aquilo que a gente tem, entendeu? E aqui eu não tô concordando que é inferior, porque não é mesmo.

Só que as pessoas se utilizam de um discurso e de métricas de comparação e de referências de comparação que não fazem o menor sentido. Então, quando a gente fala de política pública, a gente precisa construir junto e não construir de cima para baixo, porque não tem como dar certo.

Nossa, vai linkar perfeitamente com a próxima pergunta, que você utiliza o termo tecnologia ancestral preta para falar sobre o funk, que eu acho uma forma muito poderosa e que mostra o poder dessa cultura. Fala um pouquinho do porquê você usa esse termo para falar sobre o funk.

É muito importante a gente lembrar que nosso corpo é tecnologia. Quando a gente fala de tecnologia, as pessoas pensam, ah, carro voando, computador, chip, celular. E a gente esquece que a maior tecnologia é essa. Não existe câmera no mundo que reproduza um olho humano. Não existe.

A câmera mais poderosa do mundo é o olho humano, sabe? Não existe máquina que sente cheiro. Então, assim, tem coisas que você... Só você consegue ouvir. Porque não existe nada parecido com o ouvido humano. Então, assim, a gente precisa...

lembrar que o nosso corpo é a única tecnologia que realmente vai sobreviver quando todas essas tecnologias estiverem obsoletas e não funcionarem mais. É o cérebro humano que vai criar outras formas de desenvolver ferramentas e instrumentos tecnológicos, porque a tecnologia máxima que nós temos é o nosso próprio corpo.

E o funk é uma tecnologia ancestral preta porque, primeiro, o tambor do funk brasileiro, como nós o conhecemos, ele é um tambor ancestral.

E aí é o que eu falo na performance Nossos Passinhos Vêm de Longe. É o mesmo tambor. O funk aqui em São Paulo a gente chama pancadão, mas no Rio de Janeiro chama tamborzão. E tamborzão por quê? Porque é o mesmo tambor do maculele, é o mesmo tambor da capoeira, é o mesmo tambor do jongo, é o mesmo tambor do samba, do samba de roda, é o mesmo tambor das religiões de matrizes africanas. É o mesmo tambor.

E aí, a tecnologia que possibilitou essa aparente transição de um tambor para vários ritmos foi a tecnologia deste corpo preto, que falou este som...

Pode ser transformado neste som, que pode ser transformado neste som, que parece muito com este som e que vai influenciar este som e que pode ser dançado deste jeito, agora neste ritmo, deste outro jeito. Então, se a tecnologia é um filtro para que a gente seja capaz de conseguir fazer várias coisas, o nosso corpo é o filtro para pegar as coisas que existem no mundo para a gente transformar em outras coisas.

Então, alguém em determinado momento gravou aquele tambor analógico, transformou no computador, no digital, e virou o funk como nós o conhecemos hoje. Foi esta tecnologia que fez essa transição de levar daqui para lá.

Então, a tecnologia do corpo era, e ainda é em muitos casos, a única tecnologia que a gente realmente dispõe. A gente fala como se todo mundo tivesse um celular na mão hoje, e isso não é uma realidade. Isso não é uma realidade. Agora, todo mundo tem o próprio corpo para desenvolver tecnologias de comunicação, mesmo quando tivesse o celular.

Então, assim, a gente perde o celular, ou então o celular acaba a bateria, ou então acaba a internet, e a gente acha que é o fim do mundo e que não vai conseguir mais se comunicar com ninguém. Gente, a tecnologia corporal, o olho no olho, isso aqui nunca vai mudar. Isso é da mesma forma desde o início da história da humanidade e permanecerá sendo. É a melhor forma de comunicação que existe.

Então, assim, se você for largado no topo da montanha e sua amiga foi embora e você ficou lá, mano, você vai dar seu jeito. Você vai dar seu jeito. Eu não conheço a montanha, me perdi, não sei o que. Você vai dar o seu jeito, porque essa tecnologia de sobrevivência aqui é uma tecnologia super complexa e que ela vai fazer tudo para que você sobreviva.

Então, quando você coloca a sua tecnologia para garantir a sobrevivência e a permanência de uma cultura preta, de uma cultura que você considera importante, de uma cultura que você lutou para que ela mesma existisse, essa tecnologia vai sobreviver.

E as tecnologias corporais pretas, como a dança, como a música, como os festejos, como o carnaval, são tecnologias que garantiram não só a nossa sobrevivência, mas a nossa sobrevivência com a qualidade da alegria, do entusiasmo, da irreverência, do deboche. O deboche, a brincadeira, é uma tecnologia que a gente usa para disfarçar mesmo o quanto que às vezes a gente está triste num mundo em que nos quer mortos.

Então, assim, eu vou criar um período do ano em que eu vou poder ser o mais feliz do mundo, não interessa o que esteja acontecendo, e que todo mundo vai poder ser feliz comigo. Todas as culturas pretas são altamente inclusivas. Não são excludentes.

porque é uma tecnologia de agregar, uma tecnologia de trazer pra junto, uma tecnologia da coletividade. E o funk é essa tecnologia ancestral preta de coletividade, de diversão, de alegria, mas também de transmissão de conhecimentos pela oralidade, pela música, pela dança, de contar nossa história pra outra pessoa e falar agora conta pra mim a sua história dançando, conta pra mim a sua história cantando.

Vamos fazer na palma? Vamos fazer no pé? Vamos fazer tamborilando aqui na cadeira? Então, essa tecnologia ancestral que permaneceu conosco nos nossos corpos, desde que os nossos primeiros ancestrais vieram sequestrados para cá, essa tecnologia foi se transformando até virar no que é hoje, o funk, os passinhos e as culturas pretas como nós a conhecemos hoje. Mas ela foi preservada no nosso corpo.

antes de qualquer outro dispositivo. Então, o nosso corpo é essa tecnologia e o funk é essa tecnologia, porque começou aqui e se encerra aqui, nos corpos pretos da diáspora. Caramba! Nossa, que muito bonito! E acho que vai linkar um pouquinho, que tem um curso que se chama Histórias Negras, que inclusive eu te conheci.

por conta desse curso que é magnífico que você busca nessa acho muito incrível como você faz que você conecta as histórias de mulheres invisibilizadas com o movimento do corpo

Como que surgiu a ideia desse curso? Fala um pouco sobre como que é esse curso. Foi um curso que surgiu na pandemia, que se chamava Heroínas Negras. E aí ele era online e era, assim, a internet não tem fronteiras, mas a maioria das pessoas participantes do curso eram de Brasília, porque já me conheciam dos lugares que eu dava aula e tudo mais.

E aí, como que surgiu essa ideia? Eu lia muito sobre mulheres negras que tinham feitos incríveis dentro das suas comunidades, dentro dos seus povos, que escreveram livros, escreveram cartas, escreveram... Enfim, produziram muitas coisas muito importantes para o povo preto, de uma forma em geral. Só que a gente não ouvia falar sobre essas mulheres em lugar nenhum.

Então, assim, você tinha que ir atrás de autores específicos, de livros específicos, de filmes específicos, de espetáculos específicos, e isso não era popularizado, né? E aí eu falei assim, tá, mas essas mulheres, elas tinham uma resistência, elas tinham não, elas resistiram por muito tempo e elas resistiram nesse corpo.

Então, pensa o povo africano foi sequestrado, torturado, escravizado, trazido para cá. Eles foram trazidos para cá sem nada, nada além dos próprios corpos. Por isso que eu falo de tecnologia ancestral preta. Eles preservaram a memória de seus povos, de suas famílias, os festejos, a forma de celebrar a vida, a forma de cultuar a morte, a forma de se manter no mundo apenas com o que eles tinham de memória.

E apenas com que eles conseguiam reproduzir com os próprios corpos. Então, essas mulheres, num primeiro momento, falando das mulheres brasileiras, que nasceram aqui no Brasil, depois falando das mulheres do continente africano, essas mulheres resistiram, elas resistiram fisicamente.

Elas lutaram, elas foram para guerras, elas foram faraós, elas foram rainhas, elas foram princesas, elas foram presidentes, elas foram muitas coisas, elas foram líderes. E elas foram líderes mulheres pretas, e é por isso que a gente não ouve falar delas. Então, assim, eu quero contar a história dessas mulheres, mas eu quero contar a história dessas mulheres oralmente, por palavras, mas eu também quero dançar a história dessas mulheres.

Porque eu quero que a gente sinta nos nossos corpos como foi viver essa história por meio da dança. Porque a gente não tem mais acesso a essas mulheres. Elas não têm mais como nos falar como foi as experiências que elas tiveram. Eu não tenho mais como trazê-las aqui para que elas possam compartilhar com a gente isso. Então, a forma da gente acessar essa tecnologia ancestral preta é a dança.

Então, eu fazia slides, contava a história dessas mulheres, trazia vídeos, trazia áudios, trazia livros, trazia referências, e depois agora a gente vai dançar essa história. Então, tem um movimento que representa corte, ela foi para a guerra, ela lutou, desce dessa forma. Tem um movimento que representa banho, essa mulher abriu canais de água para a sua comunidade. Então, a gente está recontando essas histórias por meio do corpo.

Então, tem toda uma parte de contação de história que você ressignifica os movimentos e que você conta aquela história por meio daqueles movimentos. Então, não é uma mímica, né? Tipo, ah, coração, né? Não é sobre isso. É sobre você conseguir compreender que o seu corpo tá contando histórias o tempo todo, né? A forma como você gesticula, a forma como você balança a cabeça, pra onde você tá olhando quando você tá falando.

Tudo isso está contando uma história sobre quem você é e o que você está fazendo neste exato momento. Então, quando a gente acessa essas histórias, por exemplo, sei lá, de dois mil anos antes da Era Comum, como que eu conseguiria contar essa história com esse corpo, hoje, urbano?

aqui de São Paulo, sabe, que pega o metrô, que pega o trem cheio, como que eu vou conseguir traduzir essa história pra esse corpo? A dança é essa ferramenta ancestral, milenar, que vai conseguir trazer esses movimentos pra gente reinterpretar a parte da história dessas mulheres. Então, foi um curso muito lindo, né, na época da pandemia, que teve um número limitado de aulas, né, eu contei um número limitado de histórias, e aí, na Casa de Cultura do Butantan, em 2023.

ou 2024, não lembro agora direito, eu consegui contar essa história em vários meses de aula. Então, foram muitas histórias de muitas mulheres e a gente dançou muitas danças diferentes. Então, por exemplo, a gente foi falar da Rainha Enginga de Angola, a gente dançou uma dança de Angola. Então, foi muito legal conseguir fazer essas traduções, por mais que a gente não viva naqueles territórios, a dança nos traz esse território.

para o nosso corpo. Então, foi uma tradução e uma contação de história muito gostosa de fazer. Sim, eu participei, era incrível. Porque tinha essa primeira parte da aula, que você mostrava os slides, que você contava a história, que você levava livro e passava para a gente, e falava, gente, eu tirei essa história daqui, essa daqui é a minha referência, era muito legal. Uma coisa que eu quero perguntar é como que essas histórias, essas referências chegaram até você?

Como que você pensou, tipo, vou transformar isso num curso, quero levar isso para as pessoas, e era muito legal isso que... O que você construía depois com o corpo tinha muito a ver com a história. Como que você pensava isso também, tipo... Você pegava uma história que era de Angola, você falava, vou pegar uma dança, e tal movimento quer dizer isso, quer dizer aquilo, e vou montar isso. Como que você montava essas aulas também?

É muito importante a gente se manter se atualizando, né? Então, assim, fazer o máximo possível de aulas, do máximo possível de danças, com o máximo possível de pessoas, isso aumenta o seu repertório, até para conseguir construir esse tipo de proposta. Então, desde 2015, que foi quando entrei para o Grupo Cultural Albará, eu comecei a estudar.

absolutamente tudo que eu conseguia sobre cultura preta e como transformar isso em dança. Ou se já tem uma dança que fala sobre isso. Se já tem uma dança que fala sobre isso, eu quero estudar essa dança. Então, eu comecei atrás de todas as possibilidades de dança e dançar histórias.

Então, eu lia muito, eu acessava muitos espetáculos, filmes, entrevistas, debates. Eu estava circulando em muitos espaços que tinha uma produção muito profícua, muito longa de estudo da história da cultura preta.

E eu tava sempre tentando transformar isso de alguma forma em dança na minha cabeça. Eu tava o tempo inteiro tentando traduzir isso pra dança, traduzir isso pro corpo, sabe? Então, desde 2015 eu tenho lido muitos livros, eu tenho buscado muitas referências, especialmente sobre mulheres negras, né? Porque foi quando eu comecei a estudar sobre matriarcado. E quando a gente fala de matriarcado, as pessoas pensam assim, ai, não queremos homens, não gostamos dos homens, os homens que vão pra lá. E não é sobre isso.

O matriarcado é um sistema social em que há uma complementariedade, há um equilíbrio, há um respeito mútuo entre homens e mulheres, compreendendo que a mulher é o protagonismo da vida em sociedade e da vida privada e da vida pública, ela é a protagonista. Por conta dessa capacidade, isso falando de biologia, porque foi como os teóricos que chegaram a mim falaram, dessa capacidade de gerar e nutrir a vida a partir do próprio corpo. Então, o matriarcado passa pelo corpo.

Não biologicamente falando, mas o próprio conceito do matriarcado está falando o tempo inteiro. Do corpo, de gerar vida, do quanto que existe uma complementariedade na natureza, existe uma complementariedade dentro de nós. Dentro de nós existem hormônios masculinos e femininos que não podem estar desequilibrados. E o equilíbrio não é 50-50.

O equilíbrio, às vezes, é 80-20, às vezes, é 90-10, né? Então, assim, é um sistema que fala sobre equilíbrio de energias, de possibilidades masculinas e femininas diante da existência. Quando eu comecei a estudar o matriarcado, a partir da perspectiva africana, eu comecei a estudar a história de matriarcas. E aí eu comecei a ir atrás dessas histórias dessas mulheres.

E quando eu fui localizando essas histórias, na minha cabeça era como se fosse um grande catálogo. Nossa, tem essa, tem essa, tem essa, tem essa, tem essa. E como é que eu faço para falar sobre essas mulheres? Eu sou uma pesquisadora de dança. Eu vou transformar a história dessas mulheres em dança. E aí, assim...

Como que eu posso ampliar o meu repertório para contar essas histórias dessas mulheres? Fazendo mais aulas, participando de mais encontros, assistindo mais coisas, ouvindo mais coisas, lendo mais coisas. E aí eu vou fazendo essa junção, essa coleção mesmo de movimentos, de danças, de possibilidades de dançar e de contar histórias de outras pessoas por meio da dança.

Então, tudo isso, quando eu fui sistematizando, assim, numa proposta de um curso, eu pensei comigo, eu tô contando a história de mulheres que mudaram a história. E que mesmo assim a gente não conhece a história dessas mulheres, então eu preciso contar essas histórias.

Só que se eu falar assim, gente, senta aqui, vamos ouvir história, talvez não seja uma proposta tão interessante quando eu digo que eu sou uma pesquisadora em dança. Então, se eu falar, gente, senta aqui que eu vou contar uma história, mas a gente também vai dançar essa história, talvez vire uma proposta mais interessante, né? Então, foi assim, eu fui coletando essas histórias, fui coletando essas aulas, essas vivências de dança em vários territórios, em vários momentos diferentes da minha vida, e aí eu juntei tudo, assim.

na minha cabeça tudo vira dança e tudo vira comunicação porque a dança é uma comunicação também então eu gosto muito de contar essas histórias e de dançar essas histórias

Nossa, muito louco, porque eu não sei nem como, por onde começar a comentar sobre. Mas achei muito bonito isso que você traçou tudo o que você foi conhecendo na sua trajetória e foi pensando, hum, isso daqui pode virar alguma coisa. E fez virar alguma coisa, que é algo lindo. Eu gostava muito de participar dessas aulas, porque saia da aula assim, mas Deus, que legal!

Porque tinha toda essa parte. Tinha essa parte teórica, mas também a gente praticava no corpo. E você saia, meu Deus, eu posso contar histórias com o meu corpo. Eu sou do teatro, mas às vezes a gente não pensa, porque a gente conta histórias com o corpo. Mas enquanto eu fazia a sua aula, eu ficava explodindo na cabeça. Espero que você faça mais e mais vezes esse...

curso que você consiga levar pra outros lugares do país é isso, axé fazer acontecer vamos

Você acha que o fato de você ser jornalista influenciou na sua pesquisa, influenciou na forma... Com certeza, né? Acho que vendo a forma como você fala, dá para ver que influenciou. Mas como você enxerga que ser jornalista primeiro, depois você foi para a dança e foi alinhando os dois, como você enxerga que o jornalismo influenciou nas suas pesquisas, na forma como você organiza elas?

O meu pai, ele escreveu poesias. E aí eu brincava de escolinha com o meu pai. E aí ele dizia que um dia ele ia publicar as poesias dele num jornal. E ele dizia sempre assim também, quando eu morrer eu vou deixar vocês na faculdade. Então, o meu pai faleceu, eu e meu irmão estávamos no segundo semestre da faculdade.

então, por que eu gosto de falar sobre isso? porque eu acho que foi um processo inconsciente assim, o ir pro jornalismo eu nunca elaborei direito assim muito por que jornalismo? entendeu? eu sou da primeira turma do ProUni então, o processo do ProUni no começo ele era um pouco confuso e aí você tinha que...

Você fazia o Enem, você tirou uma nota boa, você recebia uma carta na sua casa, e aí você tinha que cadastrar cinco universidades e cinco cursos diferentes, dependendo da sua nota e na sua lista de prioridade. E a minha prioridade era o jornalismo, né? Então, quando eu entrei, eu nunca tinha pensado, ai, como eu amo jornalismo, eu só quero fazer jornalismo. Não, eu coloquei ali as minhas cinco possibilidades e eu entrei no jornalismo. E depois que eu entrei...

foi que eu fui pensar nessa trajetória com meu pai, como a gente sempre brincava com as palavras. Ele escrevia poesias, eu escrevia livrinhos de bis, sabe? Eu estava sempre escrevendo, e ele sempre me motivando a escrever, e a gente brincava de escolinha, e eu brincava que eu era professora. Então, as palavras sempre fizeram parte da minha vida, das minhas brincadeiras, né? Então, para mim, a existência passa por eu conseguir transformar as coisas em palavras, né?

E aí eu sempre falo que dança é comunicação e jornalismo é comunicação. O que é o jornalismo se não contação de histórias? Você vai me falar uma coisa e eu preciso contar o que você me falou para outras pessoas. Eu vou entrevistar um cientista, o cientista vai falar lá o idioma dos cientistas e eu preciso traduzir isso para o público leigo.

Todo mundo virou especialista em Covid-19 na época da pandemia, porque tinha esse trabalho dos jornalistas de explicar o que é Covid-19. E essa é a responsabilidade do comunicador. Eu preciso repassar a informação correta para que você também repasse a informação correta. Então, como jornalista, eu aprendi a fazer essa tradução permanente.

Você vai me falar uma coisa, eu vou falar aquilo que você me falou e acrescentar mais informações. E eu vou precisar ouvir os dois lados da história. E eu vou precisar fazer um resumo que não seja tão parcial. Não tem como dizer que é imparcial, porque não é. Mas que não seja tão parcial para que você consiga tirar suas próprias conclusões. Então, enfim, nesse império da fake news isso meio que não existe mais, mas enfim.

a intenção original era essa e aí quando eu comecei a fazer o curso de jornalismo eu costumo dizer para as pessoas que assim eu aprendi a ler na universidade porque quando a gente está lendo obrigado na escola a gente não gosta de ler

E você dar Machado de Assis para uma criança de 12 anos, você está condenando essa criança a não gostar mais de ler. Porque Machado de Assis é ruim? Não, pelo contrário, porque Machado de Assis é extremamente complexo. Machado de Assis fala sobre coisas e de uma maneira que se você não tiver maturidade suficiente para entender, aquilo vai acabar com a sua percepção de o que é leitura. Se você der um Saramago para uma criança de 10 anos...

Não, claro, claro, claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro claro

Gente, é um livro que não tem ponto final. Se você parou no meio da página, acabou. Você vai ter que voltar 30 páginas para lembrar o que está acontecendo. Então, ao invés... Ah, mas são os clássicos. As pessoas têm que ler os clássicos. Meu amigo, tem gente que não está preparada para ler esse livro agora. E o que a escola faz é falar, você vai ter que ler isso sim.

O que eu observo hoje é que tem outras leituras, são estimuladas, outras consultas, eu acho isso, assim, inspirador mesmo. Mas na minha época, a gente era obrigado a ler uns livros, assim, é que eu não tinha maturidade para ler. E, consequentemente, eu não gostava de ler.

Eu gostava muito de escrever, muito de brincar com meu pai e tal, mas na hora de ler os livros da escola era insuportável, eu não queria ler aquilo. E aí, na universidade, eu só lia o que eu queria ler. Óbvio que tem lá as leituras obrigatórias das disciplinas e tal, mas assim, eu quis entrar no curso de jornalismo. Eu queria saber tudo sobre jornalismo. Então, tudo que os professores falavam que era importante para eu ler, eu lia e eu lia com vontade, eu lia com... Nossa, eu quero saber sobre isso, eu quero aprender sobre isso.

Então, o jornalismo me instigou a saber pesquisar as coisas, a saber procurar as fontes de informação. Não é qualquer pessoa que é uma fonte de informação. Eu tenho que saber consultar as pessoas certas. Isso me ajuda no quê? Não é qualquer pessoa que vai me dar aula de dança. Eu tenho que saber procurar as pessoas certas. Qual dança?

Deixa eu ver, quanto tempo de experiência que você tem? Deixa eu ver onde que você caminha. Deixa eu ver, eu já dancei com você em alguma festa? Eu já vi você dançar em algum lugar? Porque assim, você me falou que você dança uma dança que exige uma vivência, que exige um baile. Eu já vi você em algum baile? Será que você tem essa vivência? Porque como eu falei, pra dar aula é técnica e vivência. Você pode ter a técnica, mas não tem a vivência.

Você pode ter a vivência, mas não tem a técnica. Mas se você não tem os dois, você não tem como me dar aula.

Então, acho que o jornalismo me trouxe essa capacidade de filtrar informações, de traduzir uma palavra, uma dança, um movimento de uma coisa para outra coisa e de saber simplificar as linguagens.

E isso tanto de palavra quanto de dança. Porque às vezes o movimento é extremamente complexo. Mas se você souber dividir ele em várias partes, e você souber como explicar, como chegar na pessoa, você vai conseguir fazer com que essa pessoa entenda o movimento. Então, acho que o jornalismo é, em última instância, uma forma de você traduzir e simplificar conhecimento e espalhar para o máximo de pessoas possível.

Acho muito louco isso de áreas que são tão distintas, mas que você achou uma forma delas estarem juntas. E provavelmente essa formação te influenciou muito no seu mestrado, te influenciou muito na pesquisa que você faz, na forma que você faz pesquisa. Comenta um pouco sobre isso. Com certeza. Inclusive, um comentário do meu orientador, quando leu a minha dissertação, foi isso. Dá para perceber que sua formação é o jornalismo.

Porque a minha forma de escrever mesmo é de quem está coletando histórias de diferentes pessoas e transformando num texto, né? Então, é a minha forma de pesquisar também, né? Eu vou nesse lugar e eu pesquiso e eu coleto informações e eu leio e eu estudo e aí eu vou ir nesse outro lugar.

e faço essa pesquisa também, e aí eu vou nesse outro, nesse outro, nesse outro, e aí eu faço uma colagem de tudo isso, e isso vira dança, isso vira texto, isso vira vídeo, isso vira espetáculo, isso vira performance, isso vira um evento, isso vira uma série de outras coisas, né? Então, eu acho que o jornalismo, acho que ele me ensinou...

a traduzir diferentes falas de diferentes pessoas em um texto único, de uma forma que fique inteligível, que fique entendível para quem vai ler. E aí, pensando na dança, no espetáculo, como um texto...

e eu coleto essas informações de várias pessoas, eu preciso que esse texto faça sentido e ele soe parecido. Todos os parágrafos precisam ter uma unidade, eles precisam ter uma uniformidade, eles precisam estar falando, estar um conectado com o outro.

E a dança é isso, o seu movimento que vai terminar precisa estar conectado com o movimento que vai começar logo em seguida. Num espetáculo, numa performance, você precisa estar conectado com a pessoa que está do seu lado. Você precisa se conectar com o público. Então, termina que o jornalismo me ajudou a saber coletar informações, saber costurar essas informações no texto e saber transmiti-las para o público de uma forma que o público entenda.

Porque eu gosto quando o público entende, né? Tem gente que faz as coisas... Não, deixa pra livre interpretação. Ai, não entendi nada. Excelente, não fiz pra você entender. Não, eu não sou essa pessoa. Sabe, eu gosto quando as pessoas entendem. Eu gosto quando entendem a intenção. Eu gosto quando entendem o que eu tô falando. Eu gosto quando conseguem visualizar que eu estou dançando aquilo que eu falei que eu dançaria. Que eu tô contando a história que eu falei que eu contaria. Então, acho que o jornalismo me ajuda.

nesse processo de coletar, juntar e transmitir de uma forma simples.

Eu prefiro muito mais assistir um espetáculo, que eu saia entendendo, do que um espetáculo que você sai e fica, nossa, será que eu sou burra? Às vezes você não entende nada, e você fica, tá, mas o que a pessoa quer dizer com isso? De onde ela saiu? Para onde ela vai? Por que disso? No ano passado, eu assisti uma peça que tinha um cenário que era muito legal, e eles não usaram nada do cenário. E eu fiquei assim.

Gente, por que eles criaram todo esse cenário, que era todo estético? Era muito lindo. Mas que não tinha funcionalidade nenhuma na peça. E era uma peça também que terminava de um jeito muito estranho, que era elas cantando uma música em espanhol, com letras de karaokê, pra plateia cantar junto, só que ninguém conhecia a música. E eu ficava assim.

E aí não tinha nenhum pé nem cabeça, não ia pra lugar nenhum. E é muito ruim. Você sair, tipo... Você gastar seu tempo, né? De assistir alguma coisa, você sair assim, tipo... Nossa, eu podia ter ficado em casa. Não, e eu penso também em aulas de dança, né? Que você vai e parece que o professor tá fazendo uma competição com você. Vamos ver se você consegue fazer isso daqui.

Tipo assim, não, gente, professor, eu vim aqui pra aprender. Você tem que partir do pressuposto de que eu não sei. Eu não sei. Eu vim aqui pra aprender. Então, se você puder, por favor, me ensinar de uma forma que eu consiga realizar, eu vou sair daqui me sentindo a pessoa mais realizada do mundo. Eu não vim aqui pra competir com você. Eu sei que você sabe muito mais do que eu, né? Mas existe realmente as pessoas que chegam numa aula de dança e acham assim, opa, eu vou sair dessa aula de hoje aqui dançando. Não, meu querido, calma. Calma.

Você chegou hoje. Hoje. Hoje você vai no máximo conseguir fazer uma base. E você tem que ficar muito feliz de conseguir fazer essa base. É o treino, é aperfeiçoamento, entendeu? Mas tem professor que quer passar a sua coisa difícil.

Coisa difícil. Hoje vamos aprender coisa difícil. Quem não conseguiu fazer treino em casa, porque eu só vou explicar uma vez. Sabe assim, gente, não. Vamos tornar as coisas simples e entendíveis pras pessoas? Acho que a gente se sente muito melhor quando a gente entende o que a gente tá fazendo. A gente faz melhor quando a gente entende o que a gente tá fazendo. Então, por isso que eu sou essa pessoa do vamos explicar, vamos praticar, vamos aprimorar. Eu acho que esse é o caminho pra pessoa sair feliz da vida de uma aula, sabe?

E a gente tá nesse mundo que tudo é imediato, né? Tudo tem que ser pra ontem. E aí parece que tua pessoa já nasceu andando, falando. Não teve um processo pra você andar? Não teve um processo pra você aprender a falar? Não foram nove meses? Não levou um tempo até você ser constituído como um ser humano? As coisas levam um tempo.

É muita loucura isso, que todo mundo quer tudo no agora, ninguém aproveita o agora, porque está sempre pensando no futuro, e aí a gente vê essa galera super doente, com ansiedade, porque está nesse mundo que quer que tudo seja imediato. E aí tem que falar, respira. O mundo não vai acabar hoje. Se acabar, está tudo bem também. Está tudo bem também. Consequência, né? Consequência de anos de destruição também, né?

A gente está colhendo muita coisa que não foi a gente que plantou. Nós estamos aí colhendo, né? É isso. Que vida difícil. Pensando nessas costuras, nessas junções, além da dança, quais são as outras linguagens que você utiliza tanto para criar suas aulas, mas também para criar suas coreografias, para estar em cima do palco?

Eu costumo dizer que quem estuda dança precisa estudar música, porque nas práticas culturais negras, dança, música, enfim, como eu já falei antes, as várias artes, elas não se separam, não se hierarquizam, não tem melhor, não tem pior, não tem uma sem a outra, e eu gosto muito de ouvir música, eu gosto muito de estudar música, não no sentido de...

Deixa eu ler partitura, deixa eu aprender a tocar instrumento. Se bem que aprender a tocar um instrumento quando você dança te ajuda muito a compreender a estrutura da música, o que te ajuda na hora também de aprender a dançar. Então, eu fiz parte do cortejo afropercussivo zumbido. Eu tocava repinique.

E foi muito legal aprender a tocar hipnique, porque, assim, as danças pretas, elas são basicamente danças em cima de músicas, em sua maioria, percussivas, né? Então, quando você aprende a tocar um instrumento de percussão, as coisas começam a fazer sentido, sabe? O movimento dos pés, o movimento dos ombros, o movimento dos quadris. Então, assim, na época da faculdade, eu toquei bateria.

Mas era aquilo assim, aquelas músicas de rock de garagem, sabe? Então assim, você fica sentado. Mas o fato de eu ter estudado música naquela época me ajudou quando eu comecei a aprender a dançar. Porque eu visualizava a música de uma outra forma. Eu visualizava, eu conseguia ouvir os graves, os médios, os agudos, os instrumentos separados, os instrumentos todos juntos, só a voz. Então eu conseguia isolar os elementos da música. E isso me ajudou muito na hora.

de aprender a estudar dança de uma forma mais institucionalizada e sistemática. Então, quando eu entrei no Grupo Cultural Obará, e aí a gente aprendia também aula de percussão, a gente tinha também aula de percussão, e a gente tocava durante o espetáculo, e a gente tocava...

em um determinado momento, e a gente dançava em outro momento, e eram outras pessoas que tocavam o que a gente tocava também. Então, foi essa complementariedade que fez uma unidade mesmo no espetáculo, porque a gente sabia fazer absolutamente tudo o que todo mundo estava fazendo.

É aquilo, assim, se você souber como o seu carro funciona, você não vai se desesperar quando alguma coisa começar a aparecer piscando no painel, sabe? Então, quando você sabe o que todo mundo do palco está fazendo, você se sente mais confortável e mais seguro, porque, assim, se em um determinado momento essa pessoa precisar que eu substituí ela ou que eu precise que ela me substitua, todo mundo vai estar falando a mesma língua, né?

Então, uma outra linguagem que eu gosto muito de estudar é a música, né? Isso tanto por eu ter aprendido a tocar instrumentos de percussão, quanto por ser um elemento primordial, um elemento fundamental pra que a minha própria arte aconteça, que é a música, né? Tem muita gente que fala, ai, você pode dançar no silêncio. Gente, dança...

cultura preta, cultura preta, você não dança no silêncio. Você dança na palma da mão, você dança no bater do pé, você dança no bater de uma bota, você dança no bater do seu próprio sapato no chão, mas você não dança no silêncio, entendeu? Às vezes você tá fazendo a música que você tá dançando com o seu próprio corpo, sabe? Mas dançar no silêncio você não dança. Então, uma coisa que eu sempre gosto de falar pras pessoas é isso.

Se você estuda dança, você estuda música. Porque se você estudar a música que você tá dançando, você vai dançar melhor também.

Com certeza. Pensando na cultura preta, você faz parte da cultura Barun, que é algo espetacular, que é um espaço de celebração, acolhimento e resistência, principalmente para a galera preta LGBT. Explica um pouquinho sobre como é o Barun, você é jurada, fala um pouquinho sobre como é estar dentro.

Bom, a cultura ballroom, ela surgiu, assim, como nós a conhecemos hoje, né, ali por volta da década de 60, nos Estados Unidos, no Harlem especificamente, né, nas periferias ali de Nova York. Mas a história da cultura ballroom, ela é muito anterior à forma da cultura ballroom como nós a conhecemos hoje. Então, assim, no período ali da década de 20 e 30, no Harlem, teve o Harlem Renaissance.

que foi um período de renascimento cultural de um bairro preto. E aí os artistas pretos, a cultura preta era exaltada e reverenciada por todas as pessoas que viviam ali naquele território.

O que acontecia? Os bailes aconteciam em espaços fechados, em espaços geralmente que tinham batidas policiais, porque, enfim, era uma época de segregação, era uma época de muita violência contra os corpos pretos, mas as pessoas se reuniam nesses espaços subterrâneos, nesses espaços clandestinos, e aí as pessoas falavam, aqui nós podemos ser o que a gente quiser.

Só que as pessoas pretas naquela época, homens vestidos de mulher, mulheres vestidas de homens, isso era o auge do absurdo e isso era muito reprimido, isso era muito criminalizado. Mas a primeira pessoa a se auto-intitular, né?

a se comportar e a vestir essa persona de um outro gênero, ou seja, o que a gente chama hoje de drag queen ou drag king, foi um homem negro, foi William Dorsey Swan. E aí temos o relato dessa pessoa falando sobre como ele reagiu a essa batida policial em um desses espaços, em que as pessoas faziam os bailes para elas se vestirem e serem, fazerem o que elas se sentiam mais confortáveis para fazer.

Essa pessoa, William Dorsey Swan, com essa arte drag, inspirou muitas pessoas dentro dessa comunidade, muitas pessoas pretas, a também praticarem a arte drag. Só que num determinado momento, e aí bem mais posteriormente, falando em tempo cronológico, né, as pessoas brancas começaram a frequentar esses espaços também.

E começaram a fazer isso também. Em pouco tempo, a arte drag ficou muito mais associada e visibilizada em corpos de pessoas brancas. E aí começaram a acontecer concursos de beleza drag. E as pessoas que ganhavam esses concursos de beleza drag eram sempre as pessoas brancas. E eram sempre as pessoas brancas.

E aí, uma pessoa, assim, que hoje talvez as pessoas cumprindo como uma pessoa trans, mas aí a gente não tem esse relato direto da boca dela, mas Cristal LaBeija, né, essa pessoa drag queen, que era uma pessoa preta, que era uma pessoa preta, né, periférica, ela denunciou isso, e isso tá registrado num filme, num documentário chamado The Queen.

Que era um concurso de beleza drag. E aí, quem ganhou foi uma pessoa branca. E aí ela fala, gente, não é possível que vocês vão dar o prêmio pra essa mulher. Olha a maquiagem dessa mulher. Olha a cara dessa mulher. Olha, olha. Olha o meu rosto, olha a minha beleza, olha a minha maquiagem. Vocês não vão me dar o prêmio porque eu sou preta?

Eu sou preta, sim. Eu sou preta com muito orgulho. Eu tenho muito orgulho. Eu sou muito linda. Eu não quero mais fazer parte disso. Eu não vou mais fazer parte disso. Eu vou fazer o meu próprio baile. Eu vou fazer o meu próprio concurso de beleza. Já que eu nunca vou ganhar aqui, eu vou ganhar no meu próprio concurso, então.

E aí ela lança a House of La Beija, a Casa de La Beija. E aí ela lança a Ball, o baile, né? Como nós o conhecemos hoje, com categorias de beleza, com categorias comportamentais, né? De roupa, de beleza, de rosto, né? E as categorias dançadas que vieram depois. Então, as primeiras categorias da cultura Ballroom era beleza, né? Face.

Runway, que é a sua roupa, você desfilar mostrando a sua roupa, quanto que a sua roupa é maravilhosa, quanto que ela veste bem, etc.

E realness, que é a categoria de realidade. O que é a categoria de realidade? As pessoas pretas, LGBT, especialmente trans, nessa época, na década de 60, elas não tinham nenhuma liberdade para fazer praticamente nada, especialmente publicamente falando. Então, nesses bailes, nas balls, tinha a categoria realness, que era o quê? Você é uma mulher trans.

Então, vamos ver quem é a mais mulher aqui. Quem mais teria passabilidade de uma mulher cis aqui. Ah, então categoria realness, vamos ver quem se comporta melhor como se fosse um empresário, uma empresária. Quem se comporta melhor como se fosse um militar. Quem se comporta melhor como se fosse um médico. Quem se comporta melhor como se fosse uma grande modelo, super famosa. Porque essas eram categorias profissionais e comportamentais que pessoas pretas e LGBTs não acessavam.

Então, na bol, você pode ser tudo, tudo que você quiser ser. Então, as categorias comportamentais eram sobre você ser exaltado naquilo que você é, na beleza do seu rosto, na beleza da roupa que às vezes foi você que fez, em você vender um comportamento, uma performance teatral mesmo de eu sou uma empresária.

E você vai ver como eu me comporto aqui como uma empresária, eu me visto como uma empresária, eu falo como uma empresária, né? Então, essas categorias eram as categorias comportamentais. E aí, a partir de um determinado momento, tem uma cultura do shade, né? Da pessoa debochar, da pessoa zoar de você, da pessoa falar às vezes coisas maldosas, mas que é parte da cultura mesmo, né? Do shade de você aumentar a sua autoconfiança e diminuir a autoconfiança da outra pessoa, né?

E aí uma pessoa tava jogando shade na Paris Dupré. E aí a Paris Dupré abriu, e ela era, né, uma pessoa trans, e aí ela pegou a revista Vogue, aí ela abria a revista, mostrava a foto da modelo e fazia pose. Ela mostrava a foto da modelo e fazia outra pose. E ela ia passando as páginas e reproduzindo as poses. E aí ficou esse movimento de trocar as poses, isso foi virando uma dança.

Que é o Old Way, a primeira categoria, a primeira forma de dançar o Vogue. Que ele é mais posado, ele tem mais linhas, né? Exatamente porque reproduziam fotos bidimensionais, né? Então, foi a primeira forma de dançar Vogue. E aí tem o documentário, né? Paris is Burning.

Paris está queimando, e as pessoas pensam que é Paris a cidade, mas não é a cidade, é Paris Dupré, que foi essa pessoa que está também no documentário, que trouxe esse elemento dançado, posado, né, para os bailes em resposta a um shade. E aí, a segunda forma de dançar Vogue foi o Vogue New Way.

que é uma categoria, uma forma de dançar que já tem mais elementos acrobáticos, já tem mais flexibilidade, já tem abertura, já tem você passar as pernas pra trás, passar os braços pra trás, você fazer boxes, você fazer caixas com os seus braços, fazer ângulos. Então, o New Way já trouxe uma coisa mais performática, no sentido de alta performance, de corpo atlético, de flexibilidade, de alongamento mesmo.

E aí nós temos a terceira forma de dançar Vogue, que é o Vogue Femme. Que aí, a cultura Balgum foi criada por pessoas trans, né? Eu acho que eu falei que a Cristal Abija não era trans, mas a Cristal Abija é trans sim.

E aí a cultura baulã foi criada por pessoas trans, e aí o Vogue Femme exalta as mulheres trans. Porque se o que dizem que é ser mulher é fazer isso, a gente faz isso em dobro. Então é o exagero da performance de gênero.

A ballroom é o exagero da performance de gênero. Então, se isso aqui é ser homem, na ballroom eu vou fazer o dobro. Se isso aqui é ser mulher, na ballroom eu vou fazer o dobro. E aí o Vogue Femme é esse excesso de feminilidade, de sensualidade, de, ah, então ela é mulher porque ela anda rebolando, então eu vou andar rebolando muito mais do que ela. E assim, são cinco os elementos do Vogue. É o hands performance e performance das mãos. Floor performance e performance no chão.

Spin em Jeep, que é você girar e você cair no chão. Catwalk, que é a caminhada que a gente faz, enfim, né? A tradução literal é a caminhada do gato, mas é como se fosse um desfile que você quebra bastante o seu quadril. E o Duckwalk, que é a caminhada do pato que você faz no nível baixo, agachada e andando, né? Tipo, pulando, enfim, é difícil.

Mas são esses cinco elementos que perpassam as três formas de dançar Vogue, né? O Old Way, o New Way e o Vogue Femme. E aí a Ball é esse espaço em que você pode ser tudo isso que você quiser ser e que o mundo lá fora não vai te reconhecer, não vai te exaltar, mas dentro da Ball, dentro da cultura Ballroom, você que é um corpo preto, você que é um corpo trans, você que é um corpo que lá fora sofreria todas as violências, aqui dentro você vai ser exaltado no seu máximo.

Então, uma cultura de acolhimento, de reconhecimento, e que me fez reconhecer muito a minha própria feminilidade, sabe? Porque como mulher negra, especialmente como mulher negra que se reconheceu como uma pessoa negra muito tarde, eu tinha aquilo de, eu não sou fofinha, eu sou guerreira, eu sou bruta, eu sou forte, eu sou, sabe, como se isso fosse algo positivo pra mim, sabe? E a Ballroom me mostrou assim, olha, você é linda, você é poderosa, você é feminina, você é sensual.

E foi a Ballroom que me mostrou esse meu lado, sabe? Então, não é que eu não seja forte guerreira, é que eu sou forte guerreira, mas eu também sou linda e sensual e frágil e mereço todo o carinho e atenção e reconhecimento também, entendeu? Então, é mais sobre juntar essas possibilidades. E foi na Ballroom que eu juntei essas possibilidades. Então, eu entrei na Ballroom pelo Vogue.

porque eu estava nessa fase de eu quero estudar todas as danças negras, eu quero contar todas as histórias negras. E eu cheguei no Vogue, porque é uma dança negra. E aí, no Vogue, eu conheci a cultura ballroom. Então, eu entrei para a cultura ballroom por meio do Vogue, aprendendo a dança. E aí, aprendendo a dança em academia de dança, fazendo aula. Só que é isso, não tinha dinheiro para pagar, eu ficava só assistindo.

E aí, num determinado momento, eu fiquei sabendo que tinha um treino de graça de Vogue, e aí era assim, treino da House of Hands Up, lá em Brasília. E aí, em 2018, eu fui nesse treino. E aí, a Mother da House of Hands Up, ela é uma das pioneiras da cultura ballroom aqui no Brasil, e a House of Hands Up foi a primeira house da cultura ballroom do Brasil, isso lá em Brasília. E eu comecei a frequentar os treinos, eles me colocaram no grupo do WhatsApp, e aí fiquei, né, parte da house desde 2018.

Então, em 2020, eu acredito, a Cona, a Mother Cona, veio para São Paulo e ela me deixou ir como eu e a Pathy, como as novas Moders da House of Hands Up. Então, a gente ficou como Moders de 2020 a 2022, que foi quando eu vim para São Paulo.

E aí, em 2022, eu deixei de ser Mother da House. E aí, a gente abriu o capítulo da House of Hands Up aqui em São Paulo. Aí, fiquei na House of Hands Up como imperatriz aqui em São Paulo, de 2022 até 2025, até 2024. Até 2024, né? Que foi quando eu saí da House. Não por... Ah, e abandonei a Wallroom? Não, eu só saí da House. Porque, de fato, todas as... Ah, e abandonei a Wallroom?

O tempo, todas as habilidades, todas as dificuldades que eu comecei a enfrentar como empreendedora cultural, como produtora, como idealizadora do Passinhos do Brasil, estava me tomando muito tempo de participar da Ballroom. E a Ballroom é um investimento de tempo, de energia, é um coletivo. A house não é um grupo de dança.

A house é uma família. É uma família das pessoas que muitas vezes foram expulsas de suas casas, foram expulsas de suas famílias por serem pessoas LGBT. Então, a house da cultura ballroom é um novo rearranjo de família. Por isso que a gente chama as nossas lideranças de mãe e pai. Porque é uma nova formação de família. E aí a Hands Up é uma house kiki. Ou seja, é uma house local.

Mas tem também as houses internacionais. E aí eu estava, eu era também parte de uma house internacional chamada House of Zion, né? Que é uma dessas primeiras casas da cultura ballroom. Era uma casa super antiga lá de Nova York. E aí chegou aqui no Brasil e a Kona, né? Que era a minha moda da Hands Up.

também é mother da House of Zion aqui no Brasil. Então, em 2020, 2021, não lembro agora, eu entrei também pra Zion e fiquei como imperatriz da Zion também até 2024. Então, em 2024, eu saí das duas houses, mas eu permaneço como uma pessoa que contribui, que colabora, que estuda e que é completamente apaixonada pela cultura ballroom.

Que tudo que a gente conhece hoje de cultura pop foi a cultura ballroom que inspirou, que motivou, que fez fazer. Então, é muito importante a gente falar Ai, Vogue, ah, da Madonna. Não, gente, pelo amor de Deus, não é da Madonna. A Madonna viu o movimento, a Madonna falou, isso aqui tem um potencial enorme, e ela levou para o palco e ela fez a música. Mas assim, ninguém pediu.

Ninguém pediu. Ah, você tem que agradecer a Madonna que ela popularizou a Ballroom. Querida, alguém pediu. Quem disse que a gente queria globalizar a Ballroom?

Aconteceu porque ela fez? Ah, tá. Eu tenho que agradecê-la porque, entendeu? Então, assim, a Madonna visualizou a potência do movimento, visualizou a potência da cultura e levou pro palco. Então, assim, a gente não tem que agradecer nada. Quem continua mantendo a cultura Boron viva somos nós. Ela fez o discozinho dela, o videozinho dela, o showzinho dela.

E ela não voltou a falar do Ballroom depois disso. Quer dizer, agora nos shows, agora no Brasil, nessa turnê nova, né? Que ela leva as placas, ela faz ali um momento de Ballroom. Mas assim, nós continuamos mantendo a cultura viva. Então, a gente não deve nada pra Madonna. Por favor, sabe?

Então, a Ballroom inspirou e continua inspirando tudo que a gente conhece de cultura pop hoje no mundo. E a gente precisa falar e reforçar. É uma cultura preta, LGBT, especialmente trans. Então, a gente precisa nomear isso pra que isso não seja nunca apagado. Porque essa é a história da Ballroom. Caramba, é algo muito...

Eu conheço muito pouco da cultura Maroon, e é muito do que vi na TV, vi em séries, assisti Pose, falo um pouquinho, mas que não falava dessa toda estruturação. Me fala um pouquinho da diferença entre Icon, Hiperatriz, Jurado.

E tem outros títulos também, né? Sim, sim. Tem os títulos internos da casa e tem os títulos da cultura, né? Então, por exemplo, os títulos internos da casa. A gente tem imperatriz, né? Que é a pessoa logo abaixo da mother, do father, né? Da mãe ou do pai. Então, é como se fosse assim, na ausência da mãe ou do pai, é a imperatriz ou imperador que responde, né? E aí, logo depois do imperador, a gente tem a princess ou prince, né? Princesa ou príncipe.

Que é essa pessoa que, na ausência da Mother, na ausência da Imperatriz, é essa pessoa que responde. Então, esses são os principais cargos, os principais títulos dentro da casa. E aí, na cultura, na comunidade Ballroom, o ícone mais alto é o Icon.

ícone, essa pessoa, ela construiu a cena. Então, assim, essa pessoa foi responsável por moldar a Ballroom como nós a conhecemos. Então, esse era um título que ele era restrito para as pessoas precursoras da cultura Ballroom, especialmente lá nos Estados Unidos, especialmente ali nos anos 60, 70, 80, né? Então, era somente para essas pessoas.

Só que, conforme o tempo foi passando e foi abrindo cenas da cultura Boulro em vários países diferentes, essas mesmas pessoas que já foram reconhecidas Icons nos Estados Unidos compreenderam a necessidade de nomear Icons.

nesses outros países, para as pessoas terem uma referência para quem olhar dentro daquele território, né, então agora em 2025 foram nomeados os icons da cena do Brasil, né, então foi um conjunto, acho que foi umas 10 pessoas, 11 pessoas que foram nomeadas icons aqui no Brasil, então agora nós já temos icons aqui no Brasil também, né, isso é muito importante para a cena e para a cultura boron.

E aí, logo depois do Icon, vem o Legendary, a lenda, uma pessoa que os feitos que ela fez, as performances que ela fez, a casa que ela abriu, as casas que ela ajudou a abrir, essa pessoa tem feitos grandiosos dentro da cultura.

Então, é a lenda, o Legendary. E aí, quem dá esse título são os icons. Então, esse grupo de pioneiros, de precursores, de pessoas que ajudaram a construir a cena e a cultura como nós a conhecemos, é que vai nomear os Legendary, as pessoas que são as lendas da cultura.

E aí depois do Legendary vem Star, né? Estrela. Que é uma pessoa que tá se destacando pelas suas aparições, pelas suas performances, pela sua postura, pelos prêmios que tá ganhando, né? Pelos Grand Prizes que tá ganhando. Pela forma como ela tem se movimentado na cena. Ela está brilhando, então ela é uma Star. Então geralmente começa assim, né? Star, Legendary, até ser reconhecido, né? Ser reconhecida como Icon.

É muito lindo, né? Tem uma estrutura, né? As pessoas acham que cultura preta é bagunça. Não, pelo contrário, ela é bem organizada, entendeu? E tem gente que julga muito o fato de Ai, mãe, pai, a família é tradicional. Não, gente, a Baurum é o oposto da família tradicional.

Porque a família tradicional expulsou essas pessoas de suas casas. Por isso que elas criaram outras casas. Inclusive, esse nome casa é porque no começo mesmo da cultura ballroom, era uma casa física, né? As pessoas eram expulsas de casa. Então, essa mother, esse father, essa liderança, ela realmente tirava a pessoa da rua e levava pra dentro da casa dela.

onde ela ensinava o seu ofício. Então, ela ensinava a fazer maquiagem, ensinava a costurar, ensinava a fazer o que quer que ela mesma fazia. E aí, essa casa virava a casa da fulana, a casa da Beltrana. Então, a Crystal Labeyja abriu a casa dela e o nome da casa dela era House of Labeyja.

E era uma casa mesmo que acolhia as pessoas. Então, hoje a casa já não é mais uma casa física, mas essa casa imaterial e simbólica que reúne essas pessoas, que a família expulsou, que a sociedade violenta, mas que dentro dessa casa essas pessoas são acolhidas, são respeitadas, são valorizadas, né? E aqui não é romantizando também, porque a Bauron tem muitos problemas também, mas assim...

A casa, a ballroom, é um espaço, sim, de acolhimento, de valorização, de exaltação de pessoas e corpos que são extremamente violentados a todo momento, especialmente no Brasil.

E aqui no Brasil existiram casas que foram dessa forma de acolhimento. Porque eu sei que, por exemplo, a gente pode pensar na Brandali, que foi uma mulher trans aqui em São Paulo, que tinha uma casa de acolhimento. Durante a pandemia da AIDS, do HIV, a casa dela se tornou referência, ela tinha uma parceria com a Secretaria de Saúde, em que as pessoas que estavam doentes iam para essa casa para serem tratadas.

E se existiu alguma casa dessa forma, assim, na cultura barulhona aqui em São... Não em São Paulo, né? Mas no Brasil. Com certeza existiram várias casas que faziam isso. Mas, sim, eu não vou saber te nomear essas casas, né? Mas falando da minha própria experiência, né? A Kona, lá em Brasília, ela tinha a casa dela. Ela morava sozinha.

mas ela estava sempre recebendo as filhas, os filhos, ex-filhes que precisavam de acolhimento imediato. Então, alguns deles brigavam com os pais ou com os companheiros, enfim, precisavam de um lugar para ficar, ficavam na casa da Kona. Então, assim, por mais que essa não seja mais uma prática tão comum, é mais comum do que a gente imagina, né? Porque realmente a liderança...

dentro da cultura ballroom, não é uma liderança de close, é uma liderança de trabalho, é uma liderança de responsabilidade, de saber que aquelas pessoas confiam em você, e muitas vezes confiam a própria vida em você. Nós na Hands Up, a gente recebia, acolhia muitas pessoas que estavam entrando em transição, e elas não sabiam como era esse processo de transição, elas não sabiam como era o processo de mudança de nome. Então, a Kona, por já ter passado por tudo isso, por ser uma mulher trans,

Ela mesma orientava as pessoas o caminho que ela fez, né? E isso faz toda a diferença, porque você se identifica e você consegue acompanhar, você consegue fazer os mesmos passos que aquela pessoa fez antes de você. Então, é literalmente você ver o seu legado sendo deixado em vida e sendo repassado, sabe? E hoje a Kona, ela tem um relacionamento transcentrado, né? Ela se relaciona com um homem trans e eles têm um filho hoje.

Uma filha, na verdade, né? Então, assim, imagine o nível de preconceito, né? O nível de transfobia que esse casal passou, né? E todo o sistema hospitalar, enfim. Mas são pessoas que têm a vivência, que têm mesmo a experiência pra passar e pra cuidar. Então...

Ser uma liderança na ballroom não é close, não é um título imaginário, sabe? Tem gente que fica assim, eu quero tanto título, eu quero tanto título, e chega na hora do título, e aí, querida? Lembra que você tem um título, você precisa trabalhar agora, você precisa se responsabilizar pelas pessoas, né, que estão confiando em você.

que te parabenizaram quando você ganhou esse título. Então, eu fui imperatriz da House of Zion, fui imperatriz da House of Hinds, e de fato é uma responsabilidade enorme, porque são pessoas que já são muito, muito vulneráveis e são vulnerabilizadas em diversos aspectos da vida em sociedade e da vida privada também.

Então, assim, é muito comum a gente receber diversos relatos de diversos tipos de violência física e simbólica que essas pessoas passam e que a gente, podendo, né, precisa dar esse suporte. Então, são pessoas vulnerabilizadas ajudando pessoas vulnerabilizadas, né? E isso ao mesmo tempo que a nossa força também é a nossa fraqueza, porque às vezes a gente não tem condições mesmo.

de ajudar e a gente precisa ajudar. Então, a gente está sempre se mobilizando e fazendo vaquinha. Quem pode acolher fulano na casa? E está vindo alguém para fazer parte da BOLTAL? E alguém foi expulso de casa? Então, a gente está sempre lidando com essas questões que são da vida prática.

Não é dança, não é close, é questões da vida prática. A pessoa foi expulsa de casa com a roupa do corpo, quem pode receber hoje, entendeu? É esse tipo de coisa que a gente tem que lidar. Então, quando as pessoas olham, ah, ballroom, close, beleza, feminilidade, sensualidade, as pessoas esquecem que são corpos pretos e trans que estão fazendo esse close, essa sensualidade. Então, na verdade, e aqui de novo uso essa palavra.

É essa tecnologia de sobrevivência, apesar de toda dor, apesar de toda violência, uma sobrevivência com beleza, uma sobrevivência com força, com presença, com confiança. Acho que a coisa mais importante que a Baulon me ensinou, além de o que é ser mulher.

Ser mulher é ter útero? Ser mulher é ter peito? O que é ser mulher? Porque eu vi na Ballroom mulheres que não tinham útero e que eram muito mais mulheres do que eu. E que eram muito mais femininas do que eu. Então, eu sei o que é ser mulher. Então, além disso, a segunda coisa que a Ballroom me ensinou e que eu levo pra minha vida é confiança.

É você pisar no chão e você entrar no espaço como se você fosse a dona daquele espaço. Sabe? Porque assim, quem te disse que eu não sou? Por que você acha que eu não sou a dona desse espaço? Eu sou a dona de tudo isso aqui. Meu povo é o dono de tudo isso aqui. Meu povo construiu tudo isso aqui. Então, eu sou a dona de tudo isso aqui. Sabe? Então, o que é ser mulher? E essa confiança em quem você é? No seu poder, na sua ancestralidade?

Em tudo que você estudou? Em tudo que você aprendeu? Acho que essas são as duas principais lições que a Bó não me deixou.

Caramba, é muito lindo isso. Assim, se a gente pensar, é lindo, mas também necessário, também para existir esse movimento, porque existem pessoas sofrendo.

E nossa cabeça vai a milhão. Você estava falando e minha cabeça aqui computando um monte de coisa. A gente está vendo o crescimento da cultura Barun aqui no Brasil. Como você vê esse crescimento? Está chegando em espaços que não chegavam. Mas, em contrapartida, a gente vê também que está sendo muito frequentado por pessoas mais brancas. E mais brancas, acho que isso nem existe, mas enfim.

por pessoas brancas e que elas, às vezes, estão tomando esse espaço, né? Acho que é a mesma coisa que a gente vê que tá acontecendo com o funk, que é uma cultura preta, mas aí, tipo, vai sendo consumida. Parece que o branco fica com inveja. Tipo, nossa, não criei isso. Eu vou pegar pra mim.

A cultura baulon está chegando em vários espaços, em várias políticas públicas, inclusive. Isso é muito bom, isso é muito positivo, mas toda vez que uma cultura se expande e chega em novos espaços e alcança novos espaços, isso também é perigoso, porque deixa a cultura exposta a pessoas que não têm tão boa vontade assim.

Então, às vezes a pessoa se aproxima só pra ver como é que tá sendo feita a coisa, pra poder reproduzir a coisa com um sentido comercial, com uma outra proposta que às vezes é totalmente oposta à proposta original, sabe?

Então, toda vez que fala, está se expandindo, está crescendo, está chegando em todos os lugares, eu falo, é bom, mas não é bom. É a mesma coisa da história do Vogue e da Madonna. A Madonna globalizou a cultura ballroom. E isso pode ser bom, mas pode também não ser bom, porque hoje a gente fala Vogue e as pessoas pensam na Madonna, sendo que o Vogue é a dança da cultura ballroom, que é uma cultura preta e LGBT. Então, a gente precisa conter o nosso entusiasmo quando a gente fala que algo está crescendo muito.

Porque isso também dá margem para pessoas que não conhecem profundamente, que não se preocuparam em conhecer de verdade a cultura, para elas se apropriarem só porque acham que sabem porque ler um texto na internet, porque viu um vídeo, porque foi numa bol. Foi em uma bol e já está abrindo casa, sabe? Um caso que aconteceu, que a gente acompanhou de perto alguns anos atrás.

Foi um influencer, assim, muito famoso, que eu não vou falar o nome. E aí, pro aniversário dele, ele achou de bom tom fazer a festa do aniversário dele no tema House of Fulano. E aí, na divulgação da festa dele, ele achou de bom tom falar Icon Fulano Fader Não Sei Quem, Não Sei Quem.

E aí a gente falou assim, meu querido, você sabe o que precisa para uma pessoa ser considerada icon? Você sabe o que um father de uma house faz? E essa sua house aí, acabou a sua festa, você vai fazer o que com ela?

Ai, eu tô querendo ajudar a cultura ballroom. E vocês são amargos comigo. Vocês estão me tratando desse jeito quando eu sou um aliado da causa. Então, assim, foi esse tipo de coisa que a gente teve que ouvir, sabe? Então, assim, ah, tá se ampliando, tá se expandindo, tá chegando em vários lugares. Mas também tá chegando em lugares que não era pra chegar.

Então, assim, toda vez que eu ouço, ah, tá chegando em vários lugares, tá ampliando, tá se expandindo, isso é bom, isso não é. Isso é positivo, isso não é. Ao mesmo tempo, é complexo, né? É muito complexo. Então, tem muita gente, assim, com 20 anos, 20 e poucos anos, abrindo house. Sendo que, assim, a pessoa não teve tempo ainda nem de ter uma convivência dentro de uma house. Ela ainda não aprendeu nem a ser filha e já quer ser mãe, sabe? Então, é um perigo também.

Não, mas eu sei tudo sobre a cultura... Você sabe tudo sobre a cultura ballroom no alto dos seus 20 anos. Então, tá bom. Sabe? Então, assim, é isso. São muitas delicadezas, são muitas sutilezas.

E como a gente está falando de povos, de pessoas extremamente vulnerabilizadas, a gente tem que ter muito cuidado. Porque, assim, uma pessoa na casa dos seus 20 anos, que precisa se responsabilizar por outras pessoas que, como ela, são pretas, são LGBTs, foram expulsas de casa...

precisam de acolhimento permanente, precisam de acompanhamento permanente, essa pessoa não vai ter estrutura psicológica e às vezes nem física para fazer esse acompanhamento. Às vezes a pessoa mora com os pais, aí chega alguém batendo na porta dela, minha mãe acabou de me expulsar de casa, posso ficar aqui? Então você não tem essa autonomia porque a casa não é sua.

Então, é muito complicado, porque, assim, são muitas questões muito delicadas que envolvem pessoas extremamente vulnerabilizadas. E aí, se uma pessoa que não compreende o tamanho da responsabilidade chega pelo close, ela não vai ficar.

Se você tá vindo pelo close, a ballroom não é o seu lugar. Entendeu? Eu me aproximei da ballroom pela dança. Mas eu não fiquei na ballroom por causa da dança. Até porque, especialmente no período aqui em São Paulo, eu acho que a coisa que eu menos fazia era dançar.

Eu tava na produção, eu tava na logística, eu tava acompanhando as pessoas, eu tava me responsabilizando pelas pessoas. Então, assim, os raros e poucos momentos que eu dançava eram incríveis. Era uma diversão, era close, era maravilhoso. Mas, assim, isso era tipo 10% do que eu fazia na ballroom. Então, assim, quem vem pelo close, vem, mas não fica.

Então, assim, se você tá vindo pelo close, não venha. Assiste, dança, vai na aula, faz aula. Mas, assim, a ballroom não é academia de dança. House não é grupo de dança, sabe? Não venha por isso. Isso é uma parte do que a cultura é. A cultura é muito mais.

Quem vê de fora acha que é só... É o que você falou, né? Estou close, é só, tipo, ah, eu sou bela, eu sou linda, mas tem todo esse contexto, né? O buraco é muito mais embaixo. E é bonito que exista essa cultura, que exista esse acolhimento nesse país que mata, mata, mata, mata pessoas LGBTs.

Então, existir esse acolhimento, existir pessoas que vão estar ali. Aconteceu algo com você? Aqui a gente vai conseguir te direcionar, a gente vai conseguir. Está sem casa? Vamos achar um jeito, mas você não vai ficar na rua. Está sem comer? Vamos arranjar comida. Está sem roupa? Vamos também juntar aqui. Ainda bem que existe isso, porque eu acho que...

principalmente pessoas trans são expulsas de casa, muitas acabam na prostituição porque é a única escolha que elas têm. Quer dizer, não é uma escolha, né? É a única opção que é dada. Porque ainda bem que hoje a gente está vendo mais pessoas trans ocupando mais espaços. Eu tive o prazer de ter uma professora trans no teatro. Tenho conhecido pessoas trans que estão em vários cargos diferentes.

Mas pensar, tipo, que 15 anos atrás, você não via pessoas trans ocupando os espaços que hoje a galera tá conseguindo ocupar e que ocupe cada vez mais. Que ainda tá pouco. Tá muito pouco. A gente tem que ocupar, ocupar, ocupar. Porque a gente precisa, acho que precisa ocupar esses espaços pra que as pessoas...

Eu acho que para parar de pensar, tipo, a pessoa trans é uma pessoa estranha, ou alguma pessoa divergente, não é normal. Ah, vai se f***, não é normal. Não é normal se for ver. Aí a pessoa vai falar da biologia. Ah, querida.

Vai estudar. É isso. É isso. A gente precisa ver mais pessoas trans mesmo, em outros espaços, né? Porque, assim, a própria imprensa só retrata de uma determinada maneira, né? Então, assim, a cultura desenvolvida por pessoas trans, ah, é só o close, é só a diversão, é só não sei o quê. Não, é a diversão apesar de tudo, todas e todes, entendeu?

O carnaval é a festa popular do povo, da forma como a conhecemos hoje, do povo preto, apesar de tudo, todas e todes, entendeu? Porque, assim, se a gente for parar para analisar o contexto de surgimento, tanto da cultura ballroom, do breaking, do kuduro, do dancehall, do carnaval, a gente vê o quanto que é pesado a história e o contexto de surgimento dessas culturas e dessas danças, né?

Então, quando a gente vê hoje mais pessoas trans ocupando esses espaços, a gente olha para trás e a gente vê o percurso que foi feito. A gente vê um rio de sangue. A gente vê um rio de sangue, entendeu? Então, assim, mas já avançaram muito. Avançamos apesar de... Ainda temos muito mais do que avançar, entendeu? Então, com certeza, avançamos.

Em comparação com o passado. Mas ainda há muito mais do que avançado. Sim, porque se a gente tivesse avançado tanto assim, não teria tantas pessoas trans morrendo. Exatamente. A cada 19 horas tem uma pessoa trans sendo assassinada. E aí a pessoa, não, a gente já alcançou muita coisa. Nada. A gente ainda tem muita coisa pra alcançar.

para a gente chegar em um momento e que a gente possa falar de, tipo, nossa, realmente a gente avançou, não somos o país que mais mata LGBTs no mundo e realmente estamos trilhando um bom caminho, mas a gente ainda está rastejando, ainda falta muita coisa.

E agora mudando, nossa, vai mudar bastante o assunto, que eu acho que na nossa conversa já falou um pouquinho sobre, mas agora vai ser uma pergunta mais direcionada. De quais são os maiores perrengues de uma artista independente no Brasil, em São Paulo? Vamos falar de perrengue. Eu acredito que é a administração do tempo.

Assim, vamos falar, ai, é muito abstrato, então vamos explicar. Se eu acordo seis horas da manhã e eu vou dormir meia-noite...

E 90% desse tempo eu passei na frente de um computador, escrevendo edital, escrevendo projeto, preenchendo proposta, conversando com programadores, curadores, contratantes, emitindo nota fiscal, pagando pessoas, comprando passagem, emitindo passagem, mandando e-mail, conversando com possíveis pessoas que eu vou contratar para os meus eventos.

Se eu acordei às seis da manhã, eu fui dormir meia-noite e 90% do meu tempo eu passei fazendo isso. E 90% da minha semana eu passei fazendo isso. E só 10% da minha semana eu passei dançando, eu passei criando. O meu maior perrengue é conseguir administrar o meu tempo para eu conseguir, além de toda a parte burocrática, ser artista.

Porque o sonho de todo artista é viver de arte. Só que ninguém te conta que para você viver de arte, você precisa saber muito mais do que somente a sua própria arte. Você precisa saber falar sobre a sua arte. Você precisa saber escrever sobre a sua arte. Você precisa saber vender a sua arte. Você precisa saber apresentar a sua arte. Você precisa saber prestar contas da sua arte. Você precisa saber o que é um CNPJ.

Qual que é a diferença de um MEI e de um MEI? Como que faz declaração de imposto de renda de MEI? É a declaração de imposto de renda que chama? Como que eu faço? Qual o site que eu acesso? Você já pagou o seu boleto do MEI? Porque se você não pagar, você sabe que você não tem direito nenhum a nada. Então, assim, são muitas questões. E aí, às vezes, a gente fica deslumbrado e fala, ai, fechei uma publicidade, ganhei 10 mil reais. Todo mês vai ser assim. Spoiler, não vai. Não vai.

E esses 10 mil reais, você vai ver que ele não vai durar muito também se você tiver um empreendimento cultural, como no meu caso é o Passinhos do Brasil, que você precisa contratar pessoas, você precisa pagar pessoas. Às vezes a sua proposta custa 15 mil reais. Desses 15 mil reais, você vai ficar com 800.

Aí as pessoas olham o dinheiro entrando na sua conta e falam Caraca, 15 mil reais, tá rica, hein? Aí você paga todo mundo, paga fornecedor, paga artista, paga passagem, paga cachê, paga não sei o que, você fica com 800 reais.

E aí você vai ter que fazer o corre de novo pra outra proposta de 15 mil reais pra você ficar com 800 reais. Então, assim, esse corre invisível dos 90% do tempo que você fica sentado na frente do computador, pra mim, esse é o maior perrengue. Porque o tempo que eu tô na frente do computador, eu não tô criando, eu não tô dançando, eu não tô escrevendo, eu não tô desenvolvendo, eu tô escrevendo, desenvolvendo propostas e etc. Mas, assim, eu não tô necessariamente envolvida diretamente na minha arte.

né, então assim eu me considero uma arte educadora eu me considero uma empreendedora cultural uma produtora cultural, a idealizadora de um projeto que com certeza tá revolucionando a cena do funk aqui em São Paulo mas eu sinto falta de dançar mais sabe

então assim, e se eu passo 90% do meu tempo sentada numa cadeira o quadril já reclamo o joelho já não funciona do mesmo jeito eu tenho que vir aqui pro podcast e colocar o banquinho porque chega uma hora que o joelho vai doer sabe, então assim eu acho que administrar o tempo pra conseguir ter um equilíbrio maior entre esse tempo da burocrata e vista como a minha amiga Ariane Sanches fala

e esse tempo de você ser artista, acho que esse é o maior perrengue que todo artista independente passa. Porque leva tempo você aprender a fazer todas essas ferramentas para você dominar todas essas ferramentas da burocracia. E esse tempo que você leva para dominar a burocracia, você está dominando a burocracia, você não está sendo artista.

né, então assim eu sou muito feliz fazendo o que eu faço eu amo fazer o que eu faço, eu amo o Pacientes do Brasil eu amo os meus outros projetos, minhas outras pesquisas, e eu amo e me dedico profundamente a isso, eu passo mesmo 24 horas do meu dia dedicada aos meus projetos, a escrever meus projetos a fazer a parte de prestação de conta, de nota fiscal, de tudo mais, e eu amo a parte que eu vou dançar, eu amo tudo igualmente mas eu gostaria de ter de repente uma equipe

que pudesse lidar com essas outras questões enquanto eu cuido da criação, da idealização, do cênico, do palco, da apresentação, da performance, da aula. Então, acho que o perrengue do artista independente é ser reconhecido e ser visualizado como essa pessoa que 10% do tempo está no palco e os outros 90% precisa também ser remunerado.

E precisa ser reconhecido, e precisa ser valorizado, e precisa ser estimulado e incentivado. Porque é essa parte do trabalho que ninguém quer fazer. Essa é a parte do trabalho que ninguém quer fazer. Então, assim, eu tenho uma frase que eu digo assim, todo mundo quer trabalhar, mas ninguém quer ter trabalho. Então, assim, a pessoa posta, manda jobs. Ô, eu tô vendo que você tá fazendo um monte de coisa, me contrata.

Minha querida, oi? Tá boa, bom dia, sabe? Você chegou aqui como? Porque eu sei o percurso que eu fiz pra hoje estar em todos os lugares, como você tá falando que eu tô, sabe? Agora você chega em mim e fala, ei, me contrata. É simples assim. Porque assim, eu não fiz isso com ninguém. Eu não cheguei, ei, ei, ei. Não, você tá bombando, né? Me contrata.

Não é assim que se estabelece uma relação profissional, nem uma relação de amizade, nem uma relação de nada, né? Então, assim, essa parte da burocracia precisa ser dominada e ela leva tempo. E tem poucas pessoas que estão dispostas a compartilhar esses saberes com você. Sim. Então, assim, eu basicamente tive que aprender fazendo. Eu basicamente tive que aprender a trocar o pneu com o carro andando.

E quando a gente fala de prestação de contas, de emissão de nota fiscal, de abrir um CNPJ, de abrir um MEI e etc., você tem muitos meandros ali que ninguém te explica e que você aprende errando. E às vezes são erros que custam muito caro. E eu não estou falando só de dinheiro.

tô falando de reputação, tô falando de amizades, tô falando de contatos profissionais que podem ser perdidos numa dessa. Então, assim, quando a gente fala de profissionalização, quando eu falo pra galera o que é um release, o que é um mini bill, como fazer um portfólio, você tem fotos profissionais? Sabe o seu nomezinho no WhatsApp? Não dá pra ser Deus no comando.

Porque se eu achar você num grupo e eu for tentar salvar o seu contato, Deus no comando não pode ser seu nome. Eu preciso que tenha o seu nome no WhatsApp. Eu preciso que no WhatsApp tenha a sua rede social. Sabe aquela frase, se Deus é por nós, quem será contra nós? Mano, coloca ali o seu arroba do Instagram, coloca ali o seu YouTube, coloca ali suas redes sociais, coloca ali o seu e-mail, coloca ali uma forma de contactar você, se eu não conseguir falar com você pelo WhatsApp. Então, assim, a gente precisa profissionalizar tudo.

Eu quero ser um artista profissional, eu sou um artista independente. Você precisa saber o meu nome, você precisa saber o meu nome artístico, você precisa saber que eu sou um artista. Então, o principal perrengue e a principal habilidade que o artista independente precisa saber lidar com ela é se eu tiver que lidar com a burocracia, eu tô pronto. Porque, assim, ser um artista independente não é ficar postando agenda aberta. Manda jobs, me contrata. Não vai cair do céu.

Não mesmo. Entendeu. E é muito louco isso. Muitas coisas que você falou, primeiro o lance da pessoa comentar de manda jobs, não sei o quê. Quando a gente começou o podcast, muita gente aparece, tipo, nossa, você podia me entrevistar, né? Nossa, nem chama, não sei o quê. Nossa, não fui eu lá que escrevi o projeto, né? Não foi. Vai cair no colo, assim. Nossa, é muito chato. Eu, nossa, o dedo para bloquear.

Tinha coça. Coça. E às vezes não só coça não, bloqueio, mas certeiro. Somente se é alguém que eu não gosto, assim, da minha vida, assim, que foi, e fala, nossa, tudo. Fala, nem gosto de você. Me vê, não. É isso. E descobri que dá para bloquear no YouTube.

Perfeito. Perfeito. E o lance também das políticas públicas, que não chega nas pessoas que ela pode escrever um projeto. E às vezes, quando chega, às vezes você vai em algum curso, em alguma oficina que é de escrita de projeto, e aí você vai e a pessoa só fala o currículo dela, só, ah, eu sou incrível porque eu fiz tal projeto e tal.

E não fala como que você escreve um projeto, não fala sobre prestação de contas, não fala sobre nada, só fala sobre a vida dela e você fica assim, e por que eu vim aqui?

E aí eu tenho essa vontade agora que eu sinto em muitas e muitas aspas, um pouquinho sobre políticas públicas, sobre os digitais, de ter, de fazer em algum momento da minha vida, de fazer um curso, uma oficina para chegar na quebrada, para chegar nesses coletivos que são os coletivos. A gente vê um monte de coletivos incríveis que às vezes não têm força para continuar sozinhos, porque é isso, gente que é pobre, periférico.

que é artista independente, a gente vai ter que ter 30 empregos para conseguir sustentar nossa arte. E aí a gente podia chegar nesse pessoal e falar que existe política pública para você conseguir viver, pelo menos com o mínimo, mas viver com a sua arte.

que não chega nas pessoas, às vezes você fala, tipo, ah, eu estou com um projeto com a edital, mas o que é isso? E aí você explica, isso existe? Sim, existe. E é nosso direito. Então eu quero chegar nas pessoas com isso, e acho muito ruim que esse acesso fica para poucas pessoas. E vejo muita gente falando.

de que, tipo, nossa, eu queria escrever um projeto, mas não sei, quando eu vou em algum curso parece que a pessoa fala só algumas coisas e que deixa algumas coisas escondidas porque só ela quer ter acesso. E aí você fica assim, não, tipo, eu quero que todo mundo tenha acesso, vamos usar essas políticas públicas, bora usar. E quanto mais usar, na teoria, mais vai ter.

E de não pensar, tipo, ah, estou concorrendo com a pessoa. Não, vamos pegar a mão das pessoas e vamos falar, vamos juntos, vamos conseguir usar essa política pública. Parece que tem pouca gente que quer ver o outro crescendo também. Nossa, vai morrer se ver o outro crescendo? Sabe.

E é muito legal quando você vê pessoas que você conhece também conquistando políticas públicas, também com edital, que você fica, que legal, a pessoa também está conseguindo, a pessoa também está fazendo. E de você chegar nessa pessoa e também pegar dicas com ela, de você fazer essas trocas. E parece que ninguém quer fazer troca, principalmente em São Paulo, onde a gente está, que todo mundo só quer pensar no próprio ego, na própria cabeça, de tipo, eu sou artista, eu sou foda.

Mas tem outros artistas aí que, como você falou, né? Quando você estava falando sobre os artistas de funk, que estão conquistando o mundo, mas que não estão vendo quem estava junto, né? Que são os dançarinos. E aí, tipo, que quer estar lá, quer o status. E a gente, tipo, não, eu cheguei aqui sozinho. Não quebrou nada. Ninguém chega em lugar nenhum sozinho. Ninguém chega sozinho. Parece que ninguém pensa que, tipo, eu comecei. Eu também comecei sem nada.

Também fui a pessoa que estava ali penando. Por que eu não vou ajudar outra pessoa, tipo...

A seguir também, achar um caminho. Isso me dá uma raiva. Eu até me exaltei aqui. Não, mas é revoltante mesmo, né? As pessoas não compartilham conhecimento, sendo que não vai te custar nada, sabe? Especialmente falando de São Paulo, tem espaço para todo mundo. Porque tem política pública, tem muita política pública e ainda tem iniciativas privadas. Por exemplo, o SESC, o Sistema S, no geral.

Sabe, SESI, SENAT, SENAC, sabe, tem muitas possibilidades, tem banco, tem instituições, né, institutos de bancos, de instituições financeiras, então assim, tem um milhão de possibilidades aqui, então, você ensinar uma pessoa a escrever um projeto, você não vai estar perdendo absolutamente nada.

sabe, e essa é a questão todo mundo quer ser igual, todo mundo quer ganhar dinheiro, todo mundo quer fazer a trend todo mundo quer tá com não sei quantos mil seguidores, todo mundo quer fazer tudo igual e aí no final quer ser tratado diferente, quer ser tratado melhor, quer ser tratado como exclusivo quer ser tratado como único

Se você tá fazendo tudo exatamente igual, como é que você quer ser tratada diferente, sabe? Então, assim, se você tem esse conhecimento e pode compartilhar, fazer com que outras pessoas mostrem seus trabalhos, isso não vai diminuir em nada o seu próprio mérito. Até porque se a sua iniciativa é realmente única como você acha que ela é, ela não vai perder espaço. Não faz sentido. Com certeza, né?

E a gente está chegando, se encaminhando para o final. Antes da pergunta final, tem a pergunta de por que dançar e pesquisar sobre dança em 2026? Olha, complexa essa pergunta. Bom, respondendo a partir da minha própria perspectiva.

As danças e as culturas negras, elas sempre foram invisibilizadas, rechaçadas, rejeitadas, discriminadas. Então, na minha opinião, e isso na verdade não é uma opinião, nós precisamos resgatar os saberes, fazeres, a ancestralidade, as tecnologias ancestrais dos corpos e das corporalidades negras.

Então tudo o que as pessoas pretas africanas do continente ou da diáspora criaram como potência de dança, como dança, como movimento corporal, tudo isso tem um ensinamento e um conhecimento e uma potência de produção de conhecimento enormes.

Então, a partir de uma perspectiva, de uma dança, de uma potência de movimento, a gente consegue criar muita coisa, né? Porque, assim, as danças e as culturas negras são muito complexas. Então, eu costumo usar a alegoria do ralo no cabelo, do cabelo no ralo, sabe? Quando você vai puxando assim...

E não para de vir, não para de vir. Eu vejo a pesquisa em dança, especialmente nas danças negras, como esse cabelo no ralo. Que assim, você puxa um movimento, aí você descobre uma dança, você descobre uma cultura, você descobre uma ancestralidade, você vai puxando, vai puxando, vai puxando. E aí quando você tá puxando, você descobre uma coisa hoje que se inspirou naquilo que tava lá o mais distante, cronologicamente falando. Então, por que pesquisar dança em 2026?

Porque em 2026 parece que não existe nada mais novo. Tudo já foi inventado, tudo já foi criado. Mas se tudo já foi inventado, se tudo já foi criado, vamos estudar mais a fundo, então, as coisas? Sabe, porque assim, eu não acredito que tudo já foi criado, que tudo já foi inventado. Eu acredito que o ser humano tem muita potência ainda para criar muitas coisas.

mas eu acredito em Sankofa, que a gente precisa olhar para trás, para ver o que a gente deixou lá, o que a gente deixou passar, para que a gente consiga construir um futuro em que a tecnologia não seja usada só para nos destruir, em que a tecnologia seja usada também como ferramenta de cura e ferramenta de potencializar os nossos corpos e quem a gente é nesse mundo, nessa sociedade, nessa cultura que a gente está inserido.

Então, quando eu estudo, quando eu pesquiso a dança, eu procuro saber o máximo de informações possíveis. Se é partir do movimento para o contexto, ou se é partir do contexto para o movimento, eles vão se retroalimentar. Então, é muito importante que na pesquisa em danças e culturas negras, a gente compreenda o contexto, o território, os personagens, as referências, os precursores, as inspirações.

Porque, assim, por exemplo, no caso do passinho, o frevo é uma inspiração do passinho foda. Então, eu vou estudar frevo também, né? Então, se o makulele é uma inspiração da musicalidade do funk, eu vou estudar makulele também. Então, assim, eu não vou encerrar minha pesquisa em dança na dança específica que eu tô dançando. Eu vou buscar tudo o que ronda essa periferia dessa dança que eu estudo.

E aí tudo que estudo, tudo que ronda, eu vou estudar também. O contexto, os precursores, as referências. Então, assim, é uma teia.

É um esquema de pirâmide, sabe? Você começa por um, que cria dois, que cria três, cria cinco, sabe? E vai crescendo. E você nunca para de estudar. E isso é maravilhoso. Tem pessoas que falam assim, não, eu já estudei a história da cultura hip hop. Eu sei tudo da cultura hip hop. Aí você fala, minha querida, uau! Parabéns! Nossa, você tá de parabéns!

Não tem como você estudar tudo sobre alguma coisa. Nunca? Não mesmo. Nunca? E às vezes você perguntar pra pessoa alguma coisa específica, a pessoa vai falar, não, mas o que é isso? Entendeu? Então, assim, você pega a pessoa no flagra, no pulo o tempo inteiro. Entendeu? Então, por que estudar? Por que fazer pesquisa em dança em 2026? Porque ainda tem muito a ser criado, a ser inventado, a ser desenvolvido. Mas, com tudo que a gente já criou, já inventou, já desenvolveu, a gente tem muito que estudar sobre cada uma das danças que a gente dança hoje.

babadeira e agora sim a gente está chegando ao fim choros e mais choros nossa, muito obrigada por ter aceitado o convite nossa, foi muito bom quando você aceitou, eu fiz

É gostoso, porque eu lembro com muito carinho das aulas que tive contigo. E a pergunta final é qual o conselho que você daria, que você gostaria de ter ouvido? Lá no início da sua carreira, lá no início, quando você começou a se interessar por dança, o que você daria para a pessoa que vai começar? Ali, a pessoa que está assistindo e está querendo se profissionalizar na dança.

Bom, eu vou falar o que eu gostaria de ter ouvido lá em 2015. Você pode não ser a pessoa mais habilidosa da sala. Você pode não ser o melhor dançarino da batalha. Você pode não ser a melhor dançarina da companhia. Mas isso não faz de você um artista menor.

Isso nunca deveria ser um motivo para você se esconder lá no fundo da sala, para você não batalhar, para você não aparecer, para você não participar da audição daquele espetáculo que você gostaria tanto de participar. Você pode ter uma vida paralela da vida de artista. Você é CLT, você trabalha em uma coisa totalmente nada a ver com a arte que você pratica. Ainda assim, você é um artista.

Você pode só estar dando aula. Faz muito tempo que você não pisou no palco, que você não fez uma batalha, que você não foi num evento. Ainda assim, você é um artista. Porque ser artista não é o que as pessoas pensam que é. Ser artista é um processo seu, com a arte que você pratica, com as pessoas que você escolhe compartilhar essa arte.

Então, se você se sente artista, se você já se entendeu como artista, isso nunca mais vai deixar de ser quem você é. Todo mundo fala o quanto que é difícil ser artista, mas ninguém fala o quanto que é difícil para o artista não ser artista. Então, seja artista o máximo de tempo que você conseguir.

Se no final do seu dia sobrou 10 minutos para você ser artista, seja artista. Porque, na verdade, você não foi artista por 10 minutos. Você foi artista 24 horas do seu dia, mas por 10 minutos você se dedicou e se entregou para a sua arte, que estava lá te esperando dentro de você o tempo todo. Então, não pense que você não é artista, que você não merece viver da sua arte, porque você ainda não conquistou tudo aquilo que outras pessoas conquistaram.

Pare de se comparar. Você é um artista e a sua arte merece tanto espaço quanto de qualquer outra pessoa. Você vai encontrar o seu tempo, você vai encontrar o seu caminho e quando acontecer, quando você ver acontecendo, você vai lembrar do tanto que você já quis viver o que você vai estar vivendo.

não deixe de ser artista tem momentos que vai ser mais fácil tem momentos que vai ser mais difícil mas em todos você vai ser o artista que você sempre foi então siga sendo o artista que você sempre foi e que você está destinado a ser caramba tá o pessoal aqui da produção assim

Cara, muitas camadas, assim. Eu acho que é um conselho que eu adoraria de ter escutado lá em 2012, com a nossa idade. Lá em 2012, quando eu comecei, tropecei na arte e nunca mais levantei. Que eu acho que serve também pra hoje. Com certeza. Eu ouvi pra mim, assim, ó.

Porque eu acho que tem esse lance que a gente às vezes se compara muito com o outro. Às vezes a gente fala, nossa, eu não estou fazendo uma arte o suficiente. Não estou sendo artista o suficiente. Nossa, aquela pessoa que conquistou não sei o quê, não sei o quê lá. É aquela pessoa, eu estou no meu processo. Exato.

E é isso. Nossa, gratidão. Gratidão demais. Eu que agradeço, gente, pelo convite, pelo espaço, pelo carinho, pela recepção. Estou muito feliz de estar aqui, de verdade. Incrível demais. E agora é a hora do jabá. Já fala suas redes sociais, para o pessoal seguir. Se estiver rolando o curso seu, já fala também. Bora fazer esse jabá. Fazer as pessoas te conhecerem. Segue, segue ela, que ela é incrível.

Então, vamos lá. Pra você que assistiu até aqui, vamos lá. Siga primeiramente Passinhos do Brasil, que é essa plataforma de estudo sobre as danças passinho da cultura funk, que reúne representantes, reúne artistas da dança e reúne também o público interessado em aprender mais sobre as danças passinho da cultura funk. Então, segue lá do jeito que fala, do jeito que escreve, arroba Passinhos do Brasil, tanto no TikTok quanto no Instagram.

E me segue também o meu pessoal, Jô Gomes Dança. Tem lá as várias pesquisas que eu faço, os vários trabalhos que eu faço, as divulgações de outras pesquisas que passam pelo Passinhos do Brasil e passam também pelas danças afro, pelo Matriarcado e Realidade nas Danças Negras, o Tradicional nas Danças Urbanas, o próprio curso de Heroínas Negras. Então, lá você vai encontrar a minha agenda mais completa.

E aí eu tenho também um perfil específico sobre a pesquisa Matriarcado e Danças Afro, que é do jeito que a gente fala, Matriarcado e Danças Afro, onde tem também o meu site específico dessa pesquisa, com todo o conteúdo, com a minha dissertação de mestrado completa lá de graça, para você entrar e baixar e estudar no seu tempo, do seu jeito. O site é...

www.matriarcadodançasafro.com.br E aí, se você quiser me ver, no mês de maio agora de 2026, eu estarei no Museu da Cidade, às terças-feiras, das 3 às 5 da tarde, com o projeto Passinhos do Brasil. Aulas nível iniciante. Vamos passar por todos os passinhos do Brasil. Vamos aprender movimentações básicas.

Vamos aprender os contextos socioculturais, vamos aprender a história, vamos aprender precursores, referências. Então, vem, se joga, passinho é pra todo mundo, dança é pra todo mundo e eu espero você em algum lugar. Arrasou! Estou agradecendo de novo por ter aceitado o convite, por esse papo maravilhoso, por esse conselho final que vai estar aqui no meu coraçãozinho, estar lá na cama pensando nesse conselho. Que bom!

E estamos chegando ao fim. Você que está aí no YouTube, já deixa aquele like. Vai lá, se inscreve no nosso canal. Se você está lá no Spotify, segue a gente também. Dá cinco estrelas. Sabia que o dedo não cai nem se você se inscrever. Ainda é de graça, comenta também. Gostou ou não gostou, comenta. O importante é comentar que é bom. Que é o famoso ditado. Fale bem ou fale mal, mas fale de mim.

Nas redes sociais estamos como arroba Vozes do Palco, tanto no X, como no Instagram, como no TikTok. Vai lá, segue a gente, comenta, fala. Se não gostou, vai lá, fala que a gente é péssimo, é bom também para a gente. Vai, bora, bora seguir que é bom. Então, beijinhos na bunda de todos e até a próxima!

Este podcast é um projeto aprovado na 22ª edição do Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais do Município de São Paulo. O programa vai! Com apoio da Associação Prática Tatum. Este podcast é uma realização do coletivo Teatro Memórias e Além. Prefeitura da Cidade de São Paulo. Você ouviu Vozes do Palco.

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