Episódios de Vamos Viajar na Maionese

EP61 Assim não trabalhamos!

02 de maio de 20261h6min
0:00 / 1:06:58
Neste episódio, viajamos até ao mundo operário de Setúbal de 1912 para, entre pedras e latas de atum, assistirmos à primeira greve geral portuguesa.
Assuntos5
  • História das greves em PortugalPrimeira greve moderna em Portugal (1849) · Proibição do direito à greve · Movimento operário e sindicalismo revolucionário · A Primeira República e os direitos dos trabalhadores · O 1º de Maio e sua origem
  • A Primeira Greve Geral em Portugal (1912)Motivações da greve geral · Repressão policial e militar · Impacto económico e social da greve · Consequências políticas e o divórcio entre operários e República
  • Condições de vida e trabalho dos operáriosPobreza urbana e bairros operários · Condições de trabalho nas fábricas · Desigualdade salarial entre homens e mulheres · Abusos sexuais nas fábricas
  • Setúbal como centro operário e de reivindicaçõesIndústria conserveira e mão de obra feminina · Greve das mulheres das fábricas de conserva de Setúbal (1911) · Os Fuzilamentos de Setúbal
  • Igreja como famíliaPosição da Igreja perante o movimento operário · Associações de assistência como forma de controle social · A filosofia da pobreza e a caridade
Transcrição177 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Vamos viajar na maionese. Com o Hugo Van Derding e Tiago Ribeiro. Boa Sassu. Olá, sejam bem-vindos a mais um Vamos Viajar na Maionese. Como é que é? Olá, Tiago Ribeiro. Estamos bem? Dá cá mais sim, que aperta aí o bacalhau. Como é que estamos? Estamos bem, estamos muito bem. E tu? Também ótimo, ótimo, ótimo. Muito cismático para mais uma semanada do nosso Vambique.

Estas são as duas semanas que vocês adoram que têm dois feriados E este ano calham mesmo bem E venham daquela sexta-feirazinha Sem fazer nada Mais uma sexta-feira sem fazer nada Na vossa vida E vamos começar como temos arrancado Já é um clássico do nosso programa Temos um boião porque este é um programa de proposta de viajar na Maynese

O nosso boião da Maynese está quitado. Obrigado, Khalid. Deu-nos aqui um grande makeover. Esta é uma marca registada. Vamos ver já na Maynese. O que é que tem cá dentro? Ar! Isto é um programa com ar! Fátima. ASMR. E esta semana vamos para onde? ASMR. ASMR. ASMR. ASMR. ASMR, não é Rio? Ihhh.

Setúbal vamos até Setúbal fazer o que? Setúbal é incrível vou dizer, a cidade talvez estou a brincar, a cidade é incrível o distrito é onde temos as melhores praias portuguesas tirando temos de dizer os outros tirando Viena do Castelo, Faro Setúbal tem as melhores praias já viste Porto Santo, as madeiras de Porto Santo mas não é o distrito

É verdade. Nem distrito é. Muito bem, Estúbal é a nossa paragem desta semana. Estúbal é incrível. Tem uma história fascinante. Não tem mais nada. Não vale a pena dizer. A Matilde está a ficar indignadíssima. Pois é, lá de Fernão Alho. Fernão Lopes. Fernão Ferro. Exatamente.

Setúbal tem as praias mais incríveis de sempre. A cidade em si é linda mesmo. É assim uma coisa meio pombalina das barras. É verdade? Também é. O Tiago é que nunca... Eu acho que o Tiago nunca foi à cidade de Setúbal. Nem nunca lá estivemos juntos sequer.

Depois tivemos imenso tempo. Mas tem aquela baixa de Setúbal, é muito bonita. O resto é limpar as mãos à parede. Setúbal Downtown. Tem a Serra de Sintra de Setúbal, que é a Serra da Arábida. Serra de Midtown de Setúbal. Sim, sim, pois é. E tem uma história riquíssima, ligada a grandes momentos da história

do século XX português uau, olha, olha tu estás a meter uma vitola muito alta neste programa Troia é awesome não devemos falar de Troia, mas Troia é awesome parabéns para Troia yeah menos um português neste segundo

olha e porquê Setúbal? é um ponto de partida para uma aventura é um ponto de partida para uma grande aventura nós acabámos de celebrar e já falámos disso aqui o 1º de Maio viva o 1º de Maio sempre nunca mais 30 de Abril nunca mais sim sim

Pois é, levantaste o rabinho da cama cedo, no 1 de maio é muito importante levantar há uma teoria popularizada que se não levantares o rabinho da cama cedo vais ter um ano muito preguiçoso Tu ouviste isto?

Já ouviste isto? Não é agora. Já tinhas ouvido isto, Matilde? Nunca. Nunca tinha ouvido. Pois. São tradições açorias. Ainda por cima, lá é uma hora mais cedo. Ou que sim, é uma hora mais cedo em relação ao continente. Não quer dizer que continua na sua hora. Claro, claro. O homem tem razão. Imagina nos Açores as pessoas estarem sempre a pensar. Ainda por cima, tem que ficar no salmo uma hora mais cedo. Pois, pois. Já viram uma chatice? Tens razão.

E nós sabemos, é uma data que celebra, e não só celebra, como também reivindica, quando é preciso, os direitos dos trabalhadores. A Matilde já está ali quase a entrar em pré-vice greve. Os olhos dela, assim, assim, revirarem. Pré-vice greve. E neste episódio, o Tiago acabou de abrir o boião da maionese para falarmos da história dessas lutas, das lutas dos trabalhadores.

É um assunto muito sério. É um assunto muito sério e vamos fazer um bocadinho mergulhar nessa incrível história que não é de agora, naturalmente. E vamos imaginar este cenário.

Três dias, durante três dias, a cidade de Lisboa, falava de Lisboa, mas depois já espalharemos ao resto do país, a cidade de Lisboa parou. Parou. Não houve nenhum terremoto, não houve nenhuma pandemia, graças a Deus. Nenhum apagão. Não houve nenhum apagão. Só que Lisboa parou porque quem fazia a cidade mexer-se decidiu deixá-la parar. Não há elétricos.

Os elétricos pararam de andar. Já estamos num outro tempo, não é? Os elétricos hoje funcionam maravilhosamente bem. Mas é para os turistas. Ninguém vai para o trabalho de elétrico. Acho eu. As oficinas fecharam. As oficinas fecharam.

e os trabalhadores desapareceram da rua melhor, eles não desapareceram da rua andavam pela rua, pois, pois eles estavam lá, mas não estavam a trabalhar, estavam juntos, estavam organizados e estavam quiçá pela primeira vez a perceber o poder que eles tinham Uau, isto vai ser um programa poderosíssimo este Vamos Viajar na Maionese, fazemos uma pequena pausa para as palavras do nosso patrocinador E agora, umas palavras do nosso patrocinador E agora, um episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o episódio que o

Estou estúpida Bem, amiguinho, até para a semana Até para a semana O que é isto, Tiago? Estás-me a roubar latas de atum? Era para continuar a jogar Latas de atum? Eu não estou a acreditar Isto é pior que os drogados Os jogos da Bacana Play são de facto muito divertidos São mesmo divertidos Mas não se esqueçam que devem usá-los apenas como divertimento Por isso, joguem com responsabilidade Bacana Play Dá um play na vida

Foram as palavras do nosso patrocinador.

Estamos de regresso para a segunda parte. Voltamos a apresentar a segunda parte do nosso Vamos Dejar na Manhã. Estamos a alguros pela capital portuguesa. Estamos numa grande paragem. E que gatilho é que originou isto tudo? Como é que isto tudo começa? E por que razão começa esta história toda? Hugo Van Der Denk. Os trabalhadores passam-se das suas bocas. Sim. Tu gostas quando os trabalhadores passam-se das suas bocas? Adoro. Já fizeste greve?

Costumas fazer greve? Não, não. Eu sou o fura greves. Sim, exatamente certificado. E vou pronunciá-lo aqui.

Já fiz, claro. Ah, que reivindicavas tu? Não trabalhar. É não trabalhar, ganhar mais, fazer menos. O que reivindicam todos os trabalhadores. O que é que estão aí a fazer há 150 anos? Que lutas são essas? Mas sabes que é verdade, se nós resumirmos de uma forma quase piedética, o que os trabalhadores reivindicam sempre é ganhar mais e trabalhar menos. O que é que reivindicam os patrões? Não podem pagar mais?

precisam que trabalhem mais estão no limite sempre até chegar ao fim do ano e percebermos os milhões de lucro que têm sempre tal e qual bem, as grandes empresas as grandes porque as pequenas e as médias o nosso tecido empresarial que nojo a minha t-shirt é feita de um tecido empresarial eu gosto muito desse tecido empresarial é o linho com 5% de algodão aquelas coisas sintéticas isso é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é

Sabes quantos poliesters morreram para fazer a t-shirt da Matilde? Esse é um animal tão fofinho, os poli...

Bom, primeiro vamos falar um pouco da história das greves. Pelo menos no conceito moderno de uma greve organizada. Claro. Recusar-se a trabalhar. É uma coisa tão antiga como o homem, não é? É mesmo. É mesmo. Claro. A Bíblia fala disso na Bíblia. Temos registros escritos, escritos lá em Ponecos, de uma greve no Egito, de uns trabalhadores que se recusavam a trabalhar, a fazer a pirâmide. Sim, sim.

não há vinho, não há pirâmide é engraçado não há circo, não há palhado se pensarmos é a ideia de um grupo organizado que falou e que tem uma reivindicação ou várias até todas alinhadas no mesmo sentido e isso presta-se à força daquilo que manda trabalhar perder essa força

Sim, nas coisas mais antigos, no fundo aquilo é queremos ganhar, enquanto não ganharmos, essa relação, enquanto não ganharmos Está quebrada? Não, vou, claro O que vai acontecendo ao longo da história, quanto mais chegamos perto de nós é que a noção dos direitos das pessoas vai aumentando e portanto hoje em dia já fazem greves Ah, eu preciso de uma cadeira ergonómica

um rato especial o café nesta empresa é péssimo estou a brincar podem comentar nas caixas de comentários deste programa mensagens de amor para o Hugo Van Derding a primeira greve com este nome que podemos já identificar como uma greve mais no sentido moderno em Portugal aconteceu em 1849 está bem lá atrás isto

foram os metalúrgicos claro, estamos aqui no meiésimo pessoal do metal foram os metalúrgicos eram...

as autoridades tinham proibido o moche exatamente, fecharam as barras às duas da manhã e o pessoal de metal não curtiu e os metalúrgicos de uma fábrica na rua da Boa Vista em Lisboa e que protestavam eles, protestavam contra os chorões de trabalho vou explicar, não havia eletricidade não é? pois

não havia eletricidade e isto fazia com que o trabalho fosse aproveitando a luz do dia claro, claro aliás, o horário de trabalho contemplava muito essa ideia do sol trabalho de sol a sol tal e qual

Agora sabemos que a luz do dia não é igual em todas as alturas do ano. E eles tinham no verão de trabalhar, às vezes o sol põe-se no verão às quase nove da noite, não é? Então eles tinham de trabalhar até essa hora no verão, o que era o chamado fazer serão. E estes trabalhadores estavam contra isso, queriam que fosse um número de horas fixo, mas que não trabalhassem aquelas horas todas, porque isto implicava trabalhar das sete da manhã às nove da noite, e então pararam de trabalhar.

Eles foram arrasados na imprensa da altura. A imprensa, o que é que se chamou? Que isto eram ideias de fora, nunca tinha acontecido nada disto. Isto eram ideias francesas, porque estava tudo a arrebentar em França. Então lá vinham com estas ideias. Estamos numa altura muito contemporânea do quê? Dos marxes dizer assim, tudo vai para a rua. Dos marxes. Do nascimento do socialismo, do anarquismo, do comunismo, enfim. Estamos nesta altura, desta ebulição, muito vindo sobretudo de França. E então eles olharam dizer assim.

Agora vão importar. As coisas boas não importam eles. Olha, vê lá se eles não comem-se cargo. Pois, pois. Sim, sim, sim. Totalmente. Vê lá se eles arranjam um sommelier para uma taberna. Isto não importam eles de França. É qualquer coisa. Sim, sim. É cheio. É cheio.

E dois de uma vez só. Mas tem muita essa curiosidade da imprensa estar completamente alinhada com também o poder português, não é? Ou seja, era uma novidade e era uma coisa muito atrevida, talvez, aos olhos do português. Eles recusaram-se a trabalhar. Quem é que o menino pensa que é para...

decidiram não trabalhar. Ficaram a olhar. Só que o que acontece é, eles no primeiro dia, eles recusam-se a trabalhar. Não trabalhámos e foram-se embora. E começaram a ir a outras oficinas. Imaginemos a Rua da Boa Vista. Quem conhece Lisboa, isto fica perto do Cacho Dredd. Impressionante.

É engraçado, e eram muitas fábricas. Estou aqui chamando-lhe oficinas porque são pequenas fabriquetas, não é? Onde se faziam coisas. E o que acontece é que eles vão de fábrica em fábrica a dizer, pessoal, não está no olhar. E os jornais arrasaram-nos, mas quase por ironia do destino, a greve seguinte, uns dias depois, é os tipógrafos. Portanto, sem jornal. Sim, sim, encosta os jornais à boxe.

Claro. O Governo vai logo dar conta disto, não é? Ficam em pânico, bem agora vêm estas ideias lá de fora, e o Governo, da altura, logo proíbe, por lei, a greve. O direito da greve? O direito da greve, que aliás só volta a ser restabelecido na sua plenitude mais de 100 anos depois, em 1974.

a greve era proibida ou muito controlada apesar de ser proibida e ter sido proibida logo neste meio do século XIX, sempre se realizava sempre, nós já às vezes perdemos noção disso, houve milhares e milhares e milhares de greves desde esse final do século XIX

no meio do século XIX durante toda a Primeira República, durante o Estado Novo tentou-se com uma enorme repressão mas fazia-se milhares mesmo e elas vão aumentando com a industrialização à medida que o mundo e a cidade se vai industrializando, claro, claro

Mais necessidade de fábricas, mais mão de obra e mais poder para cada uma para cada uma dessas pessoas. Tal e qual. E sobretudo nestas novas zonas operárias que se vão criando à volta das grandes cidades das duas cidades portuguesas nesta altura que é Lisboa e o Porto. E vai nascendo toda uma, aquilo que nós hoje poderíamos dizer uma cintura industrial. Sim, sim, sim. O parque. O parque industrial. Tens uma cintura industrial.

Pronto, nasceu aqui a ideia, um destes dias algures, será uma publicação muito bem sucedida do Hugo Van Der Ding, Cintura Industrial. Qual era a de há bocado? Nós também há bocado dissemos qualquer outra coisa que também já não me lembro. Já se foi. Mas ficou Cintura Industrial. E é engraçado, nós já falámos disto até a propósito de outras coisas.

A industrialização, portanto, significa que o trabalho mais artesanal vai sendo substituído por máquinas, vai, a indústria consegue produzir mais e mais e mais e mais, enfim, o capitalismo, se quisermos, como conhecemos hoje. Isto vai atrair toda uma série de gente que vinda dos campos para as cidades, há mais fábricas, há mais emprego, há tudo mais, mas há também, nasce aqui verdadeiramente, um novo tipo de pobreza urbana.

criam-se zonas operárias por isso é que falámos há pouco de Setúbal vai acontecer em toda a volta de Lisboa Zonas de dormitório também por consequência, não é? Vilas, não é? Sim, eu acho que se estás a pensar nas zonas Gostou de lembrar-me de Lisboa que está em uma série de vilas operárias Ou seja, o fenómeno do que seria hoje as cidades de limites como a Amada não Louros Isso não é desta altura Isso

Amadora, alores... Termitórios, não é aquilo que chamamos de termitórios? Isso era campo. Como Lisboa era muito mais pequena, o que vai ser os arredores da cidade, bairros operários, nascem precisamente em Alcântara, de um lado da cidade, e Xabregas, Beato e Poço do Bispo, do outro lado da cidade. Isso é que eram as zonas industriais. Aliás, quem passeia hoje... Alcântara tem o LX Factory, era exatamente uma zona de fábricas, e lá estão as fábricas, e da mesma maneira, quem passeia pelo...

e do Beato eram fábricas naturalmente depois com as suas respectivas bairros operários o Poço do Bispo, exatamente igual e que sobreviveram durante muito tempo Braço de Prata, todas essas são fábricas e depois

Across the river, toda a zona de Setúbal, Almada e tudo mais, aí muito ligada à indústria, sobretudo conserveira das conservas do peixe e tudo mais. E no Porto, está mesmo igual. E dás-te uma nova classe de pessoas, que são os operários, que é uma novidade. Tu tinhas os agricultores...

Depois tinhas muito vaga, serviços e artesãos. Aqui nascem os operários, as pessoas que trabalham nas fábricas. Eles aqui ainda não são a maioria da população de todo. A população portuguesa é agrícola. São agricultores. Sector primário. Absolutamente. E vai ser assim... Durante décadas. Durante décadas, toda a Primeira República. Grande parte do Estado Novo também é esta a realidade.

portuguesa. E vai ser no meio desta gente, dos operários, que vai começar a germinar as ideias que vão mudar o século XX. O movimento operário, que é uma coisa, mas tem uma história absolutamente fascinante ao longo dos tempos.

Agora, estas pessoas nem sempre encontravam os seus sonhos e vai desempocar na tal pobreza urbana. Ou seja, por um lado tinham trabalho, mas por outro lado são condições de trabalho quase mais piores que no campo. Um degrau acima de um pequeno escravo. Sim, ou seja, tinhas um salário fixo.

tinhas um trabalho fixo, tinhas todas essas coisas mas eram condições muito, muito, muito, muito mais para a saúde, para o descanso porque a vida no campo segue os ritmos da natureza. Óbvio, estava a pensar exatamente e portanto é uma coisa quase mais orgânica por mais que tenhas que lidar com a dureza do...

frio, do... E do trabalho de pressal. Pressal, de campo. Estás, na verdade, numa relação com a natureza profundíssima. Quando estás numas catacumbas a respirar monóxido de carbono de fábricas e carvão. 14 de 6 horas por dia. Todo sujo, tudo imundo.

Temos essa imagem quase oferecida pelo cinema, não é? Há muitos filmes da primeira metade do século XX que retratam muito essa violência, essa brutalidade das fábricas que passava naturalmente para as vidas dessas pessoas. Desses homens, por maioria. Absolutamente. E depois...

na verdade começa a aparecer alguma resposta por parte dos patrões para aliviar essa pobreza e aparecem muitas associações de assistências coisas muito básicas às vezes de saúde, falas tu num contexto de seguro não, até mais de alimentação

por exemplo, coisas muito básicas ainda e no fundo não era por uma qualquer função benemérita alguns empresários eventualmente fossem mas era exatamente para travar as greves para travar as queixas ia-se atirando um bocadinho de água na fervura queixam-se 10 coisas, ofereces uma e a coisa apazigula alguns e até para tirar da cabeça porque começava-se a perceber isto são queixas organizadas já não é os tipos que vão para a rua dizer nunca

Queremos trabalhar no verão. Havia ali uma coisa... Temos direito de X. E era quase para tirar da cabeça estas ideias francesas da cabeça destas pessoas. Era uma coisa mais providencial. Então tomem lá um beijinho. Até porque, pensando bem, talvez os patrões tivessem como fim último do medo a ideia de que pudessem perder eles a posse daquilo que era seu. Ou seja, esta gente reivindica tanta coisa que um dia vão destituir os próprios patrões. E sobretudo...

o prejuízo gigantesco económico que era quando as pessoas paravam. Pois, pois, totalmente. Vamos começar a temas, ainda não temos os grandes grupos económicos que têm estrutura, e também são prejudicados, já tinha aparecido a CUF, precisamente no Barreiro, toda essa zona. Agora, apesar destas tentativas, muitas delas apoiadas até moralmente pela Igreja, pela Igreja.

Isso é curioso, a posição da igreja. Não das greves, ao contrário. Ao contrário dos patrões, de têm que aceitar, obedeçam. Porque o socialismo, estas ideias que estavam havendo fora, eram também muito anticlericais, eram muito anti-establishment da igreja, e portanto a igreja também ia dizendo...

A Igreja faz, e o papel dela nesta transição para o século XX e no início do século XX, o elogio da pobreza. Ou da pobreza como uma condição... Ou dotado depois pelo Estado Novo. Tal e qual, sim. Que ao mesmo tempo tinha, e era isto que esta resposta dos patrões dava, que era basicamente a postura, quer do Estado, quer da Igreja, era

As pessoas são pobres porque é a sua condição de serem pobres. E os ricos têm a obrigação moral de haver essa assistência. E nós tínhamos essa ideia dos ricos terem pobres, que é uma coisa que dura no Estado Novo ainda, ter o pobre quase... O acolhido. O pobre sim, que ia lá todas as quartas-feiras, almoçar, jantar, levar roupa. Ter um pobre era uma coisa que os ricos tinham.

Isto não ia correr bem, não é? Esta frase estava a tombar para ser... Olha, é engraçado. Mas eu percebo, toda a gente se fizer um pequeno exercício perceberá exatamente o que é que estamos a dizer. Sim, a aristocracia tinha isto, que eram pobres que quase pertenciam à casa, não é? Portanto, iam às quartas-feiras.

Davam pequenas ajudas na casa, coisas, às vezes pequenas trabalhinhas. Sim, comiam na cozinha, levavam comida para a casa deles. É engraçado. Isto era tão, era tão, nós falámos, não vamos todos morrer, há muito tempo da Duquesa de Palmela, que estabeleceu cozinhas económicas. Isto era de tal maneira persistente, que com a queda da monarquia, isso se ressentiu socialmente.

com a aristocracia, a deixar de fazer estas coisas sentiu-se a falta desta assistência social essas pessoas ficaram desabrigadas e se sentiu-se, foi um assunto

a Aris Fucrecy deixou de fazer isto é engraçado mostra o impacto social que estas coisas têm são décadas a realizar uma coisa e um papel social era o que havia, não havia assistências não havia segurança social era com esta ideia que era uma filosofia que era os pobres são pobres porque é a sua condição e os ricos são ricos e portanto têm que prestar assistência o Estado até nem se envolvia muito nisto era assim mais ou menos só que o Estado até nem se envolvia

Com estas ideias, com esta coisa toda, que vinha lá de fora, estas coisas todas, os trabalhadores começaram a ver, isto não é bem assim, nós temos esses direitos. Então, o primeiro partido do mundo a defender os trabalhadores, um partido organizado de trabalhadores, chamava-se a Associação Internacional dos Trabalhadores, ou simplesmente conhecida como a Internacional. Ela aparece em 1864, portanto, muito contemporânea dos livros do Marx, do Engels, etc.

E vai ter... Vai aparecer em Londres e em Nova Iorque, portanto, o hub da industrialização, o centro da industrialização. É uma mistura de marxismo, socialismo, comunismo, anarquismo, lesbianismo, eventualmente. Sim, totalmente. Transformismo, tudo. Desculpem. Isto estava a galgar.

homossexualismo não sei o que é que elas faziam eu nunca fui a uma reunião destas, confesso internacional, claro internacional é... confesso que não fui em Portugal, ela vai aparecer uns aninhos depois, em 1871 são os socialistas e anarquistas espanhóis eu acho que eu sou fascinado com o estudo do anarquismo deste final do século XIX acho isto

fascinante, acho mesmo. Estas ideias estão... Ou seja, são ideias, eu não estou a dizer que acho bem ou acho mal, mas são ideias tão desafiadoras da ordem social instalada que eu acho fascinante. Uma desobediência coletiva e com propriedade, não é? Com um estatuto. Tem um edital. Tem uma ideia. Exatamente, sim. Que começa, podemos dizer...

com matarem os reis de França e depois é e se a gente também já agora é a revolução do já agora claro, sabemos bem onde é que isto pode parar há umas pessoas que chamam a revolução francesa nós aqui na maionese chamamos a revolução do e se, e já agora

Olha, mas estás a brincar com uma coisa muito séria. Eu já o referi algumas vezes nestes episódios que tenho aprendido a ideia e a importância de pensar a Revolução e esses grandes marcos da cultura, pelo menos ocidental, não como uma coisa que tenha acontecido num dia específico, numa data, mas como uma coisa que se prolonga durante, às vezes, muitos e muitos anos. E também essas ideias, nós podemos ter estudado e passado isso para o nosso conhecimento como...

Ok, aconteceu naquele ano, foi um grande... Mas na verdade são coisas muito demoradas. São processos muito longos. São processos que ficam ali enlumbrando e depois a contaminação que se dá, essa disseminação dessas ideias, também são lentas essas disseminações, não é? Pelo mapa europeu. Há uma coisa engraçada, que as invasões francesas do Napoleão, que acontecem umas décadas, poucas décadas depois da Revolução Francesa, vamos dizer 20 anos, por um lado destruíram o país,

E por outro lado também, porque são elas que trazem para cá a grande parte das ideias da Revolução Francesa. Sim, é verdade. Que depois, juntas mais de 10 anos, e vai-lhes empocar na grande Revolução Liberal, que vai acabar com o absolutismo. É muito interessante este efeito em cascata. E será um efeito também baseado um bocadinho na mimetização, de pessoas olharem para pessoas e questionarem sobre elas próprias. Eu tenho para mim muito estudado. Estes tipos reclamam e conseguem chegar a qualquer lado.

Power of Numbers é perceber, nós de facto somos mais, nós de facto isto não há direito, nós de facto temos uma vida horrível, nós de facto isto não é bom. Ao longo de toda a história houve isto, houve esta perceção de isto que não é justo, não é? Agora, o que começa a aparecer nesta altura são os movimentos organizados. O tal partido internacional que aparece lá fora, em 1871, aparece cá, chamada a Fraternidade Operária.

teve gente muito destacada como dirigentes, um deles, que vai ficar se calhar muito surpreendido, chamava-se Antero de Quental Schusser. Oi, oi, oi, quem é ele? Dirigente desta fraternidade operária. O meu fraterno conterrâneo. O teu fraterno conterrâneo. Tinhas ideia desta história? Mas ele também tem a ideia de...

Qualquer coisa que fosse desafiadora, ele metia lá o nome. É para partir? Sim, bora. Sim, sim. Mas com sotaque. Faz lá, como é que ele diria? Para caso, teria ele sotaque? Ah, seguramente. Eu penso tantas vezes nisso. Ah, sim, sim. Não há matéria. Eu ando tão obstinado com isso nos últimos meses, que é a voz e o sotaque de determinadas pessoas. A voz de Fernando Pessoa, imaginem. Pois, pois, pois. Para caso, devia ser uma desilusão. Que português saía da boca de Camões?

até há poucos anos havia bastante gente viva que tinha conhecido o Fernando Pessoa o Amada morreu nos anos 70 claro, claro mas agora já não há registros mas certeza que Anteher teria sotaque o Camilo Castelo Branco devia ter sotaque claro, claro apesar de ter nascido em Lisboa, viveu toda a vida no Porto certeza que tinha e pedia um simbalino seguramente idia pute veit

gravíssimo fudei-o sim, sim eventualmente o ESA também não faço ideia, mas sim era possível, claro portanto Antetor de Cantal um dos primeiros militantes dirigentes deste partido que defendia os direitos dos trabalhadores e o que defendia isto em Portugal? era unidade dos trabalhadores?

Sim, e a melhoria das condições de vida e sobretudo acabar com esta ideia de os pobres são pobres porque são pobres e os ricos... Resignem-se a isto. Sim, era lutar pelos seus direitos. É uma ideia quase moral. Se pensarmos bem são fundições onde a religião penetrou durante muitos séculos. Que é a ideia de existe, morres isto e contenta-te pelo meio, vive bem com isto.

No fundo, a religião sossegou muita gente durante a sua vida toda, a não serem outra coisa que não aquilo que nasceram. Sim, ou seja, o cristianismo tinha vindo com uma grande originalidade em relação ao judaísmo, que era todas as pessoas são iguais perante Deus. E a mensagem de Cristo focava muito neste aspecto.

é a religião verdadeiramente humanista nesse sentido, toda a gente é igual e o Novo Testamento insiste muito neste tema o rei e o escravo têm exatamente a mesma dignidade perante Deus, só que isto não era a realidade política durante muito tempo e a Revolução Francesa o que vai fazer é exatamente isso esse nivelar, que é todas as pessoas são cidadãos por este estatuto, acabou-se os nobres, acabou-se o rei, acabou-se ainda que houvesse rei né

Há rei depois da Revolução também. Ainda destitui mais essa sacralidade. Toda a gente é cidadão. O Luís XVI quando é preso já na parte daquele processo, começam a vir no processo como cidadão Luís de Bourbon, como é que ele se chama? Luís de França. Que é isto? Citoiano. Sim, era esta ideia de...

De cidadão, de igualdade perante a lei e portanto também tens direitos, não é? E estas ideias que também começam a arrebentar cá são muito inspiradas por uma experiência que um dia também devemos contar aqui, que se chama a Comuna de Paris que durante algum tempo os trabalhadores tomaram conta da cidade e governaram a cidade, enfim.

acaba por ser esmagada com muita violência, mas foi ali uma experiência que fica também no imaginário. Até hoje nós vamos falar disto, não é? Sim, sim, totalmente. É um movimento pop da cultura ocidental. É uma coisa que marca muito. E é curioso percebermos isto. A unidade de uma determinada parte da população, que é a maioria, a pobre, consegue tomar de salto uma das cidades mais importantes do mundo.

E no nosso caso, em Portugal, na cidade de Lisboa, conseguiu durante três dias parar Lisboa. Ou seja, isso faz, dá um direito quase de pensamento de que nós somos mesmo importantes. E nós estamos a caminhar para esses três dias. A resposta que há em Portugal a essa ideia da Comuna de Paris vai ser o sindicalismo revolucionário, que era criar sindicatos.

onde se organizavam por categorias profissionais, havia, a avó da Matilde tinha o SPP, sim, sim, queres jogar, sindicato, para... SPPPP, sindicato, era os três P's, os três P's, sim, sim, sim. Brinco, mas havia, claro, os metaluros, enfim, as profissões que eram mais correntes na altura, que não são as mesmas que nós temos hoje, não é? Não havia dos call centers do século XX.

Só que este sindicalismo vai ser muito mais do que uma reivindicação de direitos. Os trabalhadores juntam-se e têm algum poder, os sindicatos têm algum poder económico e, portanto, vão ser também, vamos dizer, posto médico, assistente social às famílias, vão ser importantes centros culturais, importantes centros culturais. E vemos marcas disso, não é, João?

nossas cidades. É muito fascinante. Ficaram lá esses edifícios, esses lugares. Nós estamos ainda a falar mesmo do início do século XX. Mas ainda assim, e final do século XIX e início do século XX. Mas é muito engraçado que eram pequenos museus onde as pessoas... Porque esta ideia do operário começa a ganhar também. Estes movimentos vão trazer... Começam...

intelectuais a ter estes movimentos, mas é estas pessoas também têm direito à cultura, direito à arte, são pessoas direito a ter os seus momentos de lazer para pintar para escrever, para fazer o que lhes apeteça não serem apenas máquinas humanas de produção quase como eram basicamente vistas

e portanto tem escolas esta ideia da escola moderna de ensinar os filhos dos operários a ler a conhecer o mundo estes rudimentos, portanto tornam-se focos de cultura muito, muito, muito E escolas industriais também, será que estão ligadas aí? Isso era uma coisa do Estado Sim, isso era mesmo importar modelos de escolas anarquistas da escola moderna, chama-se esse movimento de escola moderna Isso é muito fascinante E tinham escolas primárias uma altura que

não era obrigatório, não é? Para formar os operários. Elas funcionavam nos bairros operários. Antes de ir para o papel do Estado, não é? Daquilo que hoje em dia são coisas para nós consagradíssimas nos nossos direitos enquanto cidadão da República Portuguesa.

anteciparam-se, foram vanguardistas em relação ao... É incrível isso, é muito... Olha, o nosso último rei, o Dom Manuel II, ele acorda para estes movimentos, ele percebe, ele é muito novo quando é rei, só vai ser rei dois anos, não é? Até à Revolução, mas ele percebe isto, manda vir um famoso...

antropólogo, não é antropólogo, sociólogo francês, faz um levantamento de um estudo, ouve estes movimentos socialistas e pensa bem, eu tenho que atender a estes problemas, senão isto vai ser uma coisa grave, já não vai a tempo. Mas é perceber esta coisa do... é o mundo em mudança e está a acontecer aqui uma transformação. E estas pessoas, até já se organizavam nas próprias escolas, enfim, tudo mais. E o que é que eles querem? Descanso.

o direito ao descanso, o direito até a parar uma vez por semana o direito ao tempo livre, portanto ter tempo para viver também a sua vida portanto a redução do número de dias de trabalho que já estava também a acontecer em Inglaterra com a semana de 5 dias com as jornadas de trabalho de 40 horas tudo isso vem neste tempo e também outra coisa muito importante que era que eles reclamavam que era inblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblblbl

tempo para se dedicarem ao próprio sindicato ao próprio movimento operário porque eles diziam, senão a gente não pode lutar para os nossos direitos, estamos a trabalhar sempre é que nem pelos direitos conseguimos tentar e pensar e organizarmos uau acontece que o Estado vai perseguir violentamente estas pessoas do movimento operário, são deportadas, são presas algumas são mortas, até não é de pena de morte, mas é em confrontos na rua, a polícia mesmo em Portugal? em Portugal, sim, aqui estamos falando em Portugal não é de pena de morte, não é de pena de morte

Sim, é verdade. Alguns destes movimentos continuam na clandestinidade e depois a verdadeira rede que vai permitir eles comunicarem, quer que os trabalhadores lá de fora, quer que o movimento operário entre si, são os jornais. Que é absolutamente incrível. Talvez hoje não tenhamos essa ideia. Apareceram mais de mil jornais operários.

distribuídos ilegalmente, não é? Ou seja, assim, um bocadinho... Alguns não, alguns, mas a maior parte sim. A sombra, claro, claro. O que permite estas ideias chegarem a todo o lado, é uma verdadeira rede antes da internet. Pois é. E se nós estamos a pensar que era um pasquim escrito numa folha de couve, estamos muito longe da verdade. Eram coisas muito profissionais, com redação, com jornalismo, com repórteres, e onde passaram? E tinha desde a parte política...

Acordem, acordem bandalhos Manifestos, ideias projetadas ali Tudo que consigas imaginar de intelectuais progressistas escreviam nestes jornais Que incrível E depois a parte gráfica toda muito incrível também com desenhos, com aquelas morais não é morais porque era no jornal, não é? Mas aqueles, eu acho fascinante essa arte reivindicativa E satírica também, ou seja um bocadinho de escárnio sobre o poder Aprovava que houvesse algum, sim Aprovava que houvesse alguma coisa disto

isso é muito fascinante é muito fascinante tu saberes que tens no mesmo jornal no mesmo número do jornal tens um operário a escrever um texto e tens, já dei há bocado o caso do Anter mas todos os outros que podia ter um editorial nesse mesmo número passam por lá grandes figuras da cultura em português lá passaram entretanto vem a Primeira República

E podemos dizer que a Primeira República é uma lufada de ar fresco. Ou seja, estes movimentos ganham força. A Primeira República vem por oposição à igreja, à ordem estabelecida, à sociedade de classes, da aristocracia no topo. E até a própria revolução é feita desta mistura entre o movimento operário, que só existia em Lisboa e no Porto, era isso, e a burguesia republicana, que já não se revia na Condessa, que tem o poder...

que no fundo são eles a que falam, tal e qual. Era altamente impopular e é este balanço entre o movimento operário, as pessoas no campo estavam... Era uma outra velocidade. Estava na outra velocidade, não podia não saber para nada. A Igreja com um enorme poder nas mentalidades, mas o que traz a República é precisamente esta junção entre os operários que é o episódio.

à volta das cidades, de Lisboa e Porto, e a burguesia, todos os bem-pensantes, os intelectuais, a burguesia republicana, os pequenos funcionários, os pequenos oficiais do exército, sargentos, não são oficiais, mas o pequeno militar, a classe média, o que é...

devia de classe média ainda nos centros urbanos. É isto que faz a revolução. Quase que me faz crer que, com a entrada da Primeira República em Portugal, quase que me faz crer que o papel dos sindicatos ficava um bocadinho reduzido porque alguns desses direitos passaram a estar mais ou menos consagrados, não? Mais ou menos. Porque o que acontece é que a República vem com estes dois grupos mas rapidamente...

Este da... A burguesia ilustrada. Toma para o lado do espoderão. E, portanto, os outros começam a reclamar e, então, aquilo quase que replica-se o modelo da monarquia, que é isto é um perigo para o nosso sistema. E, portanto, os bem-pensantes da burguesia vão replicar os mesmos tiques que vinham do passado. E, logo a abrir, em 1910, vai-se... Vai...

a partir de 1910, a partir da Revolução Republicana, vai-se começar a celebrar este dia que celebrámos há poucos dias, o Dia do Trabalhador, o dia 1º de Maio. É engraçado, este dia é, desde há milénios podemos dizer, um dia de celebração. É o dia da Primavera, é o dia das Maias, que é umas flores, não é? É o dia...

de celebrar uma nova vida. Sim, sim. É uma festa altamente pagã, era uma festa religiosa pagã, que a Igreja Católica vai também se sobrepor, e isto são tantas camadas até desembocar no Dia do Trabalhador, que começa a ser, esta data é escolhida,

Porque em 1886, em Chicago, há fortíssimas manifestações pelas oito horas de trabalho, que são esmagadas, há muitos mortos, há feridos, há presos. Chicago, a cidade industrial por definição. A cidade industrial americana, claro. E depois, a partir de 1890...

ele escolhe a tal internacional escolhe para ser o dia internacional do trabalho e ela começa a celebrar em Portugal logo desde dessa altura como as pessoas não podiam parar de trabalhar porque não havia feriados começa a ser um dia de greve também ele próprio dia de trabalhador das дела дела do do

trabalhador. A República vai deitar mão a este assunto e vai publicar uma coisa que ficou conhecida como o decreto burla onde vai legalizar o direito à greve. É uma originalidade. O direito à greve passa a estar contemplado na lei. Mas tem regras. Tens que fazer um pré-aviso. Hoje em dia o pré-aviso na altura era uma semana só. Hoje acho que são duas semanas.

prefeita de greve, portanto, avisar o Estado e o patrão para fazer greve. Era permitido o lockout. O lockout é quando tu impedes, encerras uma coisa. Sim, sim, sim. Imagina, tu fazes greve lá na RTP e fechas a RTP, não impedes que as pessoas entrem no seu lockout. Era permitido. Só que, por outro lado, protegia também os patrões, porque era importante agradar a gregos e a troianos.

Era proibido os piquetes de greves, no fundo as reuniões para combinar as greves e sobretudo, aqui é que vai ser o que vai fazer estalar a coisa autorizava o uso da força pela polícia para controlar os desacatos dos protestos portanto as pessoas basicamente podiam não trabalhar como forma de protesto mas podiam apanhar nos cornos

e com uma aleatoriedade bastante considerável quem é que determinava a presença da polícia para controlar a ordem pública conhecemos bem rapidamente os trabalhadores percebem fomos extraídos pela própria revolução afinal isto era para ser uma revolução dos direitos dos trabalhadores e eles são exatamente iguais aos outros

Sim, ou pelo menos... Muito, com os mesmos tiques. Exatamente. E, portanto, o governo republicano vai rapidamente reprimir a greve que estala e rebenta há centenas, se não milhares de greves durante a Primeira República. Logo a abrir, no dia 24 de outubro, portanto 20 dias depois... Portugal estava de rastos, imagino.

Claro, porque achava, ou seja, o mundo vai mudar dia 6 de outubro, já estamos todos diferentes e portanto, os carroceiros de Lisboa e do Porto fazem greve os ferroviários, uma classe profissional que vinha a tornar uma grande importância uma força gigante com um sindicato também muito forte fazem greve a 5 de novembro a Carris, na altura não eram exatamente os autocarros como nós os conhecemos hoje, eram os elétricos que era o meio de transporte mais importante na capital, claro chamava-se a Companhia dos Carris de Ferro

ainda se via em algumas coisas CCCL dentro de algumas carruagens mais antigas que foram restauradas a Companhia dos Carris de Ferro de Lisboa tudo parado dia 15 de novembro portanto

um mês, pouco mais de um mês da Revolução. E vai começar uma verdadeira vaga por todo o país. Eles já se, ou seja, exigiam aquilo no fundo que tinha sido a propaganda republicana. Os salários, redução dos horários de trabalho e agora, desta vez, os protagonistas são sobretudo os operários das fábricas de cortiça e de conservas do distrito de Setúbal, dos textos na zona do Porto e de Braga também, Porto e Braga os textos, os da Cufre no Barreiro que já era o grande que já era o episódio.

grupo operário mas também camponeses que se iam juntando estas lutas no Alentejo, no Ribatejo claro, os ferroviários, gente com bastante poder reivindicativo Este país parado Até a Companhia do Gás, por exemplo, de Lisboa que o gás, lembro, nesta altura era a iluminação pública, por exemplo e outras fábricas também

na verdade toda a gente porque hoje de facto vamos falar da primeira greve geral em Portugal, greve geral quando o país para o rastilho vai ser outra contestação em 1911 em Setúbal e por isso é que na nossa maionese hoje íamos viajar até Setúbal ou places, que era o verdadeiro centro operário e que vai ser também o centro destas reivindicações, claro onde estão os operários é onde há mais molho o forte desta região era a indústria conserveira URL

que era uma indústria que conservava tudo é pescar amanhar o peixe e ter dentro da latinha na altura penso que não latas talvez provavelmente frascos eco-friendly eram boiões assim a maior parte

Sim, conserveira de peixe, conservavas o peixe, não sei como é que elas conservavam o peixe. E elas sim, porque a maior parte, a grande esmagadora maioria da mão de obra eram mulheres. E as suas queixas eram diversas. Nós temos até transcrito, porque vinha nestes tais jornais todos, o que é que elas se queixavam. Obrigadas a levantar-se da cama a qualquer hora da noite. Para trabalharem 10 e 11 horas e ganharem apenas 180 reais por 5 horas de trabalho. Era muito pouco dinheiro mesmo.

Depois, elas queixavam-se também que tinham que fazer coisas para as quais não tinham sido contratadas, como fazer trabalhos, como pregar caixas de peixe, ou fazer coisas onde, diziam elas, e distribuir o peixe lá nas lotas delas, e diziam elas, serviço que deve ser feito por rapazes, pois estamos sempre dispostas aos insultos de alguns camaradas menos delicados. Portanto, os homens, elas iam fazer coisas e os homens iam.

insultá-las. Isto está tudo escrito, tal como estava. As queixas delas, literais. Ainda a desigualdade de salário em relação aos homens, elas esqueciavam-se disso. Falavam também das multas e castigos corporais para os filhos e filhas, dizem elas, sem respeito algum pelo sexo e pela sua situação. A falta de higiene nas fábricas, diziam elas, a água da salmoura, portanto, a água onde estava o peixe.

escorria pelo chão, encercando os pés e o ar, empestado, chegando especialmente no verão, a desmaiarem e quase a sufocar. Imagina, uma fábrica imagina o monstro. E depois, os mais tristes e quase habituais abusos sexuais, diziam elas. As nossas filhas são muitas vezes chamadas ao escritório demorando-se tempo imenso, ficando nós em ânsias por saber o que se passa. Vêmo-las vir chorosas e ai de nós já sabemos, é a desonra, a desploração e ninguém os pune. Estamos já no início do século XX.

ouvinte. Rapariga bonita tem de ser amante do industrial, do gerente, de todos os que a querem prostituir. Se alguma resiste, vem a multa, a pancada e, por fim, o despedimento, que é o princípio da fome, dizia isto num jornal. O operário contava... Isso é de uma violência, o que está aí? Esse parágrafo é violentíssimo o que está aí. É mesmo. Não era fácil.

E elas não pediam muito. Elas pediam nesta altura, estamos em 1911, lá em Setúbal, nestas fábricas de conservas, 10 reis de aumento. Uma ninharia. Para termos ideia, um quilo de carne custava 320 reis. Portanto, tu não... Custava praticamente mais do dobro do que tu ganhavas por dia. Um litro de leite custava 80 reis. Eu tinha trabalhado quase 30 dias para comprar carne. Pensa bem. Se carne era 300, se ganhavas 10...

Não, 10 era o aumento que elas pediam. Elas ganhavam, dizemos há pouco, 180 reais. Por causa de uma semana de trabalho. Claro, porque também tens as despesas todas e aquilo se calhar não chegava para alimentar bem uma família. Lembrar-se, há muitos... Os industriais, portanto, os donos das fábricas recusaram-se. Isto vai abrir um conflito sem fim à vista. A 22 de fevereiro de 1911, os jornais começam a dar conta. Os jornais em Lisboa começam a dar conta. Lisboa, sim, país, não é?

Começam a dar conta de uma greve, chamavam-se eles, greve das mulheres das fábricas de conserva de Setúbal. E depois, nos dias seguintes, vão-se juntando outros operários, porque há uma coisa, outras indústrias também, da cortiça, ali tudo à volta, homens e mulheres, entanto começaram a parar, numa ideia da solidariedade. Ou seja, nasce aqui também uma ideia muito engraçada dos protestos, que é, eu não estou em greve por mim, estou em greve por estes operários, quase uma noção de classe, sim. Sim, totalmente.

Quando começa a luta de classe é precisamente esta noção de que... E aquela ideia do podia ser sobre mim, não é, por acaso? Sim, é um direito e eu estou alinhado com. Tal e qual. E, portanto, vão-se juntando operários de outras indústrias, tal e tal, tal e qual, até que Setúbal para. A coisa vai-se arrastar num braço de ferro, até que a 13 de Março, portanto, esse 1911, a coisa fica verdadeiramente

feia. Há várias versões, mas o essencial é isto. Uns industriais, alguns até levaram as famílias lá para dentro das fábricas para trabalhar no peixe e queriam levar até ao comboio, até à linha do comboio em Setúbal. Juntaram-se em carroças, quase foram à greve, mas no fundo é o que diríamos hoje.

nomeadamente sabemos até o nome das frases das fábricas que fizeram isto, Mariano Lopes e Chancerelle. Agora, os gravistas não estavam pelos ajustes e os donos das fábricas pediram ajudas à recém-criada Guarda Nacional Republicana que vai para lá.

E faz umas escoltas Para as coisas passarem Para as carroças do peixe Agora as carroças lá passam Pela Avenida Luisa Toddy, ainda hoje a Avenida Principal de Setúbal Houve pedradas, houve gritos Houve não há direito, nós estamos em greve Estes gajos são os filhos da puxa E depois há tiros

de um cabo da guarda que vai a cavalo e dispara e o resultado, 11 operários feridos e dois mortos, até sabemos quem foram Mariana Torres de 42 anos e António Mendes de 19 e isto vai ser o rastilho da primeira tentativa de greve geral em Portugal, em resposta àquilo que ficou conhecido como os fuzilamentos de Setúbal, mataram dois trabalhadores que estavam a relamar

Isto foi um choque emocional, não foi? Certamente. Nos operários, sim. Entre os operários foi, absolutamente. A coisa galgou para um sítio estranhíssimo. E então, chamaram-lhes Fusilamentos de Setúbal, não é? E então eles juntaram-se todos e resolvem deixar de trabalhar durante 24 horas, no dia 20 desse mesmo ano. Agora, a coisa vai arrancar logo com distúrbios no sítio onde saíam os elétricos em Lisboa, que é em Santa Mar.

em Alcântara, e depois vão juntando milhares e milhares de operários precisamente nas zonas industriais que nós falámos. Alcântara, Sabregas, Beato, Poço do Bispo também chegam ecos de que em Almaden e Setúbal as pessoas tinham se juntado à greve e depois eles todos, estes operários, milhares de pessoas, vão se juntar no terreiro do Passo, que é onde estavam os ministérios para se protestar a dizer não, queremos trabalhar.

temos de fazer uma viagem no tempo pensar que a forma da organização disto é muito complexa não há comunicação não há telemóveis, não há redes sociais não há nada, esta gente tinha que estar alinhada há reuniões à noite e perceber um bocadinho a espuma do dia como é que a coisa vai o drive da coisa as pessoas viviam provavelmente mais segregadamente viviam mais nos bairros operários que haviam à volta daquilo que é o professor

e encontravam-se, iam às suas reuniões dos sindicatos, já sabiam, à quarta-feira à noite encontramos-nos na Associação Recreativa imagina, voz do operário seja onde for a guarda vai responder a cavalo, a guarda a cavalo vai responder com força pancada, prisões os tipos das lojas das baixas começam a fechar com medo que isto venha oi, oi, oi a Luvar e Ulisses, não vai levar vou levar umas chapadas de luva branca a Luvar e Ulisses

Olha, tem uma luva branca aí, para quê? Não dá uma chapana. Sorte. A coisa não vai andar nem desandar, os trabalhadores continuam-se a manifestar, os patrões não cedem e vêm a guarda e levam nos contos, até que começam mesmo a esmortecer. Agora, até porque há a brincar, a brincar, estavam há um mês a fazer estas manifestações com greve. O que significa

que não havia dinheiro em casa, deixou de haver pão na casa dos operários, então voltaram a trabalhar, claro. Quem vai resolver a coisa nesta altura é o governador civil de Lisboa, que temendo que aquilo desse um banho de sangue gigantesco, consegue um acordo, apenas uma das reivindicações foi aceita, passavam a trabalhar oito horas por dia, nove no verão para se aproveitar mais uma hora.

No fundo, isto foi uma gérrima vitória para o movimento operário. Foi quase um tomem lá para escalar e saiam daqui. E depois vieram contestações noutros pontos do país que vão extravasar pela primeira vez a cintura operária de Lisboa. E mais uma vez, repressão policial. E assim, no dia 28 de janeiro de 1912, vai ser decidida a primeira greve geral nacional da história.

de Portugal. Vai ser convocada pela União dos Sindicatos Operários e em solidariedade com o quê? No Alentejo, os agricultores estavam a protestar, os lavradores estavam a protestar há muito tempo contra as condições terríveis de vida no campo. A polícia vai lá, a guarda, no caso, vai lá, mata dois nestes confrontos passavam-se da boca, tiravam pedras.

E então, estavam há meses nestes protestos. Ou seja, no fundo, eram coisas muito básicas que eles estavam a pedir. Um salário que desse para comer, descansar, trabalhar, não trabalhar mais de 10 horas a seguir. Parar um dia na semana. Era mesmo coisas muito básicas para nós hoje, pelo menos.

E, portanto, há dois mortos, até que os trabalhadores de Lisboa juntam-se todos em solidariedade com os tais agricultores do Alentejo e, pela primeira vez, juntam-se todos metalúrgicos, tipógrafos, os professores... Todas as profissões que estavam sindicalizadas. E decidiram parar todos juntos. Com esta ideia clara de se nós parámos todos, isto tem uma força gigantesca. Uma moça gigante, claro.

Hoje é as conserveiras de Setúbal. É muito mais fácil de dominar. E assim foi. E Lisboa acorda nesse dia de janeiro, olha à volta e pensa assim... O que é que se passa? Covid. Está tudo parado. É pandemia. Os elétricos não passam.

E os elétricos, em 1912, isto é uma coisa muito importante, isto é o sangue da cidade, quase. É o que leva toda a gente para o trabalho, de um lado para o outro. É o sangue mesmo, as artérias. Ah, percebi.

Portanto, sem elétricos, Lisboa para. E depois começam a olhar melhor, as fábricas fechadas, as oficinas fechadas, os taleiros parados, os muitos serviços também interrompidos, os funcionários públicos, o comércio também, as pessoas deixaram de não abrir, não é com medo e tudo mais, portanto, a cidade estava verdadeiramente parada.

os grupos de trabalhadores por todos os lados, faziam assembleias, faziam protestos, falavam de, vamos juntar-nos agora no terreiro do passo, todos à manífera. Tu tens um jeito para... Tu estás desde o início deste episódio, o teu panfleto imaginário... Não, não, não, não, não, não. Porque eu não sei o que é que é de demais. Pois não. Abaixo não sei o quê. Queremos café de mais qualidade. Claro.

queres um café? Matilde e então claro, eu acho que não havia elétricos mas havia imensa eletricidade as pessoas estavam elétricas verdadeiramente claro, claro, claro porque estavam embriagadas com este poder é o entusiasmo da coletividade também, não é? de perceber a força, claro e um país a parar é um efeito galvanizador também

É, e uma sensação de poder imenso. Nós conseguimos qualquer coisa. E Lisboa, isto vai durar três dias. Lisboa cai na mão dos operários que andavam por todo o lado a reclamar os seus direitos, a dizer não, pagamos, queremos lixeiras. O que é que diz? Me dá-te um exemplo. O povo é que é mais ordanha. Isso é uma frase altamente fascista. É, não é nada. É das vaquinhas dos açores. Eu acho ótimo, mas é uma frase...

Tu que não sabes o que é que has de reivindicar. Matilde, o que é que tu reivindicarias se pudesses? Veremos. Novos materiais. Quero dinheiro para comprar camas. Comprar camas. Câmaras. Ah, câmaras. Câmaras era a sua avó que dizia, não é? Porque Matilde agora quer filmar-nos de cima de baixo. Agora, claro, o governo ficou em pânico. Os patrões chegaram em pânico a dizer assim, estes gajos juntos...

Eu não tenho nada contra o povo, pior é quando se juntam terá pensado o governo. Mais de dois dá chatele. Só o Lançar é que tinha razão. Antes dele chegar. Exatamente. E depois começam os confrontos mais violentos. Os elétricos tentam passar, passam elétricos, escoltados pela GNR com cavalos de um lado e do outro. Imagina os tumultos disto. Há muitas fotografias.

O Yoshua Ben-Olel já anda de máquina na mão. Há muitas, muitas, muitas imagens desta história. Os trabalhadores passam elétrico, atiram pedras, que é tipo estamos em greve, tu filha de Maganda. Maganda era um um indiano, muito famoso de Lisboa. O Maganda. O Maganda. O Maganda. Este gajo é filho do Maganda. Pois é, o Maganda. Ali de Tulharas. É o Maganda de Tulharas.

há até bombas, pequenas bombas artesanais a rebentar isso aí, pronto, é que já é isso, foguetes a estela enquanto houver Santo António enquanto houver a realidade viva Santo António, viva bom nós estamos a fazer um pouco das reivindicações nada, nada pois ela é de Setúbal o governo é Distrito Setúbal, não é aquilo? é, um de todos

Vai responder. É declarado o estado de sítio, portanto, acabaram-se as garantias. Quando nós sabemos que é o estado de sítio. Novamente guarda na rua. Recolher obrigatório, não podes andar na rua. Mas ainda assim, durante aqueles três dias, a tropa sai para a rua. Até ao dia 31, portanto, ao fim de três dias de festa, as forças... A tropa, a tropa manhã.

Eu estou a perceber. E o ponto alto deste confronto vai acontecer eles foram indo embora, foram dispersar mas o core dos operários se quiseres o chefia dos movimentos barricaram-se na caça sindical no bairro alto.

na atual rua do século penso que é aí que ficava que é um dos centros da organização dos trabalhadores mas ficou ali a inteligência se quiseres deste movimento o cerca é total, a atenção no ar o que é que vai acontecer aquilo tudo a tropa assim FALÊ!

Estão a dizer, não saímos, não saímos. Tu não tens... Não dá mesmo. E claro, isto simbolizava quase... Era muito simbólico. O movimento operário está fechado nesta sede e lá fora está o cerco. O poder no poder. Claro, o poder a cercar.

Que era quase uma traição ao que tinha a imaginário do movimento operário tinha em relação à Primeira República. Pré-República, claro. Também tem que se organizar. E pedir coisas com calma também. Até que chovia copiosamente, eram quatro da manhã e os cerca de setecentos trabalhadores lá estavam barricados, começam a sair.

700? 700 pessoas. Começam a sair entre os muitos milhares. Estou a perceber, estou a perceber, claro. E lá vêm eles, a guarda republicana e os soldados fazem umas filas e eles lá vão no meio presos todos, não é? 700 pessoas presas. Vão saindo. Em fila de guerra.

Sim, ou amálgamas. É o nome rendo. E vão cantando uma música já famosa na altura, a Internacional. De pé, não sei o quê. Não é? Pois estavam a caminhar, estavam de pé. E vão ser levados para o Arsenal da Marinha e depois vão ser embarcados para navios. Tínhamos navios de prisão, no Tejo. É verdade, o navio Pérdolim Quer e a fragata Dom Fernandes, se quiseres saber.

Lá são prisões e lá ficam presos. E depois, por todo o país... Em Pleno Tejo? Em Pleno Tejo, sim. Eram prisões de barco. Para serem presos, claro. É para ver a terra ao longe mesmo, cegadinho. Para estarem que é. Sim, estás a ver a terra ali. E tem a ver com uma questão de espaço também. Pois, pois. 700 pessoas, não é que põe a gente.

de imediato, não é? E depois também por todo o país nos tais focos que tinha havido da greve geral, vão sendo reprimidos no Porto, em Braga, no Alentejo como disseste, claro. Tinha sido em Évora esses confrontos grandes, onde tinham matado dois agricultores protestadores protestadores da agricultura Sim, dois agricultores, Hugo É como se chama, não é? Sim, sim, sim

e pronto, levam nos cornos as sedes do sindicato são atacadas claro, levam nos cornos de Alentejo na margem sul, e há mortos há mais mortos a verdade é essa, é que o Estado por mais que tenha desmontado essa greve esse músculo poderosíssimo da voz do trabalhador dos trabalhadores, no fundo saem todos a perder disto e saem a perder até nos bolsos também saem um país de rastros porque três dias de paragem inselmovando inselmovando inselmovando inselmovando inselmovando inselmovando

Já no meio da própria... Sim, sim, sim. Da fragilidade da própria República. Não podemos fingir que quer o final da monarquia, quer os conturbados da Primeira República, teve a ver também com enormes crises económicas. O país já está... As pessoas quando são... Quando aperta... It's the economy stupid, como costuma-se dizer. Sim, sim. Não podias estar mais coberto de razão.

porque ninguém ganhou verdadeiramente a economia, se isso for importante perdeu os patrões perderam porque tiveram os negócios fechados e as vitórias foram muito poucas, muito poucas mesmo umas concessões ali, está bem, trabalham só 10 horas, os preços foram libertados, houve um lavar de mão, mas ninguém quem é que ganhou? Ninguém verdadeiramente, mas é o que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que é que

fica no ar esta certeza. Esta greve geral de 1912, a primeira em Portugal, deixou essa vitória no ar que é nós podemos nos juntar. E virar isto. E virar sempre isto. Sim, é verdade. É quase um momento fundador. Eles perceberam que a greve geral é possível, funciona até certa maneira. Conseguimos parar o país, conseguimos parar a capital do país e vai ser uma inúmeria.

nós conseguimos aspirar a nossa liberdade, nós conseguimos lutar, e os próprios patrões, e o governo percebeu, isto é cuidado com isto. E inédito até, então, na história de Portugal, não é? Ou seja, não há paralelo com uma mobilização de classes da base da sociedade, mesmo da base, mesmo da pirâmide da coisa, terem tido um efeito tão forte e determinado junto de toda a hierarquia...

E é o verdadeiro divórcio logo em 1912 entre o movimento operário e a Primeira República e a ideia da Primeira República. É o verdadeiro divórcio que vai fazer com que 14 anos depois o Estado Novo venha para ficar. A Primeira República foi perdendo e começa logo em 1912 a perder o apoio.

popular, pelo menos o movimento operário, sem dizer assim, afinal isto é a mesma maneira é só menos chique é só isso internacionalmente é só menos chique e portanto, quando hoje celebramos o primeiro de maio, que viemos de celebrar e nós hoje, claro, fomos aprimorando os direitos, não é? nós hoje falamos, se calhar, exigimos direitos com toda a razão, não é? a vocês direi melhor

que para um trabalhador de 1912 ficaria a pensar o quê? a Matilde quer uma viatura de serviço sim, sim, o que é? ao que isto chegou? viatura de serviço cartão galbo frota cartão galbo frota duas refeições pagas pelo patrão duas refeições num cartão, um voucher de isto é, é claro

mudou todo o conceito dos direitos das pessoas do direito e tudo mais mas não devemos esquecer muito como todos os outros direitos das pessoas em geral eles não são dados, não caem do céu são conquistados e às vezes são conquistados com cidades inteiras paradas e com mortos e tudo mais e portanto em 1912 o país parou e mostrou durante aqueles três dias quem é que verdadeiramente o fazia andar, porque ele só parou quem fazia andar parou a condensa disse assim, porque é que isto parou?

Doutora Então o jantar não vem para a mesa, Teresa? Tem de ir à cozinha buscar Vem e vem Olha, é muito curioso Eu estou a fazer um paralismo já há uns bons minutos De quando em vez Nós quando vemos o orçamento de Estado Aquela ferramenta, aquele instrumento Que no fundo determina a operação Do nosso ano É sempre assim E quando a associação dos trabalhadores Dos empresários se junta com o governo É sempre uma seca, não é?

aquele tópico de seca que nos passa um bocadinho quase já, um bocadinho na ótica de ruído mas a ideia é sempre a mesma nunca nenhuma das partes sai feliz dessas reuniões nunca têm efetivamente o que querem por absoluto, mas são as pequenas conquistas

E a soma desses anos todos, dessas lutas todas, que nos fazem ter os privilégios que alguns de nós nos parecem ter sido sempre assim, mas não foram. E este episódio está comprovado. A doença destas vidas. Sim, sim, isto é a base dos direitos mais básicos. Mesmo. Ou como nós os encaramos. Claro, claro, claro. E é verdade. E é muito essa ideia... Grande viagem. Sim, é verdade. É muito essa ideia do lado da barricada que se está. E a tal consciência dessas...

E é muito engraçado ver de onde vem e as lutas que nos trouxeram até hoje. Grande viagem, Hugo Van Der Ding. Tu estávaste sem saber onde te posicionar, mas fizeste de bom manifestante. Viste no fim, depois diz assim. Olha, sem causar muito ruído aqui neste episódio. É só tudo direito.

agradecer muito é um direito que vocês têm é o deve de ser e também pode ser um dever de comentarem estes episódios de partilharem, nós levamos muito em bom gosto, eu quero dizer que tenho sido muito feliz andar na rua com a rádio como o dia a dia profissional

e ser abordado por vocês e o vosso feedback sobre esta nossa maionese e de que forma é que nós fazemos parte também da vossa semana. E podem, devem comentar estes episódios porque isto funciona também com engajamento. Queres um engajamento? Toma lá o engajamento. Olha, temos aqui comentários sobre o nosso último episódio em Cuba ser cubano. Há coisas muito, sugestões muito bem colocadas para, por exemplo, diz aqui Lica Pérez, que fala numa série na Netflix, Cuba Libre, que... Eu acho que é da RTP, eu acho que ela...

Eu acho que ela passou primeiro na RTP e depois foi alojada num outro sítio qualquer. É, ela é da RTP. Não sei, nessas porcarias das plataformas, RTP Play ou Netflix ou HBO. Olha que adveteiros de direitos trabalhadores. Não podes dizer essas coisas da tua própria identidade. A tua entidade patronal. Muitos comentários a dizer onde é que estão a ouvir isto. Obrigado por estarem a partilhar também da vossa vida. Estão a ouvir nas orelhas? Onde é que vocês haviam de estar a ouvir isto? Não, nas cidades, nos sítios.

E também há aqui uma mensagem muito importante do Júlio César O próprio! O Júlio César! Ele que manda nisto tudo! Mete um hashtag e diz Free Matilde! Beijo from London! Isto tem a ver com os tosos da Matilde que como repararam há uma total ausência neste episódio. Eu também tenho uma mensagem! Tens uma mensagem? Tenho, que é uma mensagem muito especial. Do proletariado? Muito giro! A Patrícia Girão diz Tiago e Hugo, no próximo episódio podem mandar-me uma beijoca.

diz ela que também é ilustradora não percebi se me está a incluir deve ser, tu és ilustradora de vez em quando mas faço retratos e amo ouvir-vos enquanto estou a desenhar maravilha, Patrícia Girão muitas beijocas, não podíamos gostar mais desta mensagem

Onde tem um beijinho da Matilde Mais um episódio com a produção da Força de Produção O apoio da Bacana Play A narração, a locução da Mia Tomé A banda sonora do Noise Earth O vídeo é da nossa Tocinhas preferida A Matilde Calado É só direitos Domingo estamos de regresso para mais um novo episódio De Vamos Viajar na Maionese Beijinhos e abraços Vamos viajar na maionese Com Hugo Van Der Ding e Tiago Ribeiro

EP61 Assim não trabalhamos! | Castnews Index — Castnews Index