Episódios de De Tédio o Intérprete não morre

#26 | O Relógio do Apocalipse da nossa profissão

23 de julho de 202627min
0:00 / 27:58

Apresentação: @wharlley.santos

Inspirado no famoso Relógio do Fim do Mundo, criado para simbolizar o quão próxima a humanidade está de uma grande catástrofe e no meu novo hiperfoco, o filme Vingadores: Doomsday da Marvel, este episódio propõe uma pergunta incômoda: quão perto está a profissão de Tradutor e Intérprete de Libras-Português de um ponto de não retorno?

Participantes neste episódio1
W

Wharlley dos Santos

HostMestre e doutor em estudos da tradução
Assuntos4
  • Sabotagem e comportamento destrutivoTribunal Profissional · Gabriel Galípolo · Cancelamento Profissional · Feedback vs. Humilhação
  • Sinais do ApocalipseRelógio do Juízo Final · Profissão de Tradutor e Intérprete de Libras-Português · Críticas e Exposição nas Redes Sociais · Medo e Cansaço Profissional
  • Vingadores: Doomsday - Trailer VazadoDoutor Destino · Multiverso · Robert Downey Jr. · Diversidade Profissional
  • Força do trabalho coletivoPrecarização do Trabalho · Falta de Políticas Públicas · Crítica Responsável · Diversidade de Interpretação
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
WDWharlley dos Santos

Existe um relógio que não marca apenas horas. Ele marca o quanto a humanidade está próxima de provocar a própria destruição. Conhecido como o Relógio do Juízo Final ou o Relógio do Apocalipse, ele está hoje a apenas 85 segundos da meia-noite. Nunca estivemos tão perto. E nesse relógio simbólico, a meia-noite representa a catástrofe. O momento em que as escolhas acumuladas deixam de ser somente ameaças e se transformam em consequências irreversíveis.

Criado em 1947 pelo Bulletin of the Atomic Scientists, o relógio surgiu no contexto das ameaças nucleares, pouco depois da Segunda Guerra Mundial, e com o passar do tempo passou a considerar também outros perigos produzidos pela própria humanidade, como a crise climática, as guerras, as tecnologias disruptivas e a incapacidade dos governos de responder coletivamente a essas ameaças. Ele não prevê uma data exata para o fim do mundo, fique tranquilo.

Seus ponteiros funcionam como um alerta: quanto mais ignoramos os sinais, mais nos aproximamos da meia-noite, ou seja, do nosso fim. Mas o que aconteceria Se tomássemos essa mesma perspectiva e aplicássemos à profissão dos tradutores e intérpretes no par Libras-Português? Como discutimos no episódio 13 desse podcast, uma profissão não termina apenas quando deixa de existir oficialmente. Ela também pode acabar por dentro, quando perde suas referências, quando seus profissionais deixam de confiar uns nos outros e quando a formação, a ética e o diálogo são substituídos pela exposição, pelo julgamento e pelo medo.

Se existisse um relógio do apocalipse da nossa profissão, quanto tempo faltaria para meia-noite? Estaríamos a anos de distância ou restariam apenas alguns segundos? Cada profissional exposto publicamente, cada vídeo retirado de contexto, cada crítica transformada em humilhação e cada escolha interpretativa julgada como se existisse uma única maneira correta de interpretar, fazem esse ponteiro avançar rapidamente. Aos poucos, a profissão deixa de ser um espaço de aprendizagem e passa a funcionar como um tribunal permanente, no qual todos nós podemos ser os próximos acusados.

Talvez o fim do Chillspeak não aconteça com o desaparecimento dos postos de trabalho ou com a revogação de uma lei. O que eu proponho aqui é muito mais um exercício. Talvez ele comece quando os profissionais passam a trabalhar com medo, quando deixam de compartilhar suas experiências e quando já não acreditam que seja possível errar, aprender e, principalmente, continuar. Ainda não é a meia-noite, mas os ponteiros estão se movendo.

Lentamente. E a pergunta que orienta este episódio é urgente: Quanto tempo ainda falta para chegarmos a um ponto de não retorno? Eu sou o Arley dos Santos, mestre doutor em estudos da tradução, e no episódio de hoje, embalados pelo futuro filme dos Vingadores, o Doomsday, Dia do Juízo Final, e o vídeo postado na rede social, no Instagram da Gabriela Micheletti, sobre o excesso de críticas dos nossos colegas de trabalho, vamos refletir o quão perto estamos do fim da nossa profissão como a conhecemos hoje.

Porque, como você sabe, de tédio o intérprete não morre. Sejam todos bem-vindos. Como vocês sabem, o universo nerd sempre exerceu um fascínio muito particular sobre mim. Filmes, séries, quadrinhos e videogames nunca foram apenas formas de entretenimento. São narrativas que me ajudam a pensar sobre identidade, poder, escolhas, conflitos e possibilidades de futuro. Talvez seja justamente por isso que eu tenha tanta facilidade para relacionar essas histórias com o meu universo profissional da tradução e da interpretação.

Nos dois casos, estamos diante de universos complexos, atravessados por diferentes linguagens, perspectivas e maneiras de compreender a realidade. E uma das produções que mais despertam a minha curiosidade nesse momento é Vingadores: Doomsday. Até agora, a Marvel não divulgou uma sinopse completa que me permita contar toda a história do filme com segurança sem dar spoilers. O que está oficialmente confirmado é que a narrativa colocará os nossos conhecidos heróis contra o Doutor Destino.

A reunião de personagens ligados aos Vingadores, ao Quarteto Fantástico, aos X-Men e a outros núcleos indica um confronto em grandes proporções, possivelmente relacionado às colisões e aos desequilíbrios entre diferentes realidades do multiverso. O filme tem estreia anunciada para 18 de dezembro de 2026 e eu terei meus ingressos na mão em breve. O próprio título do filme já estabelece um diálogo direto com o tema deste episódio.

A palavra Doomsday pode ser traduzida como dia do juízo final, dia da condenação ou, em determinados contextos, como religioso, apocalipse. Não se trata apenas de uma ameaça externa em que os heróis precisam derrotar. A ideia sugere um momento decisivo no qual diferentes conflitos acumulados chegam ao limite e todos precisam enfrentar as consequências das escolhas feitas anteriormente. Essa imagem se aproxima muito da situação atual dos tradutores e intérpretes no Parlíbrias Português.

Assim como ocorre nas grandes vitórias dos Vingadores, a profissão reúne pessoas diferentes, com competências, trajetórias, estilos e estratégias distintas. O problema começa quando essa diversidade deixa de ser compreendida como parte da força da categoria e passa a ser tratada como uma ameaça. Quando alguém acredita possuir uma única técnica correta, uma única forma legítima de interpretar ou a autoridade absoluta para julgar os demais, surge uma espécie de doutor destino profissional.

A pretensão de controlar toda a realidade a partir de uma única visão. Aliás, Doutor Destino é meu vilão favorito. O multiverso também oferece uma metáfora importante: um mesmo acontecimento pode ser percebido de diferentes formas conforme o contexto, o público, a língua, o gênero, as condições de trabalho, etc. Do mesmo modo, um texto de partida não conduz inevitavelmente a uma única interpretação possível. Existem escolhas, caminhos e soluções distintas.

E isso não significa que qualquer resultado seja aceitável ou que os erros não possam ser analisados, muito pelo contrário. Significa apenas que avaliar uma interpretação exige critérios, contexto e principalmente responsabilidade, e não somente a comparação com aquilo que cada pessoa faria em seu próprio universo. Há ainda algo profundamente simbólico na escolha do Robert Downey Jr. Para quem não sabe, ele foi o Homem de Ferro durante toda a saga do Universo Marvel e agora volta para interpretar o Doutor Destino.

O rosto que o público aprendeu a reconhecer como Tony Stark retorna associado a outro personagem. Isso nos obriga a desconfiar das aparências e das associações imediatas. O mesmo acontece conosco na nossa profissão. Também precisamos aprender que um pequeno recorte não revela necessariamente quem é aquele intérprete e quais eram as suas condições de atuação, ou ainda em que decisões orientaram seu trabalho. Reconhecer um rosto não significa reconhecer toda a sua história.

Talvez Vingadores: Doomsday nos ajude a perceber que nenhum universo é preservado por um único herói isolado. Da mesma maneira, a tradução e a interpretação não serão fortalecidas por indivíduos que se apresentam como proprietários da verdade, mas por profissionais capazes de trabalhar coletivamente, reconhecer diferentes competências e construir critérios que possam ser compartilhados. Diante do nosso próprio relógio do apocalipse, a pergunta deixa de ser apenas quem está certo ou quem está errado, Precisamos perguntar se as nossas escolhas profissionais estão nos ajudando a proteger a profissão ou acelerando a chegada de sua meia-noite.

Como eu citei no começo do episódio, o relógio do Juízo Final não é um relógio de verdade. Ele não possui um mecanismo que o avance sozinho nem realiza uma contagem regressiva literal para o fim do mundo. Trata-se de uma representação simbólica, criada para responder uma pergunta bastante concreta: o quanto as decisões humanas estão aproximando toda a humanidade de uma catástrofe global? Esse relógio, a meia-noite representa o ponto de catástrofe.

Quanto mais os ponteiros se aproximam dela, maior é o nosso risco. O horário não indica quantos segundos realmente restam, mas traduz de maneira intersemiótica, uma avaliação coletiva sobre o estado do mundo. É uma maneira simples de tornar visível ameaças tão grandes, tão complexas e tão espalhadas que, por muitas vezes, parecem impossíveis de compreendermos em conjunto. Quem define esse horário é o Conselho de Ciência e Segurança do Bulletin of the Atomic Scientists.

Seus especialistas analisam fatores como armas nucleares, guerras, mudanças climáticas, ameaças biológicas, desinformação tão presente nos dias de hoje, inteligência artificial e o enfraquecimento da cooperação internacional. O relógio mede não apenas a existência desses perigos, mas também a capacidade, ou a incapacidade, de governos, instituições e sociedades responderem a eles. Foi criado em 1947, no início da era nuclear, quando o mundo ainda enfrentava as consequências da Segunda Guerra Mundial e percebia que havia adquirido os meios para produzir a sua própria destruição.

Naquele momento, marcavam-se 7 minutos para a meia-noite. Desde então, seus ponteiros avançaram e recuaram conforme os riscos aumentaram ou foram reduzidos. Em 2026, chegamos então a 85 segundos da meia-noite, a posição mais próxima da catástrofe de toda a sua história. Mas o aspecto mais importante do relógio talvez não seja o horário que ele marca. Sua principal função é nos lembrar de que uma catástrofe raramente começa no momento em que tudo desmorona.

Antes do colapso existem sinais, decisões equivocadas, alertas ignorados e oportunidades desperdiçadas. Os ponteiros mostram justamente esse processo. O desastre ainda não aconteceu, mas as condições que podem torná-lo possível estão sendo construídas diante dos nossos olhos. E mesmo assim parece que ninguém dá a mínima. Recebemos notícias sobre guerras, ameaças nucleares, eventos climáticos extremos e tecnologias que avançam sem que seus impactos sejam plenamente compreendidos.

Tudo aparece na tela, disputa por nossa atenção por alguns segundos e logo é substituído pela próxima notícia, pelo próximo vídeo, pela próxima obrigação, pela próxima tradução, pela próxima interpretação. O extraordinário se tornou cotidiano e o perigo se transformou num ruído que nos incomoda. Essa indiferença pode ser compreendida a partir de um livro que eu tenho muito interesse de ler, que é A Sociedade do Cansaço, discutida por Yuval Noah Harari.

Vivemos submetidos à pressão constante por desempenho, produtividade, presença e resposta imediata, ainda mais eu, uma pessoa TDAH. Precisamos trabalhar, produzir, publicar, acompanhar, comentar, traduzir, interpretar e demonstrar que estamos continuando, que estamos funcionando a plenos vapores. O resultado é um cansaço que não extingue apenas o corpo, ele também diminui a nossa capacidade de atenção, reflexão e reação coletiva.

Talvez seja simplesmente que as pessoas não se importem, talvez estejam ocupadas demais, exaustas demais ou anestesiadas demais, para transformar uma preocupação em ação. Sabemos que os ponteiros estão avançando, mas continuamos vivendo como se a meia-noite fosse um problema distante, destinado a outras pessoas. E essa passividade também movimenta o relógio, porque aquilo que ninguém enfrenta continua crescendo. O relógio importa justamente porque tenta interromper essa anestesia.

Ele transforma crises abstratas em uma imagem direta. O tempo está diminuindo. Entretanto, também mostra que o fim não é inevitável. Em outros momentos históricos, seus ponteiros já recuaram. Se foram as decisões humanas que o fizeram avançar, outras decisões podem afastá-los da meia-noite. Para isso, porém, é preciso reconhecer os sinais antes que o colapso seja tratado como algo normal. E é aqui que nós precisamos deslocar esse olhar.

Porque uma profissão também pode apresentar sinais de esgotamento muito antes de desaparecer oficialmente. Ela pode continuar existindo nas leis, nos cursos, nos contratos, nos eventos, enquanto se desfaz internamente, quase sem que seus próprios profissionais percebam. Se aplicássemos a lógica desse relógio à nossa profissão, o que os seus ponteiros estariam medindo? E mais importante, quanto tempo faltaria para a nossa meia-noite?

Deixa aqui nos comentários. O vídeo que inspira essa reflexão, o da Gabriela Micheletti, começa com uma constatação incômoda para muitos de nós. Cada vez mais os profissionais têm seus trabalhos retirados de contexto e expostos nas redes sociais. Um fragmento de poucos segundos passa a ser apresentado como se resumisse anos de formação, experiência e dedicação à profissão. Em vez de analisarmos uma escolha interpretativa situada, transformamos o intérprete em um acusado.

Em vez de construirmos conhecimento, construímos um tribunal. E nesse tribunal, quase ninguém parece interessado em compreender o contexto antes de anunciar uma sentença. O que Gabriela relata demonstra o que muitos de nós pode estar passando neste momento. O que a Gabriela relata em sua postagem é um aspecto que passou a conviver com muitos de nós: a expectativa de sermos cancelados, inclusive eu. Ela se pergunta se chegou o dia em que alguém recortará uma de suas produções e a transformará no assunto da vez.

E isso revela algo muito grave: o medo já entrou no nosso espaço de trabalho, seja ele presencial ou remoto. O intérprete não precisa mais pensar somente no texto, no público, nas línguas envolvidas e nas condições da atividade. Agora ele também precisa imaginar como cada movimento pode ser capturado, descontextualizado, postado nas redes sociais e utilizado contra ele. O mais perverso é que não existe escolha capaz de proteger completamente esse profissional.

Se trabalha sozinho, deveria estar em equipe. Se trabalha em equipe, questionam sua presença. Se desenvolve uma técnica própria, acusam-no de exagerar. Se atua de maneira mais contida, dizem que lhe falta expressão. Se busca visibilidade, tá querendo aparecer. Se permanece invisível, não contribui para a área. Ou seja, quando qualquer escolha pode ser convertida em acusação, talvez já não estejamos mais avaliando o trabalho do intérprete.

Talvez estejamos apenas procurando a próxima pessoa para ser atacada. Os comentários da publicação da Gabriela confirmam que esse sentimento não é individual. Muitas pessoas descrevem a internet como um tribunal e denunciam uma categoria marcada pela desunião, pela disputa e pela dificuldade de apoiar o crescimento dos próprios colegas. Há profissionais que dizem pensar em abandonar a área. Há iniciantes que relatam estar perdidos e com medo de experimentar porque ainda não sabem qual estilo será aceito sem uma devida punição.

Há também quem recorde de que a crítica construtiva ou, nesse caso, a crítica destrutiva afasta bons profissionais e enfraquece de toda a comunidade. Entretanto, os comentários também apresentam divergências interessantes. Algumas pessoas defendem que quem se expõe nas redes deveria aceitar qualquer julgamento. Outras questionam os limites entre mediação linguística e performance, o protagonismo das pessoas surdas, a monetização da Libras e a relação entre prática profissional e conhecimento acadêmico.

Essas questões são legítimas e precisam ser debatidas. O problema não está na existência do conflito. O problema começa quando abandonamos os argumentos e passamos a atacar reputações, atribuir intenções e reduzir pessoas inteiras aos erros que acreditamos, sobre os nossos olhares, ter encontrado. Precisamos ser duros conosco. Uma categoria que confunde informação com humilhação não está amadurecendo. Ela está se autodestruindo.

Uma categoria que celebra o erro do colega, como vimos no episódio 24, o Schadenfreude e o prazer em ver o colega falhar, mas se silencia diante da precarização, dos baixos valores pagos, da ausência de preparação, das jornadas inadequadas e das faltas de políticas públicas perdeu completamente a noção de prioridade para nossa profissão. Nos tornamos especialistas em vigiar expressões faciais, escolhas lexicais e estilos individuais, enquanto problemas estruturais avançam sem receber a mesma energia.

Cadê o bacharelado em todas as universidades federais? Muitos juízes, pouca organização. Muito julgamento e pouca luta coletiva. Isso não significa proteger trabalhos inadequados, nem criar uma espécie de pacto de silêncio. Os erros existem, podem prejudicar a comunicação e devem ser corrigidos. Mas uma crítica técnica apresenta critérios, considera o contexto, dialoga com os estudos da área, escuta as pessoas surdas e aponta possibilidades de aprimoramento.

Isso é um feedback. A exposição destrutiva faz o contrário: seleciona um alvo, simplifica o problema, mobiliza indignação e transforma sofrimento em engajamento. Uma prática forma profissionais, a outra produz medo. Também precisamos abandonar a fantasia de que existe uma única interpretação correta para todos os textos, todos os públicos e todos os contextos. Isso não existe. A interpretação envolve competências, técnicas e responsabilidades, mas também envolve decisões.

Diferentes profissionais podem construir soluções distintas sem que todas as diferenças sejam necessariamente erros. Respeitar essa diversidade não significa aceitar qualquer coisa. Significa avaliar com seriedade, considerando o encargo, o gênero discursivo, as condições de preparação, as necessidades do público e os efeitos produzidos pela interpretação. A realidade precisa ser dita sem suavização. Ninguém virá de fora para salvar a profissão enquanto nós, os próprios profissionais, trabalhamos para destruir uns aos outros.

Leis não produzem união automaticamente. Diplomas não produzem ética. Códigos profissionais não substituem a maturidade coletiva. Se continuarmos transformando colegas em inimigos, estudantes em pessoas aterrorizadas pelo medo do erro e redes sociais em arena de condenação, não precisaremos esperar que instituições eliminem os nossos postos de trabalho. Nós mesmos já teremos criado uma profissão na qual ninguém quer ser. Interprete, ou que ninguém deseja permanecer.

O único caminho possível é a união, mas a união não significa concordância permanente. Significa discutir sem desumanizar, corrigir sem humilhar, discordar sem destruir, e compreender que o crescimento de um colega não diminui o espaço dos demais. Ou aprendemos a construir uma comunidade profissional capaz de formar, acolher, responsabilizar e lutar coletivamente? Ou assistiremos ao esvaziamento da profissão enquanto disputamos quem estava mais certo em um vídeo de poucos segundos?

Lembre-se, os ponteiros estão avançando. Ou vamos nos unir agora, ou a meia-noite da profissão chegará enquanto ainda estivermos ocupados escolhendo quem vai ser o próximo alvo. Ao longo desse episódio, o relógio do Juízo Final nos ajudou a compreender que nenhum colapso começa exatamente no momento em que tudo termina. Antes da meia-noite, há uma sucessão de sinais ignorados, conflitos acumulados e escolhas que pareciam pequenas quando foram feitas.

Ah, é só um comentário na rede social. Na profissão dos Chilsp, os ponteiros avançam sempre que transformamos colegas em adversários, diferenças em defeitos e críticas profissionais em instrumentos de exposição pública. O fim da profissão não significa necessariamente o desaparecimento imediato dos intérpretes. Poderíamos continuar tendo cursos, contratos, eventos, pesquisas e legislação, enquanto perdemos pouco a pouco aquilo que sustenta uma categoria profissional, que é confiança, colaboração, pertencimento e a capacidade de organização coletiva.

Uma profissão pode até permanecer formalmente viva e, ao mesmo tempo, estar profundamente adoecida em suas relações internas. Enquanto nos ocupamos em encontrar falhas no trabalho dos outros, ameaças muito mais concretas continuam avançando. A precarização das condições trabalho, os baixos valores pagos, a ausência de preparação, a contratação de pessoas sem formação adequada, fragilidade das políticas públicas e o desconhecimento sobre as atribuições dos nossos colegas profissionais não serão enfrentados individualmente.

Uma categoria dividida pode até produzir muito barulho, mas será pouca força diante daqueles que se beneficiam da nossa desorganização. E isso não significa, e eu preciso repetir, que devemos silenciar os erros ou aceitar qualquer prática em nome de uma união superficial. Não é isso. Os problemas precisam ser discutidos, especialmente quando comprometem os direitos linguísticos das pessoas surdas e a qualidade dos serviços prestados.

Mas existe uma diferença profunda entre responsabilizar e humilhar. A crítica responsável, ou seja, o feedback, apresenta critérios, examina o contexto, considera condições de trabalho e oferece possibilidades de aprimoramento. A exposição destrutiva apenas escolhe um alvo e transforma sua reputação em entretenimento. Também precisamos compreender que união não significa uniformidade. Não precisamos interpretar da mesma maneira, concordar com todas as escolhas ou compartilhar uma única concepção sobre a nossa profissão.

Técnica, estratégia e estilo podem até ser debatidos sem que as diferenças sejam transformadas automaticamente em incompetência. Uma categoria madura não elimina seus conflitos. Ela cria condições para que esses conflitos produzam conhecimento, conhecimento, formação e avanço profissional. A pergunta que precisamos fazer antes de postar qualquer coisa nas redes sociais, principalmente relacionada a um colega, não é apenas se encontramos um erro.

Precisamos perguntar o que pretendemos construir com aquela exposição. Queremos colaborar com o desenvolvimento da área ou apenas demonstrar publicamente que sabemos mais? Queremos proteger os direitos das pessoas surdas ou transformar uma pessoa em exemplo de fracasso. A intenção não elimina as consequências. E nenhuma suposta preocupação profissional justifica a destruição irresponsável de uma reputação. A realidade precisa ser enfrentada com firmeza.

Ninguém vai vir salvar uma categoria que utiliza suas melhores energias para destruir os próprios colegas. Lembre-se: leis são fundamentais, diplomas necessários, código de ética extremamente importante, mas nenhum desses instrumentos substitui a responsabilidade coletiva. Se não aprendermos a defender os nossos direitos, qualificar nossas críticas, fortalecer nossas associações e acolher os processos de aprendizagem, teremos contribuído diretamente para o enfraquecimento daquela profissão que nós juramos que defendemos.

Ainda não é meia-noite, mas também não temos um tempo ilimitado. Afastar os ponteiros exige substituir o espetáculo pelo diálogo, a humilhação pela formação, o individualismo pela organização e disputa permanente pela construção coletiva. Nenhum intérprete, friso, nenhum intérprete sobreviverá possivelmente por muito tempo em uma categoria consumida pela desconfiança. Quantos colegas você já viu desistirem da profissão? Ou compreendemos que o futuro de cada um depende da força de todos, ou chegaremos separados ao fim de tudo aquilo que ajudamos a produzir.

A escolha ainda é nossa. Podemos continuar procurando o próximo culpado, Ou, finalmente, começar a construir, uns com os outros, um futuro melhor para a nossa profissão. Voltamos a qualquer momento com outras reflexões sobre o nosso pequeno mundinho da tradução e da interpretação. Porque, afinal de contas, de tédio o intérprete não morre.

#26 | O Relógio do Apocalipse da nossa profissão | Castnews Index — Castnews Index