#27 - Por uma digievolução dos TILSP
Apresentação: @wharlley dos Santos
Inspirado no universo de Digimon, este episódio propõe uma metáfora sobre o amadurecimento profissional. Assim como os Digiescolhidos só alcançavam novas formas quando desenvolviam suas virtudes e aprendiam a trabalhar em equipe, a profissão também precisa evoluir. Não basta esperar que o mercado mude, que novas leis sejam aprovadas ou que alguém resolva nossos problemas. A verdadeira transformação começa quando a categoria investe em formação, colaboração e desenvolvimento contínuo.
Wharlley dos Santos
- Força do trabalho coletivoEvolução tecnológica · Evolução institucional · Evolução individual · Evolução coletiva
- Diversidade e InclusãoProfissionais diversos · Trabalho em equipe · Valorização das diferenças
- Personagens e suas motivaçõesDigievolução · Crescimento pessoal · Superação de limites · Formação profissional
- Crescimento profissional e maturidadeDigimon Adventure · Amadurecimento profissional · Evolução da profissão · Formação e colaboração
- Crise na Formação DocenteDesafios profissionais · Fragmentação da categoria · Relógio do apocalipse
- Linguagem e escândalos em BrasíliaAdaptação audiovisual · Tradução e interpretação · Dublagem de Digimon
Não importa o quão difícil seja a batalha, enquanto estivermos juntos, sempre haverá um caminho. Essa nunca foi apenas uma frase de um desenho sobre monstros digitais. Era, na verdade, a essência da mensagem que o Genai tentava transmitir aos Digi escolhidos durante toda a jornada. Em nenhum momento ele prometeu que seria fácil. Em nenhum momento disse que eles venceriam sem perdas. Sem medo ou sem dúvidas. O que ele sempre repetiu era muito mais simples e ao mesmo tempo muito mais poderoso: enquanto permanecessem unidos, haveria esperança.
Talvez seja por isso que depois de tantos anos eu tenha voltado a pensar em Digimon. No episódio anterior deste podcast, de maneira bem pessimista, eu trouxe uma reflexão bastante dura sobre o futuro da nossa profissão. Falamos sobre o relógio do apocalipse, Sobre a sensação de que caminhamos para desafios cada vez maiores e sobre o risco de, aos poucos, permitirmos que a fragmentação da nossa categoria se torne mais perigosa do que qualquer outra ameaça externa.
Foi um episódio necessário, mas eu saí daquela conversa com uma inquietação. Eu havia falado sobre o tempo que ainda nos resta, mas não sobre aquilo que ainda podemos fazer com este tempo. E talvez a resposta estivesse escondida em uma das minhas lembranças da infância. Quando eu penso na nossa profissão, eu não vejo uma categoria fraca. Muito pelo contrário. Eu vejo pesquisadores excelentes produzindo conhecimento de alto nível.
Vejo intérpretes extraordinários atuando nos mais diversos contextos. Vejo docentes brilhantes formando novas gerações de profissionais. Vejo lideranças importantes defendendo direitos. E construindo espaços institucionais. Vejo profissionais experientes compartilhando aquilo que aprenderam ao longo de décadas. E vejo também jovens inovadores chegando com novas ideias, novas ferramentas e novas formas de pensar a tradução e a interpretação.
Quanto mais eu observo essa diversidade, mais ela me lembra dos Digi Escolhidos. Nenhum deles era igual ao outro, nenhum possuía as mesmas qualidades. Os mesmos medos ou as mesmas habilidades. E era justamente essa diferença que tornava possível enfrentar desafios que nenhum deles conseguiria superar sozinho. Eu continuo sendo uma pessoa preocupada com o futuro da nossa profissão, como você pode ver em todos os episódios do meu podcast.
Continuo acreditando que ignorar os problemas seria um erro. Mas existe uma diferença enorme entre reconhecer os riscos e aceitar a derrota. O próprio relógio do apocalipse nunca significou que era o fim inevitável. Significou apenas que ainda existe tempo para decidir qual futuro queremos construir. E talvez seja essa mensagem que eu gostaria de compartilhar com vocês hoje: ainda não é meia-noite. Ainda existem pessoas comprometidas com a formação, com a pesquisa, com a prática profissional e com o fortalecimento da nossa categoria.
Ainda existem profissionais dispostos a construir pontes em vez de muros. Ainda existem motivos para acreditar que a nossa maior evolução não será tecnológica, institucional ou individual. Ela será coletiva. E curiosamente, foi um grupo de crianças escolhidas para salvar o mundo digital que me fez lembrar disso. Eu sou Arley dos Santos, mestre e doutor em estudos da tradução, e no episódio de hoje, me lembrando do Holly Angemon, que na época de adolescência era o meu Digimon favorito, vamos conversar sobre novas perspectivas para a profissão a partir do anime que embalou a minha adolescência até Dona Fátima Bernardes tirar a TV Globinho do ar.
Porque, como você sabe, de tédio o intérprete não morre. Sejam todos bem-vindos. Lançado em 1999, Digimon Adventure surgiu em um momento em que a animação japonesa conquistava cada vez mais espaço no mundo. Embora frequentemente comparada ao Pokémon, seu irmão, as duas franquias seguiram caminhos bem distintos. Enquanto Pokémon se estruturava em torno da captura e do treinamento de criaturas para batalhas, Digimon escolheu contar uma grande história de aventura, amizade e amadurecimento.
Os monstros digitais eram importantes, mas sempre estiveram a serviço de uma narrativa muito maior. O crescimento de seus protagonistas. A história acompanha 8 crianças que, durante um acampamento de verão, são transportadas para o mundo digital, um universo formado por dados e redes de informação. Nesse novo mundo, cada uma delas encontra um parceiro digital e, juntas, passam a enfrentar ameaças capazes de colocar em risco tanto o mundo digital quanto o mundo humano.
Ao longo da jornada, cada batalha representa mais do que um confronto físico, Ela reflete os medos, inseguranças e desafios pessoais que cada personagem precisa superar para continuar avançando. Um dos grandes diferenciais da série está justamente na construção de seus personagens. Cada Digi escolhido possui uma personalidade muito própria, com qualidades, limitações e formas diferentes de enxergar o mundo. Essas diferenças deixam de ser obstáculos e passam a funcionar como a maior força do grupo.
Coragem, amizade, sinceridade, conhecimento, confiabilidade, amor, esperança e luz não aparecem apenas como palavras simbólicas no anime, mas como valores que orientam o desenvolvimento da narrativa e dão significado às famosas e tão queridas digievoluções. O mundo digital também contribui para tornar a série inesquecível. Apesar de nascer de um conceito tecnológico, ele não se limita a representar apenas computadores ou redes de maneira tão literal.
Florestas, desertos, montanhas, cidades futuristas e ruínas convivem todos num mesmo universo, criando um cenário de constante descoberta. A sensação era que, em cada episódio, nos era revelado um novo lugar, um novo desafio ou um novo personagem, mantendo viva a curiosidade do público do início ao fim. No Brasil, Digimon encontrou um público extremamente fiel, muito em função de sua dublagem, a tão conhecida dublagem brasileira.
A adaptação brasileira conseguiu equilibrar naturalidade, emoção e humor, preservando o espírito original da obra e tornando seus personagens ainda mais próximos dos espectadores. Muitas falas e momentos marcantes permanecem vivos nas memórias de quem acompanhou a série durante a infância, evidenciando a importância da tradução audiovisual na construção e experiência do público. Talvez seja justamente por isso que Digimon continue sendo lembrado com tanto carinho em mais de duas décadas após a sua estreia.
A série nunca foi apenas um desenho sobre monstros digitais. Ela combinou aventura, emoção, fantasia e desenvolvimento de personagem de uma forma que respeitava a inteligência do seu público. Ao revisitar a obra agora já na vida adulta, é possível perceber que muitas das reflexões presentes em sua narrativa permanecem surpreendentemente atuais, o que ajuda a explicar por que ela continua ocupando um lugar tão especial na memória de uma geração inteira.
Os Digi Escolhidos eram, antes de qualquer coisa, crianças absolutamente comuns. Ty era impulsivo e assumia naturalmente a liderança do grupo. Matt era mais introspectivo e frequentemente questionava as decisões tomadas. Sora possuía um forte senso de cuidado com as pessoas ao seu redor. Easy era o curioso e encontrava respostas onde mais ninguém conseguia enxergar. Mimi era espontânea, sensível e não escondia suas emoções. Já o Joey carregava o peso da responsabilidade e da preocupação constante com os outros.
E o TK, o mais novo do grupo, representava a inocência e a esperança. Kari, que se junta posteriormente à história, trazia uma serenidade e uma sensibilidade que frequentemente equilibravam os momentos de maior tensão. Ao lado de cada uma dessas crianças existia um parceiro Digimon, igualmente singular. Agumon era corajoso e determinado. Gabumon demonstrava lealdade incondicional ao Matt. Piyomon acompanhava a sensibilidade da Sora.
Tentomon compartilhava a curiosidade intelectual do Izzy. Pawmon refletia o jeito leve e afeitoso de Mimi. Gomamon equilibrava o excesso de responsabilidade de Joey com seu bom humor. Patamon, meu favorito, representava a pureza e a esperança ao lado do TK, enquanto o Gatomon ou Teiomon carregava maturidade e experiência ao acompanhar a Karen. Nenhuma dessas duplas era igual à outra, e justamente por isso cada uma conseguia contribuir de maneira única para a missão que haviam recebido.
Talvez essa seja uma das maiores qualidades de Digimon, A série nunca tentou convencer o espectador que existia um personagem melhor do que os demais, ou que todos precisavam agir da mesma maneira para alcançar seus objetivos. Muito pelo contrário, a narrativa mostrava repetidamente que aquilo que parecia uma diferença era na verdade a maior riqueza do grupo. O líder precisava do estrategista, o mais racional precisava daquele que enxergava pessoas.
O impulsivo precisava de quem o fizesse refletir. A coragem precisava da esperança. E a experiência precisava da criatividade. Nenhum deles reunia todas as qualidades necessárias para salvar o mundo digital. Mas juntos conseguiam construir algo que individualmente era impossível. Enquanto assistia novamente a série, comecei a perceber o quanto essa diversidade se parece com a nossa profissão. Nós também somos uma categoria formada por pessoas profundamente diferentes.
Existem profissionais que vieram da graduação em Letras Libras ou de outras áreas do conhecimento. Há quem esteja iniciando a sua trajetória, há quem acumule décadas de experiência. Existem pesquisadores, docentes, intérpretes comunitários, educacionais, jurídicos, midiáticos, conferencistas, profissionais autônomos e servidores públicos. Alguns dominam a tecnologia de ponta, outros carregam um repertório construído ao longo de anos de atuação.
Alguns produzem ciência, aliás, todos produzem ciência. Outros transformam diariamente essa ciência em prática profissional. Perceba que o problema nunca foi sermos diferentes. O problema começa quando deixamos de enxergar que pertencemos à mesma categoria. Quando permitimos que a formação se torne motivo de divisão e que o tempo de experiência se transforme em hierarquia permanente, ou que diferentes formas de atuação sejam utilizadas para definir quem pertence e quem não pertence ao nosso grupo.
Aos poucos, deixamos de agir como uma categoria profissional para nos comportarmos como pequenos grupos que disputam espaço entre Digimon propunha exatamente o contrário. Os Digi escolhidos nunca precisaram abrir mão de suas características para permanecerem unidos. Tai nunca deixou de ser impulsivo. Matt nunca deixou de ser questionador. Izzy nunca abandonou a sua curiosidade. Mimi jamais perdeu sua espontaneidade. A unidade do grupo não surgiu porque todos passaram a pensar da mesma forma.
Ela surgiu porque todos compreenderam que existe algo maior do que suas diferenças individuais. Talvez essa também seja uma reflexão urgente para nós. Uma categoria profissional não se constrói pela uniformidade, mas pelo reconhecimento de pertencimento. Podemos discordar sobre formação, sobre metodologias, sobre tecnologias, sobre modelos de atuação, e até mesmo sobre os rumos da nossa profissão. Essas diferenças são naturais em qualquer área consolidada do conhecimento.
O que não podemos perder é a consciência de que, antes de qualquer divergência, compartilhamos a mesma responsabilidade de fortalecer a mesma profissão. Porque no fim das contas, a nossa maior força talvez seja exatamente aquilo que às vezes insistimos em tratar como problema. Assim como os Digi-Escolhidos só conseguiram proteger o mundo digital porque aprenderam a valorizar aquilo que cada um tinha de singular, talvez o futuro da tradução e da interpretação também dependa da nossa capacidade de compreender que a diversidade de trajetórias, experiências e perspectivas não enfraquece a categoria.
É justamente ela que lhe dá condição de continuar evoluindo. Existe uma diferença importante entre uma categoria profissional e um grupo de pessoas que exercem a mesma atividade. Uma categoria profissional não é formada apenas porque indivíduos compartilham um ofício. Ela nasce quando essas pessoas passam a reconhecer que possuem interesses comuns, responsabilidades comuns e um futuro que também é comum. Uma categoria se organiza para defender condições de trabalho, produzir conhecimento, estabelecer parâmetros éticos, acolher seus novos integrantes, enfrentar desafios coletivos e construir continuamente sua própria identidade.
Ela compreende que o sucesso individual é importante, mas nunca suficiente para garantir a sobrevivência da profissão. Talvez por isso seja um equívoco Imaginar que uma categoria profissional deva funcionar como um grupo de amigos. Amigos escolhem estar juntos porque compartilham afinidades pessoais. Uma categoria profissional não depende de amizade, ela depende de compromisso. Ninguém precisa gostar de todos os colegas de profissão, ninguém precisa concordar com todas as ideias ou admirar as trajetórias.
O que se espera é algo muito mais maduro, o reconhecimento de que, apesar das diferenças, existe uma responsabilidade coletiva que ultrapassa preferências individuais. Então, por que ainda insistimos em caminhar sozinhos? Talvez porque seja mais fácil construir uma carreira individual do que fortalecer uma profissão inteira. É mais simples investir apenas na própria formação e na própria visibilidade e nos próprios trabalhos. As redes sociais, inclusive, reforçam essa lógica ao transformar cada profissional em uma pequena marca, constantemente estimulada a competir por espaço, atenção e reconhecimento.
Aos poucos, passamos a celebrar conquistas individuais, mas esquecemos de nos perguntar se essas conquistas também fortalecem a categoria à qual fazemos parte. E talvez a pergunta mais incômoda seja justamente essa: nós já nos comportamos como uma categoria profissional? Ou ainda somos apenas profissionais que, por acaso, exercem a mesma atividade? Porque uma categoria não se revela apenas nos momentos de celebração. Ela se revela quando enfrentamos crises, inclusive.
Ela aparece quando precisa defender seus membros. Construir consensos mínimos, dialogar com instituições, proteger sua formação e pensar nas próximas gerações. Se cada desafio coletivo continua sendo enfrentado por pequenos grupos isolados, talvez ainda tenhamos um longo caminho pela frente. E é exatamente aqui que Digimon volta a fazer sentido. Os Digi escolhidos nunca venceram porque pensaram da mesma maneira. Eles discutiam, discordavam, cometiam erros e muitas vezes enxergavam o mesmo problema por perspectivas completamente diferentes.
Ainda assim, quando surgia uma ameaça ao mundo digital, havia uma compreensão que sempre prevalecia: proteger aquele mundo era uma responsabilidade compartilhada. Nenhum deles perguntava se o problema era apenas do Tadinho, do Matt, da Sora ou do Wise. Não, o problema era de todos, porque todos pertenciam àquele mesmo mundo. Talvez seja justamente isso que nos falte. Não mais conhecimento, porque ele existe. Não mais profissionais competentes, porque eles existem.
Não mais pesquisadores, docentes ou lideranças, porque também já os temos. O que talvez ainda nos falte é desenvolver um sentimento mais profundo de pertencimento. Compreender que, independente da formação, da experiência, da área de atuação e da instituição onde trabalhamos, ou ainda das diferenças que naturalmente existem entre nós, pertencemos à mesma profissão. Enquanto nós não formos capazes de enxergar essa identidade coletiva, continuaremos enfrentando grandes desafios com a força de indivíduos isolados, quando poderíamos enfrentá-los com a força de uma verdadeira categoria profissional.
Talvez os Digi Escolhidos nunca tenham vencido seus inimigos apenas porque eram fortes. Eles venceram porque, diante de cada ameaça, lembravam que o destino de um estava ligado ao destino de todos os outros. E talvez seja exatamente a lição que nós precisamos aprender: uma profissão não se fortalece quando cada profissional se torna mais forte individualmente. Ela se fortalece quando seus integrantes compreendem que proteger a profissão é uma responsabilidade que pertence a todos.
Um dos aspectos mais bonitos na minha compreensão de Digimon é que a história nunca foi sobre as criaturas que ficavam mais fortes. Ela sempre foi sobre crianças que amadureciam, A verdadeira transformação acontecia primeiro nos Digi escolhidos e somente depois disso em seus parceiros Digimons. Cada conflito vivido ao longo da jornada obrigava os personagens a enfrentar seus próprios limites. Tai precisava aprender que liderar não significava agir impulsivamente.
Matt compreendia pouco a pouco que a independência não era sinônimo de isolamento. Sora descobria que cuidar dos outros também exige cuidar de si mesmo. Izi aprendia que nem todas as respostas poderiam ser encontradas pela lógica. Mimi deixava para trás parte da sua imaturidade e compreendia o peso das responsabilidades. Já o Joe percebia que a responsabilidade não significava carregar o mundo sozinho. TK transformava aos poucos sua ingenuidade em esperança consciente.
Enquanto Kari demonstrava que sensibilidade também pode ser uma forma de coragem. Cada personagem chegava ao final da série muito diferente daquele que iniciou a aventura. E é justamente desse amadurecimento que surgiam as Digievoluções. O estágio em treinamento representava um potencial ainda em desenvolvimento. A fase novato simbolizava os primeiros passos, quando o Digimon já possuía identidade própria, mas ainda estava descobrindo suas capacidades.
Né, Agumon? A evolução para Campeão acontecia quando os desafios exigiam mais do que a força inicial. E a fase Ultimate representava um nível de maturidade muito superior, alcançado após inúmeras experiências e aprendizados. E no fim, a Digievolução Mega não era simplesmente uma versão maior, e mais poderosa. Era a expressão máxima do potencial construído durante toda essa jornada. Nenhuma dessas transformações aconteceu por acaso.
Elas eram consciência e consequência do crescimento vivido pelos próprios Digi escolhidos. Quando eu penso na formação de tradutores e intérpretes, assunto que me é muito caro, essa metáfora me parece extremamente apropriada. Ninguém ingressa numa profissão plenamente preparado. Todo profissional começa sua trajetória em uma fase de descoberta. Aprende conceitos básicos, conhece as primeiras técnicas, comete erros, muitos erros, sente insegurança e começa a construir sua identidade profissional.
Com o tempo surgem as primeiras experiências reais, os primeiros clientes, os primeiros eventos, as primeiras dificuldades. Aos poucos aquilo que era apenas teoria passa a integrar a prática cotidiana. Talvez podemos imaginar que um novato seja o estudante que acabou de descobrir a profissão e começa a aprender sobre sua complexidade. O campeão vai aparecer quando esse profissional já consegue atuar com autonomia em diferentes contextos, mas ainda enfrenta desafios importantes.
O ultimate representa aquele intérprete que que desenvolveu segurança técnica, repertório, capacidade de adaptação e maturidade para lidar com as situações imprevisíveis da profissão. Já o último nível, o Mega, não deveria ser entendido apenas como o profissional mais experiente da sala. Talvez seja aquele que, além de dominar sua prática, possa contribuir para o crescimento da própria profissão, formando novos colegas, produzindo conhecimento, ocupando espaços institucionais e ajudando a construir o futuro da nossa categoria.
Mas talvez exista uma última digievolução que Digimon nunca mostrou. Uma digievolução que não pertence a um único personagem, mas a todo o grupo como um todo. Porque se existe algo que a série ensina repetidamente é que o amadurecimento individual nunca foi o seu objetivo final. O verdadeiro propósito era fortalecer o mundo digital. Cada digievolução fazia sentido porque contribuía para proteger algo maior do que o próprio personagem.
Talvez esse também seja o próximo passo da nossa profissão. Durante muito tempo, nossa preocupação esteve voltada para a evolução individual. Queremos interpretar melhor, pesquisar mais, ensinar mais. Ensinar melhor, dominar novas tecnologias, ampliar nossa atuação e construir carreiras sólidas. Tudo isso muito válido. Mas chega um momento em que a pergunta deixa de ser como eu evoluo e passa a ser como a minha evolução contribui para que a minha profissão também evolua.
Talvez a nossa profissão precise ela própria passar por uma digievolução. Título desse episódio. Não porque lhe faltem profissionais competentes, muito pelo contrário, mas porque ainda precisamos amadurecer como categoria. Precisamos deixar de medir o nosso conhecimento apenas pelas conquistas individuais e começar a avaliá-lo pela capacidade de fortalecer aquilo que compartilhamos. Uma profissão evolui quando protege seus espaços de atuação, quando forma novas gerações, quando produz conhecimento, quando estabelece relações de confiança entre os seus membros e quando compreende que o seu futuro depende de um projeto coletivo.
No fim das contas, e eu já estou me estendendo demais, talvez a maior lição de Digimon seja exatamente essa: digievoluir nunca significou tornar-se mais forte, significou tornar-se capaz de assumir responsabilidades maiores, E talvez seja justamente essa evolução que ainda esteja esperando por todos nós. Não apenas a evolução do tradutor ou do intérprete, mas a evolução da nossa própria profissão. No episódio anterior, eu utilizei a metáfora do relógio do Apocalipse para representar a sensação de que a nossa profissão atravessa um momento delicado.
E eu continuo acreditando continuo vendo desafios importantes, mudanças aceleradas e problemas que não podem ser mais ignorados. Talvez nesse momento da minha vida eu esteja mesmo olhando para tudo isso com um certo pessimismo, assumo. Talvez a realidade que eu tenho observado me faça prestar mais atenção aos riscos do que às possibilidades. Mas existe uma diferença muito importante entre reconhecer que o relógio está avançando e acreditar que ele já marcou a meia-noite.
Lembre-se: ainda não é a meia-noite. Essa talvez seja a frase mais importante e mais repetida deste episódio. Porque enquanto ainda houver tempo, também haverá responsabilidade. Ainda podemos escolher fortalecer nossa categoria em vez de fragmentá-la. Ainda podemos decidir que as divergências não precisam se transformar em divisões permanentes. Ainda podemos construir espaços de diálogos, formar novos profissionais, produzir conhecimento, defender melhores condições de trabalho e compreender que o futuro da profissão depende muito menos de um acontecimento extraordinário e muito mais de pequenas decisões que tomamos todos os dias.
Foi exatamente isso que os Digi-Escolhidos fizeram. Eles nunca souberam se venceriam a batalha seguinte. Nunca receberam a garantia de que tudo terminaria bem. Ainda assim, continuaram caminhando. Não porque ignoravam os perigos, mas porque entendiam que desistir significava entregar o mundo digital ao seu próprio destino. Talvez essa seja a diferença entre O pessimismo e a esperança. O pessimismo descreve os riscos, minha função aqui.
A esperança decide agir apesar deles, é o que eu espero de todos nós. Por isso, se eu pudesse deixar apenas uma mensagem ao final dessa conversa, ela seria muito simples: lembre, ainda não é meia-noite. E enquanto os ponteiros não alcançarem esse momento, a história continua aberta. O futuro da nossa profissão ainda está sendo escrito. A pergunta que permanece não é se o relógio está correndo, porque ele tá. A pergunta é o que nós vamos fazer com o tempo que ainda temos.
Quando eu cheguei no último episódio de Digimon Adventure, uma coisa ficou muito clara: os Digi Escolhidos não venceram porque se tornaram invencíveis. Eles venceram porque deixaram de agir como indivíduos que por acaso estavam enfrentando o mesmo inimigo e passaram a agir como um grupo que compartilhava o mesmo destino. Cada batalha enfrentada ao longo da jornada havia preparado aquelas crianças para compreender que nenhuma qualidade era suficiente sozinha.
A coragem precisava da amizade, o conhecimento da esperança, a liderança da confiança. As diferenças que no início pareciam afastá-los tornaram-se exatamente aquilo que permitiu derrotar um adversário muito maior do que qualquer um deles. Talvez seja essa a principal mensagem que eu gostaria de deixar para aqueles que me acompanham. Não precisamos esperar que apareça um líder perfeito, uma tecnologia salvadora, uma nova legislação ou uma solução milagrosa para todos os nossos problemas.
O futuro da da produção e da interpretação provavelmente será construído da mesma forma que o mundo digital foi salvo, quando profissionais diferentes compreenderam que possuem responsabilidades comuns. A pesquisa precisa da prática, a universidade precisa do mercado, os profissionais mais experientes precisam ouvir aqueles que estão chegando, e os mais jovens precisam reconhecer quem pavimentou o caminho antes deles. Nenhuma dessas partes é suficiente isoladamente.
Juntas, elas formam a nossa profissão. Eu continuo acreditando que os desafios são enormes. A inteligência artificial continua avançando. As condições de trabalho continuarão exigindo mobilização. Novas tecnologias vão surgir. Novos debates aparecerão. Mas lembre, o relógio continuará correndo. Talvez a pergunta mais importante, refletindo um pouco mais, não seja quanto tempo ainda temos. Talvez seja outra: quando vamos decidir caminhar na mesma direção?
Porque enquanto estivermos divididos em pequenos grupos preocupados apenas com seus próprios interesses, desperdiçaremos uma força que já possuímos. No episódio anterior, eu disse que o relógio estava perigosamente próximo da meia-noite. Hoje continuo olhando para esse relógio. A diferença é que agora também consigo enxergar outra coisa. Lembra, ainda não é meia-noite, ainda existe tempo para digievoluir, ainda temos tempo para construir uma categoria mais forte.
Se os digiescolhidos conseguiram salvar o mundo inteiro porque descobriram que suas diferenças eram maior do que eles mesmos, ou seja, representava sua maior força, talvez nós também possamos descobrir que o futuro da nossa profissão não depende de encontrar novos heróis. Depende apenas de nos reconhecermos finalmente como uma única categoria profissional. Voltamos a qualquer momento com outras reflexões sobre o nosso pequeno mundo da tradução e da interpretação, porque afinal contas, de tédio o intérprete não morre.
Eu sei que você esperou eu cantar a musiquinha do Digimon durante todo o episódio, mas não vai ser dessa vez. Até a próxima!