Episódios de Visão Global

Eleições no Reino Unido

10 de maio de 202650min
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Labour e Tories em perda, Reform UK e Verdes em alta. A crise energética. Entrevista com A. C. Grayling. Os cem anos de David Attenborough. Edição de Mário Rui Cardoso.

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Participantes neste episódio5
A

António Cardoso Marques

ConvidadoProfessor de Economia
B

Bruno Mantegas

ConvidadoCorrespondente
D

David Attenborough

ConvidadoNaturalista e divulgador
K

Keir Starmer

ConvidadoPrimeiro-Ministro
N

Nigel Farage

ConvidadoPolítico
Assuntos5
  • Combater o autoritarismo e salvar a democraciaCaptura das democracias por interesses partidários e dinheiro · Importância das liberdades individuais e do primado da lei · Papel da tecnologia e redes sociais na disseminação do autoritarismo · Crescimento do sentimento autoritário e ideias autoritárias · Polarização emocional vs. política · Atração por modelos autoritários de sucesso económico · Estratégias populistas para capturar votos · Necessidade de reformas democráticas e cidadania ativa · Humanidade num estado infantil · Comparação com modelos escandinavos
  • Crise energética e Estreito de HormuzVolatilidade do preço do crude · Impacto no fornecimento de bens alimentares · Risco de crise alimentar · Pobreza energética na Europa · Efeito de contágio nos preços do petróleo · Consequências para a comunidade internacional
  • Eleições no Reino UnidoResultados do Partido Trabalhista · Ascensão do Reform UK · Desempenho do Partido Conservador · Fragmentação da política britânica · Impacto do Brexit na política · Crescimento dos Verdes
  • Saída dos Emirados Árabes da OPEPImpacto na força do cartel da OPEP · Razões para a saída: flexibilidade, investimentos e alinhamento com estratégia ocidental · Boa notícia para os mercados internacionais · Risco de agravar foco de tensão no Golfo
  • David Attenborough completa 100 anosImpacto na divulgação da natureza · Alerta para ameaças às espécies e alterações climáticas · Distinções e espécies nomeadas em sua homenagem
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A crise energética vista por António Cardoso Marques, professor de Economia na Universidade da Beira Interior, especialista em questões de energia. O Partido no Poder, no Reino Unido, o Partido Trabalhista com resultados desastrosos nas eleições desta semana. E um livro para o povo combater o autoritarismo e salvar a democracia, de A.C. Grayling. São os temas do Visão Global hoje. Bem-vindos.

Antes de mais, nesta visão global, a justa homenagem é um homem marcante, Sir David Attenborough, o naturalista e divulgador britânico que completou na última sexta-feira, 8 de maio, 100 anos de idade sandigageiro.

É difícil medir o impacto de David Attenborough, que completa 100 anos, se tenta a divulgar a natureza, que diz ser a história mais bem contada. A voz é inconfundível. Provavelmente não há um canto do mundo que não tenha visitado quem não se lembra da célebre cena junto de gorilas no Ruanda.

É uma lenda viva e foi apresentador da série da BBC intitulada Planeta Terra. Com a equipa, visitou centenas de locais. São milhões de pessoas de várias gerações e nacionalidades que o admiram. Foi ele o responsável por trazer um mundo selvagem para dentro das nossas casas e que deu a conhecer os habitats mais extremos.

desde o Ártico às profundezas dos oceanos. Nos últimos anos, David Attenborough tem alertado para as muitas ameaças em relação às espécies, mas também às alterações climáticas. Numa mensagem áudio divulgada no aniversário, Sir David Attenborough disse que imaginava celebrar o aniversário de forma discreta, mas parece que muitos tiveram outros planos.

Pensei que ia celebrar o meu aniversário de forma sossegada, mas parece que muitos de vós tiveram outras ideias. Fiquei muito impressionado com as mensagens de aniversário que recebi de grupos de pré-escolar, de residentes de lar de idosos e de inúmeras pessoas e famílias de todas as idades.

Simplesmente não consigo responder a todos individualmente, mas gostaria de agradecer sinceramente a todos pelas mensagens carinhosas. Desejo a todos os que planearam os seus próprios eventos locais um dia muito feliz.

Nós sabemos o melhor para proteger para as gerações futuras. Eu só espero que nós vamos. Sir David Attenborough colecionou mais de 30 distinções ao longo da vida, visitou com a sua equipa do programa Vida na Terra. Mais de uma centena de lugares no planeta, 500 milhões de pessoas terão visto esse programa de televisão e há mais de meia centena de espécies que devem o nome a Sir David.

Entre elas um lagarto, Platissaurus Attenborough, uma planta, um jarro, Anapentes Attenborough, um besouro, o Silvicanton Attenborough. David Attenborough completou 100 anos de vida na sexta-feira.

A situação no Estreito de Hormuz, muito tensa, a entrada do fim de semana com ataques mútuos do Irã e dos Estados Unidos, apesar do cessar fogo. Isto ao mesmo tempo que foi apresentado a Teherão pelos Estados Unidos, um memorando de 14 pontos que basicamente acaba com o conflito e reabre o Estreito, atirando as questões espinhosas para discutir mais tarde.

prevê-se um período mais tarde de 30 dias para discutir o enriquecimento do urânio, o levantamento de sanções ao Irã e a libertação de fundos iranianos que estão congelados. Os preços do petróleo nos mercados internacionais continuam num sobe e desce. António Cardoso Marques é professor de Economia na Universidade da Beira Interior, com especialização em questões energéticas. Boa tarde.

Houve previsões, a dada altura deste conflito, de que o preço do crude poderia atingir os 150 dólares por barril, o que não aconteceu, pelo menos para já. O mercado de futuros do crude, creio que está nos 120 dólares o barril, longe, portanto, desses 150 que se perspectivavam. As previsões para o crescimento económico global também não foram ainda muito afetadas. A revista Economist tinha uma expressão muito curiosa esta semana.

para classificar a situação que se está a viver, que era, ok, há alguma preocupação, mas os mercados e os governos ainda estão na lalaland, acreditando que tudo se vai resolver e que vai ser possível evitar males maiores. É de facto essa a situação neste momento? Muito boa tarde, muito obrigado. Bem, as previsões são sempre isso mesmo, previsões, e partem muitas vezes de um pressuposto que é a reação que os mercados financeiros...

associados aos mercados de energia têm, na verdade. Porque, se repararmos, não há, objetivamente, nenhuma alteração em termos de capacidade de oferta. Portanto, poderemos até pensar que no início do conflito, com o ataque do Irão...

Alguns dos países vizinhos, na tentativa até de afetar a capacidade de oferta desses países, aí houve uma redução de oferta, mas depois disso e com o encerramento do Estreito de Hormuz, na verdade não há alterações da oferta. Portanto, em termos globais, não há alteração substancial na oferta. Isto para dizer o quê?

para dizer que esta volatilidade que é substancial no preço do crude é essencialmente resultado daquilo que é uma prática de overreaction, de sobre-reação.

típica nos mercados financeiros, que reagem a tudo e a nada, a algo e ao seu contrário, e, portanto, não se encontra razão objetiva nos fundamentais, digamos, para esta montanha russa daquilo que é o comportamento do preço do petróleo.

Basta pensarmos se houver um influencer que anuncia que, com alguma razão, três ou quatro petroleiros estão a passar o estreito, o preço baixa, mas se passar três horas, dizer que afinal não é verdade, o preço volta a subir. Portanto, temos que dar aqui um desconto desta sobre-reação. Por vezes fazem-se comparações com o que aconteceu a seguir à invasão russa da Ucrânia em 2022.

em que se conseguiu acomodar as disrupções. Acredita-se muito nessa resiliência. Mas, António Cardoso Marques, nessa altura apenas 3 milhões de barris de petróleo russo deixaram de entrar no mercado por dia. Agora são várias vezes mais do que isso, por cada dia que o estreito permanece encerrado. A situação é mais grave agora? Pergunto-lhe se seria um desastre o estreito continuar bloqueado por muito mais tempo.

sobre a questão em concreto do petróleo, temos que perceber qual é a geografia em que estamos colocados. Portanto, se nos colocarmos no papel de um país europeu, não há, de facto, um risco de quebra de abastecimento, até porque o petróleo que passa o Estreito de Hormuz...

Tem essencialmente como destino países como a Índia, a China, o Paquistão, a Coreia, o Japão e, portanto, não afeta de forma muito relevante a Europa em termos de oferta física. Isto porquê? Porque houve uma diversificação de fontes também.

resultando de um processo de aprendizagem com a invasão da Ucrânia, e, portanto, a Europa tem outras fontes de fornecimento. Se pensarmos, por exemplo, no gás, e recordo que o Qatar está praticamente bloqueado na sua capacidade de exportação, uma vez que praticamente toda a exportação de gás é feita pelo Estreito de Hormuz.

A Europa também não tem dificuldade de se abastecer de gás, uma vez que os seus principais fornecedores neste momento estão ativos e com nível de segurança elevado, como os Estados Unidos, como a Noruega. Portanto, não há esse perigo nesta geografia, digamos assim, o que não é o que acontece nesses países que referi, como a China, como a Índia, Paquistão ou Coreia.

Mas também é verdade que temos no mercado outra disponibilidade da Rússia, que para além de ter preços que muitas vezes estão fora de mercado, fazem contratos diretos, porque precisa para satisfazer o esforço de guerra em que está envolvido neste momento, portanto há aqui uma alternativa no mercado para essa escassez que resulta do bloqueio do Golfo Pérsico.

Claro que o encerramento do Estreito de Hormuz provoca outros efeitos que não são de sumendos importância, porque estamos a falar, em primeiro lugar, do próprio fornecimento dos países que neste momento estão bloqueados. E falamos da Arábia Saudita, falamos do Catar, falamos dos Emirados, falamos de Oman, do Iraque, portanto são países...

que utilizam o estreito para se abastecer, em boa parte, de bens alimentares. Cerca de 80% dos bens alimentares provém desta rota e, portanto, esses países estão com um garrote severo neste momento, não apenas ao seu crescimento económico, mas também ao próprio fornecimento daquilo que são as necessidades básicas das suas populações.

Além disso, há uma outra componente, que é a questão da proveniência de outras matérias-primas para todo o mundo. E aqui falamos, essencialmente, de produtos.

que são usados para a fertilização de campos agrícolas, e também outros, como o alumínio, por exemplo, e este sim tem aqui, digamos, uma consequência, que é rapidamente integrada nas cadeias alimentares do mundo inteiro, e bem assim, naturalmente, através do aumento de preço. Portanto, isto é aquilo que neste momento...

está já a afetar o Ocidente de forma considerável e que se prevê que possa afetar ainda mais, uma vez que as colheitas, portanto as cimenteiras e as colheitas podem refletir precisamente essa escassez de fertilizantes. Há algumas estimativas que apontam para 50, 60 milhões de pessoas por todo o mundo que podem ser colocadas.

em fome extrema. Pode vir a haver uma crise alimentar. Pode, pode de facto haver uma crise alimentar e que infelizmente, como bem sabemos, normalmente afeta os mais carenciados e os países com menor poder de compra e portanto que não conseguem depois recorrer a mercado e comprar esses bens alimentares em outros locais.

O problema neste momento é sobretudo com o petróleo e refinados, portanto o gás óleo, a gasolina, o jet fuel, não tanto com o gás. Na Europa, sim, pelas razões que disse o gás tem uma proveniência mais diversificada.

sobre a questão dos produtos refinados. Vamos ver, mais uma vez, depende muito do país ou da perspectiva que estejamos a analisar. No caso português, por exemplo, o principal fornecedor de petróleo a Portugal é o Brasil, e portanto a Galp aqui tem um papel importante também na garantia deste fornecimento.

E não vejo, ao contrário do que se tem falado, e sei que o Presidente da Agência Internacional de Energia se referiu ao jet fuel, não vejo que haja nenhuma dificuldade nem no curto prazo, nem no médio, nem no longo sobre o jet fuel. O que há, naturalmente, é um aumento do preço por contágio, naturalmente, porque os preços de referência são os preços nos mercados internacionais.

porque é assim, em todo lado, eu posso ter uma produção do que quer que seja, de um produto qualquer, mas se no mercado internacional esse produto aumenta muito o preço, pois eu beneficio com o aumento do preço, não tendo feito nada para que isso tivesse acontecido.

Há aqui um efeito de contágio. Os produtores têm como referência os preços nos mercados internacionais, que, como eu disse, são, em boa parte, reflexo sobre reações e de apetite voraz dos mercados financeiros que reagem a tudo e a nada. Acaba por haver este efeito de contágio. Naturalmente, a questão do JetFuel, as companhias aéreas vão...

muitas vezes ter que cobrar mais caro pelos bilhetes ou, em alguns casos, vão suspender algumas rotas que são menos rentáveis, digamos assim, não é? E muitas daquelas que implicam, por exemplo, o Médio Oriente e, portanto, o reabastecimento na atarragem, provavelmente serão reduzidas ou mesmo suspensas, mas não há o risco de, digamos, redução ou de...

de eliminação, de suspensão de fornecimento à Europa de forma nenhuma. O que me preocupa, como disse há pouco, são basicamente as consequências para a comunidade internacional. Se me permite lançar aqui uma nota que tem a ver com a questão da pobreza energética.

A pobreza energética é um problema seríssimo em todo o mundo. E é também um problema seríssimo no mundo ocidental, em particular na Europa, onde há países em que cerca de 30% da população é considerada como pobres energeticamente. Estamos a falar, por exemplo, da Grécia, da Bulgária.

Em Portugal andamos aqui num intervalo entre os 15% e os 20% da população que está em pobreza energética. E esta é outra consequência severa desta atitude de encerramento do Estreito de Ormuz.

Tem sido possível reduzir impactos desta crise graças a muito petróleo, sobretudo russo e iraniano, que ainda estava carregado em petroleiros no mar quando tudo isto começou, graças também à libertação de algum petróleo das reservas nacionais dos países.

Mas esse efeito, entretanto, esgota-se, não é? Porque o petróleo embarcado foi-se vendendo. Os países também hesitarão em libertar mais reservas. Portanto, eu diria que será necessário normalizar a situação no Estreito de Hormuz tão rápido quanto possível. Nós sabemos muito bem o que significa essa normalização no Estreito de Hormuz.

Portanto, numa primeira fase esperamos todos que haja uma livre circulação, ou pelo menos a libertação, digamos, deste aprisionamento dos petroleiros e dos metaneiros que estão ali concentrados.

E a partir desse momento, mais uma vez, os mercados financeiros e os mercados de energia irão refletir e, portanto, haverá uma descida substancial dos preços. Portanto, a partir do momento em que há descida, todos os consumidores irão beneficiar e isso é o importante, esse é o primeiro passo. Mas isto não inviabiliza que se olhe com cuidado para esta questão de se garantir uma navegabilidade segura, livre, sem taxas.

fazendo cumprir o direito internacional no Estreito de Ormuz e em outros estritos. Admitamos que agora em tantos gregalos que temos neste mundo e que os países mais próximos decidem tomar conta desses pontos de passagem, então seria o caos naturalmente. Portanto, a comunidade internacional não pode de forma nenhuma compactuar com tomar...

como refém, um canal vital de passagem, porque isso seria um retrocesso. Portanto, espero que não nos limitemos a perceber se os navios já estão a passar ou não, mas que haja uma preocupação com, enfim, nos próximos...

tempos, rapidamente, mas que seja conseguido um acordo estável para as próximas décadas, de forma a que a livre navegabilidade dos direitos seja garantida, porque essa é absolutamente fundamental. No meio da crise assiste-se a declarações frequentes de Donald Trump, que parecem ter como único objetivo acalmar os mercados e conter os preços.

Por seu lado, o Irão tem a economia muito afetada, precisa do dinheiro do petróleo que exporta e também não lhe interessará manter esta crise por muito mais tempo. Resolver parece ser do interesse dos dois.

Sim, a partir de assim, não sei se acompanho a primeira parte, no sentido em que o presidente americano tenta, enfim, reduzir aqui a pressão, tanto faz como faz o seu contrário, temos visto essas declarações, enfim, quando diz que as negociações estão a correr bem.

Passado uma hora diz que afinal se não correr vai haver ainda mais desgraça, mais intensidade de ataques. Portanto, enfim, usa aqui uma estratégia que não me parece muito produtiva, mas enfim, lá saberá da parte do Irão. É verdade o que diz, naturalmente que a economia depende muito da venda, das receitas. Chamamos isto de um estado rentrista, é um estado que vive.

muito à custa das rendas dos recursos naturais. A economia iraniana é uma economia que está depalparada, naturalmente. Este bloqueio não ajuda, mas, e insisto nisto, o receio é que o Irã se tente...

apoderar da sua localização estratégica para controlar os treitormos. Isto é que é perfeitamente inaceitável, porque a ser assim irá manter uma boa parte do mundo sempre refém do seu estado de humor e dos seus objetivos, que todos percebemos que passarão pela questão nuclear, porque parece ser esse o pomo da discórdia e continua a persistir nas negociações.

António Cardoso Marques, admitindo que isto se resolve agora, poderá levar muito tempo até que o mercado do petróleo regresse ao normal? De facto, estou otimista que a partir do momento em que haja a libertação do tráfego no Estreito Tormuz, acredito que em muito pouco tempo haverá uma normalização.

do fornecimento, até porque há aqui dois fatores que são importantes. Por um lado, se numa primeira fase houve tentativa do Irão destruir capacidade produtiva de outros países, esse movimento parou e, portanto, os danos não são substanciais, não comprometem de forma severa a capacidade de produção dos países do ovo pérsico.

E por outro lado também porque a Arábia Saudita, que conseguiu reparar o seu oleoduto e portanto através do porto de Anbu conseguirá exportar cerca de 4 milhões de barris por dia. E curiosamente essa reparação feita...

aumentou esse oleoduto para cerca de 7 milhões de barris por dia, mas depois há um gargalo na capacidade do Porto de Ambu para 4 milhões. Mas seja como for, portanto, penso que será rapidamente reposta a capacidade de exportação e a oferta no mercado internacional. Mas o efeito essencial será, como eu disse, via mercados financeiros, porque aí toda a gente ficará mais tranquila e, portanto, o preço...

irá baixar. O que me preocupa é a outra face, nomeadamente as outras matérias-primas, outros produtos que passam neste estreito, nomeadamente a ureia, a amónia.

Portanto, esses produtos que são usados para fertilizantes e que, de alguma forma, já comprometeram aquilo que é o ciclo natural das sementeiras, um pouco por todo o mundo, e portanto aí haverá consequências que não serão tão fácil mitigação e, portanto, espera-se aqui.

que outros países que também têm alguma capacidade de produção de fertilizantes possam compensar. Portanto, aqui o efeito da reposição será mais demorado. Justificam-se neste momento planos de contingência? Promoção de teletrabalho, redução de consumos energéticos, de viagens de avião, etc?

Bem, nós assistimos isso um pouco por todo o mundo, numa primeira fase, inclusive na Europa, em que foi anunciado ou é feito esse pedido de contenção de consumo, até com um alerta para o teletrabalho, que depois passou a ser apenas uma recomendação.

Eu acho que há aqui um potencial grande para se fazer, de facto mais alguma medida nesse sentido, ainda que, como eu referi, não se trata propriamente de uma questão de escassez objetiva no mercado europeu. Agora, há outros mercados que de facto sentiram essa escassez, porque basicamente...

Tinham como cadeia de fornecimento o ovo pérsico e assistimos efetivamente até alguma confusão, alguma...

algum racionamento de fornecimento de energia, até em postos de combustível, e portanto nesses países é muito importante que rapidamente consigam recuperar estes fornecimentos. António Cardoso Marques, os Emirados Árabes Unidos deixaram agora a organização dos países produtores de petróleo, ou o PEP, isto vai fragilizar a capacidade dessa organização de influenciar os preços a nível mundial?

É uma excelente questão. É uma excelente questão e é um rude golpe, na verdade, no cartel da OPEP. Eu recordo aqui os nossos ouvintes que a saída dos Emirados, dia 1 de maio, já foi procedida por outras saídas, nomeadamente o Catar.

também de Angola, mas seguramente a saída dos Emiratos é aquela que tem aqui um papel, um impacto maior. Estamos a falar do terceiro maior produtor ativo do cartel.

E, portanto, isto tem um impacto substancial na força que o cartel tem. Seguramente muitos de nós nos perguntamos, mas porquê é que os Emirados saíram? Eu devo dizer que foi uma atitude que me parece corajosa, mas não foi só corajosa, foi uma atitude racional.

Em primeiro lugar porque os Emiratos têm, não saíram de ano leve, têm estudos em seu poder que mostram que a flexibilidade que lhes permite estar fora do cartel, portanto com o controle...

ou sem o controle das cotas de produção que o cartel impõe, essa flexibilidade permite-lhe, de facto, ganhos substanciais nos mercados internacionais. Depois também porque foram feitos investimentos muito relevantes na exploração nos Emirados e que o garrote constante...

do cartel no sentido de não aumentar cotas de produção, estava a impedir o aproveitamento, aquilo que se chama de escala eficiente de produção, dos Emirados. Portanto, esta é uma segunda razão. Ainda uma terceira razão para a saída dos Emirados é porque, na verdade, os Emirados estão muito alinhados com aquilo que é...

a estratégia ocidental de diversificação de mix energético. Isto é muito curioso, mas de facto é assim. Os Emirados estão comprometidos com a neutralidade carbónica, tal como a Europa já esteve, que entretanto antecipou, para 2050 a neutralidade carbónica tem feito...

um investimento muito substancial em energias renováveis e hidrogênio verde, de cerca de 50 mil milhões de dólares até 2030, e, portanto, todas estas razões levaram os Emirados, e, pois, seguramente não ficaram satisfeitos tão bem.

com esta atitude de uma autoridade que penaliza o país por parte do Irão, com o encerramento do Estreito de Oremus, com esta hostilidade de um parceiro, nesta luta que existe pela liderança do cartel entre o Irão...

E a Arábia Saudita, que se tem mantido aqui um pouco neutra, no sentido em que não se tem manifestado muito, mas também não tem aumentado substancialmente as suas cotas de produção. Mas, portanto, os Emirados, juntando todos estes fatores, decidiram sair. Portanto, há aqui uma boa notícia para os mercados internacionais, porque é menos um produtor que está em concertação de preço. E já sabemos que o objetivo da concertação de preço é...

abusar do poder de mercado e isto no final de dia significa apenas uma coisa, significa preços mais elevados para o consumidor. E portanto a saída dos Emirados do cartel é seguramente uma boa notícia e que estou convencido que, depois da libertação do Estreito de Hormuz, depois da regularização do tráfego marítimo, estou convencido que esse efeito irá ser notado nos mercados internacionais.

Mas o afastamento dos Emirados, dos seus vizinhos e parceiros no Conselho de Cooperação no Golfo, para se aproximarem mais ainda de Israel e dos Estados Unidos, isso não ameaça agravar o foco de tensão que já vinha havendo no Golfo com os Emirados Árabes Unidos? Pode, de facto, constituir um foco de tensão.

No entanto, como eu disse, há esta estratégia de diversificação de fontes, a Arábia Saudita também tem apostado fortemente em fontes renováveis, tal como Catar, portanto não me parece que os Emirados fiquem, digamos assim, sozinhos, isolados.

E também estou muito confiante que antes desta saída tenha havido negociações e uma diplomacia intensa com os Estados Unidos e que passará pela proteção militar também que este e outros países do Golfo Pérsico irão beneficiar por parte dos Estados Unidos. Portanto, estou convencido que não haverá por aí.

a tentativa do Irão de, de facto, entrar numa atitude bélica com os Emiratos, até porque recordo que o Catar também já tinha saído deste cartel. António Cardoso Marques, professor de Economia na Universidade da Beira Interior, especializado em assuntos energéticos. Muito obrigado. Foi um gosto. Muito obrigado também.

Houve eleições no Reino Unido, eleições locais em Inglaterra e para os parlamentos de Gales e da Escócia. Quase dois terços do eleitorado britânico votaram nestas eleições, que eram vistas como um referendo à liderança do primeiro-ministro Keir Starmer e do Partido Trabalhista. E os trabalhistas perderam cerca de 1.500 deputados locais em toda a Inglaterra.

Ficaram com apenas à volta de mil, enquanto o Partido Populista de Direita, o Reform UK, de Nigel Farage, teve resultados espetaculares. Com 1.500 deputados locais, este partido praticamente não tinha deputados locais em Inglaterra e não tinha representações nos parlamentos da Escócia e de Gales e passam a ter. Em Gales, onde os trabalhistas venceram sempre, agora perderam o novo partido maioritário na Assembleia Nacional Galesa.

É um nacionalista play de Simuru. O Labour tem uma derrota estrondosa. De 35 passa para apenas 9 deputados. O Reform tem agora 34 deputados e é a segunda força política em Gales. Na Escócia voltou a ganhar o Partido Nacional Escocês, sem surpresa, mas o Reform de Nigel Farage, que também não tinha deputados no Parlamento Escocês, agora vai ter 17, os mesmos que o Labour.

Portanto, também aqui o reforme com resultados extraordinários. Bruno Mantegas, correspondente da Agência Luz em Londres. Boa tarde. O Primeiro-Ministro Keir Starmer já estava a ser muito pressionado para se demitir antes destas eleições, por causa do problema com Peter Mandelson, também porque os trabalhistas não estão a conseguir resolver os problemas económicos no Reino Unido.

Agora essas pressões intensificaram-se, mas Starmer já disse que não sai, quer cumprir o mandato até ao fim. Ele tem maioria absoluta, mas Bruno, será que isso lhe vai chegar para se conseguir manter, depois destes resultados desastrosos do Labour? Sim, olá, boa tarde. Sim, que a Starmer é preciso recordar, ele foi eleito com uma percentagem relativamente baixa de votos e, portanto, ele nunca foi um líder muito popular.

Mas o que é certo é que conseguiu aproveitar aquele sentimento dos britânicos de quererem livrar-se do Partido Conservador e conseguiu reunir ali uma coligação de votos e ganhar uma maioria absoluta. Mas nunca foi muito popular e essa popularidade desceu rapidamente.

a seguir às eleições, tanto que o Partido Reformista, o Reform UK, lidera as sondagens, as intenções de voto há quase dois anos. Depois destas eleições, que a Starmer já estava de aviso, depois do escândalo com o Peter Mendelssohn, agora voltou a estar no centro das atenções, obviamente uma derrota eleitoral é sempre uma altura de alarme, que a Starmer está a tentar controlar a narrativa.

Estas derrotas também são habituais, não é, Bruno? É preciso, sim. É preciso pôr em perspetiva tudo isto. Estas eleições locais normalmente acontecem durante o mandato de um governo. Há sempre um voto de protesto contra o governo. Os governos nunca têm bons resultados em eleições locais. São normalmente os partidos de oposição que têm melhores resultados. Depois também é preciso recordar...

que o Partido Trabalhista, quando ganhou as eleições locais há quatro anos atrás, estava no pico da popularidade, tinha 35% nas sondagens. O Partido Conservador estava a ser muito criticado por causa do partygate, das festas durante o confinamento. Boris Johnson era muito impopular e, portanto, era o Partido Trabalhista que tinha mais...

a defender durante estas eleições e, portanto, foi aquele que perdeu mais. Mas se formos ver os resultados, o Partido Conservador, que é, historicamente, o rival do Partido Trabalhista, também perdeu terreno, também perdeu eleitos locais. Perdeu e muito, não é? Os conservadores perderam mais de 500 deputados locais em Inglaterra, perderam 19 lugares no Parlamento Escocese e 22 lugares no Parlamento de Gales.

Completamente. O Partido Conservador atualmente, no Parlamento Britânico, é o maior partido da oposição, mas na prática, nestas eleições, foi para quarto e quinto lugar em todo o tipo de eleições, tanto nas regionais como nas locais. Ou seja, temos a política britânica agora também a fragmentar-se. Os eleitores britânicos a abandonarem o tradicional duopólio de conservadores e trabalhistas.

É isso que está a acontecer e é essa real preocupação dos trabalhistas, dos conservadores e é esse o grande dilema que enfrentam se calhar os trabalhistas.

ao tentarem livrar-se do líder, do Kiesbauer, eles não vão resolver esse problema. Vão tentar encontrar um líder que talvez tente recuperar a popularidade e talvez tente entusiasmar os eleitores a tempo das legislativas de 2029, mas será difícil reorganizar o sistema político que mudou muito desde o Brexit. É preciso dizer...

que o Reform, a maioria dos votos que ganhou nestas eleições, são sim em regiões tradicionalmente trabalhistas, mas são regiões que votaram pelo Brexit em 2016. E, portanto, isto mostra como o Brexit mudou completamente a política. Atualmente os eleitores já não são fiéis aos partidos que antes, historicamente,

A classe trabalhadora, as indústrias mais de manufatura estariam mais identificadas com o Partido Trabalhista e os profissionais mais liberais, empresários, estariam mais ligados ao Partido Conservador. Tudo isso foi eliminado, reformulado e agora há uma nova forma de votar.

e o Partido Trabalhista vai ter que navegar esse novo cenário político. Começa a instalar-se um pouco a ideia de que o próximo governo britânico poderá mesmo vir a ser liderado por Nigel Farage. É interessante isso acontecer, porque até agora o sistema político britânico era bastante estável. Só havia dois partidos e dois partidos relativamente centristas, centro-esquerda e centro-direita.

Se isso acontecer, quer dizer que um partido extremista, como o Partido Reformista, iria ganhar uma eleição pela primeira vez em centenas de anos de democracia britânica. Por outro lado, é também preciso ver que o Partido Trabalhista está a ser ameaçado à esquerda.

pelos verdes que estão a fazer um populismo ecológico, mas também à volta de outras questões sociais, da questão de gás, etc. Os verdes liderados por Zak Polanski, que têm conseguido aumentar muito a popularidade do partido, eles também cresceram nestas eleições, cresceram na Escócia, cresceram na Inglaterra, e Bruno, cresceram em Londres e noutras grandes cidades inglesas.

É um grande entusiasmo à volta de Zak Polanski e dos Verdes, sobretudo nestas regiões urbanas, como muitos jovens, porque realmente ele é muito entusiasta e ele diz aquilo que as pessoas querem ouvir em relação ao controle das rendas das habitações, em questão da Palestina, de criticar Israel.

de querer maior nacionalização das empresas. Ele diz coisas que alguns eleitores de esquerda querem ouvir e ele realmente é uma voz diferente e isso está a atrair muitos eleitores. Bruno Manteigas, correspondente da agência Lusa em Londres. Muito obrigado, Bruno. Adeus, obrigado.

O Visão Global ouviu para esta edição A.C. Grayling, filósofo britânico de esquerda de quem se acaba de publicar a edição portuguesa do livro Para o Povo, Combater o Autoritarismo e Salvar a Democracia. Uma conversa com a jornalista Cláudia Guiar Rodrigues.

Grayling lamenta que as democracias se tenham deixado capturar pelos interesses partidários e pelo dinheiro e propõe reformas democráticas e uma cidadania mais ativa em sua defesa. Ou então os autoritarismos vão vencer.

É certo que temos de defender a democracia porque ela está sob muita pressão. Eu espero que algumas reformas práticas e relativamente moderadas sejam possíveis para proteger a democracia.

Porque a democracia tem dois aspectos que são cruciais para as vidas dos cidadãos. Primeiro, as liberdades das pessoas. A liberdade individual, o facto de terem voz na sociedade, de se poderem reunir, de poderem fazer escolhas para as suas vidas, de poderem viajar. Essas liberdades são importantíssimas para as vidas individuais.

E a segunda coisa é o primado da lei. O que vemos no autoritarismo, no tipo de autoritarismo que esperamos que tenha acabado agora na Hungria, mas que vemos noutros países, em especial nos Estados Unidos, é que os políticos querem estar acima da lei.

E é quando isso acontece que temos o verdadeiro perigo da ditadura e da tirania. O privado da lei significa que ninguém está acima da lei, que a lei resulta de um acordo das pessoas através de um processo democrático. Isso é absolutamente vital. O que é que nos levou a isto? As tecnologias estão a ser usadas para isso se espalhar?

A tecnologia, especialmente a internet e as redes sociais, têm tido um papel importante nisto. Uma coisa que é importante lembrar é que se as autocracias se estabelecem, se os autoritários tomam o poder, eles não vão ser diferentes dos autocratas do passado. Vão prender jornalistas, vão esvaziar a justiça, vão controlar os média e tudo mais.

Eles não se vão comportar de forma diferente do passado se tiverem o poder. E agora estão a usar os novos meios que eles percebem que os ajudam a obter o poder. Há aspectos importantes para os quais podemos olhar e que explicam porque é que o sentimento autoritário e as ideias autoritárias estão a crescer. O primeiro é que as nossas democracias deixaram...

deixaram-se influenciar demasiado pelas políticas partidárias. Os governos democráticos, em vez de serem um serviço para as pessoas, deixaram-se influenciar muito pelas políticas partidárias. Depois de uma eleição, têm de se formar um governo.

E esse governo tem de ser formado com base no melhor consenso, nos melhores compromissos e nas melhores escolhas relativamente à orientação das políticas públicas. Mas se o governo que se segue a uma eleição é apenas a continuação de uma campanha política que...

Se os partidos da oposição estão sempre a atacar, a criticar e a tentar interromper o governo ou a tentar fazer a população sentir que o governo não está bem, isso cria uma enorme desconfiança. É por isso que muitas pessoas sentem que os políticos são desonestos, especialmente aquelas pessoas que sentem que estão a ser deixadas para trás. Essas pessoas...

desligam-se do processo político porque desconfiam dele. Nessa altura, vêm os populistas e dizem olha, este sistema está a falhar, nós temos ideias diferentes e podemos fazer isto melhor. Talvez haja uma polarização emocional mais do que uma polarização política.

Certo. E outra coisa é que as pessoas olham hoje para países no mundo que têm sido muito bem sucedidos economicamente e que não são democracias. A China é o maior exemplo. Outro exemplo é a Singapura, que garantiu que não iam existir barreiras regulatórias a impedirem as empresas de serem muito bem sucedidas.

A China tem tido um crescimento enorme nas últimas décadas. Tem um governo ditatorial centralizado. As pessoas olham para isto e dizem nas democracias é tudo a muito curto prazo, dentro dos ciclos eleitorais, há muita discussão, muda tudo muito lentamente, as pessoas não concordam.

Há sempre ambientalistas, ecologistas, defensores dos direitos humanos, sempre estas e aquelas pessoas a pôr paus na engrenagem. Nas autocracias funciona tudo como na tropa, com o comando de cima. Há muita gente que acha isso atraente, incluindo pessoas muito ricas que fazem donativos para partidos e que influenciam o governo. Isso...

É o que está a acontecer na América. Pessoas que querem alguém à frente do país que acabe com regulações e com políticas sociais de diversidade, equidade e inclusão que as empresas acham um fardo. São pessoas que gostam de um líder forte, como Trump, que acabe com isso tudo. E por isso apoiam-no.

Mas esse tipo de sistema é sustentável? Ele não vai acabar por comer-se a si mesmo? Até agora tem-se mantido. Na China e noutros regimes autoritários, onde os serviços de segurança e de informações controlam as pessoas e mantêm campanhas de desinformação em que as pessoas não sabem realmente o que se está a passar.

O argumento de que um regime autoritário é melhor do que um regime democrático é espalhado a cada minuto por chatbots nas redes sociais. Há influencers apoiados por forças antidemocráticas na sociedade. E isso está a acontecer muito no domínio público.

de uma forma aberta, se olhar para a técnica utilizada por Viktor Orban na Hungria ou por Trump nos Estados Unidos, se olhar para o que a AFD quer fazer na Alemanha ou para o que a extrema-direita está a fazer em França, todos seguem o mesmo padrão, o mesmo manual sobre como enfraquecer os média ou como enfraquecer o sistema judicial para se manterem no poder.

É um plano bastante claro para subverter a democracia e estabelecer um controle efetivo sobre a sociedade e sobre a economia. O que é que se faz? Muda-se o foco da sociedade aos que estão infelizes, dá-se-lhes odds expiatórios. Culpa-se os imigrantes, culpa-se as elites.

Culpa-se os partidos tradicionais dizendo às pessoas, venham connosco, nós vamos resolver os problemas. É assim que os partidos populistas capturam o voto. Mas, claro, há o grande perigo de que as pessoas votem uma última vez. Você tem o seu voto, vota num partido populista, mas depois esse partido populista pode dizer, olha, já não precisamos mais de eleições.

E como é que podemos mudar isso? Este livro é uma ferramenta para isso? O aspecto prático do livro é que cada pessoa que esteja consciente destes problemas tem de ser apto o suficiente e ativo o suficiente.

para estar informado, para ficar muito alerta e para questionar e desafiar qualquer político a manter e a melhorar a natureza democrática da sociedade. Cada pessoa tem um papel a desempenhar, mas o que realmente importa é a estrutura construtiva da sociedade.

O governo tem de ser visto como um serviço à sociedade e, portanto, o sistema de votação e de representação deve refletir a diversidade de interesses e necessidades na sociedade. Cito Frederick Douglass, que foi um escravo libertado nos Estados Unidos.

Ele disse que as instituições do governo devem estar tão estabelecidas e consolidadas que, mesmo se uma pessoa for má, essas instituições vão impedir a essa pessoa de fazer coisas más.

Diz no livro que a humanidade ainda permanece num estado infantil. Pode explicar? Você vê como as crianças podem ser gananciosas, egoístas, e se olhar para o mundo, vê que as pessoas são gananciosas e conflituosas e pensam que podem resolver problemas matando-se umas às outras.

Isso é uma maneira muito infantil de nos comportarmos. Quando pensamos que hoje todo o valor, tudo o que é importante na vida anda à volta do dinheiro, isso não é uma coisa individual, é coisa dos Estados. As guerras geralmente são sobre controlo, controlo dos recursos, sobre manter o poder. E o poder...

Requer dinheiro. Todo esse egoísmo que vemos, a ganância, a rivalidade, a conflitualidade, tudo isso lembra crianças num jardim infantil a lutarem umas com as outras por causa de um bobo. Estamos a chegar ao fim de uma era.

Estamos, no sentido em que as coisas vão mudar porque têm de mudar. Temos de fortalecer as nossas democracias, melhorá-las, reconhecer que as instituições das nossas democracias têm de se adaptar. Temos de perceber o que precisamos de fazer para as manter. Se não levamos o carro à oficina, ele um dia vai parar.

É o mesmo com a democracia. Temos de a refrescar e mantê-la flexível, ver se funciona e se está a preencher as necessidades da sociedade. A verdade é que, neste momento, não está. Porque nas economias avançadas e nas economias europeias há muita gente a ser deixada para trás, muitas pessoas a lutar para pagar as suas contas, às vezes com dois empregos, e mesmo assim não conseguem.

Os políticos e as pessoas, em geral, têm de estar alerta aos problemas de fundo da sociedade. O que tem acontecido há mais de 50 anos, na verdade, é que a política governamental tem sido demasiado influenciada pelos doadores e por eleitores que não querem impostos altos ou que são muito céticos relativamente à ajuda que deve ser dada às pessoas que estão no fundo da sociedade.

Comparando com a Escandinávia, esses países tiveram sempre um consenso sobre altos níveis de impostos para financiar investimentos nas pessoas e na sociedade, para financiar a educação, a saúde, os serviços sociais, a habitação, para que a sociedade fosse mais igual e mais decente no fundo.

Claro que esse consenso também está a mudar agora na Escandinávia, mas foi um modelo social de grande sucesso. Noutras economias, as pessoas disseram, não, não queremos ter impostos altos, portanto, não há dinheiro para gastar nas pessoas que ficam para trás. E são essas pessoas que ficam para trás que os populistas usam como tropas.

O filósofo britânico A.C. Grayling, autor de Para o Povo, Combater o Autoritarismo e Salvar a Democracia, editado pela Penguin Livros. Entrevista de Cláudia Aguiar Rodrigues. O Visão Global volta para a semana. Até lá.