Episódios de Visão Global

Carlos III nos Estados Unidos

03 de maio de 202650min
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Uma visita para repor relações. Bancos centrais prudentes face às guerras. Património em risco no Médio Oriente. A rebelião no Mali. Chernobyl 40 anos depois. Edição de Mário Rui Cardoso.

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Assuntos4
  • Relações EUA-Reino Unido e Política InternacionalVisita de Carlos III aos Estados Unidos · Comemoração dos 250 anos da independência da América · Tensões com o Irã e a hesitação do Reino Unido · Críticas de Donald Trump a Keir Starmer · Discurso de Carlos III no Congresso dos EUA · Críticas implícitas a Donald Trump · Papel da NATO e relações transatlânticas · Reequilíbrio da relação do Reino Unido com a Europa · Brexit e o acordo de livre comércio com os EUA · Crise do Suez em 1956
  • Conflito no Mali e JihadismoOfensiva de jihadistas e nacionalistas tuareg · Junta militar no Mali · JNIM (Grupo de Apoio ao Islão e aos Muçulmanos) · Objetivo de impor a lei islâmica na África Ocidental · Avanço dos jihadistas para sul · Aliança com Tuaregues independentistas · Azawad (província norte do Mali) · Influência russa e saída de forças ocidentais · Aliança dos Estados do Sahel (Mali, Burkina Faso, Níger)
  • Património Cultural em Risco em Zonas de ConflitoImpacto das guerras no Médio Oriente e Chernobyl · Locais de património mundial em risco (Irã, Líbano, Israel, Palestina) · Danos confirmados em Palácio de Gulestão (Teerão) · Danos confirmados em Palácio do Jardim Persa (Isfahan) · Danos confirmados em Tiro (Líbano) · Uso de imagens de satélite para avaliação de danos · Apoio da UNESCO a autoridades em zonas de conflito · Convenção de Haia de 1954 · Resiliência do património em tempos de guerra
  • Série ChernobylAcidente nuclear de Chernobyl em 1986 · Lições para a segurança nuclear · Tratado Euratom e monitorização da
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Os bancos centrais prudentes, em relação ao que se poderá passar com a economia por causa da situação com o Irã e no Estreito de Hormuz, mantiveram as taxas de juros inalteradas. O rei de Inglaterra nos Estados Unidos a tentar reaproximar os aliados históricos, a Junta Militar no Mali acusada por jihadistas e tuaregs independentistas, uma entrevista com a diretora da Unidade de Emergências da Unesco sobre património afetado pelas guerras no Médio Oriente

E de Chernobyl, 40 anos depois, são os temas do Visão Global. Bem-vindos.

Os Emirados Árabes Unidos deixaram de fazer parte da Organização dos Países Produtores de Petróleo, a OPEP, um golpe importante na capacidade do cartel para influenciar o setor a nível global, uma vez que os Emirados, antes da guerra, tinham 12% da produção da OPEP, eram o terceiro maior produtor dentro da organização.

Há muito que existe uma tensão entre os Emirados e a Arábia Saudita, que é quem tem o peso maior no cartel. Os Emirados criticaram repetidamente as cotas injustas da OPEP, que constrangiam as exportações de crudo dos Emirados, e agora, no meio de mais críticas, aos vizinhos do Golfo.

por não terem feito o suficiente para se defenderem dos ataques do Irã, resolveram sair para se focarem nos interesses nacionais. Assim, desde sexta-feira, os Emirados estão libertos dos limites impostos pela OPEP. Vários analistas acreditam que isso vai ter um efeito benéfico sobre os preços do petróleo e para a economia global.

mas esse efeito só se deverá sentir depois do problema com o Estreito de Hormuz terminar e não será um efeito imediato, irá demorar. Com esta decisão, os Emirados, que são grandes aliados de Israel e dos Estados Unidos, agradam a Trump. O presidente americano há muito que vem criticando o OPEP por dizê-lo manter os preços do petróleo altos e a decisão dos Emirados acredita-se que poderá vir a fazer com que baixem.

Esta semana, os principais bancos centrais mostraram-se cautelosos face à deterioração da perspetiva de inflação. Por causa da guerra com o Irã, o Banco do Japão manteve as taxas de juros de referência inalteradas à Reserva Federal americana. Fez o mesmo já pela terceira vez consecutiva, sublinhando à Reserva Federal que o conflito no Médio Oriente

está a contribuir para um grau elevado de incerteza e o Banco de Inglaterra e o Banco Central Europeu também não mexeram nas taxas. Clara Teixeira, comentadora de Economia, da Antenão Boa Tarde. Tal como estão as coisas, a situação no Irão e no Estado de Hormuz por resolver e a inflação em março e em abril já impulsionada pelos preços da energia, esta política dos bancos centrais de não mexer nas taxas justifica-se?

Eu diria que eles estão a ser muito prudentes, mas também sabem que o perigo maior reside em fazer muito mais do que em fazer muito pouco, porque, de facto, o ambiente de crescimento da economia a nível mundial é muito frágil. Todos eles, de facto, decidiram manter as gastas de juros e ficaram a aguardar mais algumas semanas para recolherem novos dados, nomeadamente sobre a inflação.

sobre o crescimento das economias, também sobre o desemprego, para depois então decidirem emagir a relação às taxas de juros. Eu começo talvez pelo Banco Central Europeu, e embora a decisão dos cofundadores europeus tenha sido no sentido de manter a taxa de juros, eles também admitiram que há cada vez um risco maior quanto a um abrandamento da economia.

um aumento da inflação, como de facto os últimos dados, do mesmo dia de abril, já se indicam. De qualquer forma, não mostraram urgência, precisamente porque apesar de termos a inflação na Europa a subir, e subiu para 3% na zona euro,

Mas mesmo assim, os valores ainda estão globalmente em consonância com as anteriores avaliações do BCE. Portanto, aquilo que vimos tanto no comunicado final da reunião, como depois na conferência de imprensa da Presidente, da Cristina Lagarde, é que todas estas declarações, no fundo, estão em linha com a necessidade de haver aqui algum aperto da política monetária. Ou seja, o que é que isto significa? Subir taxas de juros.

para tentar controlar e refriar a subida dos preços. Mas de qualquer modo, fazendo-o sempre de forma gradual e não mostrando grande urgência. Ou seja, Clara, ainda será cedo para os bancos centrais decidirem voltar a subir as taxas de juros. Isso nesta altura faria talvez mais mal do que bem à economia, no meio das pressões e da incerteza que existe agora.

Exatamente. E por que um receio tão grande em mexer nas taxas de juros? Precisamente por causa daquilo que a economia se chama estagflação, que foi uma coisa que já aconteceu na década de 70, na sequência também dos choques prolíferas e que significa precisamente uma mistura entre uma estagnação ao mesmo escudo da economia e uma inflação alta. A estagflação é aquilo que se chama um pesadelo para os decisores económicos.

Eles ficam muito bem sem saber o que fazer para voltarem a pôr as economias a crescer num cenário de inflação, não é? Eu penso até que o risco de esta reflação a existir até é mais significativo na Europa do que, por exemplo, nos Estados Unidos. Porque é precisamente na Europa e na zona euro que a economia está a crescer de uma forma muito anémica. Se a inflação dá sinais de disparar,

A reação dos governadores centrais seria subir taxas de juros para controlar a inflação. Mas ao subir em taxas de juros, eles vão estrangular a economia, porque atrasam o consumo, as decisões de consumo da família.

atrasam as decisões de investimento da parte do governo e depois a economia recente-se como um todo. E o primeiro que saia dessa espiral ainda pode durar uns anos. Ao contrário da Europa, onde as taxas de JUR estão nos 2%, nos Estados Unidos elas continuam ainda num patamar elevado. Estão entre os 3,5%.

Os três, onde se tem aqui 5%. A economia cresce, está a crescer à volta de 2% neste primeiro trimestre do ano. De facto, a inflação, sim, dá sinais de também começar a ficar fora de controlo. Não só por causa do efeito geopolítico e geoeconómico do distrito de Ormuz, mas também ainda por causa do efeito das tarifas.

de Donald Trump, que tornaram os bens importados bastante mais caros. Agora, na economia, a pressão é no sentido não de que os juros subam, mas de que os juros deixam. Essa era a tendência antes desta guerra? Era, e continua a ser. Há, de facto, uma grande pressão, em primeiro lugar, do Presidente dos Estados Unidos, da própria Casa Branca, para que os juros deixam, porque isso é bom para as famílias, é bom para as empresas.

Há eleições ainda no final do ano, o presidente norte-americano tem a popularidade em baixa e, de facto, tem feito uma grande pressão para que isso aconteça. Mas lá está, o ponto de partida da economia norte-americana em relação à economia europeia é muito distinto.

Começa logo pelo facto dos Estados Unidos serem produtores de petróleo e apesar da cotação do petróleo ser feita nos mercados globais e de os combustíveis também estarem a aumentar nos Estados Unidos, mas o facto da economia ser produtora de petróleo e vender o petróleo para o exterior beneficia.

de alguma forma deste choque energético que está a acontecer por via da guerra no Médio Oriente. Mas, de facto, a Reserva Federal, nomeadamente o atual presidente, o Jerome Powell, que está neste momento de saída, ele tem resistido muito a estas pressões de Donald Trump no sentido de baixar as taxas de juros. Deixa-me, Clara, ouvir-te precisamente sobre isso.

terá sido a última decisão de Jerome Powell à frente da Reserva Federal norte-americana. Esta decisão de manter taxa de juros de referência da Fed inalterada. O mandato de Jerome Powell termina já no dia 15, vai seguir-se Kevin Wors, que foi nomeado por Trump, e o Presidente quer que ele tente baixar as taxas de juros e depressa. Mas, claro, baixar taxas de juros não vai depender só dele, não é?

Não. Porque há 12 governadores que votam e é preciso uma maioria de 7. Exatamente. Embora essa maioria ainda não existe, mas na reunião da semana passada as taxas de juros não subiram, mas houve 4 dos governadores que votaram contra a decisão. Ou melhor, não foi bem contra a decisão.

Houve, de facto, um governador, como habitualmente o Stephen Meeren, tal como nas reuniões anteriores, que votou contra porque ele, de facto, queria descer as taxas de juros. Os restantes três governadores que votaram contra aparentemente não concordaram com a redação do comunicado final da Reserva Federal. Mas, de qualquer modo, isto também significa que a divisão dentro do Conselho de Governadores das Reservas Federais...

é cada vez maior. Portanto, não é líquido que Kevin Wors, mesmo que queira, possa baixar as taxas de juros no futuro? Não, a não ser que as pressões cheiam cada vez maiores, que continua a haver uma rotação de governadores, porque os mandatos chegam ao fim, e a Casa Branca, de alguma forma, consiga influenciar essas substituições.

indicando para os cargos, não só a Casa Branca, mas também os Estados, indicando governadores que sejam mais falcões do que pombas, como nós costumamos chamar a alinhadura, em relação àquela linha que é um bocadinho mais... Kevin Walsh era um falcão.

Ele garante que vai conduzir a política monetária de forma independente, mas sabemos o que Trump espera dele. E Kevin Walsh tem sido um falcão, defendeu sempre muito rigor no controle da inflação. No entanto, ele aliviou um pouco essa postura antes de ser nomeado por Trump para a Fed. Clara, Walsh parece ser mais flexível do que Jerome Powell. Sim, parece bastante. Embora agora durante as audições no Senado...

Ele garantiu ao Senado que não será uma marioneta ou um fantoche nas mãos de Donald Trump e que nunca baixará os juros nem tomará outras decisões.

em resultado direto de eventuais pressões políticas de Trump. Também não se esperaria que ele dissesse outra coisa. O contrário, precisamente, quando precisava da votação, não é? Para ser nomeado para o cargo, embora ainda está dependente de uma votação final do plenário do Senado, digamos assim, que ocorrerá agora nos primeiros dias de maio. Agora, também é verdade que o Osho defendeu no Senado...

uma mudança na condução da política monetária da Reserva Federal e também um novo enquadramento para a inflação. Ao mesmo tempo manifestou vontade de fazer menos reuniões de política monetária.

ou seja, preparando-se para rever as regras da casa, e se de facto se conseguir levar essa ideia avante, irá acabar com uma tradição que tem praticamente meio século, da Reserva Federal fazer oito encontros de política monetária por ano, que são precisamente aqueles encontros onde no final é decidido manter, ou subir ou descer as taxas de juros.

Clara Teixeira, comentadora de Economia da Antena 1. Obrigado, Clara. Obrigada.

O rei e a rainha de Inglaterra estiveram nos Estados Unidos toda a semana numa visita comemorativa dos 250 anos da independência da América e numa altura em que a relação especial entre os dois países, como Churchill lhe chamou, passa por alguns atritos por causa do conflito com o Irã. Donald Trump não escondeu a frustração com o primeiro-ministro britânico, o Keir Starmer, devido à hesitação do Reino Unido em ajudar os americanos na guerra.

Trump disse que Starmer arruina as relações com a América, chamou-lhe covarde e fez até chacota com os porta-aviões ingleses. Disse que são uma brincadeira, quando comparados com os porta-aviões americanos. Starmer, por seu lado, dá sinais de estar um pouco farto dos problemas económicos que o conflito com o Irã está a causar. De modo que esta visita de Carlos III aos Estados Unidos foi comemorativa dos 250 anos de independência da América.

mas política, porque o rei procurou aproveitar a visita para tentar salvaguardar a relação especial. No discurso que fez no Congresso, o norte-americano Carlos III disse que os laços dos Estados Unidos com o Reino Unido são mais importantes do que nunca porque os desafios globais são demasiado grandes.

para que um país possa ocupar-se deles sozinho. Bernardo Ivo Cruz é especializado em questões europeias, doutorou-se em ciência política na Universidade de Bristol, no Reino Unido. Boa tarde. Carlos III esteve nos Estados Unidos, de facto, com esse intuito de segurar, digamos assim, a relação especial entre americanos e britânicos.

Mas pergunto se não será preciso mais do que a pompa e a circunstância destas visitas e de figuras como o rei, que são antes de mais simbólicas, para suportar uma relação como a que liga estes dois países há décadas, há séculos, na verdade. Boa tarde, muito obrigado pelo convite. É preciso termos sempre presente uma coisa.

a coroa não toma posições políticas públicas. Portanto, tudo aquilo que o Rei Carlos III foi dizer aos Estados Unidos foi dizer em nome do Reino Unido e as palavras que ele utilizou foram combinadas e tratadas e organizadas.

com o governo britânico. A grande diferença entre uma coisa e outra, entre ser o rei Carlos III ou ser o primeiro-ministro de Kiyosarma a fazer estes cursos, é que o presidente Trump tem um respeito...

pelo rei que não tem pelo primeiro-ministro. E, portanto, a mensagem que será a mesma, e que há uma mensagem que a Europa aplaude, vinda da boca do rei é recebida de uma forma, vinda da boca do primeiro-ministro é recebida de outra. Os Estados Unidos e o Reino Unido têm, de facto, relações muito estreitas em áreas cruciais, monocleares.

Também a partilha de informações, de inteligência. Será, talvez, Bernardo Ivo Cruz, inconcebível ver estes dois países se distanciarem ou não? É uma ligação quase siamesa. Pode ter atritos, mas que parece no essencial, enquebrável. Se, de facto, os Estados Unidos e o Reino Unido se separarem, ou se forem separando, ou se forem se afastando...

Significa que a relação entre os Estados Unidos e a Europa está satisfazer. Porque a ligação entre o Reino Unido e os Estados Unidos seria a última das pontes a serem quebradas na relação atlântica. Embora já tenha acontecido uma vez, pelo menos, os Estados Unidos e o Reino Unido distanciarem-se...

Muito. Foi durante a crise do Suez. Em 1956. E rapidamente a rainha Isabel II foi reconstruir esses lados, como aliás lembrou o rei Carlos III nesta visita. Para recordar na altura o Reino Unido, a França e Israel atacaram o Egito para ocuparem o canal do Suez e derrubarem o governo de Nasser. E os Estados Unidos esforçaram-nos a retirar. Exatamente.

Leveu a rainha e reaproximou. E o Rei Carlos III foi tentar fazer o mesmo exercício. Reaproximar os Estados Unidos e o Reino Unido. Reaproximar os Estados Unidos e a Europa. Porque ele foi para lá, nos discursos que fez e nos comentários que fez, ele foi para lá da relação bilateral entre os Estados Unidos e o Reino Unido. Ele falou no papel da NATO, ele falou na ligação entre a Europa e os Estados Unidos, ele falou na dimensão atlântica.

do relacionamento. Portanto, ele foi não só tentar reconstruir os laços entre o Reino Unido e os Estados Unidos, ele foi mais longe do que isso e foi tentar reconstruir os laços entre a Europa e os Estados Unidos. No discurso que fez no Congresso, Carlos III não falou da guerra ao Irã, que foi o motivo do desconforto de Donald Trump com Keir Starmer, mas disse uma série de coisas facilmente interpretáveis como críticas subtis a Trump. Por exemplo, logo no início do discurso...

Ele citou Oscar Wilde, o poeta irlandês que foi preso por homossexualidade, para depois dizer que a força coletiva das nossas sociedades, como eu disse, provém do seu caráter vibrante, diverso e livre. Ora, a administração Trump, como sabemos, tem promovido políticas exatamente...

contrárias. Podemos, Bernardo Ive Cruz, de facto, interpretar partes do discurso de Carlos III como críticas implícitas a Trump? Eu acho que todo o discurso do rei no Congresso foi uma crítica constante às políticas do presidente Trump.

Ele começou por falar nas incertezas que o mundo atravessa, estendeu-se longamente sobre a necessidade de defender e apoiar a Ucrânia. Falou nos ataques à democracia. Defendeu a NATO. Defendeu a NATO. Quando as críticas de Trump a NATO têm sido assérrimas. Lembrou que a única vez que o artigo 5º foi evocado foi pelos Estados Unidos, a seguir ao 11 de setembro.

E todos os aliados apresentaram-se para defender os Estados Unidos e apoiar a guerra ao terror. Falou longamente sobre os princípios da democracia e a separação de poderes, exortando o Congresso a assumir o seu papel de guardião e de controlar o executivo.

falou na importância que a palavra dos Estados Unidos tem no mundo e do cuidado que os Estados Unidos deve ter com as coisas que diz e como as diz. Se há algum presidente na história dos Estados Unidos que tenha dito coisas extraordinárias, é o presidente Trump. Sim, ele disse que, Carlos III, disse que as palavras dos Estados Unidos têm um peso. Têm um peso específico e, portanto, tenham lá juízo. E que as ações dos Estados Unidos têm uma importância maior ainda.

E aí há um tema que é muito caro ao atual monarquia britânico. Falou nas questões da sustentabilidade e da alteração climática. Lamentou o degelo do Ártico quando Trump acha que as alterações climáticas são uma fraude. Uma fraude. Falou longamente sobre o impacto na segurança das alterações climáticas. E, portanto, todo o discurso, em todos os seus quatro grandes capítulos... Elogiou a importância das instituições multilaterais.

Falou no multilateralismo Quando sabemos da animosidade crescente de Trump Em relação a esse tipo de organizações Todo o discurso é construído Como se fosse um longo recado Ao Presidente dos Estados Unidos E como é que lhe parece que Donald Trump Terá escutado essas palavras

Do rei de Inglaterra no Congresso, com um colher de ombros? O Presidente não estava no Congresso, estava o Vice-Presidente J.D. Vance. Mas sabe com certeza o que é que vai falar. É claro que sabe e deve ter ouvido. Portanto, não sabemos como é que ele terá reagido, mas a reação do Congresso foi muito interessante. Porque o Rei Carlos III foi interrompido 12 vezes com aplausos, num discurso que é relativamente pequeno, que não soou num quarto de hora.

Foi interrompido 12 vezes com aplausos e aplausos que muitas vezes começavam do lado democrata, mas estendiam-se a todo o Congresso. O próprio vice-presidente, J.D. Vance, que está atrás do orador, levantou-se várias vezes para aplaudir o discurso do Ricardo III.

Havia uma preocupação no Reino Unido, antes desta viagem, que o monarca pudesse ser maltratado pelo presidente americano, como o presidente americano tem maltratado uma série de visitantes. Que não aconteceu. O que não aconteceu, e não só não aconteceu, mas o Ricardo foi muito inteligente na forma como montou toda a sua... Porque lembrava as raízes escocesas do presidente.

Descobriu a certa altura um navio que tinha servido na Segunda Guerra Mundial que se chamava Trump e trouxe o sino original, o sino de bordo do navio que ofereceu ao Presidente dizendo se alguma vez precisar de mim basta tocar o sino que eu cá estarei para o que eu preciso.

O facto de ser uma casa reinante há muitos séculos permite ao Rei Carlos dizer coisas como o meu 15º avô, que era rei de Inglaterra e dos Estados Unidos quando foi à independência, nunca cá pôs os pés, mas a minha mãe veio cá uma série de vezes, e o meu avô, e o meu bisavô, e o meu trisavô, e eu próprio. Eu conheci o primeiro presidente americano que eu conheci, tinha 10 anos.

E foi Weizenhauer E portanto ele consegue construir ali Uma história de uma presença constante Teve uma frase muito engraçada Que foi quando disse a certa altura no Congresso Estamos aqui a comemorar os 250 anos De independência americana Que lá para o Reino Unido foi antes de ontem Exatamente, há dois dias E portanto ele deixou Uma série de recados que a Europa gostaria muito De dar ao presidente americano

sem nunca ter recebido a resposta que outro líder europeu provavelmente receberia do Presidente. Terá então havido essa vontade de defender a tal relação especial entre os Estados Unidos e o Reino Unido, mas, Bernardo Ive Cruz, há quem considere que o Reino Unido devia reequilibrar a relação com os Estados Unidos, aproximando-se mais da Europa.

O Reino Unido está numa situação complicada, porque o Reino Unido está dividido entre dois polos, um que não quer e o outro que aparentemente não o quer. O Churchill dizia no Parlamento, quando o Reino Unido estava sozinho face à Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, se estas ilhas forem ocupadas, nós continuaremos a guerra através do nosso Império, à espera do dia em que o Novo Mundo decida vir salvar o Velho.

E, portanto, desde essa altura que há uma noção muito clara na cabeça dos britânicos e no imaginário britânico Que é esta relação entre os Estados Unidos e o Reino Unido, entre o velho e o novo mundo

Essa relação sempre se manteve, mesmo nos piores momentos, mesmo no momento da crise do Suez. Não foi posta em causa. O rei Carlos lembrou uma história de Churchill, que estava na Casa Branca durante umas conversações, durante a guerra, e estava a sair do banho e vinha nu. E a porta abre-se, de repente, do quarto, e entra o presidente Roosevelt.

E o Churchill estava nu, enfim, apanhado assim, e o Roosevelt olha para o Churchill e diz o Reino Unido, de facto, não tem nada a esconder ao presidente americano. E, portanto, há uma longa tradição de histórias e de cumplicidades entre os dois países. Ao mesmo tempo, o Reino Unido tem vindo a perceber aquilo que para muitos era óbvio logo na altura do Brexit, que é o Reino Unido tem um papel muito importante a desempenhar na Europa, mas na escala mundial...

já não é tão grande e tão importante. Mesmo durante o Brexit, a ideia dos apoiantes do Brexit, a ideia do Boris Johnson, era nós vamos substituir a nossa relação com a Europa por uma relação ainda mais intensa com os Estados Unidos. Coisa que nunca aconteceu.

O Boris Johnson esperava que houvesse um acordo de livre comércio imediatamente a seguir ao Brexit entre o Reino Unido e os Estados Unidos. Entretanto, esse acordo apareceu. Apareceu. Anos depois, e não tem nada a ver com o que é o acesso ao mercado livre europeu. Logo, para começar, o mercado livre europeu são 450 milhões de consumidores, quanto a 320 milhões nos Estados Unidos. Em segundo lugar...

O Reino Unido tinha uma presença no mercado europeu absolutamente extraordinária. A indústria dos serviços financeiros, a consultoria, as universidades, todas essas áreas da economia britânica tinham uma penetração na Europa que nunca teve nos Estados Unidos. E para o comércio a geografia conta. É muito mais fácil eu vender para um mercado que está... Próximo. De 6 ou de 17 quilómetros. É do outro lado a mancha.

do que ter que atravessar o Atlântico todo. Claro. E, portanto, o Reino Unido está numa situação em que, como eu dizia há bocado, quem ele quer não o quer e quem o quer ele não quer. Agora, vejamos como é que isto vai evoluir. A presidência Trump tem um potencial muito grande de reaproximar o Reino Unido da União Europeia.

O primeiro-ministro Starmer tem a maioria no Parlamento que o poderia levar, caso queira, a reforçar essa ligação. Já começou a levar umas coisas não muito relevantes, mas enfim, são sinais. O Reino Unido voltou ao Erasmus e, portanto, os jovens estudantes britânicos vão poder voltar a estudar em universidades europeias e os europeus em universidades britânicas. Mas ainda há um caminho grande a percorrer e o Reino Unido vai ter que se definir o que é que quer ser.

Se quer continuar a ser o parceiro menor da relação atlântica, e talvez esta visita do Ricardo III permita fazer isso, porque o Ricardo III passou com aplausos e nota máxima este teste muito difícil, este teste diplomático muito difícil, mas pode também optar por, mantendo a relação com os Estados Unidos, voltar a ter um papel muito importante na União Europeia. Penardo, Ivo Cruz, agradeço-lhe. Muito obrigado.

Jihadistas ligados à Al-Qaeda, agora também associados a nacionalistas tuaregs, lançaram uma ofensiva feroz ao poder da junta militar que governa o Mali, atacaram com drones e carros armadilhados várias cidades em todo o país, ficaram com o controle de algumas e já também de alguns bairros na capital, Bamako.

Mataram num ataque suicida nos arredores de Bamako um ministro da Defesa, Sádio Camará, Raul Barga Pires, comentador aqui na rádio para o Norte de África e o Sahel. Boa tarde. O mais poderoso destes grupos rebeldes é a JNIM, um grupo jihadista que quer impor a sua versão extrema da lei islâmica na África Ocidental. A JNIM reivindicou o assassínio do ministro. O Mali Raul estará prestes a ficar nas mãos dos jihadistas?

Boa tarde, Mário Rui. Essa é a grande questão. Há essa possibilidade. Agora, eu não sei se há uma vontade da parte deles. Esse grupo jihadista, o Genimo, o grupo de apoio ao Islão e aos muçulmanos, é, digamos que, da constelação da Al-Qaeda em África, aquele que não é que sobreviveu, mas que dos outros todos que foram definhando, foi o que se aproveitou do Ansar Yedin, do Mujau.

do Almorabitune, de todos estes grupos que estavam nessa constelação, as boas maçãs, se há aqui boas maçãs nestes grupos todos, conseguiram-se juntar e formar este grupo de Genim, que está liderado pelo Yad Zahrali, que é um histórico da década de 90 do FIS e do GIA Argelino.

Desde a década de 90, que aquilo que nós temos vindo a observar é um rechaçar do jihadismo islâmico nesta zona do Sahel, cada vez mais para sul. Eles estavam, na década de 90, instalados na fronteira com a Argélia e foram sendo empurrados cada vez mais para sul.

Essa tendência tem-se verificado. Não é por acaso que, por exemplo, na fronteira com o Togo, com o Benin, que são países, são línguas de terra que chegam ao mar, tem havido uma série de escaramuças nas fronteiras, precisamente com armas ligeiras e motorizadas.

Para quê? Para os jihadistas testarem a reação das forças que estão ali naquela fronteira, porque o objetivo deles, de facto, é chegarem ao mar ou ao Senegal ou ao Golfo da Guiné, qualquer um destes países, e a costa do Marfim tem sido, a fronteira norte, bastante fustigada por isto. Portanto, há uma tendência desta descida destes grupos para sul, por interesse próprio e por serem empurrados pelas autoridades dos países locais onde estão.

instalados. Como eles estão progressivamente a avançar para sul por interesse próprio e por serem empurrados, eu não vejo um grande interesse em ficarem no Mali a governar. Até porque governar implica responsabilidade e implica o seguir de uma série de protocolos aos quais não lhes é natural. Gihadistas já estiveram no poder no Mali. Estiveram durante um curto período de tempo.

precisamente este 25 de abril de 2026, é uma réplica de um erro cometido em dezembro de 2012, na altura pelo MNLA, que era o Movimento Nacional de Libertação de Azaoado, que, entretanto, nestes últimos 15 anos também se foi esbruando, e então as boas maçãs desse grupo formou a Frente de Libertação de Azaoado.

Em dezembro de 2012, o MNLA associa-se ao Ansar Eddin, que era o que o Genime representa hoje para o Islão político nesta África. Grupos afiliados à Al-Qaeda, não é? Exatamente, exatamente. Em 2012, dá-se esta associação e a minha convicção que os serviços secretos franceses convenceram...

o movimento de libertação do Azawad, os independentistas do Aregues, de que se fizessem esta aliança com este grupo jihadista que estava, de facto, a comandar aquele momento e a avançar para o Sul, que a França iria arranjar maneira de lhes garantir um Azawad independente ou, pelo menos, um Mali federal, que lhes podia dar uma primeira plataforma de uma proto-independência para depois cavalgarem, daqui a 20 anos, uma independência efetiva.

O Azawad, tens referido várias vezes o Azawad, o Azawad é... É a província norte do Mali e do tamanho da França. Quando tu me perguntas se neste momento há uma possibilidade... A província norte do Mali que os Tuaregs gostariam de ver transformada... No seu próprio país. No seu próprio país. Na sua Tuareg Holândia. Exatamente.

Este território é vastíssimo. E o que é contraditório nesta aliança é que estes tuaregos da Frente de Libertação de Azawad querem o seu próprio país, têm um projeto independentista para a sua própria terra e se indirem com Bamako, com o poder central do Mali. Os jihadistas querem a constituição do califado.

Eu acredito que aprenderam alguma coisa nos últimos anos com a luta que lhe foi feita ao Estado Islâmico, aos seus métodos, à sua própria linguagem, aos seus próprios códigos. E eu imagino que neste momento, num primeiro período...

Haja aqui um entendimento, estes dois grupos. Estão coordenados agora, os Tuaregs e os Jadistas. Estão coordenados a Frente de Libertação a Norte e o Genime no Sul, na zona, no eixo, Cati-Bamacó, que é mais ou menos a mesma coisa que nós dizermos o eixo Amadora-Lisboa, porque Cati é onde está a Academia Militar.

e é aliás o centro nevrálgico do poder político e militar. Mas eles têm objetivos diferentes, o que é que os liga para agora estarem a atuar consecutivamente? Então, a Frente de Libertação do Azawad está desde 2012 a querer colocar em cima da mesa a agenda federalista, a hipótese...

de um alí federal. E Bamako não avança nem recua. A portuguesa está em águas de bacalhau. Esteve com os civis dentro da Constituição e está agora com a junta militar após dois golpes de Estado. Portanto...

Isto foi o limite da Frente de Libertação do Azawad, este tempo que não se avançou. Percebeu que foram feitos uma série de testes pelo Genime ao longo do ano passado, nomeadamente um que foi sem armas parar em Bamako, impedindo que os camiões de combustível abastecessem as bombas de combustível. E sem armas como? Eles são tantos que em cima de uma motorizada, ao rodearem o camião cisterna.

O caminhão fica rodeado de formigas, como nós vemos nos documentários do National Geographic. E, portanto, este fator número, escala, faz a diferença. E há um interesse que acaba por ser mútuo e agora concluo, que é um ozawad independente e é uma vastidão tal.

de território que eventualmente poderá haver uma cotadazinha para o Genim ter lá o seu califadozinho. O que o Junim, nesta altura, presumo que seja oposição à junta militar que está no poder da Imamá. E oposição aos russos, porque há aqui dois problemas fundamentais que eram os civis...

O presidente Traoré não desenvolvia, a economia estava estagnada, havia o problema da interferência francesa e os franceses foram utilizados, foram diabolizados com a ajuda dos russos e, portanto, aqui houve, de facto, uma substituição. Inglês, franceses, ingleses e americanos foram expulsos e são os russos primeiro com o Perigogine Wagner Group e agora com o Africa Corsi.

Sendo que o exército maliano nunca conseguiu controlar os grupos rebeldes, nem com a ajuda dos russos. Não, porque os franceses eram 5 mil, os russos são 2 mil. O território é vastíssimo, é impossível. E depois há uma outra coisa. É preciso ganhar o coração das populações. Os franceses também não conseguiram.

Mas, bem ou mal, os franceses têm 200, 300 anos, que pelo menos já lhes permite perceber os códigos daquela África. O erro dos franceses foi este, e eu compreendo muito bem o coração e as mentes dos malianos. 50 anos depois, aqueles que nós lutamos não podem regressar ao nosso território com as mesmas fardas e com os mesmos símbolos.

Que força, Raul, têm estes grupos jihadistas noutros países da região, como o Burkina Faso, como o Níger? Aí há duas situações diferentes. Há um fator comum que é as lideranças, também as juntas militares, portanto estes países, Mali, Burkina e Níger, que eram membros da CDAO, se indiram da CDAO e criaram uma aliança, eles os três, opcional ou competitiva.

competidora, perdão, da CDAO, que é a Aliança dos Estados do Sahel. E, portanto, o que acontece no Mali, mais cedo ou mais tarde, vai acontecer nestes outros dois Estados. As juntas militares estão em pânico, de facto, porque estão à espera do spillover, do efeito dominó para os seus países. No entanto, no Burkina está a Al-Qaeda, não está o Estado Islâmico. No Níger está o Estado Islâmico e não está a Al-Qaeda. Raul Braga Pires, obrigado. Muito obrigado, Mário Rui.

Os conflitos no Médio Oriente têm tido os impactos que se conhecem na situação económica, mas também o património material e imaterial de muitos lugares tem estado a ser atingido. A correspondente Rosário Salgueiro entrevistou sobre este assunto em Paris a diretora da Unidade de Emergências da Unesco.

O som dos primeiros mísseis foi acompanhado pelo alerta da Unesco. A guerra no Médio Oriente pode destruir património cultural único. Dois meses após o início do conflito, foi à Agência Cultural das Nações Unidas. Krista Peckett, a diretora da Unidade de Emergências da Unesco, revela ao Visão Global qual o património protegido.

já em risco. A nossa principal preocupação é com os locais situados no Irão, no Líbano, em Israel e na Palestina. Confirmamos danos em três locais que são património mundial. Um é o Palácio de Gulestão, em Teherão, outro o Palácio que integra o Jardim Persa, em Isfahan, e também em Tiro, no Líbano. Mas existem muitos outros com importância.

cultural nacional. Krista Pica também reconhece nesta conversa com a Antena 1 que nesta fase a insegurança dificulta a avaliação da extensão e a natureza dos danos provocados a estes lugares que deviam ser protegidos. Não temos acesso à maioria dos sítios. Krista, então nestas condições como é que se pode confirmar o que está a acontecer nos diferentes locais?

Quando não temos acesso aos locais por causa da situação de segurança, recorremos a imagens de satélite. Trabalhamos em conjunto com o programa de satélites da ONU para comparar imagens antes e depois. Isto permite-nos determinar se houve algum dano no local, mas nem tudo é visível através destas imagens de satélite. Muitas vezes, os locais de interesse cultural são vítimas colaterais. Embora não sejam o alvo, acabam por ser afetados.

é importante que a Unesco confirme sempre os danos no local. E isso, claro, só podemos fazer quando as condições de segurança permitem.

Na capital iraniana, um míssil caiu nas proximidades do Palácio Goldstam no primeiro dia de março. O edifício, considerado Versalhes de Teherão com 400 anos de história persa e com influências europeias, não era o alvo do ataque, mas sofreu com impacto no exterior.

A ministra da Cultura iraniana abriu as portas para as imagens da agência Reuters. No pavimento da entrada, o triângulo azul, sinal de património da humanidade. No interior, podem ver-se as janelas, os espelhos e os vitrais centenários tilhaçados. O pavimento do século XVI saltou da estrutura. Os lustros e os objetos mais preciosos não foram danificados. Tinham sido retirados antes do início da guerra, mal Donald Trump começou a ameaçar o Irã. O mesmo aconteceu em Isfahan.

Outra cidade-alvo dos ataques Israel aos norte-americanos. A 9 de março, o Palácio do Jardim Persa e a Praça Eman, na lista da Unesco, foram danificados. Azulejos únicos caíram. Os desenhos das cerâmicas com as múltiplas cores têm sido ao longo dos tempos inspiração para os tapetes persas vendidos no Grande Bazar de Isfahan. Ali é comerciante. Emociona-se a falar ao microfone da Reuters local.

Eu estava exatamente atrás desta mesquita quando o bombardeamento aconteceu e vi alguns azulejos da cúpula a caírem. Não acreditei como esta mesquita magnífica podia estar a ser destruída. Aqueles azulejos são como um tapete. Eu inspiro-me neles para os meus tapetes quando estou a desenhá-los.

No Líbano, a antiga cidade fenícia de Tiro, junto à fronteira com Israel, se entra as maiores apreensões das autoridades culturais. Em Israel, os mísseis iranianos atingiram a cidade branca, casas em estilo Bauhaus, tesouros arquitetónicos únicos. A segurança da sinagoga Bitsimish tem sido outra preocupação.

Voltando a Paris, à Unesco, entrevisto o Krista Pickett, a diretora da Unidade de Cultura e Emergência da Agência das Nações Unidas. Krista, tendo em conta esta situação, como auxiliam as autoridades das zonas em conflito a colocar este património a salvo? A Lebanon tem benefício do apoio da Unesco.

O Líbano teve apoio da Unesco para os ajudar a fazer inventários para documentação e também para reabilitar um lugar de refúgio para as coleções. Também estamos a preparar com o nosso escritório em Teherão uma formação para profissionais da cultura saberem lidar com situações de risco, ensinando-lhes medidas de emergência e de salvaguarda urgentes. Estamos a planear um curso online para os países do Golfo sobre medidas de emergência. Também gostaríamos de fazer uma formação presencial em avaliação de danos.

Desenvolvemos uma tecnologia com ferramentas de realidade virtual para podermos formar os nossos colegas sem termos de nos deslocar ao local, ensinando-os a avaliar impactos para depois podermos recuperar. Mas a Unesco não se limita a acompanhar as situações. Temos a obrigação também de recordar aos Estados-membros qual o quadro normativo no domínio da cultura a que estão obrigados. Para isso, contactámos todas as partes envolvidas e partilhámos com elas as listas dos locais designados pela Unesco.

se encontram sob proteção, por constarem da lista do património mundial ou da lista de proteção reforçada no âmbito do segundo protocolo da Convenção de Gaia. E que tipo de respostas recebeu das autoridades dos países envolvidos?

Não podemos divulgar essa informação, mas ficámos satisfeitos ao ver que o Líbano considerou que a modalidade de proteção reforçada era útil. Os primeiros 34 sítios libaneses foram inscritos no regime de proteção reforçada em 2024 e agora, quando as hostilidades começaram, eles voltaram a contactar-nos com mais 39 lugares. Agora o Líbano tem a maior quantidade de sítios sob proteção reforçada no mundo.

Com outro grupo de sites, 39 sites, agora o Lebanon tem o maior número do mundo de sites de proteção de casa. Num estudo recente da própria Unesco foi demonstrado que o património é resiliente, mesmo em momentos de guerra. Como se explica esta situação?

Vemos que os países e as comunidades estão sempre preocupados com o seu património material e imaterial, porque deixam de ter acesso a locais de culto, a centros culturais, a museus, etc. São direitos culturais. Estamos a falar de práticas, de património vivo, de indústrias culturais e criativas.

Quando tudo isso fecha, perdem-se meios de subsistência. Há muitos profissionais que não conseguem trabalhar. O setor cultural é afetado nestas situações de emergência. Há uma certa fragilidade, mas também há o reconhecimento do poder da cultura nestas alturas como fonte de identidade, de resiliência e de vontade de recuperação.

para servir como uma source de identidade, mas também de resiliência e de recuperação. A Unesco tem escritórios em Teherão, Doa, Beirut e Ramallah, mas não em Israel, que se retirou da organização em 2017.

A Convenção de AIA de 1954 obriga a preservação do património cultural em caso de conflito armado. A violação desta convenção pode ser considerada um crime de guerra, se a se verificar que a destruição foi intencional e não justificada. Um trabalho da correspondente Rosário Salgueiro.

O acidente nuclear de Chernobyl foi há 40 anos, a 26 de abril de 1986. Foi uma tragédia, mas também uma oportunidade para os cientistas estudarem e aprenderem com o que se passou. Rita Fernandes.

O professor e físico Mário Reis continua a falar de Chernobyl aos alunos. Sim, continuo, continuo. Aliás, eu dou, no mestrado em Proteção de Segurança Radiológica, uma das unidades curriculares que eu dou, falamos não só em situações de exposição de emergência, falamos em situações de exposição sem ser de emergência, portanto planeada e existente. Os dois exemplos que eu dou relativamente à parte da exposição de emergência é precisamente Chernobyl e Fukushima.

No campus tecnológico e nuclear do Instituto Superior Técnico, o Visão Global senta-se à mesa com dois físicos, Mário Reis. Sou responsável pela parte da radioactividade ambiente aqui no Instituto Superior Técnico. E também João Alves. No fundo, sou diretor adjunto para o Laboratório de Proteção e Astranação Radiológica do Instituto Superior Técnico.

O físico João Alves destaca outro dos ensinamentos deixados pelo acidente de Chernobyl. Deu novo peso e urgência à aplicação, de uma forma eficaz, de várias medidas do Tratado Euratom. No fundo é o Tratado da Europa, o dos países europeus signatários desse tratado, que é mais vasto do que a União Europeia, portanto não engloba apenas os países da União Europeia, que de alguma forma se reúnem para a utilização pacífica da energia nuclear.

Esse tratado já tinha previsto todo um conjunto de artigos, existiam, mas de facto a necessidade de os pôr em prática de uma forma eficiente surgiu com Chernobyl e na sequência de Chernobyl, porque foi de facto Chernobyl que deu o pontapé, um pouco de saída para estas questões. Então o que é que diz o 35? No fundo é que os países devem fazer a monitorização da radioatividade no ambiente, na atmosfera, na água.

As pessoas vias de disposição principais e a dieta fundamentalmente. E depois veio o 36, que é a obrigação de comunicar esses resultados. Todos os países membros têm a obrigação de fazer esses programas de monitorização e colocar esses resultados nessa base de dados. A forma como se lida com acidentes nucleares, os modelos de simulação que passaram a ser utilizados, a forma de resposta a acidentes. Hoje em dia existe um sistema de suporte à decisão na Europa toda que é o RODOS.

que é a Real Time Online Decision Support System, que permite gerir a resposta a um acidente nuclear, basicamente. E isso tudo surgiu de Chernobyl.

O que começou como um teste de segurança num dos reatores da Central Nuclear de Chernobyl, em 1986, transformou-se num dos mais graves acidentes nucleares da história. Foi há 40 anos, na antiga União Soviética. Desde então, as centrais nucleares foram construídas com padrões de segurança muito mais exigentes, explica o físico Mário Reis. A central de Chernobyl era muito particular.

Era uma central moderada a grafite e que praticamente não tinha edifício de contenção. O que significa que, quando ocorreu o problema, que foi um acidente que teve um caráter explosivo, portanto, tudo saiu rapidamente para a atmosfera. O que significa que conseguiram circular a nível do clube inteiro. E depois depositar nos vários locais.

À volta da central nuclear, mantém-se, até hoje, a chamada zona de exclusão por causa da exposição a radiações. João Alves revela que ao longo das décadas vão surgindo vestígios cuja origem nem sempre é clara, mas que acabam por trazer Chernobyl de volta à discussão científica. Pontualmente, ao longo destes 40 anos depois de Chernobyl,

Voltem a meia nós encontramos de facto um vestigiozinho ou outro de Césio que nós atribuímos ou a Chernobyl, que poderá ter vindo dos acidentes de testes nucleares que se faziam de bombas nucleares na atmosfera 50 e 60, que também tinham natureza explosiva e portanto também lançavam para a atmosfera radionuclitos.

e, portanto, podem lá ter ficado. Nós não sabemos de onde é que provém exatamente aquilo. Sabemos que é antropogênico, portanto, não tem origem humana. Exatamente, não é natural, tem origem artificial. Agora, se vem do Seu-Nóbil, se vem dos testes nucleares na atmosfera, não sabemos, mas é aquilo que nós chamamos de fallout. No fundo, é aquilo que está na atmosfera e depois acaba por cair.

Hoje, há centrais de produção de energia nuclear espalhadas pela Europa, também na América ou na China, sempre com riscos associados e a possibilidade de acidentes nucleares, explica o físico Mário Reis. Mas não acontecerá nada comparado com Chernobyl.

Eu diria que os riscos, hoje em dia, não têm nada a ver com os riscos. Um acidente como o Chernobyl não pode acontecer novamente. Mas já por já não há daquele tipo de centrais em funcionamento. Eu acho que a tendência agora para o futuro é as centrais serem, estamos a falar de centrais mais pequenas, os modulares. A tendência agora é essa. E isso modifica bastante as coisas em termos de consequências dos acidentes.

Tudo isto resulta do estudo contínuo do acidente de Chernobyl, que apesar de ter sido um dos maiores desastres nucleares da história, acabou também por ser uma oportunidade de aprendizagem e investigação científica. 40 anos depois, o acidente continua a fornecer dados, também a trazer perguntas e ainda lições que ajudam a pensar sobre a segurança nuclear em todo o mundo.

Chernobyl, 40 anos depois, reportagem de Rita Fernandes. Visão Global volta para a semana. Até lá.