CRIME E CASTIGO — CAPÍTULO 7: O ASSASSINATO | FIODÓR DOSTOIÉVSKI | AUDIOLIVRO
Chegamos a um dos momentos mais decisivos de Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski.Neste capítulo, a tensão psicológica e moral construída ao longo da primeira parte atinge seu ponto crítico. A narrativa mergulha no conflito interior de Raskólnikov e nas consequências de suas escolhas.🎧 Ouça o Capítulo 7 — O Assassinato em formato de audiolivro, com narração humana e em português.📖 Obra: Crime e Castigo📚 Parte: 1📌 Capítulo: 7 — O Assassinato✍️ Autor: Fiódor Dostoiévski🎧 Formato: Audiolivro🇧🇷 Idioma: Português🎙️ Narração: Ricardo ViannaE-mail/Pix: canallivrosonoro@gmail.comInstagram: @livrosonorooficialSOBRE CRIME E CASTIGOCrime e Castigo é uma das obras fundamentais da literatura russa e da literatura universal. Dostoiévski explora temas como culpa, consciência, pobreza, moralidade, sofrimento, justiça e redenção através da trajetória de Raskólnikov.Acompanhe Crime e Castigo capítulo por capítulo aqui no Livro Sonoro.🔔 INSCREVA-SE para acompanhar os próximos capítulos e outros grandes clássicos da literatura universal.👍 Gostou do capítulo? Deixe seu like e compartilhe.💬 O que você está achando da trajetória de Raskólnikov?📚 LIVRO SONORODa palavra escrita à palavra falada.
Ricardo Vianna
- O AssassinatoRaskólnikov·Aliona Ivanovna·Machado·Roubo
- Consequências do CrimeRaskólnikov·Pânico·Fuga
- A Fuga e o Encontro na EscadaRaskólnikov·Porteiro·Pintores·Perseguição
- Encontro com LisavietaLisavieta Ivanovna·Segundo Homicídio
- O Retorno e o MachadoRaskólnikov·Machado·Esconderijo
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Muito obrigado pelo seu apoio. Agora vamos ao capítulo. Capítulo 7º: Crime e Castigo. Como das outras vezes, a porta abriu-se devagarinho e, de novo, dois olhos penetrantes e receosos pousaram sobre ele, olhando do fundo da escuridão. Nesse momento, Raskolnikov perdeu o sangue frio e esteve quase a deitar tudo a perder por sua culpa. Receando que a velha se assustasse por se encontrar sozinha com ele e não acreditando que a sua cara e o seu aspecto fossem próprios para tranquilizá-la, segurou a porta e puxou-a atrás de si, para que a velha não caísse na tentação de tornar a fechá-la.
Por seu lado, ela não puxou a porta, mas também não a largou, de maneira que por um pouco não se arrasta, juntamente com a porta, até o patamar. Quando viu que a velha continuava no umbral, estorvando-lhe a entrada, caminhou direito a ela. Muito admirada, deu um pulo para trás, quis dizer qualquer coisa, mas não conseguiu, e ficou olhando com os olhos muito abertos. Boa noite, Aliona Ivanovna, começou com o ar mais indiferente, mas com uma voz que já não lhe obedecia, entrecortada e tremente.
Trago-lhe um penhor, mas entremos, vamos para a luz. E empurrando-a com um gesto brusco, entrou no quarto sem que ela o tivesse convidado. A velha correu atrás dele e começou a dar a língua. Meu Deus, mas que deseja o senhor? Quem é o senhor? O que quer? Repare, Aliona Ivanovna, sou seu amigo Raskólnikov. Ouça, trago-lhe o penhor de que lhe falava ultimamente. E estendeu-lhe o penhor. A velha ia para examiná-lo, mas tornou a fixar mais uma vez os seus olhos nos do intruso.
Contemplava-o atentamente, com uma expressão maliciosa e receosa. Passou um minuto E ele julgou até perceber no olhar da velha qualquer coisa de irônico, como se ela tivesse já adivinhado tudo. Sentiu que perdia a cabeça, que tinha quase medo, e que, se o mutismo da velha se prolongasse meio minuto mais, acabaria por fugir. Mas por que me olha tanto como se não me conhecesse?, disse ele também de repente com malícia. Aceite-o se quiser, senão vou a outro lugar.
Não posso perder tempo. Disse essas palavras sem as ter pensado, como se lhe tivessem escapado de repente. A velha reconsiderou, era evidente que o tom resoluto do visitante a animava. Mas, meu amigo, por que há de isto ser assim, tão de repente? Que é isso? Perguntou, olhando para o objeto. Uma cigarreira de prata. Vamos, já lhe falei dela da última vez que cá estive. A velha estendeu a mão. O senhor está tão pálido e tem as mãos trêmulas.
Estará doente, não? Tenho febre, respondeu com uma voz convulsionada. Como é que não se há de estar pálido quando não se come? Acrescentou com muito custo. As forças tornavam a faltar-lhe, mas a resposta parecia verossímil. A velha pegou o objeto. Que é isto? Perguntou, olhando outra vez de alto a baixo para Raskolnikov e sopesando o objeto na mão. Pois esse objeto, a cigarreira, de prata, mas veja... nem parece prata, vem muito bem embrulhada.
Enquanto se esforçava por desfazer o embrulhinho, aproximou-se da janela para ver melhor. Tinha as janelas todas fechadas, apesar do calor sufocante. E, por um momento, afastou-se de Raskólnikov, ficando de costas voltadas. Ele desabotoou o paletó e tirou o machado do nó-corredio, mas, sem o tirar completamente, limitou-se a segurá-lo com a mão direita por debaixo da roupa. Sentiu uma grande fraqueza nos braços, que lhe entumeciam de minuto a minuto e que se tornavam pesados como chumbo.
Tinha medo de deixar cair o machado. De repente, pareceu-lhe que a cabeça lhe voava. Mas que ideia fazer um embrulho desta maneira? exclamou a velha, esboçando um movimento para Raskólnikov. Não havia um momento a perder. Tirou completamente o machado debaixo do casaco, brandiu-o com as duas mãos, sem se aperceber do que fazia, e, quase sem esforço, com um gesto maquinal, deixou-o cair sobre a cabeça da velha. Estava esgotado.
Contudo, mal acabara de dar o golpe e lhe voltaram as forças. Como sempre, a velha estava de cabeça nua. Os seus escassos cabelos brancos, disseminados e distantes, gordurosos e oleosos, também estavam, como sempre, entrançados em forma de rabo de rato e presos por um dente de pente, formando carrapito sobre a nuca. Deu-lhe o golpe precisamente na saliência do crânio, para o que contribuiu a baixa estatura da vítima. Continuava ainda segurando o objeto de penhor numa das mãos.
A seguir, feriu-a pela segunda e pela terceira vez, sempre na saliência do crânio. O sangue brotou como de um copo entornado e o corpo tombou para frente sobre o chão. Ele se deitou para trás para facilitar a queda e inclinou-se sobre o rosto da velha. Estava morta. As pupilas dos olhos, dilatadas, pareciam querer saltar-lhe das órbitas. A fronte e o rosto contorciam-se nas convulsões da agonia. Deixou o machado no chão, ao lado da morta, e começou imediatamente a revistar-lhe os bolsos, procurando não manchar as mãos no sangue que jorrava.
Começou pelo bolso da direita, aquele de onde ela tirara as chaves da última vez. Conservava toda a sua lucidez de espírito e já não sentia náuseas nem vertigens. Apenas as mãos lhe tremiam ainda. Mais tarde havia de recordar a maneira sensata e prudente como se conduzira, como tivera o cuidado de não se manchar. Tirou as chaves. Tal como antes, estavam todas juntas, num molho, por meio de um só aro de aço. Assim que as teve em seu poder, dirigiu-se correndo para o quarto.
Era um cubículo pequenino, no qual havia uma redoma grande cheia de imagens e de santos. Em frente, encostada à parede, via-se uma grande cama, muito boa, com uma manta de seda acolchoada, de algodão, feita de retalhos. A cômoda estava no terceiro lado do quarto. Coisa estranha, ainda mal metera as chaves na fechadura desse móvel, Apenas sentir o rangido do ferro, quando uma espécie de calafrio o percorreu todo. Sentiu novamente vontade de deixar tudo aquilo e de escapulir-se.
Mas isso durou apenas um momento, pois era já demasiado tarde para sair. Já estava a rir-se de si próprio quando, de repente, outra ideia inquietante o assaltou. Lembrou-se de que podia suceder perfeitamente que a velha estivesse ainda viva e voltasse a si. Deixando as chaves e a cômoda, correu para lá, para junto do cadáver, e levantou outra vez o machado sobre a velha, mas não a golpeou. Não havia dúvida de que estava morta.
Agachando-se e contemplando-a outra vez de perto, ficou convencido de que tinha o crânio partido e até um pouco torcido. Sentiu vontade de apalpá-lo com o dedo, mas retirou a mão. Era evidente que não tinha necessidade nenhuma disso. Entretanto, o sangue formara já um charco sobre o chão. De repente, reparou que ela trazia um cordãozinho ao pescoço e puxou por ele, mas o cordão era forte e não se partiu. Além disso, estava empapado em sangue.
Experimentou então tirá-lo por debaixo do peito, mas havia qualquer coisa que o estorvava. Cheio de impaciência, ia já atirar outra vez o machado com o fim de cortar o cordão sobre o corpo, mas não se atreveu, e com grande trabalho, manchando as mãos e o machado de sangue, depois de 2 minutos de esforço, partiu o cordão sem tocar com o machado no cadáver, e tirou-lhe, não se enganara, uma bolsinha. Do cordão pendiam duas cruzes, uma de madeira de cipreste, e a outra de cobre, e além disso, uma pequena imagem de esmalte.
E juntamente com elas, havia um porta-moedas gorduroso, besuntado, de pele de gamo e com fecho de aço. O porta-moedas estava cheio. Raskólnikov guardou-o no bolso sem o examinar. Pôs as cruzes ao peito da velha e, pegando outra vez o machado, voltou de novo para o quarto. Apressou-se terrivelmente. Pegou as chaves e de novo voltou a servir-se delas. Mas tudo parecia inútil, não acertava bem na fechadura. Não que as mãos lhe tremessem, mas porque se enganasse sempre, e embora visse que não era aquela a chave que não entrava bem, persistia.
De repente, recordou-se e compreendeu que aquela chave grande, com o paletão denteado, que estava ali entre outras chaves menores, não devia ser a da cômoda, sem dúvida alguma, mas a de algum cofre, e que talvez fosse nesse cofre que tudo estivesse escondido. Abandonou a cômoda e meteu-se imediatamente debaixo da cama, por saber que, geralmente, as velhas guardam os cofres debaixo da cama. De fato assim era. Encontrou aí uma grande arca, forrada de couro vermelho e preguiada com pregos de aço.
A chave denteada entrou a primeira vez e abriu-a logo. Na parte de cima, por debaixo de um pano branco, havia uma peliça curta, de lebre, com guarnições vermelhas, e debaixo dela, um vestido de seda, sobre um xale, e depois, no fundo, segundo parecia, só havia trapos. Começou por limpar as mãos manchadas de sangue sobre a guarnição vermelha. Como é vermelha, o sangue não se notará sobre ela. Mas de repente, caiu em si. Meu Deus, teria eu perdido o juízo?, pensou assustado.
Mas mal acabara de remexer aqueles trapos, debaixo da samarra escorregou um relógio de ouro. Apressou-se a esvaziar o conteúdo do cofre. De fato, entre aqueles trapos havia objetos de ouro escondidos, provavelmente todos eles empenhados, resgatados e por resgatar: pulseiras, brincos, alfinetes de gravata e outros. Alguns guardados nos seus estojos, outros simplesmente embrulhados em papel de jornal. O medo apoderava-se dele cada vez com mais força, sobretudo depois deste segundo homicídio, completamente inesperado.
Estava ansioso por ver-se longe dali o mais depressa possível. E se nesse momento tivesse estado em condições de poder ver e considerar, se tivesse pelo menos podido imaginar todas as dificuldades da sua situação, toda a sua desolação, toda a sua vileza e toda a sua estupidez, pensar nisso e também nos obstáculos que teria de vencer para sair dali e voltar para sua casa, poderia muito bem ter se dado o caso de que abandonasse tudo e fosse ele sozinho correr e denunciar-se, não por medo, mas unicamente por horror e aversão ao que fizera.
A repugnância, sobretudo, surgia e crescia nele a cada momento. Por nada deste mundo se teria agora aproximado da arca, nem sequer da sala. Mas começou logo a apoderar-se dele uma certa abstração, uma espécie de ensimesmamento. De vez em quando parecia esquecer-se de tudo, ou para melhor dizer, esquecia-se do principal para atentar só a insignificâncias. Aliás, ao ver na cozinha um balde meio cheio de água em cima de um banco, pensou lavar aí as mãos e o machado.
Tinha as mãos ensanguentadas e viscosas. Primeiro deixou cair o machado a prumo dentro da água, pegou um pedaço de sabão que estava na janela num prato esbeiçado e pôs-se a lavar as mãos no mesmo balde. Depois de as ter lavado, tirou o machado, limpou o aço e ficou lavando o cabo durante muito tempo, por 2 ou 3 minutos, nas partes em que estava ensanguentado, servindo-se também do sabão. Depois limpou tudo muito bem num pano branco que estava pendurado numa corda estendida através da cozinha, e em seguida pôs-se a observar o machado, vagarosa e atentamente junto da janela.
Já não tinha vestígios, mas o cabo ainda estava úmido. Com muito cuidado, pendurou o machado no nó por debaixo do sobretudo. Uma vez feita essa operação, e até onde lhe o consentia a luz da cozinha escura, remirou o sobretudo, a calça e as botas. Por fora, à simples vista, não se notava nada. Só nas botas é que havia manchas. Pegou um trapo e limpou as botas. Mas apesar disso, pensava ainda que podia não ter reparado bem, que podia haver qualquer coisa que saltasse aos olhos e que ele, no entanto, não notasse.
Estava parado e meditando, no meio do quarto. Dolorosos, tenebrosos pensamentos lhe atravessavam a mente. A ideia de que estava louco e de que naquele instante não tinha forças para discernir-se nem defender-se, e que talvez não fosse preciso fazer o que fazia. Meu Deus, preciso mais é fugir, murmurou e correu para o corredor. Mas aí aguardava uma das maiores surpresas da sua vida. Parou, olhou e não queria acreditar naquilo que os seus olhos viam.
A porta, a porta exterior e que dava para a escada, a mesma em que batera e pela qual entrara, estava entreaberta. Nem sequer fechada à chave, nem sequer corrido o fecho, durante todo aquele tempo. A velha não a fechara atrás de si, talvez por precaução. Mas, santo Deus! Não tinha Elizabeth entrado por ela? E como foi possível ter ele adivinhado que ela por alguma parte devia ter entrado? Mas evidentemente, com certeza que não entrara pelas paredes.
Dirigiu-se para a porta e correu o trinco dela. Mas não, isto também não. O que eu tenho a fazer é ir-me embora, ir-me embora. Correu o fecho, entreabriu a porta e pôs-se a escutar do lado da escada. Ficou escutando por muito tempo. Algures, certamente, lá embaixo gritaram com força por duas vezes. Deviam estar brigando e ralhando. Quem seria? Esperou pacientemente. Por fim, repentinamente, Tudo ficou em silêncio, já se tinham retirado.
Ele se dispôs também a sair, mas de repente, no andar de baixo, abriu-se com estrépito uma porta que dava para a escada, e alguém começou a descer os degraus entoando uma cançoneta. O barulho que fazem, pensou. Tornou a fechar atrás de si e esperou. Finalmente, tudo ficou silencioso, nem viva alma. Já tinha dado um passo na escada, Quando, de repente, se sentiram novas passadas. Soavam muito longe essas passadas, mesmo no princípio da escada.
Mas ele compreendeu logo, desde o princípio do ruído, quando começou a suspeitar de alguma coisa, que se dirigiam infalivelmente para ali, para o quarto andar, para a casa da velha. Por quê? Seriam assim tão especiais e significativas aquelas passadas? Eram pesadas, certas, Calmas. E ele vinha já no primeiro andar e continuava subindo. Cada vez se ouvia melhor, cada vez se ouvia melhor. Sentia-se a respiração pesada do visitante.
Começava já a subir o lance do terceiro andar. Ah, e de súbito pareceu-lhe que ficava petrificado, como se aquilo fosse um sonho daqueles em que nos atacam de perto e nos querem matar, e parece que estamos pregados ao chão e que nem um braço podemos mexer. Até que finalmente, quando o visitante estava já prestes a chegar ao 4º andar, ele estremeceu todo, de repente, e então recuou rápida e destramente do patamar e fechou a porta atrás de si.
Depois, pegou no trinco e correu-o devagarinho, sem fazer barulho. Valeu-lhe o instinto. Depois de ter feito isso, escondeu-se sem respirar, acocorando-se junto da porta. O visitante desconhecido já ali estava. Encontravam-se agora os dois, um perto do outro, como ele estivera antes em relação à velha, quando a porta os separava e escutava de ouvido alerta. O visitante respirou várias vezes afanosamente. Deve ser gordo e alto.
De fato, tudo aquilo parecia um pesadelo. O visitante puxou pela campainha e chamou com força. Ainda mal o som fraco da campainha soara, ele pareceu, de súbito, que alguém se movia na sala. Ficou escutando atento durante uns segundos. O desconhecido tornou a chamar, esperou um momentinho e, de repente, impaciente, pôs-se a sacudir o puxador da porta com todas as suas forças. Raskolnikov via com espanto o trinco saltar na corrediça e esperava com um medo estúpido que ele corresse, sozinho, de um momento para o outro.
De fato, isso parecia possível, tal era a maneira como balançavam a porta. Lembrou-se de segurar o fecho com a mão, mas o outro podia adivinhar. Sentia que perdia a cabeça, que ela lhe andava às voltas, como antes. Estou encurralado, pensou, mas o desconhecido começou a falar e ele reanimou-se imediatamente. Mas estarão elas dormindo ou tê-las-iam morto. Malditas! Exclamou como no fundo de um poço. É, Aliona Ivanovna, velha bruxa!
Lisavieta Ivanovna, beldade sem par! Abram! Mas vocês estão dormindo, malditas! E furioso, pôs-se outra vez a puxar pela campainha, 10 vezes seguidas. Não havia dúvida de que era algum homem com autoridade e familiar naquela casa. Nesse mesmo momento, Ouviram-se uns passos miúdos, leves, perto dali, na escada. Alguém se aproximava. A princípio, Raskolnikov nem sequer os ouviu. Não estará ninguém? Exclamou ruidosa e alegremente o recém-chegado, dirigindo-se ao primeiro visitante, que continuava ainda puxando pela campainha.
Boa noite, Cot! A julgar pela voz, deve ser muito novo, pensou Raskolnikov de repente. Não sei que diabo venha a ser isto, por um pouco que não dava cabo da fechadura, respondeu Cote. Mas como é que sabes o meu nome? Essa é boa, pois se há 3 dias jogamos juntos 3 partidas seguidas de bilhar, em casa de Gambrinus. Ah, ah, ah! Com que então não estão? É estranho. Além disso, é uma estupidez horrível. Onde hei de encontrar a velha?
Precisava de tratar um assunto com ela. E eu também. Bem, que se há de fazer? Temos de bater em retirada. Ah, ah, e eu que contava já com o dinheiro! Exclamou o rapaz. É claro que temos de nos ir embora, mas então para que marcou ela uma hora? Foi ela mesma, a velha bruxa, que me marcou esta hora, e da minha casa até aqui ainda é uma estirada. Também não percebo aonde teria ela ido. Todo ano metida em casa, diabo da velha, a resmungar e a dizer que lhe doem os pés, e de repente some e vai para a paródia.
E se perguntássemos ao porteiro? O quê? Aonde é que ela foi e quando volta? ó diabo, perguntar! Mas se ela nunca sai? E tornou outra vez a sacudir a fechadura. Que diabo, não temos outro remédio senão irmo-nos embora. Espere! Exclamou o rapaz de repente. Olhe, não vê como a porta cede quando é sacudida? E então? Isso quer dizer que não tem a chave posta e apenas o fecho corrido. Não sente ranger o fecho? E para ter o fecho corrido, é preciso estar em casa, compreende?
Donde se conclui que estão em casa, mas não querem mais abrir. O quê? Isso é possível? objetou Cotte, admirado. Com que então estão lá dentro? e tornou a balançar a porta. Espere! Tornou a exclamar o rapaz. Não puxe dessa maneira! Repare, aqui há qualquer coisa de estranho. O senhor chamou, abanou a porta, e não lhe abrem, o que quer dizer? Ou que elas desmaiaram, ou que... Que o quê? Olhe, vamos ter com o porteiro. Pode ser que ele as faça despertar.
É verdade. E deslizaram ambos pelas escadas abaixo. Espere! Fique aí enquanto eu vou lá embaixo na portaria. Mas por que hei de eu ficar? Pelo sim, pelo não. Bem, então, olhe, eu ando preparando-me para juiz de instrução. É evidente, e evidente, que aqui há qualquer coisa de estranho, gritou-lhe o rapaz com veemência e pôs-se a correr desabaladamente pelas escadas abaixo. Cotte ficou em cima, tornou a puxar a campainha suavemente e esta deu um toque, depois devagarinho, Como se refletisse e usasse de prudência, pôs-se a sacudir o puxador da porta, sacudindo-a de um lado para o outro, como se quisesse certificar-se bem de que só tinha o fecho corrido.
Depois, resfolegando, agachou-se e pôs-se a olhar pelo buraco da fechadura, mas a chave estava posta por dentro, de maneira que não podia ver nada. Rascou Unicórnio e correu o fecho, entreabriu a porta, verificou que não se ouvia nada, E de repente, sem se demorar a pensar, saiu, fechou outra vez a porta atrás de si o melhor que pôde e correu pelas escadas abaixo. Já tinha descido 3 lances quando, de repente, percebeu um grande alvoroço lá mais embaixo.
Onde esconder-se? Era impossível esconder-se em qualquer parte. Apressou-se a retroceder para o andar. E esse sátiro! Esse demônio! Apanhem-no! Dando um grito, alguém saiu de qualquer andar e não corria, mas parecia precipitar-se pela escada gritando a plenos pulmões: Mítica! Mítica! Mítica! Mítica! Vai para o diabo! Que te carregue! O grito acabou em alarido. Os últimos ruídos ouviram-se já no pátio. Depois, tudo ficou em silêncio.
Mas nesse momento, alguns homens falando em voz forte e alta começaram a subir a escada no meio de grande alvoroço. Distinguiu a voz vibrante do rapaz. Eram eles. Completamente desesperado, foi e saiu-lhes diretamente ao encontro. Seja, se me apanham, está tudo perdido. Se me deixam passar, tudo está perdido também. Hão de lembrar-se de mim. Estavam prestes a chegar. Entre eles e Raskólnikov havia apenas um lance de escada. E, de repente, a salvação.
Alguns degraus mais abaixo, à direita, havia um andar por alugar e, com a porta aberta de par em par, aquele mesmo quarto no qual os pintores tinham estado trabalhando, os quais, como de propósito, já se tinham ido embora. Deviam ter sido eles que acabavam de sair naquela gritaria. O chão parecia recém-pintado. No meio do quarto, via-se um pequeno balde. Ao lado, uma vasilha com tinta e uma brocha grossa. Esgueirou-se num ápice pela porta aberta e acocorou-se contra a parede.
Já era tempo. Os outros chegavam já ao patamar. Depois, tornejaram e passaram de largo para o quarto andar, falando alto. Ele esperou, saiu nas pontas dos pés, e deitou a correr pelas escadas abaixo. Ninguém na escada. Na porta-cocheira também não. Atravessou-a rapidamente e voltou à esquerda para a rua. Sabia muito bem, perfeitamente, que naquele instante teriam já chegado ao andar, que haviam de ficar muito admirados ao ver que a porta estava aberta, quando um momento antes ainda estava fechada, que já deviam ter visto os cadáveres e que não tardariam a adivinhar e a supor claramente que o assassino estivera ali um momento antes e não devia ter feito mais do que esconder-se em qualquer lugar, deslizar próximo deles e escapar-se.
Haviam de compreender também que devia ter se escondido no quarto vazio, nele ficando até que eles tivessem chegado lá acima. Entretanto, não se atrevia de maneira nenhuma a acelerar o passo. Embora lhe faltassem ainda 100 passos desde ali até a primeira embocadura. Não faria bem em esconder-me debaixo de alguma porta cocheira e esperar na escada de alguma casa desconhecida? Bolas, não! E largar o machado em qualquer parte? E tomar uma carruagem?
Pior, pior! Os seus pensamentos confundiam-se, até que finalmente encontrou uma travessa, meteu-se por ela, meio morto, Compreendia agora que já estava quase salvo, aí se tornava menos suspeito, e além disso, havia muita gente, e ele perdia-se no meio daquele rebuliço como uma agulha em palheiro. Mas todas essas comoções esgotaram a tal ponto as suas forças que mal podia dar um passo. O suor caía-lhe em bica, tinha o pescoço empapado.
Meteste-te em boa! Gritou alguém junto dele, quando ia saindo ao canal. Naquele momento, não tinha a cabeça muito firme, quanto mais avançava, tanto pior. Voltou completamente a si quando, de repente, chegando junto do canal, se assustou ao ver que havia ali pouca gente, de maneira que quase retrocedera para a ruela. Agora pouco lhe faltava para cair de cansaço, deu uma volta e foi ter a sua casa por um caminho completamente diferente.
Chegou a casa sem estar ainda em seu juízo perfeito. Pelo menos, ia já pelas escadas acima quando se lembrou do machado. E, no entanto, restava-lhe ainda por resolver uma questão gravíssima: a de tornar a devolvê-lo e a colocá-lo no seu lugar sem que dessem por isso. Não havia dúvida de que já não tinha forças para pensar que o melhor teria sido não colocar o machado no seu lugar anterior. Mas ir deixá-lo, ainda que fosse depois, no pátio de qualquer outra casa.
Mas correu-lhe tudo às mil maravilhas. A entrada da portaria estava fechada, mas não a chave, e o mais provável era que o porteiro estivesse em casa. Mas perdera a tal ponto a capacidade de raciocinar que foi direito à porta e abriu-a. Se o porteiro lhe tivesse perguntado naquele momento: Que deseja? Pode ser que tivesse pegado o machado e lhe tivesse dado. Mas o porteiro não estava, e ele pôde colocar o machado no seu lugar anterior, debaixo do banco.
Até o cobriu com lenha, como estava antes. Depois não encontrou viva alma até chegar ao seu quarto. A porta da senhoria estava fechada. Quando entrou no quarto, atirou-se para cima do divã, tal como estava. Não dormia, mas afundou-se num torpor. Se alguém tivesse entrado então no seu quarto, teria imediatamente dado um pulo e começado a gritar. Sombras e fragmentos de algo semelhante a ideias lhe atravessavam a mente, mas não pôde apreender nenhuma única, nenhuma só pôde deter, por mais esforços que fizesse.
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