CRIME E CASTIGO – AUDIOLIVRO EM PORTUGUÊS | DOSTOIÉVSKI | PARTE 1 – CAPÍTULOS 1 A 7
🎧 Crime e Castigo — Audiolivro em Português | Parte 1 Completa
Ouça a Primeira Parte completa de Crime e Castigo, uma das obras-primas de Fiódor Dostoiévski, em audiolivro narrado em português por Ricardo Vianna.
Nesta edição, você acompanha os capítulos 1 a 7 da Primeira Parte, entrando no universo de Rodion Raskólnikov, um jovem estudante vivendo em meio à pobreza, ao isolamento e a conflitos cada vez mais profundos sobre moralidade, consciência e justiça.
Publicado no século XIX, Crime e Castigo é um dos maiores clássicos da literatura russa e mundial. A obra mergulha na psicologia humana e explora temas como culpa, crime, castigo, pobreza, sofrimento, ética, moralidade, justiça, fé e redenção.
📖 SOBRE O AUDIOLIVRO
Obra: Crime e Castigo
Autor: Fiódor Dostoiévski
Parte: Primeira Parte — Completa
Capítulos: 1 a 7
Narração: Ricardo Vianna
Idioma: Português
Formato: Audiolivro
🎙️ LIVRO SONORO
Da palavra escrita à palavra falada.
Acompanhe Crime e Castigo capítulo por capítulo e descubra outros grandes clássicos da literatura universal em formato de audiolivro.
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Ricardo Vianna
- A conversa com MarmeladovA miséria como pecado·A vida de Marmeladov·A filha Sônia·O sofrimento e a bebida
- A decisão de agirA busca por Razumikin·A preparação do crime·O machado escondido
- O crimeA entrada na casa da usurária·O assassinato de Alyona Ivanovna·O assassinato de Lisavieta·A busca pelo dinheiro
- A vida de RaskólnikovPobreza e isolamento·Conflitos morais·Dívidas e credores
- O plano de RaskólnikovA audácia do plano·O medo de falhar·A importância dos detalhes
- A carta da mãeNotícias da família·O noivado de Dúnia·Piotr Pietrowicz Lugin·A preocupação com o futuro
- A reação à cartaA recusa ao casamento·A indignação com Lugin·O sacrifício da irmã
- O sonho na infânciaA taberna e a crueldade·A morte do cavalinho·A violência e o sofrimento
- A fuga e as coincidênciasA saída da casa·O encontro com os compradores·O esconderijo no quarto vazio
- O encontro com a usuráriaA visita ao apartamento·A negociação do penhor·Alyona Ivanovna
- O encontro com a bêbadaA mulher embriagada na rua·A intervenção de Svidrigáilov·A ajuda do guarda
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Capítulo 1. No início de julho, em um período de calor sufocante, um jovem saía de seu cubículo alugado. Na travessa esse e, caminhando lentamente, dirigia-se à ponte cá. Esquivou-se com cautela para não cruzar com a dona da casa na escada. O antro onde morava ficava exatamente sob o telhado de um prédio de 5 andares e parecia mais um armário do que um quarto. A mulher que lhe alugava o espaço, com refeição incluída, Vivia no andar logo abaixo.
Por isso, toda vez que o rapaz saía, era forçado a passar diante da porta da cozinha, quase sempre escancarada para o patamar. Nessas horas, ele sentia uma pontada mórbida de covardia que o envergonhava e o fazia franzir a testa. Estava em dívida com a mulher e tinha pavor de encontrá-la. E não era por ser covarde ou tímido, longe disso. Simplesmente, havia algum tempo, ele se encontrava em um estado de irritação e nervosismo que beirava a hipocondria.
Estava tão isolado em seu quarto e afastado de todos que temia encontrar qualquer pessoa, não apenas a dona da casa. A pobreza o esmagava. Mas já fazia tempo que até isso deixara de perturbá-lo. Abandonara por completo seus afazeres diários e não queria mais saber deles. Na verdade, ele não temia a mulher, por mais que ela pudesse conspirar contra ele, mas ter de parar na escada, ouvir as idiotices daquela criatura estúpida que não lhe interessavam nem um pouco Aguentar cobranças de aluguel, ameaças e lamúrias, e ainda ser obrigado a dar desculpas e mentir?
Não. Preferia esgueirar-se como um gato pelas escadas e desaparecer na rua para não ver ninguém. Desta vez, porém, o medo de encontrar sua credora o deixou chocado assim que ganhou a rua. Por que diabos estou me preocupando com isso e sofrendo por causa de uma bobagem? Pensou com um sorriso estranho. Sim, está tudo ao alcance do homem e tudo lhe escapa pelas mãos apenas por causa do medo. Isso é um axioma. É curioso do que as pessoas têm mais medo.
O que mais temem é dar um passo novo, dizer uma palavra original. Mas já estou falando demais. Se eu falo muito, é porque não faço nada. A verdade é que neste último mês ganhei o hábito de tagarelar comigo mesmo enquanto fico estirado em um canto ruminando sobre fantasias. Bem, e afinal, para onde estou indo agora? Serei mesmo capaz disso? Isso é algo sério? Não, de jeito nenhum. É só minha imaginação brincando comigo. É isso, uma brincadeira.
Na rua, o calor era sufocante. A poeira, o barulho das obras, os andaimes, o cheiro de cal e o odor fétido característico do verão em São Petersburgo agrediam os nervos já excitados do rapaz. Para completar o cenário repugnante, havia o cheiro insuportável das tabernas, muito comuns naquele setor da cidade. E os bêbados que surgiam a cada passo, mesmo sendo um dia de semana. Um lampejo de profundo nojo cruzou as feições finas do jovem.
Ele era de fato muito bonito: olhos escuros, cabelos castanhos, estatura acima da média e um porte esguio e elegante. Mas logo voltou a mergulhar em um estado de indiferença absoluta. Um alinhamento total. Caminhava sem prestar atenção ao redor, murmurando frases desconexas para si mesmo. Naquele momento, reconheceu que seus pensamentos se confundiam e sentia o corpo fraco. Era o seu segundo dia sem comer. Estava tão mal vestido que outra pessoa, mesmo acostumada à miséria, teria vergonha de sair à rua em plena à luz do dia com aqueles farrapos.
Mas aquele bairro era um lugar onde ninguém reparava em roupas. A proximidade com o mercado do feno e a população composta por trabalhadores e pequenos comerciantes criavam um ambiente onde nenhum tipo de figura, por mais bizarra que fosse, causaria espanto. Entretanto, o desprezo que o rapaz sentia pelo mundo Era tamanho que ele pouco se importava com as próprias vestes. O que o preocupava era cruzar com algum antigo conhecido ou colega.
De repente, um bêbado que passava em uma carroça vazia gritou a plenos pulmões: Ei, seu chapelão alemão! O homem apontava para ele enquanto ria. O jovem parou e segurou o chapéu com as mãos trêmulas. Era um chapéu alto, redondo, de uma marca famosa, mas agora estava surrado, cheio de furos, deformado e sem abas. Não foi vergonha o que sentiu, mas um sentimento próximo ao pavor. Eu sabia, murmurou indignado. Eu já esperava por isso.
É exatamente assim que um detalhe ridículo pode estragar o plano mais importante. Sim, o chapéu chama atenção. Com esses trapos, eu deveria estar usando um boné velho, não este espantalho. Ninguém usa algo assim. Sou visto a 1 km de distância, fica gravado na memória. E o que eu preciso é passar despercebido. Pormenores, insignificâncias, é aí que mora o perigo. Uma bobagem dessas pode colocar tudo a perder. Faltava pouco. Ele sabia exatamente a distância: 830 passos de sua casa.
Havia contado cada um deles enquanto alimentava seus delírios solitários. Na época, Não acreditava que teria coragem, apenas se excitava com a audácia do plano. Mas agora, um mês depois, começava a ver o sonho escandaloso como um projeto real, embora sua mente ainda resistisse. Com o coração disparado, aproximou-se de um edifício imenso que dava para o canal e para a rua. A casa era dividida em pequenos andares ocupados por gente pobre, alfaiates, serralheiros, alemães e mulheres de vida difícil.
O fluxo de gente era constante. Raskólnikov ficou aliviado por não ser notado e deslizou para a escada da direita, que era escura e estreita. Ele gostava daquela escuridão. Nela não precisava temer olhares curiosos. Se agora estou com tanto medo, o que farei se realmente levar isso adiante? Pensou ao chegar ao quarto andar. Ali encontrou carregadores retirando móveis de um apartamento. Uma família alemã estava se mudando. Isso era bom, significava que por algum tempo o único andar ocupado ali seria o da velha.
Ele bateu à porta. A campainha soltou um som metálico e seco, como se fosse de lata. Aquele som pareceu despertar algo em sua memória, fazendo-o estremecer. A porta se abriu apenas uma fenda e os olhos da moradora brilharam na penumbra, desconfiados. Mas ao ver o movimento no patamar, ela finalmente abriu a porta. A velha era pequena, seca, de uns 60 anos. Com olhos maliciosos e um nariz afilado. O cabelo, já grisalho e besuntado de óleo, brilhava.
No pescoço, que parecia uma pata de galinha, usava um lenço de flanela. Apesar do calor, vestia uma estola de pele amarelada. Ela tossia e gemia o tempo todo. Raskolnikov, estudante, estive aqui no ano passado. Disse ele, forçando uma reverência educada. Lembro-me muito bem, senhor, respondeu ela sem desviar o olhar inquisidor. Vim tratar de um assunto, um penhor, continuou ele, incomodado com a desconfiança da mulher. Ela hesitou, mas gesticulou para que ele entrasse.
O quarto era simples, com móveis de madeira amarela e gerânios nas janelas. Estava tudo impecavelmente limpo. Trabalho da irmã dela, Lisavieta, pensou o jovem. O que trouxe? Perguntou ela secamente. Um relógio de prata, era do meu pai. Ele estendeu o objeto. O prazo do outro empréstimo venceu há 3 dias, lembrou ela. Só posso lhe dar um rublo e meio. Com juros adiantados. Um rublo e meio! Raskólnikov quase gritou, mas percebendo que não tinha escolha, aceitou.
Enquanto a velha ia buscar o dinheiro em outro cômodo, ele ficou atento, ouvindo o barulho das chaves. Ela guarda tudo na cômoda. A chave maior, com dentes, deve ser de algum cofre, analisou friamente. Quando ela voltou e entregou as moedas minguadas, Raskólnikov sentiu uma repugnância avassaladora. Saiu de lá perturbado, murmurando para si mesmo: Meu Deus, como isso é nojento! É sujo, é brutal! Como pude alimentar essa ideia por um mês inteiro?
Caminhava como um bêbado, sem rumo, até que o cansaço e a fome o levaram a uma taberna subterrânea. Ele, que nunca frequentava tais lugares, desceu as escadas, pediu uma dose de aguardente. Ao beber, sentiu um alívio imediato e seus pensamentos clarearam. Isso é apenas fraqueza física, pensou. Um pouco de bebida e a mente volta ao lugar. A taberna estava quase vazia. Num canto, Um homem com aspecto de funcionário aposentado bebia sozinho, observando tudo ao redor com olhos inquietos.
Crime e Castigo, capítulo 2. Raskólnikov não estava acostumado às pessoas e, como já dissemos, evitava todo convívio, sobretudo nos últimos tempos. Mas agora algo o impelia para o meio delas. Algo novo acontecia em seu íntimo e, ao mesmo tempo, despertava nele uma sede de contato humano. Estava cansado de todo aquele mês de tristeza solitária e de expectativas sombrias. Por isso, ansiava por respirar outro ambiente, ainda que por um momento fosse qual fosse.
E apesar de toda a sujeira daquele lugar, sentia-se satisfeito na taberna. O dono do estabelecimento estava em outra sala, mas aparecia a todo instante no salão principal. Para alcançá-lo, descia alguns degraus, o que lhe dava a oportunidade de exibir suas botas elegantes, muito bem escovadas e com detalhes em vermelho. Vestia uma jaqueta com um colete de pano preto, terrivelmente encebado e sem gravata. Seu rosto parecia besuntado de óleo, como uma dobradiça velha.
Atrás do balcão encontravam-se um rapaz de uns 14 anos e outro garoto que servia o que os fregueses pediam. Havia pepinos, biscoitos enegrecidos e filés de peixe. Tudo cheirava muito mal. A atmosfera era tão sufocante que mal se podia estar ali, e o ar estava tão impregnado pelo cheiro de aguardente que se poderia dizer que apenas por respirar aquele ambiente uma pessoa seria capaz de ficar embriagada. Às vezes acontecem encontros, mesmo com desconhecidos, que despertam o nosso interesse logo Ao primeiro olhar, de repente e de improviso, antes mesmo de trocarmos uma única palavra.
Foi essa a impressão que causou em Raskólnikov aquele cliente sentado à parte, que tinha até a aparência de um funcionário aposentado. O jovem recordaria disso mais tarde algumas vezes, atribuindo o fato a um pressentimento. Observava de cima a baixo o suposto funcionário, que por sua vez também não tirava os olhos dele. Percebia-se claramente que o homem desejava puxar conversa. O funcionário olhava para os outros indivíduos na taberna, incluindo o dono, com um ar de tédio e hábito, mas com uma ponta de indiferença, como se fossem pessoas de posição e cultura inferiores.
Com as quais não tinha o que falar. Era um homem de seus 50 anos, forte e de estatura média. Tinha poucos cabelos no topo da cabeça lisa e o rosto manchado por tons amarelos e esverdeados devido à bebida. Suas maçãs do rosto eram salientes e acima delas brilhavam olhos estreitos como frestas, avermelhados e cheios de vivacidade. Havia nele algo estranho. Em seu olhar brilhava uma espécie de solenidade. De fato, não lhe faltavam ideias nem espírito, e no entanto, ao mesmo tempo, deixava transparecer algo de loucura.
Trajava um velho fraque preto, completamente esfarrapado, com apenas um botão que ele insistia em fechar para tentar conservar o decoro. Por baixo do colete aparecia um peitilho cheio de salpicos e manchas. Tinha o rosto barbeado como os funcionários, mas como não fazia há muito tempo, tufos de pelos rebeldes nasciam em suas faces. Seus gestos demonstravam uma certa gravidade democrática. Naquele momento, porém, o homem mostrava-se inquieto.
Arrepelava os cabelos e segurava a cabeça entre as mãos com tristeza, apoiando os cotovelos esfarrapados na mesa manchada e gordurenta. Finalmente olhou para o rosto de Raskólnikov e disse com voz firme e rouca: Poderia me dar licença, cavalheiro, de me dirigir ao senhor com uma pergunta educada? Pois Embora seu aspecto não seja de luxo, minha experiência me diz que o senhor é um homem de boa educação e não está habituado a beber.
Sempre respeitei a educação quando unida a sentimentos generosos. Além disso, sou conselheiro titular. Meu sobrenome é Marmieladov, conselheiro titular. Dá-me licença de perguntar se o senhor também é funcionário? Não, sou estudante, respondeu o rapaz, um pouco admirado tanto pelo tom oratório quanto pelo fato de ser interpelado de forma tão brusca. Apesar da ânsia que sentira de falar com alguém, assim que lhe dirigiram a primeira palavra, Raskólnikov experimentou seu habitual sentimento de hostilidade e irritação contra qualquer estranho que tentasse tocar em sua vida pessoal.
Estudante ou ex-estudante? exclamou o funcionário. Era exatamente o que eu pensava. Tenho muita experiência, meu senhor, muita experiência. E com um gesto solene levou o dedo à testa. Com certeza deveria ser estudante ou pertencer à classe culta. Mas dê-me licença. Levantou-se de seu lugar, cambaleou, pegou seu prato e seu copo e sentou-se diante do rapaz, embora um pouco de lado. Estava embriagado, mas falava com eloquência e fluidez, atrapalhando-se apenas raramente.
Dirigia-se a Raskólnikov com a pressa de quem não conversa com alguém há um mês. Meu senhor, começou com solenidade, a pobreza não é um pecado, isso é verdade. Sei também que a embriaguez não é uma virtude. Mas a miséria, meu senhor, a miséria, essa sim é um pecado. Na pobreza ainda se conserva a nobreza dos sentimentos inatos. Na miséria não há nada que os sustente. Ao homem na miséria quase o expulsam a pauladas da companhia de seus semelhantes, para que a ofensa seja ainda maior.
E é justo, porque na miséria sou eu o primeiro a me ofender. A bebida acabou com tudo. Sim, senhor, faz um mês que o senhor Libesiatnikov bateu na minha mulher. Mas eu não sou minha mulher, está percebendo? Dê-me licença de perguntar, embora seja apenas por curiosidade: já lhe aconteceu passar a noite no rio Niévar sobre as barcas de feno? Não, ainda não, respondeu Raskólnikov. O que acontece por lá? Pois eu há 5 noites. Encheu o copo, bebeu e ficou pensativo.
De fato, viam-se algumas palhas de feno em sua roupa e cabelo. Era provável que não tivesse tirado a roupa do corpo nem se lavado há 5 dias. Suas mãos estavam sujas, gordurentas e avermelhadas com manchas negras. Suas palavras despertaram a atenção dos outros na taberna, embora não de forma intensa. Os rapazes atrás do balcão começaram a rir. O dono parecia ter descido apenas para escutar algo engraçado. E escutava com ar de tédio, mas seriamente.
Marmieladov era conhecido ali há muito tempo. Seu hábito de fazer discursos vinha da necessidade de se justificar perante desconhecidos, já que em casa era maltratado. Que sujeito espirituoso! exclamou o taberneiro. Mas por que não vai trabalhar, já que é funcionário? Por que não trabalho? Repetiu Marmiela Dov, dirigindo-se apenas a Raskolnikov, como se fosse ele quem o tivesse questionado. Por que não trabalho? Mas não me dói a alma ver a degradação em que me arrasto?
Quando Libiessiatnikov bateu na minha mulher com as próprias mãos e eu estava caído de bêbado, acha que não sofri? Diga-me, jovem, já lhe aconteceu alguma vez pedir dinheiro sem esperança? Já me aconteceu sim. Mas como é isso de pedir sem esperança? É pedir sabendo de antemão que não receberá nada. Veja, o senhor sabe com toda a segurança que aquele homem, um cidadão bondoso, não lhe dará dinheiro por nada deste mundo. Pois por que motivo ele daria?
Ele sabe que eu não vou devolver. Por compaixão? Mas o senhor Lieb S. Atnikov, que segue as novas ideias, me explicou que a compaixão hoje é proibida pela ciência e que é assim que procedem na Inglaterra, onde existe a economia política. Por que ele daria? Mas acontece que Sabendo que não receberá, você se põe a caminho e vai. Mas por que vai, então? Perguntou Raskólnikov. Porque se não houver mais ninguém para procurar, a quem se vai recorrer?
É preciso que todo homem tenha para onde ir, porque estamos em uma época em que é preciso ir a algum lugar. Quando minha única filha teve que se registrar na polícia pela primeira vez, Fui eu quem a acompanhou, acrescentou, olhando inquieto para o rapaz. Não, não se espante. Eu aceito os olhares de desprezo, porque tudo o que era segredo já veio à luz. Confesso tudo com serenidade e não com desprezo. Que seja. É que, sei, diga-me, o senhor seria capaz de me olhar nos olhos e dizer que não sou um porcalhão?
Raskólnikov não respondeu. Bem, prosseguiu o orador com aprumo, esperando os risos cessarem, admitamos que eu seja um porco e ela uma dama. Eu tenho aparência de animal, ao passo que Ekaterina Ivanovna, minha mulher, é uma pessoa educada, filha de um oficial superior. Eu sou um velhaco e ela uma mulher de grande coração e sentimentos generosos. Mas no entanto, ó, se ao menos tivessem pena de mim, meu senhor! Todo mundo precisa de ao menos um lugar onde sintam pena de você.
Mas Ekaterina, embora generosa, não é justa. E embora eu compreenda que quando ela se excede comigo faz por compaixão, se ela ao menos uma vez— mas não, eu sou uma besta! O quê? debochou o taberneiro. Marmieladov deu um soco pesado na mesa. É o que eu sou. O senhor sabe que eu bebi até as meias dela. Não os sapatos, o que seria lógico, mas as meias. Bebi a gola de pele de cabra que ela trouxe de solteira. Moramos num buraco gelado.
Ela pegou uma bronquite e agora tosse e cospe sangue. Temos 3 filhos pequenos e Ekaterina trabalha desde manhã até à noite. Lava, esfrega e cuida das crianças, pois foi criada no aceio. Mas eu não tenho sentimentos. Quanto mais bebo, mais sinto as coisas. É por isso que bebo, porque na bebida encontro o sofrimento. Bebo porque quero sofrer em dobro. E inclinou a cabeça sobre a mesa em desespero. Rapaz, continuou ele erguendo-se novamente, vejo uma certa tristeza em seu rosto.
Percebi isso assim que o senhor entrou e por isso lhe dirigi a palavra. Ao contar a história da minha vida, não pretendo me apresentar de forma humilhada perante esses sujeitos que já me conhecem. O que eu queria era encontrar um homem sensível e culto. Fique o senhor sabendo que minha mulher foi educada em um instituto para nobres de um distrito importante. Quando saiu do colégio, dançou envolta em um xale na presença do governador e das autoridades, recebendo uma medalha de ouro e um diploma de louvor.
A medalha, bem, nós a vendemos há tempos. Mas o diploma ela ainda guarda na arca e não faz muito tempo mostrou à dona da casa. Embora brigue sempre com ela, gosta de se orgulhar perante os outros, falando dos dias felizes do passado. Eu não a culpo, pois essas são as únicas lembranças felizes que lhe restaram. Sim, ela é uma mulher orgulhosa e corajosa. Ela mesma esfrega o chão e come pão seco. Mas não permite que lhe faltem com respeito.
Por isso não suportou as grosserias de Libiess Atnikov, e quando ele a agrediu por causa disso, ela adoeceu mais pela ofensa do que pelas pancadas. Já era viúva quando me casei com ela, com 3 filhos pequenos. Casou-se com o primeiro marido, um oficial de infantaria, por amor, e fugiu de casa para ficar com ele. O marido gostava dela, mas se perdeu no jogo de cartas e acabou morrendo por causa disso. No fim, ele também batia nela.
Ela não tolerava, conforme pude comprovar depois. Mas até hoje chora por ele e me critica comparando-me a ele. Eu fico até satisfeito, porque nessas lembranças ela se sente feliz. Quando ele morreu, a pobrezinha ficou com 3 crianças em um lugar isolado e selvagem onde eu também morava na época, em uma miséria tão terrível que nem tenho forças para descrever. Todos os parentes a abandonaram, e eu, que também era viúvo e tinha uma filha de 14 anos do meu primeiro casamento, pedi sua mão por não suportar ver tamanha dor.
Veja a que ponto chegou a miséria dela para aceitar casar-se comigo. Aceitou chorando e sofrendo porque não tinha para onde ir. O senhor compreende o que significa não ter para onde ir? Durante um ano inteiro eu cumpri minhas obrigações com honra e não toquei na bebida porque sou um homem de sentimentos. Mas nem assim pude satisfazê-la. Fui demitido, não pela bebida, mas por mudanças de pessoal, e foi então que me entreguei ao álcool.
Há um ano viemos parar nesta capital. Encontrei um emprego e o perdi novamente por culpa minha, porque o demônio me tentou. Vivemos agora em um canto na casa de Amália Lipewexel, Um lugar caótico, uma verdadeira Sodoma. E minha filha Sônia foi crescendo, sofrendo muito com a madrasta. Ekaterina, embora generosa, é muito impaciente e orgulhosa. Educação, Sônia não recebeu quase nenhuma. Tentei ensinar-lhe história e geografia, mas como eu mesmo não sabia muito e não tínhamos bons livros, Bem, agora nem há mais esses livros e a educação dela parou por aí.
Paramos em Ciro, rei dos persas. Depois ela leu alguns romances e há pouco tempo, por intermédio de Lieb S. Atnikoff, leu com muito interesse um livro de fisiologia de Lewis. Conhece-o? Até nos leu trechos em voz alta. Essa foi toda a instrução dela. E agora, meu senhor, pergunto: acha que uma moça pobre, mas honesta, pode ganhar a vida trabalhando? Se for honesta e não tiver talentos especiais, não ganhará nem 15 copeques por dia trabalhando sem parar.
Veja o exemplo do conselheiro Klopstock. Até hoje não pagou Sônia pela confecção de meia dúzia de camisas de Holanda. E ainda a expulsou de casa aos pontapés, insultando-a de maneira vergonhosa com o pretexto de que o colarinho estava fora da medida. E as crianças passando fome. Ekaterina Ivanovna andava desesperada pela casa com manchas vermelhas nas faces devido à doença, gritando com Sônia: Você come e bebe conosco, parasita!
E não faz nada. Mas como Sônia poderia comer se as crianças não viam um pedaço de pão há 3 dias? Eu estava deitado, bêbado, e ouvi minha Sônia, que não é de responder e tem uma vozinha tão fraca e pálida, dizer: Ekaterina Ivanovna, é possível que a senhora me mande fazer isso? Idária Frantsovna, Uma mulher perversa conhecida da polícia já tinha feito propostas a ela várias vezes por recomendação da dona da casa. Ekaterina respondeu com uma risada amarga: E para que você quer se guardar?
Para ser uma joia? Mas não a culpo, meu senhor, ela não estava em seu juízo perfeito. Disse aquilo levada pelo desespero e pelo choro dos filhos com fome. Disse-o mais para ofender do que por pensar verdadeiramente, porque Ekaterina tem um gênio tal que assim que os filhos começam a chorar de fome, ela bate neles. E eu vi Sônia se levantar por volta das 7 da noite. Ela vestiu o casaco e saiu. Voltou às 9 horas, foi até Ekaterina e colocou sobre a mesa.
Na frente dela, 30 rublos de prata. Não disse uma palavra. Pegou o nosso grande chale verde que tem um desenho de jogo de damas, cobriu completamente a cabeça e o rosto com ele e deitou-se na cama, voltada para a parede. Seus ombros tremiam com o choro que sacudia seu corpo. E eu continuei ali deitado, em silêncio. Foi então que vi Ekaterina Ivanovna se aproximar da cama de Sônia e passar a noite toda de joelhos a seus pés, beijando-os e sem querer se levantar.
Dormiram as duas abraçadas e eu continuava bêbado. Marmieladov calou-se como se lhe tivesse faltado a voz, encheu o copo rapidamente e bebeu. Então, continuou ele, por causa de calúnias de Dária Frantzovna, minha filha Sônia foi obrigada a se registrar na polícia como prostituta e não pôde mais viver conosco. A senhoria Amália não permitiu. Agora Sônia só nos visita quando já escureceu, para trazer dinheiro e consolar Ekaterina.
Ela mora em um quarto alugado na casa do alfaiate Capernaúma Petlov, um homem coxo e gago. Na manhã seguinte, levantei-me, vesti-me os farrapos e fui à casa de Sua Excelência Ivan Afanassevich. Ele é um homem de ouro. Ouviu tudo e se emocionou até as lágrimas. Marmieladov, disse ele, já me decepcionou uma vez, mas vou lhe dar outra chance, sob minha responsabilidade pessoal. Lembre-se disso e vá. Beijei seus pés em pensamento.
Voltei para casa e anunciei que seria reintegrado no serviço. Que rebuliço! Isto aconteceu há umas 5 semanas. Ekaterina e Soniética pareciam ter encontrado o reino de Deus. Antes eram só insultos, agora andavam na ponta dos pés e ralhavam com as crianças. Simeon, chega cansado, deixem-no descansar, tio. Davam-me café antes de ir para a repartição e aqueciam a nata para o pão. Nata verdadeira, está ouvindo? E onde conseguiram dinheiro para meu uniforme, que custou 11 rublos e 50 kopeks?
Até hoje não entendo. No primeiro dia de trabalho, Ekaterina me preparou sopa e carne com rabanetes. Ela mesma parecia outra pessoa, bem vestida, rejuvenescida e bonita. Sônia quem arranjou o dinheiro e me disse: Pai, é melhor eu não vir vê-lo de dia, venho depois que escurecer. Eu recebi meu primeiro salário há 6 dias, 23 rublos e 40 copeques. Entreguei tudo a Ekaterina. Ela me chamou de meu pequenino. Como se eu fosse um bom maridinho de novo.
Ela me deu uma palmadinha na bochecha. Marmieladov parou com o queixo tremendo. Ó meu senhor, talvez o senhor ache graça de todos esses detalhes domésticos, mas eu sinto tudo isso profundamente. Naquele dia eu sonhei que tudo ia se arrumar, que minha filha voltaria para o seio da família. Mas há 5 dias eu agi como um ladrão. Roubei a chave da cômoda de Ekaterina, peguei o resto do meu salário e levei tudo. Estou há 5 dias fora de casa, perdi o emprego, penhorei meu uniforme por bebida e estou nestes farrapos.
Acabou-se. Marmiela Dov deu um soco na própria testa, olhou para Raskólnikov. E sorriu. E hoje fui à casa de Sônia pedir dinheiro para beber. Esta bebida foi paga com o dinheiro dela. Ela me deu 30 copeques, os últimos que tinha. Não me disse nada, apenas me olhou em silêncio, um olhar que não existe na terra, mas lá onde as pessoas têm piedade umas das outras. Eu gastei esses 30 copeques em bebida. Diga-me, o senhor tem pena de mim ou não?
Piedade? Por que ter piedade? exclamou Marmeladov, levantando-se com fervor. Não há motivo. O que deviam fazer era me crucificar. Mas crucifiquem-me depois de me julgarem, e então tenham pena, pois não é de alegria que tenho sede, mas de tristeza e lágrimas. Você acha, taberneiro, que esta bebida me trouxe felicidade? Eu buscava o sofrimento no fundo desta garrafa. Aquele que de todos teve piedade é quem nos julgará no grande dia.
Ele perguntará: onde está a moça que se vendeu por uma madrasta má e por crianças que nem eram suas? Onde está a moça que teve compaixão do pai bêbado? E ele dirá: Vem, eu já te perdoei uma vez. Teus muitos pecados estão perdoados porque amaste muito. E ele perdoará a minha Sônia, eu sei que perdoará. E julgará a todos, bons e maus. E quando tiver julgado todos, dirá para nós: Vinde também vós, os bêbados e os impúdicos. E nós nos aproximaremos sem vergonha.
E os prudentes dirão: Senhor, vais admitir estes também? E ele responderá: Sim, porque nenhum deles se julgou nunca digno de tal graça. E ele estenderá suas mãos para nós, e nós compreenderemos tudo. Todos compreenderão, inclusive Ekaterina. Senhor, venha a nós o vosso reino. Ele caiu no banco exausto. Marmieladov pediu a Raskólnikov que o levasse para casa. Marmieladov tinha medo de chegar e ver o olhar de sua mulher. Subiram ao quarto andar de um prédio escuro.
A porta estava aberta. O quarto era miserável e minúsculo. Havia apenas duas cadeiras e um sofá coberto com um oleado em mau estado. Diante de uma mesa de cozinha velha. Ekaterina Ivanovna, uma mulher alta e magra com manchas vermelhas no rosto devido à tuberculose, andava de um lado para outro, ofegante. Seus olhos brilhavam de febre. Ela não percebeu a entrada deles de imediato. A filha menor dormia no chão. O menino chorava em um canto por ter apanhado.
E a filha mais velha, de 9 anos, tentava consolá-lo, olhando para a mãe com medo. Quando Ekaterina viu Marmieladov de joelhos na porta, gritou: Já voltaste, monstro? Onde está o dinheiro? Onde está o salário? Ela o revistou, mas não encontrou nada. Furiosa, agarrou-o pelos cabelos e arrastou-o para dentro. Marmieladov deixava-se levar, dizendo: Isto para mim é um prazer, não me dói. As crianças choravam. Os vizinhos curiosos apareciam na porta rindo da cena.
Raskólnikov, sem que ninguém visse, deixou as moedas de cobre que tinha no bolso sobre o parapeito da janela e saiu apressado. Já na rua pensou: Que bobagem eu fiz! Eles têm a Sônia e eu preciso desse dinheiro. Mas não voltou atrás. Sorriu com amargura pensando no destino de Sônia e na capacidade humana de se acostumar com a desonra. O homem é um animal que se acostuma a tudo, pensou ele, antes de se perguntar se toda aquela moralidade não passava de um espantalho para meter medo nos que não têm coragem.
Capítulo 3. No dia seguinte, já tarde, ele despertou de um sonho agitado. Aquele sono não fora suficiente para recuperar suas forças. Acordou mal-humorado, azedo, irritável, ranzinza, e percorreu com aversão o olhar pela sua pocilga. Era uma espécie de gaiola, de uns 6 passos de largura, com um aspecto repugnante. O papel de parede amarelo, coberto de pó, desprendia-se por todos os lados. O teto era tão baixo que um homem alto mal conseguiria ficar ereto.
Dava a impressão de que a qualquer momento bateria com a cabeça no forro. O mobiliário harmonizava com o ambiente. Compunha-se de 3 cadeiras velhas e desconjuntadas. Num canto, uma mesa manchada, sobre a qual se viam alguns cadernos e livros, que, pelo pó acumulado, denunciavam há quanto tempo ninguém os folheava. E, finalmente, havia o grande sofá, também capenga, que ocupava uma parede inteira e quase todo o quarto. Antigamente fora forrado de chita, mas agora não passava de um farrapo, e servia de cama para Raskólnikov.
Ele deitava-se ali muitas vezes, tal como estava, sem se despir, cobrindo-se apenas com seu velho casaco de estudante, já esfiapado. Debaixo da cabeça, colocava uma almofada, sobre a qual amontoava toda a roupa branca que possuía, limpa ou suja, para deixá-la mais alta. À frente do sofá, havia uma mesinha. Teria sido difícil chegar a um abandono maior ou cair em tamanha miséria. Mas para Raskólnikov, no estado de espírito em que se encontrava, até aquilo lhe era indiferente.
Tinha se retirado resolutamente de todo o convívio, vivia como uma tartaruga em sua concha. Até o rosto da criada, que tinha a obrigação de servi-lo e dar uma olhada no quarto de vez em quando, provocava-lhe mal-estar e irritação. É o que acontece a certos maníacos que concentram toda a atenção em uma só ideia. Havia duas semanas que a senhoria deixara de fornecer-lhe comida, e ele nem sequer pensara em cobrar explicações, apesar de estar em jejum.
Nastásia, a cozinheira e única criada da casa, até que se sentia contente com um hóspede assim. Ela parara completamente de arrumar o quarto, limitando-se a varrê-lo uma vez por semana, quando lhe dava na telha. Era ela quem vinha agora despertá-lo. Levanta! Por que está dormindo? Gritou ela, inclinando-se sobre ele. Já são 10 horas! Trouxe o seu chá. Quer um pouco ou resolveu morrer de fome aí? O hóspede abriu os olhos com um sobressalto e por fim reconheceu Nastásia.
Esse chá é da senhoria? Perguntou ele, endireitando-se no divã devagar, com um semblante doente. Claro que é da senhoria. Ela colocou diante dele a chaleira já bastante usada, ainda com folhas de chá antigo, e ao lado pôs dois torrões de açúcar amarelo. Olha, Anastácia, pegue isto, por favor, disse ele, metendo a mão no bolso, pois dormira vestido, e tirando um punhado de moedas de cobre. Vá me comprar um pãozinho e passe também na salsicharia.
Traga um pouco de salame, do mais barato. O pão eu trago agora mesmo, mas em vez de salame, não quer uma sopa de couve? Está muito boa, é de ontem à noite. Guardamos para você, mas você chegou muito tarde. Estava tão boa a sopa! Quando ela trouxe a sopa e o rapaz começou a tomá-la, Nastásia sentou-se ao seu lado no divã e pôs-se a falar sem parar. Era uma camponesa muito tagarela. A Praskóvia Pavlovna Disse que vai te denunciar à polícia, contou ela.
O rapaz franziu o senho. À polícia? Por quê? Porque você nem paga, nem vai embora. Ela acha que isso é motivo suficiente. Ah, a malvada não está satisfeita, resmungou o rapaz, rangendo os dentes. Não, isso agora não me convém nada. Que idiota, acrescentou em voz alta. Vou procurá-la hoje mesmo para conversar. Ela é uma idiota, sim, assim como eu também sou. Mas você, que é tão esperto, por que está aí deitado como um bicho? Antes você dizia que ia dar aulas para uns garotos, mas agora não faz nada?
Eu faço alguma coisa, respondeu Raskólnikov, seco e de má vontade. Mas o que você faz? Trabalho. E no que você trabalha? Eu penso em coisas sérias, respondeu o rapaz, após uma pausa. Ao ouvir isso, Nastásia teve um acesso de riso. Era daquelas que riem por qualquer bobagem. Quando achava graça em algo, soltava um riso surdo que sacudia todo o seu corpo até quase passar mal. Isso dá muito dinheiro, é? Conseguiu dizer finalmente.
Sem sapatos não dá para sair e dar aulas, embora eu não dê a mínima para isso, pois não deveria desprezar os sapatos. Não pagam nada por essas aulas. O que se faz com meia dúzia de copeques? Continuou ele, como se respondesse aos próprios pensamentos. Então você queria ganhar uma fortuna de uma só vez? Ele olhou para ela de um jeito estranho. Sim, uma fortuna de uma só vez, respondeu com firmeza após um silêncio. Vá devagar, você me assusta com esse olhar feroz.
Bem, vou buscar o pão ou não? Como quiser. Ah, quase esqueci! Ontem, depois que você saiu, chegou uma carta. Uma carta para mim? De quem? De quem eu não sei. Tive que pagar 3 copeques ao carteiro. Você me paga? Vá buscar, pelo amor de Deus, vá buscar agora! Exclamou Raskólnikov, visivelmente comovido. Meu Deus! Um minuto depois, a carta apareceu. Ele não se enganara, era da mãe, vinda do distrito de R. Ele empalideceu ao pegá-la.
Fazia muito tempo que não recebia notícias, e agora o coração lhe doía. Nastásia, saia, pelo amor de Deus! Aqui estão os 3 copeques, mas por favor, vá embora agora! A carta tremia em suas mãos. Ele não queria abri-la de imediato, desejava ficar a sós com aquelas palavras. Assim que Nastásia saiu, ele levou o papel aos lábios e o beijou. Ficou longo tempo contemplando o endereço no envelope, reconhecendo aquela letra miúda e inclinada que lhe era tão familiar: a letra de sua mãe, a mesma que, anos atrás, o ensinara a ler e escrever.
Ele hesitava, parecia ter medo de algo. Finalmente, abriu o envelope. Era uma carta longa, densa, ocupando duas folhas grandes de papel. Escritas dos dois lados com uma letra apertada. Meu querido Ródica, escrevia a mãe, faz 2 meses que não te escrevo e por isso tenho sofrido muito. Passei noites em claro pensando em você, mas tenho certeza de que não vai me culpar por este silêncio involuntário. Você sabe o quanto eu te amo. Você é o nosso único filho, para mim e para Dúnia.
Você é tudo para nós, nossa esperança, nosso futuro. Como me doeu saber que você deixou a universidade há alguns meses, que não tinha recursos para se sustentar e que as aulas haviam acabado. Que ajuda posso eu te dar com minha pensão de 120 rublos por ano? Os 15 rublos que te enviei há 4 meses foram emprestados pelo nosso merceiro, Vassili Vakrutin, com a garantia da minha pensão. Como ele tem o direito de recebê-la em meu lugar até a dívida ser paga, Fiquei esse tempo todo sem poder te mandar nada, mas agora, louvado seja Deus, parece que as coisas vão mudar.
Temos tido sorte e vou te contar o porquê. Primeiro, você pode imaginar, querido Rodica, que sua irmã já vive comigo há um mês e meio e não vamos mais nos separar. Graças a Deus, esse tormento acabou. Vou contar tudo em ordem para que você entenda o que escondemos até agora. Quando você me escreveu há 2 meses, dizendo ter ouvido que Dunia sofria maus-tratos na casa dos senhores Vidrigailov, eu não soube o que responder. Se eu contasse a verdade, você largaria tudo e viria a pé para cá, pois conheço o seu caráter.
Você não permitiria que ofendessem sua irmã. Eu estava desesperada, mas o que poderia fazer? Naquela época, eu nem sabia de tudo. Dunietchka, que entrara naquela casa como governanta, havia recebido 100 rublos adiantados, que seriam descontados mensalmente do seu salário. Ela não podia sair sem quitar a dívida. E esse dinheiro, Rodica, agora posso te confessar, ela pegou principalmente para te enviar aqueles 60 rublos no ano passado.
Nós te enganamos dizendo que era uma economia dela, mas Dúnia não tinha nada guardado. Fizemos isso para que você visse o quanto ela é bondosa e o quanto te ama. O senhor Svidrigáilov, no começo, A tratava com grosseria e fazia piadas de mau gosto à mesa, mas não vou entrar em detalhes para não te afligir. Em resumo, apesar da bondade de Marfa Petrovna, esposa dele, Dunietica sofreu muito, especialmente quando Svidrigáilov estava sob a influência do deus Baco, retomando velhos hábitos militares.
Mas o que aconteceu? Aquele maluco sentiu uma paixão por Dunia e escondia isso sob o disfarce do desprezo. Talvez sentisse vergonha de si mesmo, um pai de família naquela idade, e por isso se vingava nela. Até que ele não aguentou mais e fez propostas diretas a Dúnia, prometendo fugir com ela para o estrangeiro. Imagine o que ela passou! Ela não podia sair por causa da dívida e por consideração à Marfa Petrovna, que poderia suspeitar de algo e causar um escândalo familiar.
Dúnia suportou tudo com uma grandeza de alma admirável. A ruptura veio de repente. Marfa Petrovna flagrou o marido assediando Dúnia no jardim e, entendendo tudo errado, culpou sua irmã. Foi uma cena terrível. Marfa chegou a bater em Dúnia. Não quis ouvir razões, gritou por uma hora e mandou Dúnia embora naquela hora, numa carroça rústica, com suas roupas todas reviradas e misturadas. Dúnia teve que percorrer 17 km sob chuva torrencial numa carroça aberta, acompanhada apenas por um camponês.
Eu estava desesperada. Não podia te contar a verdade, pois você se perderia de ódio. Durante um mês, a cidade inteira fofocou sobre o caso. Não podíamos nem ir à igreja sem ouvir murmúrios e olhares de desprezo. Nossos amigos nos abandonaram. Chegaram a ameaçar untar de pés a porta da nossa casa, uma afronta terrível. Tudo por culpa de Marfa Pietrovna, que espalhou a calúnia para todos. Mas, graças a Deus, o sofrimento durou pouco.
Svidrigáilov se arrependeu e, por piedade, mostrou a Marfa uma carta que Dúnia lhe enviara antes do flagrante no jardim. Na carta, Dúnia o repudiava com indignação, lembrando-o de seus deveres como pai e marido. Era um texto tão digno que eu chorei ao ler. Marfa Petrovna ficou arrasada ao perceber a inocência de Dúnia. No dia seguinte, foi à igreja e depois veio direto à nossa casa pedir perdão. Mais do que isso, ela percorreu toda a cidade contando a verdade, lendo a carta de Dúnia para todo mundo e limpando o nome da sua irmã.
Agora todos tratam Dúnia com um respeito imenso. E isso nos leva à grande mudança em nosso destino. Dúnia arranjou um noivo e já deu o seu sim. Não te consultamos antes porque não podíamos adiar a resposta, mas espero que não nos culpe. O noivo é o conselheiro Piotr Pietrowicz Lugin, um parente distante de Marfa Pietrovna. Ele é um homem prático, sério e com posses. Tem 45 anos, é um pouco carrancudo e vaidoso, mas Dúnia o considera inteligente e bondoso.
Ele está de partida para Petersburgo, onde pretende abrir um escritório de advocacia. Rodka, ele pode ser muito útil para você. Dunia já pensa em como você poderá ser o assistente dele, já que você estuda Direito. Lugin disse que, precisando de um secretário, prefere um parente a um estranho, desde que seja apto. E claro que você é! Ele se ofereceu para custear nossa viagem para Petersburgo, e o casamento deve acontecer em breve.
Dúnia está radiante com a ideia de te ver. Ela diz que só por isso já valeria a pena casar com ele. Estou enviando 30 rublos para você, o máximo que consegui. Em breve estaremos todos juntos. Ame sua irmã, Ródica. Ela te ama mais do que a si mesma. Você é tudo para nós. Continue pedindo a Deus, meu filho, como você fazia quando criança, sentado nos joelhos de seu pai. Tenho medo dessa incredulidade que está na moda hoje em dia.
Rezo por você. Até breve. Um abraço apertado e muitos beijos de sua mãe que te ama até a morte. Pulqueria Raskolnikova. Durante quase todo o tempo da leitura, o rosto de Raskolnikov esteve banhado em lágrimas, mas, ao terminar, ele estava pálido e sofria um tremor nervoso. Um sorriso pesado, irônico e maligno surgiu em seus lábios. Ele reclinou a cabeça na almofada suja e ficou mergulhado em pensamentos. O coração batia com força.
Finalmente sentiu que sufocava naquele quarto amarelo que mais parecia um armário ou um baú. Seus olhos e sua mente ansiavam por espaço. Pegou o chapéu e saiu, desta vez sem o medo de encontrar a senhoria na escada. Ele simplesmente esquecera-se dela. Caminhou em direção à Ilha Wassilievski, pela avenida, como se tivesse um assunto urgente a resolver. Mas, como era seu hábito, andava sem notar o caminho, falando sozinho, ora baixo, ora em voz alta, para o espanto dos transeuntes, que pensavam estar diante de um bêbado.
Capítulo 4. A carta da mãe tinha o mortificado, mas, pelo que respeita ao principal, ao ponto mais importante, Nem por um minuto teve dúvida alguma, nem sequer enquanto lia a carta. O assunto capital já ele o tinha resolvido na sua mente, e resolvido de um modo definitivo. Enquanto eu for vivo, esse casamento não se há de realizar, e esse tal senhor Lugin, que vá para o diabo! Porque o caso não oferece dúvidas, murmurava para consigo, sorrindo e festejando de antemão com altivez, o êxito da sua resolução.
Não, Mamacha! Não, Dúnia! A mim não me enganam as duas! E além disso, são culpadas por não pedirem o meu conselho e decidirem o caso sem mim! Não faltava mais nada! Elas imaginam que já não é possível escangalhar o arranjinho. Mas vão ver se é possível ou não! O argumento é forte. É um homem ativo, esse Piotr Pietrowicz. Tão ativo que não pode casar-se senão pelo trem, para não dizer a vapor. Não, Dunietica, eu vejo isso tudo e bem percebo porque é que tens de falar muito comigo.
Também sei aquilo em que estiveste meditando toda essa noite, passeando pelo quarto, e o que pediste à Nossa Senhora de Kazan que a mamãe tem no quarto. Mas a subida do Calvário custa. Definitivamente decidida. Estás muito satisfeita por ti ires casar, a Vidótia Romanovna, com um homem ativo e prudente, que possui bens, que já possui bens, o que é mais sério e importante, que desempenha duas funções e partilha as convicções das nossas novíssimas gerações, conforme a mamãe escreve, e, segundo parece, é boa pessoa, como a mesma Dúnia pensa.
Esse segundo parece é o melhor de tudo. E essa Dunyética vai casar-se por esse segundo parece. Magnífico, magnífico! Mas, no entanto, é curioso, por que me escreverá Mamacha falando-me das nossas novíssimas gerações? Será simplesmente para indicar-me uma característica desse homem ou com alguma outra intenção, a de tornar-me simpático Senhor Lugin? Ó, que espertalhonas! Também seria curioso explicar outro pormenor: até que ponto terão as duas sido sinceras entre si nesse dia e nessa noite aqui à Lude, e ainda depois?
Teriam verdadeiramente chegado a dizer palavras, ou ter-se-iam compreendido as duas nesse dia e nessa noite unicamente pelo coração e pelo pensamento, de maneira que não chegaram a dizer nada por o considerarem desnecessário? Provavelmente terá sido assim, em parte. Da carta deduz-se que ele parece um pouco brusco a Mamacha, e a ingênua de Mamacha deve ter insinuado a Dúnia as suas observações. A outra, naturalmente, não gostaria de ouvir isso e respondeu com aborrecimento.
Não faltava mais nada. Quem não ficaria aborrecido quando o assunto se compreende sem carecerem de perguntas ingênuas, e quando já está resolvido, de maneira que já não há nada a acrescentar? E ela a dizer-me: Ama Dúnia, Ródica, porque ela te quer mais do que a si própria. Não se dará o caso de que sinta secretos remorsos de consciência por ter obrigado a filha a sacrificar-se? Tu és a nossa esperança, tu és tudo para nós. Ó Mamacha, A cólera apoderava-se dele cada vez com mais intensidade e, se tivesse encontrado o senhor Lugin naquele momento, poderia tê-lo assassinado. lá isso é verdade, continuou, seguindo o turbilhão das ideias que se lhe agitavam no pensamento.
Lá isso é verdade, que é preciso proceder gradualmente e com tato para se conhecer uma pessoa. Mas o senhor Lugin não pode ser mais claro? O mais importante é que é um homem prático e, segundo parece, boa pessoa. Não dá vontade de rir isso de ele se ter comprometido a encarregar-se das despesas da bagagem e da arca grande? Um homem assim não é bondoso? E as duas, a noiva e a mãe, contrataram um camponês e farão o trajeto numa Tieliega coberta com um toldo.
Eu já viajei assim, Não, são apenas 90 km, e depois acomodar-nos-emos ali as duas muito bem. Uma carruagem de terceira, 1000 km. Está muito bem. Talha-se a capa conforme o pano. Que diz a isto, senhor Lugin? Olhe que se trata da sua noiva, e o senhor não sabia que a mãe teve de pedir um adiantamento sobre a sua pensão para essa viagem? Não há dúvida de que o senhor tem uma maneira de pensar tratar de comerciante. O senhor considera isto uma empresa em que há duas partes que devem participar nos lucros nas mesmas proporções e, portanto, também nos gastos.
O pão e o sal juntos, mas o tabaco à parte, conforme diz o provérbio. Simplesmente, o homem prático enganou-nos um pouquinho. O envio da bagagem custará menos e até é possível que o consiga grátis. Dar-se-á o caso de que nenhuma das duas veja isto, ou não quererão vê-lo. O certo é que estão contentes e pensam que o melhor ainda está para vir. Aqui é que está o essencial, que não é a avareza nem a tacanhez, o caráter de tudo isto.
Será esse o tom que ele há de empregar depois do casamento? Pode prever-se desde já. E afinal, por que se propõe Mamacha a fazer essas loucuras? Com que então vai apresentar-se em Com 3 rublos de prata, ou 2 notinhas, como diz essa velhinha? E com que pensará então viver em Petersburgo? Porque ela, por certos motivos, já deve ter compreendido que não lhe será possível viver com Dúnia depois do casamento. Nem sequer no princípio.
Esse tipo tão simpático, com certeza que se deixou descair com alguma, que deve ter dado a entender quem é, embora Mamacha Tape os olhos com as duas mãos quando diz: Nem também consentiria eu! Que pensará ela fazer depois, em que confia contando unicamente com 120 rublos de pensão e endividada para com Afanás Ivanovitch? Passará os invernos fazendo toucas e mitenes, fatigando seus velhos olhos, mas penso que, fazendo tricô, apenas acrescentará 20 rublos por ano aos outros 120.
Isso quer dizer que confia nos sentimentos de gratidão do senhor Lugin. Ele próprio há de propor-me, teimará comigo. Pois sim, pois sim, é o que acontece sempre a essas boas almas românticas. Vestem as pessoas com penas de pavão real. Até o último instante contam com o bem e não com o mal, ainda que imaginem o reverso da medalha. Por nada deste mundo dizem de antemão a palavra justa. Só o terem de pensar nisso lhes custa. Diante da verdade, tapam os olhos com as mãos, até que o homem que imaginaram aparece, e é ele próprio quem lhes abre os olhos.
Mas seria curioso saber se esse senhor Lugin tem alguma condecoração. Apostava qualquer coisa em como usa a Santa Ana na lapela e a põe para ir jantar com personagens oficiais ou com comerciantes. Com certeza, que há de pô-la também no dia do seu casamento. Mas enfim, que vá para o diabo que o carregue. Quanto a Mamacha, Deus tenha dó dela. No fim de contas, ela é assim. Mas Dunia? Dunietica, minha rica, eu bem te entendo. Eu já tinha 20 anos da última vez que nos vimos, já compreendi o teu caráter.
Mamacha diz-me na carta que Dunietica é capaz de suportar muito. Isso já eu sabia. Isso já eu sabia há meio ano apenas. Pensará nisso, precisamente nisso, em que Dunyética tem muita resignação. Uma vez que pôde suportar os senhores Vidrigailov com todas as suas consequências, é porque de fato tem muita resignação. Mas agora, ela e Mamacha imaginam que vão poder suportar também o senhor Lugin, que de certa teoricamente acerca das excelências das mulheres apanhadas nas malhas da pobreza e que ficam sujeitas aos seus beneméritos maridos, e perora assim, logo no primeiro encontro: Bem, suponhamos que ele descaíra e declarara qualquer coisa, apesar de ser um homem prudente, tanto que até pode suceder que não tenha dito nada, embora tivesse o propósito de explicar-se depois.
Mas, idúnea, idúnea! Ela bem vê como ele é e vai viver com um homem assim. Não tem mais para comer do que pão negro amolecido em água, mas não é capaz de vender a sua alma nem de trocar a sua liberdade moral pela comodidade. Nem por todo o Schleswig-Holstein a trocaria, mas para o senhor Lugin já não é a mesma coisa. Não, Dúnia não é dessa categoria, eu bem sei, e não há dúvida que não deve ter ter mudado durante este tempo. Que digo eu, bem custosos de suportar seriam os Svidrigáilov.
Duro seria ter de passar a vida inteira por 200 rublos como preceptora pelas províncias. No entanto, eu sei que mais depressa a minha irmã se sujeitaria à vida escrava numa plantação, ou como uma pobre leitora em casa de um alemão do Báltico, do que a envelhecer a sua alma e o seu sentido moral numa união com um homem ao qual não respeitasse e com o qual nada tivesse de comum, para sempre e só por interesse pessoal. E ainda que o senhor Lugin fosse feito de ouro puro ou talhado em diamante, também ela nunca consentiria em ser a concubina legal do senhor Lugin.
Então por que consente agora? Onde está o enigma? A coisa é clara: pela sua pessoa, para sua comodidade, nem sequer para salvar-se da morte, não se venderia a ela, mas, em compensação, por outrem, sim, vende-se. Vende-se por um ser ao qual ama e respeita. Aí está a explicação de tudo. Vende-se pelo irmão e pela mãe. Venderá tudo por ela. Oh, sim, quando é preciso, afogamos até o nosso senso moral, a liberdade, a tranquilidade, a consciência até, tudo, tudo, vendemos tudo por qualquer preço.
Adeus vida! Contanto que os nossos entes queridos sejam felizes. Mais ainda, pensamos com a nossa casuística particular, fazemos como os jesuítas e, de momento, tranquilizamo-nos. Convencemo-nos a nós mesmos de que tem de ser assim, irrevogavelmente, pois é para um fim nobre. Somos assim E a coisa é clara como o dia. Evidentemente que se trata de Rodion Romanovich, dele e só dele. Bem, assim, dessa maneira, poderei traçar a sua felicidade, pagar-lhe a universidade, torná-lo depois ajudante notário, resolver todo o seu futuro.
E até é muito possível que, com o tempo, venha a tornar-se rico, honrado e respeitado, e que venha até a tornar-se um homem célebre. E a mãe? Para ela tudo se reduz ao seu Ródica, e ao seu admirável Ródica, ao primogênito. Por um tal primogênito, como não sacrificar até uma filha sua? Ó doces e injustos corações! Mas que? Chegaríamos inclusivamente a resignarmo-nos com o destino de Soniética? Soniética, Soniética, eterna Soniética Marmelado Reserva, enquanto o mundo existir.
Já mediram ambas bem a extensão do sacrifício? E Dunia terá forças? Será útil? Razoável? Sabes tu, Dunietica, que a sorte de Sonietica com o senhor Lugin não é muito pior do que a tua? Amor ali não pode haver, escreve Mamacha. E se não fosse só amor e respeito que não pudesse haver, mas em compensação houvesse desprezo, repugnância. E então? Mas o casar-se assim vem a ser o mesmo que manter a apresentação. É assim ou não é? Compreendem?
Compreendem o que quer dizer essa apresentação? Compreendem que a apresentação lujinesca é absolutamente equivalente à apresentação dissoniética, e pode até ser que pior e mais vil? Porque vocês, as dunieticas, pensais afinal de contas, numa comodidade supérflua, ao passo que no caso dessa outra tratava-se pura e simplesmente de um momento em que se podia morrer de fome? É caro, sai cara essa apresentação do Nietzsche. E se depois te faltam as forças e te arrependes?
Quantas afrontas, desgostos, maldições e lágrimas às escondidas de todos, porque enfim tu não és uma Marfa Pietrovina. E o que será de mamãe depois? Nesta altura já ela está inquieta e sofre. Que será então quando vir as coisas como elas são? E eu? Sim, o que pensam de mim as duas? Não quero o sacrifício de vocês, Dunyética. Não quero, Mamacha. E isso não há de realizar-se enquanto eu viver. Não e não, não consentirei. De repente caiu em si e deteve-se.
Mas como evitar? Que farás tu para que não se realize? Proibi-lo? Com que direito? Que podes tu prometer-lhes, por tua vez, para teres algum direito? Consagrar-lhes todo o teu destino, todo o teu futuro, quando tiveres terminado os teus estudos e conseguido um emprego? Nós bem sabemos o que isto é: castelos no ar. Mas agora? Agora é que era preciso fazer qualquer coisa, compreendes? Mas que fazes tu agora? Explorá-las também. Esse dinheiro têm de consegui-lo elas por conta da pensão de 100 rublos e do crédito que representa a amizade dos Vidrigailov e dos Vakrushin.
Como as defenderás tu, futuro milionário, Zeus, que dispõe da sua sorte? Daqui a 10 anos? Mas dentro de 10 anos, a tua mãe poderia estar cega de fazer tanto tricô e de tanto chorar e de passar tanta fome. E a tua irmã? Vamos, é preciso pensar o que poderá ser da tua irmã daqui a 10 anos ou durante estes 10 anos. Não és capaz de adivinhá-lo? Afligia-se e irritava-se assim com essas perguntas, experimentando também um certo prazer.
Aliás, essas perguntas não eram de maneira nenhuma novas nem repentinas. Eram já velhas, dolorosas, antigas. Havia já algum tempo que vinham ferindo-lhe e corroendo-lhe o coração. Muito. Havia já muito tempo que se enraizara e crescera nele toda essa tristeza atual. Nos últimos tempos, se acumularam e reconcentraram, assumindo a forma de uma horrível, bárbara e fantástica interrogação que lhe torturava o coração e a alma, reclamando uma resposta urgente.
Agora, aquela carta da mãe viera também feri-lo como um raio. Era evidente que agora não se tratava de ficar triste, de sofrer passivamente, fazendo apenas apreciações acerca da insolubilidade daqueles problemas, mas de fazer impreterivelmente qualquer coisa, imediatamente, o mais depressa possível. Fosse o que fosse, era preciso tomar uma decisão ou... ou renunciar completamente à vida! Exclamou de repente com raiva. Aceitar o destino docilmente, tal como é, de uma vez para sempre.
E abafar tudo no seu íntimo, renunciando a todo o direito à ação, a viver e a amar. Compreende, meu senhor? O senhor compreende o que quer dizer isso de não ter para onde ir? De repente, veio-lhe à memória a pergunta que Marmieladov lhe dirigira na noite anterior: Por que todo homem precisa de ter algum lugar aonde ir? De repente, estremeceu. Um pensamento, o mesmo da noite anterior, tornou a atravessar a sua imaginação, mas não estremecera pelo fato de lhe ter ocorrido aquela ideia, porque sabia, pressentia que ela havia infalivelmente de ocorrer-lhe e estava à espera dela.
Demais, essa ideia não datava da noite anterior, mas havia esta diferença: é que um mês atrás e até essa noite era apenas um desvario, ao passo que agora Agora surgia, não como um desvario, mas com uma aparência nova, de certo modo ameaçadora e absolutamente desconhecida, e ele próprio o reconhecia. O sangue subiu-lhe à cabeça e os olhos nublaram-se-lhe. Apressou-se a olhar à sua volta, nem sabia bem à procura de quê. Queria sentar-se e procurava um banco, por isso encaminhou-se para a avenida de cá.
Via-se um banco ao longe, a uns 100 passos. Dirigiu-se para ele com a máxima rapidez, mas no caminho sucedeu-lhe uma pequena aventura que durante uns momentos atraiu toda a sua atenção. Depois que dera pelo banco, observou à frente dele, a uns 20 passos, uma mulher que passava, a qual a princípio não deu a mínima atenção, como não dava a nenhuma das coisas que lhe passavam pela frente. Quantas vezes não lhe acontecera ir, por exemplo, para casa, e não se lembrar de maneira nenhuma do caminho que seguira para chegar até lá e pelo qual estava já acostumado a passar?
Mas aquela mulher que passava tinha qualquer coisa de estranho, que saltava logo à vista, e pouco a pouco lhe foi prendendo a atenção. A princípio, contra a sua vontade, e quase com aborrecimento, e depois, cada vez com mais força, De súbito, sentiu o desejo de averiguar concretamente o que teria aquela mulher de estranho. Em primeiro lugar, devia ser muito nova. Ia sem chapéu, com aquele calor, sem sombrinha e sem luvas, e movia os braços de maneira um pouco grotesca.
Trazia um vestidinho de seda, leve, mas era um pouco estranho o seu vestido, com os botões mal fechados, e atrás, da cintura, no lugar onde começa a saia, via-se um rasgão. Uma tira arrancada pendia oscilante. À volta do pescoço nu levava um pequeno lenço que lhe saía de um lado. A mulher não caminhava com firmeza, curvada e cambaleando para um e outro lado, até que por fim aquela visão acabou por atrair completamente a atenção de Raskólnikov.
Cruzara com a moça junto do banco, Mas quando chegou junto deste, ela se deixou cair numa extremidade, apoiou a cabeça no espaldar e fechou os olhos, dominada por um cansaço visível. Percebeu, logo depois de olhá-la, que estava completamente embriagada. Era estranho contemplar aquele espetáculo. Pensou até se aquilo não seria uma ilusão. Tinha na sua frente uma pequena pessoa, extraordinariamente jovem, de uns 17 anos, até talvez de 15, pequenina, de cabelo loiro, mas toda afogueada e como que inchada.
Segundo parecia, a moça não devia ter a cabeça muito firme, cruzara as pernas mostrando-as mais do que convinha, e avaliando por todos os indícios, nem devia perceber que se encontrava em plena rua. Raskólnikov não se sentou, mas também não se decidiu a retirar-se. Ficou de pé, na frente dela, atônito. Aquela avenida estava sempre deserta, e às 2 da tarde, com aquele calor, também não passava por ali quase ninguém. E no entanto, a um lado, a uns 15 passos, no extremo da avenida, tinha parado um homem, o qual, via-se bem, mostrava a intenção de aproximar-se da moça, sabe-se lá com que fins.
Provavelmente também ele a teria visto, de longe, e a seguira. Simplesmente, Raskólnikov atravessou-se-lhe no caminho. Lançava-lhe olhares de raiva, esforçando-se, no entanto, por não chamar-lhe a atenção, e aguardava impacientemente a sua vez, quando aquele incômodo intruso se retirasse. A coisa era compreensível. Aquele cavalheiro devia ter uns 30 anos, era forte, gordo, com uma cara saudável, os lábios rosados, de bigode, e vestia com elegância.
Raskólnikov sentia uma indignação enorme. De repente, veio-lhe um ímpeto tremendo de ofender de qualquer maneira aquele tipo gordo. Afastou-se da moça num abrir e fechar de olhos e dirigiu-se para ele. Mas o senhor é Svidrigáilov? Que procura neste lugar? Exclamou, fechando as mãos e rindo-se com os lábios franzidos pela cólera. Que quer dizer isso? Perguntou-lhe seriamente o interpelado, arqueando as sobrancelhas e olhando-o com altivez.
Que saia daqui já, é o que quero dizer. Como te atreves, canalha? E brandiu a bengala. Rascônico atirou-se contra ele com os punhos erguidos, sem dar-se tempo para pensar que aquele homem forte podia muito bem fazer-lhe frente. A ele ou a outro qualquer. Mas nesse momento sentiu que o seguravam por detrás com força. Um guarda tinha se lhes interposto. Basta, suda! Não se atreva a lutar no lugar público! Que lhe aconteceu? Como se chama?
Perguntou, dirigindo-se com ar severo a Raskólnikov e reparando no seu traje em farrapos. Raskólnikov olhou para ele com atenção. Tinha uma honesta cara de soldado, com bigodes e costeletas grisalhos, e um olhar inteligente. Preciso do senhor, disse, pegando-lhe por uma mão. Eu sou o estudante Raskolnikov, o que o senhor pode ficar também sabendo, mas venha comigo que eu lhe mostrarei uma coisa. E, puxando o guarda pela mão, levou-o até o banco.
Aqui a tem, completamente embriagada. Apareceu há pouco nesta avenida. Quem sabe de onde ela vem ou quem será, mas não parece uma profissional. O mais provável é que a obrigaram a beber em qualquer parte e abusaram dela pela primeira vez, compreende? E que depois a tivessem posto na rua. Repare como tem o vestido roto, repare como está vestida. Deve ter sido vestida à força. Não foi ela quem se vestiu, mas sim mãos de homens inábeis, é evidente.
E agora repare para aquele, para esse já nota, com quem eu me preparava para brigar há Não conheço, vi-o agora pela primeira vez, mas ele, durante a caminhada, reparou na ébria, desorientada, e agora estava com grande vontade de aproximar-se dela e de, no estado em que está, levá-la sabe-se lá para onde. Deve ser isso, acredite que não estou a enganá-lo. Eu bem vi como ele a observou e vinha atrás dela. Simplesmente, eu me atravessei no seu caminho, mas ele estava à espera que eu me fosse embora.
Tinha se afastado um pouco e fingia que enrolava um cigarro. Como livrar esta infeliz das mãos dele? Como poderemos levá-la a casa? Que lhe parece? O guarda compreendeu tudo num instante e reconsiderou. Quanto ao caso do senhor gordo, não havia dúvida de que era aceitável. Restava a mulher. O policial inclinou-se para ela, a examiná-la mais de perto, e no seu rosto refletiu-se uma sincera piedade. Ah, que pena! exclamou, abanando a cabeça.
Ainda é uma criança. Enganaram-na, com certeza. Ouça, menina, começou, sacudindo-a. Pode fazer o favor de dizer-nos onde mora? A moça abriu os olhos cansados e enevoados, e ficou olhando estupidamente para os que a interrogavam, enquanto agitava as mãos. Ouça! exclamou Raskólnikov. Aqui tem. Meteu a mão no bolso, e tirou 20 kopeks. O que achou? Tome, chame uma carruagem e leve-a a casa, mas precisamos de saber onde ela mora. Baratinha, baratinha, insistiu novamente o guarda, pegando o dinheiro.
Vou buscar e eu próprio a levarei à sua casa. Onde mora? Ah, pode fazer o favor de dizer-nos onde mora? Deixa em mim em paz, que importunos, resmungou a moça, tornando a agitar as mãos. Ah, ah, Isso não está certo, isso é uma vergonha, Baritinha, uma vergonha, e tornou a abanar a cabeça, envergonhado, condoído e apiedado. Vê, isto é que é o mais difícil, acrescentou, dirigindo-se a Raskolnikov, e tornou a olhar para ele dos pés à cabeça.
Era evidente que lhe parecia um pouco estranho ter dinheiro e estar tão esfarrapado. E encontrou-a longe daqui?, perguntou-lhe. Já lhe disse, ia à minha frente, na avenida, cambaleando. Quando chegou ao banco, deixou-se cair. Ah, que vergonha se vê hoje no mundo, senhor! Que desavergonhada! E mais, que bêbada! E com a roupa feita em farrapos! Ah, e que processo há hoje na libertinagem! E até pode ser que pertença a uma boa família decaída.
Agora há moças assim, mas é que parece uma menina fina e tornou a inclinar-se para ela. Talvez ele tivesse alguma filha da mesma idade, literalmente uma menina, e delicada, com modos de pessoa bem educada e atenta a todos os caprichos da moda. O principal, apressou-se a dizer Raskólnikov, é que esse malandro não a leve. Também poderia abusar dela. Bem sabemos o que ele queria. Olhe que não sai dali, o patife! Raskólnikov falava alto e apontava-o diretamente com a mão.
Ele o ouviu e deu mostras de ficar encolerizado, mas ponderou o caso e limitou-se a lançar-lhe um olhar de desprezo. Depois do que se afastou outros 10 passos e tornou a parar. Impedir que a leve é possível, respondeu o guarda depois de ter pensado. Se ao menos dissesse onde mora. Menina, menina. E tornou a inclinar-se. Então Ela abriu os olhos de repente, olhou-o atentamente, como se começasse a compreender alguma coisa, levantou-se do banco e dirigiu-se outra vez para o mesmo lado donde tinha vindo.
Ó, que desavergonhados! exclamou, agitando ainda os braços. Caminhava com ligeireza, mas como antes, cambaleando um pouco. O Dund começou a andar atrás dela, mas pelo outro passeio, sem perdê-la de vista. Não se incomode, que não a abandonaremos, disse resolutamente o guarda dos bigodes, e deitou a caminhar atrás dela. Ah, até onde chega a libertinagem, repetiu, suspirando. Naquele mesmo momento, Raskolnikov sentiu qualquer coisa, como se alguém o tivesse picado.
Num abrir e fechar de olhos, deu-se nele uma transformação completa. Ouça! Gritou atrás do policial dos bigodes. Este estacou, virando-se. Pare! Mas que tem? Deixa que se divirta com ela! E apontava para o Janota. Que lhe importa isso? O guarda não compreendia e olhou-o com os olhos espantados. Raskólnikov sorriu. Ah! Exclamou o guarda agitando as mãos e continuou no rastro do Janota e da moça, tomando provavelmente Raskólnikov por louco ou algo pior.
Os meus 20 copeques voaram, resmungou Raskoljnikov, que ficara sozinho. Bem, agora vai também extorquir dinheiro a outro. Ele deixa a mulher e acabou-se. Mas para que me meto eu a ajudar os outros? A mim quem é que me ajuda? Tenho eu o direito de ajudar alguém? Que se comam vivos uns aos outros, quero lá saber. Como me atrevi a dar-lhe esses 20 seus peques? Porventura eram meus? Apesar dessas palavras estranhas, o certo é que sentia pena.
Tornou a sentar-se no banco abandonado. Os seus pensamentos divagavam, e nesse momento era-lhe também muito doloroso pensar fosse no que fosse. Gostaria de esquecer tudo, adormecer e tornar depois a começar outra vez. Pobre moça, disse, pousando o olhar na extremidade livre do banco. Há de voltar a si e chorar, e depois a mãe ficará sabendo de tudo. A princípio, há de bater-lhe com a mão, depois açoitá-la-á com o chicote, de maneira cruel e humilhante, e acabará por expulsá-la.
E se não a expulsa de casa, de qualquer maneira, uma Dária Frantsovna qualquer não deixará de farejar a presa, e a pobre moça começará a andar aos tombos. Depois, segue-se o hospital. É o que acontece sempre àquelas que viveram honestamente em casa de suas mães, até o dia em que se escaparam pela calada. E depois irão outra vez para lá, e outra vez para o hospital, a água ardente, a taberna, e outra vez o hospital. Passados 2 ou 3 anos, estará doente, e com 18 ou 19 de idade, será tudo o mais.
Não as conheci eu por acaso? Mas que me importam elas? Apesar de que sempre me importavam. Ufa! Dizem que tem de ser assim. Segundo dizem, tem de haver todos os anos uma certa porcentagem delas. Diabo! Tem de haver para que as outras possam ostentar louçania e não as incomodem. Porcentagem! Realmente são famosas as palavras que essa gente emprega. São tranquilizadoras. Científicas. Está dito, tende a haver essa porcentagem e é escusado falar muito nisso.
Se em vez dessas empregassem outras palavras, pode ser que fossem inquietantes. E se Dunietica venha a cair também dentro dessa porcentagem? Se não dentro desta, na outra. Mas para onde ia eu? Coisa estranha. Se saí, foi para alguma coisa. Assim que li a carta, saí. Era Vassiliyevski a casa de Razumikin que eu ia agora, já me lembro. Mas afinal, que ia eu lá fazer? E por que me ocorreria precisamente agora a ideia de ir ver Razumikin?
É curioso. Ficou admirado consigo próprio. Razumikin era um dos seus antigos camaradas da universidade. Era curioso que Raskólnikov, quando andava na universidade, quase não tinha aí nenhum amigo, afastava-se de todos, Não se dava com ninguém e não lhe agradava que eles o visitassem. Aliás, não tardou também que eles lhe voltassem as costas. Não tomava parte em coisa nenhuma, nem nas reuniões gerais, nem nas discussões, nem nos recreios.
Estudava com afinco, sem ter pena de si mesmo, e por isso o respeitavam, mas não lhe tinham amizade. Era muito pobre, extremamente orgulhoso e nada comunicativo. Parecia que escondia qualquer mistério. Na verdade, parecia que encarava alguns dos seus condiscípulos como se fossem crianças, por sobre o ombro, como se estivesse muito acima de todos eles, tanto pela inteligência como pelo saber e pelas ideias, e considerasse as suas convicções e interesses como algo de inferior.
Mas dava-se com Razumikin fosse lá pelo que fosse, isto é, Não lhe tinha amizade, mas, ao menos, sentia-se mais franco e comunicativo para com ele. Aliás, com Razumikin, teria sido também difícil conduzir-se de outra maneira. Era extraordinariamente jovial e expansivo, bom e ingênuo, embora escondesse profundidade e dignidade por debaixo dessa simplicidade. Era assim que o julgavam os melhores dos seus companheiros. E todos gostavam dele.
Era muito esperto, embora às vezes o tomassem por ingênuo. O seu aspecto exterior era impressionante: alto, seco, sempre mal barbeado, de cabelo preto. Às vezes mostrava-se um pouco irrequieto e fazia alarde da sua força. Uma noite em que saíra com seus camaradas, deitou por terra um guarda de 6 pés de estatura. Era capaz de beber sem conta nem medida, mas também era capaz de deixar absolutamente de beber. Às vezes permitia-se também graças pesadas, mas era igualmente capaz de abster-se de dizê-las.
Razumikin era também notável pela circunstância de não desanimar por nenhum fiasco nem preocupar-se em nenhum transe difícil. Era capaz de viver num patamar de escada, aguentar todas as angústias da fome e o frio mais excessivo. Extremamente pobre, mantinha-se sozinho, fazendo alguns trabalhos que lhe davam dinheiro. Conhecia uma infinidade de expedientes aos quais se pode recorrer sempre, claro que pelo trabalho. Mas houve um inverno inteiro durante o qual nenhuma só vez acendeu o fogo, e afirmava que o tinha passado muito bem, porque com o frio se dorme melhor.
Na presente época, vira-se obrigado também a deixar a universidade, mas não por muito tempo, e esforçava-se o mais possível por melhorar a sua situação a fim de poder recomeçar os seus estudos. Havia já 4 meses que Raskólnikov não o visitava, e Razumikin, por seu lado, ignorava onde ele morava. Uma vez, havia 2 meses, encontraram-se na rua, mas Raskólnikov voltara-lhe as costas, passando para o outro passeio para que não o visse.
E Razumikin, embora o tivesse visto muito bem, passou de largo para não incomodar o amigo. Olá, ouvinte! Antes de iniciarmos mais este capítulo, um rápido recado para ajudar na manutenção do projeto Livro Sonoro e permitir que a gente continue trazendo grandes clássicos para você. Considere fazer uma doação de qualquer valor. A nossa chave Pix é o nosso email canallivrosonoro@gmail.com. Vou repetir: canallivrosonoro@gmail.com.
A chave também está aí na descrição. O seu apoio é fundamental para mantermos este trabalho vivo. E agora fiquem com a continuação da nossa história. Capítulo 5. De fato, eu ainda não há muito tempo pensava pedir trabalho a Razumikin, que me arranjasse lições ou qualquer outra coisa, dizia Raskólnikov para si próprio. Mas agora, em que pode ele ajudar-me? Suponhamos que me arranje lições, suponhamos até que me dá o seu último kopeck, se é que tem algum, para que eu possa comprar umas botas e procurar trabalho, a fim de apresentar-me decentemente nas lições.
Bem, e então? Mas que vou eu fazer com umas piataque? Será isso, por acaso, o de que eu preciso agora? Verdadeiramente é ridículo isso de ir visitar Razumikin. Aquela pergunta acerca do motivo por que iria agora ver Razumikin irritou-o muito mais do que ele próprio pensava. Farejava com inquietação algum pensamento mau naquilo que, no fundo, era uma coisa vulgaríssima. Tinha de concordar que eu quisera remediar tudo apelando unicamente para Razumikin e encontrar em Razumikin toda a solução, disse para si mesmo, admirado.
Pensava e esfregava a testa, e coisa estranha, inesperadamente, de repente e quase como se fosse espontaneamente, Depois de longa deliberação, uma ideia estranhíssima lhe atravessou a mente. Irei visitar Razumikin murmurou de repente, perfeitamente tranquilo, como se tivesse adotado uma resolução definitiva. Irei ter com Razumikin. Irei. Está decidido. Mas hoje não. Irei vê-lo noutro dia. Depois disso, quando tudo for já fato consumado, e tudo tiver tomado um novo rumo.
E de repente voltou a si. Depois disso, exclamou, levantando-se do banco, sobressaltado: Mas isso chegará a dar-se, por acaso? Chegará realmente a dar-se? Deixou o banco e pôs-se a caminhar, quase correndo. Teria querido voltar atrás, para sua casa, mas isso de voltar à sua casa pareceu-lhe de súbito terrivelmente aborrecido. Ali, no seu canto, naquele horrível cacifro, é que ele meditara durante mais de um mês. Por isso, pôs-se a andar ao Deus dará.
Um calafrio nervoso lhe percorreu o corpo, que parecia febril. Sentia também frio. Com o calor que fazia, tiritava. Como se fosse forçadamente, quase sem se aperceber disso, como se cedesse a alguma urgente necessidade íntima, começou a olhar para todos os objetos que encontrava no caminho. Como se procurasse à força uma distração, mas não conseguia completamente e afundava-se em meditações. Quando, estremecendo, tornava a levantar a cabeça e a correr os olhos à sua volta, esquecia imediatamente o que pensara havia um momento e até por onde caminhava.
Atravessou assim todo Vassilievski Ostrov, foi ter ao pequeno Nieva, atravessou a ponte e voltou a Ostrov. A princípio, aquela verdura e aquela frescura deleitaram os seus olhos cansados, acostumados ao pó da cidade, com o seu gesso e as suas casas enormes, tenebrosas e opressivas. Ali não havia nem angústia, nem mau cheiro, nem tabernas. Mas não tardou que também aquelas novas e agradáveis sensações se tornassem doentias e irritantes.
Às vezes parava perto de alguma casa de campo afundada entre a verdura, olhava para o jardim, contemplava os donos nos terraços e varandas, as mulheres ataviadas e as crianças que brincavam no jardinzinho. Fixava sobretudo a sua atenção nas flores, era sempre para elas que mais olhava. Encontrava também pequenas carruagens elegantes, cavaleiros e amazonas. Seguia-os curiosamente com o olhar e esquecia-se deles antes que tivessem desaparecido da sua vista.
Uma vez parou e contou o dinheiro que levava consigo: cerca de 30 copeques. 20 que dei ao guarda, 3 a Anastácia pela carta. Além disso, ontem dei 47 ou 50 a Marmieladov, pensou, enquanto, sem saber por quê, tornava a contar o seu dinheiro. Mas não tardou a esquecer-se do motivo por que o tinha tirado do bolso. Só tornou a aperceber-se quando passou em frente duma casa de pasto, uma espécie de taberna, e sentiu apetite. Quando entrou na casa, bebeu um copo de aguardente e meteu na boca um pastel recheado com qualquer coisa.
Acabou de comê-lo adiante. Havia muito tempo que não provava aguardente, e por isso fez-lhe imediatamente efeito, apesar de ter bebido apenas um copo. De repente, sentiu peso nos pés e também uma grande vontade de dormir. Pôs-se a andar em direção à casa, mas quando ia já em Pietrowski Ostrov, deteve-se, tomado de uma inércia imensa. Afastou-se do caminho, meteu-se por entre os maciços de verdura, deixou-se cair sobre a erva e logo adormeceu profundamente, num estado doentio Os sonhos costumam distinguir-se pelo seu extraordinário colorido e clareza, e pela estranha semelhança com a realidade.
Apresentam-nos às vezes um quadro maravilhoso, e o cenário e todo o processo de representação são ao mesmo tempo tão verossímeis e com os pormenores tão exatos e inesperados, mas em tão artística harmonia com a totalidade do quadro, que seria em vão que o próprio sonhador tentaria evocá-los, depois de desperto, ainda que fosse um artista como Pushkin ou Turguenev. Esses sonhos, sonhos doentios, ficam sempre gravados na memória por muito tempo e produzem uma forte impressão no organismo alterado e enfraquecido do homem.
Foi um sonho estranho o que teve Raskólnikov. Sonhou com a sua passada infância na aldeia. Tinha 7 anos e passeava num dia festivo, ao cair da tarde, com seu pai para além da aldeia. O céu estava cinzento, o dia sufocante, e o lugar era exatamente o mesmo cuja visão guardava na sua memória. Ainda mais, na sua memória via-o ainda mais apagado do que agora no sonho. A cidade mostra-se aberta como a palma de uma mão. Em toda aquela periferia, um salgueiro branco.
Além, Muito longe, quase no extremo do horizonte, negreja o bosque. A alguns passos de distância da última horta da aldeia, há uma taberna, uma grande taberna, pela qual sempre sentira antipatia e até medo quando passava em frente dela com seu pai. Havia sempre ali muita gente. Vociferavam, riam, diziam impropérios com grande alvoroço, bebiam tão excessiva e imoderadamente e havia nela rixas com tanta frequência. À volta da taberna, viam-se sempre uns tipos completamente embriagados e ferozes, que andavam aos tropeções.
Quando se encontrava com eles, apertava-se com força contra o pai e todo ele tremia. Próximo da taberna, passava a estrada, que verdadeiramente não era mais do que um atalho, sempre empoeirada, com um pó muito negro. A estrada faz uma curva ao longe, e a 300 passos rodeia o cemitério da aldeia pela direita. A meio do camposanto ergue-se uma igreja com a cúpula verde, na qual entrava duas vezes por ano com seu pai e sua mãe, para ouvir missa, quando faziam o ofício de réquiem pela avó, que falecera havia pouco tempo, e a qual não chegara a conhecer.
Nesses casos, levavam sempre consigo um pastel sobre um prato branco, em cima dum guardanapo, e o pastel era de açúcar, arroz e passas colocadas em forma de cruz. Gostava daquela igreja e das suas velhas imagens, quase todas sem moldura, e do velho sacerdote de cabeça sempre a tremer. Junto do túmulo da avó, sobre o qual se estendia uma lousa, estava a pequena sepultura do irmão mais novo, que morrera com 6 meses e o qual também não chegara a conhecer e de quem não podia recordar-se.
Mas disseram-lhe que tinha um irmãozinho e ele, sempre que visitava o cemitério, persignava-se religiosa e respeitosamente diante da sepultura, fazia uma reverência e depunha sobre ela um beijo. Agora sonhava que ia com seu pai pela aldeia, pelo caminho do cemitério, e passava diante da taberna. Ia pela mão do pai e, cheio de medo, olhava para a taberna. Uma circunstância especial distraiu a sua atenção. Parecia que dessa vez se celebrava ali alguma paródia.
Havia ali uma multidão de burgueses endomingados, de mulheres com seus maridos, e um grupo de pessoas. Estão todos embriagados, entoam canções, e junto da porta da taberna há uma tia liega, mas uma tia liega estranha. É uma dessas grandes às quais costumam jungir-se grandes cavalos de carga e que se empregam para o transporte de mercadorias e tonéis de vinho. Agradava-lhe sempre contemplar aqueles grandes cavalos de carga, de longas crinas e grossas patas, que caminham tranquilamente com um passo manso e que conduzem uma autêntica montanha sem mostrar o menor cansaço, como se a carga, em vez de esgotá-los, os aliviasse.
Mas agora, coisa estranha, àquela Tieliega enorme estava atrelado um mísero sendeiro esquálido, pequeno, desses que os camponeses empregam. Um desses cavalicóquios aos quais tinha ele visto com frequência. Carregam às vezes com grandes fardos de lenha ou feno, e quando o carro se atola na lama ou nos sulcos, os camponeses batem-lhes com muita força, muita força, com os chicotes, às vezes até no próprio focinho ou nos olhos. Isso fazia-lhe uma pena imensa.
Tão grande que quase vinham-lhe lágrimas aos olhos, e a mãe vinha então arrancá-lo da janela. Mas eis que, de repente, se travou uma grande escaramuça. Da taberna saiu, cantando e com balalaicas, um bando de camponeses embriagados, embriagadíssimos, com blusas vermelhas e azuis e a jaqueta sobre o ombro. Subam, subam! Grita um deles, ainda novo, com um grosso capote e uma caraça gorda, vermelha como um tomate. Levo-os a todos, subam!
Mas a seguir ouvem-se vozes e exclamações: Com esse sendeiro é que ele nos vai levar? Mas tu, Micolca, estarás em teu perfeito juízo? Atrelar uma égua tão ordinária a uma chielega destas? E esse espantalho já deve ter os seus 20 anos bem puxados, meus amigos. Subam, que os levo a todos! Tornou-me couca gritando, e o cocheiro, que foi o primeiro a subir, tomou as rédeas na mão e ergueu-se em toda a sua estatura. O nosso cavalo baio levou o Matviéi, gritou já na tia Lega.
E esta éguazinha, meus amigos, só serve para me fazer sofrer. Mais valia matá-la, pois nem vale aquilo que come. Mas já disse, subam que eu já a faço andar, e há de ir depressa. E brandindo o chicote, disposte a açoitar o pobre animal com prazer. Subamos então, vamos! Riam os do grupo. Já sabem que há de correr a galope. Sim, deve haver pelo menos 10 anos que não dá uma corridinha. Vai dar agora! Não tenham pena dela, meus amigos.
Cada um pegue o seu chicote. Preparem-se. Bom, então arreiem-lhe. Todos sobem para a tia lega de Micoca com risos e gracejos. Subiram 6 homens e ainda havia lugar para mais. Levavam com eles uma mulher gorda e pintada. Vestia uma camisola de indiana vermelha, com um toucado de contas de vidro, botas pesadas nos pés e descascava nozes e ria. À sua volta, todos riam também, e de fato, o caso não era para menos. Pensar que aquele pobre animal ia puxar a galope um carro tão pesado!
Depois, dois dos moços que iam na Tielega brandiram os chicotes para ajudarem Micoca. Ouve-se um eiá! A éguazinha puxa com todas as suas forças, mas não vai a galope. Mal consegue mover-se a passo, limitando-se a agitar as patas, arranhar o solo e dobrar-se sob os golpes dos três chicotes, que caem sobre ela como uma saraivada. Os risos redobram na Tielega e fora dela. Mas Micouca enfurece-se e com violência descarrega golpes terríveis sobre a pobre égua, como se acreditasse verdadeiramente que poderia ir a galope.
Deixem-me subir a mim também, meus amigos! Grita entre a multidão um rapaz ao qual o espetáculo fez inveja. Sobe! Que subam todos! Grita Micouca. Levo-os a todos! Vou arrear-lhe! Bate e torna a bater. E já não sabe com o que há de fustigar o animal. Batiútica! Batiútica! grita ele para o pai. Batiútica! Que está ele fazendo? Matam a pobre égua, Batiútica! Vamos, vamos! diz o pai. Estão bêbados, não sabem o que fazem. Imbecis! Vamo-nos embora, não fiques aí olhando! e procura afastá-lo dali.
Mas ele solta-se da sua mão e, sem perceber o que faz, encaminha-se para o animal. Este já não pode mais. Arqueja, para, torna a puxar e está prestes a cair. Arreiem-lhe até que rebente! Grita Micouca. Já lhe falta pouco, espera! Mas tu és cristão ou não és, meu bruto? Grita um velho dentre o grupo. Onde é que se viu isso, um animalejo como esse puxar um carro desse tamanho? Acrescenta outro. Estás matando-a! Grita um terceiro.
Não te incomodes, é minha, posso fazer dela o que quiser. Subam, subam todos, hei de fazer com que parta a galope. De repente, ouve-se uma gargalhada geral que abafa a voz de Micouca. A pobre égua, sem suportar mais as brutais chicotadas e embora sem forças, pôs-se a dar coices para o ar. Até os mais velhos não se puderam conter e começaram a rir. De fato, Aquela égua, imprestável para qualquer serviço, ainda por cima se punha a dar coices.
Outros rapazes do grupo brandiram também os chicotes e dirigiram-se para o animal para lhe fustigarem as ilhargas. Correu cada um de seu lado. No focinho, nos olhos, deem-lhe nos olhos! Grita Micouca. Uma canção, meus amigos! Gritou um dos da tia Lega, e imediatamente Todos lhe fizeram coro. Ouviu-se uma canção indecente, repicou um tambor e todos acompanharam o estribilho com assobios. A mulher descascava nozes e ria. Ele se dirigiu correndo para o animal, avançou e pôde ver como batiam nos olhos do cavalo, nos próprios olhos.
Pôs-se a chorar, sentiu o coração oprimido e as lágrimas saltaram-lhe. Uma das chicotadas roçou-lhe pela cara, Mas ele nem assentiu. Erguia as mãos, gritava, voltava-se para o velho de cabelo e barba brancos, que abanava a cabeça condenando tudo aquilo. Uma mulher pegou-lhe por uma mão e quis levá-lo, mas ele escapou-se e correu de novo para junto do animalzinho, que estava já nas últimas, mas recomeçara a escoiciar para o ar.
Ah, diabo! gritava Mikolka furioso. Larga o chicote, torna a agachar-se e tira do fundo da tieliga um pau grosso e comprido. Segura-o pela ponta com as duas mãos e, com todas as suas forças, descarrega-o sobre a égua. Vai matá-la! Gritam à sua volta. Assim acaba matando-a! É minha! Gritou Micouca, e erguendo todo o braço, descarregou uma paulada sobre a égua. Dali, dali! Por que te detens? Gritou uma voz no meio daquela gente.
Mas Micouca arvorou outra vez o cajado e com todas as suas forças deu outro golpe no costado do infeliz animal, que se inclina todo para os quartos traseiros, mas dá um safanão e puxa, puxa com as suas últimas forças por todos os lados para arrastar o carro. Mas por todos os lados o atacam 6 chicotes E novamente o pau se ergue e cai pela terceira vez, e depois pela quarta, calculadamente, com toda a força do braço que o brande.
Micouca está furioso por vê-la sucumbir de um só golpe. É dura! Gritam à sua volta. Vai cair já, sem falta, meus amigos! Chegou a sua hora! Exclamou um entusiasta no meio do grupo. Com a machada, diabo! Acabemos com ela de uma vez! Gritou um terceiro. Vai para o diabo que te carregue! Afastem-se! Gritava Micouca furioso. Larga o pau, torna a agachar-se na tia Liga e tira uma alavanca de ferro. Cuidado! Grita, e com todas as suas forças deita outra pancada na sua pobre égua.
O golpe foi certeiro. O animalzinho cambaleia, recua, esforça-se ainda por puxar, mas a alavanca torna a cair sobre o seu dorso. E tomba então finalmente por terra, como se lhe tivessem desconjuntado as quatro extremidades de uma só vez. Até que enfim! exclamou Micouca, e fora de si salta da tieliega. Alguns rapazes, vermelhuscos e também embriagados, pegam o que encontram à mão, chicotes, paus, a tranca, e lançam-se sobre o animal moribundo.
Micouca está de pé ao seu lado e é já em vão que lhe bate com a alavanca no costado. O pobre animal estende o focinho, respira com dificuldade e morre. Rebentou! Gritam no grupo. Por que não se deitou ela, correndo a galope? Era minha! Grita Micouca com o pau na mão e os olhos injetados de sangue. Parece pesaroso por não poder continuar batendo em alguém. Sim, mas tu não és cristão. Gritam já no meio do grupo muitas vozes, mas o rapazinho lívido parece tresloucado.
Lançando um grito, abre caminho por entre a gente até a égua, pega-lhe no focinho morto, ensanguentado, e beija-o nos olhos e nos lábios. Depois, de repente, dá um salto e, arrebatado de furor, lança-se com os pequenos punhos cerrados contra Micouca. Nesse momento, O pai, que havia já algum tempo o procurava, encontra-o finalmente e tira-o do grupo. Vamos, vamos, diz-lhe. Vamos para casa. Batútica, por que é que eles mataram o cavalinho?
Soluça, e as palavras saem do seu peito opresso, transformadas em gritos. Estão embriagados, não sabem o que fazem. Isso não nos interessa. Vamo-nos, diz-lhe o pai, mas sente o peito oprimido. Esforça-se por ganhar coragem, dá um grito e desperta. Acordou banhado em suor, com os cabelos encharcados, arquejando, e endireitou-se na cama horrorizado. Louvado seja Deus, foi apenas um sonho! Exclamou, sentando-se ao pé de uma árvore e lançando um profundo suspiro.
Mas que é isto? Estarei com febre? Que sonho tão terrível! Parecia-lhe que tinha o corpo todo moído, a alma cheia de dor e negrura. Apoiou os cotovelos sobre os joelhos e segurou a cabeça com ambas as mãos. Meu Deus! exclamou. E se, e se eu pego de fato na machada, abro-lhe a cabeça e faço saltar os miolos? Escorregarei no sangue quente e viscoso, quebrarei a fechadura, roubarei e pormiei a tremer, escondermiei todo manchado de sangue com a machada.
Meu Deus, será possível? Tremia como a folha de uma árvore quando dizia isso. Mas que me aconteceu? Continuou a dizer, deixando-se cair outra vez e como se estivesse possuído de um assombro profundo. Eu bem sabia que não seria capaz de— Portanto, por que me tenho eu atormentado até agora? Ontem, ontem, Quando fui fazer aquela experiência, compreendi perfeitamente que não seria capaz. Mas por que é isto agora? Por que estivera na dúvida até aqui?
Ontem, quando descia a escada, eu próprio dizia que isto era vil, bárbaro. Reles, reles! Porque quando penso nisto em pleno dia, fico revoltado e assombrado. Não, não sou capaz, não sou capaz. Suponhamos, suponhamos mesmo que não haja dúvida alguma em todos estes cálculos, que tudo isto se resolva este mês e se torne claro como o dia, preciso como a aritmética. Meu Deus, pois nem ainda assim me decidiria. Não sirvo para isto, não sirvo.
Mas por que é que então, até agora— Levantou-se, olhou com espanto à sua volta, como se se admirasse de achar-se ali, e encaminhou-se para a Ponte de Tê. Estava pálido, ardiam-lhe os olhos, o cansaço tomara-lhe todos os membros. Mas de repente começou a respirar mais facilmente. Sentia que já tinha afugentado de si todo aquele tempo horrível que havia tanto o acabrunhava, e que a sua alma se sentiu leve e satisfeita. Senhor, implorava, mostra-me o meu caminho e eu libertar-me-ei desses malditos desvarios.
Quando atravessou a ponte, contemplou Nieva com um olhar suave e o radioso poente do sol belo e brilhante. Apesar da sua fraqueza, nem sequer sentia cansaço. Parecia-lhe que o tumor que trazia no coração, que andara a amadurecer durante um mês, lhe rebentara de repente. Liberdade! Liberdade! Agora estava livre daquele feitiço, daquele sortilégio, daquela sugestão. Mais tarde, ao recordar aquele tempo e tudo o que lhe aconteceu durante esses dias, detalhe por detalhe, ponto por ponto, traço por traço, havia sempre uma circunstância que o comovia supersticiosamente, embora, na realidade, não tivesse nada de extraordinário, mas que lhe surgia sempre como uma prefiguração do seu destino.
Era esta: nunca pôde compreender nem explicar a si próprio por que é que, esgotado, magoado, quando lhe teria convindo mais voltar à sua casa pelo caminho mais breve e direto, o fez pelo Mercado do Feno, pelo qual tinha de andar mais. A volta não era grande, mas completamente desnecessária. Não havia dúvida de que isso de regressar à casa sem se aperceber das ruas que percorria lhe acontecera já muitas vezes. Mas por quê? Perguntava ele sempre.
Por que é que aquele encontro tão importante e decisivo para ele, e ao mesmo tempo altamente fortuito, no feno, onde não tinha motivo nenhum para ir, se deu então e àquela hora, precisamente nesse momento da sua vida, exatamente naquela disposição de espírito e naquelas circunstâncias nas quais somente o referido fato podia produzir o efeito mais decisivo e definitivo sobre o seu destino. Parecia mesmo que estivera à sua espera.
Seriam quase 10 horas quando se dirigiu para o Feno. Todos os comerciantes de barracas, os vendedores ambulantes, armazéns e lojas ou encerravam os seus estabelecimentos ou recolhiam e juntavam as suas mercadorias e regressavam às suas casas, bem como seus fregueses. Em volta das tabernas subterrâneas, nos pátios sujos e hediondos das casas do mercado do feno, e sobretudo nas tabernas, apinhava-se grande número de mendigos esfarrapados de todo gênero.
A Raskólnikov agradavam-lhe sobre modo aqueles lugares, assim como as ruelas adjacentes, quando vagueava sem rumo pela cidade. Aí os seus farrapos não atraíam sobre si altiva atenção de ninguém, e era possível deambular com a cara que quisesse, sem provocar escândalo. Na própria travessa de cá, num canto, um comerciante e a mulher vendiam vários artigos em duas mesas: pano, galões, lencinhos de algodão, etc. Também eles voltavam já para casa, mas tinham parado para falar com uma amiga que passava.
A tal amiga era Lisaveta Ivanovna, ou simplesmente Lisavieta, como toda a gente a chamava, a irmã mais nova da própria velha, a Líona Ivanovna, a usurária em cuja casa Raskólnikov estivera na noite anterior, com o fim de deixar-lhe empenhado um relógio e fazer a sua experiência. Havia já algum tempo que ele sabia tudo quanto dizia respeito à tal Lisavieta, e ela também o conhecia um pouco. Era uma solteirona alta, desgraciosa, tímida e bonacheirona, quase idiota, de uns 35 anos, que vivia numa autêntica escravidão em casa da irmã, trabalhando ali dia e noite, tremendo na sua presença e até apanhando dela.
Naquele momento estava com um pacote na mão, pensativa, em frente do mercador e da mulher, escutando-os atentamente. Aqueles contavam-lhe qualquer coisa com entusiasmo. Quando Raskólnikov a viu, de repente, uma sensação estranha, parecida com o mais profundo assombro, se apoderou dele, apesar de aquele encontro não ter nada de espantoso. Capítulo 5. Pouco depois, Raskólnikov ficou sabendo, mais ou menos, o motivo que o comerciante e a mulher tinham para convidar Lisaveta à sua casa.
Tratava-se de uma coisa vulgar, que em si não tinha nada de especial. Uma família de fora da cidade, empobrecida, estava vendendo várias coisas: vestidos e outros objetos de mulher. Como não era vantajoso vendê-las a um negociante de usados, procuravam uma compradora particular. Lisa Vieta se ocupava disso, servia de intermediária, tratava de informações particulares e tinha uma boa clientela, pois era muito honesta e dizia sempre o preço final: é tanto.
E assim ficava. Costumava falar pouco e, como já dissemos, era além disso muito tímida e pacífica. Mas nos últimos tempos, Raskólnikov havia se tornado supersticioso. Muito tempo depois, ainda lhe ficaram marcas dessa superstição, marcas quase indeléveis. E em todo esse caso, inclinou-se sempre a ver algo de de estranho, de misterioso, algo semelhante à presença de certas influências e coincidências particulares. Nesse mesmo inverno, aconteceu que um estudante seu amigo, Pokoriev, que partia para Kharkov, lhe deu, durante uma conversa, o endereço da velha Alyona Ivanovna, para o caso de ele algum dia precisar empenhar alguma coisa.
Durante muito tempo ele não a procurou, porque dava lições e, de um jeito ou de outro, Sempre conseguia arranjar algum dinheiro. Mas, havia um mês e meio, lembrou-se do endereço que lhe tinham indicado. Tinha dois objetos bons para empenhar: o velho relógio de prata de seu pai e um anelzinho de ouro, com três pedras vermelhas, que a irmã lhe dera como lembrança na ocasião em que se despedira dele. Resolveu levar o anel. Quando se viu diante da velha, à primeira vista, ainda sem saber nada de particular sobre ela, sentiu uma antipatia invencível.
Aceitou dela as duas cautelas e, já de volta, entrou numa taberna ordinária. Pediu chá, sentou-se e ficou muito pensativo. Um pensamento estranho acabava de nascer em sua cabeça, como um pinto que sai do ovo, e isso o preocupava muito, muito. Quase ao seu lado, em outra mesinha, estava sentado um estudante que lhe era completamente desconhecido, do qual ele não tinha a mais vaga lembrança, e um oficial jovem. Tinham acabado de jogar bilhar e agora tomavam chá.
De repente, ouviu o estudante falar com o oficial a respeito da usurária Aliona Ivanovna, viúva de um assessor de colégio, e lhe dar o endereço dela. Aquilo, por si só, já pareceu bastante estranho a Raskólnikov. Acabara de vir de lá e agora, ali, ouvia também falar dela. Não havia dúvida de que era uma casualidade. Mas ele ainda não se libertara de uma impressão muito extraordinária, e eis que outra vinha agravá-la. O estudante, de repente, começou a contar ao companheiro vários pormenores sobre a tal Aliona Ivanovna.
É formidável, dizia ele. Ela tem sempre dinheiro pronto, é rica como um judeu, pode emprestar de uma só vez 5.000 rublos e não perdoa um kopeck de juros. Há muitos dos nossos que vão procurá-la, só que é uma criatura horrorosa. E começou a contar como ela era má e teimosa. Bastava uma pessoa se atrasar um dia para resgatar o penhor e ela já o considerava perdido. Dava a quarta parte do valor do objeto, mas cobrava 5% e até 6% de juros ao mês.
O estudante falava sem parar, e contou também ao amigo que a velha era pequena e franzina, mas que mesmo assim batia constantemente em Lisavieta, sua irmã, que vivia em autêntica servidão apesar de seus 6 pés de altura. É outro fenômeno! exclamou o estudante e começou a rir. Puseram-se a falar de Lisavieta. O estudante falava dela com certa satisfação pessoal, entre risos, e o oficial pediu-lhe mandasse a tal Lisaveta até ele para tratar de sua roupa branca.
Raskólnikov não perdia uma só palavra e assim ficou sabendo de tudo. Lisaveta era a irmã mais nova, irmã por parte de mãe da usurária, e já tinha 35 anos. Trabalhava na casa da irmã dia e noite, fazia o papel de cozinheira e lavadeira ao mesmo tempo. Além disso, costurava para fora e ia esfregar casas, entregando à irmã tudo quanto ganhava. Não se atrevia a aceitar nenhum encargo ou trabalho sem antes pedir autorização à velha.
A velha fizera testamento que a própria Elisavieta conhecia e no qual não lhe deixava nenhum grosche, apenas alguns móveis, umas tantas cadeiras e coisas semelhantes. Os bens legava-os a certo mosteiro na província de Agá para o eterno descanso de sua alma. Lisaveta pertencia à classe média e não à burocracia. Era solteira e terrivelmente desgraciosa de figura, muito alta, com pés enormes, um pouco voltados para dentro, sempre calçados com sapatos cambados, mas de boa qualidade.
O que mais fazia o estudante rir era o fato de Lisaveta andar quase sempre grávida. Mas você não disse que ela é um estranho?, observou o oficial. Sim, tem uma cor terrosa e parece um soldado disfarçado. Mas olha, ela não é completamente um monstro. Tem um rosto e uns olhos aproveitáveis, até bem bonitos. A prova é que há muitos que gostam dela. É tão caladinha, tão mansa, tão dócil e acomodada que se presta a tudo. E também tem uma maneira de sorrir muito simpática.
A propósito, ela também agrada a você, sorriu o oficial. Pela sua singularidade, mas não. Ouça onde eu quero chegar. Eu, essa maldita velha, era capaz de matá-la e roubá-la, e juro que não teria nenhuma ponta de remorso, acrescentou o estudante exaltado. O oficial tornou a rir. Raskólnikov teve um sobressalto. Que estranho era tudo aquilo! Dá licença que eu faça uma pergunta séria, disse o estudante, ainda um pouco exaltado. É claro que, há pouco, eu estava falando de brincadeira, mas veja: de um lado, uma velha estúpida, imbecil, inútil, má, doente, que não serve para nada e que, pelo contrário, prejudica todo mundo, que nem ela mesma sabe para que vive e que amanhã acabará morrendo fatalmente.
Entende? Entende? Sim, entendo, respondeu o oficial, olhando atentamente para o seu companheiro inflamado. Então continue me escutando. Do outro lado, energias jovens, frescas, que se gastam em vão, sem apoio, e isso aos milhares, em toda parte. Mil obras e boas iniciativas poderiam ser feitas com o dinheiro que essa velha deixa ao mosteiro. Centenas, Talvez milhares de existências conduzidas ao bom caminho, dezenas de famílias salvas da miséria, da dissolução, da ruína, da corrupção, dos hospitais venéreos.
E tudo isso com o dinheiro dela. Matá-la, tirar-lhe esse dinheiro, para depois consagrá-lo ao serviço de toda a humanidade e ao bem geral. Que lhe parece? A mancha de um único crime, insignificante, não ficaria apagada por milhares de boas ações? Por uma vida, mil vidas salvas da miséria e da ruína. Uma morte, mas em troca, mil vidas. É uma questão de aritmética. E o que pesa, nas balanças vulgares da vida, essa velha tísica, estúpida e má?
Não mais que a vida de um piolho, de uma barata. E talvez ainda menos, visto que se trata de uma velha malfazeja. Ela se alimenta da vida alheia. É má. Ainda há pouco tempo, mordeu de raiva um dedo de Lisavieta. Por pouco não o arrancou fora. Com certeza, ela não merece viver, observou o oficial. Mas a natureza é assim. Ah, meu amigo, sim, mas a natureza se melhora e se dirige. Sem isso, afundaríamos em preconceitos. Sem isso, não teria nascido nem um só grande homem, dizem.
O dever, a consciência, Eu não quero dizer nada contra o dever e a consciência, mas vamos ver se nos entendemos. Espere, vou lhe fazer outra pergunta. Ouça. Não, espere você, que agora sou eu quem vai perguntar. Escute. Está bem. Você, até agora, falou e discursou, mas diga-me: você mesmo mataria a velha ou não? Claro que não! Eu, segundo a justiça, mas isso não me diz respeito. Pois, no meu entender, se você mesmo não se decide, é inútil falar em justiça.
Vamos, venha jogar outra partida. Raskólnikov sentiu uma comoção extraordinária. Não havia dúvida de que tudo aquilo era do mais vulgar e frequente, e que ele já o vira mais de uma vez, apenas sob outras formas e a propósito de outros temas, em diálogos e raciocínios juvenis. Mas por que tinha de acontecer justamente agora, ouvir aquele diálogo e aquelas ideias. Agora, quando em sua cabeça começavam a germinar exatamente as mesmas ideias?
E, sobretudo, por que, agora que acabava de afastar da mente o pensamento da velha, tinha de ouvir um diálogo referente a ela? Aquela coincidência pareceu-lhe singular. Aquele insignificante diálogo de taberna exerceu uma influência extraordinária sobre ele no desenvolvimento posterior do acontecimento. Parecia que, de fato, havia em tudo aquilo um sinal, uma intimação. De volta do mercado do feno, deitou-se no divã e ficou ali uma hora inteira sentado, imóvel.
Enquanto isso, escureceu. Ele não tinha velas. Aliás, nem sequer lhe passou pela cabeça acender uma. Mais tarde, nunca conseguiu lembrar se estivera ou não pensando em alguma coisa durante esse tempo. Finalmente, tornou a sentir a febre noturna, os calafrios, e concluiu, com prazer, que o divã também podia servir-lhe de leito. Em breve, um sono pesado, de chumbo, abateu-se sobre ele. Dormiu durante um tempo anormalmente longo e sem sonhos.
Nastásia, que entrou no quarto no dia seguinte, às 8 horas, teve de despertá-lo à força. Trouxe-lhe chá e pão. O chá já havia fervido uma vez, e ela o trazia em sua chaleira particular. Isso é que se chama dormir! exclamou com desgosto. Para ele, tudo acaba sempre em dormir. Ele se ergueu a custo. Doía-lhe a cabeça. Levantou-se, deu uma volta pelo seu cubículo e tornou a cair sobre o divã. Dormindo outra vez? exclamou Nastásia.
Mas você está doente ou o que é que tem? Ele não respondeu. Não quer chá? Depois, respondeu ele com esforço. Tornou a fechar os olhos e virou-se de rosto para a parede. Nastásia inclinou-se sobre ele. Pode muito bem ser que esteja doente, disse. Depois deu meia volta e saiu. Voltou de novo às 2 horas, com a sopa. Ele continuava deitado como antes. O chá permanecia intocado. Nastásia zangou-se e começou a repreendê-lo, indignada.
Por que você está tão amodorrado? exclamou, olhando-o com antipatia. Ele se ergueu e sentou-se, mas sem lhe dizer nada, com os olhos fixos no chão. Mas você está doente ou não? Perguntou Nastásia. Também desta vez não obteve resposta. Devia sair, disse ela depois de um silêncio. O ar lhe fará bem. Vai almoçar ou não? Depois, respondeu ele debilmente: Vai embora. E agitou a mão. Ela tornou a inclinar-se um pouco, olhando-o com compaixão, e depois se retirou.
Passados alguns minutos, Ele ergueu a vista e ficou durante muito tempo olhando para o chá e para a sopa. Depois pegou o pão, segurou a colher e começou a comer. Comeu pouco, sem apetite, 3 ou 4 colheradas, maquinalmente. A cabeça doía-lhe menos. Depois de comer, tornou a estender-se no divã, imóvel, de bruços, com a cabeça enterrada na almofada. Tudo se transformava em devaneios, e esses devaneios não podiam ser mais estranhos.
O mais frequente era sonhar que estava em algum lugar da África, no Egito, em algum oásis. A caravana descansava à sombra, os camelos estavam deitados. Ao redor erguiam-se palmeiras, formando um círculo. Todos se preparavam para a refeição. Ele não fazia outra coisa senão beber a água diretamente da fonte que nascia e borbulhava ali mesmo, ao lado. E como refrescava aquela água maravilhosa, maravilhosamente azul, fria, que brotava por entre pedras multicoloridas e de um fundo de areia tão clara, com reflexos dourados!
De repente, ouviu soar distintamente um relógio. Estremeceu, tornou a si, ergueu a cabeça, olhou para a janela, calculou a hora e levantou-se de um salto, como se alguém o tivesse empurrado do divã. Encaminhou-se nas pontas dos pés para a porta, abriu-a devagar e pôs-se a escutar do lado da escada. O coração batia-lhe com força. Na escada, tudo estava silencioso, como se todos dormissem. E pareceu-lhe muito estranho e importante o fato de ter podido ficar amodorrado, naquela inconsciência, desde o dia anterior, sem ter feito nada, de modo que agora se encontrava desorientado.
Talvez já fossem 6 horas. Uma pressa enorme, febril e louca assaltou-o então. Depois do sono vinha o entorpecimento. No fim das contas, não precisava de grandes preparativos. Concentrou todas as suas forças no objetivo de pensar tudo bem e de não se esquecer de nada. O coração batia cada vez com mais violência e com tanta força que lhe dificultava a respiração. Devia começar por fazer um nó corredio e costurá-lo ao casaco, o que era coisa de minutos.
Tateou com a mão debaixo da almofada e encontrou, entre a roupa branca que ali havia, uma camisa velha, suja, que era um verdadeiro trapo. Arrancou dela uma tira de uns 5 centímetros de largura por 36 de comprimento. Dobrou essa tira, foi buscar um amplo e forte casaco de verão, de pano de lã grossa, o seu único sobretudo, e pôs-se a costurar as duas pontas da tira por dentro, debaixo da axila esquerda. As mãos tremiam enquanto segurava a agulha, mas dominou-se e costurou as pontas da tira de tal modo que por fora ninguém poderia notar nada quando ele vestisse o casaco.
Arranjara com muita antecedência a agulha e a linha, que guardava embrulhadas num papel dentro da mesinha. O nó era invenção sua, bastante engenhosa, e destinava-se ao machado. Não se podia ir pela rua com o machado na mão, e se o levasse debaixo do casaco, teria de segurá-lo com a mão, o que também poderia chamar atenção. Mas assim, bastava meter o machado naquele nó e levá-lo pendurado debaixo da axila durante todo o caminho, e, metendo a mão no bolso lateral do casaco, podia segurar também a extremidade do cabo do machado, para que ele não balançasse.
Como aquele casaco era muito folgado, um verdadeiro saco, ninguém poderia imaginar que ele estivesse segurando alguma coisa com a mão enfiada no bolso. Imaginar aquele nó já havia 2 semanas. Assim que resolveu o caso do nó, meteu os dedos numa pequena fenda que havia entre o divã e o chão, rebuscou no canto da esquerda e tirou o penhor, preparado e escondido ali havia muito tempo. Na verdade, esse penhor não era mais do que um pedaço de madeira liso, com as dimensões e a espessura de uma cigarreira.
Encontrara essa tabuinha por acaso, num de seus passeios pelo pátio, onde havia uma oficina em um anexo. Depois, colocou sobre a tabuinha uma lâmina fina e lisa de ferro, provavelmente resto de alguma coisa quebrada, que também encontrara na rua. Unira e amarrara fortemente as duas coisas com um cordel cruzado. Depois, embrulhara tudo, com muito cuidado e esmero. Num simples papel branco, e apertara tanto que seria impossível abri-lo à primeira tentativa.
Fizera isso para entreter por um momento a atenção da velha quando ela se pusesse a desfazer o embrulho, e assim aproveitar a ocasião. Tinha posto ali a lâmina de ferro para fazer peso, a fim de que a velha não adivinhasse de imediato que o objeto era de madeira. Guardava tudo isso havia muito tempo debaixo do divã. Mal acabara de tirar o objeto, quando de repente ouviu-se no pátio este grito: Já deram 7 há muito tempo! Há muito tempo?
Meu Deus! Correu para a porta, pôs-se à escuta, pegou o chapéu e começou a descer seus 13 degraus devagarinho, suavemente, como um gato. Restava-lhe fazer o mais importante: roubar o machado na cozinha. Que a coisa devia ser feita com um machado, Havia já algum tempo que ele decidira. Tinha também um canivete de jardineiro, de mola, mas na faca, e sobretudo em suas próprias forças, não confiava. Por isso, optara definitivamente pelo machado.
Observemos, de passagem, uma particularidade a respeito de todas estas resoluções definitivas que ele já havia adotado sobre o assunto. Possuíam uma propriedade estranha. Quanto mais definitivas, mais monstruosas e absurdas lhe pareciam depois. Apesar de toda a dolorosa luta interior, nunca, nem por um instante, chegou a acreditar realmente na realização de seus projetos durante todo esse tempo. E se tivesse acontecido de tudo já estar previsto e definitivamente resolvido, até nos mínimos detalhes, sem mais lugar para dúvida nenhuma, Ainda então, teria desistido de tudo definitivamente, como de uma estupidez, um absurdo, uma coisa impossível.
Mas no que dizia respeito aos pontos não resolvidos, restava-lhe ainda uma quantidade imensa de dúvidas. Quanto ao lugar onde deveria arranjar o machado, esse pormenor não o preocupava absolutamente nada, pois não havia coisa mais fácil. De fato, Nastásia, sobretudo à noite, quase nunca parava em casa. Ou ia para junto das vizinhas, ou ia à loja, e a porta ficava sempre escancarada. A dona da casa vivia ralhando com ela justamente por causa disso.
Portanto, quando chegasse o momento, não havia mais nada a fazer senão entrar devagarinho e pegar o machado. Depois, passada uma hora, quando tudo já estivesse consumado, bastaria recolocá-lo em seu lugar. Mas também aqui surgiam algumas dúvidas. Suponhamos que ele voltasse uma hora depois para colocá-lo de novo no lugar, e Nastásia tivesse voltado nesse meio tempo. Não havia dúvida de que teria de passar direto e esperar que ela saísse outra vez.
Mas se durante esse tempo ela precisasse do machado e começasse a procurá-lo e a gritar, surgiriam imediatamente suspeitas. Ou, pelo menos, haveria motivo para suspeitar. Mas isso eram detalhes nos quais ele nem sequer queria pensar. Além disso, também não tinha tempo. Pensava no principal e adiava os pormenores para quando estivesse completamente decidido. Mas isso lhe parecia definitivamente irrealizável. Pelo menos, era o que lhe parecia.
Nunca pôde imaginar que algum dia chegaria a deixar de pensar. Se levantaria e, simplesmente, iria até lá. Até aquela sua experiência recente, isto é, aquela visita feita com a intenção de inspecionar definitivamente o local, ele fizera apenas para experimentar, mas não a sério. Fora apenas como quem diz: vamos até lá, diabos, irei e experimentarei, já que se trata apenas de uma fantasia. E não conseguira aceitar a ideia. Cuspiu e saiu correndo, indignado consigo mesmo.
No entanto, parecia-lhe que, do ponto de vista moral, a questão podia ser considerada resolvida. Sua casuística era afiada como uma navalha e ele não encontrava nenhuma objeção em sua consciência. Apesar disso, não queria acreditar em si próprio e procurava, com uma teimosia assassina, objeções exteriores, por tentativas, como se alguém o obrigasse e o puxasse para aquele lado. O dia anterior, tão rico em elementos inesperados quanto decisivos, atuara sobre ele de maneira mecânica.
Era como se alguém lhe tivesse pegado pela mão e o tivesse obrigado a seguir irrevogavelmente, cegamente, com uma força sobrenatural, sem que ele pudesse opor a menor objeção. Poder-se-ia dizer que deixara prender a ponta da roupa numa roda de engrenagem que começava a puxá-lo. Em primeiro lugar, já pensara nisso, preocupava-o sobretudo uma questão: por que quase todos os crimes se descobrem tão facilmente? E por que se encontram tão facilmente as provas de quase todos os assassinatos?
Pouco a pouco, chegou a conclusões tão variadas quanto curiosas. A seu ver, o motivo principal não estava tanto na impossibilidade natural de ocultar o crime, mas no próprio criminoso. Todos os criminosos, sejam eles quais forem, experimentam, no momento de cometer o crime, uma espécie de enfraquecimento da vontade e do raciocínio. Esse estado vem a ser substituído depois por um atordoamento extraordinário e pueril, precisamente no momento em que mais necessárias seriam a razão e a prudência.
Esse eclipse do raciocínio, esse desfalecimento da vontade, segundo Raskólnikov, apodera-se do homem à maneira de uma doença. Desenvolvendo-se progressivamente e alcançando o seu máximo de intensidade momentos antes do cometimento do crime. Persiste durante a execução deste e por algum tempo depois, conforme os indivíduos, acabando por desaparecer como qualquer outra doença. O problema estava em saber se é a doença que gera o crime ou se o próprio crime, por sua natureza, é sempre acompanhado de certo gênero de doença.
Mas essa era uma questão que ele não sentia capaz de resolver. Quando chegou a essas deduções, decidiu que, no que dizia respeito a ele, pessoalmente, e ao seu projeto, não era possível que se produzissem semelhantes colapsos morais, pois nem a sua razão, nem a sua vontade, haveriam de abandoná-lo durante toda a execução da empresa, unicamente pela razão de que aquilo que se propunha a realizar não era um crime. Prescindimos do processo pelo qual chegou a essa resolução suprema, pois já nos adiantamos sobre os acontecimentos.
Acrescentemos apenas que as dificuldades práticas, de ordem puramente material, do assunto, não assumiam em seu espírito senão uma importância completamente secundária. Basta que eu conserve o domínio da minha vontade e da minha razão para que, chegando o momento, fiquem vencidas todas essas dificuldades, quando se tratar de cuidar dos pormenores mais insignificantes do meu plano. Mas a execução de seu desígnio ia sendo adiada.
Cada vez tinha menos fé na possibilidade de suas resoluções assumirem um caráter definitivo. E chegada a hora, os acontecimentos tomaram um rumo completamente diferente, imprevisto, para não dizer inesperado. Uma circunstância das mais vulgares colocou-o num beco sem saída, ainda antes dele chegar ao fim da escada. Quando chegou ao patamar da cozinha, cuja porta estava, como sempre, escancarada, lançou um olhar de canto para se certificar previamente de uma coisa: a ausência de Nastácia.
E a senhoria também não estaria ali? Teria a porta de seu quarto bem fechada? Não poderia vê-lo quando entrasse para pegar o machado? Mas qual não foi o seu espanto ao perceber, de repente, que Nastácia estava na cozinha e, além disso, trabalhando, ocupada em tirar roupa branca de uma cesta e estendê-la sobre cordas. Quando o viu, ela suspendeu a tarefa, voltou-se para olhá-lo, e assim ficou até ele se afastar. Ele desviou os olhos, como se não tivesse reparado em nada.
Mas o assunto estava encerrado. Não havia machado. Ficou desolado. Por que eu concluí, disse para si mesmo, ao atravessar a porta de serviço, por que concluí que precisamente neste momento ela devia estar ausente? Por quê? Por que eu decidi isso com tanta certeza? Sentiu vontade de rir de si próprio, tamanha era sua indignação. Sentia por dentro uma raiva estúpida e bestial. Parou à porta de serviço, indeciso. Sair apenas por sair, para disfarçar, repugnava-lhe.
Mas voltar para o quarto lhe repugnava ainda mais. Perdi para sempre uma bela oportunidade, resmungou. De pé e voltado, sem a menor intenção, para o escuro cubículo do porteiro, que também estava aberto. De repente, todo o seu corpo estremeceu. Na portaria, a dois passos dali, sobre o banco da direita, acabara de ver brilhar alguma coisa. Olhou ao redor. Ninguém. Aproximou-se do cubículo nas pontas dos pés, desceu os degraus e chamou.
Pronto, não está em casa. Embora, no entanto, não deva estar muito longe. Já que deixou a porta escancarada. De um salto, lançou-se sobre o machado— era realmente um machado— e tirou-o de baixo do banco, onde repousava entre dois pedaços de lenha. Em seguida, sem ter ainda saído da portaria, enfiou-o no nó-corredio, pôs as mãos nos bolsos e afastou-se. Ninguém o tinha visto. Quando a inteligência fala, o diabo ajuda, pensou com um sorriso estranho.
O acaso que acabava de se apresentar chegou a provocar-lhe dores no ventre. Saiu para a rua devagar, com ar indiferente, sem se apressar, com medo de levantar suspeitas. Nem sequer olhava para os transeuntes. Esforçava-se, inclusive, para não fixar a vista em ninguém, a fim de passar o mais despercebido possível. Nesse momento, tornou a lembrar-se do chapéu. Meu Deus, pensar que anteontem eu tinha dinheiro, E em vez disso não comprei antes um gorro, praguejou intimamente.
Deu uma olhadela para o interior de uma loja e viu que já eram 7:10. Tinha que andar depressa e, ao mesmo tempo, fazer uma volta. O melhor era entrar pelo outro lado, pela porta dos fundos. Antes, quando imaginava tudo aquilo, pensava que deveria estar muito excitado, mas agora não estava absolutamente nada. O que o ocupava naquele momento eram pensamentos estranhos, e não por muito tempo. Enquanto rodeava o parque, Yusupovski interessou-se muito pela ideia de que deveriam construir algumas fontes que refrescassem deliciosamente o ar em volta das praças públicas.
Depois, pouco a pouco, chegou à convicção de que a ampliação do Jardim de Verão até o Campo de Marte e sua reunião com o jardim do Palácio Mikhailovsky constituiriam uma inovação tão agradável quanto útil para Petersburgo. E, a propósito disso, perguntou a si mesmo por que, em todas as grandes cidades, as pessoas preferem, menos por necessidade do que por gosto, viver justamente naqueles bairros onde não há jardins nem fontes, mas apenas lixo, mau cheiro e onde a sujeira reina como dona e senhora.
Lembrou-se então do passeio pelo mercado do feno. E, por um instante, percebeu sua situação atual. Que estupidez, disse. Não, é melhor não pensar nisso. Deve ser assim, com certeza, que os indivíduos levados ao patíbulo se agarram, com o pensamento, a todos os objetos que encontram pelo caminho. Essa ideia atravessou sua mente como um relâmpago, mas ele se apressou em afastá-la. E, entretanto, Elo já muito próximo, Eis a casa, e ali a porta.
Não se sabe onde, ouviu-se um relógio. O quê? Já serão 7:30? É impossível, com certeza esse relógio está adiantado. Mas a sorte lhe foi favorável quando entrava. Como de propósito, uma enorme carroça de feno entrava precisamente diante dele, pela porta cocheira, ocultando-o completamente no momento em que ele a atravessava. Assim, mal a carroça entrou no pátio, ele já se escapulia para a direita. Uma vez ali, ouviu, do outro lado da carroça, várias vozes que gritavam e discutiam.
Mas ninguém o vira, com ninguém se encontrara. Algumas janelas que davam para aquele imenso pátio quadrado estavam abertas naquela hora, mas ele não levantou a cabeça, pois não tinha coragem para isso. A escada que conduzia ao andar da velha ficava mesmo ao lado da porta da direita. Ele já se encontrava na escada. Contendo a respiração e comprimindo com a mão as batidas do coração, ao mesmo tempo que apalpava o machado e o endireitava uma vez mais, começou a subir os degraus suavemente, com muito cuidado, apurando o ouvido a todo instante.
Mas a escada estava completamente deserta naquele momento. Todas as portas estavam fechadas. Não encontrou ninguém. É certo que no segundo andar havia um quarto para alugar, onde trabalhavam alguns pintores, mas eles não repararam nele. Parou um momento, reconsiderou e continuou a subir. É verdade, seria melhor que não estivessem aí, mas acima deles há mais andares. Agora já ia ao quarto andar. Ali estava a porta, em frente. O andar estava deserto.
No terceiro andar, abaixo do da velha, o mais provável era que também não houvesse ninguém. Tinham tapado o cartão de visita que estava fixado à porta, e isso era sinal de que os inquilinos se haviam mudado. Ele sufocava. Por um momento, uma ideia atravessou o seu pensamento: não seria melhor ir embora? Mas, sem responder a essa pergunta, pôs-se a escutar junto ao quarto da velha. Reinava ali um silêncio de morte. Apurou ainda o ouvido no alto da escada e escutou atentamente durante muito tempo.
Depois lançou uma última olhada ao redor e endireitou novamente o cabo do machado. Não estarei pálido demais?, pensou, excessivamente comovido. Não seria melhor esperar que o meu coração se acalmasse? Mas o coração não se acalmava. Pelo contrário, como se fosse de propósito, palpitava cada vez com mais força. Não pôde conter-se mais. Lentamente, estendeu a mão até o cordão da campainha e puxou. Deixou passar meio minuto e tornou a chamar, agora com um pouco mais de força.
Nenhuma resposta. Para que tornar a chamar? Tal insistência não seria oportuna. Com certeza a velha estava em casa, e se estivesse estivesse sozinha naquela ocasião, certamente sentiria mais receio. Ele conhecia, em parte, os costumes de Aliona Ivanovna e tornou a encostar o ouvido à porta. Seria que seus sentidos se haviam aguçado extraordinariamente, coisa difícil de admitir, ou aquele ruído era de fato tão perceptível? Fosse como fosse, percebeu de repente o roçar de uma mão sobre o ferrolho da fechadura, ao mesmo tempo que o roçar de um vestido contra a almofada da porta.
Alguém invisível estava ali por detrás, escutando como ele, esforçando-se por dissimular sua presença lá dentro, e segundo parecia, também com a orelha colada à porta. Ele se mexeu de propósito e resmungou em voz alta para que não parecesse estar se escondendo. Depois tornou a chamar pela terceira vez, mas devagarinho, suavemente e sem a menor demonstração de impaciência. Mais tarde, recordaria aquele momento com toda a exatidão, tal foi a maneira como ele ficou fielmente gravado em sua memória.
Nunca chegou a compreender como foi capaz de empregar tanta astúcia naquela ocasião, pois houve momentos em que seu raciocínio se nublou e em que ele mal sentia o próprio corpo. Passado um pequeno momento, percebeu que puxavam o ferrolho. Capítulo 7º: Crime e Castigo. Como das outras vezes, a porta abriu-se devagarinho e, de novo, dois olhos penetrantes e receosos pousaram sobre ele, olhando do fundo da escuridão. Nesse momento, Raskólnikov perdeu o sangue frio e esteve quase a deitar tudo a perder por sua culpa.
Receando que a velha se assustasse por se encontrar sozinha com ele e não acreditando que a sua cara e o seu aspecto fossem próprios para tranquilizá-la, segurou a porta e puxou-a atrás de si, para que a velha não caísse na tentação de tornar a fechá-la. Por seu lado, ela não puxou a porta, mas também não a largou, de maneira que por um pouco não se arrasta, juntamente com a porta, até o patamar. Quando viu que a velha continuava no umbral, estorvando-lhe a entrada, caminhou direito a ela.
Muito admirada, deu um pulo para trás, quis dizer qualquer coisa, mas não conseguiu, e ficou olhando com os olhos muito abertos. Boa noite, Aliona Ivanovna, começou com o ar mais indiferente, mas com uma voz que já não lhe obedecia, entrecortada e tremente. Trago-lhe um penhor, mas entremos, vamos para a luz. E empurrando-a com um gesto brusco, entrou no quarto sem que ela o tivesse convidado. A velha correu atrás dele e começou a dar a língua.
Meu Deus, mas que deseja o senhor? Quem é o senhor? O que quer? Repare, Aliona Ivanovna, sou seu amigo Raskólnikov. Ouça, trago-lhe o penhor de que lhe falava ultimamente. E estendeu-lhe o penhor. A velha ia para examiná-lo, mas tornou a fixar mais uma vez os seus olhos nos do intruso. Contemplava-o atentamente, com uma expressão maliciosa e receosa. Passou um minuto E ele julgou até perceber no olhar da velha qualquer coisa de irônico, como se ela tivesse já adivinhado tudo.
Sentiu que perdia a cabeça, que tinha quase medo, e que, se o mutismo da velha se prolongasse meio minuto mais, acabaria por fugir. Mas por que me olha tanto como se não me conhecesse?, disse ele também de repente com malícia. Aceite-o se quiser, senão vou a outro lugar. Não posso perder tempo. Disse essas palavras sem as ter pensado, como se lhe tivessem escapado de repente. A velha reconsiderou, era evidente que o tom resoluto do visitante a animava.
Mas, meu amigo, por que há de isto ser assim, tão de repente? Que é isso? Perguntou, olhando para o objeto. Uma cigarreira de prata. Vamos, já lhe falei dela da última vez que cá estive. A velha estendeu a mão. O senhor está tão pálido e tem as mãos trêmulas. Estará doente, não? Tenho febre, respondeu com uma voz convulsionada. Como é que não se há de estar pálido quando não se come? Acrescentou com muito custo. As forças tornavam a faltar-lhe, mas a resposta parecia verossímil.
A velha pegou o objeto. Que é isto? Perguntou, olhando outra vez de alto a baixo para Raskolnikov e sopesando o objeto na mão. Pois esse objeto, a cigarreira, de prata, mas veja... nem parece prata, vem muito bem embrulhada. Enquanto se esforçava por desfazer o embrulhinho, aproximou-se da janela para ver melhor. Tinha as janelas todas fechadas, apesar do calor sufocante. E, por um momento, afastou-se de Raskólnikov, ficando de costas voltadas.
Ele desabotoou o paletó e tirou o machado do nó-corredio, mas, sem o tirar completamente, limitou-se a segurá-lo com a mão direita por debaixo da roupa. Sentiu uma grande fraqueza nos braços, que lhe entumeciam de minuto a minuto, e que se tornavam pesados como chumbo. Tinha medo de deixar cair o machado. De repente, pareceu-lhe que a cabeça lhe voava. Mas que ideia fazer um embrulho desta maneira? exclamou a velha, esboçando um movimento para Raskólnikov.
Não havia um momento a perder. Tirou completamente o machado debaixo do casaco, brandiu-o com as duas mãos, sem se aperceber do que fazia, e, quase sem esforço, com um gesto maquinal, deixou-o cair sobre a cabeça da velha. Estava esgotado. Contudo, mal acabara de dar o golpe e lhe voltaram as forças. Como sempre, a velha estava de cabeça nua. Os seus escassos cabelos brancos, disseminados e distantes, gordurosos e oleosos, também estavam, como sempre, entrançados em forma de rabo de rato e presos por um dente de pente, formando carrapito sobre a nuca.
Deu-lhe o golpe precisamente na saliência do crânio, para o que contribuiu a baixa estatura da vítima. Continuava ainda segurando o objeto de penhor numa das mãos. A seguir, feriu-a pela segunda e pela terceira vez, sempre na saliência do crânio. O sangue brotou como de um copo entornado e o corpo tombou para frente sobre o chão. Ele se deitou para trás para facilitar a queda e inclinou-se sobre o rosto da velha. Estava morta.
As pupilas dos olhos, dilatadas, pareciam querer saltar-lhe das órbitas. A fronte e o rosto contorciam-se nas convulsões da agonia. Deixou o machado no chão, ao lado da morta, e começou imediatamente a revistar-lhe os bolsos, procurando não manchar as mãos no sangue que jorrava. Começou pelo bolso da direita, aquele de onde ela tirara as chaves da última vez. Conservava toda a sua lucidez de espírito e já não sentia náuseas nem vertigens, apenas as mãos lhe tremiam ainda.
Mais tarde havia de recordar a maneira sensata e prudente como se conduzira, como tivera o cuidado de não se manchar. Tirou as chaves, tal como antes estavam todas juntas num molho por meio de um só aro de aço. Assim que as teve em seu poder, dirigiu-se correndo para o quarto. Era um cubículo pequenino, no qual havia uma redoma grande cheia de imagens e de santos. Em frente, encostada à parede, via-se uma grande cama, muito boa, com uma manta de seda acolchoada, de algodão, feita de retalhos.
A cômoda estava no terceiro lado do quarto. Coisa estranha, ainda mal metera as chaves na fechadura desse móvel, Apenas sentir o rangido do ferro, quando uma espécie de calafrio o percorreu todo. Sentiu novamente vontade de deixar tudo aquilo e de escapulir-se. Mas isso durou apenas um momento, pois era já demasiado tarde para sair. Já estava a rir-se de si próprio quando, de repente, outra ideia inquietante o assaltou. Lembrou-se de que podia suceder perfeitamente que a velha estivesse ainda viva e voltasse a si.
Deixando as chaves e a cômoda, correu para lá, para junto do cadáver, e levantou outra vez o machado sobre a velha, mas não a golpeou. Não havia dúvida de que estava morta. Agachando-se e contemplando-a outra vez de perto, ficou convencido de que tinha o crânio partido e até um pouco torcido. Sentiu vontade de apalpá-lo com o dedo, mas retirou a mão. Era evidente que não tinha necessidade nenhuma disso. Entretanto, o sangue formara já um charco sobre o chão.
De repente, reparou que ela trazia um cordãozinho ao pescoço e puxou por ele, mas o cordão era forte e não se partiu. Além disso, estava empapado em sangue. Experimentou então tirá-lo por debaixo do peito, mas havia qualquer coisa que o estorvava. Cheio de impaciência, ia já atirar outra vez o machado com o fim de cortar o cordão sobre o corpo, mas não se atreveu, e com grande trabalho, manchando as mãos e o machado de sangue, depois de 2 minutos de esforço, partiu o cordão sem tocar com o machado no cadáver, e tirou-lhe, não se enganara, uma bolsinha.
Do cordão pendiam duas cruzes, uma de madeira de cipreste, e a outra de cobre, e além disso, uma pequena imagem de esmalte. E juntamente com elas, havia um porta-moedas gorduroso, besuntado, de pele de gamo e com fecho de aço. O porta-moedas estava cheio. Raskólnikov guardou-o no bolso sem o examinar. Pôs as cruzes ao peito da velha e, pegando outra vez o machado, voltou de novo para o quarto. Apressou-se terrivelmente. Pegou as chaves e de novo voltou a servir-se delas.
Mas tudo parecia inútil, não acertava bem na fechadura. Não que as mãos lhe tremessem, mas porque se enganasse sempre, e embora visse que não era aquela a chave que não entrava bem, persistia. De repente, recordou-se e compreendeu que aquela chave grande, com o paletão denteado, que estava ali entre outras chaves menores, não devia ser a da cômoda, sem dúvida alguma, mas a de algum cofre, e que talvez fosse nesse cofre que tudo estivesse escondido.
Abandonou a cômoda e meteu-se imediatamente debaixo da cama, por saber que, geralmente, as velhas guardam os cofres debaixo da cama. De fato assim era. Encontrou aí uma grande arca, forrada de couro vermelho e preguiada com pregos de aço. A chave denteada entrou a primeira vez e abriu-a logo. Na parte de cima, por debaixo de um pano branco, havia uma peliça curta, de lebre, com guarnições vermelhas, e debaixo dela, um vestido de seda, sobre um xale, e depois, no fundo, segundo parecia, só havia trapos.
Começou por limpar as mãos manchadas de sangue sobre a guarnição vermelha. Como é vermelha, o sangue não se notará sobre ela. Mas de repente, caiu em si. Meu Deus, teria eu perdido o juízo?, pensou assustado. Mas mal acabara de remexer aqueles trapos, debaixo da samarra, escorregou um relógio de ouro. Apressou-se a esvaziar o conteúdo do cofre. De fato, entre aqueles trapos havia objetos de ouro escondidos, provavelmente todos eles empenhados, resgatados e por resgatar: pulseiras, brincos, alfinetes de gravata e outros.
Alguns guardados nos seus estojos, outros simplesmente embrulhados em papel de jornal. O medo apoderava-se dele cada vez com mais força, sobretudo depois deste segundo homicídio, completamente inesperado. Estava ansioso por ver-se longe dali o mais depressa possível. E se nesse momento tivesse estado em condições de poder ver e considerar, se tivesse pelo menos podido imaginar todas as dificuldades da sua situação, toda a sua desolação, toda a sua vileza e toda a sua estupidez, pensar nisso e também nos obstáculos que teria de vencer para sair dali e voltar para sua casa, poderia muito bem ter se dado o caso de que abandonasse tudo e e fosse ele sozinho correr e denunciar-se, não por medo, mas unicamente por horror e aversão ao que fizera.
A repugnância, sobretudo, surgia e crescia nele a cada momento. Por nada deste mundo se teria agora aproximado da arca, nem sequer da sala. Mas começou logo a apoderar-se dele uma certa abstração, uma espécie de ensimesmamento. De vez em quando, Parecia esquecer-se de tudo, ou, para melhor dizer, esquecia-se do principal, para atentar só a insignificâncias. Aliás, ao ver na cozinha um balde meio cheio de água em cima dum banco, pensou lavar aí as mãos e o machado.
Tinha as mãos ensanguentadas e viscosas. Primeiro deixou cair o machado a prumo dentro da água, pegou um pedaço de sabão que estava na janela, num prato esbeiçado, e pôs-se a lavar as mãos no mesmo balde. Depois de as ter lavado, tirou o machado, limpou o aço e ficou lavando o cabo durante muito tempo, por 2 ou 3 minutos, nas partes em que estava ensanguentado, servindo-se também do sabão. Depois limpou tudo muito bem num pano branco que estava pendurado numa corda estendida através da cozinha, e em seguida pôs-se a observar o machado, vagarosa e atentamente, junto da janela.
Já não tinha vestígios, mas o cabo ainda estava úmido. Com muito cuidado, pendurou o machado no nó, por debaixo do sobretudo. Uma vez feita essa operação, e até onde lhe o consentia a luz da cozinha escura, remirou o sobretudo, a calça e as botas. Por fora, à simples vista, não se notava nada. Só nas botas é que havia manchas. Pegou um trapo e limpou as botas. Mas apesar disso, pensava ainda que podia não ter reparado bem, que podia haver qualquer coisa que saltasse aos olhos, e que ele, no entanto, não notasse.
Estava parado e meditando, no meio do quarto. Dolorosos, tenebrosos pensamentos lhe atravessavam a mente. A ideia de que estava louco, e de que naquele instante não tinha forças para discernir-se nem defender-se, e que talvez não fosse preciso fazer o que fazia. Meu Deus, preciso mais é fugir, murmurou e correu para o corredor. Mas aí aguardava uma das maiores surpresas da sua vida. Parou, olhou e não queria acreditar naquilo que os seus olhos viam.
A porta, a porta exterior e que dava para a escada, a mesma em que batera e pela qual entrara, estava entreaberta. Nem sequer fechada à chave, nem sequer corrido o fecho, durante todo aquele tempo. A velha não a fechara atrás de si, talvez por precaução. Mas, santo Deus! Não tinha Elizabeth entrado por ela? E como foi possível ter ele adivinhado que ela por alguma parte devia ter entrado? Mas evidentemente, com certeza que não entrara pelas paredes.
Dirigiu-se para a porta e correu o trinco dela. Mas não, isto também não. O que eu tenho a fazer é ir-me embora, ir-me embora. Correu o fecho, entreabriu a porta e pôs-se a escutar do lado da escada. Ficou escutando por muito tempo. Augures, certamente, lá embaixo gritaram com força por duas vezes. Deviam estar brigando e ralhando. Quem seria? Esperou pacientemente. Por fim, repentinamente, Tudo ficou em silêncio, já se tinham retirado.
Ele se dispôs também a sair, mas de repente, no andar de baixo, abriu-se com estrépito uma porta que dava para a escada, e alguém começou a descer os degraus entoando uma cançoneta. O barulho que fazem, pensou. Tornou a fechar atrás de si e esperou. Finalmente, tudo ficou silencioso, nem viva alma. Já tinha dado um passo na escada, quando, de repente, se sentiram novas passadas. Soavam muito longe essas passadas, mesmo no princípio da escada.
Mas ele compreendeu logo, desde o princípio do ruído, quando começou a suspeitar de alguma coisa, que se dirigiam infalivelmente para ali, para o quarto andar, para a casa da velha. Por quê? Seriam assim tão especiais e significativas aquelas passadas? Eram pesadas, certas, calmas. E ele vinha já no primeiro andar e continuava subindo. Cada vez se ouvia melhor, cada vez se ouvia melhor. Sentia-se a respiração pesada do visitante.
Começava já a subir o lance do terceiro andar. Ah, e de súbito pareceu-lhe que ficava petrificado, como se aquilo fosse um sonho daqueles em que nos atacam de perto e nos querem matar, e parece que estamos pregados ao chão e que nem um braço podemos mexer. Até que finalmente, quando o visitante estava já prestes a chegar ao 4º andar, ele estremeceu todo, de repente, e então recuou rápida e destramente do patamar e fechou a porta atrás de si.
Depois, pegou no trinco e correu-o devagarinho, sem fazer barulho. Valeu-lhe o instinto. Depois de ter feito isso, escondeu-se sem respirar, acocorando-se junto da porta. O visitante desconhecido já ali estava. Encontravam-se agora os dois, um perto do outro, como ele estivera antes em relação à velha, quando a porta os separava e escutava de ouvido alerta. O visitante respirou várias vezes afanosamente. Deve ser gordo e alto.
De fato, tudo aquilo parecia um pesadelo. O visitante puxou pela campainha e chamou com força. Ainda mal o som fraco da campainha soara, ele pareceu, de súbito, que alguém se movia na sala. Ficou escutando atento durante uns segundos. O desconhecido tornou a chamar, esperou um momentinho e, de repente, impaciente, pôs-se a sacudir o puxador da porta com todas as suas forças. Raskolnikov via com espanto o trinco saltar na corrediça e esperava com um medo estúpido que ele corresse, sozinho, de um momento para o outro.
De fato, isso parecia possível, tal era a maneira como balançavam a porta. Lembrou-se de segurar o fecho com a mão, mas o outro podia adivinhar. Sentia que perdia a cabeça, que ela lhe andava às voltas, como antes. Estou encurralado, pensou, mas o desconhecido começou a falar e ele reanimou-se imediatamente. Mas estarão elas dormindo? Ou tê-las-iam morto. Malditas! Exclamou como no fundo de um poço. É, Aliona Ivanovna, velha bruxa!
Lisavieta Ivanovna, beldade sem par! Abram! Mas vocês estão dormindo, malditas! E furioso, pôs-se outra vez a puxar pela campainha, 10 vezes seguidas. Não havia dúvida de que era algum homem com autoridade e familiar naquela casa. Nesse mesmo momento, Ouviram-se uns passos miúdos, leves, perto dali, na escada. Alguém se aproximava. A princípio, Raskolnikov nem sequer os ouviu. Não estará ninguém? Exclamou ruidosa e alegremente o recém-chegado, dirigindo-se ao primeiro visitante, que continuava ainda puxando pela campainha.
Boa noite, Cot! A julgar pela voz, deve ser muito novo, pensou Raskolnikov de repente. Não sei que diabo venha a ser isto, por um pouco que não dava cabo da fechadura, respondeu Cote. Mas como é que sabes o meu nome? Essa é boa, pois se há 3 dias jogamos juntos 3 partidas seguidas de bilhar, em casa de Gambrinos. Ah, ah, ah! Com que então não estão? É estranho. Além disso, é uma estupidez horrível. Onde hei de encontrar a velha?
Precisava de tratar um assunto com ela. E eu também. Bem, que se há de fazer? Temos de bater em retirada. Ah, ah, e eu que contava já com o dinheiro! exclamou o rapaz. É claro que temos de nos ir embora, mas então para que marcou ela uma hora? Foi ela mesma, a velha bruxa, que me marcou esta hora, e da minha casa até aqui ainda é uma estirada. Também não percebo aonde teria ela ido. Todo ano metida em casa, o diabo da velha, a resmungar e a dizer que lhe doem os pés, e de repente some e vai para a paródia.
E se perguntássemos ao porteiro? O quê? Aonde é que ela foi e quando volta? ó diabo, perguntar, mas se ela nunca sai? E tornou outra vez a sacudir a fechadura. Que diabo, não temos outro remédio senão irmo-nos embora. Espere! Exclamou o rapaz de repente. Olhe, não vê como a porta cede quando é sacudida? E então? Isso quer dizer que não tem a chave posta e apenas o fecho corrido. Não sente ranger o fecho? E para ter o fecho corrido é preciso estar em casa, compreende?
Donde se conclui que estão em casa, mas não querem mais abrir. O quê? Isso é possível? objetou Cotte, admirado. Com que então estão lá dentro? e tornou a balançar a porta. Espere, tornou a exclamar o rapaz. Não puxe dessa maneira. Repare, aqui há qualquer coisa de estranho. O senhor chamou, abanou a porta e não lhe abrem, o que quer dizer? Ou que elas desmaiaram ou que... Que o quê? Olhe, vamos ter com o porteiro. Pode ser que ele as faça despertar.
É verdade. E deslizaram ambos pelas escadas abaixo. Espere, fique aí enquanto eu vou lá embaixo na portaria. Mas por que hei de eu ficar? Pelo sim, pelo não. Bem, então, olhe, eu ando preparando-me para juiz de instrução. É evidente e vidente que aqui há qualquer coisa de estranho, gritou-lhe o rapaz com veemência e pôs-se a correr desabaladamente pelas escadas abaixo. Cott ficou em cima, tornou a puxar a campainha suavemente e esta deu um toque, depois devagarinho Como se refletisse e usasse de prudência, pôs-se a sacudir o puxador da porta, sacudindo-a de um lado para o outro, como se quisesse certificar-se bem de que só tinha o fecho corrido.
Depois, resfolegando, agachou-se e pôs-se a olhar pelo buraco da fechadura, mas a chave estava posta por dentro, de maneira que não podia ver nada. Rascou Unicórnio e correu o fecho, entreabriu a porta, verificou que não se ouvia nada, E de repente, sem se demorar a pensar, saiu, fechou outra vez a porta atrás de si o melhor que pôde e correu pelas escadas abaixo. Já tinha descido 3 lances quando, de repente, percebeu um grande alvoroço lá mais embaixo.
Onde esconder-se? Era impossível esconder-se em qualquer parte. Apressou-se a retroceder para o andar. E esse sátiro! Esse demônio! Apanhem-no! Dando um grito, alguém saiu de qualquer andar, e não corria, mas parecia precipitar-se pela escada, gritando a plenos pulmões: Mítica! Mítica! Mítica! Mítica! Vai para o diabo! Que te carregue! O grito acabou em alarido. Os últimos ruídos ouviram-se já no pátio. Depois, tudo ficou em silêncio.
Mas nesse momento, alguns homens, falando em voz forte e alta, começaram a subir a escada no meio de grande alvoroço. Distinguiu a voz vibrante do rapaz. Eram eles. Completamente desesperado, foi e saiu-lhes diretamente ao encontro. Seja, se me apanham, está tudo perdido. Se me deixam passar, tudo está perdido também. Hão de lembrar-se de mim. Estavam prestes a chegar. Entre eles e Raskólnikov havia apenas um lance de escada. E, de repente, a salvação.
Alguns degraus mais abaixo, à direita, havia um andar por alugar, e com a porta aberta de par em par, aquele mesmo quarto no qual os pintores tinham estado trabalhando, os quais, como de propósito, já se tinham ido embora. Deviam ter sido eles que acabavam de sair naquela gritaria. O chão parecia recém-pintado. No meio do quarto, via-se um pequeno balde. Ao lado, uma vasilha com tinta e uma brocha grossa. Esgueirou-se num ápice pela porta aberta e acocorou-se contra a parede.
Já era tempo. Os outros chegavam já ao patamar. Depois, tornejaram e passaram de largo para o quarto andar, falando alto. Ele esperou, saiu nas pontas dos pés, e deitou a correr pelas escadas abaixo. Ninguém na escada. Na porta-cocheira também não. Atravessou-a rapidamente e voltou à esquerda para a rua. Sabia muito bem, perfeitamente, que naquele instante teriam já chegado ao andar, que haviam de ficar muito admirados ao ver que a porta estava aberta, quando um momento antes ainda estava fechada, que já deviam ter visto os cadáveres e que não tardariam a adivinhar e a supor claramente que o assassino estivera ali um momento antes e não devia ter feito mais do que esconder-se em qualquer lugar, deslizar próximo deles e escapar-se.
Haviam de compreender também que devia ter se escondido no quarto vazio, nele ficando até que eles tivessem chegado lá acima. Entretanto, não se atrevia de maneira nenhuma a acelerar o passo. Embora lhe faltassem ainda 100 passos desde ali até a primeira embocadura. Não faria bem em esconder-me debaixo de alguma porta cocheira e esperar na escada de alguma casa desconhecida? Bolas, não! E largar o machado em qualquer parte? E tomar uma carruagem?
Pior, pior! Os seus pensamentos confundiam-se, até que finalmente encontrou uma travessa, meteu-se por ela, meio morto. Compreendia agora que já estava quase salvo, aí se tornava menos suspeito, e além disso, havia muita gente, e ele perdia-se no meio daquele rebuliço como uma agulha em palheiro. Mas todas essas comoções esgotaram a tal ponto as suas forças que mal podia dar um passo. O suor caía-lhe em bica, tinha o pescoço empapado.
Meteste-te em boa! Gritou alguém junto dele quando ia saindo ao canal. Naquele momento, não tinha a cabeça muito firme, quanto mais avançava, tanto pior. Voltou completamente a si quando, de repente, chegando junto do canal, se assustou ao ver que havia ali pouca gente, de maneira que quase retrocedera para a ruela. Agora pouco lhe faltava para cair de cansaço, deu uma volta e foi ter a sua casa por um caminho completamente diferente.
Chegou à casa sem estar ainda em seu juízo perfeito. Pelo menos, ia já pelas escadas acima quando se lembrou do machado. E no entanto, restava-lhe ainda por resolver uma questão gravíssima: a de tornar a devolvê-lo e a colocá-lo no seu lugar, sem que dessem por isso. Não havia dúvida de que já não tinha forças para pensar que que o melhor teria sido não colocar o machado no seu lugar anterior, mas ir deixá-lo, ainda que fosse depois, no pátio de qualquer outra casa.
Mas correu-lhe tudo às mil maravilhas. A entrada da portaria estava fechada, mas não a chave, e o mais provável era que o porteiro estivesse em casa. Mas perdera a tal ponto a capacidade de raciocinar que foi direito à porta e abriu-a. Se o porteiro lhe tivesse perguntado naquele momento, que deseja?, pode ser que tivesse pegado o machado e lhe tivesse dado. Mas o porteiro não estava, e ele pôde colocar o machado no seu lugar anterior, debaixo do banco.
Até o cobriu com lenha, como estava antes. Depois não encontrou viva alma até chegar ao seu quarto. A porta da senhoria estava fechada. Quando entrou no quarto, atirou-se para cima do divã. Tal como estava. Não dormia, mas afundou-se num torpor. Se alguém tivesse entrado então no seu quarto, teria imediatamente dado um pulo e começado a gritar. Sombras e fragmentos de algo semelhante a ideias lhe atravessavam a mente, mas não pôde apreender nenhuma única, nenhuma só pôde deter, por mais esforços que fizesse.
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