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Como Deus transforma nossa maneira de amar

10 de julho de 202621min
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O amor cristão não nasce espontaneamente. Ele é obra da graça.Nos capítulos 6 e 7 do Caminho de Perfeição, Santa Teresa de Jesus nos conduz a uma das verdades mais exigentes da vida espiritual: Deus não quer apenas que O amemos, mas que transforme profundamente a nossa maneira de amar.Neste episódio, refletimos sobre o caminho da purificação do coração, a liberdade em relação aos afetos desordenados, a correção fraterna, a verdadeira compaixão e a caridade que sustenta a vida comunitária. Descobrimos que o fruto mais seguro da contemplação é uma caridade cada vez mais concreta, humilde e misericordiosa.Ao longo da meditação, caminhamos também ao lado de Santa Teresinha do Menino Jesus e de São João da Cruz, que testemunham, cada um à sua maneira, que toda a vida espiritual converge para uma única realidade: o amor.Talvez a pergunta mais importante deste episódio não seja: "Como eu rezo?", mas: "Como Deus está transformando a minha maneira de amar?"Que Santa Teresa nos ensine a permitir que a graça purifique nosso coração, para que aprendamos a amar menos por interesse e cada vez mais como Cristo ama.
Participantes neste episódio1
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Santa Teresa de Jesus

Host
Assuntos8
  • O amor de Deus e a autovalorizaçãoAmor que nasce da contemplação da Verdade · Amor para que o outro floresça · Redenção dos afetos humanos · Santa João da Cruz
  • O legado dos cristãos e a transmissão do amorAmor como obra da graça · Purificação do coração · Liberdade dos afetos desordenados · Santa Teresa de Jesus
  • Proteção EspiritualGuardar a caridade diariamente · Humildade para pedir perdão · O Coração de Cristo como modelo
  • Valor da almaDescobrir a abertura para Deus · Paciência e perseverança na busca pelo 'ouro' · Olhar com os olhos de Deus
  • Amor sem condiçõesInteresse escondido no desejo de ser amado · Liberdade de amar sem buscar ser amado · Santa Teresinha do Menino Jesus
  • Caridade e FilantropiaAmor que não tem medo da verdade · Correção para o bem da alma · Santo Agostinho
  • O orgulho e a necessidade de desconstruçãoPequenas rivalidades e ressentimentos · Ação do demônio nas comunidades · Importância da comunhão
  • Fidelidade nas pequenas coisasCompaixão pelos sofrimentos alheios · Memória das próprias fragilidades · Ternura e misericórdia
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
STSanta Teresa de Jesus

Olá, meus queridos irmãos, meus queridos ouvintes, sejam bem-vindos de volta ao nosso podcast Diálogos da Montanha. Estamos nas meditações de sexta-feira meditando sobre O Caminho de Perfeição, um livro de Santa Teresa de Jesus. Se você descobriu hoje o nosso canal, não deixe de conferir nossas playlists. Lá você encontrará a série completa de meditações sobre o livro História de uma Alma de Santa Cruzinha, bem como outras meditações que tratam da amizade com Deus.

Portanto, se você gosta do nosso canal, nos ajude a evangelizar. Reze conosco e reze por nós, para que sejamos bons instrumentos nas mãos de Deus. Partilhe conosco nos comentários o que mais te chamar a atenção em nossa meditação. E se você gostar de nossa forma de evangelizar, Curta e compartilhe com alguém. Pois bem, tratemos do nosso episódio de hoje. Hoje conversaremos sobre os capítulos 6 e 7. Se você ainda não leu, não deixe de ler.

Talvez o que Deus tenha lhe a falar na leitura é muito maior e mais significativo do que eu irei meditar no programa de hoje. Há uma pergunta que, mais cedo ou mais tarde, todo cristão precisará enfrentar: como saber se estou realmente crescendo na vida espiritual? Talvez nós esperássemos encontrar a resposta em experiências extraordinárias, numa oração cada vez mais profunda ou em alguma graça mística. Santa Teresa, porém, surpreende-nos mais uma vez.

Antes de conduzir suas irmãs às moradas da oração, ela detém os passos e parece dizer: Olhem primeiro para o vosso amor, porque é ali, e não em outro lugar, que se verifica se Deus está realmente transformando uma alma. Esses dois capítulos do Caminho de Perfeição são, na verdade, um longo tratado sobre o amor. Mas não sobre o amor como o mundo entende. Teresa quer falar de um amor que já começou a ser purificado pelo Espírito Santo, um amor que ainda passa pelo coração humano, mas já não nasce dele, um amor que tem sua origem no próprio Deus.

Logo nas primeiras páginas, ela faz uma afirmação muito bonita. Ela diz que quando Deus concede a uma pessoa pessoa conhecer verdadeiramente quem Ele é, compreender a diferença entre o Eterno e o passageiro, entre o Criador e a criatura, essa pessoa já não ama da mesma maneira. O amor muda porque a visão muda. Quem contempla a realidade com os olhos de Deus já não consegue permanecer prisioneiro da lógica do mundo. Percebam, meus queridos, que Teresa não diz que essa pessoa ama menos.

Ela ama muito mais. O que muda não é a intensidade do amor, mas a sua origem. Enquanto nosso amor nasce principalmente das simpatias, das afinidades e das necessidades do nosso coração, o amor que Deus vai formando nasce da contemplação da Verdade. Quando alguém experimenta, ainda que por alguns instantes, a infinita beleza de Deus, tudo começa lentamente a ocupar seu verdadeiro lugar, não porque as criaturas deixem de ser belas, mas porque deixam de ocupar o lugar que pertence somente ao Criador.

É impossível aqui não recordar São João da Cruz. Como companheiro de Teresa na reforma do Carmelo, ele chegará à mesma conclusão por outro caminho. Para ambos, a união com Deus não diminui a capacidade de amar, ela a purifica. Quanto mais a alma se aproxima de Deus, mais aprende a amar todas as coisas em Deus. Já não ama para possuir, ama para que o outro floresça segundo a vontade divina. E talvez seja isso que Teresa esteja tentando nos ensinar nesse início.

Ela não deseja matar os afetos humanos, ela deseja redimi-los. Há uma diferença enorme entre essas duas coisas. Infelizmente, ao longo da história, algumas pessoas imaginaram que a santidade consistia em tornar-se frio, algo frio, indiferente ou incapaz de criar vínculos. Basta, porém, ler Teresa com muita atenção para perceber que ela está muito distante disso. Ela fala de um amor apaixonado, de um amor intenso, de um amor capaz de perder mil vidas por uma alma.

O problema nunca foi amar demais. O problema sempre foi amar menos do que Deus deseja. E então ela faz uma observação que toca uma das regiões mais delicadas do coração humano. Ela diz que quase sempre, quando desejamos ser amados, existe algum interesse escondido. Penso que essa frase talvez seja uma das mais difíceis. Desses capítulos, porque ela nos obriga a olhar para dentro. Quantas vezes dizemos que amamos alguém quando, na verdade, desejamos apenas sentir-nos importantes para essa pessoa?

Quantas vezes sofremos não porque o outro esteja longe de Deus, mas porque está longe de nós? Quantas vezes chamamos de amor aquilo que, no fundo, é apenas necessidade. Teresa não escreve isso para nos humilhar. Escreve para nos libertar. Ela descobriu que existe uma liberdade extraordinária quando deixamos de procurar continuamente ser amados. Porque então, finalmente, nos tornamos livres para amar. E essa talvez seja uma das maiores conversões da vida espiritual, passar do desejo de receber amor para a alegria de oferecê-lo.

E aí, meus queridos, é impossível não pensar, não lembrar de Santa Teresinha. Na história de uma alma, ela conta aquele episódio tão conhecido da irmã por quem ela sentiu uma antipatia espontânea. Falamos dele na semana passada, No episódio anterior. Tudo nela lhe desagradava: sua maneira de falar, alguns gestos, seu temperamento. O caminho mais fácil seria evitá-la discretamente. Em vez disso, Terezinha começou a procurá-la. Sorria para ela, prestava-lhe pequenos serviços, fazia questão de estar ao seu lado nos momentos de recreação.

Um dia, Aquela irmã perguntou-lhe por que demonstrava tanta amizade, já que parecia sentir tanta alegria quando a encontrava. Teresinha jamais revelou o combate interior que vivia, e mais tarde ela escreveria que procurava enxergar Jesus escondido naquela irmã. É difícil, meus queridos, encontrar, né, imaginar um comentário mais perfeito aos capítulos que que nós estamos meditando, porque Teresa de Jesus ensina a doutrina e Teresinha mostra essa doutrina transformada em vida.

E penso que o Evangelho seja exatamente isso, sabe? Não amar porque o outro desperta espontaneamente nossa afeição, mas porque Cristo morreu por ele. E tem um momento, um trecho desse capítulo que é bem— que me chama muita atenção, sabe? Teresa escreve que uma alma verdadeiramente espiritual, ela deixa de olhar primeiro para o corpo e começa a olhar para a alma. Ela procura descobrir se ali existe uma pequena abertura para Deus, um princípio de virtude, uma possibilidade de crescimento.

E quando encontra esse pequeno veio escondido, ela dedica-se a ele como alguém que encontrou ouro numa mina. Eu acho que essa imagem, ela é muito perspicaz. Uma mina, pensemos nisso. Quem encontra ouro não abandona a escavação porque as primeiras camadas são apenas pedra. Ela continua cavando, ela tem paciência, ela suja as mãos, ela suporta o esforço porque sabe que existe algo precioso escondido ali. Talvez seja assim que Deus nos olha.

Ele conhece toda pedra que existe em nós, conhece nossos pecados, nossas incoerências, nossas resistências, nossas inconsistências. Mas não desiste de cavar, porque enxerga o ouro que a sua graça pode nos revelar. E Teresa, ela nos convida a olhar os irmãos, olhar para os irmãos com os mesmos olhos. Quanto mudariam nossas famílias, nossas comunidades, nossos grupos de oração, nossos trabalhos para os pastorais, Se aprendêssemos a procurar primeiro o ouro em vez das pedras.

Talvez seja esse o verdadeiro olhar contemplativo. Não é fechar os olhos para os defeitos, é enxergar mais profundamente do que eles. Mas esse amor tem uma característica que distingue, que o distingue de qualquer sentimentalismo. Ele não tem medo da verdade. Teresa diz que, quando percebe que uma pessoa está se afastando de Deus, a alma que ama espiritualmente não consegue permanecer calada. Ela corrige, adverte, sofre, reza e, se necessário, suporta até o rompimento daquela amizade, porque deseja, antes de tudo, que aquela alma alcance o céu.

Que contraste com o nosso tempo! Hoje, nós confundimos amor com aprovação. Pensamos que amar é nunca contrariar, nunca corrigir, nunca dizer uma palavra difícil. E Teresa pensa exatamente o contrário: quem ama verdadeiramente não suporta ver o outro caminhar para o abismo em silêncio. E há nisso um detalhe importantíssimo: ela nunca fala de corrigir para vencer, nem para demonstrar superioridade, nem para aliviar a própria irritação.

Corrige quem sofre pelo irmão, corrige quem reza antes de falar, corrige quem estaria disposto a carregar sobre si o peso daquela luta. Por isso, seu amor não humilha, cura. E eu queria aqui recordar Santo Agostinho, que escreve aquela frase muito, muito famosa: ama e faze o que quiseres. Não porque quem ama deixe de corrigir, Mas porque, quando o amor governa nossas ações, até a correção deixa de ser violência e se transforma em misericórdia.

E o capítulo seguinte, ele continua nessa mesma reflexão, mas agora Teresa desce às pequenas coisas da vida comunitária. E talvez seja justamente aí que percebamos a genialidade santos. Eles percebem que as grandes virtudes se decidem nos pequenos gestos. Teresa pede que as irmãs aprendam a recriar-se umas com as outras, que saibam interromper seus próprios gostos para fazer companhia a quem precisa, que tenham compaixão até dos pequenos sofrimentos das irmãs, que não julguem a dor do outro pela medida da própria fortaleza.

Que conselho atual! Existe uma forma muito sutil de orgulho espiritual, meus irmãos. É quando pensamos, quando ouvimos algo e pensamos: Isso não me faria sofrer. Talvez não, mas fez sofrer aquele irmão, e isso basta. Teresa nos convida a recordar o tempo em que também éramos fracos, a lembrar das nossas próprias fragilidades para que a fortaleza nunca destrua a ternura. E existe ainda um detalhe muito bonito nesse conselho: ela não diz simplesmente para termos paciência, ela pede algo mais profundo, ela pede memória, memória daquilo que fomos, memória das nossas próprias fraquezas.

Porque quem esquece de onde foi tirado facilmente se torna duro com aqueles que ainda estão lutando. É curioso perceber que, quanto mais uma pessoa cresce na vida espiritual, maior é o risco de perder essa memória. O demônio pode até utilizar a própria busca da perfeição para esfriar a caridade, fazendo-nos acreditar que nossa firmeza é virtude, quando talvez seja apenas falta de misericórdia. Teresa conhecia muito bem essa tentação.

Ela sabia que existe uma falsa perfeição, aquela que corrige muito, compreende pouco, que exige muito, suporta pouco, que fala constantemente da verdade, mas quase nunca da misericórdia. Essa não é a perfeição do Evangelho. A verdadeira santidade, ela nunca endurece o coração, ela o torna cada vez mais parecido com o de Cristo. Jesus, ele se deixava tocar pela dor dos outros. Ele chorou diante do túmulo de Lázaro, compadeceu-se das multidões cansadas, parou para escutar o cego à beira do caminho.

Esperou pacientemente que Pedro reencontrasse a coragem depois de tê-lo negado. O Coração de Cristo nunca perdeu a capacidade de se comover. E penso que esse seja um dos sinais mais seguros da ação de Deus numa alma. Ela não se torna apenas mais recolhida, ela torna-se mais humana, mais paciente, mais delicada, mais capaz de carregar as fragilidades alheias sem escandalizar-se com elas. Não por acaso, Santa Teresinha escreverá que a caridade consiste em suportar os defeitos do próximo sem se admirar das suas fraquezas.

Que definição extraordinária! Não apenas suportar, mas deixar de se espantar, porque quem conhece verdadeiramente a própria miséria já não se surpreende com a miséria dos outros. E então Teresa deixa um dos avisos mais fortes desse capítulo: ela sabe que as grandes divisões quase nunca começam grandes, começam com uma palavra, com uma suscetibilidade não curada, com uma preferência alimentar, aguentada em silêncio, com um pequeno grupo que vai se fechando sobre si mesmo, com uma vaidade que pede reconhecimento, com uma mágoa que nunca foi levada à oração.

É impressionante como Teresa insiste para que tudo isso seja combatido logo no início. Ela sabe que certas doenças da alma não se tornam perigosas de um dia para o outro. Elas crescem devagar, quase imperceptivelmente. Quando damos por isso, aquilo que parecia insignificante já contaminou uma comunidade inteira. Por isso, meus queridos ouvintes, ela chega a usar uma imagem fortíssima. Ela compara essas divisões a uma peste. Não exagera.

Quem já viveu ou vive numa comunidade, numa família, ou mesmo numa paróquia, sabe que basta um coração fechado para que a paz de muitos comece a adoecer. O demônio raramente destrói uma obra de Deus com grandes escândalos. Muito mais frequentemente, ele se serve das das pequenas rivalidades, das palavras ditas sem caridade, das interpretações maliciosas, dos ressentimentos cultivados em silêncio. Talvez por isso Teresa escreva algo tão contundente: quando essas coisas entram numa comunidade, é como se o próprio Esposo fosse expulso de sua casa, não porque Cristo deixa, deixe, de amar os seus, mas porque nós mesmos fechamos as portas à sua ação.

A comunhão é um dos lugares privilegiados onde Jesus escolheu habitar. Quando a comunhão é rompida, algo da sua presença deixa de ser acolhido. Isso nos obriga, meus queridos, a fazer um sério exame de consciência. Quantas vezes imaginamos que a vida espiritual depende apenas da fidelidade às nossas orações, enquanto permitimos que pequenas durezas permaneçam no coração? Quantas vezes rezamos longamente, mas alimentamos julgamentos, comparações, ressentimentos ou desejos de sermos reconhecidos?

Teresa parece dizer que essas pequenas rachaduras são muito mais perigosas do que imaginamos, porque atacam justamente o lugar onde Deus deseja construir sua morada. A verdadeira vigilância espiritual consiste menos em procurar grandes pecados e mais em guardar diariamente a caridade. Porque uma comunidade não permanece unida graças à ausência de defeitos. Ela permanece unida porque existem pessoas suficientemente humildes para pedir perdão, suficientemente mansas para ceder, suficientemente livres para renunciar à própria razão quando a paz vale mais do que a vitória.

No fundo, Teresa está descrevendo o próprio Coração de Ele é a nossa paz. E onde a caridade é cuidadosamente protegida, Ele permanece. Mas onde o orgulho encontra abrigo, pouco a pouco Sua voz deixa de ser ouvida, não porque tenha ido embora, mas porque deixamos de escutá-la. Talvez agora compreendamos porque Teresa ainda não começou propriamente a ensinar os métodos de oração. Antes de conduzir suas irmãs ao silêncio do recolhimento, ela deseja conduzi-las ao silêncio do coração.

Antes de falar da contemplação, quer que aprendam a amar. Antes de explicar como falar com Deus, ela quer que descubram como viver com os irmãos. Porque a oração nasce do amor, alimenta o amor, e conduz novamente ao amor. Todo o restante é apenas caminho. O destino foi sempre este: tornar-se, pouco a pouco, um coração capaz de amar como Cristo ama. Deus te abençoe, meu irmão, minha irmã. Nos encontramos em nosso próximo episódio.

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