Episódios de Diálogos da Montanha

Aprender a ser livre para Deus

10 de julho de 202628min
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A liberdade que Santa Teresa de Jesus nos apresenta não é a de fazer tudo o que desejamos, mas a de já não sermos escravos da nossa própria vontade.Nos capítulos 8, 9 e 10 do Caminho de Perfeição, ela nos conduz a uma das verdades mais exigentes — e mais belas — da vida espiritual: Deus não quer apenas mudar o que fazemos; quer transformar aquilo que desejamos.Neste episódio, refletimos sobre o desprendimento, o amor-próprio, a humildade e a verdadeira liberdade do coração, em diálogo com Santa Teresinha do Menino Jesus e São João da Cruz. Uma conversa que nos recorda que a santidade não começa com grandes feitos, mas quando deixamos de ocupar o centro para que Cristo o ocupe.Que esta meditação nos ajude a abrir as mãos, confiar mais na graça e aprender, pouco a pouco, a pertencer inteiramente a Deus.Que Deus o abençoe. Santa Teresa de Jesus, rogai por nós! 🤎🏔️

Participantes neste episódio1
S

Santa Teresinha do Menino Jesus

Convidado
Assuntos6
  • Liberdade ReligiosaVontade própria · Desprendimento · Confiança na graça
  • Reeleição Sebastião de Oliveira CamposEntrega total ao Pai · Vontade humana transparente · Fim da divisão interior
  • Amor sem condiçõesColocar o eu no centro · Medir tudo a partir de si · Defesa do orgulho
  • Humildade como ForçaLibertação das correntes · Leveza e verdade · São João da Cruz
  • Liberdade e detençãoMãos fechadas vs. mãos abertas · Entrega de bens e projetos
  • Dependência Emocional vs AmorDescanso do coração · Amor a Cristo acima de tudo · Santa Teresa de Jesus
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
STSanta Teresinha do Menino Jesus

Olá, meus queridos irmãos e irmãs! Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do Diálogos da Montanha. É uma alegria estarmos novamente juntos para percorrer um caminho de oração, de contemplação e de crescimento na vida interior. Em cada novo episódio, buscamos meditar sobre a beleza da vida cristã vivida em profundidade, deixando-nos conduzir pela sabedoria dos grandes mestres da espiritualidade. De modo muito especial, caminhamos na escola dos Santos Carmelitas, cuja experiência continua iluminando homens e mulheres do nosso tempo.

Entre eles, ocupa um lugar privilegiado Santa Teresinha do Menino Jesus, nossa pequena grande Doutora da Igreja, que nos ensina com simplicidade e profundidade o caminho da confiança e do amor. Se este é seu primeiro contato com o Diálogos da Montanha, sinta-se em casa. Em nosso canal você encontrará outras pensamentos, séries e meditações que poderão acompanhar sua oração e sua caminhada espiritual. E se este conteúdo tem lhe feito bem, convido você a se inscrever no canal, acompanhar os próximos episódios e compartilhar essa mensagem com outras pessoas.

Talvez um simples gesto seu seja o início de um caminho de encontro com Deus na vida de alguém. Agora, meu querido irmão, minha querida irmã, aquiete o coração, coloque-se na presença de Deus e caminhemos juntos. Que o Espírito Santo conduza essa meditação e faça frutificar em nós tudo aquilo que o Senhor deseja realizar. Todos nós fomos criados para pertencer inteiramente a Deus. Essa é a vocação mais profunda da vida cristã: não apenas acreditar em Deus, não apenas servi-lo, mas viver de tal modo unidos a ele que nada em nosso coração impeça a da sua graça.

Esse desejo habita a alma desde o princípio. Contudo, à medida que caminhamos na vida espiritual, percebemos que existe uma distância entre aquilo que desejamos e aquilo que realmente vivemos, não porque Deus permaneça distante, nem porque a santidade seja reservada a poucos. O caminho torna-se exigente porque ainda conservamos muitos espaços que relutamos em entregar. Entregamos nosso tempo, entregamos alguns projetos, entregamos nossos bens, mas preservamos aquilo que julgamos mais nosso: a própria vontade.

É aqui que Santa Teresa inicia os capítulos 8º, 9º e 10º do Caminho de Perfeição. Quando imaginamos que ela finalmente começará a falar dos caminhos da oração, ela faz uma pausa inesperada para falar da liberdade. Não da liberdade de escolher qualquer caminho, mas da liberdade de pertencer inteiramente a Cristo. Antes de ensinar uma alma a rezar, Teresa quer ensiná-la a ser livre. Essa ordem não é acidental. Ela sabe que um coração dividido jamais permanecerá por muito tempo na intimidade de Deus.

Logo no início do capítulo 8º, ela faz uma afirmação que resume tudo o que virá depois. Com a simplicidade própria dos santos, ela escreve: tudo está nisto. Tudo está nisto. Ela se refere ao desprendimento, Vale a pena permanecer alguns instantes diante dessa frase: tudo. Não é uma parte da vida espiritual, não é uma virtude entre tantas outras. Tudo. Teresa não está diminuindo a importância da oração, da humildade ou da caridade.

Ela está dizendo que todas essas virtudes encontra um terreno fértil quando a alma deixa de pertencer a si mesma. Meus queridos, Deus nunca invade um coração. Ele espera ser acolhido. Talvez por isso a vida espiritual comece muito menos pelo esforço de adquirir virtudes do que pela disposição de abrir espaço para que Deus as faça crescer em nós. Por vezes pensamos que o desprendimento é o preço que pagamos para seguir Cristo, mas o que me parece que Teresa afirma é bem o contrário.

O desprendimento não é o preço da liberdade, é o seu nascimento. Existe uma imagem que me vem à mente É uma analogia que me vem à mente quando, enquanto leio esses capítulos. Pensa numa criança segurando firmemente um brinquedo já quebrado. O pai aproxima-se trazendo um presente infinitamente belo. A criança, ela deseja o novo presente, de verdade ela deseja o novo presente, Mas ela continua agarrada ao presente antigo. O pai não deixa de amar o filho, nem deixa de desejar entregar-lhe o presente.

Apenas espera que aquelas mãos pequenas se abram. Há momentos em que nossa vida espiritual se parece muito com essa cena. Nós pedimos paz, pedimos uma oração mais profunda, pedimos santidade, pedimos que Deus transforme o nosso coração. Ao mesmo tempo, permanecemos agarrados, agarrados àquilo que nos parece indispensável: nossa maneira de fazer as coisas, nossa necessidade de controlar, nossas razões, nosso desejo de sermos compreendidos, nossa dificuldade de aceitar que Deus conduz a história por caminhos diferentes daqueles que havíamos imaginado.

Queremos receber o infinito, mas nossas mãos, nossas mãos continuam ocupadas. Por isso, Teresa pode afirmar que tudo está no desprendimento, não porque Deus deseje empobrecer a alma, mas porque deseja enchê-la de si mesmo. As mãos fechadas conseguem conservar aquilo que possuem, nunca conseguem receber um dom. Toda vida espiritual começa nesse gesto silencioso: abrir as mãos diante de Deus. Depois dessa afirmação, Teresa conduz a reflexão para um tema que, lido rapidamente, pode causar uma certa estranheza.

Ela fala dos parentes. Algum leitor menos atento poderia imaginar que ela estivesse propondo um afastamento da família, mas não é isso que encontramos em suas páginas. A própria Teresa recomenda que os pais sejam amparados quando necessitam e jamais coloque em dúvida o dever da gratidão. O que ela deseja purificar não é o amor, é a dependência. Todo ser humano procura um lugar onde descansar o coração. Alguns o encontram na família, outros no trabalho, outros na própria competência.

Há quem o procure no reconhecimento, há quem o procure na segurança. Teresa conhece profundamente esse movimento da alma, por isso não pede que deixemos de amar aqueles que Deus colocou em nossa vida. Pede apenas que nenhum amor ocupe o lugar que pertence somente a Cristo, porque o coração acaba assumindo a forma daquilo em que repousa. No tempo de Teresa, deixar a casa paterna significava renunciar também ao lugar social, às garantias do futuro e à própria proteção.

Era um passo muito mais radical do que somos capazes de imaginar hoje. Mas a pergunta que ela faz continua atual: onde, onde repousa o nosso coração? Nem sempre nossos apegos têm o mesmo nome que tinham no século 16. Hoje eles podem esconder-se na profissão, na imagem que construímos diante dos outros, na necessidade de sermos úteis, no reconhecimento, no sucesso. São lugares onde buscamos responder, muitas vezes sem perceber, à pergunta mais importante da vida: quem sou eu?

Teresa responde com a serenidade de quem já encontrou essa resposta. Antes de qualquer coisa, de qualquer outra coisa, somos de Cristo. Quem descobre isso experimenta uma liberdade que nenhuma circunstância consegue destruir. Recordemos Santa Teresinha. Quando ela escreve: No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o amor, ela já não procura um lugar que lhe dê importância. Também não deseja uma missão extraordinária. Descobriu que toda identidade nasce da pertença.

Não precisa tornar-se alguém diante do mundo. Bastava-lhe ser inteiramente de Cristo. Essa, meus queridos, é uma das maiores expressões de liberdade espiritual de história de uma alma. Quando a identidade repousa em Deus, muitas outras seguranças deixam, silenciosamente, de ocupar o centro do coração. Ao terminarmos o capítulo 9º, nós temos a impressão de que a batalha chegou ao fim. O coração já não está preso aos bens, também aprendeu a colocar Deus acima dos vínculos mais preciosos.

Parece que agora nada mais impede a união com o Senhor. E aí é justamente nesse momento que Teresa mais nos surpreende. Ela escreve uma frase que eu fico— ela é curiosa, né? Ela é muito curiosa. Ela fala assim: não há pior ladrão do que o que está dentro de casa. Não há pior ladrão do que o que está em casa. E Teresa, ela nos surpreende. É difícil encontrar uma imagem tão simples e ao mesmo tempo tão profunda. Vamos tentar viajar na imagem dela.

Imagine alguém que passou anos protegendo a sua casa, levantou muros, reforçou as portas, trocou fechaduras. Dormia tranquilo, convencido de de que nada lhe seria roubado. Ao amanhecer, descobriu que perdeu aquilo que tinha de mais precioso, não porque alguém tenha arrombado a porta, mas porque o ladrão nunca esteve do lado de fora, sempre morou dentro da própria casa. É assim que Teresa contempla o coração humano. Gastamos muita energia combatendo aquilo que está fora de nós: as circunstâncias, as tentações, as dificuldades, as pessoas.

Enquanto isso, permanece quase intocado o único inimigo que conhece todos os cômodos da alma: o amor próprio. Essa expressão, meus queridos, ela pode soar meio áspera aos nossos ouvidos, Muitas vezes nós associamos amor-próprio imediatamente ao egoísmo. Teresa, porém, está falando de algo mais profundo. Ela refere-se à inclinação, tão antiga quanto a própria humanidade ferida pelo pecado, de colocar continuamente o próprio eu no centro da existência.

É esse movimento que nos leva a medir tudo a partir de nós mesmos, A interpretar os acontecimentos segundo aquilo que nos agrada ou nos fere, a resistir quando nossa vontade é contrariada, a buscar reconhecimento mesmo quando fazemos o bem, a desejar, quase sem perceber, que o mundo confirme continuamente a imagem que construímos de nós mesmos. É um inimigo discreto. Quase nunca se apresenta como inimigo. Pelo contrário, costuma vestir roupas de virtude.

Convence-nos de que defendemos a verdade, quando na realidade estamos protegendo o nosso orgulho. Faz-nos acreditar que buscamos apenas a glória de Deus, quando silenciosamente ainda esperamos um pouco da nossa. Consegue esconder-se até mesmo nas obras mais santas. Também na oração. Também no apostolado. Também no serviço aos irmãos. É por isso que Teresa o considera tão perigoso. Aquilo que vemos, podemos combater. Aquilo que confundimos conosco continua governando a casa em silêncio.

Teresa sabe que a verdadeira batalha nunca aconteceu fora de nós. O mundo pode oferecer resistências, mas nenhuma delas é tão decisiva quanto aquela que encontramos no próprio coração. É ali que Deus começa a sua obra, não conquistando novos territórios, mas libertando pouco a pouco aquilo que sempre lhe pertenceu. É nesse contexto que Teresa apresenta duas virtudes que chama de as imperatrizes do mundo. Ela está se referindo ao desprendimento e à humildade.

A expressão é belíssima: o mundo costuma chamar de fortes aqueles que conseguem impor a própria vontade. Teresa olha para uma alma humilde e diz: aqui está a verdadeira fortaleza. Porque ninguém consegue escravizar quem já não precisa defender continuamente a própria importância. Quem vive da aprovação dos outros torna-se refém do elogio e da crítica. Quem precisa ter sempre razão transforma qualquer divergência numa batalha. Quem construiu sua identidade sobre a própria imagem vive sob o medo permanente de perdê-la.

A humildade, meus queridos irmãos, ela rompe todas essas correntes. A humildade não diminui a pessoa, ela devolve-a à verdade. E a verdade é sempre libertadora. Por isso, a humildade nunca produz tristeza. Ela produz leveza. São João da Cruz contempla esse mesmo mistério com outra imagem. Ele escreve que uma ave permanece presa tanto por uma corrente grossa quanto por um fio extremamente fino. Pouco importa o tamanho do vínculo.

Enquanto ele existir, o voo permanece impossível. Teresa responde, por sua vez, com uma imagem igualmente bela. Ela fala da alma chamada a voar até o seu Criador, sem estar carregada de terra e de chumbo. Essas duas palavras merecem ser guardadas. Terra e chumbo. A terra lembra tudo aquilo que passa: os bens, as preocupações, os projetos, as seguranças que procuramos construir. Já o chumbo, porém, possui outra característica: ele pesa, ele puxa para baixo, ele impede que as asas sustentem o voo.

Também o coração pode tornar-se pesado, nem sempre por causa de grandes pecados. Às vezes basta uma vaidade cuidadosamente escondida, uma mágoa antiga que alimentamos em silêncio, ou a necessidade constante de sermos compreendidos, a dificuldade de aceitar que Deus conduza a nossa história por caminhos diferentes daquele que imaginamos. São pesos discretos, quase invisíveis, mas suficientes para impedir o voo. Durante muito tempo, pensava-se que a contemplação era difícil porque Deus parecia distante.

Teresa nos faz olhar em outra direção: o céu nunca esteve longe, as asas é que ainda carregam chumbo. Essa afirmação muda a maneira de compreender a vida espiritual. Não caminhamos para, entre aspas, fabricar uma alma nova. A Graça não destrói aquilo que Deus criou. Ela restitui ao coração a liberdade para a qual foi criada desde o princípio. E é isso que encontramos em Santa Teresinha. Quem acompanhou a nossa playlist a respeito da história de uma alma vai se recordar que lá percebemos que a sua grande batalha quase nunca acontece nas grandes decisões.

Ela acontece nas pequenas renúncias da vontade, quando escolhe permanecer junto da irmã cuja convivência lhe custava mais, ou quando acolhe serenamente uma interrupção, quando responde com delicadeza onde seria mais fácil defender-se, quando prefere o último lugar sem fazer disso um espetáculo. Nada disso, meus queridos, impressiona o mundo, mas cada um desses gestos retira um pequeno pedaço de chumbo das asas. Assim, a liberdade vai nascendo, pouco a pouco, quase sem ruído.

E essa descrição é um dos sinais mais belos da obra de Deus. A graça raramente faz barulho. Ela transforma primeiro aquilo que ninguém vê. E eu penso que é significativo que Teresa coloque esses ensinamentos antes mesmo de começar a tratar diretamente de oração. Ela conhece o coração humano. Ela sabe que podemos aprender métodos de oração, podemos adquirir disciplina, podemos conhecer profundamente a doutrina espiritual e, apesar disso, continuar girando ao redor de nós mesmos, porque a oração não floresce num coração que ainda luta para ocupar o primeiro lugar.

Antes de ser um exercício da inteligência, a oração é um ato de entrega. Antes de ser um discurso dirigido a Deus, ela é uma vida que aprende a repousar nele. Por isso Teresa insiste tanto na liberdade. Não porque a liberdade seja o fim da caminhada, Mas porque somente um coração livre pode amar plenamente. Nesse ponto, meus queridos, o livro começa a convergir bastante para o Evangelho. Existe uma cena na vida de Jesus que ilumina silenciosamente tudo o que Teresa escreveu até aqui: a noite do Horto das Oliveiras.

Ali, diante da paixão que se aproxima, Cristo pronuncia aquelas palavras que resumem a vida espiritual: Pai, se é possível, afasta de mim este cálice. Contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua. Essas palavras costumam ser lidas como uma manifestação da obediência de Jesus, mas elas são muito mais do que isso. Ali encontramos a liberdade perfeita, Pela primeira vez, uma vontade humana entrega-se inteiramente ao Pai sem conservar nada para si.

Nada é escondido, nada é negociado, nada é imposto. A vontade humana de Cristo torna-se transparente à vontade do Pai. E é exatamente para esse lugar que Teresa deseja conduzir cada alma. Não porque Deus se alegre em contrariar a vontade dos seus filhos, mas porque ele sabe que somente na sua vontade encontramos aquilo para o qual fomos criados. Enquanto insistimos em conduzir sozinhos a nossa própria história, permanecemos divididos.

Uma parte do coração deseja a Deus, outra continua agarrada ao próprio querer. Essa divisão produz um cansaço, um esgotamento que nós conhecemos muito bem. Nós gastamos energia enorme tentando conservar aquilo que imaginamos controlar. Nós defendemos nossas razões, protegemos nossos projetos, tememos perder aquilo que construímos. No fim, percebemos que o peso maior nunca esteve nas circunstâncias, estava em carregar continuamente a nós mesmos.

Quando, pouco a pouco, a vontade aprende a descansar na vontade de Deus, aí, meus queridos, algo vai mudando profundamente. As contrariedades deixam de ser apenas obstáculos, elas tornam-se, elas transformam-se em ocasião de confiança. As humilhações deixam de destruir a paz, Elas passam a revelar onde o amor-próprio ainda permanece escondido. As perdas deixam de parecer o fim do mundo. Recordam-nos que nossa verdadeira riqueza nunca esteve naquilo que pode ser tirado.

Eu fico pensando que é nesse ponto— esse é um ponto, né, na verdade, onde os caminhos de Teresa, de João da Cruz e de Teresinha se encontram. São João da Cruz contempla a alma que, despojada de tudo, torna-se capaz de ser plenamente possuída por Deus, não porque Deus ame o vazio, mas porque deseja preencher inteiramente o coração com a sua própria vida. Já Santa Teresinha percorre o mesmo caminho de maneira admiravelmente simples.

Sua pequena via nunca consistiu em fazer coisas pequenas. Consistiu em entregar pequenas vontades, em renunciar à última palavra, em aceitar uma contrariedade sem reclamar, em escolher o amor onde seria mais fácil escolher a própria razão. Cada pequena fidelidade preparava seu coração para uma fidelidade maior e, pouco a pouco, sua vontade aprendia a respirar no mesmo ritmo da vontade de Deus. A santidade realiza uma transformação silenciosa.

Ela não modifica primeiro aquilo que fazemos, modifica aquilo que desejamos. Ela não transforma primeiro aquilo que fazemos, transforma aquilo que desejamos. Os santos continuam trabalhando, continuam sofrendo, continuam sendo provados, Mas o centro da vida já não está neles, está em Cristo. E quando Cristo ocupa esse lugar, tudo encontra uma nova ordem. O desprendimento deixa de parecer uma perda. A humildade deixa de parecer humilhação.

A obediência deixa de parecer renúncia. Tudo se transforma numa resposta de amor. No início da caminhada espiritual, imaginamos que Deus nos pedirá muitas coisas. Os anos passam e fazemos uma descoberta surpreendente: Deus nunca quis empobrecer ninguém. Tudo aquilo que pediu que entregássemos era precisamente aquilo que nos impedia de receber o que Ele sempre desejou dar. Compreendemos, então, que as mãos abertas nunca foram sinal de perda, eram a única maneira de acolher um dom.

Santa Teresa passou a vida inteira ensinando essa liberdade, não a liberdade de escolher qualquer caminho, mas a liberdade de caminhar sem carregar outro peso além do amor. Por isso, o caminho de perfeição ainda não começou a ensinar a oração. Antes, Teresa quis libertar o coração daquele que irá rezar, porque uma alma, meus queridos irmãos, uma alma verdadeiramente livre, ela já começou a rezar antes mesmo de pronunciar a primeira palavra.

No fim das contas, esses capítulos não falam apenas do desprendimento, eles falam da restituição do coração ao seu verdadeiro Senhor, Tudo o que Teresa nos pediu para deixar tinha um único objetivo: que nada permanecesse entre Cristo e nós. E quando essa obra da graça começa a acontecer, percebemos que Deus nunca quis tirar-nos alguma coisa. Quis apenas retirar de nossas mãos aquilo que nos impedia de segurar a sua. Tudo o que Teresa nos pediu para deixar tinha um único objetivo: que nada permanecesse entre Cristo e nós.

Quando essa obra da Graça começa a acontecer, percebemos que nunca Deus quis tirar-nos coisa alguma. Quis apenas tornar o nosso coração suficientemente livre para que pudesse pertencer inteiramente a Ele. E esse, afinal, é o verdadeiro caminho de perfeição. Que Deus te abençoe, meu querido irmão, minha querida irmã. Nos encontramos em nosso próximo episódio.