Episódios de Diálogos da Montanha

Aprender a deixar Deus conduzir

07 de agosto de 202619min
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Há uma ansiedade que pode se esconder até mesmo na busca por Deus: a necessidade de medir nosso progresso, comparar nossa caminhada e querer conduzir a própria santidade.Nos capítulos 16, 17 e 18 do Caminho de Perfeição, Santa Teresa de Jesus nos convida a um caminho diferente. Antes de ensinar sobre a oração, ela purifica o coração daquele que deseja rezar. Mostra que a verdadeira humildade não consiste em pensar menos de si, mas em confiar que Deus sabe conduzir cada alma pelo caminho de que ela realmente necessita.Neste episódio, percorremos imagens marcantes da obra teresiana — o tabuleiro de xadrez, a verdadeira humildade, o contentamento diante da vontade de Deus e a casa de Betânia — para descobrir que a santidade não nasce do esforço de controlar a própria caminhada, mas da liberdade de deixar Deus conduzir.Que esta meditação nos ajude a abandonar a inquietação de quem deseja alcançar Deus por suas próprias forças e a redescobrir a paz de caminhar ao lado d'Aquele que nunca deixa de nos conduzir.“A verdadeira humildade consiste, em grande parte, em estar muito pronta a contentar-se com o que o Senhor quiser fazer de cada um de nós.”— Santa Teresa de Jesus (Caminho de Perfeição, cap. 17)
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STSanta Teresa de Jesus

Todos nós já passamos pela experiência de aprender alguma coisa que realmente valesse a pena. Aprender um instrumento, um ofício, uma profissão, um idioma, qualquer caminho que exija tempo e dedicação costuma revelar cedo ou tarde a mesma inquietação: queremos chegar logo. Conhecemos essa impaciência de quem está aprendendo. E ela aparece de muitas formas: na criança que mal aprendeu a escrever e já deseja ler os grandes livros, no músico que sonha executar uma obra difícil antes de dominar os exercícios mais simples, no jovem que inicia uma profissão e imagina que a experiência chegará apenas com o passar do tempo, esquecendo-se de que ela nasce antes de tudo.

Da fidelidade às pequenas tarefas de cada dia. Quem aprende deseja avançar. Quem ensina sabe esperar. Essa diferença parece pequena, mas nela está escondida uma grande sabedoria. Os verdadeiros mestres nunca alimentam a ansiedade do discípulo. Quase sempre fazem o caminho parecer mais lento, Voltam ao fundamento quando o aluno já quer alcançar a conclusão. Repetem o essencial quando todos esperam descobrir algum segredo novo. Não porque ignorem a beleza daquilo que virá depois, mas porque sabem que nenhuma obra permanece de pé quando seus alicerces são frágeis.

Santa Teresa de Jesus ensina exatamente assim. Ao chegarmos aos capítulos 16, 17 e 18 do Caminho de Perfeição, poderíamos imaginar que ela finalmente começaria a revelar os grandes segredos da oração. Depois de insistir tantas vezes na humildade, no desapego, no amor fraterno e no esquecimento de si, pareceria natural que conduzisse suas irmãs aos mais altos graus da contemplação. Mas Teresa interrompe essa expectativa. Ela interrompe nossa ansiedade.

Antes de falar sobre os grandes dons que Deus pode conceder, ela deseja libertar o coração de uma ilusão muito sutil: a ilusão de pensar que a vida espiritual consiste em alcançar determinadas experiências. Que coração é esse que deseja rezar? Porque nem todo desejo de Deus nasce inteiramente de Deus. Às vezes levamos para a oração a mesma lógica com que aprendemos a viver neste mundo. Queremos crescer, queremos perceber resultados, queremos confirmar que estamos avançando, gostaríamos de encontrar sinais de que estamos no caminho certo, gostaríamos de sentir que nossa fidelidade está produzindo frutos.

E sem perceber, começamos a olhar menos para Deus e mais para nós mesmos. A oração deixa de ser encontro para tornar-se medida. Passamos a observar a nós mesmos durante a oração. Perguntamos se rezamos melhor do que ontem, se fomos mais recolhidos, se sentimos mais paz, se experimentamos alguma consolação. Pouco a pouco, aquilo que deveria libertar o coração começa discretamente a devolvê-lo ao próprio centro. A Santa Madre percebe esse movimento com uma extraordinária lucidez.

Ela sabe que existe um amor-próprio muito grosseiro que busca honras, reconhecimentos e aplausos. Mas sabe também que existe outro, muito mais difícil de perceber: aquele que troca as honras do mundo pelas honras espirituais. Já não deseja ser admirado pelos homens, deseja tornar-se um grande santo. Já não procura aplausos, procura consolações. Já não quer ser importante aos olhos das pessoas, quer sentir-se importante aos próprios olhos.

Por causa daquilo que experimenta na oração. O objeto mudou, mas o movimento do coração continua o mesmo. É justamente aqui que Teresa decide deter suas irmãs. Antes de ensinar qualquer coisa sobre a oração, ela deseja purificar o desejo de rezar, porque uma alma ainda ocupada consigo mesma acabará procurando a si própria até nas coisas de Deus. E é então que ela nos surpreende com uma imagem inesperada: um tabuleiro de xadrez.

Provavelmente, algumas das suas irmãs, quiçá a grande maioria delas, nunca tivesse jogado uma partida de xadrez, mas isso pouco importa. Teresa não quer ensinar um jogo, ela quer mostrar uma verdade. Num tabuleiro, não basta desejar a vitória, é preciso conhecer as peças. Cada uma tem o seu lugar, cada uma se move de uma maneira própria. Quem ignora isso pode até começar a partida cheio de entusiasmo, mas dificilmente chegará ao fim.

Ela sabe que uma partida não é vencida pelo entusiasmo do jogador. Também não depende da beleza das peças ou da rapidez dos movimentos. Existe uma ordem que precisa ser respeitada, existe uma inteligência que governa cada lance, e existe uma peça sem a qual nenhuma vitória acontece. Então Teresa faz uma afirmação que desmonta todas as expectativas. A peça decisiva não é aquilo que imaginamos. Muitos de nós pensaríamos na oração ou no recolhimento, na penitência, na perseverança, e Teresa responde com uma simplicidade desarmante: a peça decisiva é a humildade.

E escreve uma frase que permanece entre a frases mais belas dessa obra: não há dama que assim o force a render-se com a humildade. Não há dama que assim o force a render-se com a humildade. Ah, há palavras que precisam ser lidas devagar. Se passarmos rapidamente por essa frase, poderíamos entendê-la mal. Teresa não está imaginando Deus como alguém que resiste ao nosso amor até ser vencido pela insistência da humildade. Deus nunca esperou que o convencêssemos a amá-lo.

Foi ele quem nos amou primeiro. Foi ele quem tomou a iniciativa. Foi ele quem veio ao nosso encontro, que desceu até a nossa pobreza. O que Teresa contempla é outra realidade. A humildade não abre o coração de Deus, ela abre o nosso. Enquanto permanecemos presos à necessidade de controlar a própria vida, de defender a própria imagem, de confirmar continuamente o próprio crescimento, existe sempre alguma coisa ocupando o lugar que pertence somente ao Senhor.

A alma continua cheia de si mesma, e um coração cheio de si difícilmente consegue acolher a plenitude da graça. A humildade realiza um trabalho silencioso. Ela não faz barulho, não chama atenção, não produz experiências extraordinárias. Ela simplesmente vai retirando os obstáculos que nós mesmos colocamos diante da ação de Deus. Pouco a pouco, deixa de ser importante vencer todas as discussões, Pouco a pouco, torna-se menos necessário justificar cada decisão.

Pouco a pouco, desaparece a ansiedade de parecer uma pessoa espiritual. E, sem perceber, a alma começa a respirar de outro modo. É curioso que Teresa tenha escolhido precisamente a humildade para este momento do caminho de perfeição. Poderíamos imaginar que, chegando tão perto dos capítulos dedicados à oração, ela começaria a falar do recolhimento, do silêncio interior ou das consolações divinas, mas ela conhece a ordem das coisas.

Antes de ensinar alguém a permanecer diante de Deus, é preciso ajudá-lo a deixar de permanecer tão intensamente diante de si mesmo. Porque existe uma forma muito refinada de amor próprio, talvez a mais refinada de todas. Quando já não encontra alimento nas honras do mundo, procura alimentar-se das honras espirituais. O coração continua procurando a si mesmo, apenas mudou de lugar. Por isso, Teresa faz essa pergunta que permanece surpreendentemente atual, mesmo sem formulá-la nesses termos.

É como se ela nos perguntasse o que realmente buscamos quando buscamos a Deus. Buscamos o próprio Deus ou buscamos aquilo que ele pode nos fazer experimentar? A diferença é imensa. Há momentos em que desejamos rezar porque amamos o Senhor, Há outros em que desejamos rezar porque queremos recuperar a paz perdida, sentir novamente a consolação, encontrar respostas para as nossas inquietações. Esses desejos não são maus, são profundamente humanos, mas a Santa Madre sabe que o amor precisa amadurecer.

Existe um momento em que a alma descobre que Deus continua sendo digno de ser amado, Mesmo quando permanece em silêncio. Continua sendo digno de ser amado quando a oração parece árida. Continua sendo digno de ser amado quando nenhuma consolação acompanha a fidelidade de cada dia. É nesse ponto que o coração começa, de fato, a tornar-se livre, quando o coração deixa de buscar a si mesmo, até mesmo nas coisas de Deus, aí alguma coisa parece que muda profundamente.

Desaparece a necessidade de comparar. Enquanto imaginamos que a santidade pode ser medida pelas experiências que vivemos, inevitavelmente olharemos para os outros, perguntaremos por que algumas pessoas parecem rezar com tanta facilidade, por que certos santos falam de graças que nunca experimentamos, porque alguns caminham com tanta serenidade enquanto nós atravessamos distrações, securas e tantas limitações. Teresa conhece esse pensamento, por isso ela escreve palavras que continuam trazendo descanso ao coração de quem as lê.

Ela recorda que Deus não conduz todas as almas pelo mesmo caminho. Há quem receba consolações abundantes, há quem caminhe quase sempre na obscuridade, há quem seja chamado a uma profunda contemplação nessa vida. Outros servirão ao Senhor por caminhos muito escondidos. Nada disso mede o amor de Deus, nada disso determina a santidade de uma alma. Que diferença existe entre essas palavras e a maneira como tantas vezes olhamos para a nossa vida.

Vivemos cercados por comparações. Comparamos nosso trabalho, nossa família, nossos resultados, nossa felicidade. Não é de admirar que façamos o mesmo com Deus. Sem perceber, começamos a comparar a oração, a fidelidade, as graças, as consolações, como se a santidade pudesse ser colocada sobre uma balança. E Teresa desmonta esse modo de pensar com uma simplicidade admirável. Ela nos lembra que Deus não repete a sua obra. Assim como não existem duas pessoas iguais, também não existem duas histórias espirituais iguais.

Cada alma, meu querido irmão, é conduzida por um caminho irrepetível. Cada coração é trabalhado por uma pedagogia que pertence somente a Deus. Talvez uma das maiores perdas da vida espiritual começa quando deixamos de contemplar aquilo que Deus está realizando em nós para desejar a história que ele escreveu para outra pessoa. Naquele instante, deixamos de acolher um dom para perseguir uma imagem, e a imagem nunca poderá substituir a realidade.

Teresa nos devolve ao lugar onde a graça acontece. No hoje, na vida que recebemos, na história que Deus escolheu escrever conosco, sem, entre aspas, invejar o caminho dos santos, sem tentar reproduzir experiências que nunca nos foram prometidas, sem exigir de Deus uma pedagogia diferente daquela que, em sua sabedoria, ele julgou ser a melhor para É então que ela escreve uma das frases muito legais desses carteiros, muito, uma frase libertadora.

Ela escreve assim: a verdadeira humildade consiste em grande parte em estar muito pronta a contentar-se com o que o Senhor quiser fazer de cada um de nós. Quanto mais eu releio essas palavras, mais elas me parecem falar para além da humildade. Elas falam da confiança, da confiança de quem finalmente acredita que Deus conhece melhor o coração humano do que o próprio homem, da confiança de quem deixa de dizer ao Senhor como deveria conduzir a sua vida, da confiança de quem já não mede o amor de Deus pelas consolações que recebe, mas pela fidelidade com que Cristo permanece ao seu lado, mesmo quando tudo parece silencioso.

Penso que essa seja a liberdade que Teresa deseja formar antes de continuar seu ensinamento. Não é a liberdade de escolher o próprio caminho, mas a liberdade de acolher com paz o caminho escolhido por Deus. Essa liberdade produz um fruto que nem sempre percebemos. Ela muda a maneira como passamos a olhar aqueles que caminham ao nosso Enquanto ainda buscamos a nós mesmos, até a vida de oração pode tornar-se um lugar de comparação.

Começamos a admirar determinadas vocações e a considerar outras menos importantes. Imaginamos que algumas formas de servir a Deus sejam mais elevadas do que outras. Sem perceber, construímos uma hierarquia que o próprio Evangelho jamais construiu. É então que Teresa nos leva até Betânia, não para escolher entre Marta e Maria, mas para entrar naquela casa. Cristo está ali. É isso o que realmente importa. Maria permanece sentada aos seus pés, escuta, contempla.

Marta vai e vem, prepara a refeição, cuida da casa, recebe o hóspede com tudo o que suas mãos podem oferecer. Cada uma ama como sabe, cada uma oferece aquilo que possui, cada uma serve ao mesmo Senhor. Quando olhamos apenas para as tarefas, parece que existe uma oposição. Quando olhamos para Cristo, percebemos que existe apenas um único amor. Santa Teresa compreende isso com uma delicadeza extraordinária. Ela não diminui Marta para exaltar Maria e também não reduz Maria para defender Marta.

Ela simplesmente devolve Cristo ao centro da cena. E quando Cristo volta ao centro, a competição desaparece. Já não perguntamos qual vocação é maior, ou qual serviço é mais importante, ou qual caminho é mais elevado. A preocupação é apenas: Cristo está sendo amado? Essa pergunta basta, porque o amor não se mede pelo lugar onde alguém foi colocado, não se mede pela forma do serviço, mas pela fidelidade com que se responde à graça recebida.

Percebam que Teresa nunca opõe contemplação e caridade. Quanto mais uma alma pertence a Deus, menos necessidade sente de ocupar um lugar especial. Ela deseja apenas que Cristo seja acolhido onde quer que ele a tenha colocado. No fim das contas, meus queridos, esses capítulos falam muito menos sobre a humildade do que imaginávamos no início. Falam sobre confiança, a confiança de quem já não precisa escolher o próprio caminho, de quem já não exige determinadas graças, de quem já não mede a própria vida pelas experiências que vive, mas caminha, porque sabe em quem colocou a sua esperança.

Existe uma paz muito rara nesse modo de viver. Ela não nasce porque todas as perguntas foram respondidas, nem porque todas as dificuldades desapareceram. Nasce porque já não precisamos conduzir a própria história. Descobrimos que ela está nas mãos daquele que nos conhece mais profundamente que nós mesmos. Essa, meus queridos irmãos, é a grande liberdade dos santos. Eles deixaram de gastar a vida perguntando a Deus por onde deveriam caminhar e descobriram que bastava caminhar com ele.

Quando o coração deixa de procurar os próprios caminhos, para contentar-se com o caminho de Deus, descobre que nunca caminhou sozinho, porque, quando Cristo se torna o companheiro da estrada, o caminho deixa de ser a maior preocupação. A sua presença basta. Que Deus te abençoe, meu querido irmão, minha querida irmã. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém. Nos encontramos em nosso próximo episódio.