O coração que nenhuma máquina possui: a alma diante da inteligência artificial
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A inteligência humana possui uma característica curiosa: tudo aquilo que ela cria acaba revelando alguma coisa sobre quem a criou. Uma pintura revela o olhar do artista, uma catedral revela a fé de um povo, uma canção revela os movimentos do coração. Até uma ferramenta muito simples revela aquilo que uma civilização considerava importante. As obras nunca são completamente separadas de seus autores. Elas carregam silenciosamente a marca de quem lhes deu origem.
Trazendo isso para a transformação tecnológica, toda grande transformação tecnológica também traz algo sobre o homem. Não porque as máquinas possuem uma alma, mas porque toda máquina nasce de uma determinada compreensão da pessoa humana. E é justamente aqui que a Magnifica Humanitas realiza uma mudança de perspectiva muito original. O Papa não pergunta, antes de tudo, o que a inteligência artificial será capaz de fazer. Ele pergunta: que visão do homem está orientando aquilo que estamos criando?
Essa diferença de postura muda o tom da conversa, porque existem perguntas que pertencem aos engenheiros, outras aos programadores, outras aos juristas, mas existe uma pergunta que pertence somente à Igreja: aquilo que estamos construindo ajuda o homem a tornar-se mais plenamente homem? Essa sempre foi a pergunta da tradição cristã. Quando surgiram as grandes navegações, quando nasceu a imprensa, quando começou a Revolução Industrial, quando apareceram os meios de comunicação, a Igreja nunca perguntou apenas se aquelas novidades funcionavam.
Perguntou se ajudavam a pessoa humana a caminhar em direção ao seu verdadeiro fim. E é exatamente isso que Leão 14 faz. Ele contempla a inteligência artificial sem fascínio ingênuo, sem fascínio ingênuo e sem medo paralisante. Ele olha para ela como quem contempla qualquer outra obra humana, com esperança, com prudência, e sobretudo com a pergunta permanente sobre a dignidade da pessoa. Isso talvez nos surpreenda, porque vivemos num tempo em que quase todas as discussões sobre inteligência artificial giram em torno da eficiência: velocidade, precisão, capacidade de processamento, automação.
O Papa, entretanto, ele desloca o centro da conversa. Ele parece dizer, antes de perguntar, Se uma máquina pensa, perguntemo-nos se o homem ainda contempla. Isso é um pensamento muito interessante, porque talvez exista uma pobreza muito maior do que a incapacidade das máquinas de amar, que é a possibilidade de que os homens deixem de amar contemplativamente. Vivemos cercados por informações, mas será que ainda sabemos permanecer diante da verdade?
Recebemos milhares de imagens todos os dias, mas ainda conseguimos realmente olhar? Falamos continuamente, mas ainda escutamos? Produzimos textos, vídeos, respostas, conteúdos, Mas ainda sabemos guardar silêncio diante de um mistério? Essa talvez seja uma das intuições mais profundas da encíclica: o problema da técnica nunca começa na técnica, começa no coração. Porque toda tecnologia amplia alguma capacidade humana, mas nenhuma tecnologia é capaz de decidir como essa capacidade será utilizada.
Uma faca pode preparar o pão ou ferir o irmão. O fogo pode aquecer uma casa ou destruí-la. A escrita pode transmitir o evangelho ou espalhar mentira. A inteligência artificial não rompe essa lógica, ela apenas lhe confere uma escala inédita. É precisamente por isso que Leão XIV insiste que o verdadeiro discernimento não pode concentrar-se apenas na ferramenta, mas na responsabilidade moral de quem a concebe, a utiliza e a orienta.
A técnica não possui consciência, nem prudência, nem caridade. Essas pertencem à pessoa humana e jamais podem ser delegadas a um sistema. A encíclica alerta para o risco de confundir a capacidade de calcular com a capacidade de julgar, lembrando que o discernimento moral pertence, permanece uma tarefa irrenunciável da consciência humana. Penso que nunca vivemos um tempo em que essa distinção fosse tão necessária, porque estamos começando a confiar às máquinas tarefas que durante séculos julgávamos inseparáveis da própria inteligência humana.
Elas organizam, traduzem, reconhecem padrões, produzem imagens, escrevem textos, respondem perguntas, e tudo isso é extraordinário. Mas existe uma pergunta que nenhuma delas poderá responder: o que vale a pena amar? Porque amar Não é calcular. Amar é entregar-se, e nenhuma máquina pode oferecer aquilo que não possui. É importante que reconheçamos uma verdade simples: nós costumamos admirar a inteligência desde crianças. Aprendemos a valorizar quem resolve problemas rapidamente, quem domina muitos conhecimentos, quem apresenta respostas precisas, quem impressiona pela capacidade intelectual.
E tudo isso é muito bom, tudo isso é um dom, mas a tradição cristã sempre soube que existe algo ainda maior: a sabedoria. E existe uma diferença muito grande entre inteligência e sabedoria. A inteligência procura compreender, a sabedoria procura viver na verdade. A inteligência organiza conhecimentos, a sabedoria ordena a vida. Onde a inteligência pergunta como isso funciona, a sabedoria perguntaria para que isso existe. A inteligência costuma construir uma ponte, A sabedoria pergunta quem ela permitirá encontrar.
A inteligência pode descobrir um medicamento. A sabedoria pergunta como cuidar daquele que sofre. A inteligência pode calcular com extraordinária precisão, mas somente a sabedoria sabe discernir o bem. Por isso, a Bíblia, a Bíblia nunca tenha colocado a inteligência no centro da vida espiritual. Ela coloca a sabedoria. Os livros sapienciais repetem continuamente: o temor do Senhor é o princípio da sabedoria. Não é o princípio da inteligência, porque a inteligência pode crescer sem humildade.
A sabedoria, não. Ela nasce quando o homem aceita que a verdade não lhe pertence, que ela precisa ser recebida, contemplada, amada. E aqui talvez esteja uma das maiores tentações da nossa época: confundir informação com conhecimento, conhecimento com inteligência, inteligência com sabedoria. Vivemos mergulhados numa quantidade de informações que nenhuma geração anterior poderia sequer imaginar. Em poucos segundos encontramos livros, artigos, vídeos, imagens, pesquisas, respostas.
Nunca soubemos tanto. E, no entanto, isso não significa que tenhamos aprendido a viver melhor. Existe uma tristeza muito característica do nosso tempo: sabemos muitas coisas, mas temos dificuldade em encontrar sentido. Conhecemos quase tudo, mas permanecemos inquietos. Temos respostas imediatas, mas perdemos o gosto pelas grandes perguntas. Eu acho que é exatamente esse o risco que o Papa deseja evitar. A inteligência artificial poderá organizar uma quantidade gigantesca de informações, poderá estabelecer relações invisíveis aos nossos episódios, poderá oferecer respostas cada vez mais sofisticadas, mas ela jamais poderá substituir aquilo que pertence ao coração humano: o discernimento.
Porque discernir, meu querido irmão, não consiste apenas em escolher. Discernir significa reconhecer a ação de Deus na realidade, significa perceber aquilo que conduz à vida. Aquilo que conduz ao amor, aquilo que conduz à verdade. Nenhum algoritmo pode fazer isso, porque o discernimento nasce da consciência. E a consciência não é apenas uma faculdade psicológica. Ela é, como dizia o Concílio Vaticano II, o lugar onde o homem escuta a voz de Deus.
O lugar onde o homem escuta a voz de Deus. É a consciência. Enquanto a máquina calcula probabilidades, o cristão aprende a escutar. Enquanto um sistema compara padrões, o discípulo procura reconhecer a vontade do Pai. Enquanto um algoritmo otimiza resultados, o santo pergunta: como amar mais? E talvez aqui possamos compreender melhor a vida dos santos. Eles nunca foram as pessoas mais informadas do seu tempo, nem os mais influentes, nem os mais eficientes, mas eram profundamente sábios.
Gosto de pensar em São João da Cruz, que passou meses preso numa cela escura, sem biblioteca, sem acesso ao conhecimento acumulado da sua época, sem qualquer instrumento que hoje consideraríamos indispensável. E, no entanto, daquele silêncio nasceram algumas das páginas mais luminosas da história espiritual. Como explicar isso? Porque João havia descoberto uma forma de conhecimento que nenhuma biblioteca poderia oferecer: o conhecimento que nasce do amor.
Tem uma frase dele que eu sempre repito aqui nos nossos episódios, quem acompanha tá cansado de ouvir, né? E para mim ela é um, ela é algo que ela fala muito na minha vida. João da Cruz diz que no entardecer da vida seremos julgados pelo amor, não pelo número de livros que lemos, nem pela velocidade com que resolvemos problemas, nem pela quantidade de informações que acumulamos. Mas pelo amor. Percebam como isso muda a perspectiva.
Ao invés de pensarmos, considerarmos quanto eu sei, eu passo a pensar, a considerar quanto aprendi a amar. E a A inteligência artificial, aqui talvez ela nos preste um serviço inesperado. Ela nos obriga a recordar aquilo que durante muito tempo tomamos como garantido. Durante séculos imaginamos que a inteligência fosse a característica que nos distinguia de todas as outras criaturas. Agora descobrimos que muitas atividades intelectuais podem ser imitadas, mas curiosamente Isso faz aparecer com ainda mais clareza aquilo que realmente constitui o homem: não apenas pensar, mas amar; não apenas resolver problemas, mas oferecer-se; não apenas compreender, mas contemplar.
É muito curioso isso, sabe, meus irmãos? Quanto mais avançam as máquinas, mais o Evangelho parece aproximar-nos daquilo que é essencial, como se Deus permitisse esse momento histórico para recordar à humanidade que sua verdadeira grandeza nunca esteve na capacidade de calcular, sempre esteve na capacidade de amar. E talvez aqui devamos fazer uma pergunta muito simples: como conhecemos uma pessoa? À primeira vista, parece uma pergunta fácil.
Diríamos que conhecemos alguém convivendo com ele, com ela, conversando, observando seus gestos, ouvindo sua história. E tudo isso é verdade, mas basta pensar um pouco para perceber que existe uma diferença entre conhecer sobre alguém e conhecer alguém. Podemos ler uma biografia inteira de Santa Teresinha, saber todas as datas da sua vida, conhecer cada detalhe da infância, cada carta, cada manuscrito, e ainda assim não conhecer o seu coração.
Da mesma forma, uma criança pequena talvez nunca tenha ouvido falar da psicologia da mãe, nunca tenha estudado sua personalidade, jamais tenha analisado racionalmente as suas virtudes. Virtudes, mas conhece a sua mãe. Porque existe um conhecimento que nasce da comunhão e não apenas da informação. E essa distinção é decisiva porque ela nos permite compreender algo que nossa época corre o risco de esquecer: nem todo conhecimento é do mesmo tipo.
Existe um conhecimento científico, existe um conhecimento técnico, existe um conhecimento histórico. Mas existe também um conhecimento contemplativo, um conhecimento que não procura possuir o objeto conhecido, procura unir-se a ele. Talvez por isso que os Evangelhos utilizem tantas vezes a palavra conhecer para falar do amor. A Escritura sabe que o conhecimento mais profundo nunca é o resultado de uma análise fria, Ele nasce do encontro.
Uma pessoa que explica muito bem sobre isso é Santa Teresa de Jesus. Quando eu leio, quando lemos, né, para quem tá lendo junto comigo O Caminho de Perfeição, pode confirmar o que eu tô dizendo. Quando lemos suas obras, encontramos uma mulher extraordinariamente inteligente, lúcida, capaz de observar a alma humana com uma precisão impressionante. Mas ela nunca apresenta a oração como um exercício intelectual. Ao contrário, há uma definição que atravessou os séculos e continua sendo uma das mais belas já escritas.
Ela diz assim lá no Livro da Vida: a oração mental não é outra coisa senão um trato de amizade, estando muitas vezes tratando a sós com quem sabemos que nos ama. E eu acho essa definição extraordinária, porque Teresa poderia ter tido que oração é um método, uma disciplina, uma técnica espiritual, mas não. Ela fala de amizade, porque sabe que Deus não deseja apenas ser compreendido, Deus deseja ser amado. Isso muda, muda completamente a maneira como conhecemos.
Uma máquina pode organizar milhões de textos sobre Deus, pode resumir tratados inteiros, pode estabelecer relações entre autores separados por séculos, mas ela jamais poderá fazer oração, porque a oração não consiste em organizar informações, consiste em responder a um amor. Penso que agora podemos compreender melhor a delicadeza dessa insígnia. O Papa jamais demonstra medo da inteligência artificial. O que ele teme é que o homem, fascinado pelas suas próprias obras, desaprenda aquilo que nenhuma obra humana poderá substituir: o encontro, o encontro verdadeiro com Deus, com o próximo, consigo mesmo.
Quanto mais cresce a nossa capacidade de comunicação, mais frequentemente ouvimos falar de solidão. Observe isso: quanto mais aumentam as possibilidades de conexão, mais pessoas experimentam isolamento. Quanto mais informações circulam, mais difícil parece tornasse o diálogo. Começamos, sem perceber, a substituir presença por interação. Mas presença é muito mais do que troca de informações. Pensemos em Jesus. Os Evangelhos nos mostram um mestre que passa grande parte do tempo simplesmente permanecendo com as pessoas.
Ele senta-se à mesa, caminha pelas estradas, permanece em silêncio diante da dor. Ele olha, ele escuta, ele espera. Nunca demonstra ansiedade em produzir resultados imediatos, porque ele sabe que o amor amadurece na presença, não na velocidade. E eu acho que nossa época Nosso tempo precisa reaprender isso. Existe uma pressa que empobrece a alma: a pressa de responder antes de compreender, a pressa de produzir antes de contemplar, a pressa de opinar antes de escutar, a pressa de agir antes de rezar.
Meus queridos, A inteligência artificial pode acelerar muitos processos, mas nenhuma velocidade substituirá a paciência necessária para amar. E eu acho que talvez por isso São João da Cruz insiste tanto no silêncio. Não porque ele despreza as palavras, mas porque sabe que existem verdades que só podem ser escutadas quando todas as outras vozes calam. É impressionante. João da Cruz fala da noite escura, mas nunca como ausência.
A noite é para ele o lugar onde Deus começa a ensinar de outro modo, não mais através de conceitos, mas através da própria presença. Eu acho que aí nós estamos diante da maior diferença entre a inteligência e a contemplação. A inteligência procura dominar um objeto, a contemplação deixa-se transformar por uma presença. E toda a vida cristã consiste justamente nessa transformação. Quanto mais contemplamos o Cristo, mais nos tornamos semelhantes a Não porque copiamos exteriormente seus gestos, mas porque o seu amor vai lentamente configurando o nosso coração.
E essa é talvez uma resposta das mais profundas que a tradição carmelita oferece ao nosso tempo. O futuro da humanidade não dependerá apenas daquilo que seremos capazes de construir Dependerá sobretudo da nossa capacidade de permanecer diante de Deus, porque uma civilização pode possuir máquinas extraordinárias e ainda assim morrer de sede de contemplação. Mas aí, né, você que, ou alguém que esteja me ouvindo, ouvindo esse episódio, poderia estar pensando assim: mas então deveríamos desconfiar de toda tecnologia?
A resposta da Igreja sempre foi muito mais serena: não. Porque o cristianismo nunca teve medo da inteligência, nunca teve medo da ciência, nunca teve medo da investigação sincera da verdade. Como poderia, se foi o próprio Deus quem deu ao homem uma inteligência capaz de admirar a criação? Foi ele quem colocou em nosso coração o desejo de conhecer. Foi ele quem nos confiou o mundo para que o cultivássemos. O problema, meus queridos, nunca foi a técnica.
O problema sempre foi o coração que a utiliza. No livro do Gênesis, Deus entrega ao homem o jardim, mas não entrega pronto, entrega-o com uma missão. Cultivar e guardar. Esses dois verbos permanecem extraordinariamente atuais. Cultivar, ou seja, desenvolver, criar, transformar, descobrir, mas também guardar, proteger, discernir, respeitar. Existe uma sabedoria escondida nessa dupla missão, porque cultivar sem guardar transforma-se em exploração.
E guardar sem cultivar transforma-se em medo. E o cristão nunca foi chamado a escolher entre essas duas atitudes, foi chamado a mantê-las unidas. Eu acho que é isso, é algo que a Magnífica Humanitas nos propõe: não abandonar a técnica, mas cultivá-la como quem guarda um jardim. É diferente explorar um jardim e cuidar dele. Quem explora pergunta: o que eu posso tirar daqui? Mas quem cuida pergunta: o que permitirá que essa vida floresça?
Devemos fazer essa mesma pergunta diante de toda nova tecnologia. Ao invés de perguntar se simplesmente se ela funciona, perguntarmos se ela faz florescer o humano. Ela fortalece os vínculos? Ela favorece a verdade? Ela protege os mais frágeis? Ela ajuda a pessoa a abrir seu amor? Porque existem tecnologias extremamente eficientes que empobrecem a alma. Existem instrumentos muito simples que aproximam corações. O critério nunca foi a complexidade, sempre foi a caridade.
É por isso que o Papa insiste que a técnica deve permanecer subordinada ao bem integral da pessoa humana e ao bem comum. Ela não pode tornar-se um poder autônomo, nem uma técnica, uma lógica que determine por si mesma o rumo da sociedade. O progresso autêntico exige discernimento ético, responsabilidade e uma visão da pessoa que jamais a reduza a objeto de cálculo. Vejam como isso é libertador, porque nos devolve a responsabilidade.
Às vezes falamos da tecnologia como se ela fosse uma força inevitável, como se possuísse vontade própria, como se determinasse sozinha o futuro da humanidade. Mas isso não é verdade. As máquinas não escolhem, nós escolhemos. Os algoritmos não possuem consciência, nós possuímos. Os sistemas não amam, nós fomos criados para amar. Toda vez que esquecemos isso, começamos a transferir para as ferramentas responsabilidades que pertencem somente ao coração humano.
Por isso que a prudência ocupa um lugar tão importante na tradição cristã, e hoje ela costuma ser confundida com timidez ou indecisão. Mas São Tomás de Aquino a chama de a auriga das virtudes, a cocheira, aquela que conduz todas as outras. Porque a prudência não paralisa, ela ilumina, ela ensina a reconhecer numa situação concreta aquilo que mais corresponde ao amor. Nunca tivemos, meus queridos irmãos, tantos recursos para tomar decisões, e no entanto, talvez nunca tenhamos sentido tanta dificuldade para discernir.
Temos dados, estatísticas, projeções, modelos, simulações, mas nenhuma dessas coisas responde por si só à pergunta essencial: o que é o bem? Essa pergunta continua exigindo uma consciência formada. Uma vida de oração, uma escuta humilde da palavra de Deus, uma comunidade de fé. E aqui percebemos algo muito belo: a Igreja não oferece simplesmente regras para enfrentar a inteligência artificial, ela oferece santos. Pode parecer uma resposta meio inesperada, mas pensemos por um instante: quando queremos aprender a amar, não recorremos primeiro a um manual, olhamos para alguém que amou bem.
Quando queremos aprender a perdoar, olhamos para Cristo. Quando queremos aprender a rezar, olhamos para Teresa. Quando queremos aprender a confiar, olhamos para Teresinha. Quando queremos aprender a deixar tudo por Deus, olhamos para João da Cruz. Os santos são o verdadeiro laboratório da humanidade. Neles contemplamos aquilo que nenhuma tecnologia poderá, conseguirá produzir: uma inteligência inteiramente iluminada pela caridade, uma liberdade reconciliada com a verdade, um coração plenamente humano.
Essa é a resposta mais bonita da Igreja para o nosso tempo. Não oferecer uma competição entre o homem e a máquina, mas recordar ao homem a beleza da sua própria vocação. Porque o problema nunca foi que as máquinas se tornassem mais inteligentes. O verdadeiro perigo sempre foi que os homens deixassem de buscar a santidade. Mas penso que agora sejamos capazes de voltar à imagem com a qual iniciamos esse episódio. Dissemos que toda obra revela alguma coisa sobre aquele que a criou.
Uma pintura revela o artista, uma casa revela quem a habita, uma cidade revela aquilo que um povo ama. Também as tecnologias revelam alguma coisa sobre nós. Elas não caem do céu, nascem do coração humano, são fruto da nossa inteligência, dos nossos desejos, dos nossos medos, das nossas esperanças. Talvez por isso a pergunta mais importante nunca seja como será a próxima tecnologia, mas que tipo de homem a criará. Porque a história jamais será melhor do que o coração daqueles que a constroem.
Quando Deus quis renovar o mundo, ele não começou inventando uma nova ferramenta, 40, nem reorganizando os impérios, nem escrevendo um tratado. Começou formando um coração. Durante 30 anos em Nazaré, o Filho de Deus viveu uma vida escondida, aprendeu um ofício, trabalhou com as próprias mãos, rezou, amou, obedeceu, serviu. E tudo isso parece pequeno diante das grandes transformações da história. Mas foi ali que nasceu a nova humanidade.
E isso nos ensina muita coisa. Vivemos fascinados pelas mudanças rápidas. Deus continua transformando o mundo lentamente, pessoa por pessoa, coração por coração. É assim que cresce o Reino. Talvez por isso Jesus compare tantas vezes o Reino de Deus a uma semente. Nunca há uma explosão ou há uma conquista imediata. Sempre há um crescimento silencioso. Nem tudo aquilo que cresce depressa amadurece, e nem tudo aquilo que impressiona permanece.
As maiores obras de Deus costumam crescer escondidas. Uma vocação, uma amizade, uma família, uma comunidade, um santo. Tudo isso amadurece com o tempo, no tempo, na fidelidade, na perseverança. A inteligência artificial poderá acelerar inúmeros processos, mas nenhuma tecnologia conseguirá abreviar o caminho da santidade, porque a santidade possui o ritmo do amor, e o amor nunca aceita ser apressado. Por isso que Santa Teresinha continua encantando tantas pessoas.
Ela viveu numa época completamente diferente da nossa. Ela jamais imaginou computadores, internet, algoritmos, inteligência artificial. E no entanto, sua resposta continua extraordinariamente atual. Pensem só, enquanto a humanidade sonha em aumentar suas capacidades, uma jovem carmelita escondida em Lisieux descobriu que o maior crescimento possível consiste em crescer no amor. E 2000 anos de cristianismo continuam lhe dando razão, porque nenhuma máquina poderá substituir uma mãe que vela por filho doente durante a noite.
Nenhum algoritmo poderá amar um inimigo. Nenhuma inteligência artificial poderá ajoelhar-se diante do Santíssimo Sacramento. Nenhum sistema poderá oferecer a própria vida por um amigo. Porque existe um mundo inteiro que pertence somente ao coração, e é justamente esse mundo que Cristo veio salvar. Compreendemos agora porque o Papa escolheu escrever esta encíclica. Ele não deseja diminuir nosso entusiasmo diante das possibilidades da técnica.
Ele deseja impedir que esqueçamos aquilo que nenhuma técnica poderá jamais produzir: uma consciência reta, uma liberdade verdadeira, uma alma capaz de contemplar. Porque se perdermos isso, teremos perdido precisamente aquilo que faz de nós seres humanos. Tem uma outra frase de São João da Cruz que eu gosto muito e ela parece resumir toda essa meditação de hoje. Ele escreve assim: onde não há amor, põe amor e encontrarás amor. E para mim essa é uma resposta maravilhosa para o nosso tempo.
Não é onde não há tecnologia, onde não há inteligência, Não é onde não há eficiência, onde não há amor. Porque João da Cruz sabia que toda verdadeira transformação começa aí. Essa é a missão dos cristãos na era da inteligência artificial: não é competir com as máquinas, nem temê-las, mas recordar ao mundo aquilo que o próprio mundo corre o risco de esquecer, que o homem Não nasceu para calcular, nasceu para amar. Não nasceu para dominar tudo, nasceu para receber tudo como dom.
Não nasceu para substituir Deus, nasceu para caminhar com ele. No primeiro episódio perguntávamos onde Deus deseja habitar. No segundo contemplávamos a dignidade da criatura escolhida para essa morada. E hoje descobrimos algo ainda mais profundo: o maior perigo do nosso tempo não é construir máquinas cada vez mais É construir uma civilização onde o coração já não saiba contemplar. Porque quando a contemplação desaparece, o homem deixa lentamente de reconhecer a beleza, deixa depois de reconhecer a verdade, e por fim ele deixa de reconhecer o bem, e por fim, último, deixa de reconhecer o próprio Deus.
Talvez seja por isso que toda renovação da humanidade começará sempre no mesmo lugar: não nos laboratórios, nem nos parlamentos, nem nos grandes centros de pesquisa, mas naquele espaço silencioso onde uma pessoa decide permanecer alguns minutos diante do Senhor. Ali, escondidamente, nasce uma sabedoria que que nenhuma máquina poderá aprender. Ali, Cristo continua formando homens e mulheres capazes de usar a inteligência sem perder a humildade, a técnica sem abandonar a ternura, conhecimento sem renunciar à contemplação, o poder sem esquecer o serviço.
Acho que talvez Talvez essa seja a verdadeira esperança da Magnifica Humanitas. Não a esperança de que consigamos construir máquinas perfeitas, mas que, enquanto as construímos, não deixemos de permitir que Deus continue construindo, pacientemente, a obra mais preciosa de toda a criação: a nossa própria alma. Que Deus abençoe você, meu querido irmão, minha querida irmã. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.