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Babel ou Jerusalém? Uma morada para Deus

03 de agosto de 202636min
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Babel ou Jerusalém?Talvez essa seja a pergunta mais importante do nosso tempo.Vivemos fascinados pelo progresso. Construímos cidades cada vez mais inteligentes, desenvolvemos tecnologias extraordinárias e sonhamos com um futuro moldado pela inteligência artificial. Mas, antes de perguntar o que seremos capazes de construir, a Igreja nos convida a fazer uma pergunta muito mais profunda: Que tipo de humanidade estamos nos tornando?Neste primeiro episódio da nova série Magnifica Humanitas, iniciamos uma meditação sobre a mais recente encíclica do Papa Leão XIV. Mais do que um documento sobre tecnologia, ela é um convite a redescobrir a beleza da pessoa humana à luz da Encarnação de Cristo.Percorremos o caminho que vai de Babel a Jerusalém, contemplando o desejo de Deus de habitar entre os homens e descobrindo que a verdadeira cidade onde se decide o futuro da humanidade é o coração de cada pessoa.À luz das Sagradas Escrituras, da espiritualidade de Santa Teresa de Jesus, São João da Cruz e Santa Teresinha do Menino Jesus, somos convidados a compreender que a grande resposta da Igreja aos desafios do nosso tempo não é o medo da tecnologia, mas a redescoberta de uma humanidade habitada por Deus.Porque toda grande transformação da história começa quando uma alma se torna morada do Senhor.🎧 Seja muito bem-vindo ao primeiro episódio desta nova jornada do Diálogos da Montanha. Que esta série nos ajude não apenas a compreender a Magnifica Humanitas, mas a permitir que ela ilumine nossa inteligência, fortaleça nossa esperança e dilate nosso coração para Cristo.
Assuntos6
  • Centralidade de CristoO mistério do homem no Verbo Encarnado · Cristo como revelador da verdade sobre o homem · A Encarnação como resposta a Babel
  • Imagem de Deus no Ser HumanoA vocação da alma à semelhança com Cristo · A santidade como acolhimento da graça · Amor de Jesus
  • Babel vs. JerusalémConstrução da civilização humana · O papel de Deus na sociedade · A ilusão da autossuficiência humana
  • A relação humana com a tecnologia e a IAFascínio pelo progresso e IA · Risco antropológico vs. tecnológico · Perda da identidade humana
  • Gratidão e Bem-EstarA alma como criatura e não proprietária · A perda da capacidade de receber · A importância do assombro e da contemplação
  • A Cidade de Deus de Santo AgostinhoA alma como morada divina · A diferença entre autossalvação e graça · Amor de Jesus
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Existe uma pergunta que acompanha silenciosamente toda a história humana. Ela não costuma aparecer nos jornais, nem nas universidades, nem nos grandes debates políticos. No entanto, é ela que decide o destino das civilizações. A pergunta é: que tipo de mundo estamos construindo? Cada geração, meus irmãos, recebe uma herança. Recebe uma língua, uma cultura, uma história, uma fé, cidades já erguidas, estradas abertas por outros, feridas ainda não cicatrizadas e esperanças que atravessaram séculos.

Mas nenhuma geração recebe um mundo acabado. Cada uma precisa acrescentar uma pedra à construção da história. Por isso que a Bíblia fala tantas vezes de cidades. A primeira cidade nasce logo depois da queda. O Gênesis nos diz que Caim, afastando-se da presença do Senhor, construiu uma cidade e lhe deu o nome de seu filho. Não é um detalhe sem importância. A primeira cidade das Escrituras não nasce de um gesto de comunhão, mas de um coração ferido.

Desde então, a cidade tornou-se símbolo daquilo que o homem edifica com as próprias mãos, da sociedade que escolhe construir e da maneira como decide habitar o mundo. Ao longo da história surgiram cidades magníficas, algumas desapareceram sob as areias do deserto, Outras permaneceram de pé como monumentos da inteligência humana. Mas todas elas, cedo ou tarde, responderam à mesma pergunta: havia lugar para Deus entre os seus muros?

Talvez nunca tenhamos percebido que esta é a verdadeira questão da história. Não se trata apenas de uma questão religiosa, é profundamente humana, porque quando Deus desaparece, não é apenas a fé que empobrece, o próprio homem começa a esquecer quem é. E é precisamente neste ponto que começa a nova encíclica do Papa Leão XIV. Em vez de iniciar falando da inteligência artificial ou das novas tecnologias, O Papa contempla a condição da humanidade e afirma que estamos diante de uma escolha decisiva: erguer uma nova Torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos.

Vivemos cercados por discussões sobre algoritmos, redes neurais, automação, robôs, economia digital e inteligência artificial. Poderíamos imaginar que um documento sobre esses temas começaria analisando suas possibilidades e seus riscos. No entanto, o Santo Padre faz algo completamente diferente. Ele nos obriga a dar um passo para trás. Antes de perguntar o que as máquinas serão capazes de fazer, ele nos convida a perguntar quem nós estamos nos tornando.

É uma mudança de perspectiva que é profundamente cristã. O Evangelho nunca começa pelas coisas, começa pelo homem, mais ainda, começa por Deus, porque, para a Igreja, nenhuma época pode ser compreendida apenas pelas transformações que produz. Toda época precisa ser iluminada pela luz da Encarnação. É por isso que, logo nas primeiras linhas da encíclica, Leão Caturra se recorda uma das frases mais belas do Concílio Vaticano II: O mistério do homem só no mistério do Verbo Encarnado se esclarece verdadeiramente.

Repetindo: O mistério do homem só no mistério do Verbo Encarnado se esclarece verdadeiramente. Talvez essa seja uma das frases mais importantes de toda a encíclica. E, ouso dizer, uma das mais importantes de todo o Magistério da Igreja. Vivemos fascinados pela pergunta sobre o futuro. Queremos saber como serão as próximas décadas, quais profissões desaparecerão, que tecnologias surgirão, se as máquinas pensarão como nós ou até nos superarão.

São perguntas legítimas, mas nenhuma delas é a primeira. A primeira pergunta continua sendo a mesma de sempre: quem é o homem? Enquanto essa pergunta permanecer sem resposta, todas as outras serão insuficientes, porque podemos construir cidades extraordinárias e, ainda assim, produzir uma humanidade cada vez mais desorientada. Podemos criar instrumentos de uma eficiência jamais imaginada e, ao mesmo tempo, perder a capacidade de reconhecer o rosto do irmão.

Podemos conquistar o mundo inteiro e permanecer estrangeiros dentro de nós mesmos. E é isso que o Papa percebe: o perigo do nosso tempo não é, em primeiro lugar, tecnológico, não é um perigo tecnológico, É antropológico. O risco não é que as máquinas se tornem humanas, é que os homens deixem de compreender o que significa ser verdadeiramente humano. A imagem escolhida pelo Santo Padre não poderia ser mais feliz: Babel e Jerusalém.

Duas cidades, dois projetos, duas maneiras de compreender o homem. Talvez nós tenhamos reduzido Babel a uma história infantil sobre uma torre inacabada e línguas confundidas. Mas quando voltamos ao texto do Gênesis, percebemos que o problema nunca foi a altura da torre. Deus não teme a inteligência humana, nunca temeu. O problema estava no coração daqueles homens. Eles disseram uns aos outros: construamos para nós uma cidade e uma torre cujo cume toque os céus.

Façamo-nos um nome. Essas últimas palavras são decisivas: Façamo-nos um nome. Não há qualquer menção à glória de Deus, não há qualquer abertura ao dom, não há gratidão, não há acolhimento. Existe apenas um projeto inteiramente fechado sobre si mesmo, É a humanidade tentando garantir a própria grandeza sem receber a grandeza como dom. É o homem procurando alcançar o céu sem precisar levantar os olhos para o céu. Talvez por isso Babel continue sendo uma tentação permanente.

Sempre que acreditamos que bastamos a nós mesmos, voltamos a colocar um tijolinho naquela torre. Sempre que imaginamos que o progresso técnico por si só resolverá o drama humano, acrescentamos mais um andar. Sempre que transformamos a eficiência em critério absoluto, continuamos a construção. Percebam como a encíclica é atual, meus queridos irmãos. O Papa não identifica Babel como uma tecnologia específica, Seria um erro enorme pensar assim.

Babel não é um algoritmo, não é um computador, não é a inteligência artificial. Babel é uma disposição do coração, é a ilusão de que podemos construir uma humanidade plenamente realizada sem nos perguntarmos por Aquele que a criou. É justamente por isso que Leão XIV, Ele não condena a técnica. Ele denuncia algo muito mais profundo: a possibilidade de edificarmos um mundo extraordinariamente sofisticado e, ao mesmo tempo, incapaz de responder à pergunta mais simples de todas: para que existe o homem?

Essa é uma pergunta que nenhuma máquina poderá responder por nós, porque ela não perdeu, Ela não pertence ao campo da técnica, pertence ao campo do sentido, e o sentido nunca nasce daquilo que fabricamos, ele nasce daquilo que recebemos. Talvez aqui devamos fazer uma pequena pausa, porque essa é uma das grandes intuições da tradição cristã: a vida é, antes de tudo, recebida. Ninguém escolheu nascer, ninguém escolheu a própria mãe, ninguém escolheu o próprio nome, ninguém escolheu o primeiro batimento do coração.

Tudo começou como dom. Talvez o primeiro pecado tenha sido justamente esquecer isso, esquecer que somos criaturas. E toda vez que o homem esquece que é criatura, ele passa a viver como proprietário da realidade. Ele deixa de contemplar e passa a controlar. Ele deixa de agradecer e passa a exigir. Ele deixa de adorar e passa a dominar. Não é curioso? Quanto mais cresce nossa capacidade de controlar o mundo exterior, mais difícil parece tornar-se a experiência da gratuidade.

Já não sabemos receber. Recebemos uma mensagem e imediatamente pensamos em responder. Recebemos uma notícia e logo emitimos uma opinião. Recebemos uma paisagem e, antes de contemplá-la, fotografamo-la. Recebemos um encontro e quase imediatamente sentimos a necessidade de registrá-lo. Vivemos cercados de experiências, meus irmãos, mas cada vez menos habituados ao assombro, e sem assombro não existe verdadeira contemplação. É exatamente aqui que Santa Teresa entra discretamente em nossa conversa.

Quando ela escreve O Castelo Interior, Ela não começa ensinando métodos de oração, também não começa oferecendo técnicas para alcançar a perfeição. Ela faz algo muito mais simples e muito mais revolucionário: ela convida a alma a entrar. Porque o grande drama do homem não é apenas construir cidades erradas, é permanecer fora continuamente. Permanecer continuamente fora de casa. Teresa sabe que existe uma torre muito mais perigosa do que Babel.

É aquela que erguemos dentro de nós mesmos, quando ocupamos o centro que pertence somente a Deus. Por isso, ela insiste que, no mais profundo da alma, existe uma morada onde o Senhor já nos espera. Percebam como essa imagem dialoga naturalmente com a Encíclica. Enquanto Babel representa o homem tentando subir até Deus com suas próprias forças, o castelo interior começa lembrando que Deus já desceu para habitar o coração humano.

Toda a diferença entre o cristianismo e qualquer projeto de autossalvação está aqui. Nós não escalamos, até Deus, é Deus quem vem ao nosso encontro. E talvez seja justamente por isso que o Papa escolhe colocar, logo no início da encíclica, o mistério da Encarnação, porque toda esperança cristã começa quando Deus deixa de ser apenas procurado e passa a ser encontrado. Há um momento em que toda reflexão verdadeiramente cristã precisa deixar de olhar para Babel e voltar os olhos para Belém, porque se Babel é a história do homem tentando subir até Deus, Belém é a história de Deus descendo até o homem, e toda a diferença entre essas duas cidades cabe neste único movimento: o homem sobe e Deus desce, o homem constrói, Deus se entrega, o homem procura alcançar o céu, O céu decide habitar a terra.

Fico pensando que talvez não percebamos como a Encarnação é uma resposta silenciosa à Torre de Babel. Na planície de Senar, os homens disseram: Subamos! Em Nazaré, Deus respondeu: Descerei! Em Babel, o homem quis fazer para si um nome. Na Anunciação, o Verbo aceitou esvaziar-se de toda a glória para assumir um nome humano. Não houve disputa, não houve demonstração de força, não houve um raio que destruísse a torre. Houve apenas uma criança.

Que maneira estranha de Deus vencer a soberba do mundo! Nós imaginaríamos um gesto grandioso. Deus responde com um menino, porque o poder divino nunca consiste em esmagar o orgulho, consiste em revelar um amor mais forte do que ele. É por isso que o Papa conduz nosso olhar para Cristo logo nas primeiras páginas da encíclica, antes de falar de inteligência artificial, de falar da economia, de falar da política, de falar da técnica, ele contempla o Verbo feito carne.

E recorda aquela afirmação extraordinária do Concílio Vaticano II: Na realidade, o mistério do homem, só no mistério do Verbo Encarnado, se esclarece verdadeiramente. Talvez passemos rápido demais por essa frase, Mas ela merece que permaneçamos diante dela, porque ela afirma algo quase inacreditável. Nós pensamos que conheceremos o homem estudando o homem. Cristo diz: Olha para mim. Nós acreditamos que a psicologia responderá completamente quem somos.

E Cristo diz: Olha para mim. Nós imaginamos que a biologia explicará a nossa identidade e Cristo responde: Olha para mim. Nós esperamos que a tecnologia nos revele o futuro da humanidade e Cristo continua repetindo: Olha para mim. Porque o homem não é um enigma que se resolve olhando apenas para si mesmo. Ele é um mistério que somente se ilumina quando encontra Aquele em cuja imagem foi criado. Essa talvez seja a maior pobreza da cultura contemporânea: ela observa o homem sem levantar os olhos para Cristo.

É como tentar compreender um ícone olhando apenas para a madeira, ou admirar uma catedral estudando apenas as suas pedras. Falta o sentido, falta a luz, falta o fogo que deu origem a tudo. Cristo não veio apenas ensinar uma moral, nem oferecer um caminho religioso entre tantos outros. Ele veio revelar o homem ao próprio homem. Quando contemplamos Jesus chorando diante do túmulo de Lázaro, Descobrimos que a compaixão não é uma fraqueza.

Quando o vemos tocar os leprosos, compreendemos que a dignidade nunca se perde. Quando o encontramos sentado à mesa com os pecadores, percebemos que nenhuma história está definitivamente encerrada. Quando o vemos lavar os pés dos discípulos, entendemos que a autoridade existe para servir. E, quando o contemplamos na Cruz, descobrimos que o Amor é mais verdadeiro do que o poder. Percebam, meus queridos ouvintes, como tudo muda.

Já não perguntamos apenas o que é possível fazer, perguntamos o que Cristo faria. Já não basta perguntar: essa tecnologia funciona? Precisamos perguntar: ela ajuda o homem a tornar-se mais semelhante a Cristo? Porque a medida da humanidade não é a eficiência, é Jesus. E talvez essa seja uma das afirmações mais interessantes da Magnificat Humanitas. O Papa não propõe uma ética construída sobre consensos passageiros, Ele não procura simplesmente estabelecer limites para o uso da inteligência artificial.

Ele nos recorda que existe um rosto diante do qual toda tecnologia deve ser julgada: o rosto de Cristo. É ele quem revela a verdade sobre Deus, mas é também ele quem revela a verdade sobre nós. Nesse ponto, as palavras que São João da Cruz diz adquirem uma luminosidade extraordinária. Toda a sua doutrina espiritual parte desta convicção: a vocação da alma é tornar-se semelhante àquele que contempla, não por suas próprias forças, mas pela ação da graça.

João chega a afirmar que a alma transformada pelo amor parece ser o próprio Deus por participação. Meus queridos, que expressão ousada! É muito ousado e, no entanto, é profundamente cristã, porque, desde a Encarnação, Deus já não permanece apenas diante do homem, Ele deseja viver nele. Talvez seja isso que, tantas vezes, nós esquecemos. A vida cristã não consiste, antes de tudo, em imitar Cristo de fora para dentro, consiste em permitir que Cristo viva em nós.

É São Paulo quem diz que já não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim. E quando essa verdade penetra o coração, toda a discussão sobre o futuro ganha uma perspectiva completamente nova. O problema já não é saber até onde a inteligência artificial poderá chegar. A verdadeira pergunta passa a ser outra: até onde deixaremos Cristo transformar a nossa humanidade? Porque somente uma humanidade configurada ao Filho poderá construir uma cidade verdadeiramente humana.

Todo o restante, por mais impressionante que pareça, continuará sendo apenas outra torre erguida na planície de Babel. Se Cristo revela quem é o homem, então a pergunta deixa de ser apenas intelectual. Ela torna-se profundamente pessoal, porque não basta saber quem é Cristo, é preciso descobrir quem eu sou diante dele. Esta é a maior diferença entre o cristianismo e uma filosofia. Uma filosofia transmite ideias, Cristo chama pessoas.

Ele nunca perguntou aos discípulos: Compreendestes perfeitamente a minha doutrina? Perguntou-lhes: Vinde após mim. A Verdade Cristã não é apenas algo que se entende, é alguém que se segue. É por isso que o Papa insiste que a grande tarefa da nossa geração Não consiste apenas em administrar corretamente as novas tecnologias, mas em salvaguardar a pessoa humana. Toda a encíclica nasce dessa preocupação. O desenvolvimento técnico será uma bênção ou uma tragédia conforme conservarmos viva essa convicção: o homem possui uma dignidade que nenhuma máquina pode produzir.

E nenhum poder pode conceder, porque ela nasce do próprio Deus. Mas onde essa dignidade pode ser contemplada? Onde ela se torna quase visível? E talvez aqui Santa Teresa de Jesus possa nos tomar pela mão. Novamente, quando ela escreveu O Castelo Interior, ela não começou descrevendo as virtudes dos santos, nem os êxtases dos grandes místicos. Ela começou dizendo algo que continua surpreendendo depois de tantos séculos: a alma humana é um castelo feito de um cristal tão puro que mal conseguimos imaginar sua beleza.

Vejam que ousadia dessa imagem! Nós costumamos olhar para nós mesmos a partir das nossas fraquezas. Teresa olha a partir daquilo que Deus criou, Nós começamos pelos pecados, ela começa pela beleza. Nós vemos rachaduras, ela contempla a obra do artista. E eu acho que é isso que falta à nossa época. Nós aprendemos a medir quase tudo: a produtividade, o desempenho, a influência, o patrimônio, o número de seguidores, a velocidade dos computadores.

A capacidade dos algoritmos, mas desaprendemos a contemplar uma alma. Quando foi a última vez que você, meu irmão, parou diante de uma pessoa apenas para reconhecer o mistério que ela carrega? Sem julgá-la, sem classificá-la, sem perguntar sua profissão, sua ideologia ou sua utilidade. Apenas porque ela é uma alma criada para a eternidade. Isso nos fala, meus irmãos, do olhar de Cristo. Quando Jesus encontrava alguém, nunca via apenas uma função, não via apenas um pescador, nem apenas um cobrador de impostos, nem apenas uma pecadora, nem apenas um cego.

Via sempre uma pessoa chamada à comunhão com o Pai. É por isso que cada encontro do Evangelho devolve dignidade. Jesus nunca reduz ninguém ao seu passado, nem resume uma pessoa ao seu pecado, nem nunca mede alguém pela sua eficiência. Ele sempre olha mais profundamente, porque conhece o lugar onde Deus deseja habitar. E agora compreendemos melhor a beleza da Encarnação. Deus não assumiu uma humanidade abstrata. Ele assumiu um rosto, uma voz, um coração, mãos que trabalharam, olhos que choraram, pés que caminharam pelas estradas poerentas da Galileia.

Ao fazer-se homem, O Filho de Deus declarou, para sempre, que o humano é digno de ser habitado por Deus. Essa é uma afirmação que eu diria que é revolucionária no cristianismo. Não precisamos escapar da nossa humanidade para encontrar Deus. Precisamos permitir que Deus transfigure a nossa humanidade. E é aqui que Santa Teresinha entra em cena de maneira quase inevitável, porque se Teresa de Jesus nos conduz ao centro da alma, Teresinha nos mostra como Deus gosta de agir nesse centro, não através do extraordinário, mas do pequeno.

Ela nunca desejou deixar de ser humana, nunca sonhou em possuir capacidades excepcionais, nunca imaginou que a santidade consistisse em tornar-se diferente das outras pessoas. Seu desejo era infinitamente mais simples: ela queria que Jesus pudesse amar através dela. Isso fala de uma diferença enorme entre essas duas maneiras de viver. Enquanto o mundo procura ampliar as próprias capacidades, o santo procura ampliar o espaço dado à Graça.

Enquanto o mundo pergunta: até onde posso chegar?, Teresinha perguntaria: até onde posso confiar? O mundo deseja crescer em poder, ela deseja crescer em abandono. E aqui percebemos algo muito atual. Vivemos numa cultura fascinada pelo aperfeiçoamento. Sempre há uma nova técnica, um novo método, um novo curso, um novo recurso, uma nova atualização. Tudo parece dizer que ainda não somos suficientes, que precisamos acrescentar alguma coisa para, enfim, nos tornarmos completos.

O Evangelho segue em outra direção. Ele não começa acrescentando, começa recebendo, recebendo o amor do Pai, recebendo a graça recebendo Cristo, recebendo uma vida que não podemos fabricar. E, por isso, Teresinha jamais se cansou de repetir a confiança, porque ela compreendeu que a santidade não consiste em produzir uma humanidade superior, consiste em acolher a humanidade que Cristo veio restaurar. E, então, começamos a compreender a com a delicadeza da magnífica Humanitas.

O Papa não escreve uma encíclica contra a inteligência artificial, ele escreve uma encíclica a favor do homem, mais ainda, a favor daquela humanidade que resplandece plenamente quando Deus encontra finalmente uma morada no coração da sua criatura. Acho que essa é a verdadeira resposta da Igreja. Ao nosso tempo. Não o medo, não a nostalgia, nem o entusiasmo ingênuo diante da técnica, mas a redescoberta da beleza de uma alma habitada por Deus.

Porque uma única alma assim vale mais do que todas as Torres de Babel que os homens ainda possam construir. E pode ser que alguém esteja ouvindo esse episódio e pensando: Mas o que tudo isso muda na minha vida? Muda tudo, porque as grandes transformações da história nunca começaram apenas nas praças, começaram nos corações. Babel não nasceu quando a torre começou a ser construída, ela nasceu quando os homens decidiram viver como se Deus fosse desnecessário.

E Jerusalém não começou quando suas muralhas foram erguidas. Ela começou quando um povo aprendeu, ainda que tantas vezes de maneira imperfeita, que a verdadeira segurança não estava nas pedras, mas na aliança. É por isso que a Igreja nunca acredita que uma civilização possa ser renovada apenas por reformas exteriores. As leis são importantes, as instituições são necessárias, a ciência é um dom, a técnica pode tornar-se um instrumento precioso para aliviar o sofrimento humano, favorecer o encontro entre os povos e promover o bem comum.

O próprio Papa reconhece isso ao longo da encíclica, mas ele insiste que tudo isso precisa permanecer ordenado à dignidade da pessoa e ao seu desenvolvimento integral. Nenhuma ferramenta é capaz de substituir um coração convertido. Porque toda cultura é, antes de tudo, o reflexo de uma determinada visão do homem. Quando esquecemos quem somos, acabamos esquecendo também como devemos viver. E essa é uma grande contribuição da encíclica.

Ela não se deixa fascinar pelo brilho das novidades, também não se deixa paralisar pelo medo. Ela faz aquilo que a Igreja sempre fez diante das grandes mudanças da história: ela volta os olhos para Cristo. E, olhando para Cristo, redescobre o homem. Que extraordinária serenidade existe nisso, meus irmãos! Enquanto tantos procuram adivinhar o futuro, A Igreja contempla Aquele que é o mesmo ontem, hoje e sempre. Enquanto tantos perguntam o que acontecerá com as máquinas, a Igreja continua perguntando o que acontecerá com a alma.

Enquanto tantos imaginam uma humanidade aumentada pela técnica, a Igreja continua anunciando uma humanidade transfigurada pela graça. E essa é a esperança que o nosso tempo mais necessita ouvir. Porque existe uma diferença entre aperfeiçoar uma máquina e amadurecer uma pessoa. Uma máquina pode tornar-se mais rápida, mais eficiente, mais precisa, mas somente uma pessoa pode tornar-se mais humilde. Mais misericordiosa, mais livre, mais capaz de amar.

E é isso que Deus deseja realizar em nós: não fabricar uma humanidade diferente, mas restaurar aquela humanidade que saiu de suas mãos no princípio. Talvez por isso o Papa tenha escolhido um título tão belo para sua encíclica: Magnifica Humanitas. Não é uma humanidade qualquer, não uma humanidade orgulhosa de suas conquistas, nem uma humanidade diminuída pelo medo, mas uma humanidade que reencontra a sua própria beleza porque voltou a contemplar o rosto de Cristo.

Penso muitas vezes que passamos tempo demais perguntando como será o mundo daqui a 50 anos. Talvez devêssemos perguntar outra coisa: que tipo de homens e mulheres existirão daqui a 50 anos? Haverá pessoas capazes de permanecer em silêncio diante de Deus? Haverão famílias que rezem juntas? Haverá jovens que descubram a alegria da santidade? Haverá homens e mulheres dispostos a servir sem buscar reconhecimento? Haverá corações suficientemente livres para amar mais do que consumir?

Porque, se essas pessoas existirem, também existirá esperança para qualquer civilização. No fim das contas, toda a história humana continua resumindo-se à mesma escolha apresentada nas primeiras páginas da Bíblia: construiremos cidades onde Deus seja apenas tolerado ou cidades onde ele possa verdadeiramente habitar? E talvez essa pergunta deva ser feita, antes de tudo, não às nações, mas a nós mesmos. O meu coração tornou-se uma morada?

Há espaço para Deus nas decisões que eu tomo, na maneira como eu trabalho, na forma como utilizo a tecnologia, naquilo que desejo, naquilo que temo, naquilo que amo? Porque é sempre assim que Deus transforma o mundo, nunca começando pelas multidões, sempre começando por uma alma. Foi assim com Abraão, com Moisés, com os profetas, com os apóstolos. Foi assim com Teresa de Jesus, escondida entre as paredes de um Carmelo. Foi assim com João da Cruz, escrevendo na escuridão de uma cela.

Foi assim com Teresinha, cuja vida parecia pequena demais para mudar alguma coisa. E foi assim, sobretudo, com uma jovem de Nazaré, Quando Maria pronunciou o seu faça-se, fiat, ninguém imaginava que a história inteira havia começado a mudar. Não houve exércitos, não houve discursos, não houve demonstrações de poder. Houve apenas uma alma que abriu espaço para Deus. E essa é a resposta definitiva para Babel. Não é construir uma torre mais alta, mas tornar-se uma casa, uma casa onde o Verbo possa continuar habitando, uma casa onde o Evangelho possa voltar a tomar carne, uma casa onde cada pessoa que entrar possa reconhecer, ainda que confusamente, o perfume de Cristo.

É por isso que iniciamos essa série contemplando a grande procura da humanidade. Nos próximos episódios, veremos como a Magnifica Humanitas desenvolve essa resposta. Quem é o homem à luz de Deus? Como discernir a técnica? Como proteger a verdade, o trabalho e a liberdade? E como construir, mesmo na era da inteligência artificial, uma verdadeira civilização do amor? Mas nada disso será possível se esquecermos aquilo que aprendemos hoje.

Toda grande transformação da história começa quando Deus encontra, enfim, um lugar onde possa habitar. Que ele o encontre em nossas cidades, que o encontre em nossas famílias, que o encontre em nossa igreja, mas antes de tudo, que o encontre em nosso coração. Que Deus te abençoe, em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo. Amém. Nos encontramos em nosso próximo episódio.

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