Aprender a dar lugar a Cristo
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- Perdão a si mesmoMortificação do eu · Virtudes interiores · Amor-próprio
Toda casa acaba parecendo com quem a habita. Talvez por isso existam lugares onde basta atravessar a porta para experimentarmos uma paz difícil de explicar. Não depende da beleza dos móveis, da organização dos cômodos ou da idade da construção. Há casas simples que acolhem como um abraço E há casas impecáveis onde o coração parece inquieto. Existe uma presença invisível que, aos poucos, vai marcando as paredes, os silêncios, as conversas, os pequenos gestos repetidos durante anos.
Uma casa nunca é apenas feita de tijolos. Ela guarda a maneira como as pessoas aprendem a amar. Talvez seja essa a primeira coisa que Santa Teresa queira nos ensinar nesses capítulos 14 e 15. Quando abrimos o Caminho de Perfeição, imaginamos que encontraremos rapidamente páginas sobre contemplação, recolhimento e intimidade com Deus. Em vez disso, Teresa passa longos capítulos falando da vida comum, da humildade, do desapego, da caridade fraterna e, agora, do discernimento para acolher novas irmãs e da liberdade de não precisarmos justificar continuamente a nós mesmos.
À primeira vista, parece uma mudança de assunto, mas apenas à primeira vista, porque Teresa nunca perdeu desvio da meada, vamos dizer assim. Ela nunca perdeu de vista aquilo que realmente interessa: ela está preparando uma casa onde Cristo seja verdadeiramente o Senhor. No capítulo 14, ela pede às irmãs que tenham prudência ao receber quem deseja entrar no mosteiro. Não basta uma boa impressão, não basta entusiasmo, É preciso tempo, é preciso observar se existe um coração capaz de aprender, de deixar-se formar, de aceitar um modo de viver que não nasceu de si mesmo.
Lendo essas páginas, talvez sejamos tentados a pensar que Teresa está apenas protegendo sua comunidade, mas ela está protegendo algo muito mais precioso. Ela sabe que toda casa possui um modo de respirar. Quem chega não encontra apenas um conjunto de regras, encontra uma história, uma memória, uma forma de amar a Cristo que foi sendo construída lentamente, muitas vezes entre lágrimas, sacrifícios, recomeços. Por isso Teresa usa uma imagem tão forte: receber alguém sem o devido discernimento pode ser como deixar um ladrão entrar dentro de casa.
A imagem impressiona. Um ladrão quase nunca destrói uma casa de uma só vez. Ele leva uma coisa hoje, outra amanhã, até que um dia percebemos que aquilo que tornava aquela casa única desapareceu. E o mesmo acontece com a vida espiritual. Nem sempre nos afastamos de Deus por grandes rupturas. Às vezes, perdemos pouco a pouco a simplicidade, depois a docilidade, depois a capacidade de escutar, depois a alegria de aprender. E, quando percebemos, continuamos vivendo na mesma casa, mas já não respiramos o mesmo espírito.
E Teresa conhece esse perigo. Não porque ela desconfia das pessoas, mas porque ela conhece o coração humano. Ela sabe que existe uma diferença profunda entre entrar numa casa para habitá-la e entrar numa casa para remodelá-la segundo os próprios gostos. E não se engane, meus queridos irmãos, meus queridos ouvintes, todos nós carregamos essa tentação. Chegamos aos lugares trazendo nossas experiências, nossas ideias, nossas preferências, e sem perceber começamos a medir tudo por aquilo que já sabemos.
A pergunta deixa de ser: o que essa casa pode me ensinar? E passa a ser: por que essa casa não funciona como eu faria? É um movimento quase imperceptível, mas é suficiente para interromper o aprendizado, porque só aprende quem ainda aceita Não ocupar o centro. Por isso que Teresa não procura, antes de tudo, pessoas inteligentes, fortes ou talentosas. Ela procura pessoas ensináveis. Essa palavra, nem sei se ela existe, ensinável.
Eu acho que existe. Essa palavra talvez não apareça literalmente no texto, mas ela descreve admiravelmente aquilo que ela contempla. Um coração ensinável não é um coração vazio de inteligência, é um coração suficientemente livre para deixar que Cristo conduza por caminhos que jamais escolheria sozinho. Esse é o primeiro alicerce da casa, não é o talento. Não é a competência ou a docilidade. E é justamente quando pensamos que Teresa continua falando daqueles que desejam entrar no Carmelo que ela nos surpreende.
Seu olhar muda de direção. A porta da casa deixa de ser o centro e agora ela começa a olhar para aqueles que já vivem dentro dela. E é curioso perceber como ela faz essa passagem. Ela não muda de assunto. Ela apenas aprofunda o assunto, porque uma casa não é preservada apenas pelo cuidado com quem entra. Ela permanece viva pelo modo como aqueles que já vivem nela aprendem a amar. É então que Teresa inicia o capítulo seguinte, capítulo 15, de uma forma muito peculiar.
Ela não começa corrigindo as irmãs. Também não lhes apresenta um ideal de perfeição. Antes de tudo, ela fala de si mesma. Ela confessa com grande humildade que sente quase vergonha de tratar daquela virtude, porque reconhece o quanto ainda lhe custa vivê-la. Que diferença existe entre um mestre e uma mãe? O mestre ensina a partir daquilo que domina. A mãe ensina a partir daquilo que continua aprendendo. Acho que é por isso que a leitura de Teresa nunca pesa sobre os ombros de quem lê.
Ela conhece a luta, ela conhece a resistência do próprio coração, ela conhece o caminho lento pelo qual Deus educa uma alma. E justamente por conhecer esse caminho, ela pode conduzir outros por ele. A virtude de que ela passa a falar parece, à primeira vista, muito pequena. Ela convida as irmãs a não procurarem justificar-se continuamente quando forem julgadas injustamente, sempre que o silêncio não trouxer prejuízo à verdade ou ao próximo.
Talvez, ouvindo isso, alguém pense que Teresa está propondo apenas uma regra de boa convivência, mas ela enxerga muito mais longe. Ela conhece um movimento que todos nós experimentamos. Basta uma palavra mal compreendida, uma crítica, um comentário infeliz ou um comentário injusto, quase imediatamente nasce dentro de nós o desejo de explicar, de reconstruir os fatos, de mostrar que somos interpretados de maneira equivocada. É impressionante como esse impulso aparece depressa.
Às vezes a conversa termina, as pessoas voltam para suas casas, mas nós continuamos respondendo, continuamos organizando argumentos, continuamos imaginando como deveríamos ter reagido. Passamos horas tentando vencer uma discussão que já acabou. Talvez todos conheçamos esse tribunal invisível. Nele voltamos continuamente aos mesmos acontecimentos. Procuramos convencer pessoas que nem sequer estão mais presentes. E sem perceber, entregamos nossa paz ao julgamento delas.
Teresa contempla esse movimento com enorme delicadeza. Ela não despreza o desejo de sermos compreendidos. Ela sabe que isso pertence à nossa fragilidade. O que ela deseja libertar é algo mais profundo. Por que a nossa paz depende tanto da opinião dos outros? Por que uma única palavra consegue ocupar tanto espaço dentro de nós? Por que sentimos necessidade de proteger continuamente uma imagem que construímos de nós mesmos? Essas perguntas talvez não apareçam formuladas exatamente assim no texto, Mas elas parecem brotar de cada linha.
Então Teresa faz aquilo que ela sempre faz quando estamos olhando para nós mesmos: ela muda discretamente a direção do nosso olhar. Ela nos faz olhar para Cristo, não para um Cristo idealizado, mas para o Cristo dos Evangelhos, o Cristo que foi chamado de blasfemo, de amigo dos pecadores, de endemoniado, o Cristo que suportou falsas testemunhas, que permaneceu em silêncio diante de Herodes, que ouviu insultos sem transformar a própria defesa na sua maior preocupação.
É por isso que Teresa pode afirmar que existe um grande bem em aceitar certas acusações sem imediatamente responder a elas, não porque o sofrimento possua algum valor em si mesmo, nem porque a injustiça deva ser desejada, mas porque, nesse instante, deixamos de perguntar a nós mesmos: Como posso preservar a minha imagem? E começamos, enfim, a nos perguntarmos: Como posso permanecer unido a Cristo? Essa é uma diferença, meu irmão.
A questão não, já não é mais psicológica nem moral, é cristológica. O centro da vida espiritual deixa de ser o aperfeiçoamento de mim mesmo e passa a ser a configuração com Jesus. Teresa não deseja formar pessoas capazes de suportar humilhações, ela deseja formar discípulos, homens e mulheres cujo coração esteja tão voltado para Cristo que o amor-próprio deixe, pouco a pouco, de governar todas as suas reações. É nesse ponto que compreendemos a unidade dos dois capítulos, o capítulo 14 e o 15.
No primeiro, Teresa parecia nos perguntar: quem pode entrar nessa casa? E agora a pergunta tornou-se outra: quem realmente habita essa casa? Porque o maior perigo nunca foi apenas acolher alguém sem discernimento. O maior perigo é permitir que o velho eu, sempre preocupado consigo mesmo, continue ocupando o lugar principal. E enquanto ele permanecer sentado no centro da casa, toda a paz será frágil. Bastará uma contrariedade para que tudo volte a girar ao seu redor.
Mas quando Cristo ocupa esse lugar, tudo começa silenciosamente a mudar. Quando Cristo ocupa esse lugar, tudo começa silenciosamente a mudar. Não muda porque nos tornamos pessoas mais fortes, nem porque aprendemos uma técnica de domínio de si mesmo. Muda porque deixamos, pouco a pouco, de viver voltados para nós mesmos. No capítulo 15 tem uma passagem que chama muita atenção. Depois que ela fala da humildade, da liberdade de não nos desculparmos continuamente, Teresa recorda uma cena do Evangelho.
E aí ela Ela lembra Maria Madalena na casa do fariseu. Enquanto muitos a julgavam, foi o próprio Senhor quem tomou a sua defesa. E aí Teresa faz uma pergunta muito interessante: E pensais, filhas, abre aspas, né? E pensais, filhas, que ainda que vós não vos desculpeis, há de faltar quem tome a vossa defesa? Olha, meus queridos, que pergunta, que pergunta extraordinária, que coisa interessante! Percebemos de repente que Teresa não está ensinando uma estratégia de comportamento, ela está ensinando confiança.
Nós nos justificamos tanto porque no fundo acreditamos que tudo depende de nós, depende da nossa capacidade de convencer da nossa habilidade para explicar, da imagem que conseguimos preservar diante das pessoas. E Teresa responde com uma serenidade que só pode nascer de uma vida inteira apoiada em Deus: Se for necessário, o próprio Senhor suscitará quem fale por nós. E se não suscitar, talvez seja porque aquela defesa nunca foi realmente necessária.
Perceba, meu querido ouvinte, como isso desloca completamente o centro da vida espiritual. Já não vivemos para administrar a impressão que causamos, vivemos diante do olhar de Deus. E eu vou dizer para vocês que essa é uma das maiores libertações de que Teresa fala. Ela mesma diz que, com o tempo e com a graça do Senhor, a alma começa a experimentar uma liberdade tão grande que ouvir elogios ou críticas parece quase um assunto que diz respeito a outra pessoa.
Não porque se torne insensível, mas porque deixa de fazer de si mesma o centro permanente da atenção. É uma liberdade que impressiona, impressiona, porque nós vivemos numa época em que nós gastamos uma enorme quantidade de energia tentando controlar a maneira como somos vistos. Nós queremos ser compreendidos, reconhecidos, queremos nos sentir justificados, aprovados, validados. Teresa aponta para outro caminho, não o caminho do desprezo pelas pessoas, mas o caminho da liberdade.
A liberdade de quem descobriu que existe um olhar infinitamente mais importante do que todos os outros. E é aqui que ela mais uma vez nos surpreende. Porque essa liberdade não nasce do esforço, ela nasce da contemplação de Cristo. Há um ponto no texto em que Teresa interrompe o raciocínio para dirigir-se diretamente ao Senhor. É uma oração mais do que uma explicação. Ela contempla Jesus inocente carregando acusações que jamais mereceu e então exclama: Ó Senhor meu, Quando penso de quantas maneiras padecestes e que de nenhuma o merecies, não sei o que diga de mim, nem onde estou quando me desculpo.
Observem, meus queridos ouvintes, Teresa não olha para si. Se olhasse para a própria honra, parecia indispensável defendê-la. Mas, quando levanta-se os olhos para Cristo, não se trata de considerar como preservar a minha imagem, mas de como posso querer que pensem bem de mim quando disseram tantas coisas falsas daquele que é o Bem sobre todos os bens? Esse é o ponto em que o capítulo deixa de ser uma exortação moral e se transforma em contemplação.
Teresa não vence o amor-próprio lutando diretamente contra ele. Ela contempla Cristo, e Cristo se torna tão grande que o amor-próprio perde lentamente o lugar central. Teresa nunca nos pede para olhar continuamente para as nossas imperfeições. Ela nos ensina a olhar para Jesus, porque é somente diante dele que descobrimos a verdade sobre nós mesmos sem cair no desespero. É somente diante dele que a humildade deixa de ser humilhação e se torna liberdade.
É somente diante dele que deixamos de viver prisioneiros da necessidade de provar quem somos. E então compreendemos que os capítulos 14 e 15 nunca trataram de assuntos diferentes. O primeiro perguntava quem pode entrar na casa. O segundo revela quem ainda insiste em permanecer sentado no lugar que pertence ao Senhor. No fundo, é como se ambos nos perguntassem: quem governa essa casa? Porque uma comunidade só permanece fiel quando Cristo é o seu centro, e uma alma só encontra repouso quando deixa de disputar com Ele esse mesmo lugar.
E talvez seja aqui que compreendamos por que Teresa demora tanto a começar a falar de oração. Durante muitos anos eu li essas páginas, os primeiros 18 capítulos do livro, como uma longa preparação. Parece que ela fala, fala, fala, fala, fala, fala, mas assim, e aí você fica naquela expectativa: não, mas agora ela vai começar a falar de oração, mas no próximo ela vai falar de oração. Mas não. Hoje eu fico pensando que, assim, Teresa já está falando de oração desde o primeiro capítulo, só que ela ainda não pronunciou esse termo, porque, no fundo, o que é rezar?
Será apenas fechar a porta do quarto? Será encontrar alguns minutos de silêncio? Será multiplicar palavras dirigidas a Deus? Teresa parece responder de outra maneira: A oração começa quando Cristo deixa de ser um visitante e passa a ser o Senhor da casa. Enquanto tudo gira em torno do nosso amor próprio, até podemos rezar longamente, podemos cumprir horários, escolher boas leituras, encontrar momentos de silêncio, mas o coração, o coração continua ocupado demais consigo mesmo, e um coração ocupado demais consigo mesmo dificilmente consegue repousar em Deus.
Por isso Teresa insiste tanto nas virtudes interiores. Ela chega até a dizer que ela gostaria que essas virtudes interiores fossem a verdadeira penitência das suas irmãs, muito mais do que os rigores corporais, porque fortalecem a alma e preparam para as grandes batalhas. Olha que observação admirável! Ela não despreza a penitência, mas ela sabe que existe uma mortificação muito mais profunda. Não é mortificar o corpo, É mortificar esse eu que deseja constantemente ocupar o primeiro lugar.
E essa luta acontece quase sempre em coisas muito pequenas: na palavra que decidimos não responder, na crítica que acolhemos sem imediatamente organizar uma defesa, na alegria sincera diante do bem realizado por outra pessoa, na capacidade de reconhecer que nem sempre nossa opinião precisa prevalecer. É aí que a casa vai sendo transformada, não através de grandes acontecimentos, mas por pequenos deslocamentos do coração. Aos poucos, Cristo encontra espaço, e quando Cristo encontra espaço, tudo começa a adquirir outra proporção.
A crítica já não possui o mesmo peso, e o elogio também não. O sucesso deixa de nos embriagar e o fracasso deixa de nos destruir, não porque tenhamos nos tornado indiferentes, mas porque nossa vida já não depende dessas coisas para saber quem somos. E Teresa chama isso de liberdade, uma liberdade que não nasce da autossuficiência, uma liberdade que nasce do desprendimento de nós mesmos e do favor de Deus. É bonito perceber que ela não apresenta essa liberdade como um privilégio reservado a poucas almas extraordinárias.
Ela diz simplesmente: Eu sei que se pode alcançar, não porque ela confia na força humana, mas porque confia na ação paciente da graça. Teresa nunca separa o esforço da graça. Ela nunca diz: basta esforçar-se, nem diz: basta esperar que Deus faça tudo. Ela conhece o caminho da amizade. Nós damos pequenos passos, Deus realiza a transformação. É por isso que o caminho de perfeição, ele não soa como um código de virtudes. Eles parecem muito mais como uma educação lenta, de um coração.
E aqui está meio que escondida uma das lições mais bonitas desses capítulos. No começo, Teresa parecia preocupada com a comunidade, queria preservar o espírito do Carmelo, queria proteger suas irmãs, queria evitar que um, entre aspas, ladrão roubasse o tesouro da casa. Agora, percebemos que esse tesouro Nunca foi apenas o mosteiro. O verdadeiro tesouro era um coração onde Cristo pudesse viver sem encontrar resistência. Por isso, o ladrão mais perigoso não é apenas aquele que entra pela porta, é aquele que já mora dentro de nós: o desejo de reconhecimento, a necessidade de controlar, a dificuldade de aprender, a insistência.
Em defender continuamente a própria honra. São eles que pouco a pouco roubam a paz da casa, e é justamente deles que Cristo deseja nos libertar, não para nos diminuir, mas para que sejamos verdadeiramente livres. Porque uma casa onde todos disputam o centro nunca conhecerá a paz, mas uma casa onde todos reconhecem o verdadeiro Senhor torna-se, silenciosamente, um lugar onde Deus gosta de permanecer. Para mim, é isso que Teresa vai tentando construir no coração das suas irmãs de fé desde a primeira página do Caminho de Perfeição.
Não um convento perfeito, mas uma casa onde Cristo pudesse sentir-se em casa. Talvez agora possamos voltar ao lugar onde começamos. Você se lembra da primeira frase que começamos nosso episódio? Eu dizia que toda casa acaba parecendo com quem a habita. No início, ela parecia falar apenas das casas que conhecemos. Depois percebemos que ela falava de uma comunidade. Agora compreendemos que Teresa sempre esteve falando da alma. Afinal, toda alma acaba revelando quem a habita.
Talvez seja por isso que Teresa jamais separa a oração da vida. Nós costumamos fazer essa separação. Imaginamos que existe um momento para rezar e outro para viver, um momento para estar com Deus e outro para resolver as pequenas coisas do dia. Teresa não conhece essa divisão. Para ela, a maneira como acolhemos uma correção como escutamos uma irmã, como reagimos a uma injustiça ou como recebemos alguém que chega à comunidade, já faz parte da oração.
Não porque essas coisas substituam a oração, mas porque preparam o coração para reconhecer Aquele com quem irá conversar. Como poderia uma alma recolher-se diante de Deus se passa o dia inteiro recolhida em si mesma? Como poderia descansar nele se continua gastando todas as suas forças defendendo a própria imagem? Como poderia escutar sua voz se ainda fala sem cessar consigo mesmo? Percebemos, então, que Teresa não estava adiando o tema da oração.
Ela estava removendo, uma a uma, as paredes que nós mesmos construímos dentro da casa. E é justamente por isso que esses capítulos terminam falando de liberdade. Não da liberdade de fazermos o que queremos, mas da liberdade de finalmente deixar de viver prisioneiros de nós mesmos. Uma liberdade que não nasce quando vencemos todas as discussões, nasce quando já não precisamos vencê-las. Uma liberdade que não consiste em nunca sermos acusados, outros, mas em descobrir como nossa paz não depende mais da acusação nem da defesa.
Uma liberdade que não nos torna indiferentes ao mundo, pelo contrário, torna-nos disponíveis para amar. Porque o amor próprio exige continuamente que olhem para nós. O amor de Cristo nos faz olhar continuamente para os outros. Por isso que Teresa insiste tanto em contemplar Jesus. Ela sabe que ninguém se torna humilde porque decidiu ser humilde. Ninguém deixa de amar a própria honra simplesmente porque compreendeu que ela é um obstáculo.
O coração muda quando encontra um amor maior. Foi isso que aconteceu com Teresa. Ela contemplou Cristo tantas vezes que, pouco a pouco, sua própria vida começou a organizar-se ao redor dele. Não foi uma conquista, foi uma atração. E é isso que ela deseja para suas irmãs: não uma comunidade impecável ou pessoas capazes de cumprir perfeitamente uma regra, mas pessoas cuja vida inteira gravite ao redor de Cristo. E aí então, sem perceber, a casa muda, as conversas mudam, Os silêncios mudam, o modo de corrigir muda, o modo de servir muda, até os sofrimentos mudam, não porque desapareçam, mas porque deixam de ser vividos solitariamente.
Cristo já não é um visitante que chega durante alguns minutos de oração. Ele é o habitante, é o Senhor daquela casa. Essa é a grande surpresa. Dos capítulos 14 e 15. Pensávamos que Teresa nos ensinaria a escolher melhor quem entra na comunidade e a suportar melhor as injustiças. Ela fez muito mais do que isso. Ensinou-nos a reconhecer tudo aquilo que ainda disputa com Cristo o centro da casa. E fez isso sem violência, sem discursos severos, sem moralismo, apenas conduzindo lentamente o nosso olhar para Jesus.
Esse é o segredo da sua pedagogia: ela nunca nos prende em nós mesmos, ela sempre nos devolve a Cristo. É por isso que esses capítulos dizem muito mais do que parecem dizer à primeira vista. Não estamos diante de simples conselhos para uma boa convivência fraterna. Estamos aprendendo a reconhecer tudo aquilo que ainda impede o coração de pertencer inteiramente ao Senhor. Pouco importa se a ocasião é a chegada de uma nova irmã, uma palavra injusta, uma humilhação ou a vontade de defender a própria honra.
Em todas essas circunstâncias, Teresa nos conduz sempre ao mesmo lugar: ali onde precisamos decidir quem ocupará o centro da casa. Porque uma alma cheia de si dificilmente encontrará espaço para Deus, mas uma alma que pouco a pouco deixa de exigir o primeiro lugar começa a descobrir uma liberdade que o mundo não pode oferecer. Já não precisa vencer todas as discussões, já não precisa justificar cada gesto, já não precisa viver protegendo a própria imagem.
Descansa simplesmente em saber que pertence a Cristo. É por isso que Teresa insiste tanto nessas pequenas vitórias escondidas. Não são virtudes cultivadas por amor à perfeição, são gestos pelos quais o coração vai aprendendo a amar com mais humildade. Cada renúncia ao amor próprio abre um espaço novo para a ação da graça. Cada ato de humildade alarga um pouco mais a morada interior. No fundo, é esse o trabalho silencioso que Teresa realiza desde o início do Caminho de Perfeição.
Antes de nos ensinar qualquer prática, ela deseja formar um coração inteiramente disponível ao Senhor, um coração que não apenas pronuncie palavras dirigidas a Deus, mas que tenha aprendido a viver voltado para ele. Por isso esses capítulos conservem uma atualidade tão impressionante. Também nós corremos o risco de buscar uma vida espiritual sem permitir que Cristo transforme aquilo que há de mais concreto em nossa maneira de viver, de reagir, de amar e de conviver.
Teresa nos recorda que não existe separação entre essas coisas. É na trama da vida cotidiana que o Senhor prepara pacientemente a sua morada. Ao fecharmos esses capítulos, seja menos sobre aquilo que fazemos por Cristo e mais sobre o espaço que realmente lhe oferecemos, porque toda casa acaba adquirindo os traços de quem a habita. E a grande esperança de Teresa é que um dia, olhando para a nossa vida, os outros possam reconhecer não a força do nosso caráter, nem a perfeição das nossas virtudes, mas a presença serena daquele que fez do nosso coração a sua morada.
Que Deus te abençoe, meu querido irmão. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém. Nos encontramos em nosso próximo episódio.