Episódios de Diálogos da Montanha

Mãos vazias e coração em chamas

12 de maio de 202618min
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Amar a Deus de todo o coração não é apenas um mandamento. É uma resposta.Mas como amar a Deus concretamente, no meio da fragilidade, da rotina, das distrações, da pobreza interior e das próprias quedas?Santa Teresinha descobriu um caminho surpreendente: não esperar tornar-se grande para amar. Não esperar sentir fervor constante. Não esperar a perfeição. Amar agora. Nas pequenas coisas. No escondimento. Com as mãos vazias… mas com o coração em chamas.santa teresinha, santa teresa de lisieux, pequena via, como amar a deus, amar a deus de todo o coração, vida espiritual, espiritualidade católica, oração, contemplação, são joão da cruz, santa teresa de jesus, misericórdia de Deus, abandono em Deus, amor de Deus, santidade, vida interior, fé católica, sofrimento cristão, carmelo, espiritualidade carmelitaNeste episódio, percorremos a espiritualidade da Pequena Via à luz de Santa Teresinha, Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz, mergulhando numa verdade que transforma toda a vida interior: Deus não deseja apenas ser obedecido — Ele deseja ser amado.E talvez a santidade comece exatamente aqui:quando a alma, tocada pela misericórdia, já não quer apenas receber o Amor… mas começar finalmente a responder a Ele.
Participantes neste episódio1
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Assuntos5
  • Amor próprio e de DeusResposta ao mandamento · Amor em meio à fragilidade · Pequena Via de Santa Teresinha · Amor apaixonado por Deus · Reciprocidade no amor divino
  • Ação Divina e FéPequena Via · Ato de oferecimento ao amor misericordioso · Amor nas pequenas coisas · Santidade na pequenez · Humildade e pobreza interior
  • Justiça Divina e MisericórdiaHomem como canal da graça · Desejo de amar a Deus · Primeiro mandamento · Deus deseja reciprocidade · Deus se deixa ferir pelo amor
  • Oracao EspiritualPermanecer diante de Deus · Mãos vazias e coração em chamas · Oração como receptividade · Responder ao amor com amor · Sofrimento redentor de Cristo
  • Provisão diária de DeusAmor nas pequenas coisas · Valor eterno do cotidiano · Oferecer até as dificuldades · Usar tudo para amar · Santidade como resposta ao amor
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Olá, meu irmão, minha irmã. Sejam bem-vindos a mais um podcast, a mais um episódio da nossa podcast Diálogos da Montanha. Se o conteúdo tem te ajudado, se você tem gostado, compartilhe com alguém. Compartilhe com alguém que você acha que essa mensagem pode ajudar, pode trazer algum benefício. Nos ajude a evangelizar.

Muitas vezes aquilo que podemos fazer é simples. Nada é pequeno quanto feito com amor. Mas, dito isso, vamos lá para a nossa reflexão dessa semana. Outro dia eu me deparei com uma frase de Santa Teresinha que me chamou a atenção. Eu já a conhecia, ela...

Ela está no ato de oferecimento ao amor misericordioso. E eu já conheci a frase, já li, já passei por ela várias vezes, mas eu acho que eu ainda não havia meditado propriamente sobre aquelas palavras com profundidade. A primeira vista pode parecer uma frase simples demais, mas ela carrega a profundidade de uma vida espiritual inteira.

Trezinha escreve assim, no início do seu ato de oferecimento. Ó meu Deus, trindade bem-aventurada, desejo amar-vos e fazer-vos amado. Ó meu Deus, trindade bem-aventurada, desejo amar-vos e fazer-vos amado. Essa frase poderia ser lida apenas como uma frase piedosa.

Poderia ser uma frase que passaria batido, como muitas vezes acontece. Mas não. Ela não é apenas uma frase piedosa. Trata-se de um programa de vida. E talvez também uma correção necessária para certa forma empobrecida de viver o cristianismo a qual estamos imersos hoje em dia.

porque muitas vezes fala-se da fé como se o homem só pudesse receber. Como se toda a vida cristã consistisse apenas em acolher a misericórdia de Deus e transmiti-la aos outros. Deus ama, nós recebemos. Deus dá, nós repassamos.

Algo como se o homem fosse uma espécie de canal, um instrumento neutro, por onde a graça passa. Mas o coração humano, meus irmãos, não foi criado apenas para ser atravessado pelo amor. Ele foi criado para amar.

Há uma tendência moderna e até teológica de suspeitar do amor do homem por Deus. Como se desejar amar muito a Deus fosse algo perigoso, excessivo, quase pouco evangélico. Como se a única forma legítima de amor fosse amar o próximo. E, no entanto, o primeiro mandamento continua sendo o mesmo.

Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, com todas as tuas forças. Não somos apenas transmissores da misericórdia divina. Nós somos filhos. E o filho não apenas recebe o amor, ele responde ao amor. É isso que nossa pequena Teresa de Lisier compreendeu com uma intensidade impressionante.

Ela nunca teve vergonha de desejar amar a Deus apaixonadamente. Nunca teve medo de querer agradá-lo, de consolá-lo, de oferecer-se inteiramente. Isso porque ela compreendeu algo essencial. Deus não nos ama como uma força impessoal ama o universo. Deus deseja reciprocidade.

Ele quer ser amado. São João da Cruz dizia algo profundamente audacioso. Ele diz assim que Deus se deixa ferir pelo amor da criatura. Basta um olhar da alma, dizia ele comentando o cântico dos cânticos, para que o coração de Deus delire de amor.

Essa linguagem pode soar exagerada aos ouvidos modernos, tão acostumados a pensar Deus apenas em termos abstratos. Mas a Escritura inteira está atravessada por essa lógica da aliança, da amizade, da intimidade.

O Deus bíblico não é apenas o absoluto distante. Ele é o esposo, é o pai, é o amigo. E aqui aparece um ponto muito belo e muito importante da vida espiritual. Existem momentos em que amar a Deus significa deixar-se amar por Ele, permanecer diante dEle como terra seca esperando a chuva.

como alguém de mãos vazias, consciente da própria pobreza, apenas acolhendo. Terezinha entendeu e viveu isso, meus irmãos, com profundidade. Ela dizia que o mérito não consiste em fazer muito ou dar muito, mas em receber muito.

Isso parece escandaloso para a lógica dos dias de hoje, que é tão baseada no desempenho. Trezinha havia compreendido algo central. Recusar-se a receber o amor de Deus pode ser uma forma sutil de orgulho, porque há almas que preferem conquistar do que depender.

Só que o Evangelho, ele começa exatamente no contrário. Tudo começa pela graça. Tudo começa por Deus inclinando-se sobre a miséria humana, não para humilhá-la, mas para enchê-la de sua própria vida. Por isso Tereza se coloca diante de Deus com as mãos vazias. Não porque não deseje amar, mas porque compreende que só poderá amar e primeiro for inundada pelo amor.

E aqui aparece o primeiro movimento profundo da vida espiritual. Abrir-se. Deixar Deus agir. Permitir que Ele entre. Permitir que Ele ame em nós. Há momentos em que a oração é exatamente isso. Não fazer nada além de permanecer.

como alguém sentado ao lado de uma fonte, deixando-se lentamente atravessar pela água. São João da Cruz descreve isso como a alma que se torna receptiva à invasão de Deus. Santa Teresa de Jesus fala dessa oração em que já não somos nós que sustentamos a relação. É Deus quem conduz tudo. Mas seria um erro parar aqui.

Porque existe um segundo movimento, igualmente verdadeiro e igualmente necessário. O desejo de responder ao amor com amor. E talvez aqui seja um dos traços mais ardentes, mais vibrantes da espiritualidade de Terezinha. Ela não quer apenas ser amada. Ela quer amar. Ela quer dar algo a Deus. Ela quer consolar o coração de Cristo.

Quer fazer loucuras por ele. É impressionante perceber como isso atravessa toda a sua vida. Ela deseja sofrer por Cristo, deseja salvar almas, deseja não deixar escapar o menor sacrifício. Deseja aproveitar até as menores coisas com uma expressão concreta de amor. E aqui é muito importante compreender.

Isso não nasce de culpa, nem de voluntarismo, nem de uma tentativa de comprar Deus. Nasce da experiência de ter sido amada até o extremo. Só ama, sim, quem primeiro se descobriu amado assim. Por isso, Teresa oscila continuamente entre esses dois movimentos.

Ora ela quer desaparecer em Deus como uma gota no oceano, ora quer oferecer tudo a ele como uma esposa que deseja responder ao amor do esposo.

E esses dois movimentos não se contradizem. Eles se completam. Porque o amor verdadeiro sempre faz duas coisas. Recebe e se entrega. Recebe e se entrega. A alma respira espiritualmente assim. Inspirando Deus. Inspirando amor. Inspirando Deus. Inspirando amor.

E talvez uma das partes mais belas dessa espiritualidade seja a maneira como Teresa vive a pequenez. Ela sabe que não fará grandes penitências, sabe que não realizará obras espetaculares. Ela sabe que sua vida será escondida, mas isso não diminui a intensidade do seu amor. Pelo contrário.

Ela descobre que o amor não depende da grandeza exterior do ato, mas da profundidade interior com que ele é oferecido. Apanhar um alfinete por amor pode salvar uma alma. Essa frase resume uma revolução espiritual inteira, porque ela devolve peso eterno ao cotidiano. Um pequeno gesto.

uma paciência silenciosa, uma humilhação suportada sem endurecer o coração, um esforço escondido, uma tristeza atravessada com confiança. Tudo pode se tornar amor.

Isso, meus queridos irmãos, muda completamente a forma de viver, porque já não existem momentos neutros, entre aspas. Tudo pode ser oferecido, tudo pode ser amado, tudo pode ser transformado em resposta, até mesmo as humilhações. E aqui Terezinha é de uma lucidez impressionante.

Há momentos em que a humilhação aproxima a alma de Deus porque a faz experimentar sua pobreza real. E isso, paradoxalmente, ela traz paz. Porque a alma deixa de se apoiar na própria imagem e volta a apoiar-se apenas na misericórdia.

Porque há também momentos em que a humilhação dói profundamente. Quando o amor próprio grita. Quando a sensibilidade se revolta. Quando tudo dentro de nós quer fugir. E Teresinha diz, então ofereça isso também. Ofereça até mesmo sua dificuldade de amar. Ofereça sua incapacidade. Ofereça sua pobreza.

Isso é profundamente libertador, meus irmãos, porque significa que nada precisa ser desperdiçado, nem mesmo aquilo que há de mais frágil em nós. E talvez aqui esteja um dos pontos mais profundos da sua espiritualidade. Ela realmente usa tudo para amar. Quando ela sente fervor, ama. Quando ela sente aridez, ela ama.

Quando ela consegue rezar, ela ama. Quando só consegue permanecer em silêncio, ela ama. Quando sente alegria, ela oferece. Quando sente tristeza, ela oferece também. Tudo se torna matéria de comunhão. Tudo se torna possibilidade de união com Cristo. E isso nos conduz, inevitavelmente, à cruz.

porque chega um momento em que amar a Deus deixa de ser apenas experimentar consolo espiritual e passa a significar permanecer com Cristo no lugar onde ele mais amou, o Calvário. São João da Cruz dizia que o ápice do amor não está nos êxtases, mas na conformidade com o Cristo crucificado.

E Teresinha entra exatamente aí. Ela compreende que amar é também aceitar unir-se ao sofrimento redentor de Cristo. Não de forma teatral, mas concreta, silenciosa, cotidiana.

Há um momento em que a alma deixa de se perguntar apenas, como posso sentir mais Deus? E começa a perguntar, como posso amar mais?

E essa é a mudança que transforma tudo. Porque a vida espiritual deixa de girar ao redor da própria experiência. E começa a girar ao redor de Cristo. No fim, talvez seja isso que Terezinha nos ensine com tanta força. A experiência cristã não é apenas acolher o amor de Deus. É deixar-se incendiar por Ele, a ponto de desejar responder.

Com as mãos vazias, sim, mas com o coração em chamas. Porque existe um momento em que a alma percebe algo definitivo. Deus não espera perfeição antes de amar. Ele ama primeiro.

E é exatamente esse amor que começa, pouco a pouco, a transformar tudo. Transforma a oração cansada. Transforma a aridez. Transforma as pequenas renúncias escondidas. Transforma até aquilo que parecia inútil. Nada mais é pequeno quando é vivido no amor. Nada mais é estéreo quando é unido a Cristo.

Então a vida espiritual deixa de ser uma tentativa angustiada de chegar até Deus para se tornar uma resposta apaixonada àquele que já veio ao nosso encontro.

Talvez seja por isso que Teresinha nunca separa a confiança da generosidade. Quanto mais ela descobre que tudo é graça, mais ela deseja amar. Quanto mais ela se percebe pequena, mais ela quer entregar. Quanto mais ela experimenta a misericórdia, mais ela deseja consolar o coração de Cristo e fazê-lo amado no mundo.

E isso muda, meus queridos, completamente a forma de viver. Porque já não se trata apenas de, entre aspas, aguentar a vida cristã esperando o céu. Trata-se de amar agora, aqui, nas pequenas coisas, no escondimento, na monotonia dos dias, na luta interior que ninguém vê, na fidelidade silenciosa, no sacrifício oferecido sem aplausos.

É aí que o fogo do amor de Deus começa a consumir lentamente a alma. Talvez, no fim das contas, a santidade seja exatamente isso. Uma vida tão tocada pela misericórdia que já não consegue parar de responder ao amor com amor.

Que Deus te abençoe, meu irmão e minha irmã. Nos encontramos em nosso próximo episódio.

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